Sobre Jesus Cristo, o evangelista escreve que ele estava submetido a José e a Maria (Lc 2, 51). Com trinta anos de sujeição aos seus parentes, Jesus quis ensinar-nos que a perfeição da virtude e da religião está principalmente na obediência. O divino Redentor escolheu, diz São Paulo, perder a vida antes que faltar à obediência (Fl 2, 8). Grandes coisas certamente fez e disse o Filho de Deus nos primeiros trinta anos de sua vida, e o Evangelho encerra todas elas nestas três palavras: ― Erat subditus illis, ― Ele estava submetido a eles! Jesus Cristo fazia tudo por obediência: é preciso, pois, dizer que a obediência é de mérito infinito… Tanto mais se considerarmos que ele, embora Filho de Deus, aprendeu essa obediência ao preço de sofrimentos e sacrifícios (Hb 5, 8).
Além disso, quanto Jesus estimava a obediência, podemos ouvi-lo do próprio Jesus: «Meu alimento consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra; procuro a sua vontade, e não a minha; desci do céu não para fazer o que me agrada, mas a vontade daquele que me enviou» (Jo 4, 34; 5, 36; 6, 38). Ele nos dá uma prova heroica dessa obediência no jardim das Oliveiras, quando, em meio a angústias inefáveis, exclama: «Pai, se é do vosso agrado, passe de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a vossa» (Lc 22, 42). Assim cumpriu ao pé da letra o que já havia predito de si pela boca de Davi: «Eis-me aqui: no princípio do livro está escrito a meu respeito que eu faria a vossa vontade; meu Deus, eu o quis» (Sl 39, 7-8). Observemos aqui com Santo Agostinho que, assim como a obediência do segundo homem é mais louvável porque o levou a ser obediente até a morte, tanto mais abominável é a desobediência do primeiro homem, porque foi desobediente até a morte (1). Que maravilha, pois, se a obediência ocupa, em todos os tempos, um lugar esplêndido entre as virtudes dos Santos? …
«Ouve, meu filho, diz o Sábio, as correções de teu pai e não desprezes os mandamentos de tua mãe» (Pr. 1, 8). «Filhos, diz São Paulo, obedecei a vossos pais, no Senhor; vós, servos, obedecei a vossos senhores» (Ef 6, 1, 5). Se São Paulo, como observa aqui o Crisóstomo, ordena com tanto rigor aos servos que obedeçam aos senhores, com quanta maior prontidão e exatidão devemos obedecer a Deus, que nos tirou do nada, nos alimenta e nos veste, nos conserva e nos redimiu! (In Ep. ad Eph.).
Quando Deus faz ouvir a sua voz, é preciso obedecer e não discutir, diz Santo Agostinho (2), isto é, deixar-se mover pela sua vontade, como, segundo a expressão de São Justino mártir, a argila se deixa manusear pelo oleiro (3). Com efeito, como dizia Samuel, «Porventura quer Deus vítimas e holocaustos, e não antes que se obedeça à sua voz? Vale mais a obediência do que todas as vítimas» (1Sm 15, 22).
O grande Apóstolo escrevia a Tito que admoestasse os fiéis e lhes inculcasse que se submetessem aos príncipes e às potestades, que obedecessem à palavra e estivessem prontos para toda boa obra (Tt 3,1). Como se vê, este texto apostólico ordena a obediência para com todos os superiores espirituais e temporais. Com efeito, observa São Lourenço Justiniani: «Assim como um exército sem capitão não tem nenhuma esperança de vitória, e nenhum navio chega ao porto sem um piloto, assim, sem obediência, é impossível que o homem navegue pelo mar da vida sem naufragar nos rochedos (4)». «Muito importa ao homem, diz São Gregório, que ele seja contido em todos os seus movimentos pela lei e sirva como um animal doméstico acorrentado, vivendo sempre conforme as leis eternas (5)».
«Que outra coisa fez Jesus entre nós senão obedecer, para mostrar-nos a necessidade da obediência?», diz o Venerável Beda (Collectan.). «E o que fez Jesus com a sua obediência, pergunta Santo Ambrósio, senão cumprir o preceito da piedade?» (Offic. lib. 3, c. V).
Jesus estabeleceu um rigoroso preceito de obediência para com os superiores eclesiásticos, quando disse aos apóstolos: «Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza» (Lc 10, 16). «Lembrai-vos, diz Clemente Alexandrino, de que, se obedecerdes, tereis a luz eterna; se não obedecerdes, caber-vos-á o fogo (6)».
Os inferiores devem ver em seus superiores a própria pessoa de Jesus Cristo e obedecer a seus mandamentos como se viessem da própria boca do Salvador… «Seja Deus, seja o homem seu representante, diz São Bernardo, aquele que nos dá uma ordem, devemos recebê-la e cumpri-la com o mesmo zelo e reverência. Em tudo aquilo que não se opõe abertamente a Deus, devemos ouvir como Deus aquele que ocupa para nós o lugar de Deus… Se a alma quer reinar sobre a carne, deve primeiro submeter-se ao seu superior; porque encontrará em relação a si o seu inferior tal como ela se comportou com o seu superior, armando-se a criatura para vingar o Criador. Saiba, pois, a alma que tem a carne rebelde contra si que ela não está submetida aos seus superiores (7)». Também Santo Agostinho nos faz observar que a alma racional é senhora do próprio corpo, mas jamais saberá comandar esse seu inferior se ela mesma não servir, com toda a sujeição da caridade, a Deus, seu Senhor (8).
