De Deus, em Deus e para Deus são todas as coisas, diz São Paulo (Rm 11, 36). Tudo é do Pai, pelo Filho e no Espírito Santo, de tal modo que em Deus vivemos, nos movemos e existimos (At 17, 28). Deus tem em seu poder a nossa vida, a nossa morte, o nosso tempo, a nossa eternidade, a nossa alma e o nosso corpo; nós dependemos dele como os raios dependem do sol e a sombra, do corpo. Ele nos criou; Ele nos conserva, isto é, cria-nos continuamente com a sua paternal providência; dele recebemos os nossos sentidos interiores e exteriores; dele, os bens temporais e as graças espirituais.
Diz São Gregório: «Deus habita em todas as coisas, fora de todas as coisas, acima de todas as coisas e abaixo de todas as coisas. Está acima de tudo por seu poder; abaixo de tudo, pelo sustento que dá a todas as coisas; está fora, por sua grandeza; dentro, por sua sutileza. Ele é uno e, ao mesmo tempo, tudo. Em toda parte nos sustenta, presidindo a todas as coisas, e preside sustentando em toda parte cada coisa: circundando-a, penetra-a; e penetrando-a, circunda-a; acima de todas as coisas, governa tudo sem aflição e sustenta tudo sem fadiga. Ele está, pois, acima e abaixo, sem lugar; está além de tudo, sem extensão (Moral. l. 2, c. VIII)». São Bernardo diz: «Peque naquele lugar onde tiveres certeza de que Deus não se encontra; ah! não existe lugar fora deste Ser infinito (De modo bene viv., c. XXIX)». «Porque, se subo ao céu, lá ele habita; se me precipito no inferno, lá o encontro; se, tomando as asas da aurora, voo para habitar nos confins dos mares, também ali a sua destra me guia e me conduz» (Sl 138, 8-10).
«Não há criatura invisível para Deus, escreve o grande Apóstolo, mas tudo está aberto e patente aos seus olhos» (Hb 4, 13). Isto fazia Santo Agostinho dizer: «Se queres cometer pecado, procura um lugar onde Deus não te veja; então faze o que quiseres (De Spiritu et Anima)». Mas onde encontrar esse lugar, se Deus, segundo a sua própria palavra, penetra as entranhas e lê no coração? (Ap 2, 23).
Desta verdade mostra-se bem persuadido o rei Davi, cujos salmos exalam os sentimentos da mais viva fé na presença de Deus. «Pusestes as nossas iniquidades diante da vossa face, e a nossa vida foi iluminada pela luz do vosso rosto» (Sl 89, 8). «Ele (Deus) não dormirá de modo algum; jamais cochila aquele que guarda Israel» (Sl 120, 4). «Vós conhecestes, ó Senhor, o momento do meu sono e o instante do meu despertar; de longe descobris os meus pensamentos. Vós conheceis todas as coisas, tanto as que foram como as que são; vós me plasmastes e me colocastes sobre a vossa mão. A vossa ciência elevou-se maravilhosamente acima de mim, e não posso alcançá-la. Para onde irei diante do vosso sopro? Onde fugirei para esconder-me do vosso olhar? Eu disse: Talvez as trevas me ocultem, e a noite cubra os meus deleites. Ah! diante de vós as trevas não têm escuridão, e a noite resplandece como o dia; para vós, as trevas e a luz são uma só e mesma coisa» (Sl 138, 2, 3-7, 12). «O Senhor conhece todos os pensamentos dos homens» (Sl 93, 11), «e as suas pupilas interrogam os filhos dos homens» (Sl 10, 5).
«Deus é o verdadeiro escrutador dos corações; em suas mãos estamos nós, as nossas palavras, toda a nossa sabedoria, a ciência das obras e a regra da vida», diz o Sábio (Sb 1, 6; 7, 16). A mesma coisa repete a Escritura, quando observa que o Senhor é o Deus das ciências; que Ele penetra com o seu olhar o coração e dispõe os pensamentos (1Sm 2, 3).
