Tesouro n.º 163 · Volume III

PADRE (O) PRETE (IL)

20 seções · 142 parágrafos · pp. 1940–1992 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE SIGNIFICA A PALAVRA PADRE

A palavra padre, presbyter, não é senão a reprodução de um vocábulo grego que, traduzido literalmente, diria em latim senior, em italiano seniore ou magnate. Voz equivalente à de padre é o vocábulo sacerdote, sacerdos, que São Tomás (III, q. 22, a.) deriva de sacrum dos, porque é ofício dos padres, ou sacerdotes, administrar aos fiéis as coisas sagradas; outros o fazem derivar de sacra dos, porque o sacerdote é algo inteiramente consagrado a Deus. Honório de Autun (In Iosue, lib. III; c. 4) quer deduzir-lhe a etimologia de praebens iter, como se quisesse dizer aquele que indica ao povo o caminho do exílio da terra à pátria do céu… ― Pastor, pastor, vem do verbo pascere: ― Pastor a pascendo dicitur. ― O bispo ― Episcopus (vigilante) ― é assim chamado, segundo São João Crisóstomo, porque sua missão é supervisionar todos e observar tudo (Homil. XL).

2. DIGNIDADE DO PADRE

Os padres são chamados no Êxodo pelo nome de deuses: «Não falarás mal dos deuses» (Ex 22, 28); e aos sacerdotes alude certamente o Salmista quando diz: «Deus se levantou no meio da assembleia dos deuses» (Sl 81, 1). E como deuses os considerou o povo de Listra, cidade da Licaônia, quando, a propósito de São Paulo, exclamava: «Deuses feitos semelhantes aos homens desceram entre nós» (At 14, 10). E com razão, porque, como pregava o mesmo São Paulo, os sacerdotes são cooperadores de Deus (1Cor 3, 9). Que sublime dignidade é esta! E digna, portanto, de que Cassiano exclamasse: «Ó sacerdote de Deus, se contemplas a altura dos céus, tu és mais elevado; se consideras a grandeza dos reis, tu és maior; a ninguém és inferior senão a Deus, teu criador (1)».

«Quem diz padre diz, segundo o juízo de São Dionísio, homem inteiramente divino, porque revestido de autoridade mais que angélica, divina (2)»; e, sendo seu ofício, segundo Santo Ambrósio, coisa divina, confere-lhe tal dignidade que não há outra mais sublime na terra (3)»; de modo que, com toda a razão, Santo Inácio mártir chama o sacerdócio «o ápice, o cume de todas as coisas» (Epl. ad Smirn.).

«Quanto mais nobre que o corpo é a alma, tanto mais sublime que as soberanias temporais é o sacerdócio», escreve São Clemente (4); com efeito, segundo São Cirilo, os sacerdotes são uma raça eleita, consagrada às funções divinas (De Adorat., 1. XIII); segundo o Papa Inocêncio III, o padre ocupa o lugar intermediário entre Deus e o homem: inferior àquele, superior a este (5); o ministério sacerdotal, embora seja exercido sobre a terra, deve, contudo, ser colocado entre as coisas celestes (6). A essas vozes une-se a de Santo Efrém, o qual, pelo fato de o padre tratar familiarmente com Deus, vê na dignidade sacerdotal um dom que supera toda imaginação, um milagre estupendo, uma honra infinita, imensa (7).

Embaixador de Deus, o sacerdote intercede pelo mundo inteiro junto de Deus; por isso conclui o Crisóstomo que aquele que honra o padre honra Jesus Cristo; quem ultraja o padre ofende Jesus Cristo (8). Isso mesmo havia dito o Redentor com aquela sentença: «Quem vos escuta, escuta a mim; quem vos despreza, despreza a mim» (Lc 10, 16).

Se já aos sacerdotes da antiga lei Isaías fazia notar a suma honra que lhes vinha de serem chamados sacerdotes do Senhor, ministros de Deus (Is 61, 6); que se deve dizer da dignidade dos padres cristãos, vigários de Jesus Cristo, que fazem as vezes dele (9); dispensadores dos bens celestes na casa de Deus e associados do próprio Deus? (10). Com razão São Bernardo exclama: «Ó sacerdotes, considerai que Deus vos colocou acima dos reis e dos imperadores, e até mesmo dos Anjos (11)»; e Santo Ambrósio acrescenta que é mais adequada a comparação entre o chumbo e o ouro do que entre os reis e os sacerdotes, tamanha é a excelência da dignidade sacerdotal sobre a real (12). São Dionísio Areopagita chama «sobremaneira grande, angélica, ou melhor, divina, esta dignidade do padre: ser cooperador de Deus na conversão das almas e mostrar publicamente essa operação divina (13)».

Aos padres, mais especialmente que aos leigos, convém o nome de filhos de Deus, tanto porque lhe são particularmente consagrados para pertencer à sua família, quanto porque têm obrigação mais estreita de se conservarem sempre justos e santos, para oferecer a cada instante sacrifícios e orações pelo povo…

O sacerdote é chamado por Miqueias «o Anjo do Senhor dos exércitos» ― Angelus Domini exercituum est (Mq 2, 7). O padre é o Anjo de Deus: 1° porque é o enviado de Deus aos homens. Tertuliano observa que Deus costuma chamar pelo nome de Anjos aqueles que, de algum modo, constitui ministros de seu poder (14). 2° Os padres estão prontos às ordens do Senhor, como os Anjos. 3° Os anjos estão continuamente na presença de Deus, louvam-no, cantam-lhe hinos, servem-no, e o mesmo fazem os sacerdotes em razão de seu ministério. 4° O padre é um Anjo por sua consagração. Por isso lemos que São Francisco de Assis não hesitava em afirmar que «se lhe acontecesse encontrar um Anjo e um padre, deixando de lado o Anjo, correria ao sacerdote, porque este consagra o corpo de Cristo e nos administra o pão da vida (15)».

«Sublime é a dignidade dos sacerdotes, exclama São Jerônimo, mas terrível é a sua ruína se pecam; alegremo-nos com a sua exaltação, mas temamos a sua queda (16).» «Que é uma dignidade tão grande confiada a ombros indignos, diz Salviano, senão uma gema enterrada no lodo? (17)» «Que a conduta, concluamos com Santo Ambrósio, corresponda, pois, à dignidade, para que, sob o brilho de uma honra insigne, não se esconda o fedor de uma vida infame; para que uma condição divina não seja maculada por ações vergonhosas: que os atos estejam em harmonia com o nome, a fim de que o nome não seja vão, e a culpa, gravíssima (18).»

3. PODER DO SACERDOTE

Do sacerdote cristão foram ditas aquelas palavras do Senhor: «Pus o meu auxílio num homem forte e elevei o meu eleito no meio do povo. Encontrei o meu servo e o consagrei com a unção da minha santidade. A minha mão lhe servirá de apoio e o meu braço será a sua força. Abaterei diante dele os seus inimigos e porei em fuga aqueles que o olham com maus olhos. A minha misericórdia e a minha verdade o seguirão, e o seu poder crescerá em meu nome» (Sl 88, 20-25). Eis como, com efeito, Jesus Cristo fala aos seus Apóstolos, no momento de investi-los da sua missão: «Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra; e com a autoridade com que o Pai me enviou ao mundo, eu vos envio. Ide, pois, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei; e tende por certo que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos» (Mt 27,18-20; Jo 20, 21).

Emblema e profecia do poder sacerdotal foram José e Moisés. A respeito daquele está escrito que foi chamado Salvador do mundo (Gn 41, 45); e o Faraó lhe disse: «Tu governarás a minha casa, e de tuas ordens dependerá todo o povo» (Ib. 40). Quando, depois, o povo, apertado pela fome, se voltou para pedir pão ao Faraó, este respondeu: «Ide a José e fazei tudo o que ele vos disser» (Ib. 55). Tudo isso se repete, em sentido mais sublime e não menos verdadeiro, no sacerdote católico. A este Jesus Cristo diz, como outrora Deus a Moisés: «Vem, para que eu te envie… e eu estarei contigo. Eu te escolhi para manifestar por teu intermédio o meu poder» (Ex 3, 10, 12; 9, 16). Mas sê homem forte, valente nas batalhas do Senhor (1Sm 18,17. Saul a Davi).

Na ordenação de cada novo sacerdote, o Bispo, qual novo Moisés, diz ao Deus dos espíritos de toda carne que providencie um homem que vele pelo povo cristão, que possa sair diante dele e entrar, e fazê-lo sair e entrar, para que o povo do Senhor não seja como um rebanho sem pastor (Nm 27, 16-17). E o Senhor, estendendo a sua onipotente mão direita protetora sobre o novo sacerdote e tocando-lhe os lábios, diz-lhe, como outrora a Jeremias: «Eis que pus as minhas palavras em tua boca; eis que hoje te estabeleci sobre as nações e sobre os reinos, para que arranques e destruas, dissipes e disperses, edifiques e plantes» (Jr 1, 9-10).

Sim, em sua ordenação, o sacerdote recebeu um poder maior que o dos Anjos; e este seu poder manifesta-se primeiramente no altar.

«Ó poder infinito! exclama São Lourenço Justiniano. Ao aceno do sacerdote, o pão se transforma no corpo de Jesus Cristo; o Verbo desce do céu, faz-se carne e encontra-se sobre o altar! Este poder concedido aos sacerdotes é um favor que jamais foi concedido aos Anjos. Estes formam a corte de Deus; aqueles o tocam com as mãos, dão-no aos outros e recebem-no em si mesmos (19).» «Ó venerável santidade das mãos! continua Santo Agostinho; ó função bem-aventurada! Aquele que me criou deu-me o poder de criá-lo; e aquele que me fez sem mim criou a si mesmo por meio de mim! (20)»

«A um aceno de Deus, escreve São Jerônimo, apareceram os céus e a terra saiu do nada; semelhante poder vemos nas palavras sacramentais (21).» Isso levou São Bernardo a dizer que o poder dos sacerdotes é semelhante ao poder das pessoas divinas, pois tanta virtude é necessária na transubstanciação do pão quanta foi necessária para a criação do mundo (22). Digamos, pois, com Santo Agostinho: «Ó veneranda dignidade dos sacerdotes, em cujas mãos o Filho de Deus se encarna como no seio de Maria! (23)»

O maravilhoso poder do sacerdote manifesta-se, em segundo lugar, no tribunal da penitência. O grande Apóstolo diz que «Jesus Cristo confiou aos seus Apóstolos o ministério da reconciliação e pôs em sua boca a palavra do perdão e da absolvição» (2Cor 5, 18-19). Com efeito, lemos em São Mateus que um dia o Salvador disse ao chefe da sua Igreja: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. A ti entregarei as chaves do reino dos céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no céu; e tudo o que desligares na terra será desligado no céu» (Mt 16, 18-19). E, para que não se julgasse que esta fosse uma prerrogativa exclusiva de Pedro, mas se visse que ela faz parte do poder sacerdotal, tendo aparecido depois da sua ressurreição no meio dos discípulos, disse-lhes: «A paz esteja convosco. Como meu Pai me enviou, assim também eu vos envio. Dito isso, soprou sobre todos eles e acrescentou: Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, serão retidos» (Jo 20, 21-23). Quem não vê aqui claramente estabelecido o sacramento da penitência e investidos, na pessoa dos discípulos, os sacerdotes do poder de perdoar os pecados?

Os judeus diziam a verdade quando perguntavam: «Quem pode perdoar os pecados, senão Deus somente?» (Lc 5, 21). Ora, o sacerdote perdoa os pecados; portanto, ele é como um Deus, ocupa o lugar de Deus, possui o poder de Deus e pode ser chamado, com Clemente de Alexandria: «O Deus da terra, depois de Deus» (Const. Ap. 1. 2, CXXVI). O sacerdote liga e desliga as consciências, abre e fecha o céu! Ó poder inaudito e sobre-humano! Digno, verdadeiramente, de que os santos Padres rivalizem em elogiá-lo e exaltá-lo. Poder inefável, pelo qual os sacerdotes, segundo São Bernardo, se tornam pais de Jesus Cristo: (Serm. ad Pastor. in Synod.). E, na verdade, nossos pais, observa o Crisóstomo, geram-nos para a vida presente, e uma só vez; ao passo que os sacerdotes nos geram para a vida eterna, isto é, geram Jesus Cristo em nós cada vez que, pela absolvição, nos restituem à graça de Deus (24).

Nossos pais nos geram para a vida presente, e uma só vez; ao passo que os sacerdotes nos geram para a vida eterna, isto é, geram Jesus Cristo em nós cada vez que, pela absolvição, nos restituem à graça de Deus (São João Crisóstomo, De Sacerd. c. V).

Neste sentido se entende o que afirma Santo Agostinho: que Deus associou os sacerdotes à obra mais maravilhosa que sua onipotência pode realizar; pois empreendimento maior, mais difícil e mais estupendo é converter um ímpio em justo do que criar novos céus e novas terras (25). «Que inefável condescendência foi esta da parte de Deus! exclama aqui Pedro de Blois. Aquele que, na obra da criação, não quis ter quem o ajudasse, no mistério da redenção digna-se comunicar o seu poder aos homens, para que sejam seus cooperadores (26).» Mais ainda, como diz São Pedro Damião, «a sentença do sacerdote reconciliador precede a sentença do Redentor; e o Senhor, na obra, vai atrás de seu servo (27)».

«Que é o poder dos reis em comparação com o dos sacerdotes? diz o Crisóstomo. Os príncipes da terra têm o poder de acorrentar, mas somente os corpos; ao passo que os sacerdotes podem ligar as próprias almas (28).» Que mais? A própria Virgem, a Mãe de Deus, sob este aspecto, cede o lugar aos sacerdotes; «com efeito, embora a beatíssima Virgem fosse mais excelente que os Apóstolos, diz o Papa Inocêncio III, todavia não a ela, mas a eles Jesus Cristo confiou as chaves do reino dos céus (29)». Por isso, São Bernardino de Sena assim fala a Maria: «Perdoai-me (ó bem-aventurada Virgem), se eu, não para falar contra vós, mas para dizer a verdade, digo que o sacerdócio foi anteposto a vós (30)».

POTÊNCIA DO SACERDOTE. ― São Bernardino de Sena assim fala à Santíssima Virgem Maria: «Perdoai-me (ó bem-aventurada Virgem), se eu, não para falar contra vós, mas para dizer a verdade, afirmo que o sacerdócio foi colocado acima de vós (Serm. XX. art. 2)».

Em terceiro lugar, o poder do sacerdote católico manifesta-se no ministério da pregação evangélica: «Ide, disse Jesus aos Apóstolos, e ensinai todas as nações» (Mt 26,11, 19). «Quem vos dá ouvidos, dá ouvidos a mim; quem vos despreza, despreza a mim» (Lc 10,16). Por isso, São Paulo dizia de si mesmo aos Efésios: «A mim, o último dos Santos, foi dada a graça de evangelizar os gentios acerca das riquezas incompreensíveis de Jesus Cristo» (Ef 3,8); e eu as prego, anuncio e proclamo, para iluminar, purificar e aperfeiçoar os Santos pela obra do ministério (Id. 4,12). Aos Coríntios escrevia, por sua vez, que eles, os Apóstolos, eram os Legados de Jesus Cristo, por cuja boca era o próprio Deus quem os exortava (2Cor 5,20); e as armas com que combatiam não as tinham da carne, mas do poder de Deus, para destruir as armas do século, confundir os raciocínios do mundo, humilhar toda altura que se ergue contra a ciência de Deus e cativar, pela palavra, todo entendimento ao jugo de Cristo (Id. 10,4-5).

Estas armas são, segundo São Anselmo: 1º a virtude do espírito de zelo…; 2º a eficácia da pregação…; 3º a sabedoria…; 4º a santidade…; 5º os milagres…; 6º a oração…; 7º a imitação sincera…; 8º a paciência…; 9º a caridade… Os Apóstolos e os sacerdotes, por meio de todas estas qualidades, golpeiam, como com uma arma onipotente, as consciências, ferem-nas e traspassam-nas; e elas cedem, dão crédito às suas palavras, à sua doutrina e aos seus ensinamentos. Com tais armas triunfam sobre o vício, o inferno e o mundo inteiro (Menolog.).