«Obedecei ― escrevia São Paulo aos Hebreus, ― aos vossos superiores e sede-lhes submissos, para que, devendo eles velar por vós, como encarregados de prestar contas de vossas almas, cumpram esse ofício com alegria, e não com pesar, pois isso não vos seria útil» (Hb 13, 17). «Sede submissos a Deus, repete São Tiago, e aos vossos superiores como lugar-tenentes de Deus» (Tg 4, 7).
São Jerônimo assegurava a Rústico que todo mandamento de um superior de mosteiro é salutar para a alma de quem obedece; e advertia-o de que era seu dever obedecer, cumprir as ordens impostas, observar os mandamentos em silêncio, sem pretender julgá-los (Epistola ad Rustic.). Porque, como já advertia São Gregório, não sabe discutir quem aprendeu a obedecer prontamente (9). De acordo com Cassiano, os monges do Egito recebiam as ordens de seus superiores como se tivessem vindo diretamente de Deus e se apressavam em conformar-se a elas sem replicar.
A quem alegasse a excessiva dificuldade que a obediência acarreta, poder-se-ia perguntar se a sua obediência já foi submetida às duras provas às quais foi submetida a obediência de alguns santos personagens do Antigo e do Novo Testamento. De Abraão, por exemplo, lemos que Deus, querendo provar sua obediência, ordenou-lhe que sacrificasse sobre um monte, que lhe indicaria, seu único filho Isaac, amor e delícia de seu coração paterno (Gn 22, 2).
Notai a obediência pronta, absoluta e inteira do bom patriarca! Deus o chama, e ele responde imediatamente: Eis-me aqui ― Adsum. ― Deus lhe manifesta a sua vontade, mas cada uma de suas palavras é um golpe de espada: 1° Toma, não um estrangeiro, mas teu filho…; 2° teu filho único…; 3° teu filho amado…; 4° teu Isaac, isto é, tua alegria…; 5° oferecê-lo-ás em holocausto; não o farás imolar por mão estrangeira”, mas tu, tu mesmo, seu pai, o sacrificarás, cumprirás as funções de sacrificador…; 6° oferecê-lo-ás a mim… Bem poderia ele responder… Onde estão as vossas promessas, ó Senhor, se sacrifico este filho?… mas ele não move os lábios…; 7° oferecê-lo-ás em holocausto, isto é, reduzi-lo-ás inteiramente a cinzas, de modo que não reste nenhuma parte de seu corpo para ti, seu pai…; 8° Tolle, toma-o, não demores em executar…; 9° expõe-te aos incômodos de uma longa viagem e de uma subida penosa, para privar-te do teu único apoio…
A nossa obediência é submetida às mesmas provas às quais já foi submetida a de Jó? …, de Tobias…, da mãe dos Macabeus?.. Temos nós de obedecer a ordens tão severas e tremendas como aquelas às quais Jesus Cristo se submeteu, como cordeiro conduzido ao matadouro? E Maria e os apóstolos, por acaso não tiveram nada de difícil a realizar? «Inclinando a cabeça, diz São Basílio, os apóstolos submeteram-se ao jugo da obediência e, com semblante alegre e ânimo pronto, enfrentaram as praças públicas, as lapidações, os ultrajes, as cruzes e diversos gêneros de suplícios (10)»… Pensemos agora naquilo que se exige de nós e façamos a comparação.
A desobediência de Adão perdeu todos os homens; a obediência de Jesus Cristo salvou a todos. O Papa João XXII diz: «Grande bem é a pobreza, maior é a castidade, mas grandíssima é a obediência: porque a pobreza reina somente sobre coisas exteriores e de pouco valor; a castidade domina sobre a carne; enquanto a obediência comanda sobre o espírito e o coração» (Stor. eccles.).
Excelentíssima virtude é a obediência, porque 1° submete o homem a Deus e, por admirável reciprocidade, Deus ao homem… 2° Oferece a Deus, em holocausto, as faculdades mais nobres do homem, isto é, o entendimento e a vontade, as quais ele renuncia e consagra a Deus na pessoa de seus superiores. Por isso, São Gregório, comentando aquelas palavras de Samuel a Saul: «A obediência é melhor que o sacrifício», diz: «O profeta fala assim porque o sacrifício das vítimas é a imolação de uma carne alheia, enquanto a obediência é a imolação da própria vontade (11)». 3° Tudo o que se faz por obediência adquire um mérito infinito e proporciona grande quantidade de bens. Falando de São Francisco de Assis, São Boaventura escreve que este grande Santo assegurava que a obediência obtém recompensa tão copiosa que aqueles que a praticam não passam um instante sem receber alguma graça… 4° A obediência é a mãe das virtudes; por isso, São Gregório escreve: «A obediência é a única virtude que semeia as demais virtudes da alma e, uma vez semeadas, as conserva (12)». 5° Deus guia de modo certo e seguro aquele que se submete a seus superiores e o conduz diretamente ao porto da salvação. Diz São João Clímaco: «A obediência é uma perfeita abnegação da alma e do corpo, uma morte voluntária; é vida de humildade sem inquietação, navegação sem perigos, sepulcro da vontade; faz-nos semelhantes a um homem que, mesmo dormindo, caminha e avança rumo à meta de sua viagem. Viver na obediência é carregar sobre os outros o próprio fardo, é nadar sustentado pela mão alheia, é ser levado sobre as ondas para que não naufraguemos, mas atravessemos sem risco, pelo caminho mais rápido e mais cômodo, o grande e perigoso oceano da vida» (Grad. IV).