O autor dos Provérbios assegura-nos que todos os procedimentos do homem são manifestos aos olhos de Deus, o qual pesa os espíritos, isto é, dirige-os, dispõe deles, mede-os, pesa-os e julga-os (Pr 16, 2). «Deus observa os caminhos dos homens e considera todos os seus passos; em todo lugar os seus olhos contemplam os bons e os maus» (Pr 5, 21); (Ib. 15, 3). Deus olha do alto dos céus, ou melhor, do profundo de sua eternidade vê e considera tudo o que se faz no céu, na terra e nos infernos; tudo o que passou, o que está presente e o que há de vir; todos os arcanos e mistérios do coração. Agora também nós devemos, por nossa vez, vê-lo, respeitá-lo e recordar-nos dele em todo tempo e lugar.
«Devemos temer a Deus em público, observa aqui Santo Agostinho; devemos temê-lo em particular. Caminhas? Ele te vê. Brilha a luz? Ele te vê. Está escuro? Ele te vê. Entras no quarto? Ele te vê. Ah! temamos aquele que cuida de manter os olhos sobre nós e, temendo-o, guardemo-nos de ofendê-lo (Serm. 46, de verbis Domini)». «Ele é todo olho, todo mãos, todo pés; porque tudo vê, tudo faz e está em toda parte (Epist. III ad Fortunat.)». O próprio Platão já havia conhecido e confessado esta verdade, tendo deixado escrito: «Deus é todo inteligência, todo olho, todo ouvido (Lib. 2, cap. VII)». «Todas as coisas eram conhecidas pelo Senhor antes que as criasse, lemos no Eclesiástico; e Ele as vê todas agora que estão feitas» (Eclo 23, 29). Deus vê tudo, sendo o criador, o conservador e o governador de todas as criaturas… Todas as coisas estão presentes diante de Deus, porque os tempos passados não passam para Ele, assim como os futuros não chegam para Ele. O passado não se vai; tudo permanece diante dos seus olhos: a eternidade não tem passado nem futuro; tudo é presente… «Os olhos do Senhor são mais penetrantes que o sol; veem o homem inteiro, descobrem o fundo do abismo e penetram os arcanos mais misteriosos do coração» (ut sup. 28). «As obras de todos os homens são patentes a Deus; nada se mantém oculto aos seus olhos; o seu olhar abraça os séculos, e nada de extraordinário ou maravilhoso sucede em sua presença» (Id. 39, 24-25). Deus, imóvel em sua eternidade, vê cada coisa diante de si… Ah, sim! «saibam todos os habitantes da terra que vós sois o Deus que contempla os séculos» (Id. 36, 19). Vós contemplais, o que equivale a dizer: vós providenciais, vós predizeis, vós ordenais, vós conheceis, vós governais, vós recompensais, vós punis…
Senhor, exclama Santo Agostinho em seus Soliloquiorum, vós considerais os meus passos e os meus caminhos, e noite e dia velais pela minha guarda; vós notais tudo. Observais os meus pensamentos e as minhas ações com tal diligência, como se, esquecendo a terra e o céu, não tivésseis outra preocupação senão comigo. A luz imutável da vossa visão não pode crescer quando contemplais uma só coisa, nem diminuir quando contemplais todas juntas. Com efeito, assim como vedes perfeitamente um objeto em particular, também vedes perfeitamente todas as coisas ao mesmo tempo, não obstante a sua diversidade e desigualdade. Vedes todas as coisas como se fossem uma só, e cada coisa como um todo de uma vez, sem divisão, mudança ou diminuição. Sois todo inteiro em todos os tempos, sem que para vós exista tempo; vedes-me como se não tivésseis outra coisa para ver. Velais sobre mim como se não tivésseis outro pensamento senão o de mim. Mostrais-vos sempre presente e sempre pronto, se me encontrais pronto. Em qualquer parte em que eu esteja, não vos afastais, porque estais em toda parte, para que, onde quer que eu vá, vos encontre; por vós somente posso existir, para que eu não pereça privado de vós, não podendo existir sem vós. Confesso que tudo o que faço, onde quer que o faça, faço-o em vossa presença; tudo o que faço, vós o vedes melhor do que eu, que o faço. Com efeito, estais presente a todas as minhas ações, como contínua testemunha de todos os meus pensamentos, de todas as minhas intenções, de todas as minhas alegrias e de todos os meus atos. E quando penso em vós, ó Senhor, ó Deus poderoso e terrível, fico confundido de temor e vergonha; porque nos é imposta a rigorosa necessidade de viver em justiça e retidão, fazendo tudo sob os olhos de um juiz que tudo vê. «Lembra-te, escrevia São Basílio a um de seus filhos espirituais, de que estás sempre sob o olhar de Deus, que perscruta e descobre os segredos do coração e vê o que se oculta no fundo da alma. Em tudo o que quiseres fazer, examina primeiro se é conforme a Deus; depois, se for coisa reta diante do Senhor, põe mãos à obra; mas, se não o for, nem sequer penses nisso (Ad fil. spirit.)».