Lê-se na Sagrada Escritura (Jz 7,20) que os soldados de Gedeão, sem se moverem do lugar em torno do campo dos inimigos, lançaram nele o espanto e a confusão; pois, quebrando de repente os vasos de argila em que mantinham escondidas lâmpadas acesas, ergueram-nas ao alto com a mão esquerda, enquanto tocavam as trombetas que seguravam com a direita, e gritaram a uma só voz: A espada do Senhor e de Gedeão. Bela figura do poder da palavra sacerdotal! Ela é luz, trombeta e espada: sem que o homem lhe acrescente coisa alguma de seu, ela, por si só, atemoriza, abate e derruba os inimigos do Senhor. «Deus dá aos seus sacerdotes o poder de ensinar a Jacó os seus preceitos, a sua vontade, a sua aliança e os seus juízos, e concede a Israel a luz», diz o Eclesiástico (Eclo 45,21).

4. SERVIÇOS INUMERÁVEIS QUE PRESTA O SACERDOTE

Deus havia prometido, na antiga lei, que encheria da sua abundância a alma dos sacerdotes e que o seu povo seria repleto dos dons celestes (Jr 31,14). Esta promessa, se alguma vez foi cumprida exata e abundantemente, foi precisamente no sacerdote católico. Este é, para os indivíduos, para as famílias, para as nações, para o bem e para a felicidade do mundo, aquilo que é a nuvem para a chuva, o sol para o universo, o piloto para o navio… O sacerdote é o homem da paz, da caridade e da bênção. Bênção com as suas orações, com as suas esmolas, com os seus ensinamentos e com todos os atos do seu ministério.

Os sacerdotes são lavradores dedicados ao cultivo do povo, que é a vinha do Senhor (CHRYSOST. Hom. XL, in II Matth.). São colunas que mantêm de pé o mundo vacilante (EUCHER. Hom. III); são os capitães do exército do Senhor (De dignit. sacerd. PETRUS DAMIANI); os guardiões da esposa (S. BERNARD. Serm. ad Cleric.); os salvadores do mundo (HIERONYM. in Abdiam. l. XXVIII). Com toda razão, portanto, São Clemente nos exorta a honrar os sacerdotes, mestres do bem viver (31); e Salviano afirma «que não há pessoa mais digna de honra do que o sacerdote, porque nele está toda esperança e salvação (32), tanto que sem ele ninguém pode chegar à salvação, diz o Crisóstomo (33)».

O sacerdote é mediador entre Deus e o homem; está entre o céu e a terra; do céu faz descer os bens sobre a terra, e da terra leva ao céu as orações e os votos dos homens a Deus; aplaca a cólera divina; arranca os pecadores das mãos da justiça divina, obtendo para eles misericórdia. Abre o céu, fecha o inferno, salva as almas; é o sustentáculo do trono, o vínculo da sociedade, o lustre das famílias, o protetor da viúva, o pai do órfão, o consolador dos aflitos, o amparo dos fracos, a providência do indigente, o propagador das virtudes, o destruidor do vício e das paixões inimigas dos homens, o benfeitor perpétuo e universal do mundo inteiro. Retirai o sacerdote com os seus benefícios, e tudo caminha para o pior e para a ruína. Sem sacerdotes não há ordens religiosas, nem congregações, nem sacramentos, nem fiéis, nem Santos, nem Igreja, nem paraíso. «Os sacerdotes, diz São Próspero, são o ornamento da Igreja, as colunas firmíssimas e as portas da cidade eterna, pelas quais todos os homens entram em Jesus Cristo: são os porteiros a quem foram confiadas as chaves do reino dos céus; são os ministros da casa de Deus, que designam a cada um o seu próprio lugar (34)».

Do sacerdote pode-se dizer, como de Elias, que está destinado a aplacar a cólera divina, a reconciliar o pai com os filhos e a restabelecer as tribos de Jacó (Eclo 48,10). Portanto, aplica-se a ele o elogio que o Crisóstomo fazia do referido Profeta (35): «Elias está acima do mundo, próximo do céu, habita a montanha e conversa familiarmente com Deus. É mediador entre Deus e o povo. Mantém-se justo entre os culpados, santo entre os pecadores, piedoso entre os profanos, para assumir a defesa e o patrocínio de todos. Repreende o povo transviado, suplica a Deus e aplaca a sua indignação; reconduz ao bom caminho o povo que se afasta do culto de Deus e o conduz à alegria celeste. Une Deus ao homem e o homem a Deus. Por seu intermédio, restabelece-se a concórdia entre Deus e o homem, entre o Criador e a criatura».

Como Josias, o sacerdote é enviado do alto para fazer o povo entrar nos caminhos da penitência e afastar as abominações da impiedade (Eclo 49,3). Como Jeremias, o sacerdote tem por missão derrubar, despedaçar e destruir, e depois novamente edificar e renovar (Eclo 49,9). É enviado para destruir o reino de Satanás, exterminar o pecado, edificar o edifício da virtude e restaurar o novo Adão sobre as ruínas do antigo… O Senhor firmou com ele uma aliança de vida e de paz (Ml 2,4),

O sacerdote é, aos olhos de São Gregório Nazianzeno, o defensor da verdade; pertence à ordem e à sociedade dos Anjos; louva a Deus com os Arcanjos; exerce as funções sagradas em acordo com Jesus Cristo; repara as ruínas; restitui ao Criador, trabalhando como operário celeste, a sua imagem renovada e novamente embelezada; digo mais: é um deus que transforma os homens em deuses (In Distich.).

5. ZELO QUE DEVE TER O SACERDOTE

O sacerdote de Jesus Cristo deve ser tal pelo seu zelo, que possa dizer com toda a verdade, juntamente com o seu chefe e autor: «Eu sou o bom pastor, que dá a própria vida pelo bem das ovelhas. Quem vem a mim não terá mais fome, nem terá mais sede» (Jo 10,14, 16; Id. 6,35).

Oito são os deveres que, segundo o Evangelho, incumbem ao sacerdote e que constituem quase oito sinais pelos quais se reconhece o seu zelo: 1º ele deve entrar pela verdadeira porta, isto é, pela vocação de Jesus Cristo…; 2º a porta deve ser-lhe aberta pelo Espírito Santo…; 3º é preciso que as ovelhas possam ouvir a sua voz e obedecer-lhe…; 4º exige-se que conheça todas elas…; 5º está obrigado a apascentá-las…; 6º deve caminhar à frente delas…; 7º convém que possam segui-lo com segurança e tranquilidade…; 8º deve expor a própria vida, se isso for útil à salvação delas. O bom sacerdote cumpre tudo isso. Assim era São João Crisóstomo, que, no momento de partir para o exílio, em um discurso comovente que proferiu ao povo, disse, entre outras coisas: «Vós sois para mim pai e mãe, vós sois a minha vida, a minha felicidade. Se eu souber que avançais na perfeição, sentirei grande alegria. Vós sois a minha coroa e as minhas riquezas; em vós está depositado o meu tesouro. Estou pronto a imolar-me mil vezes por vós, e isto, da minha parte, não é somente um ato de caridade, mas o cumprimento de um dever; porque o bom pastor é obrigado a sacrificar a sua vida pelas ovelhas, e tal morte gera a imortalidade (36)».

«Eu sou a porta, disse de si mesmo Jesus Cristo. Quem entrar por mim será salvo; ele sairá e entrará e encontrará pastagem» (Jo 10,9). Tal é o sacerdote zeloso… «Ele entrará, comenta Santo Agostinho, isto é, penetrará em Deus e em si mesmo, por meio de uma profunda meditação; depois sairá para exercer o seu zelo e trabalhar pela salvação das almas (37).» «Eles entrarão e sairão e encontrarão pastagens abundantes, observa São Gregório; porque encontram em sua alma a pastagem da contemplação e, exteriormente, a pastagem das boas obras; interiormente alimentam-se de virtudes, exteriormente alimentam a si mesmos e aos outros com piedosas ações (38)».

O sacerdote zeloso comporta-se como o pastor fiel: 1º Este conhece uma por uma as suas ovelhas e cuida delas; aquele conhece todas as almas que lhe estão confiadas, ocupa-se delas, instrui-as, adverte-as, dirige-as… 2º O pastor conduz o rebanho às pastagens que conhece como mais abundantes; o sacerdote zeloso esforça-se por fazer o mesmo… 3º O pastor vigia contra os lobos e mantém-nos afastados do redil; não é menos atento o sacerdote zeloso para afastar do povo os hereges, os ímpios, os escandalosos… 4º O pastor cuida de modo especial das ovelhas doentes e empenha-se em curá-las; reconduz aquela que se desgarrara; assim também procede o sacerdote zeloso… 5º O verdadeiro pastor imita Jacó, que dizia: «De dia e de noite eu estava exposto ao calor e ao frio, e não fechava as pálpebras ao sono» (Gn 31,40). E os primeiros a quem apareceu o Anjo anunciador do nascimento do Messias eram pastores que vigiavam durante a noite os seus rebanhos (Lc 2,8-11)… 6º Para guardar e preservar as suas ovelhas dos perigos, o bom pastor põe em risco até a própria vida: eis a conduta do sacerdote zeloso, que tem sempre diante de si estas palavras de São Pedro: «Apascentai o povo de Deus que vos foi confiado, velando não por necessidade, mas espontaneamente segundo Deus; não por avidez de lucro vergonhoso, mas por dedicação; não como senhores do clero, mas fazendo-vos de todo o coração modelo do rebanho» (1Pd 5,2-3).

A caridade deve ser a primeira virtude, o mais precioso ornamento de um sacerdote de Jesus Cristo. «Tu me amas?», perguntou o Salvador a Pedro. Sim, ó Senhor, vós bem sabeis que eu vos amo. Se é assim, retomou Jesus, prova-o apascentando os meus cordeiros (Jo 21,15). Notai que três vezes Jesus dirigiu a mesma pergunta a Pedro, e três vezes Pedro deu a mesma resposta. Esta resposta também deu com os fatos o Apóstolo Paulo, que podia escrever de si mesmo: «Estando eu livre de qualquer vínculo para com quem quer que fosse, fiz-me escravo de todos, para ganhar muitos. Com os judeus comportei-me como judeu, para conduzir a Cristo os judeus; com aqueles que estão sujeitos à lei, procedi como se também eu estivesse sujeito a ela, embora eu não esteja sob a lei, para ganhar para o Cristianismo os súditos da lei; com aqueles que não pertenciam à lei, conduzi-me como se também eu não lhe pertencesse, quando, na verdade, não estava sem a lei de Deus, mas estava sujeito à lei de Cristo, para ganhar aqueles que estavam sem a lei. Fiz-me fraco com os fracos, tudo para todos, a fim de salvar a todos. E faço todas estas coisas por causa do Evangelho, para ter parte nele… Sim, eu corro, mas não ao acaso; combato, mas não inutilmente; antes, mortifico o meu corpo e o mantenho escravo (da razão e da lei de Jesus Cristo), para que, depois de ter pregado aos outros, não me aconteça ser eu condenado» (1Cor 9-27).

«O zelo, diz Santo Agostinho, é um efeito do amor; portanto, quem não tem zelo não tem amor; mas quem não ama está morto (39).» Por isso, assim como jamais houve alguém que tenha amado a Deus mais do que Jesus Cristo, assim também jamais houve alguém que tenha manifestado maior zelo por Deus e pelos homens do que Jesus Cristo. Ora, o que operava o zelo em Jesus Cristo? Ouvi-o do próprio Santo Agostinho: «Jesus Cristo fez-se tudo para todos: pobre com os pobres, rico com os ricos, aflito com os aflitos; padeceu fome com quem não tinha pão, sofreu sede com quem estava sedento, era abundante com quem abundava. Está no cárcere com o infeliz, chora com Maria, banqueteia com os Apóstolos, tem sede com a Samaritana (40).» Se o Supremo Pastor foi imolado como uma ovelha, aqueles que, escolhidos entre as ovelhas, se tornam pastores não devem temer ser imolados.

«Como são belos sobre as montanhas, exclama Isaías, os pés daquele que anuncia a paz e a felicidade, que proclama a salvação e diz a Sião: “O teu Deus reinará”» (Is 52,7). Aquilo que o Profeta admira nos pés dos Apóstolos, dos sacerdotes, é: 1º a sua rapidez…; 2º a sua força…; 3º a sua pureza…; 4º a sua formosura… Não é com armas e ameaças que os Apóstolos triunfam do mundo, mas com a suavidade da sua santa vida e da sua doutrina; nisto está o segredo com que transformam o coração dos povos e dos reis e os conduzem a Cristo; curam os surdos, os mudos, os cegos e os paralíticos. Portanto, a beleza dos pés indica o esplendor da esperança, da doutrina, da virtude, da piedade e do zelo. Para significar essas maravilhas, Jesus Cristo quis lavar os pés dos seus Apóstolos. Assim como a primavera faz germinar e florescer todas as plantas e ressuscita a natureza inteira, assim um sacerdote zeloso opera todos esses milagres nas almas.

Mas observemos ainda o quadro que São Paulo nos traçou do seu zelo, para gravarmos melhor na mente o retrato do verdadeiro Sacerdote de Cristo: «Eu me encontro, escrevia aos Coríntios, entre aflições, ferido, encarcerado, frequentemente com a espada na garganta; padeço fome, sede, penúria de todas as coisas, calor, frio, nudez; consumo-me em vigílias, angústias e jejuns; e, além dessas coisas exteriores, carrego o peso do cuidado cotidiano, da solicitude por toda a Igreja. Quem adoece sem que eu adoeça? Quem é escandalizado sem que eu me abrase de indignação e de pesar? … Ora, por que todos esses sofrimentos? Para vossa consolação e salvação… Nós somos a vossa glória, assim como vós sois a nossa» (2Cor 2,23-29; Ib. 1,6-14). «Além disso, os sinais do meu Apostolado manifestam-se por meio de uma paciente longanimidade, de milagres, de prodígios e de virtudes» (Ib. 12,12),

Ouvi também que ternos sentimentos nutre, que expressões afetuosas emprega quando se trata de alguma obra do seu ministério em favor dos fiéis: «Quanto a mim, dizia aos Coríntios, de muito boa vontade darei tudo o que é meu e até a mim mesmo pelas vossas almas; e isto vos digo diante de Deus, em Jesus Cristo» (2Cor 12,15.19). Aos sacerdotes de Éfeso recordava como jamais tivesse cessado, dia e noite, de admoestar cada um deles com lágrimas (At 20,31). Exortava Timóteo a pregar a palavra divina e a insistir a tempo e fora de tempo, a repreender, admoestar e conjurar com longanimidade e doutrina (2Tm 4,2). «Irmãos, escrevia aos Gálatas, se alguma pessoa se deixou enredar em alguma armadilha, vós que viveis segundo o espírito, reconduzi-a com mansidão, cuidando de vós mesmos, por temor de que também vós caiais em tentação» (Gl 6,1). Em outro lugar chamava os mesmos Gálatas de «seus filhinhos, que ele novamente gerava até que Cristo se formasse neles» (Ib. 4,19). A este propósito, São Bernardo, falando aos sacerdotes, faz-lhes esta exortação: «Aprendei a ser mães, não senhores daqueles que vos estão sujeitos; procurai ser amados, antes que temidos; e, se alguma vez houver necessidade de severidade, que ela seja paterna, não tirânica (41)».

Seria preciso que se pudesse aplicar a todo sacerdote de Jesus Cristo aquele elogio de Epafras, proferido pela própria boca de São Paulo: «E sempre cheio de solicitude por vós, para que persevereis na perfeição e cumprais em tudo a vontade de Deus» (Cl 4,12); e aquele outro, feito a Epafrodito: «Por causa da obra de Cristo correu grande perigo de morte, sacrificando a sua alma» (Fl 2,30); ou ainda o encômio que o Crisóstomo escreveu sobre o Apóstolo das gentes: «Paulo arrancava as ervas daninhas do pecado e semeava por toda parte a palavra da piedade; destruía o erro, estabelecia a verdade; fazia dos homens anjos, ou melhor, convertia em anjos até mesmo aqueles que se haviam tornado quase demônios. Paulo podia, com mais razão e em sentido mais nobre, aplicar a si aquele célebre mote de Júlio César: “Vim, vi, venci”; percorria o mundo inteiro e se empenhava em introduzir todos no reino de Deus, instruindo, prometendo, meditando, rezando, suplicando, amedrontando e pondo em fuga os demônios corruptores das almas; ora por meio de epístolas, ora pela presença, ora por discursos, ora por ações, ora por meio dos discípulos, ora por si mesmo, esforçava-se por reerguer os caídos e fortalecer os firmes (42)».