A excelência da obediência manifesta-se no fato de que Jesus preferiu obedecer a viver. Ele se fez obediente até a morte, diz São Paulo, e até a morte de cruz. Mas eis a recompensa que recebeu: «Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo nome, de modo que, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e no inferno» (Fl 2, 9-10).
Quem obedece de boa vontade conquista a benevolência de seus companheiros; procura tornar-se útil a todos e peso para ninguém; é piedoso para com a divindade, bom para com seus semelhantes, reservado para com o mundo; comporta-se como servo fiel diante de Deus, como bom amigo para com o próximo, como senhor de si mesmo… «A obediência, continua São João Clímaco, é uma vida que nada sacrifica à curiosidade e está livre de todo perigo; é desculpa imediata diante de Deus, caminho seguro, renúncia a um julgamento que muitas vezes se engana, renúncia a todo desejo perigoso. Assim como as árvores agitadas pela tempestade se mantêm de pé por meio de raízes firmes e profundas, assim aqueles que, na prática da obediência, são exercitados e provados mantêm sua alma forte e inabalável…».
A obediência é superior aos sacrifícios: 1° porque a obediência é a imolação da vontade, e a vontade do homem supera em valor qualquer outra vítima. «O homem, diz São Bernardo, tanto mais agrada a Deus quanto mais prontamente se imola aos seus olhos com a espada do preceito, reprimindo o orgulho de seu livre-arbítrio (13)».
2° Porque a obediência torna a nossa vontade conforme à vontade de Deus, a qual, santíssima em si mesma, é também forma e regra de toda santidade e virtude. Podem aplicar-se à vontade humana, transformada dessa maneira, as palavras do Senhor: «Tu serás chamada minha vontade» (Is 62, 4).
3° Porque a obediência faz da vontade um sacrifício vivo e contínuo oferecido a Deus, ao passo que os antigos sacrifícios, além de serem somente de carne de animais imolados, não duravam senão alguns instantes. A obediência é um holocausto nobilíssimo, embora místico, que consagra o homem inteiro ao seu Criador. Nesse sacrifício, a vontade é imolada como uma vítima; morre e, entretanto, vive; morre para si mesma e vive em Deus e na vontade divina. Por isso, São Gregório afirma que é maior mérito submeter a própria vontade à vontade alheia do que mortificar o corpo com longos jejuns ou imolar-se com secreto sacrifício por meio da contrição interior. Quem tiver aprendido a cumprir perfeitamente a vontade de seus superiores ultrapassará em méritos e glória no céu aqueles que jejuam e choram (14).
Saber comandar e vencer a si mesmo é a mais excelente, é a mais bela das soberanias: quem obedece com simplicidade e modéstia é digno de comandar. «Dá ouvidos, meu filho, diz Deus nos Provérbios, às correções de teu pai e não desprezes as ordens de tua mãe, para que recebas uma coroa na cabeça e um colar no pescoço» (Pr. 1, 8-9). Esta coroa e este colar são o emblema do ornamento que a obediência traz à alma; ela a torna formosa e a adorna com uma coroa e um colar. Muitas coroas, princípio de graça e de beleza, são prometidas à obediência.
A primeira é a coroa do amor de Deus e do próximo… A segunda é a coroa de todas as virtudes, porque a obediência as torna obrigatórias ou as aconselha. Ela ordena ora atos de religião, ora de sobriedade, ora de mortificação, ora de modéstia, ora de humildade; ora de esmola, ora de caridade. Eis como aquele que se aplica à obediência, no exercício de todas as virtudes, forma para si uma bela e rica coroa, um magnífico colar. O colar pode também significar a prática contínua das virtudes e sua união habitual; e a coroa, o seu valor. O abade João, interrogado por seus religiosos no momento da morte sobre como havia chegado a tão alto grau de perfeição, respondeu: «Eu nunca fiz a minha vontade; nunca ordenei aos outros coisa alguma que eu mesmo não tivesse feito antes» (CASSIAN. De Instit. monach., lib. 5, c. 28). A terceira coroa da obediência é a plenitude, a abundância das graças que Deus, remunerador da obediência, concede ao homem verdadeira e inteiramente obediente… A quarta coroa é a do triunfo celeste e do paraíso.
A obediência é a salvação de todos os fiéis… É a mãe de todos os santos; por ela foram concebidos, dados à luz, amamentados, nutridos e vestidos; por ela crescem, fortalecem-se, sobem e atingem a perfeição. A obediência mostra ao homem o reino dos céus, abre-lho, introdu-lo nele e fá-lo sentar-se no trono. É justo que aquela cabeça que aqui embaixo se curvou sob um jugo voluntário seja erguida e coroada de glória; é justo que o colar da honra adorne o pescoço daquele que, por amor de Deus, acorrentou a própria vontade.