«Enganador e impenetrável é o coração do homem, diz Jeremias; quem poderá conhecê-lo? Eu, o Senhor, que perscruto o coração e examino as entranhas, que dou a cada um segundo as suas obras e na proporção dos frutos de seus atos» (Jr 17, 9-10).
Sempre e incessantemente Deus nos contempla; sempre e continuamente Ele opera em nós; enfim, Ele é tudo em nós (Dt 6, 15); ou, como se exprime São Paulo: «Deus está sempre perto de nós» (Fl 4, 5). «Assim como a alma é a vida do corpo, diz Santo Agostinho, assim Deus é a vida da alma; e, como o corpo morre quando dele sai a alma, assim a alma morre quando perde a Deus (Serm. 18, de Verb. Apost.)». Estamos tão unidos fisicamente a Deus que, todas as vezes que respiramos, aspiramos a Deus. Procuremos sê-lo também moralmente, de modo que a nossa alma não aspire senão a Deus, não pense senão em Deus e invoque incessantemente a Deus. Deus está mais e melhor em nós do que nós mesmos em nós; e, reciprocamente, nós estamos em Deus como a luz está no ar e o ar está na luz.
1° A presença de Deus exclui todo pecado, diz São Jerônimo (In Ezech. 1. 7, c. 22), e é remédio eficacíssimo contra toda espécie de vícios, diz São Basílio (In Psalm.). Por isso, Santo Inácio escrevia a Jerônimo: «Lembra-te de Deus, e jamais cairás em pecado».
2° A presença de Deus torna constante no bem e quase impecável. «Tenho sempre o Senhor diante dos meus olhos, dizia o Profeta; Ele está à minha direita, e não sofrerei abalo algum» (Sl 15, 8). «Ah! invocai, buscai o Senhor, permanecei continuamente em sua presença e recebereis estabilidade e firmeza» (Sl 104, 4). Recordando a presença do juiz, que tudo sabe, toma-se vivo horror ao vício e este é evitado, observa Boécio; ama-se e pratica-se a virtude (De Consol. 1. 5, p. VI). José é violentamente assaltado: que faz? Recorda a presença de Deus, dizendo: «Como poderia eu cometer este mal e pecar diante do Senhor, meu Deus?» (Gn 39, 9); e sai vitorioso da tentação. Susana também é fortemente solicitada; lembra-se de que Deus a vê e triunfa (Dn. C.13). Tertuliano rebatia as calúnias dos inimigos e perseguidores dos cristãos, acusados de vários e graves delitos, respondendo que eram incapazes deles, porque sabiam estar sob os olhos de Deus, seu juiz incorruptível, e esse pensamento os tornava como que impecáveis (Apolog.).
3° A lembrança da presença de Deus nos faz observar sua santa lei. O Salmista dá-nos a prova disso: «Senhor, se minha alma observou os vossos preceitos e os amou grandemente; se guardei a vossa lei e cumpri as vossas vontades, é porque faço todas as minhas ações na vossa presença» (Sl 118, 167-168).