A todo sacerdote Deus diz, como o Apóstolo a Arquipo: «Cuida do ministério que recebeste do Senhor» (Cl 4,17); porque aquele que não trabalha na edificação da Igreja de Jesus Cristo, diz São Jerônimo, e não instrui o povo que lhe foi confiado, para fazer dele pedras adequadas à construção da Igreja, não merece ser chamado nem apóstolo, nem profeta, nem evangelista, nem pastor, nem mestre (43). Mas, se Deus exige de seus ministros fidelidade na distribuição dos mistérios que lhes foram confiados e zelo no trabalho, não exige, contudo, a cura dos doentes espirituais, nem pretende que o seu zelo seja sempre fecundo e abundante em frutos. Não se deixe, portanto, abater quando é pequena a messe que recolhe de sua semeadura; não abandone, desanimado, o trabalho, mas continue com maior vigor a obra do seu zelo. «Assim como as fontes de água, diz com bela comparação o Crisóstomo, não deixam de jorrar ainda que ninguém vá beber, e a fonte não cessa de brotar ainda que ninguém vá buscar água nela, assim o bispo e o pregador não devem desistir de anunciar a palavra de Deus, ainda que poucos a ouçam e dela tirem proveito (44).» O sacerdote deve poder dizer aos fiéis, com São Judas, que se empenha inteiramente, tanto quanto sabe e pode, em procurar a salvação deles (Jd 3); e, com São Paulo, que cuida de caminhar pela sua estrada, para alcançar o objetivo ao qual foi destinado por Cristo Jesus; que acredita tê-lo alcançado, mas que, entretanto, esquecendo tudo o que já fez, avança sempre mais, tendendo ao fim, à recompensa para a qual Deus o chama (Fl 3,12-14).

O sacerdote é, segundo a expressão de São Paulo, o delegado de Jesus Cristo, e por sua boca Deus fala, exortando os homens a se reconciliarem com ele (2Cor 5,20). Ora, esses títulos e ofícios lhes impõem o dever de se mostrarem em tudo como ministros de Deus, com grande paciência nas tribulações, nas angústias, nas necessidades, nas prisões, nas sedições, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na mansidão, no Espírito Santo, num amor não fingido, na palavra da verdade, na força de Deus, pelas armas da justiça à direita e à esquerda, na glória e na humilhação, na boa fama e na infâmia; tratados como sedutores, embora verídicos nas palavras; como desconhecidos, embora muito conhecidos; como moribundos, enquanto estão cheios de vida; como tristes, enquanto vivem na alegria; como pobres e nada tendo, enquanto possuem tudo e enriquecem a muitos (Ib. 4,4-10).

De Jesus Cristo, cabeça e modelo dos sacerdotes, escreveu o seu Vigário na terra que «passou fazendo o bem e curando todos os que o demônio mantinha oprimidos, porque Deus estava com ele» (At 10, 38). Do sacerdote Aarão lê-se que fez prodígios diante do povo e que, por isso, este creu e se convenceu de que o Senhor havia visitado os filhos de Israel e visto a sua aflição; e, prostrando-se por terra, adoraram-no (Ex 4, 30-31). À semelhança de Aarão, o sacerdote zeloso faz maravilhas; os povos dão fé às suas palavras, veem que Deus os visitou com a sua misericórdia por meio deste bom pastor e consagram-se ao serviço do Senhor. A exemplo de Judas Macabeu, o sacerdote ardente de zelo arma as almas não de lanças ou couraças, mas de palavras fortes e exortações (2Mc 15, 11); impele-as a combater vigorosamente e a permanecer firmes até a morte pela lei divina e pela Igreja (Ib. 13, 14).

É preciso que o sacerdote possa dizer com o Senhor, em Ezequiel: Eu, eu mesmo, procurarei as minhas ovelhas, visitá-las-ei e reuni-las-ei de todos os lugares em que haviam sido dispersas nos dias de trevas e de tempestade; conduzi-las-ei à sua terra (na virtude, na glória), levá-las-ei a pastar nas montanhas, junto às correntes de água e em todas as regiões mais aprazíveis. Guiá-las-ei para onde as pastagens são mais férteis e fá-las-ei repousar sobre a relva verdejante dos altos montes. Irei em busca das ovelhas desgarradas, levantarei as caídas, enfaixarei as feridas, confortarei as fracas, conservarei as robustas (Ez 34, 11-15). São Gregório comenta assim estas palavras: «As ovelhas caídas são levantadas quando, prostradas pelo pecado, são reconduzidas ao estado de justiça pelo zelo de um bom sacerdote. Ele enfaixa as feridas quando apaga a mancha da culpa com o banho da disciplina e não permite que ela se agrave… Ah! se com tanta diligência trabalhava e vigiava Jacó, que apascentava o rebanho de Labão, qual não deve ser o trabalho, o zelo e a vigilância daquele que apascenta as ovelhas do Senhor? (45)». Ouvi também o belo comentário que São Clemente nos oferece sobre o texto citado: «O sacerdote ama os fiéis como seus filhos, cultiva-os e afaga-os como a galinha faz com os seus pintinhos. Governa os que estão sãos e provê-lhes alimento; sustenta os que são fracos, velando por eles, iluminando-os e encorajando-os; cura os enfermos, instruindo-os e proporcionando-lhes a graça; cicatriza as feridas com o óleo da caridade e da doçura; reconduz os transviados com a sua bondade e misericórdia» (Strom. 1. III).

O bom sacerdote, o pastor zeloso, faz suas estas ternas palavras de Santo Agostinho: «Crede firmemente que sou a mãe das vossas almas, decidido a dedicar-vos os mais amorosos cuidados, para que no tribunal do eterno juiz não apareça em vós mancha nem ruga. Desejoso de proporcionar às vossas almas não somente adornos, mas também remédios, esforço-me por unir o que está desunido, reparar o que está rasgado, curar o que está ferido, lavar o que está sujo, encontrar o que está perdido e adornar com diamantes espirituais o que está íntegro e são (46)».

6. PENAS E PERIGOS AOS QUAIS ESTÁ SUJEITO O SACERDOTE

«Quem deseja o episcopado (o cargo de pastor) deseja uma bela obra», escrevia São Paulo a Timóteo (I, 3, 2). Notai, comenta aqui São Jerônimo, «que o ministério sacerdotal é chamado pelo Apóstolo de trabalho, não de dignidade; de fadiga, não de passatempo; de obra que deve levar à humildade, não provocar o orgulho (47)». Quem deseja o sacerdócio deseja uma obra grave, cheia de trabalhos, eriçada de espinhos, abundante em suores, privações, perseguições e sofrimentos. Uma obra da qual bem se pode dizer, com toda a razão, aquilo que Antígono, rei da Macedônia, disse ao filho a respeito da soberania temporal: Não sabes que esplêndida servidão é a nossa dignidade real?

Sim, o sacerdote está sujeito a dura servidão, às penas, às dores e a toda espécie de sacrifícios: «Reconhecei, escrevia São Gregório, que não como título de repouso, mas como estímulo ao trabalho, nos foi dado o nome de pastor. Mostremos, pois, pelas obras, aquilo que somos pelo nome (48)»… Penas e trabalhos acompanham o sacerdote ao púlpito…, ao confessionário…, ao leito dos enfermos… Quantas noites insones, quantas angústias, quantas preocupações!… Que terrível responsabilidade é a sua!

«Ah! vejo todos os Santos tremerem, tomados de terror, diante da vista do pesado encargo que o divino ministério implica (49)», exclama, aterrorizado, São Cipriano. E com razão, pois não há, diz Santo Agostinho, ofício mais trabalhoso e perigoso que o ofício sacerdotal ― Officio (sacerdotis) nil laboriosius et periculosius (Epist. XXII); com efeito, ele exige virtude incomum, devendo o sacerdote evitar não somente as culpas graves, mas também as leves, como observa Santo Ambrósio (50); é preciso, além disso, pensar, acrescenta São Gregório, que tanto maior é a matéria e a severidade da conta que se haverá de prestar quanto mais numerosos e insignes forem os dons recebidos (51). Se é verdade, diz Santo Agostinho, que no dia do juízo cada um mal poderá dar conta de si mesmo, que será dos sacerdotes, aos quais Deus pedirá conta das almas alheias? (52).

«Se os sacerdotes vivem no pecado, também o povo se volta para o mal, diz o Crisóstomo; mas, enquanto cada um dá conta das próprias culpas, os sacerdotes deverão dar conta dos pecados alheios (53)». Por isso, não causa admiração que o mesmo Santo proferisse estas palavras que, à primeira vista, parecem temerárias: «Não sei se algum diretor de almas pode salvar-se» (Epl. XXXIV); e que, em outra ocasião, acrescentasse: «Não digo isto por dizer, mas falo conforme o sinto: penso que são poucos os sacerdotes que se salvam e que a maioria se condena (54)».

À ordem dos sacerdotes pode aplicar-se aquele texto do salmo 81: «Deus se levantou na assembleia dos deuses e, no meio deles, julga os deuses». ― «Grande dignidade, mas grande peso!», exclama São Lourenço Justiniano (Sal.cap. XI). «A arte das artes é o governo das almas», diz São Gregório (Pastor.). É digno de louvor o dito do Imperador Leão: «Quem for chamado a consagrar-se sacerdote, esconda-se; quem for convidado, fuja; não seja admitido senão aquele que não tem nenhuma razão para recusar-se e que é constrangido por força da obediência (55)». Também São Bernardo sentencia que quem suplica para ser sacerdote já está julgado; por isso, estabelece como regra para o bispo que não solicite a entrada no clero senão aos retraídos e àqueles que se recusam a isso (56). O Sábio disse: «Não procures tornar-te juiz, se não te sentes capaz de enfrentar e vencer os maus costumes» (Eclo 7, 6). Quem sabe estar esmagado sob o peso das próprias iniquidades não deve fazer-se juiz das alheias.

7. OBRIGAÇÃO DE TRABALHAR PELA SALVAÇÃO DAS ALMAS

«Diviníssimo é o ofício de cooperar para a conversão das almas», diz São Dionísio Areopagita (De Eccles. hier, c. XIII); mas ele impõe àquele que o exerce a obrigação de dedicar-se a isso com toda a alma, pois os sacerdotes são os condutores do rebanho de Cristo (AMBROS. De div. sac. c. II); e é sua atribuição especial arrancar as almas ao mundo celerado e entregá-las a Deus (ANSELM. In Monolog.). De modo que São Jerônimo escrevia a um sacerdote: «Se queres exercer o ministério sacerdotal, faze com que o lucro da tua alma seja procurar a salvação dos outros (57)».

A obrigação de trabalhar para extirpar o pecado das almas constrange tão estreitamente o sacerdote que, se falta a esse dever, o Crisóstomo o adverte de que os pecados alheios se tornam seus próprios pecados; e muitas vezes acontece que um sacerdote, que não se condenaria por suas próprias culpas, se perca pelas culpas alheias que não impediu (58)». «Se o sacerdote, continua o mesmo Santo, se propõe salvar somente a própria alma e negligencia as dos outros, será lançado com os ímpios no fogo eterno (59)». Com efeito, nobilíssima e preciosíssima coisa é uma alma resgatada pelo sangue de Jesus Cristo, exclama São Bernardo (Serm. in Pass.). Ela é tão nobre e preciosa, diz São João Crisóstomo, que nenhuma coisa do mundo, nem o próprio mundo inteiro, pode igualar o seu valor. Por isso, ainda que fizésseis esmolas imensas, jamais faríeis tanto quanto se convertêsseis uma só alma (60).

O mesmo dizem a esse respeito também São Próspero, Santo Hilário e São Tomás: «Quem recebeu a missão de pregar, escrevia o primeiro, leve uma vida santíssima; se negligenciar, por temor ou por considerações humanas, repreender aqueles que vivem mal, perecerá juntamente com todos os que, por seu silêncio, pereceram. E de que lhe aproveitará não ser punido pelos seus pecados, se o for pelos pecados alheios? (61)». Os sacerdotes se condenam pela iniquidade dos povos, sentencia o segundo, quando não os instruem, se são ignorantes, nem os corrigem, se são malfeitores (62)». Finalmente, encontramos em São Tomás que, se o sacerdote, por ignorância ou negligência, não ensina ao povo o caminho da salvação, será culpado diante de Deus pelas almas que pereceram sob a sua direção (63).

São Paulo atribuía a Timóteo, como tarefa do seu ministério, vigiar o seu povo, não recusar o trabalho, dedicar-se ao ofício de evangelista e cumprir todas as suas incumbências (2Tm 4, 5). O sacerdote deve imaginar que o povo cristão lhe grita, como outrora os egípcios famintos a José: «Dá-nos pão; por que haveremos de morrer de fome diante dos teus olhos? A nossa salvação está em tuas mãos» (Gn 47, 15-19); deve aplicar a si aquelas palavras que Judite dirigiu aos sacerdotes judeus: «Irmãos, já que sois os sacerdotes do povo de Deus e de vós depende a alma deles, conquistai os seus corações pela vossa palavra» (Jt 8, 21). A ele se dirige aquela intimação de Isaías: «Sobe ao cimo do monte, tu que evangelizas; eleva quanto puderes a voz; clama com toda a força que tens» (Is 40, 9). Elevai-vos, ó sacerdotes, até Deus, para que todos vos vejam e ouçam a vossa voz.

Segundo o parecer de São Basílio, os pregadores devem ser: 1º pastores…; 2º médicos…; 3º pais e nutrizes…; 4º auxiliares de Deus…; 5º plantadores de árvores no domínio do Senhor…; 6º arquitetos no templo de Deus (Homil. in Psalm.). São Hilário chama-os semeadores para a eternidade.

8. MÉRITOS E RECOMPENSAS QUE PROPORCIONA O TRABALHO PELA SALVAÇÃO DAS ALMAS

Quão grande tesouro de méritos adquire aquele que trabalha pela salvação das almas, vê-se pelo fato de que esta é a única obra à qual Deus se dedica, pois, segundo Clemente Alexandrino, não cuida de outra coisa senão de salvar o homem (64); e nada, segundo o Crisóstomo, lhe é mais agradável, nada lhe está mais a peito, nada prova mais clara e eficazmente a fidelidade no serviço de Deus e o amor a Jesus Cristo do que esse grande ato de caridade que consiste em trabalhar pela salvação dos próprios irmãos (Homil. in Genes. ― Homil. 31, ad pop.). «Quereis honrar verdadeiramente a Deus? — diz São Lourenço Justiniani. — Jamais o honrareis melhor do que empregando-vos em salvar almas (65).» São João Crisóstomo diz que «a salvação do próximo deve ser preferida ao martírio» (Homil. ut sup.).

Aqueles que trabalham para salvar almas são nuvens fecundas que, elevando-se, deixam cair a chuva fecundante da doutrina; trovejam pelas ameaças dos juízos de Deus; resplandecem pelas virtudes e pelos bons exemplos… Quantas almas conduzimos à salvação, tantas coroas e tronos preparamos para nós no céu… Trabalhar pela salvação das almas é trabalhar com Jesus Cristo; equivale a ser outro Jesus Cristo, outro Salvador e Redentor.

«Meus irmãos — escreve o Apóstolo São Tiago — se alguém se desvia do reto caminho e outro o reconduz a ele, saiba este que aquele que converte um pecador salvará a sua alma da morte e cobrirá a multidão dos seus pecados» (Tg 5,19-20). Ora, que recompensa, que glória não é proporcionar a salvação de uma alma! Isto se manifesta: 1º pelo valor de uma alma; 2º pelo exemplo do Salvador; 3º pelo fato de que esta é a obra, não digo dos Anjos, mas do próprio Deus; 4º pelo exemplo dos Apóstolos e dos outros Santos; 5º pelo fato de que nesta obra consiste a perfeição da caridade e da virtude; 6º pela recompensa prometida, que consiste em salvar da morte a própria alma e a do próximo; em cobrir a multidão dos pecados próprios e alheios.

E se, como observa São Gregório, pratica uma ação digna de preciosíssima recompensa aquele que livra da morte um corpo que, mais cedo ou mais tarde, deve morrer, que mérito, que glória não adquire aquele que livra da morte uma alma que há de viver eternamente no céu? Tantas coroas se conquistam quantas são as almas reconduzidas a Deus (66). Por isso, Santo Agostinho não hesita em sentenciar: «Salvaste uma alma? Predestinaste a tua» (In Isai.).

