Tesouro n.º 66 · Volume I

ESMOLA ELEMOSINA

23 seções · 136 parágrafos · pp. 662–698 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DE DAR ESMOLA

“Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo, disse Jesus Cristo; nem podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6, 24). Não, o homem não pode adorar a Deus e o dinheiro, servir à avareza e ter por recompensa o céu. O avarento mancha o ouro; não o emprega, mas o esconde; deixa-o entregue à ferrugem, aos ladrões e ao demônio. “A prata e o ouro, diz a propósito Santo Agostinho, são bens, não porque vos tornam bons, mas porque vos fornecem os meios de fazer o bem (1).” É sentença de Jesus Cristo: “Dá a quem te pede” (Mt 5, 42).

O rico do Evangelho dizia consigo: Derrubarei os meus celeiros e construirei outros maiores, onde colocarei as abundantes colheitas das minhas terras; e então, minha alma, possuindo abundantes tesouros, poderás beber, comer e gozar por muitos anos. Mas foi-lhe respondido: Insensato, nesta noite te será reclamada a tua alma; e de quem será aquilo que tiveres armazenado? (Lc 12, 18-20). A essa gente pode-se dizer, com São Basílio: “Procuras celeiros e despensas para neles depositar as tuas economias? Ei-los já preparados: estão no ventre dos pobres! (2)”

“Não és senhor, observa o Crisóstomo, da tua alma; como serás senhor dos teus bens? Se, portanto, as tuas riquezas não te pertencem, mas pertencem ao Senhor, deves partilhá-las com os teus irmãos. Não digas, pois: Eu como do que é meu; porque os bens que possuis não são teus, mas dos outros; ou melhor, tu os tens em comum com os outros, como o sol, o ar e todas as demais coisas… Deus te deu casa, haveres e dinheiro, não para que os possuas sozinho, mas para que os repartas com aqueles que estão na indigência (3).”

“Não vos esqueçais jamais de ser hospitaleiros, escrevia São Paulo aos Hebreus, mas lembrai-vos de praticar a beneficência e de repartir generosamente o que tendes com os outros, porque tal sacrifício nos torna agradáveis a Deus” (Hb 13, 2, 16). “A verdadeira piedade, a religião sincera, é esta, diz São Tiago: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações” (Tg 1, 27).

Atentai, diz o Senhor no Deuteronômio, para que não vos assalte o ímpio pensamento de desviar o olhar de vosso irmão pobre e de vos recusardes a socorrê-lo, para que ele não eleve seus clamores ao Senhor e vós não vos torneis réus de grave pecado. Mas sede generosos em socorrê-lo, e seja vosso coração terno e compassivo para com a sua miséria, a fim de que o Senhor vosso Deus vos abençoe em todos os tempos e em todos os empreendimentos. Nunca faltarão pobres na terra que habitareis; por isso vos ordeno que abrais a mão ao irmão pobre e privado de auxílio (Dt 15, 9-11).

É nosso dever dar esmola aos indigentes, porque: 1° Deus quer que existam, para nos advertir de nossa comum fraqueza. 2° Porque são nossos irmãos, seja por natureza, seja pela imagem de Deus, renovada por Jesus Cristo, cuja marca eles, tanto quanto nós, trazem consigo; seja ainda por causa da fé, da esperança, da caridade e da adoção divina, que têm em comum conosco; e, finalmente, no que diz respeito à vida bem-aventurada, à qual também eles são chamados, como nós. 3° Porque devemos agir com a intenção de Jesus Cristo, irmão de todos. 4° Para colocar, por meio deles, os nossos bens em lugar seguro, pois na terra nada há de estável. 5° Pelas imensas vantagens que a esmola proporciona e que podem reduzir-se a três: preservar-nos das desgraças, assegurar a nossa salvação e merecer-nos uma recompensa eterna. 6° Finalmente, porque Deus, que nos cumulou de benefícios, no-la ordena. Com efeito, ele nos impõe uma estrita obrigação de caridade; ora, como poderá lisonjear-se de possuir em si a caridade de Deus aquele que, tendo riquezas, ao encontrar um irmão necessitado, não se comove de compaixão? (1Jo 3, 17).

