A Sagrada Escritura nos diz que, nos dias de Noé, era tal a inundação de crimes que Deus pôde dizer que todo homem havia se desviado do caminho reto, que toda a terra estava corrompida e que o mundo inteiro transbordava de toda espécie de iniquidade (Gn 6,11-12). Oh! Como são semelhantes aos dias de Noé os dias presentes! Não poderia acaso um novo Miqueias clamar com razão: «O santo desapareceu da terra, e o justo sumiu do meio dos homens; todos armam ciladas para derramar sangue; o irmão caça o irmão até a morte»? (Mq 7,2).
Em consequência do extermínio praticado pelo Anjo do Senhor no meio dos egípcios, o texto sagrado observa que não havia casa que não tivesse de chorar algum morto (Ex 12,30). Pobres de nós! Não se poderia hoje afirmar, diante do assustador progresso que vai fazendo a corrupção dos costumes, que quase não há família que não deva lamentar algum morto espiritual? Parecem feitos para nós os gemidos do Profeta sobre a corrupção quase universal dos homens, de tal modo que raramente se encontra alguém que nade a salvo em meio à perversão geral, tendo todos caído na dissolução, tornado-se inúteis e feito-se abomináveis por seus desígnios iníquos (Sl 13,1,3).
Lemos no Segundo Livro dos Macabeus que, no tempo de Antíoco, se faziam grandes massacres de jovens, velhos, mulheres, meninos e donzelas (5,13). Triste imagem daquilo que vemos quanto ao número e ao progresso dos crimes! … A maior parte dos homens serve ao demônio e se torna sua presa e pasto, de modo que vemos cumprida a palavra de Miqueias: «A terra ficará desolada por causa dos crimes» (Mq 7,13).
Não podemos acaso aplicar ao nosso século aquelas palavras de São Paulo: «Muitos há que são desobedientes, frívolos e sedutores»? (Tt 1,10) e aquelas outras de São João: Todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, trazem nas mãos ou na fronte impressos o selo, o caráter da besta? (Ap 13,16). Com efeito, que outro século jamais, mais que o presente, viu tamanha inundação de indiferença, incredulidade, impiedade, blasfêmias, profanações, ódios, rebeliões, calúnias, impurezas, injustiças, mentiras, escândalos, orgulho, inveja, avareza, ambição e excessos de toda espécie?
Nos dias em que o ímpio Antíoco oprimia com males o povo de Deus, o piedoso e intrépido Matatias assim exalava a dor de sua alma: Ai de mim! Por que nasci para ver a aflição do meu povo e a ruína da cidade santa, e para nela habitar enquanto é entregue às mãos de seus inimigos? O seu santuário está em poder de estrangeiros, o seu templo é como um homem entregue ao escárnio da ignomínia; os monumentos da sua glória foram transportados para terra estrangeira, os seus anciãos foram degolados e os seus jovens passados ao fio da espada. Ela foi despojada de todo o seu esplendor; de livre tornou-se escrava, e tudo quanto havia nela de belo, esplêndido e santo foi violado e profanado. Por que, então, ainda vivemos? E Matatias e seus filhos rasgaram as vestes, vestiram-se de cilício e fizeram grande luto; em seguida, Matatias começou a clamar em alta voz pela cidade: Quem tiver zelo pela lei e observar a aliança do Senhor, siga-me. E ele e seus filhos retiraram-se para os montes, abandonando tudo quanto possuíam na cidade (1Mc II). Assistindo nós aos mesmos excessos, e talvez ainda mais enormes, imitemos este santo ancião e seus filhos: gemamos, choremos, rezemos, fujamos.