Ó vós que vos afadigais pela salvação das almas, ouvi a promessa que vos faz o Apóstolo São Pedro: «Quando aparecer o Príncipe dos pastores, recebereis uma coroa de glória imperecível» (1Pd 5,4). Imensa e magnífica será tal coroa, porque 1º será proporcionada à imensa caridade dos homens de Deus; 2º proporcionada ao seu admirável zelo; 3º a glória do rebanho se refletirá sobre o pastor; por isso, tantos serão os pastores santos quantas forem as ovelhas por eles conduzidas à salvação eterna. No dia do juízo, segundo a sentença do Papa São Gregório Magno, São Tomás conduzirá consigo os indianos, Santo André a Acaia, São João a Ásia, São Paulo o universo inteiro (Pastor.). E precisamente porque via pairar sobre sua cabeça essa esplendidíssima coroa, o Apóstolo das gentes assegurava a si mesmo não ter trabalhado em vão, nem corrido inutilmente (Fl 2,16); e exigia que os sacerdotes que bem governam, especialmente aqueles que se dedicam à pregação e ao ensino, fossem recompensados com dupla honra (1Tm 5,17). E de uma multidão de sacerdotes o Apóstolo São João ouvia cantar no céu: «Senhor, fizeste de nós reis e sacerdotes para o serviço do nosso Deus, e reinaremos» (Ap 5,9-10).

Lemos nos Provérbios que «a alma que abençoa prosperará, e aquele que dá de beber será dessedentado» (Pr 11,25). Ora, quem abençoa mais e melhor do que o bom sacerdote? Quem, como ele, inebria com uma embriaguez toda divina? Também ele será abençoado com singular bênção, também ele será feliz com delícias celestiais. Podem, com toda a razão, ser aplicados ao bom sacerdote aqueles louvores que a Sagrada Escritura dirige a Moisés e a Aarão. Ele agradou a Deus e aos homens, e sua memória é bendita. O Senhor o igualou em glória aos Santos dos primeiros dias. Glorificou-o na presença dos reis e permitiu-lhe contemplar a sua magnificência. Firmou com ele uma aliança eterna; revestiu-o do sacerdócio do seu povo e o inebriou de felicidade e de glórias; cingiu-o com uma faixa de honra e o coroou com um diadema esplendidíssimo. (Eclo XLV).

9. BÓM EXEMPLO QUE DEVE DAR O SACERDOTE

O Sacro Concílio de Trento diz que os fiéis mantêm os olhos fixos nos sacerdotes como num espelho, para dele haurirem a imagem e o modelo de sua conduta (67). Por isso, o grande Apóstolo exortava Tito a mostrar-se em tudo modelo de boas obras, na doutrina, na gravidade e na integridade, para que aqueles que são inimigos do sacerdócio lhe tivessem respeito, não encontrando nada de mau a dizer a seu respeito (II, 2, 7-9). «A luz do rebanho — diz também o Papa São Gregório — está no bom exemplo e no ardente zelo do pastor. É muito importante que o pastor resplandeça por seus costumes e por sua vida santa, para que o povo que lhe foi confiado possa encontrar, como num espelho, em sua conduta aquilo que deve fazer e corrigir em si mesmo (68).»

Jesus Cristo afirmou, para louvor do Batista, que este era uma lâmpada ardente e luminosa (Jo 5,35). São Bernardo comenta assim estas palavras: «É coisa vã somente resplandecer; pouca coisa, somente arder; plena e perfeita, arder e resplandecer ao mesmo tempo. João Batista era uma lâmpada ardente e luminosa; não luminosa e ardente, porque a sua luz provinha do seu fervoroso zelo, e não este daquela (69).» O mesmo pensamento exprimiu em outros termos São Gregório Nazianzeno, quando disse de São Basílio que sua voz era um trovão, porque sua vida era um raio (70).

«Eu honrarei o meu ministério» (Rm 11,31), escrevia São Paulo aos Romanos. Ora, como honra o sacerdote o ministério sacerdotal? «Honrareis o vosso ministério, ó sacerdotes — responde São Bernardo —, pela gravidade dos costumes, pela prudência dos conselhos, pela honestidade dos atos. Estas são as coisas que conferem verdadeiro brilho e nobreza ao ofício sacerdotal. Honrareis o vosso ministério se tiverdes costumes irrepreensíveis, se vos dedicardes às coisas espirituais, se vos empenhardes em boas obras (71).» Em outra ocasião, exortando os sacerdotes a serem reservatórios, e não calhas, porque estas dão tudo o que recebem, ao passo que aqueles dão somente quando estão tão cheios que transbordam, e dão apenas aquilo de que estão repletos; lamentando que em seus dias houvesse na Igreja muitos canais ou calhas, mas poucos reservatórios, propõe-lhes o exemplo de Jesus Cristo que, sendo fonte de vida e pleno em si mesmo, começou a encher de sua bondade os céus; depois veio à terra e salvou os homens pelo excesso de sua plenitude; visitou o mundo e o inebriou; e conclui: fazei, portanto, também vós o mesmo; enchei-vos e trabalhai depois para difundir por toda parte a vossa abundância (72).

Jesus Cristo repetiu três vezes a Pedro: Apascenta as minhas ovelhas, para mostrar que é dever dos pastores alimentar os seus rebanhos de três modos: com a palavra da verdade, com o exemplo da vida, com a esmola…; apascentá-los, segundo a expressão de São Bernardo, com a mente, com a boca, com a obra; apascentá-los com a oração da alma, com a exortação da palavra, com a manifestação do bom exemplo (73). Com efeito, é veríssima a observação do Papa São Gregório: os melhores pastos para as ovelhas são os exemplos dos pastores: ― Optima oviuin pascua sunt exempla pastarum (Pastoral.).

Nós somos espetáculo para o mundo, para os Anjos e para os homens; portanto, devemos levar uma vida digna do Evangelho de Cristo, diz São Paulo; e tornar-nos plenamente modelos para o rebanho, diz São Pedro (1Cor 4,9; Fl 1,27; 1Pd 5,3). Por isso, o pregador da Igreja, segundo a advertência de São Gregório, vela diligentemente por si mesmo e por tudo o que lhe sai da boca, para evitar o vício da vanglória naquilo que prega de bom, a fim de que não aconteça que sua vida, discordando de suas palavras, o faça perder, vivendo mal embora fale bem, aquela paz que prega na Igreja. Mas empenha-se com grande cuidado em fechar a boca de seus inimigos, vivendo de tal modo que sua conduta dê eficácia às suas palavras e suas palavras justifiquem sua conduta. E em tudo isso não busca absolutamente a própria glória, mas a glória de Deus; e, humilhando-se, torna-se cada dia maior (74). «A tua casa e a tua conduta — escrevia São Jerônimo ao bispo Heliodoro — são como espelhos e normas de disciplina para o público. Tudo o que os outros veem fazer-te, pretendem fazê-lo também. Guarda-te de fazer qualquer coisa que possa ser justamente censurada ou que não possa ser imitada sem pecado (75).»

Convém perfeitamente a um sacerdote aquilo que o rei Teodorico dizia, segundo o testemunho de Cassiodoro, a respeito do governador de uma cidade. Quem ocupa tal posto não pode fazer coisa alguma que o povo não saiba: colocado no meio de todos, atrai os olhares de todos, e a voz e o juízo do povo divulgam toda a sua vida. Aquilo que fazeis em segredo não pode permanecer oculto, porque vossas portas são lâmpadas; e, ainda que as mantivésseis zelosamente fechadas, é necessário que todos vos conheçam, que sejais observados de todos os lados e que estejais sempre na luz (CASSIOD. lib. III). Parecem ditadas mais para um sacerdote que para um príncipe estas palavras de Sêneca: «Não te é mais permitido ocultar-te do que ao sol. Estás no seio da luz; todos os olhos estão voltados para ti (76)». Longo e pouco seguro é o caminho dos preceitos, diz o mesmo filósofo; breve e eficaz é o dos exemplos (77).

«Sê exemplo para os fiéis — escrevia o Apóstolo a Timóteo — nas palavras, no modo de viver, no amor, na fé e na castidade» (1Tm 4,12), isto é, como explica São Jerônimo, «de tal modo devem ser o trato, a conversação e a vida do sacerdote, que de cada um de seus movimentos e atos se exale a fragrância da graça celeste (78)». Em outra ocasião, escrevia a Nepociano: «Cuida para que tuas obras não contradigam tuas palavras, a fim de que não aconteça que, enquanto pregas publicamente na igreja, alguém possa dizer tacitamente em seu interior: “Por que, então, não fazes tu aquilo que ensinas aos outros?” (79)». Os fatos devem preceder as palavras, diz Santo Ambrósio; antes, as palavras nada alcançam se não forem corroboradas pelos fatos (80); e, se nenhuma voz, segundo afirma o papa São Gregório, se insinua mais facilmente no coração dos ouvintes do que a daquele cuja vida corresponde dignamente à pregação (81), é porque os exemplos são muito mais eficazes que os discursos, e ensinar com os fatos, como diz São Leão, tem muito mais força que ensinar com a língua (82); é igualmente verdadeira a observação de Tertuliano, isto é, que «os discursos não sustentados pelo bom exemplo tornam-se motivo de vergonha, em vez de honra (83)».

Por isso, o abade Queremão dizia que a autoridade do sacerdote jamais terá eficácia se ele não a insinuar no coração dos fiéis por meio de seus bons exemplos (Ap. Cassian. Coll. 11, c. IV); e São Paulino aconselhava a Joviano que se mostrasse não tanto sábio nas palavras quanto nas obras e que, mais do que falar sobre grandes coisas, as realizasse (84). Com efeito, como adverte São Bernardo: «Se o pastor, embora instruído, não leva uma vida exemplar, deve-se temer que prejudique mais com sua conduta dissoluta do que aproveite com sua palavra douta (85)». Por isso, diz o mesmo Padre, são poderosos em obras e palavras aqueles sacerdotes que mostram costumes honestos, ações virtuosas e discursos repletos de doutrina; que são assíduos à oração, graves no porte e perseverantes na caridade (86).

«Abri o caminho, mostrai a estrada, removei tudo o que serve de tropeço ao povo», bradava Isaías aos sacerdotes (Is 57,14). O rebanho segue muito mais as pegadas que os brados: «Por que, pergunta São Gregório Nazianzeno, armar a língua, enquanto temos as mãos atadas? Não considero sábio aquele que se mostra tal nas palavras, mas sim aquele que, falando pouco sobre a virtude, muito dela demonstra em suas ações e, por sua conduta, confere fé e autoridade a seus discursos. A sabedoria que resplandece nos fatos é muito mais nobre e excelente que aquela que brilha nas palavras (87)».

Os sacerdotes, diz Salviano, devem ser modelo de virtude para todos os demais, precedê-los e superá-los a todos em piedade e devoção, assim como a todos se elevam em dignidade e honra; pois não há coisa mais vergonhosa que ser o mais elevado em dignidade e o mais desprezível pela baixeza da conduta. Que é uma prefeitura sem méritos? Certamente não é outra coisa senão um título de honra junto daquele que já não é homem. E que é uma dignidade em um indigno? É uma pérola numa cloaca. Por isso, os sacerdotes que são elevados a grande altura por suas funções devem levar uma vida que corresponda à sublimidade de seu ministério (Lib. ad Eccles.). Ouvi ainda como fala o Crisóstomo: Lembre-se o sacerdote de que é a sentinela de todos, para que dê às ovelhas pastos abundantes, aos cordeiros águas límpidas, extermine os lobos, mantenha afastados os animais nocivos, trate os feridos, reconduza os extraviados, instrua os ignorantes, levante os caídos, ilumine todos os homens em geral e cada um deles em particular, anime todo o rebanho com seu bom exemplo. Sua doutrina deve manifestar-se nas palavras e nas obras; jamais seja o último em coisa alguma, ele que deve ser o primeiro em tudo. Resplandeça pelas graças, brilhe pelo cumprimento de seus deveres. Seja humilde em sua autoridade e sublime em sua humildade (Homil. de eo qui incidit in latron.).

10. SANTIDADE E PERFEIÇÃO QUE DEVE TER O SACERDOTE

«É necessário que o bispo — e o mesmo se deve dizer do sacerdote, porque o episcopado nada mais é que a plenitude do sacerdócio —, na qualidade de administrador de Deus, seja irrepreensível, não arrogante, não colérico, não violento, não ávido de lucro vergonhoso; mas hospitaleiro, benigno, sóbrio, justo, santo e continente». Assim escrevia São Paulo a Tito (Tt 1,7-8). Dever-se-ia aplicar a todo sacerdote o elogio que o Nazianzeno fez a Santo Atanásio: «Louvando Atanásio, farei o elogio da virtude» (Orat. de S. Athan.).

É necessário, diz o papa São Gregório, que o sacerdote seja puro em seus pensamentos, edificante em suas obras, prudente em seu silêncio e útil com sua palavra; que se aproxime de todos por sua afável condescendência, mas se eleve acima de todos pela contemplação; que se una àqueles que fazem o bem e se oponha aos que fazem o mal; que não descuide de seus deveres exteriores, ocupando-se exclusivamente de sua vida interior, nem esqueça os deveres interiores, entregando-se inteiramente aos cuidados exteriores (Pastor., part. 2a, c. VII). Como cabeça do rebanho, deve superar em virtude todos os fiéis, observa aqui o Crisóstomo, assim como o sol vence em esplendor todos os astros. Cumpre-lhe ser um anjo, não sujeito nem à agitação nem ao vício. O Senhor escolheu os sacerdotes para que sejam os fachos, as colunas, os mestres e os guias dos outros; para que vivam como anjos no meio dos homens, como homens adultos no meio de crianças, como espirituais no meio de pessoas carnais; a fim de que os povos extraiam imensas riquezas de sua santidade e perfeição (Homil. X, in Timoth. III).

«Sublime dignidade, mas grande peso é o dos sacerdotes! — exclama São Lourenço Justiniano. Colocados no lugar mais elevado, é necessário que alcancem o ápice das virtudes; caso contrário, encontram-se no primeiro lugar não para serem premiados, mas para serem severamente julgados (88)». De quanta santidade e perfeição, com efeito, não deve estar adornado o sacerdote que São João Clímaco chama de legado, patrono e advogado do mundo, homem que pode fazer violência a Deus, companheiro dos anjos, abismo da ciência, depositário dos mistérios celestes, guardião dos segredos divinos, saúde dos homens, dominador dos demônios, foice dos vícios, senhor dos corpos? (Grad. IX).

Eis o que São Bernardo escrevia ao papa Eugênio, e considerai que suas palavras são dirigidas a todo ministro de Deus: «Considera que deves ser o modelo da justiça, o espelho da santidade, o exemplo da piedade, o defensor da verdade, o protetor da fé, o guia dos cristãos, o amigo do esposo, o paraninfo da esposa, o pastor dos povos, o mestre dos ignorantes, o refúgio dos oprimidos, o advogado dos pobres, a esperança dos infelizes, o tutor dos órfãos, o juiz das viúvas, o olho dos cegos, a língua dos mudos, o bastão dos anciãos, o vingador das iniquidades, o terror dos maus, a glória dos bons; vara dos poderosos, martelo dos tiranos, sal da terra, luz do universo; sacerdote do Altíssimo, Cristo do Senhor (89)». Quem, pensando nisso, não concordará com o Crisólogo em dizer que os sacerdotes têm mais um peso que uma dignidade? (Serm. III).

Salviano diz que Deus faz da perfeição cristã um conselho para os leigos e um mandamento para os sacerdotes (90). Esse pensamento do santo Sacerdote de Marselha concorda com aquela sentença do Crisóstomo: «O sacerdote deve manter uma conduta irrepreensível» (Epist. 6, ad Iren.). Com efeito, quando os Apóstolos quiseram constituir diáconos, disseram à multidão reunida que escolhessem entre si pessoas de boa reputação e que se mostrassem repletas do Espírito Santo e de sabedoria (At 6,3). Se tais qualidades eram exigidas nos diáconos, que dizer dos sacerdotes? Não deveria Jesus Cristo poder dizer de cada um deles: «Este é para mim um vaso de eleição»? (At 9,15).

São Paulo, falando de Jesus Cristo, diz que convinha que tivéssemos tal sumo sacerdote: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e mais sublime que os céus (91). Ora, por que não deveria um sacerdote, lugar-tenente de Cristo, ser dotado de tais qualidades? Um sacerdote que administra todos os dias aqueles mistérios nos quais, segundo o Crisóstomo, nada há de terreno, mas tudo é espiritual e celeste, como os hinos angélicos, as chaves do reino dos céus e a remissão dos pecados? Ah! Digamos também nós, com o mesmo Padre: Se a vida dos sacerdotes deve ser uma vida celeste, por que não são celestes todas as coisas que eles fazem? (92). Da mesma opinião são São Gregório Magno, que ensina que o sacerdote deve estar morto para o mundo e para todas as paixões, a fim de viver uma vida inteiramente divina (93); Santo Ambrósio, segundo o qual o sacerdote deve avançar tanto em santidade diante dos leigos quanto a graça que lhe é concedida supera a que é dada aos simples fiéis (94); e São Gregório Nazianzeno, que deixou escrito: «Importa sobretudo aos sacerdotes mostrar-se tão adiantados na virtude que pareçam criaturas antes celestes que humanas; e possam primeiro purgar a si mesmos e depois aos outros, instruir-se a si mesmos para ensinar aos outros; façam-se luzes para iluminar os povos; aproximem-se de Deus para conduzir-lhe as almas; sejam santos e perfeitos para santificar e aperfeiçoar os outros (95)».