Daí estas sentenças dos Padres: “Sois grandemente culpados se, sabendo disso, deixais um de vossos irmãos padecer fome (4).” Se não socorreis aquele que desfalece de fome, vós o matais (5). Dos primeiros cristãos diz-se que formavam um só coração e uma só alma; mas sabeis por quê? Porque colocavam todos os seus bens em comum, como indica o texto sagrado (At 2, 44). Com efeito, observa o Crisóstomo, “o meu e o teu são a causa de todas as discórdias (6)”.

“Dá esmola, dizia Tobias, e não feches os olhos diante de nenhum pobre” (Tb 4, 7). “E quem não escuta os clamores do mendigo também não será escutado quando clamar”, diz o Sábio (Pr 21,13). Esta sentença encontra sua explicação na lei de talião, sancionada por Deus, e nestas palavras de Jesus Cristo: “Sereis medidos com a mesma medida com que tiverdes medido os outros” (Lc 6, 38). Os executores da sentença serão os homens e Deus, mas principalmente Deus. A história do rico malvado nos dá disso um terrível exemplo: como ele foi surdo às súplicas de Lázaro, que implorava socorro, Abraão não ouve os clamores que ele lança do fundo do inferno e não lhe concede o refrigério implorado. O rico implora uma gota de água para os seus lábios abrasados, e ela lhe é negada, porque ele recusou a Lázaro as sobras de sua mesa! Ó rico! Assim o interpela Santo Agostinho: ó rico, com que rosto pedes uma gota de água, tu que negaste uma migalha de pão? Aqui se faz a compensação: tormentos para quem empregou mal as suas riquezas, refrigério para o pobre; ao rico, a chama em lugar da púrpura; ao pobre, um esplêndido manto de glória; a justiça quer que vos seja feito aquilo que fizestes aos outros. A riqueza e a pobreza são duas coisas contrárias, mas necessárias uma à outra; ninguém sofreria se todos se ajudassem mutuamente a suportar as penas; nem o rico nem o pobre sentiriam necessidade alguma se se socorressem reciprocamente. O rico existe para o pobre, e o pobre para o rico. O dever do pobre consiste em rezar e sofrer com resignação; o dever do rico consiste em estender a mão e dar esmola. Deus está presente para recompensar a ambos (Serm. CCLXXXVII).

Tratai os pobres como desejais ser tratados por Deus. O Senhor nos ouvirá com o ouvido com que tivermos ouvido os outros piedosos; olhar-nos-á com o olho com que tivermos contemplado os nossos irmãos; ofereçamos, pois, misericórdia em troca de misericórdia, lembrando-nos de que Deus não atende a quem não escuta o clamor do pobre: “quem nada dá, escreve o Nazianzeno, não espere receber nada (7)”.

“Meu filho, lemos no Eclesiástico, não prives o pobre da sua esmola e não desvies dele o teu rosto; não olhes com mau olhar para o mendigo e não entristeças o pobre em sua miséria” (Eclo 4, 1-2). Ó rico sem caridade, diz São Basílio, tu, pois, que guardas para ti os bens que Deus te deu para que os distribuísses, és um espoliador, um assassino. Ao pobre que morre de fome pertence o trigo que fechas à chave; ao andrajoso que anda nu pertencem as vestes que amontoas nos cofres; ao que está descalço são devidos os calçados que guardas para ti; o dinheiro que enterrais é dinheiro do pobre. Roubas aos pobres que, podendo socorrê-los, deixas abandonados (Serm. 11, de Eleemos.).

Mais fortes ainda são as seguintes palavras de Santo Ambrósio: Ninguém pode chamar seus os bens que possui. Direis vós: onde está a injustiça, se, não roubando nada a ninguém, conservo cuidadosamente os meus haveres? Ó desfaçatez! E quais são eles, afinal? Serão porventura os que trouxestes convosco ao vir ao mundo? Mas viestes nus. Serão talvez os que possuís atualmente? Mas, se realmente vos pertencem, por que a morte vo-los arrebatará? Tirar do que possui e negar a esmola ao pobre, quando se tem com que dar, são dois delitos iguais (8). Não se exprime de modo diverso São Jerônimo a Edíbia: Se tens mais do que o necessário para o alimento e o vestuário, deves dá-lo em esmola; sabe que desse supérfluo és devedora (9).