4° Pela presença de Deus, nossos inimigos são postos em fuga. «O terror assalta os inimigos da salvação, lemos na Escritura; e eles fogem diante da presença do Deus que tudo vê» (2Mc 12, 22). A presença de Jesus Cristo expulsava legiões de demônios dos corpos dos possessos; não é menos eficaz para expulsar os demônios de nossa alma a lembrança da presença de Deus. O mundo, a concupiscência, o inferno, tudo é vencido e abatido por esta arma poderosa e invencível… De modo que
se o homem se mantém na presença de Deus, dizia o abade Serapião, seus inimigos nada podem contra ele (In Vit. Patr.). «O único e infalível meio de triunfar sobre o inimigo, acrescenta Santo Antônio, está na lembrança contínua da presença do Senhor. Esse pensamento desorienta os desígnios dos demônios e reduz a nada todos os seus esforços (Vit. Patr.)».
5° Deus ouve as súplicas daquele que se mantém em sua divina presença. «Os olhos do Senhor repousam sobre os justos, canta o Salmista, seus ouvidos estão abertos para acolher as suas orações» (Sl 33, 10).
6° Esta santa presença dá alegria e felicidade. Diz o Profeta: «Eu trouxe à memória a presença de Deus, e meu coração foi inundado de alegria; minha boca, ó Senhor, cantou os vossos louvores, e minha carne repousou na esperança» (Sl 15, 8-9). «Minha alma não encontrava consolação; então me lembrei do Senhor e senti-me repleto de alegria» (Sl 76, 3-4). Cassiano diz, seguindo o abade Isaac, que a felicidade desta vida consiste na frequente lembrança de Deus: esta divina presença proporciona ao homem, nesta vida, uma antecipação da bem-aventurança eterna. Com efeito, como não viver felizes na presença de Deus, sabendo que ele nos vê, que cuida de nós, que nos protege e deseja cumular-nos de seus favores? Assim como o sol alegra, ilumina, embeleza, vivifica e fecunda a criação, assim a presença de Deus traz alegria, luz, calor, fecundidade e vida à alma.
7° Esta preciosa presença dá vida à alma e lha conserva. «Na presença de Deus viveremos» — diz o profeta Oseias (Os 6, 3). Aqueles que vivem na presença de Deus, que sabem como Deus os vê em toda parte e sempre, não podem deixar de viver santamente, e não há outra verdadeira vida fora desta: procuram agradar a Deus em tudo e fazer a sua vontade. Viveremos, isto é, seremos cheios de vigor e de saúde, produziremos frutos, seremos ativos, fortes, enérgicos, repletos de honra e de glória. Pela presença de Deus, viveremos da virtude e na virtude; viveremos da graça neste mundo e da glória no outro. «Eis o que diz o Senhor: Buscai-me, lembrai-vos de mim, e vivereis» (Am 5, 4).
8° A presença de Deus nos torna perfeitos. O Senhor apareceu a Abraão e disse-lhe: «Eu sou o Deus onipotente; caminha na minha presença e sê perfeito» (Gn 17, 1). O caminho para a perfeição é a presença de Deus. «Sereis perfeitos e sem mácula, mantendo-vos diante do Senhor vosso Deus», lemos no Deuteronômio (Dt 18, 13). Com efeito, é impossível não tender à perfeição estando na presença de Deus; por meio desta presença, vive-se de Deus, e viver de Deus quer dizer avançar prontamente para a mais alta perfeição; pois, em tal condição, o homem procura evitar tudo o que desagrada a Deus e fazer tudo o que lhe agrada. Ouvi o conselho de Sêneca: «Vivei com os homens como se estivésseis sob o olhar de Deus; mantende-vos com Deus como se os homens vos ouvissem (Epist. X, ad Lucillum.)».
9° A presença de Deus nos proporciona todos os bens. O 1° fruto desta presença é a fuga do pecado…; o 2° é a vitória sobre as tentações, os perigos e os inimigos…; o 3° é que a alma, embora vivendo na terra, habita o céu…! o 4° é que nos assimila aos Anjos, porque os Anjos, segundo a palavra do Redentor (Mt 18,20), contemplam continuamente a face de Deus…; o 5° é o amor de Deus…; o 6° é que dissipa a cólera, a cobiça, os tédios e as distrações… «Como podereis deixar de distrair-vos na oração? pergunta São Basílio; e responde: pensando seriamente que vos encontrais sob os olhos de Deus (In Psalm)». Com três vínculos, os Santos se acorrentam fortemente a Deus, para lhe serem fiéis e não o ofenderem: o primeiro é o respeito pela Majestade divina, presente em tudo e julgando tudo…; o segundo é a lembrança da bondade e dos benefícios de Deus…; o terceiro é o temor de Deus, fundado na consideração do juízo final e da vingança divina.