É necessário que o sacerdote seja uma coluna para a fé, uma regra para a equidade; é necessário que nele haja pureza de intenção e sublimidade de contemplação, que seja apoio para os outros por meio de palavras de consolação, de suas orações e de seus exemplos. «O sol — escreve Santo Ambrósio — é o olho do mundo, a beleza do dia, o esplendor do firmamento, a medida do tempo, a força e o vigor dos astros (96)»; assim deve ser o sacerdote. Seu retrato deve ser como aquele que seu historiador nos deixou de São Bernardo, dizendo: Bernardo mostrava-se sempre sereno no rosto, simples e modesto no traje, reservado nas palavras, prudente nos atos, assíduo à sua santa meditação, fervoroso na oração, magnânimo na fé, firme na esperança, cheio de caridade, sublime na humildade, modelo de piedade, admirável nos conselhos, resoluto nos empreendimentos, alegre entre os ultrajes, prudente na condescendência; de costumes dulcíssimos e cheio de méritos, transbordava de sabedoria, não menos que de virtude e de graça, diante de Deus e dos homens.

Aos sacerdotes se referem estas palavras de Deus no Êxodo: «Sereis santos aos meus olhos» (Ex 22,31); e Jesus Cristo lhes diz, de modo todo especial, o que Gedeão dizia aos seus soldados: «Fazei tudo o que me virdes fazer» (Jz 7,17). E, por ocasião da consagração de cada novo sacerdote, o Senhor repete aos povos o que disse a Israel a respeito da escolha que fizera de Samuel: «Suscitarei para mim um sacerdote fiel, que se conduzirá segundo os meus votos e as minhas vontades; e lhe edificarei uma morada estável, e caminhará com segurança todos os dias diante do meu Cristo» (1Sm 2,35). Ai daquele sacerdote que não realizar em si este prognóstico de Jesus Cristo! Lembre-se de que, anunciando os oráculos divinos, ele se torna divino (97), e que o restante dos fiéis deve avançar tanto em santidade e perfeição quanto o homem é superior aos brutos (98).

Não vedes, diz Santo Ambrósio, que nada de terreno se deve encontrar nos sacerdotes, nada de comum, nada de semelhante à plebe? A dignidade do sacerdócio exige gravidade e perfeição. Como poderá o povo respeitar um sacerdote que vê semelhante a si? O que poderia admirar no sacerdote, se este vivesse como ele? A plebe sempre desprezará aquele sacerdote em quem não vir nada de particular. Que ideia quereis que o povo forme de um sacerdote no qual reconhece as mesmas imperfeições que vê e deplora em si? Sejamos, pois, por nossa vida, superiores aos outros homens, e sejam os nossos comportamentos tais que reduzam ao silêncio os nossos adversários. Seja irrepreensível a nossa conduta, incomum a nossa virtude, sublime a nossa fé, exemplar a nossa vida, perseverante o nosso heroísmo, invariável a nossa tendência para o céu (Epist. 6, ad Iren.).

«Seja o pastor sempre o primeiro nas boas obras, diz o Papa São Gregório, para que mostre, com a sua santidade e perfeição, o caminho do paraíso ao seu rebanho; e aquele que segue a voz e os costumes do pastor avance na virtude, inflamado e guiado pelos seus bons exemplos, mais ainda do que pelos bons discursos… A vida do pregador ressoa e arde: é ardente nos desejos, retumbante nas palavras. É necessário que sejam poderosos nos preceitos, compassivos para com os fracos, terríveis nas ameaças divinas, suaves nas exortações, humildes no exercício da sua autoridade, superiores às coisas perecíveis pelo desprezo que lhes votam, fortes em suportar as adversidades (99)». São Isidoro de Pelúsio recomenda ao sacerdote que ame a solidão e o retiro; quer que seja todo fé, toda devoção, todo amor ao trabalho; diligente e atento em encontrar meios de salvar o próximo, de caráter irrepreensível, exatíssimo na observância da disciplina, assíduo à santa meditação, intrépido diante dos perigos de morte. Em suma, sua santidade deve diferir da de todo outro fiel bom como o céu difere da terra (100). Segundo o Cartuxo, o bispo e os sacerdotes devem ter chegado a tal perfeição que, em meio às paixões e às quedas do povo, permaneçam imóveis em todo gênero de virtude, no esplendor da razão, na luz da sabedoria, para vencer o mal com o bem, para reprimir e reformar, com a sua vida celeste, os vícios dos homens, sendo eles próprios a regra e o modelo (De Sacerdot.).

O primeiro dote de um bom sacerdote é a inocência da vida, a austeridade e a santidade dos costumes; o segundo é o retiro e a meditação; o terceiro, a liberdade de falar e de repreender; o quarto, uma paciência invencível e uma coragem heroica; o quinto, um zelo ardente pela honra e pelo culto divino… A Sagrada Escritura observa que Judas Macabeu escolheu sacerdotes imaculados, observantes da lei divina, os quais purificaram o templo (1Mc 4,42-43). «Os rios que conduzem águas de irrigação, observa o Crisóstomo (101), partem de fontes que brotam de altos montes. Sejamos, pois, também nós, sacerdotes, de grande elevação de alma, e então a misericórdia não tardará a se derramar e vivificar».

Santo Agostinho diz que o clérigo, no próprio ato em que entra no clero, se obriga à profissão de santidade (102); à qual, observa São Jerônimo, é continuamente estimulado tanto pelo hábito que veste como pela condição em que se encontra (103). Com efeito, se professam que Deus é a porção da sua herança, nada mais devem cuidar, diz Santo Ambrósio, senão de Deus (104). «E que audácia seria a de um sacerdote, diz São Gregório, que se apresentasse a Deus como intercessor pelos delitos alheios, sabendo-se ele próprio manchado pelas mesmas culpas? (105)». É necessário, diz o Papa Hormisdas, que sejam irrepreensíveis aqueles que estão encarregados de corrigir os outros (106); pura e cândida deve ser aquela mão que há de lavar as manchas dos outros (107), e «ninguém, diz São Dionísio, ouse fazer-se guia dos outros nas coisas celestes, se já não se tiver tornado, por longo exercício de virtude, sumamente semelhante a Deus (108)».

Um Concílio de Cartago (Can. XLIV) intimava aos clérigos que vivessem inteiramente afastados do convívio do século, isto é, dos mundanos. O sagrado Concílio de Trento exige que, nas pessoas do clero, tudo enfim — a vida, os costumes, o hábito, o porte, o gesto e a palavra — exale gravidade e convide à piedade (109). Dos Concílios de Niceia (Can. X), de Cartago (Can. LXVIII), de Elvira (Can. LXXV) e de Toledo (Can. XXX), concluímos que, durante onze séculos, foi excluído da ordem clerical todo aquele que tivesse cometido um só pecado mortal depois do batismo. Também São Tomás ensina que não se deve admitir às ordens sacras quem tenha algum vício, mas que aqueles que devem fazer-se mediadores entre Deus e o povo devem apresentar a Deus uma consciência pura e gozar de ótima reputação entre as pessoas (110). Em outro lugar, repete que devem ser de virtude consumada aqueles que exercem o ministério divino (111).

Parece escrito de propósito para os sacerdotes aquele texto de Sêneca: «Assim como os raios solares vêm tocar a terra, mas sem deixar o sol, assim uma alma sublime e sagrada é enviada para cá embaixo a fim de nos fazer conhecer mais de perto as coisas divinas; convive verdadeiramente conosco e conosco vive, mas permanece ligada à sua origem divina (112)». Os sacerdotes devem imitar o sol: 1° na unicidade; 2° na pureza e no esplendor; 3° na extensão de sua ação; 4° na sua elevação; 5° na sua estabilidade; 6° na sua eficácia, beleza e fecundidade; 7° no seu calor. Sede, ó sacerdotes, o sol do mundo, como o foi São Paulo: sol no templo, sol nas praças públicas, sol no estudo, sol no púlpito, sol no altar, no confessionário, nas conversas, à mesa; lançai, de perto e de longe, por toda parte, olhares de santidade e de perfeição.

O grande pontífice da antiga lei vestia o manto, a túnica, o efod, trazia o cinturão, campainhas de ouro, lâminas de ouro, o racional e a tiara. Nesses ornamentos estão simbolizados os dotes e as virtudes que devem adornar um sacerdote. O racional denota a plenitude da ciência sagrada; o manto que lhe cobria os ombros significa as boas obras; a túnica cor de jacinto figura a vida celeste; as campainhas indicam a pregação da palavra divina; a túnica de linho denota a perfeita castidade; o cinturão, a continência; a tiara, a guarda de todos os sentidos; a coroa que circundava a tiara indica a santidade e a soberania. Todo sacerdote deveria merecer os louvores que a Sagrada Escritura dá a Simão, filho de Onias, de quem diz que sustentou a casa de Deus e fortaleceu o templo. Em seus dias, as águas das fontes jorraram. Cuidou do seu povo; ampliou a entrada da casa do Senhor. Brilhou como a estrela da manhã e como a lua em sua plenitude; resplandeceu como o sol fulgurante no templo de Deus. Mostrou-se como o arco-íris em meio a nuvens de glória; como as rosas da primavera; como os lírios que brotam ao longo das praias frescas; como o incenso que se evola; como uma chama, como um vaso de ouro ornado de diamantes; como um olival verdejante e um cipreste que se eleva até o céu. No tempo de seu pontificado, o povo acorria em multidão para adorar o seu Senhor Deus, prostrava-se por terra para rezar diante do Onipotente, do Altíssimo (Eclo I).

Quereis ver o retrato de um verdadeiro sacerdote? Ei-lo, traçado pelo pincel do Nazianzeno em seu Panegírico em louvor de Santo Atanásio: Tantas virtudes mostrava Atanásio em meio a uma profunda humildade e a uma vida sublime, que ninguém ousava aspirar a tamanha perfeição. Cheio de caridade, dava a todos fácil acesso à sua pessoa; todo entranhas de misericórdia e todo doçura, jamais soube o que fosse a cólera; admirável nas palavras, mostrava-se ainda mais admirável nas obras e nos costumes. Tinha a aparência de um Anjo, e mais que de um Anjo a alma; poderoso para instruir, mantinha-se calmo e afável mesmo quando devia repreender e admoestar (Serm. XXI). Feliz o mundo se de todos os sacerdotes se pudesse dizer o mesmo! Ouvi estas graves palavras de São João Crisóstomo, ó sacerdotes de Deus, e sejam elas para vós estímulo, admoestação e ameaça.

«Há muitos sacerdotes e poucos sacerdotes; muitos de nome, poucos de fato. Vede, pois, de que modo vos sentais na cátedra; porque não é a cátedra que faz o sacerdote, mas o sacerdote que faz a cátedra; não é o lugar que santifica o homem, mas o homem que santifica o lugar. Quem se sentar bem na cátedra terá honra; quem o fizer mal desonrará a cátedra, pois nela está sentado para julgar. Se viverdes santamente e ensinardes retamente, sereis os juízes de todos; se, ao contrário, ensinardes bem e viverdes mal, julgareis somente a vós mesmos. Com efeito, vivendo bem e ensinando retamente, ensinais ao povo como deve viver; mas, ensinando bem e vivendo mal, dais a Deus motivo para condenar-vos (113)». A sentinela está em lugar elevado, e não em lugar baixo, diz o Papa São Gregório; ela quer ver de longe o que acontece; assim também o sacerdote, que tem o ofício de velar pelo povo, deve manter-se elevado por uma vida santa, para estar em condições de levar auxílio. Por isso Isaías diz: Subi ao cume do monte, vós que evangelizais Sião, indicando com isso que aquele que deve anunciar a palavra da vida deve elevar-se por meio das boas obras (Homil. 2, in Ezech.).

Ouvi quais são, segundo São Bernardo, aqueles que o bispo pode admitir à prelatura e também ao sacerdócio: «Admite aqueles que são retos em seus juízos, prudentes em seus conselhos, discretos no mandar, hábeis no governar, corajosos no agir; aqueles que não negociam sua missão, que não buscam o ouro, mas a salvação; aqueles que sejam para os reis um Batista, para os egípcios um Moisés, para os fornicadores um Fineias, para os idólatras um Eli, para os avarentos um Eliseu, para os mentirosos um Pedro, para os mercadores no lugar sagrado um Jesus Cristo; aqueles que não desprezam o povo, mas o instruem; que não adulam os ricos, mas santamente os atemorizam; que não temem as ameaças dos grandes, mas as desprezam; aqueles que não se misturam com a turba, nem dela se afastam envenenados; que não despojam as igrejas, mas as adornam; que não andam à caça de dinheiro, mas consolam os infelizes e corrigem os malfeitores; que cuidam da própria fama, mas não invejam a dos outros. Aqueles que amam e praticam a oração e que, em todos os empreendimentos, confiam mais no auxílio de Deus, que imploram, do que em sua própria habilidade ou fadiga. Aqueles cujos discursos edificam, cuja vida é moldada pela justiça, cuja presença obtém a graça, cuja memória é bendita. Aqueles que são amáveis não em palavras, mas em atos; reverendos não pelo fausto, mas pelas boas ações. Aqueles que são humildes com os humildes, inocentes com os inocentes; que repreendem severamente os homens de coração endurecido, refreiam os maus e castigam os soberbos. Aqueles que não procuram enriquecer a si mesmos ou aos parentes com os despojos da viúva e com o patrimônio dos desventurados. Aqueles que dão gratuitamente o que gratuitamente receberam, fazendo justiça desinteressadamente aos que gemem, injustamente oprimidos, vingando as nações e repreendendo os povos culpados (114)».

É doutrina de São Tomás que os sacerdotes são obrigados a uma santidade mais sublime que a dos religiosos, por causa das sublimes funções do sacerdócio e, principalmente, do santo sacrifício da missa. Daí conclui que, em igualdade de condições, o sacerdote peca mais gravemente que o religioso que não é padre (2-2, q. 184, art. 9). E depois, se Deus, como observa Belarmino, exigia tão grande santidade dos levitas da antiga lei, que não imolavam senão cordeiros e touros, quão mais sublime não deve ser a santidade e a prudência daquele que tem por ofício sacrificar a Deus o seu próprio Unigênito, o Cordeiro divino? (115). Ah! Exclamemos também nós com o Crisóstomo que mais esplêndida que o raio solar deve ser aquela mão que toca o corpo de um Deus, aquela boca que é investida de fogo celeste, aquela língua que se ruboriza com o tremendíssimo Sangue de Cristo (116).

11. PRUDÊNCIA E SABEDORIA QUE DEVE TER UM SACERDOTE

«Vós sois o sal da terra, disse Jesus Cristo aos Apóstolos; ora, se o sal se tornar insípido, com que havemos de salgar os alimentos? Ele já não serve para nada e é lançado no lixo» (Mt 5, 13). Por que razão Jesus Cristo dá aos seus Apóstolos, isto é, aos sacerdotes da nova lei, o nome de sal, em vez de ouro, prata ou diamantes? Eis, a meu ver, as razões: 1° o sal é coisa necessária, utilíssima e de uso universal e cotidiano. 2° o sal indica o ofício, a força e a dignidade dos Apóstolos. 3° o sal é o símbolo da sabedoria. Os Apóstolos são o sal da terra porque corrigem com sua sabedoria os costumes brandos e corrompidos do mundo e os temperam com sabedoria e vigor. 4° O sal traz em si as qualidades do fogo e da água; os Apóstolos estão repletos do fogo do amor de Deus e da água da graça. 5° O sal torna saborosos os alimentos insípidos e os preserva da corrupção; assim também os Apóstolos. 6° O sal provoca a sede; assim os Apóstolos despertam nas almas e nos corações o desejo das coisas celestes. 7° O sal, por sua acidez, é estimulante, irrita, resseca, queima; não de outro modo os Apóstolos, com suas pregações e com a austeridade de sua vida, atacam os vícios dos homens, investem contra eles, queimam-nos e fazem-nos desaparecer. Todas as qualidades do sal sobressaem nos Apóstolos e devem encontrar-se em todos os sacerdotes; todos eles devem ser o sal da terra.