1° A vitória. ― A primeira vantagem da obediência consiste em tornar-nos vitoriosos. Clara e formal é a promessa do Espírito Santo: «O homem obediente contará vitórias» (Pr. 21, 28). E sabeis por que o obediente terá vitórias para contar? «Porque, responde São Bernardo, quando humildemente nos submetemos à voz dos outros, vencemos a nós mesmos no íntimo do coração (15)». Se, com a vossa obediência, vos submeteis plenamente a Deus, à sua lei e à sua vontade, para agradar-lhe em tudo, os vossos sentidos, os vossos apetites, o vosso corpo, os vossos pensamentos, as tentações e a concupiscência se submeterão ao vosso espírito e à vossa vontade; ser-vos-á fácil acalmá-los, e chegareis a dominá-los como Adão os dominou no Éden enquanto obedeceu a Deus. Mas, assim que desobedeceu, imediatamente sentiu a sua carne rebelar-se contra ele, e a concupiscência o dominou. Se vos submeterdes ao vosso superior, tudo o que vos é inferior permanecerá submisso a vós; ao contrário, se vos rebelardes contra ele, tereis rebelde contra vós tudo o que está sujeito a vós.
A propósito de Adão desobediente, observa Santo Agostinho que teria sido injusto se o seu servo, isto é, o seu corpo, houvesse obedecido àquele que não tinha obedecido ao seu Senhor. No castigo daquele pecado, que pena foi jamais infligida à desobediência, senão outra desobediência? (16). Ah!, conclui em outro lugar o mesmo Padre: «só a obediência alcança a palma, só a desobediência encontra punição (17)».
Jesus Cristo, obedecendo ao Pai, e também a Anás, a Caifás, a Pilatos e aos seus algozes, até a morte de cruz, triunfou de tudo: do pecado, da morte e do inferno. A cruz foi o carro triunfal, o trono do Salvador; sobre a cruz ele subiu por obediência, e sobre a cruz derrotou os seus inimigos, e foi proclamado rei…
O obediente cantará vitória 1) sobre o demônio e sobre o inferno… «Quando nos submetemos aos homens por consideração a Deus, triunfamos sobre os espíritos soberbos, diz São Gregório; com as outras virtudes combatemos os demônios, com a obediência os derrotamos. Vencedores, portanto, são aqueles que obedecem, porque, submetendo em tudo a própria vontade à vontade dos outros, comandam os anjos decaídos por desobediência (18)» … Uma das principais razões pelas quais o obediente triunfa sobre os demônios está em que, por meio desta preciosa virtude, descobre as suas ciladas. Daí aquele dito de Santo Antônio: «É útil ao religioso que ele manifeste, quanto possível, todos os seus passos aos superiores, para que se conserve sempre no caminho reto» (Vit. Patr.).
2) O obediente cantará vitória sobre o mundo. Isto é claro, porque, não fazendo jamais a própria vontade, mas sempre a vontade de Deus, da Igreja e dos seus superiores, nunca fará a vontade do mundo, que é inteiramente contrária à da Igreja e à de Deus…
3) O obediente cantará vitória sobre um inimigo acérrimo e mais perigoso que todos os demais: sobre si mesmo. Por isso, escreve Kempis: «Quem, de boa vontade e espontaneamente, não se submete ao seu superior demonstra que ainda não tornou inteiramente obediente a própria carne, que, ao contrário, frequentemente se rebela e murmura contra ele» (Imit. Chr. lib. III. c. 13). Com a obediência, o homem vence a si mesmo e à sua vontade, e submete o próprio juízo. É empresa arriscadíssima servir-se da própria vontade, mas dificílima e quase impossível é servir-se dela como convém; triunfar sobre ela pela obediência é, pois, a mais gloriosa e a mais útil das ações. «Em verdade, diz Alvarez, vencer a si mesmo é a principal vitória da obediência. Quando o homem, que vence todo o restante, chega a dominar a si mesmo, demonstra ser poderosíssimo, e dessa grande façanha alcança mais glória do que de qualquer outra vitória. Pela obediência, o homem triunfa de si mesmo, porque sujeita o seu juízo, acorrenta a sua vontade, preserva o seu corpo e todas as suas perigosas inclinações de uma liberdade enganosa, e põe todas as suas faculdades a serviço de Deus. Triunfa de si mesmo, porque faz violência aos seus desejos e, por amor de Deus, submete-se livremente à vontade de outro» (Tract. de Obedient.).
O homem obediente proclamará, pois, e celebrará as suas vitórias, alcançadas sobre o inferno, sobre o mundo e sobre si mesmo, e receberá de Jesus Cristo muitos e grandes prêmios, segundo as promessas feitas por ele no Apocalipse, onde se diz que ao vencedor será dado comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus; ser-lhe-á dado um maná escondido e uma pedra branca, sobre a qual estará escrito um nome novo que ninguém conhece, exceto aquele que o recebe; adquirirá o direito de domínio sobre todas as nações e já não terá de temer a segunda morte. Será revestido de uma estola branca; o seu nome jamais será apagado do livro da vida, mas será reconhecido e confessado por Jesus Cristo diante do Pai e da corte angélica. Será constituído como coluna no templo de Deus e dele não será mais removido: Jesus Cristo escreverá sobre ele o nome de Deus, o nome da cidade de Deus, a nova Jerusalém descida do céu, da parte de Deus, e o nome novo do próprio Jesus Cristo. Ser-lhe-á concedido sentar-se no mesmo trono do Filho de Deus encarnado. Aquele que alcançar a vitória possuirá todas estas coisas, e Deus será o seu Deus, e ele será seu filho (Ap. 2, 7, 11, 17, 26 ― 3, 5, 12, 21 ― 21, 7). Quando jamais se ouviram promessas mais esplêndidas ou mais vantajosas? Ora, Jesus Cristo cumprirá todas elas em favor daquele que tiver praticado a obediência, porque somente este alcança verdadeiras vitórias.