Diz São João Crisóstomo: «Se nos aplicarmos a ver continuamente a Deus com os olhos da alma, se procurarmos representá-lo sempre em nossa mente, tudo nos parecerá fácil, tudo nos será leve; suportaremos todas as coisas, venceremos toda dificuldade. Se aquele que se lembra de um amigo revigora sua coragem e sente o coração inundar-se de alegria com essa doce lembrança, como poderá estar triste ou temer desgraças aquele que trouxer à mente a Deus, tão bom, que se dignou amar-nos tão ternamente? (Hom. 26, in Epist. ad Hebr.)». De que bem padecerá falta aquele que vive na presença de Deus? pergunta Fílon: «Ah! ele abunda em todas as coisas; pois é impossível que falte alguma coisa onde preside Deus, acostumado a prodigalizar em tudo favores excelentes (De Migratione Abrahae)».
A lembrança contínua da presença de Deus é o princípio de todos os bens, assim como o esquecimento da presença de Deus é a causa de todos os males. Por isso Moisés não cessava de repetir aos hebreus: «Lembrai-vos do vosso Deus» (Dt 13, 2). Por isso os homens sábios e os Santos de todos os lugares e de todas as épocas tiveram grandemente a peito jamais se esquecerem de Deus, e procuraram sempre recordar-se de sua presença, pelo pensamento, pela invocação, pelo louvor e pelo amor… Quem se ocupa da presença de Deus assegura para si a graça, a virtude, a salvação e a glória eterna… Tantas vantagens inestimáveis da presença de Deus devem animar-nos a viver desta inefável presença…
De Noé e de Enoque, diz a Sagrada Escritura, que caminhavam continuamente na presença de Deus (Gn 6, 9). Eis o nosso modelo. «Assim como não há minuto, diz Hugo de São Vítor, em que o homem não se beneficie ou não desfrute da bondade e da misericórdia de Deus, assim também não deve passar momento algum em que não se lembre de sua santa presença; por isso considera perdido o tempo em que não pensas em Deus (De Anima, lib. III)». A mesma coisa repete São Bernardo e, antes deles, assim já rezava Santo Agostinho: «Assim como não passa hora ou instante de minha vida em que eu não me sirva de algum dom vosso, ó Senhor, doravante não deve passar momento algum sem que eu vos tenha presente aos olhos de minha alma e vos ame com todas as forças do meu coração (Soliloq., c. XVIII)».
«Mantém Deus presente em tua alma durante todos os dias de tua vida» — dizia o velho Tobias ao filho (4, 6). Tende Deus na memória, para vos lembrardes sempre dele; no entendimento, para pensardes frequentemente nele e meditardes sobre suas infinitas perfeições e bondades; na vontade, para o respeitardes, amardes, bendizerdes, invocardes, obedecerdes e glorificardes, e para velardes continuamente sobre vós mesmos, a fim de evitardes toda ofensa e pecado… «Em todos os teus empreendimentos pensa em Deus, diz o Sábio, e ele dirigirá os teus passos» (Pr 3, 6). Pensai em Deus, 1° muitíssimas vezes…; 2° reconhecei Deus em tudo e em toda parte, isto é, temei-o e adorai-o presente em toda parte…; 3° pensai em Deus, isto é, não procureis em vossos atos outro objetivo senão Deus…; 4° pensai em Deus, isto é, em sua ação e em sua graça…; 5° reconhecei Deus em todos os vossos pensamentos, isto é, imaginai que a vontade de Deus, sua doutrina, sua moral, sua vida e sua lei estejam sempre diante de vós como a norma de vossa conduta, de vossos costumes, de vossos pensamentos, de vossas obras, enfim, de todo o vosso viver.