«Ora, se somos sal, observa aqui São Gregório, devemos temperar as almas dos fiéis; o sacerdote deve ser entre os povos aquilo que o grão de sal é para os animais, para que todo aquele que segue o sacerdote permaneça como que temperado por aquele sal que tem sabor de vida eterna (117)». Mas observai que os Apóstolos fizeram muito mais que o sal, porque o sal apenas preserva da corrupção, mas não cura as coisas já infectadas, ao passo que os Apóstolos elevaram os povos da corrupção e depois os preservaram dela. Eis a tarefa do bom sacerdote… Ele é enviado, como outrora os Apóstolos, como cordeiro entre lobos; é-lhe, pois, necessária a simplicidade da pomba, unida à prudência da serpente (Mt 10,16). E o sacerdote mostra possuir essas qualidades quando, à semelhança de uma boa mãe, repreende com brandura, diz São Bernardo, acaricia com simplicidade; costuma castigar com bondade, indignar-se com humildade, irar-se com paciência, afagar sem adulação (118). Ele cumpre o ofício de sábio diretor, diz o mesmo Santo, «se vê todas as coisas, dissimula muitas e castiga poucas (119)». Com efeito, como bem disse um poeta, muitas vezes acontece que a má disposição se reveste da aparência de zelo; mas aquele que haure do céu o seu zelo não peca por zelo indiscreto (120).

Certamente, mais que para outros, são dirigidas ao sacerdote aquelas palavras de São Pedro: «Se fala, fale como boca de Deus; se exerce um ministério, exerça-o como dirigido pela virtude de Deus, para que em tudo Deus seja glorificado» (1Pd 4,11), e aquelas outras da Sabedoria: «Amai a justiça, vós que julgais a terra» (Sb 1, 1). Se José sugeria ao Faraó que, para o bem dos egípcios, escolhesse um homem sábio, inteligente e industrioso, a quem confiasse a administração suprema do reino (Gn 41,33), não deverá ser assim aquele a quem é confiado o cuidado do povo cristão? Dele se deveria dizer, como de José, que o Senhor está com ele e que todo empreendimento lhe é bem-sucedido, Deus abençoando o povo cristão por causa do sacerdote que está à sua frente (Gn 39, 2-5).

São Basílio pergunta como devem ser os pregadores do Evangelho e responde que devem ser: 1° como os Apóstolos; 2° como os panegiristas do céu; 3° como a regra da piedade; 4° como o olho no corpo (In Psalm.). «Saiba o sacerdote, diz o Papa São Gregório, usar plenamente o ferro e empregar discretamente o óleo no cuidado dos culpados. Muitas vezes a fratura se torna mais dolorosa e de cura mais difícil se for mal enfaixada. Quem deseja curar uma ferida deve agir com toda cautela, prudência e moderação: o sacerdote deve exercer os direitos da disciplina, sem se despojar das entranhas da caridade e da misericórdia. É preciso repreender, corrigir e punir com a bondade de uma mãe, com a severidade de um pai e com a experiência de um cirurgião hábil, de modo que a severidade jamais seja separada da doçura» (Pastor.).

Lembre-se o pastor de que é preciso conduzir cada um segundo seu estado, seu ofício, sua condição, sua idade, suas forças e suas luzes. De um modo devem ser admoestados os homens, de outro as mulheres; os jovens de maneira diferente dos velhos, e os ricos de modo diferente dos pobres; de maneira diversa os corações melancólicos e os temperamentos joviais; uma lição é adequada aos superiores, outra aos inferiores; tal conselho serve aos servos, outro aos senhores. É preciso distinguir o que se deve sugerir aos celibatários e aquilo que se pode permitir aos casados… O pastor que não tem sabedoria nem prudência é sol obscurecido, ave depenada, piloto sem leme, soldado sem armas etc….

«O homem prudente se assentará ao leme», lemos nos Provérbios (I, 5). 1° O piloto está ao leme; assim deve fazer o sacerdote… 2° O piloto examina e governa toda a nave… 3° Atenta para as velas, os ventos, as tempestades, os recifes e o caminho… 4° Não busca seus próprios confortos, mas procura cumprir a sua parte… Quem não sabe obedecer não sabe mandar… quem conduz bem a si mesmo sabe conduzir bem os outros… Ninguém pode dirigir os outros se não pode ser ele próprio governado… Somente aquele que se deixa dirigir é capaz de guiar os outros; mas quem não pode dominar a si mesmo não se deixa dominar pelos outros. «Onde falta um governador, o povo se dispersa, diz o Sábio; mas a salvação encontra-se onde abundam os sábios conselhos» (Pr 11, 14). «A graça floresce nos lábios do sábio, lemos em outro lugar; sua palavra é ouvida nas assembleias, e os homens a meditarão em seu coração» (Eclo XXI). Ora, como tal deve ser o sacerdote no meio dos fiéis, com razão o Papa São Gregório e São Gregório Nazianzeno concordam em chamar de arte das artes a arte de governar o homem, moderar as consciências e dirigir as almas (121).

«Tomei duas varas, diz o profeta Zacarias; a uma chamei Doçura, à outra chamei Azorrague, e com elas conduzi o rebanho» (Zc 11, 7). Bela lição aos sacerdotes, para que aprendam o modo de conduzir e apascentar seus rebanhos! Belo exemplo que lhes é dado de serem, tanto quanto deles depende, doces, humanos, caritativos, clementes, misericordiosos e benéficos em palavras e em obras. Assim Deus governa o mundo; sua sabedoria alcança de um extremo ao outro com força e dispõe todas as coisas com doçura (Sb 8, 1). Para aqueles que são duros de coração, endurecidos no mal e incorrigíveis, é necessária a vara; é preciso uma mão firme e vigorosa, mas sempre guiada pelo amor, sempre temperada pela doçura e pela prudência…

Eis, ó sacerdote, algumas varas preciosíssimas e indispensáveis aos pastores: a humildade; a afabilidade; a benevolência; a igualdade de ânimo; a paciência; a magnanimidade; a bondade; a candura e a doçura de ânimo; a honestidade; a urbanidade; a graça no falar.

12. CIÊNCIA QUE DEVE TER O SACERDOTE

«Vós sois a luz do mundo, disse Jesus Cristo aos Apóstolos. Uma cidade situada no alto de um monte não pode ficar escondida; nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas para pô-la sobre um candeeiro, a fim de que ilumine todos os que estão na casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus» (Mt 5, 14-16). Os sacerdotes são a boca de Jesus Cristo e representam a sua pessoa. Ora, que diz o Evangelho sobre Jesus Cristo? Diz-nos que, tomando-o entre as mãos como tenro menino, o velho Simeão anunciou que ele seria a luz que iluminaria as nações (Lc 2, 32). Diz-nos que em Jesus estava a vida, e a vida era a luz do mundo; que Jesus era a verdadeira luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1, 4-5, 9). É preciso que o sacerdote possa dizer como o divino Mestre: «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida… Eu vim como luz ao mundo» (Jo 8, 12) … Ego lux veni in mundum (Id. 12, 46). A cada sacerdote convêm aquelas palavras já ditas por Deus a Paulo e Barnabé: «Eu te estabeleci para que sejas a luz das nações e instrumento de salvação até os confins da terra» (At 13, 47). Mas, para que alguém seja luz, requer-se que seja instruído… pois «é ofício e dever do sacerdote interpretar a lei» (São Jerônimo, Comment.).

Ouvi as severas advertências que, a esse respeito, dava o Apóstolo dos gentios. Escrevendo a Timóteo, recomenda-lhe que se dedique ao estudo, à exortação e ao ensino; que medite nessas coisas e nelas se empenhe de todo o coração; que vigie sobre si mesmo e sobre o ensino; pois, agindo assim, salvaria a si mesmo e àqueles que o ouvissem; que conserve o depósito da doutrina, evitando as profanas novidades de palavras e o vago brilho de uma ciência vã; que anuncie a palavra e repreenda com toda sabedoria (1Tm 4, 13-16; Id. 6,20; Id. 4,2). E a quem, senão principalmente aos sacerdotes que Paulo constituíra para dirigir a cristandade do Oriente por ele fundada, cremos que se dirigiam aquelas exortações que encontramos em suas cartas aos Filipenses, aos Efésios e aos Tessalonicenses? «Sede irrepreensíveis e puros, filhos de Deus, sem mácula no meio de um mundo depravado e maligno; entre o qual resplandeceis como astros sobre a terra» (Fl 2,15). «Vós sois luz no Senhor; caminhai, portanto, como filhos da luz» (Ef 5, 8). «Todos vós sois filhos da luz e filhos de Deus; não da noite nem das trevas: não durmamos, pois, como os outros, mas vigiemos e sejamos sóbrios» (1Ts 5, 5-6).

O sacerdote deve resplandecer pela ciência sagrada, como o sol entre as estrelas… Deve ser um farol de luz para os navegantes, que os salve de naufragar em meio à noite e à caligem do século e lhes indique o caminho para o porto da salvação. A vida do justo é comparada pelo Sábio ao sol que nasce e cresce até alcançar o meio-dia (Pr 4, 18). Ora, se o sacerdote não for justo, quem o deverá ser? Mas, se é justo, espalhe torrentes de luz, isto é, de sabedoria. Foi precisamente para o sacerdote que também foi proferida aquela sentença dos Provérbios: «Considera atentamente o rosto do rebanho e conhece as tuas ovelhas» (Pr 27, 23). A prática desse dever está contida nestas palavras do Salvador: «Eu conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem» (Jo 10,14); mas, para examinar, considerar e conhecer, é necessária ciência e doutrina. Por isso, São Gregório escreve: Que é o coração de um sacerdote, senão a arca do testamento, na qual se conservam as tábuas da lei, porque nela vigora a doutrina espiritual? (122). E São Jerônimo exorta o sacerdote a amar a ciência das Escrituras, como antídoto contra o amor carnal (Epist. XLIII).

O Senhor diz a todo sacerdote, como outrora a Moisés: «Quanto a ti, permanece comigo, e eu te ensinarei os meus mandamentos, as minhas cerimônias e os meus juízos, os quais depois ensinarás ao povo, para que os cumpra» (Dt 5, 31). Gedeão armou seus soldados com trombetas e vasos vazios de barro, contendo lâmpadas acesas (Jz 7,16). Ouvi o comentário que Orígenes faz disso: «Notai que os soldados escolhidos por Deus combatem com lâmpadas; e assim também Jesus Cristo armou os seus Apóstolos, quando lhes disse: Cingi os vossos rins e tende nas mãos lâmpadas ardentes (Lc 12, 35). O soldado de Jesus Cristo deve combater com essas lâmpadas ardentes, resplandecendo pela luz da ciência e das obras. Armados com essas lâmpadas, dispersamos e vencemos os nossos inimigos, por numerosos que sejam. Façamos de modo que, nesta guerra, nos precedam a luz das nossas obras, a virtude da nossa ciência e a pregação da palavra divina (123). Aqueles querubins de que fala Ezequiel (I, 10), e que são o tipo dos Apóstolos e dos sacerdotes, apresentavam quatro faces: uma de homem, uma de leão, uma de boi e uma de águia. Nessas quatro faces, Álvarez reconhece quatro qualidades que devem adornar um ministro do Evangelho: deve ser leão, para rugir contra os delitos e fazer ouvir o trovão das vinganças divinas; homem, para saber compadecer-se das fraquezas e misérias do pecador; boi, para suportar o peso do ministério; águia, para contemplar as coisas celestes e desprezar as terrenas (In Ezech.).

Oh! Quisera o céu que, a respeito dos sacerdotes, nunca se tivessem de ouvir aquelas lamentações de Isaías: «Onde estão os sábios? Onde estão aqueles que ponderam as palavras da lei? Onde os mestres dos pequeninos? … Os guardiões do redil são todos cegos e sem inteligência; são cães mudos que não sabem ladrar, não veem senão fantasmas, dormem e se comprazem em sonhos» (Is 33,18; 56,10). Ah! Fossem todos do grupo daqueles de quem Deus diz: «Eu vos darei pastores segundo o meu coração, e eles vos alimentarão de ciência e de sabedoria» (Jr 3,15). Que felicidade para os povos! Que triunfo para a religião, se todos os sacerdotes pudessem dizer: Em mim repousa o espírito do Senhor; ele me ungiu com a unção divina, enviou-me para anunciar o seu Evangelho aos pobres, reanimar o coração dos abatidos, levar a luz aos cegos e a liberdade aos cativos; para consolar os aflitos, enxugar as lágrimas dos aflitos e transformar o seu pranto em alegria, a cinza de suas cabeças em coroa e a veste de luto em trajes de festa (Is 61, 1-3). Que honra para os sacerdotes, se em seu louvor se pudesse dizer: Serão chamados árvores da justiça e rebentos da glória do Senhor. Eles semearão de edifícios os lugares desertos, reerguerão as antigas ruínas e encherão as cidades abandonadas (Is 61, 3-4). Mas que desventura para o povo e que terrível juízo para o sacerdote, se, ao contrário, se tivesse de dizer: «Porque os pastores foram insensatos e não buscaram o Senhor, por isso permaneceram sem inteligência, e o seu rebanho foi disperso» (Jr 10, 21).

O sacerdote deve ser todo olhos e todo inteligência; tanto que Santo Ambrósio chama os sacerdotes de pupilas da Igreja, por meio das quais todo o corpo recebe a luz (De Dignit. Sacerd. c. VI); mas, se os olhos dormem, todo o corpo dorme; ora, que acontece, pergunta Jesus, quando um cego guia outro cego? Ambos caem no fosso (Mt 15, 14). «Os lábios do sacerdote, ordena Deus, devem conservar a ciência, e de sua boca o povo deve aprender a lei; porque ele é o enviado do Senhor dos exércitos» (Ml 2, 67).

«Por isso presides, ó sacerdote, diz São Bernardo, para seres útil. Três deveres principais pertencem ao pastor: a bondade, o ensino e a ciência; a bondade atrai, o ensino corrige, a ciência alimenta; a bondade torna amável, o ensino imitável, a ciência ensinável (124). Certo dia, perguntaram a São Domingos quais eram as ocupações de sua Ordem, e ele respondeu: São três, compreendidas neste versículo do Salmista: «Fazei-me, ó Senhor, conhecer o bem; ensinai-me a sabedoria e a ciência» (In Vita).

13. O SACERDOTE DEVE SER HOMEM DE ORAÇÃO

«Todos os dias o sacerdote, deixando de lado qualquer outro negócio, deve dedicar-se somente a Deus por meio da oração e da meditação (125)», assim ordenava o Papa São Silvestre; e esse seu preceito se funda no mandamento e na prática dos próprios Apóstolos. Com efeito, entre as razões pelas quais se decidiram a instituir os diáconos, a principal foi esta: desse modo, livres dos cuidados temporais, teriam maior disponibilidade para dedicar-se continuamente à oração e à pregação: ― Nos vero orationi et ministerio verbi instantes erimus (At 6, 4); São Gregório comenta: «para haurir, na quietude da contemplação, aquilo que depois pudessem derramar sobre os povos (126)».

São Paulo, despedindo-se dos sacerdotes de Éfeso, diz-lhes que os recomenda a Deus e à palavra da graça daquele que tem poder para edificar e dar a herança a todos os que foram santificados (At 20, 32). Aos Colossenses assegura que ele e seus companheiros Apóstolos sempre rezam por eles; que nunca cessam de suplicar a Deus por eles e de pedir que sejam repletos do conhecimento da vontade de Deus, em toda sabedoria e inteligência espiritual; a fim de que vivam de modo digno de Deus, esforçando-se por agradar-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus (Cl 1, 3, 9-10). Aqui está indicado o dever e traçado o objeto das orações que os sacerdotes do povo fiel devem fazer.

E como não será a oração a principal obrigação dos sacerdotes da nova lei, quando era dever tão estrito para os sacerdotes da antiga Aliança! «Aproxima-te do altar, disse Moisés ao sumo sacerdote Aarão, e reza por ti e pelo povo» (Lv 9, 7). «Chorem, diz Joel, prostrados entre o vestíbulo e o altar, os sacerdotes, ministros de Deus, e digam: Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo» (Jl 2, 17). Onias disse em visão a Judas Macabeu, falando de Jeremias que lhe aparecera: «Este é o amigo dos nossos irmãos e do povo de Israel; é ele quem reza pelo povo e por toda a santa cidade» (2Mc 15, 14). Por isso, segundo São Bernardo, são poderosos em palavras e obras aqueles sacerdotes que são fervorosos e assíduos na oração (Serm. de Trib. Ordin.).