4) O homem obediente sairá vitorioso de toda sorte de inimigos, isto é, de todos os homens ímpios, maus ou hipócritas… Que mais? Será vencedor do próprio Deus, porque Deus certamente atende àquele que pratica a obediência; ou, segundo a expressão do Salmista, «fará a vontade daquele que lhe obedece e o teme» (Sl 144, 19). São Domingos dizia que, em virtude da sua obediência, obtinha de Deus tudo quanto lhe pedia (In Vita). Todos os Santos, em todos os tempos, fizeram a mesma experiência: Deus lhes obedecia, porque eles obedeciam a ele.
A obediência nos faz triunfar sobre a terra, sobre os animais, sobre o mar, sobre o fogo, sobre o sol, sobre o céu e sobre o inferno. Tudo o que se faz por obediência quase sempre alcança bom êxito, em virtude daquele Deus a quem se obedece. Obedecendo a Deus, Moisés triunfou sobre o mar Vermelho; Josué dividiu o Jordão e ordenou ao sol; os três jovens lançados na fornalha ardente permaneceram ilesos. Por obedecer a Jesus, Pedro caminha sobre as ondas como sobre terra firme. Quantas vezes grandes Santos fizeram cessar terremotos e outros flagelos! Deus nada nega ao homem obediente, e o próprio inferno é obrigado a submeter-se àquele que obedece a Deus.
2° A obediência nutre a alma. ― A segunda vantagem da obediência provém de ela ser excelente alimento da alma. «O meu alimento, disse Jesus, é fazer a vontade daquele que me enviou» (Jo 4, 34). Saibam os cristãos que seu alimento espiritual deve ser a obediência, porque 1) nutre a alma; 2) a fortalece, como o pão fortalece o corpo; 3) faz com que ela cresça até alcançar a idade viril do Espírito Santo ou da virtude, como o alimento faz crescer as crianças e as transforma em homens.
3° É um remédio. ― O terceiro benefício que a obediência proporciona é purificar e curar a alma e, às vezes, também o corpo. Elias ordenou a Naamã, o sírio, que fosse lavar-se sete vezes nas águas do Jordão; ele obedeceu, e a sua lepra desapareceu no mesmo instante (2Re c. V). Os dez leprosos recebem de Jesus Cristo a ordem de se apresentarem aos sacerdotes; obedecem e, enquanto vão, encontram-se curados (Lc XVII).
4° Eleva o homem. ― O quarto benefício da obediência consiste em elevar o homem, fazê-lo crescer em dignidade e enobrecê-lo. Moisés obedece a Deus, torna-se chefe do povo eleito, realiza numerosos e estupendos prodígios, faz tremer de pavor o Egito e o coração endurecido do seu rei culpado. Os apóstolos obedecem a Jesus Cristo e, pela graça da sua obediência, tornam-se os fundadores da cristandade, os príncipes da Igreja militante e triunfante.
5°. Atrai as bênçãos de Deus. ― Deus derrama as suas mais seletas bênçãos sobre aqueles que lhe obedecem. Por sua obediência, Abraão merece ouvir Deus dizer-lhe: «Farei de ti o tronco de uma grande nação, abençoar-te-ei, exaltarei o teu nome, e tu serás bendito. Abençoarei aqueles que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão abençoadas todas as nações da terra» (Gn 12, 2-3). Como prêmio de sua obediência, Abraão é cumulado de bênçãos temporais e espirituais e concorre para a grande bênção do universo, proveniente da encarnação do Verbo.
Sete bênçãos ou recompensas da obediência reconhece o Cardeal Caetano nas palavras de Deus a Abraão. Com a primeira, o patriarca é estabelecido como chefe de uma grande nação… A 2ª é uma bênção de riquezas e de frutos, significada por estas palavras: ― Eu te abençoo… ― A 3ª é a celebridade e a glória prometidas ao seu nome… A 4ª é a reunião de todas as bênçãos e de todos os bens indicada por esta frase: E tu serás bendito… ― A 5ª é a promessa de abençoar aqueles que o abençoarem… A 6ª é a de ser seu protetor e vingador… A 7ª é a declaração de que todas as nações serão benditas nele, isto é, em consideração à obediência por ele demonstrada ao estar disposto a sacrificar-lhe o filho ao seu simples aceno, Deus derramaria sobre a terra toda a sua bênção, fazendo nascer de sua estirpe o Redentor do mundo (DELRIO, Commento in Gen.).