«Que vos pede o Senhor, lemos em Miqueias, senão que caminheis atentos na presença de vosso Deus?» (Mq 6, 8). E, de fato, se em todo tempo e lugar os olhos de Deus estão voltados para nós, é justo que, de nossa parte, nós o contemplemos em todo lugar e em todo tempo, ora rezando, ora cantando hinos, ora louvando-o, ora dando-lhe graças; ora exclamando com o Salmista: «Minha alma bendiz o Senhor em todos os lugares do seu domínio» (Sl 102, 22); ora dizendo com o mesmo: «Bendize, ó minha alma, o Senhor, e jamais te esqueças de suas misericórdias» (Ib. 2).
Pratiquemos a advertência de São Basílio, que nos exorta a vigiar sobre o nosso coração e a não permitir jamais que se afaste de nós o pensamento de Deus e de tudo quanto Deus fez para nosso bem; a não permitir que pensamentos fúteis e vãos manchem a nossa memória, mas a ocupar-nos assiduamente da santa presença de Deus, imprimindo-a fortemente, como um selo, em nossa alma; porque, pela lembrança contínua dessa presença, adquire-se o amor de Deus e persevera-se na fiel observância de sua santa lei (In Gen.).
O primeiro motivo é que, querendo ou não, não podemos subtrair-nos à vista de Deus…; o segundo é a prestação de contas que deveremos dar a Deus de tudo o que ele vê em nós; o terceiro está em pensar quão grande e terrível é aquela majestade divina, diante da qual tremem as colunas dos céus, e os Querubins e Serafins fazem das asas um escudo para o rosto…; o quarto é lembrarmo-nos dos cuidados de Deus para conosco; o quinto é que essa majestade exige de nós que a tenhamos sempre presente, que a sirvamos com humildade e a escutemos com obediência…; o sexto é que do esquecimento de Deus provêm todas as nossas quedas…; o sétimo deduz-se dos muitos e terríveis inimigos que temos de vencer, e dos quais não podemos triunfar senão pelo exercício da presença de Deus…; o oitavo é refletir que tudo quanto temos vem de Deus e depende dele, diante do qual não somos senão pobres mendigos…; o nono é que a necessidade de caminhar na presença de Deus obriga todos os homens, em todos os seus pensamentos, em todas as suas ações etc.; e que também cada mínimo ato nosso deve ser feito, seja pelo corpo, seja pela alma, com exatidão, solicitude, segundo a lei e a vontade de Deus, para que possamos, em tudo, agradar-lhe sempre mais e obter as suas graças. Uma ação medíocre, feita com perfeição, vale muito mais que uma ação excelente, feita com negligência e tibieza; porque Deus olha antes para o modo como uma obra é feita do que para a grandeza da obra em si mesma.
O Profeta Davi pintou com um só traço o verdadeiro caráter do mundo, chamando-o: «Terra do esquecimento». E, de fato, onde encontrar no mundo quem pense em Deus? Em que pensam os meninos? … onde está a mente dos jovens? … De que se ocupa a maior parte das mulheres? … Quais são os pensamentos do literato, do comerciante, do artista, do camponês? O beberrão, o blasfemador, o libertino, o invejoso, o mundano, o ímpio, o incrédulo, o despreocupado, em que pensam? … talvez em Deus? … suas iniquidades provam o contrário… A quantos se poderia fazer aquela repreensão de João Batista aos judeus, a propósito da presença de Jesus Cristo: «No meio de vós está alguém que vós não conheceis» (Jo 1,26). Grande parte dos homens não conhece outro altar senão aquele que São Paulo viu outrora em Atenas, sobre o qual estava escrito: «Ao Deus desconhecido». Mas ai deles! porque, com o esquecimento de Deus, nascem e se desenvolvem em seu coração todas as más sementes das paixões…; as virtudes ficam sufocadas ao nascer; todos os inimigos o percorrem como senhores…; todas as suas ações, em uma palavra, são imundície e escória (Sl 10, 5). O esquecimento de Deus é a origem de todos os males… Nós nos esquecemos de Deus… Tudo está perdido, o tempo e a eternidade…