14. ESPÍRITO DE OBEDIÊNCIA NECESSÁRIO AO SACERDOTE

«Eu desci do céu, disse Jesus Cristo, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. Ora, esta é a vontade do Pai: que nada se perca de tudo o que ele me deu» (Jo 6, 38-39). O sacerdote nunca deve esquecer-se destas palavras, nem jamais cessar, por um instante sequer, de praticá-las, seguindo os passos de Cristo… E, quando os seus superiores lhe ordenarem algum sacrifício penoso, lembre-se do cálice de amargura bebido pelo Salvador no jardim das oliveiras e das palavras que então dirigiu a Deus Pai: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice; seja afastado. Todavia, não se faça como eu quero, mas como tu queres» (Mt 26, 39).

«Obedecei aos vossos superiores, inculca São Paulo, e sede-lhes submissos; para que, velando eles por vós, como é seu dever, pois hão de prestar contas das vossas almas, o façam com alegria e não de má vontade; pois isso não vos seria útil» (Hb 13, 17). Se essas exortações dizem respeito aos fiéis em relação aos seus sacerdotes, dizem respeito igualmente aos sacerdotes em relação aos seus superiores. Verdadeira obediência mostrava o Apóstolo quando dizia: «Sei que tribulações e cadeias me esperam em Jerusalém; mas não recuo de ir para lá e não temo coisa alguma do que me possa acontecer, contanto que cumpra o encargo que me foi imposto, o ministério que Cristo Jesus me confiou» (At 20, 23-24).

«Sê submisso ao teu bispo, escrevia São Jerônimo a Nepociano, e ama-o como ao pai da tua alma. Quanto aos bispos, saibam que são sacerdotes, não senhores; honrem os clérigos, para que também os clérigos deem aos bispos a honra que lhes é devida (127)». «Prometeste obediência ao teu Prelado por causa de Deus e do reino dos céus, acrescenta São Boaventura; portanto, já não pertences a ti mesmo, mas àquele a quem te vendeste; por isso, já não podes agir segundo a tua vontade, mas deves regular-te segundo a vontade dele. Com efeito, ele é senhor da tua vontade, e tomar uma coisa alheia contra a vontade do senhor é furto; ora, o ladrão não entra no céu (128)».

15. DESINTERESSE DO SACERDOTE

«Quando eu for elevado da terra, disse Jesus Cristo, atrairei tudo a mim» (Jo 12,32). O sacerdote desapegado das coisas terrenas, desinteressado e benfazejo conquista os corações, acorrenta as almas e as conduz ao céu. Para obter esse efeito de desapegar os Apóstolos dos bens mundanos, o Redentor ordenou-lhes que não levassem consigo nem saco, nem bolsa, nem calçado (Lc 10,4); e o Apóstolo escrevia a Timóteo: «Ninguém que combate por Deus se envolva nos negócios e interesses do século, se quer agradar àquele a quem se consagrou» (2Tm 2,4).

São Bernardo observa que Jesus disse: Apascenta as minhas ovelhas, e não as tosquie (Declam. c. 2, n. 12). O sacerdócio é o comércio das almas para o céu, diz Santo Ambrósio, não um negócio de orgulho (In cap. I Isai). «Recebam os pastores do povo o necessário para seu sustento, escreve Santo Agostinho, mas esperem do Senhor a recompensa de seus trabalhos; porque o povo não está em condições de recompensar os serviços daqueles que o servem na caridade do Evangelho (129)».

«Se os meus não conseguirem dominar-me, canta o Salmista, serei sem mancha e me purificarei de um grande delito» (Sl 18,14). 1° O sacerdote avarento peca, e seu pecado é mais grave que o dos leigos; porque ele, por especial profissão, deve ocupar-se de Deus e das coisas celestes, e desprezar as terrenas. Ele disse: O Senhor é a porção da minha herança; ora, se Deus é a sua porção, por que desejar outras partes sobre a terra? 2° A experiência demonstra que os bens dos sacerdotes, quando passam às mãos dos leigos, bem depressa se dissipam; os herdeiros os desperdiçam e devoram; Deus assim o permite como castigo do sacerdote avaro e dos herdeiros gananciosos… 3° O sacerdote avaro dá enorme escândalo na Igreja de Deus; mostra que zomba do Evangelho, porque nada inculcou Jesus Cristo com tanto ardor, nem praticou com tanta severidade, quanto o desapego dos bens do século… 4° O ministério do sacerdote avaro é estéril e nulo; ao passo que benéfico e fecundíssimo é o do sacerdote desinteressado e liberal…

Lemos na Sagrada Escritura que Deus disse a Aarão, chefe dos sacerdotes: Vós não possuireis nada na terra dos filhos de Israel e não tereis nenhuma parte com eles; eu sou a vossa parte e a vossa herança no meio dos filhos de Israel (Nm 18,20). A mesma coisa diz o Eclesiástico: «O sacerdote não deve herdar nada da terra das nações; não tem parte no meio de seu povo, porque o Senhor é a sua porção e herança» (Eclo 45,27). Ouçam e meditem estas palavras os sacerdotes da nova lei, porque foram escritas mais para eles do que para os filhos de Aarão… Para vós, ó sacerdotes, a vossa herança, o vosso patrimônio é Deus, herança magnífica, patrimônio celeste e divino; ora, por que desejar outro, terrestre, vil, caduco? por que antepor a terra ao céu, o ouro a Deus? Vós vos mostrais judeus e não cristãos, antes piores e mais degradados que os próprios judeus, almas curvadas ao chão e inúteis para o céu! Ouvi o que diz Isaías: «Os teus príncipes (os sacerdotes) tornaram-se infiéis, avarentos, cúmplices dos ladrões, amam os presentes» (Is 1,23). «Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos, clama Ezequiel. Não devem acaso os pastores apascentar os seus rebanhos? Vós comíeis o leite e vos cobríeis com as lãs» (Ez 34,2-3).

16. DANO QUE A TIBIEZA CAUSA AO SACERDOTE

«Tende cuidado, dizia São Paulo aos sacerdotes de Éfeso, de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual Deus vos constituiu para governar a sua Igreja, que ele adquiriu com o seu sangue (At 20,28). Nós corremos em auxílio daquele que cai nas mãos dos malfeitores, daquele que desaba sob um peso, daquele que naufraga ou cai no fogo; e depois não movemos sequer um dedo para socorrer uma alma que precipita-se no inferno! … Este seria verdadeiramente o caso de repetir com São Gregório Papa: «O mundo transborda de sacerdotes; contudo, é raro encontrar um bom ceifeiro na messe de Deus; porque assumimos o ofício sacerdotal, mas pouco ou nada nos preocupamos em cumpri-lo (130)».

O Apóstolo das gentes impõe aos sacerdotes, na pessoa de Timóteo, o dever de não negligenciar, isto é, de não deixar inerte e infrutífera a graça que receberam na ordenação sacerdotal (1Tm 4,14). São Gregório Papa não hesita em afirmar que o sacerdote mata aquela alma que, por seu culpável silêncio, deixa perder-se. Tantas almas matam os sacerdotes quantas veem cair nos laços do pecado e da morte sem que se comovam e levantem a voz; pois a culpa do pecado da ovelha é atribuída ao pastor que, por negligência ou tibieza, se calou. Para que, portanto, não participe da culpa da ovelha e não se perca com ela, é preciso que se livre de seu torpor, vigie e se oponha às obras más, segundo o que está escrito nos Provérbios (6,3-4): Corre, apressa-te, desperta o teu amigo, nega o sono aos teus olhos, não feches as pálpebras (131). Diz São João Crisóstomo: «Se doze homens já foram suficientes para fazer com que o fermento da fé fermentasse em quase todo o mundo, pensa quão grande é a nossa preguiça e covardia, nós que, tendo já crescido em tão grande número que deveríamos bastar para mil mundos, nem sequer conseguimos terminar a conversão daqueles poucos povos que ainda restam (132)». Também São Bernardo adverte que as culpas dos inferiores, com razão, não podem ser atribuídas a ninguém mais que aos sacerdotes e bispos tíbios e negligentes (133): os quais, como diz São Pedro Damião: «Ambicionam ser os primeiros, mas não se preocupam em tornar-se úteis» (Lib. 2, epist. II).

Gedeão dispensou de seu exército, 1° todos os tímidos, os covardes; assim Jesus Cristo rejeita, como soldados vis e indignos, aqueles sacerdotes que, demasiado apegados a si mesmos, não levam a sua cruz, que, exagerando a própria fraqueza, se entregam à indolência e à tibieza… 2° Mandou de volta para casa aqueles que haviam bebido dobrando o joelho; assim Jesus repele de si aqueles sacerdotes que, cheios de frieza e pusilanimidade, se curvam para as coisas terrenas, a elas se apegam e nada fazem pelas almas. É destes que Deus fala em Ezequiel: «Ai de vós, porque não apascentastes o meu rebanho, não curastes a ovelha enferma, não fortalecestes a fraca, não enfaixastes a ferida, não levantastes a caída, não procurastes a perdida. E os meus cordeiros dispersaram-se, porque não tinham pastor» (Ez 34,3-5). Estes são aqueles pastores dos quais escreve São Gregório Magno: «Os pastores que se contentam em ensinar, mas levam vida tíbia, matam os seus ouvintes, por não fazerem, por preguiça, aquilo que pregam, ainda que os alimentem com a palavra; e sufocam, com a negligência, aqueles que parecem nutrir com o leite da palavra (134)».

Deus ameaçou entregar aos povos, como castigo deles, semelhante raça de sacerdotes. «Suscitarei sobre a terra, diz o Senhor, um pastor que não cuidará das ovelhas abandonadas, que não procurará as perdidas. Pastor inútil, que abandona o rebanho» (Zc 11,16-17). Neste caso se cumpre aquela imprecação de Oseias: «Dá-lhes, ó Senhor — mas o que lhes darás? — entranhas estéreis e seios secos» (Os 9,14). Isso acontece com os pregadores, os pastores, os prelados, os confessores e todos aqueles que devem gerar juntamente com Deus. Pois, quando se esforçam por cumprir o seu ministério por puro zelo da glória de Deus e da salvação das almas, resplandecem pelo número e pelas virtudes de seus filhos espirituais; mas, se buscam a si mesmos, se desejam o dinheiro, se amam as comodidades e o repouso, bem depressa suas entranhas se tornam estéreis e os seios da graça secam-se; de modo que já não podem nem gerar filhos espirituais para Jesus Cristo, nem amamentar e criar os que já foram gerados, como precisamente insinuou o Redentor com estas palavras: Quem não permanece em mim será cortado como ramo seco e lançado ao fogo para arder. Assim como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer unido à videira, assim também vós nada podeis fazer se não permanecerdes em mim e comigo (Jo 15,4-6). Pois toda a seiva e todo o vigor da graça, pelos quais vivemos, crescemos, nos fortalecemos e produzimos frutos, provêm-nos de Jesus Cristo.

17. DO PECADO DE INCONTINÊNCIA NO SACERDOTE

Se é verdadeira a regra geral de que o ensinamento dado por meio de bons costumes é puro e eficaz, e de que os discursos e pregações daquele que tem má conduta são sopro desperdiçado, frases espalhadas ao vento, tanto mais isso acontece quando aquele que ensina deixa transparecer em sua vida manchas de incontinência e luxúria. A língua impura macula o Evangelho que prega. Por isso, com sensatez, o Papa São Gregório observa que aquele que quer corrigir os vícios alheios deve ser o primeiro a estar livre deles: porque o olho obstruído pela poeira não pode enxergar bem a mancha que está no corpo; e uma mão suja de lama não pode limpar uma veste das nódoas. Davi, homem de sangue, não pôde, por proibição do Senhor, erguer um templo a Deus. Quem se macula com o pecado carnal deve envergonhar-se de ensinar e conduzir espiritualmente as almas dos outros (135).

À incontinência mais do que nunca se aplica a sentença de Tertuliano: «É preciso corroborar com a autoridade de uma vida a força do ensinamento, para que as palavras não se tornem motivo de vergonha, por não serem apoiadas pelas boas obras (136)». Com efeito, como sentencia Santo Isidoro: «Se a pureza faz o sacerdote, a impudicícia destrói a dignidade do sacerdote» (Lib. 3, epist. LXV). E somente aqueles, diz Clemente de Alexandria, são verdadeiros sacerdotes de Deus, que levam uma vida pura (Strom. Lib. III).

Ninguém pode, diz Santo Ambrósio, fazer-se médico dos outros se antes não purificou o próprio coração de toda mancha de pecado. Comece, pois, o sacerdote por estabelecer a paz em si mesmo, para que possa dá-la aos outros. Como poderá ter ânimo para se pôr a purificar os corações alheios, se antes não purificou o seu? (137). «Ó sacerdotes luxuriosos, clama São Pedro Damião, vós sois as vítimas do demônio, destinadas à morte eterna, e o demônio de vós se alimenta e engorda como de iguarias deliciosíssimas. E como podeis vós, que pregais a castidade, não corar de serdes vis escravos do vício impuro? (138). Não viola ele, o impudico, o templo de Deus? — exclama em outro lugar o mesmo Santo; ah! não convertais em vasos de ignomínia os vasos consagrados a Deus (139)». E não é coisa indigna, diz o Papa Inocêncio II, que sejam escravos da impureza aqueles que devem ser o templo e o tabernáculo do Espírito Santo? (140)».

Os povos mostram-se escandalizados e contemplam horrorizados um sacerdote incontinente e luxurioso: em vez de lhes levar auxílio, ele é para eles motivo de vergonha, de confusão e de morte. Com toda a razão o Papa Inocêncio III estabelecia que ninguém devia ser admitido às ordens sacras se não fosse virgem ou de castidade longamente comprovada (141); e São Gregório Papa queria que aquele que caísse em pecado carnal depois de receber as ordens sacras fosse privado do exercício de sua ordem, de modo que não mais se aproximasse do altar (142). E, de fato, os sacerdotes impuros, como diz Clemente de Alexandria, insultam, ultrajam e, tanto quanto deles depende, conspurcam e maculam o próprio Deus, querendo associá-lo às suas impurezas (143).

Este é o lamento que fazem muitos outros Santos Padres: «Quem seria tão ímpio, diz Santo Agostinho, a ponto de subir ao altar com as mãos sujas de lama?… As mãos que se banham no sangue de Cristo jamais se manchem com a imundície do pecado (144)». «Ó sacerdote, exclama São Pedro Damião, tu que deves oferecer a santa vítima, não te imoles primeiro como vítima ao espírito maligno (145)». «Como pode ser, diz horrorizado São Bernardo, que sacerdotes impuros ousem manusear as carnes do Cordeiro imaculado e banhar as mãos no sangue do Salvador? (146)». Frases ainda mais enérgicas e terríveis emprega São Pedro de Blois: «Quem pronuncia as palavras sacramentais com língua impura cospe no rosto do Salvador; e quando põe a hóstia santa na boca infame, lança-a numa cloaca (147)». «Quando um sacerdote, escreve São Gregório Magno, se encarrega do cuidado de um povo, ele é como um médico que se aproxima do leito de um enfermo. Ora, se a paixão da carne ainda arde nele, com que rosto se disporá a levar remédio ao ferido, ele que traz no semblante a chaga da luxúria? (148)».

A respeito dos sacerdotes incontinentes podemos dizer com o Profeta: «Como assim? O ouro se enegreceu e se obscureceu o seu vivo esplendor! As pedras do santuário jazem espalhadas no início de todas as ruas. Aqueles que viviam delicadamente caíram exaustos pelas vias públicas; aqueles que banqueteavam regaladamente na casa do Senhor lançaram-se a saciar-se sobre as imundícies» (Lm 4, 1-5).

«Com quão zeloso cuidado não deveriam guardar a castidade aqueles que todos os dias se alimentam das carnes sacratíssimas do Cordeiro?», exclama Cassiano (149). A pureza sacerdotal deve estar isenta, como escreve São Jerônimo, não somente de toda ação desonesta, mas ainda de todo olhar indecente (150); mais ainda, é necessário, diz o Crisóstomo (151), que o sacerdote seja tão puro que, se fosse transportado ao céu, pudesse sentar-se honrosamente em meio às hostes angélicas. Por isso São Paulo recomendava a seu discípulo Timóteo que se conservasse inteiramente puro (1, 5, 22); e Santo Inácio, mártir, escrevia ao diácono Honório: Conserva-te puro, sendo tu a casa de Deus, o templo de Jesus Cristo (Epl. X, ad Honor. diac.).