Moisés, tendo entregado aos israelitas as tábuas da lei, disse-lhes: «Eu vos apresento hoje a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus; a maldição, se desobedecerdes» (Dt. 11, 26, 28). A voz interior de Deus fez ouvir a cada um de nós a mesma promessa e a mesma ameaça.
6° É a primeira das virtudes da vida cristã. ― Quatro religiosos foram visitar São Pambo, pedindo-lhe que os acolhesse sob sua direção. Ora, o venerável abade, não querendo admitir mais que um, sondou-os a respeito da ideia que cada um deles fazia da perfeição religiosa. O primeiro praticava um jejum contínuo; o segundo, a pobreza; o terceiro, a caridade; o quarto, a obediência. São Pambo escolheu este último, dizendo: Os outros três mantêm, nas virtudes que praticam, a própria vontade, ao passo que este último, rompendo com a própria vontade, submete-se à vontade de outro e pode, portanto, alcançar toda espécie de virtude. A conduta e as palavras deste Santo demonstram que lugar ocupa a obediência entre as virtudes e quanto a perfeição cristã se beneficia por meio dela.
7°. É princípio da verdadeira felicidade. ― «Disse o Salvador a Simão: Avança para o alto-mar e lança as redes para a pesca. Mestre, responde Simão, já nos afadigamos durante toda a noite passada e nada apanhamos; mas, sob tua palavra, lançarei a rede. E, tendo feito isso, foi tão grande a quantidade de peixes que a rede se rompia com o peso excessivo» (Lc 5, 4-6). Belo símbolo da utilidade e da prosperidade que a obediência produz!
Quantos homens os apóstolos não arrancaram do abismo e conduziram ao céu, porque, obedientes, pregaram em nome de Jesus Cristo! … Lemos na vida de São Francisco Xavier que, quando estava para partir para as Índias, seus amigos procuravam dissuadi-lo, pintando-lhe os perigos do calor excessivo, a dificuldade de prover às suas necessidades e a barbárie dos habitantes, que empregavam o ferro e o veneno até mesmo contra os próprios familiares. O grande missionário respondeu-lhes: «Perigos muito mais espantosos e terríveis do que estes eu criaria para mim mesmo, se não obedecesse a Deus, que me chama». Partiu, pois, e, somente na cidade de Tolo, converteu vinte e cinco mil indígenas, formando deles outros tantos cristãos fervorosos. Eis os benefícios da obediência!
Samuel colocava todo o seu cuidado e toda a sua alegria em obedecer a Eli. Por essa obediência, diz Santo Efrém, mereceu ouvir a voz de Deus (Serm. III). «Felizes aqueles, exclama Orígenes, que praticam a obediência, que suportam o freio, que fazem tudo o que Deus quer e que tomam seus mandamentos como guia; eles não caminham segundo a própria vontade, mas são dirigidos em tudo pela vontade de Deus; nisso está a fonte da mais alta felicidade» (Homil. I in Cant.) … Com efeito, que felicidade se pode comparar à daquele que tem a certeza de fazer em tudo e continuamente a vontade de Deus! Onde encontrar utilidade maior? …
8°. É um sinal de predestinação. ― A obediência é o sinal mais seguro da predestinação. Obedecer a Deus é sinal evidente de salvação; ao contrário, desobedecer a Deus é sinal e causa do abandono de Deus e da reprovação, porque se desobedece a Deus para seguir as próprias inclinações, a vontade, as paixões perversas e corrompidas. Jesus Cristo disse aos judeus: «Minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna; elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão» (Jo 10, 27-28). Eis por que aquele a quem importa a sua salvação deve sempre desejar e pedir uma só coisa, isto é, que Deus o dirija em seus negócios e em suas ações, e que ele próprio tenha a vontade de segui-lo, obedecer-lhe e não dar ouvidos a ninguém senão a ele. Com efeito, os caminhos preparados por Deus são certos e seguros, e não abandoná-los é predestinação e salvação. Aqueles que docilmente se deixam conduzir desse modo estão livres de pecar e não arriscam a própria salvação; correm, ao contrário, o perigo de perdê-la aqueles que, querendo passar por sábios e iluminados, não tomam Deus por guia, mas escolhem por seu próprio capricho os seus caminhos.
Jonas, ao fugir de Deus, desagradou-lhe, perdeu a pátria, o uso do templo e quase a vida, correu os riscos do mar e não teve por altar sagrado outra terra senão a profana de Tarso. Assim, os desobedientes lançam-se nos mais terríveis perigos, perdem Jesus Cristo, verdadeiro piloto, e naufragam; enquanto os obedientes, que se deixam guiar por Jesus Cristo, navegam sem risco pelo mar do mundo, atravessam-no sem naufragar e chegam felizmente ao porto da salvação. «Poderia jamais, exclama o Salmista, minha alma deixar de estar sujeita a Deus, se somente dele vem a minha salvação?» (Sl 61, 1).
9° Tem o mérito e a glória do martírio. ― São Jerônimo, escrevendo a Eustóquio sobre a morte de Santa Paula, assim se exprimia: «Com a coroa de um longo martírio foi coroada tua mãe. Pois não somente o derramamento do sangue é confissão da fé; mas também é martírio cotidiano a servidão imaculada de uma alma piedosa (19)».
10° Proporciona uma boa morte. ― O homem obediente morre na paz do Senhor. O abade João, ao fim da vida, radiante de alegria, dizia: «Morro contente porque jamais fiz a minha vontade» (Vit. Patr.). Com efeito, ninguém melhor que o obediente cumpre este preceito do Senhor: «Afasta-te do mal e faze o bem» (Sl 36, 27). Ora, como poderá sentir inquietação no leito de morte aquele que não fez o mal, mas viveu na prática da virtude?
Obediência: eis, pois, o grande segredo para encontrar a morte não somente sem temor, mas com alegria; a imagem do inferno não perturba a alma, e a esperança do paraíso a alegra. «Cesse a vontade própria, diz São Bernardo, e não haverá mais inferno (20)». Mas somente o obediente renuncia à própria vontade: ele, portanto, mais que qualquer outro, não está exposto ao perigo da condenação; ao contrário, está seguro de chegar ao céu, tendo como garantia estas palavras de Jesus Cristo: «Tem bom ânimo, servo bom e fiel, pois foste fiel no pouco, entra na alegria do teu Senhor» (Mt 25, 21).
Como se deve obedecer? Diz São Paulo: «Fazei tudo o que vos é imposto sem murmuração nem hesitação, para que sejais, em toda simplicidade, filhos de Deus, sem repreensão» (Fl 2, 14-15). Vede Saulo prostrado no caminho de Damasco. Caindo por terra, ouve uma voz que lhe grita: Saulo, Saulo, por que me persegues? Quem sois vós, ó Senhor? responde ele; e, apenas tendo ouvido: ― Eu sou aquele Jesus que tu persegues ― imediatamente pergunta: Que quereis, ó Senhor, que eu faça? ― Domine, quid me vis facere? (At 9, 6); e logo executa as ordens que lhe são dadas. Eis o modo como se deve obedecer.
«Aquele que pouco antes perseguia e se enfurecia contra os fiéis, já se prepara para obedecer, observa Santo Agostinho; assim, naquele mesmo instante, transforma-se de perseguidor em pregador, de lobo em cordeiro, de inimigo em soldado de Jesus Cristo».
«O homem verdadeiramente obediente, diz São Bernardo, mantém prontas as orelhas para ouvir, a língua para responder, as mãos para agir; os pés para caminhar; e assim recolhe-se inteiramente em si mesmo, para obedecer prontamente às ordens que lhe são dadas (21)». «O verdadeiro obediente, diz São Gregório, não discute a intenção daquele que lhe deu uma ordem; não faz distinção entre preceitos e preceitos; pois quem confiou a direção de toda a sua vida ao seu superior não conhece outra alegria senão a de fazer exatamente aquilo que lhe é imposto; parecendo-lhe boa uma só coisa: obedecer às ordens (22)».
Aonde conduz a hesitação em obedecer, mostra-no-lo a desventurada Eva. Deus afirma que, se Adão e Eva tocarem no fruto proibido, morrerão. ― Mas Eva, tentada pela serpente, hesita em obedecer e, por isso, põe em dúvida que, se desobedecerem, morrerão. ― A serpente nega categoricamente que isso possa acontecer: ― Nequaquam moriemini. ― E Eva, por ter demorado a seguir as ordens do Senhor, perde a inocência e arrasta consigo para a ruína os seus filhos… Os superiores ordenam, os inferiores hesitam e discutem; chega o demônio, nega a obrigação de obedecer, e acaba-se como acabaram Adão e Eva…
Como se deve obedecer? Como Abraão. «Sai, diz-lhe Deus, da tua pátria, da tua parentela e da família de teu pai, e vem para a terra que te indicarei. E Abraão partiu, como lhe havia ordenado o Senhor» (Gn 12, 1, 4). Seja para nós a obediência de Abraão o modelo da perfeita obediência.
A primeira qualidade consiste em obedecer prontamente e de plena vontade. Abraão não hesita nem sequer por um momento.
«Quem obedece fielmente, diz São Bernardo, não sabe o que é demora; foge do amanhã, não conhece atraso, antecipa-se àquele que ordena (23)». E em outro lugar: «O verdadeiro obediente renuncia ao seu querer ou não querer, para poder dizer: Meu coração está pronto, ó meu Deus; pronto para fazer tudo quanto ordenardes; pronto para obedecer ao menor sinal; pronto para ocupar-se de vós, para servir ao próximo, para vigiar a mim mesmo, para dedicar-se à contemplação das coisas celestes (24)».
A segunda consiste em obedecer com simplicidade; o que se verifica quando submetemos o nosso juízo ao de nossos superiores. Abraão parte sem saber para onde irá. Chamados por Jesus Cristo, Pedro e André seguem-no imediatamente, sem se preocupar com o modo como viverão; sem examinar como é que eles, pescadores ignorantes, se tornarão pescadores de homens. «Tendo abandonado tudo, seguiram Jesus Cristo», diz o Evangelista. «Estejam certos, diz São Jerônimo, de que tudo quanto ordena um superior é salutar; não o julguem por conta própria» (Epl. ad Rustic.). «E quem sabe obedecer bem não fica julgando», diz São Gregório (In Samuel.).