Além disso, quem mais do que o sacerdote precisa manter-se em comunicação e estreita união com Deus? Ora, isso não se alcança melhor do que pela castidade, a qual, purificando a mente dos homens, faz com que vejam a Deus (152), segundo a formal promessa feita por Jesus Cristo com estas palavras: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8). Ao contrário, pela incontinência o homem se afasta enormemente de Deus (153); assim que se entrega à impureza, começa a desviar-se da reta fé, escreve Santo Ambrósio (154). Tremendo castigo reservado especialmente ao sacerdote incontinente! Ouçamos, tremendo, estas espantosas palavras de São Pedro Damião: «Todo aquele que arde na chama da concupiscência carnal e não teme subir ao santo altar será consumido pelo fogo da vingança divina (155)». E que âncora de esperança resta àquele que, admitido à mesa celeste, não somente não comparece vestido com o esplêndido traje espiritual, mas se apresenta espalhando de longe o fedor da pestilenta luxúria? (156).

São Tomás ensina que a impureza gera a cegueira do espírito, o ódio de Deus, o amor do século presente e o horror do futuro (2-2, q. 153, art. 4). «Os vícios da carne, diz em outro lugar este santo Doutor, sufocam o juízo da razão, porque a luxúria arrasta a alma inteira para o prazer (157)». De modo que São João Crisóstomo não hesita em afirmar que «nem advertências, nem conselhos, nem qualquer outro meio servem para salvar uma alma afundada na paixão impura (158)». E assim acontece pela razão já observada por Santo Agostinho: nenhuma outra paixão, como esta, transforma-se tão facilmente em hábito, bastando que se lhe permita lançar raízes; e, não se resistindo ao hábito, este logo se torna uma necessidade (159). «Ah! virá aquele dia, ou melhor, aquela noite, exclama São Pedro Damião, em que esta paixão brutal se converterá em pez, que servirá para alimentar aquele fogo inextinguível que vos devorará as entranhas eternamente (160)».

18. DO PECADO DE ESCÂNDALO NO SACERDOTE

Ouvi, ó sacerdotes escandalosos, os terríveis juízos dos Santos Padres: «As culpas dos inferiores têm sua origem mais frequente e principal nas culpas dos superiores, diz São Bernardo (De Consider. lib. II); e a ruína moral do povo deriva da conduta escandalosa do sacerdote (Id. in Converso S. Pauli). «Os maus sacerdotes, diz São Gregório Magno, são a causa da perdição dos povos (161), os quais julgam permitido aquilo que veem seus pastores fazerem e, seguindo o exemplo destes, entregam-se mais desavergonhadamente ao vício (162)».

O Senhor diz ao pecador escandaloso: «Por que te arrogas o ofício de anunciar minhas vontades? Como ousa tua boca fazer-se pregadora da minha palavra? Tu, que odeias a ordem e lançaste para trás das costas os meus mandamentos! Tu, que escolheste tua porção com os adúlteros!» (Sl 49, 16-18). A mesma linguagem emprega São Paulo, que assim investe contra um desses homens: «E tu, que ensinas os outros, não ensinas a ti mesmo? Tu pregas que não se deve roubar e és o primeiro a roubar; proíbes o adultério e tu o praticas; dizes abominar os ídolos e cometes sacrilégio; glorias-te de pertencer à lei e desonras a Deus violando a lei. Com efeito, por causa de vós, o nome do Onipotente é blasfemado entre as nações» (Rm 2, 21-24). «Ensinar retamente e viver escandalosamente, que outra coisa é, diz São Próspero, senão condenar-se pela própria boca? (163)». «Coisa monstruosa, diz São Bernardo, é unir uma posição elevada a um espírito ignóbil; uma cadeira respeitável a uma vida plebeia; uma língua grandiloquente a uma mão ociosa; um semblante grave a obras levianas; uma face severa a uma boca burlesca: muitas palavras e nenhum fruto, grande autoridade e nenhuma firmeza (164)». Por isso o mesmo Doutor observa, chorando, em outro lugar: «Um grande número de fiéis, vendo a má conduta dos sacerdotes escandalosos, sente vacilar e até, não raro, perder a fé; já não evitam os vícios, desprezam os sacramentos, não têm mais horror do inferno nem desejo do paraíso (165)».

O sacerdote escandaloso é semelhante a um poço cujas águas lavam, mas que ele próprio precisa ser limpo; São Gregório compara-o à água batismal, que purifica do pecado original e, entretanto, ela mesma vai perder-se numa cloaca. «Não há coisa mais vergonhosa, escreve Salviano, do que sentar-se em lugar altíssimo e rastejar baixíssimo pela vileza dos costumes (166)». «Que fará o leigo, pergunta Pedro de Blois, senão aquilo que vir fazer a seu pai espiritual? (167)». Oh, como é justa aquela observação de Santo Agostinho: diante dos sacerdotes escandalosos, os povos podem responder aos sacerdotes bons que os repreendem por seus desvios: Por que vindes falar-nos de correção? Afinal, os leigos não fazem outra coisa senão aquilo que veem o sacerdote fazer! E vós quereis obrigar-me a agir de modo diferente dele? (168). Com efeito, diz São Jerônimo (169): «Todos julgam poder fazer aquilo que veem o sacerdote fazer. Guardai-vos, portanto, de jamais fazer algo que possa induzir os leigos a pecar».

Quando o pastor caminha em meio aos precipícios, daí resulta que também o rebanho neles se precipite, observa São Gregório Papa; e exclama: «Ó céu! Se pecamos nós, que devemos deter o curso dos pecados, pensais no que acontecerá ao rebanho quando os pastores se tornam lobos. Que intercessor restará para aquele que se lança por si mesmo no abismo, transgredindo a lei, quando, em razão de seu ofício, deveria interceder pelos outros? (170)». E que valor terá diante de Deus a intercessão daquele sacerdote que é inimigo de Deus? «Pensa, diz São Bernardino de Sena, que foste constituído para governar, não para roubar; para dirigir, não para devastar; ministro, não déspota; dispensador, não dissipador ou usurpador; tutor, não esbanjador (171)». «Jamais se viu, escreve São João Crisóstomo, alguém, estando no vale, poder gritar sobre o monte; ou fala de onde estás, ou permanece onde falas. Se tua alma rasteja pela terra, como podes discorrer sobre o céu? É melhor fazer e não ensinar do que ensinar e não fazer; pois aquele que pratica boas obras pode muito bem corrigir alguém com seu bom exemplo; mas aquele que ensina e não age não somente não corrige ninguém, como também escandaliza muitos. Com efeito, como alguém não se sentiria fortemente tentado a pecar ao ver pecarem os próprios Doutores da justiça? (172)».

Elias fechou o céu, reteve a chuva e causou a fome em Israel durante três anos. Esse Profeta assim agiu para castigar os judeus culpados; e assim age, no âmbito espiritual, o sacerdote escandaloso, para a ruína das almas. Esta é uma observação de São João Crisóstomo (Hom. in lib. Reg.). Davi escreveu uma carta a Joab, na qual lhe ordenava que procurasse um meio de eliminar Urias; e essa carta foi entregue a Joab pelo próprio Urias (2Sm 11, 14). Bela figura, diz São Tomás, dos sacerdotes instruídos que, enquanto sabem e ensinam, mas não praticam, carregam eles mesmos as cartas de sua morte. São cartas sem selo, isto é, ciência não corroborada pela boa conduta; por isso não se lhes dá crédito (173). Oh, como se aplicam bem a esses homens aquelas palavras da Sagrada Escritura: «Como caiu o homem poderoso que salvava o povo de Israel?» (1Mc 9, 21). As almas são negligenciadas, abandonadas; gemem na dor, definham na miséria, morrem de exaustão… Sacerdote escandaloso, tu podes, com toda a verdade, fazer tuas estas palavras de Isaías: «Eu profanei a minha herança» (Is 47,6). Profanei o meu Deus, a minha alma, a Igreja, o céu, as almas que me haviam sido dadas em herança; herança que eu devia cuidar e que perdi! …

Assim raciocina São Bernardo: «Se o Senhor deu o próprio sangue pelo resgate das almas, não vos parece evidente que ele sofre perseguição mais cruel daquele que, com seus escândalos, lhe rouba as almas por ele redimidas do que daquele que foi a causa do derramamento de seu sangue? (174)». É a esses que o Senhor alude quando se lamenta, pela boca de Jeremias, de que maus pastores devastaram sua vinha e pisotearam sua herança, transformando em árido deserto a sua alegre e deleitosa campina (Jr 12, 10-11). A eles se dirigem aquelas repreensões do mesmo Profeta: «Os guardiães da lei não conheceram coisa alguma, diz o Senhor; os pastores violaram os meus preceitos; falaram em nome de Baal e correram atrás dos ídolos… O meu povo foi um rebanho perdido: os seus pastores o enganaram e o conduziram ao extravio por montes áridos; depois o devoraram» (Jr 2,8; 50, 6-7).

Quando uma árvore amarelece, seca e morre, vê-se que suas raízes estão corroídas ou apodrecidas; assim também, se encontrardes um povo irreligioso, podeis concluir com toda a segurança que teve ou tem pastores e sacerdotes escandalosos. «Se um homem do povo, diz São Bernardo, se desvia, perece ele sozinho; mas o erro de um chefe envolve muitos e causa dano a tantos quantos estão sob sua autoridade (175). Os sacerdotes que se entregam ao mau caminho arrastam consigo os povos, matando e matando-se ao mesmo tempo (176)». «Cremos, pregava São Gregório Magno, que são, por seus escândalos, autores da ruína e da morte do povo aqueles que deveriam conduzir suas almas à vida (177)». Com efeito, que bem ainda se poderá esperar de tal raça de sacerdotes? «Por acaso já vistes, pergunta São Bernardo, homem tão insensato que vá buscar água pura no meio de uma cloaca? Como julgarei apto a dar-me bons conselhos alguém que vejo seguir, por sua própria conta, os piores? (178)».

Segundo o parecer do mesmo Padre, não há peste mais funesta na Igreja de Deus, principalmente entre as almas menos robustas na fé, do que os sacerdotes ignorantes e viciosos (179); por causa de seus costumes perversos, o santuário de Deus é arruinado (180); e a lei cristã se torna objeto de zombaria e de insultos dos ímpios (181). «Nada causa dano tão grave à causa de Deus, repete São Gregório, quanto o sacerdote que, colocado para dar bom exemplo, escandaliza o povo com sua má conduta (182)»; ele se torna, como diz Santo Efrém, anzol envenenado que captura as almas (183). Mas considere, diz São Gregório, que ele se torna réu de tantos homicídios e merecedor da morte de tantos quantos são os maus exemplos que dá ao povo (184).

São Bernardo, dirigindo-se aos sacerdotes, irrompia nestes lamentos: «Muitos há hoje católicos em suas pregações, hereges em suas ações. Aquilo que aqueles faziam com dogmas errôneos, estes fazem com seus costumes corrompidos; com esta diferença: que o mal causado pelos escândalos dos sacerdotes é muito mais grave que o produzido pelos hereges, porque as obras têm muito maior eficácia que as palavras (185)». Por isso, São Pedro de Blois advertia, chorando, que, por causa dos pecados e da negligência dos sacerdotes, as heresias haviam lançado raízes, e a Igreja de Deus se tornara objeto de escárnio, de opróbrio e de desprezo (186); e São Jerônimo constatava que, examinando as histórias antigas, havia concluído que nunca por outros fora a Igreja mais ferozmente atacada e mais cruelmente dilacerada, nem os povos mais seduzidos, do que pelos maus sacerdotes (187). Com efeito, como adverte São Clemente, a ovelha que não segue o bom pastor corre o perigo de cair nas garras do lobo; mas aquela que segue um mau pastor tem certa a sua morte, porque é devorada (188); pois não há no mundo, segundo a sentença de São Jerônimo, fera mais cruel que um mau sacerdote (189).

19. GRAVIDADE DO PECADO EM UM SACERDOTE

«Grande é a dignidade dos sacerdotes, exclama São Jerônimo, mas grande também é a sua ruína se pecam (190)». Com efeito, pode-se cair de mais alto que do céu? Pois bem, cai do céu, diz São Pedro Crisólogo, aquele que falha nos ofícios celestes (191). Ora, não será queda gravíssima e terrível cair de tão alto? E, de fato, as culpas dos sacerdotes são muito mais enormes que as dos leigos: 1° por causa de seu caráter sagrado; 2° por sua elevação; 3° pelas maiores luzes que possuem; 4° pelos ofícios que exercem; 5° pelas graças mais abundantes que receberam; 6° por causa de sua maior ingratidão; 7° em razão daquilo que os povos têm direito de esperar deles; 8° pelas devastações que o seu pecado provoca. Isso nos dá a razão daquela severidade e exagero excessivos que, à primeira vista, nos parece encontrar nesta sentença de São Bernardo: «As facécias na boca dos leigos são facécias; na boca dos sacerdotes, soam como blasfêmia», e naquela outra do Papa Inocêncio III: «Há não poucas culpas que, para os leigos, são veniais, e, para os clérigos, são mortais» (Serm. in Const. pont.).

20. CASTIGOS DOS MAUS SACERDOTES

«Vós abandonastes o bom caminho, diz o Senhor aos sacerdotes prevaricadores; escandalizastes muitos; tornastes vã a minha aliança. Por isso vos abandonei ao ludíbrio e aos ultrajes do povo» (Ml 2,8-9). É justo que o sacerdote que despreza a Deus, despreza o próprio ministério, despreza a sua alma e despreza os fiéis seja ele mesmo retribuído pelo povo com desprezo. É justo que aquele que desonra e mancha o sacerdócio seja ele próprio feito alvo da vergonha e do vitupério universal. «Ó sacerdotes, continua Deus, que não quereis dar-me ouvidos, que vos recusais a dar glória ao meu nome, que não vos respeitais a vós mesmos, que abandonais a minha vinha; sabei que enviarei sobre vós a miséria e amaldiçoarei as vossas bênçãos» (Id. 2,2).

A vós, ó sacerdotes, são dirigidas estas palavras da Sabedoria: «Ouvi e instruí-vos, vós que julgais a terra; dai ouvidos, vós que presidis aos povos. O poder vos foi dado pelo Senhor, e a força vos vem do Altíssimo, que examinará as vossas obras e perscrutará os vossos pensamentos; pois vós, sendo ministros de seu reino, não julgastes com equidade, não observastes a lei da justiça, não vos conduzistes segundo a vontade de Deus. Ele vos aparecerá de repente e de modo terrível, porque um julgamento rigorosíssimo aguarda aqueles que presidem. Usar-se-á de misericórdia para com os pequenos, mas os poderosos serão poderosamente atormentados. Aos maiores está reservado um suplício maior» (Sb 6,2-9).

Nos castigos descritos no nono capítulo de Ezequiel, está registrado que Deus quis que os sacerdotes fossem os primeiros a ser punidos (9,6), e também São Pedro adverte que o julgamento deverá começar pela casa de Deus (1Pd 4,17).

«A quem muito foi dado, muito também será exigido», disse Jesus Cristo (Lc 12,48). O leigo não terá de prestar contas senão de si mesmo, mas o sacerdote responderá por todo o povo… «Eu pedirei o sangue dele de tua mão, ó sacerdote», diz Deus pela boca de Ezequiel (Ez 3,18). E em outro lugar repete: «As minhas ovelhas se dispersaram e caíram como presa das feras dos bosques, porque não tinham pastor que as governasse. Por isso, ouvi, ó pastores, o que vos manda dizer o Senhor: Eu venho, eu pessoalmente, a estes pastores, e de suas mãos exigirei o meu rebanho» (Id. 34,5-9). «Ai dos pastores que dispersam, desbaratam, esventram e despedaçam o rebanho das minhas pastagens! Os sacerdotes se mancharam com o seu sangue, e eu vi as manchas em suas vestes e nas paredes de suas casas; por isso, o caminho deles será uma senda de gelo em meio às trevas; serão perseguidos e se chocarão, e eu derramarei sobre eles toda espécie de males» (Jr 23,1,11-12). Que alegria, que festa faz o inferno quando nele chega um mau sacerdote! Pensava certamente neste caso o Salmista, quando ditava aqueles versículos: «Todo o inferno se pôs em movimento para ir ao seu encontro. Todos os príncipes daquela terra de miséria se levantaram de seus tronos para lhe abrir livre passagem até o mais profundo abismo e deixar-lhe o primeiro lugar junto de Lúcifer. Todos, ao vê-lo aparecer, irromperam em gargalhadas e gritos, clamando: Ah! também tu foste ferido como nós; também tu te tornaste semelhante a um dos nossos» (Sl 16,9-10).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.