A obediência simples e perfeita ignora os motivos que podem mover aquele que ordena: não se deixa deter nem esfriar por ordens duras, ou dadas duramente, nem pelas graves provas a que pode estar sujeita, mas apoia-se numa vontade generosa e eleva-se até a altura da caridade. Armada de coragem ativa, de pronta resolução e de inteira abnegação, abraça tudo quanto lhe é ordenado.
A terceira consiste em obedecer com alegria. Assim se comportaram os Apóstolos em meio às mais cruéis provações, às perseguições, à morte…
A quarta consiste em obedecer com humildade…
A quinta consiste em obedecer com coragem e constância. «Confiai-vos sempre a Deus, escreve Santo Agostinho, abandonai-vos inteiramente em suas mãos; assim, ele não deixará de elevar-vos até si e não permitirá que aconteça coisa alguma que não seja útil, ainda que sem o vosso conhecimento (25)».
A sexta consiste em obedecer com indiferença e inteiro abandono. Pouco importava a Abraão o lugar para o qual Deus o chamasse; ele abandonava inteiramente a Deus o cuidado de seu futuro. Santo Agostinho diz: «Não podemos oferecer a Deus coisa alguma que lhe seja mais agradável do que dizer-lhe com Isaías: Possui-nos (26)».
A sétima consiste em obedecer com perseverança… Assim Jesus Cristo foi obediente até a morte.
Verdadeiro exemplar de obediência é Samuel; chamado diversas vezes no meio da noite, responde imediatamente e se apresenta pronto a obedecer… «Todo humilde e submisso a Eli, e sustentado pela obediência, este jovem, diz São Gregório, é chamado e vem; é mandado de volta, parte; e isto faz por três vezes seguidas. Quem de nós, em semelhante caso, se teria abstido de murmurar? Quem conteria a sua impaciência se, chamado repetidamente, ouvisse sempre responder que não fora chamado?» (In Samuel.). O verdadeiro obediente deve imitar Tobias, o qual, tendo ouvido os últimos ensinamentos de seu pai, respondeu: «Eu farei, meu pai, tudo o que me ordenastes» (Tb 5, 1).
«O espírito do justo medita a obediência», lemos nos Provérbios (Pr. 15, 28); isto é, reflete sobre os motivos que o levam a obedecer, esforça-se por suavizar o rigor das ordens que presume lhe terem sido dadas, para que, no momento em que o superior o chamar a si e lhe ordenar alguma coisa difícil, responda pronto e alegre como Samuel: «Eis-me aqui» ― Ecce ego (1Sm c.III), e com São Paulo: «Senhor, que quereis que eu faça?» ― Domine, quid me vis facere? (At 9, 16). Medita sobretudo na obediência de Jesus Cristo, que se fez obediente até a morte, e até a morte de cruz, para nos ensinar a obedecer e salvar, pelo exemplo e pelo mérito de sua obediência, a nós que estávamos perdidos pela desobediência de Adão. Neste sentido, é dito a cada um de nós: «Olha e faze conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Calvário)» (Ex 25, 40).
O justo medita nos diversos graus da obediência, para poder alcançá-los. Esses graus são três. O primeiro, menos perfeito, consiste em fazer aquilo que nos é ordenado… O segundo consiste em querer e amar a obra prescrita e cumpri-la de bom grado, prontamente e com coragem… O terceiro consiste não somente em querer aquilo que é ordenado, mas em julgá-lo melhor do que aquilo que nós mesmos quereríamos; de modo que não só submete de bom grado a própria vontade à do superior, mas também o próprio juízo, crendo que aquilo que o superior ordena vale mais do que aquilo que poderiam sugerir tanto o espírito privado como qualquer outra pessoa… O justo se propõe, diz o Apóstolo, obedecer com alegria, e não com tristeza ou por necessidade (Hb 13, 17). A serenidade do rosto e a doçura do falar conferem à obediência um belo encanto e um suave perfume. Como se pode dizer que há esta virtude onde se encontram a aspereza e a grosseria? Os sinais exteriores indicam a disposição da alma, e é difícil que aquele que tem má vontade não a manifeste nos traços do rosto.
Una-se à obediência a caridade, que é sua irmã: ambas devem caminhar unidas e ligadas, porque uma aperfeiçoa a outra. Os perfeitos, 1° obedecem amando e amam obedecendo; o amor da obediência leva a amar os superiores como os próprios pais…; 2° amam aquilo que lhes é ordenado…; 3° amam a própria obediência, e esse amor a torna fácil e perfeita. Com efeito, como diz São Leão, o amor da obediência adoça a ordem de obedecer: já não se obedece por dura necessidade quando se ama aquilo que é prescrito (Serm. 6, de Ieiun.).
Santo Ambrósio, comentando aquelas palavras do Salmista: «Senhor, levantei minhas mãos para os vossos mandamentos, que amei» (Sl 118, 48), escreve: «Davi amava os mandamentos do Senhor, para cumpri-los de bom grado. Com efeito, quem ama faz de bom grado aquilo que lhe é ordenado; quem teme obedece somente por necessidade (27)». São Boaventura distingue três espécies de obediência: a obediência por necessidade, a obediência por prazer ou interesse, a obediência por caridade: somente a obediência por caridade é grande (Proces. 6, Relig. c. XL), porque somente ela, diz São Bernardo, tem por efeito tornar a obediência agradável e aceita por Deus (Serm. in Fest. Omn. Sanct.).