São João Crisóstomo diz: “Tu, homem, dos teus bens não és senão um simples administrador, como aquele que recebeu o encargo de administrar os bens da Igreja. Recebeste a tua fortuna não para dissipá-la nos prazeres, mas para distribuí-la em esmola. Aquilo que possuis é, pois, propriedade tua? Não, é o patrimônio dos pobres, confiado a ti; e não importa que o tenhas adquirido com trabalhos honestos ou que o tenhas herdado de teu pai (10). Da mesma opinião é Santo Agostinho, o qual, depois de dizer que o supérfluo do rico pertence ao pobre e que aquele que o retém retém coisa alheia, conclui que os ricos não podem salvar-se sem a esmola (11). São Tomás de Aquino ensina que é de direito natural o dever de dar o supérfluo aos pobres e afirma que esse é o sentimento comum dos teólogos (12), fundado nestas palavras de São Paulo a Timóteo: “Quando temos com que nos vestir e sustentar, devemos estar satisfeitos” (1Tm 6, 8), e nestas outras de Jesus Cristo: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo quanto possuis, distribui-o aos pobres, e conquistarás um grande tesouro no céu; depois vem e segue-me (Mt 19, 21).

“Que é isto? — exclama Santo Ambrósio, dirigindo-se aos ricos avarentos — revestis as paredes de tapeçarias e despojais os homens! O mendigo clama às vossas portas, coberto de farrapos, enquanto vós pensais com que mármores fareis os pisos de vossos aposentos! O pobre pede uma moeda e não a obtém, pede um pedaço de pão e este lhe é negado, enquanto os arreios de vossos cavalos resplandecem de prata e ouro (13)”.

Não rejeiteis a oração do aflito, diz o Sábio, e não volteis o rosto do pobre, por temor da ira; àquele que vos suplica, não deis motivo para vos amaldiçoar, porque a imprecação daquele que vos amaldiçoa na angústia de sua alma será atendida por aquele que o criou. Sede afáveis com os pobres, escutai benevolamente o miserável; dai-lhe aquilo que lhe é devido e respondei-lhe com cortesia (Eclo 4, 4-8). Não voltar o rosto do pobre por temor da ira: 1º da vossa própria ira, porque, insistindo o pobre, ele vos irritará; 2º da ira do pobre, que vos amaldiçoará; 3º da ira de Deus, que vinga os miseráveis esquecidos e maltratados.

“Reparte o teu pão com o faminto, diz Isaías, que o teu teto seja hospitaleiro para o pobre e o mendigo; se vires um nu, veste-o, e não desprezes a tua carne” (Is 58, 7). “É preciso dar esmola, diz São Leão, para que, compadecendo-nos dos pobrezinhos, mereçamos a misericórdia de Deus (14)”.

Qual será o principal motivo pelo qual Jesus Cristo, no dia do juízo, condenará os réprobos? O fato de não terem cuidado dos necessitados. Portanto, é rigorosa a obrigação de dar esmola.

2. FACILIDADE DE DAR ESMOLA

“Dou-vos a minha palavra, disse Jesus Cristo, que todo aquele que der a um destes pequeninos um copo de água, ainda que somente em nome de um dos meus discípulos, não perderá a sua recompensa” (Mt 10, 42). “Deus, observa aqui Santo Agostinho, põe o céu à venda e quer que o preço seja um gole de água fria (15). O mesmo doutor diz: “Se sentes verdadeira compaixão pelo pobre, Deus aceita a tua compaixão como esmola, ainda que a tua condição não te permita prestar outro auxílio (16)”.

“Sê misericordioso para com os necessitados quanto puderes, dizia Tobias a seu filho; se tens muito, dá muito; se tens pouco, dá de bom grado esse pouco que puderes” (Tb 4, 8-9). E Isaías exorta-nos a repartir o nosso pão com o mendigo (58, 7). Santo Agostinho insiste naquela palavra frange — rompe — e conclui que ninguém, por mais pobre que seja, pode eximir-se da obrigação de dar esmola e que, de algum modo, todos podem dá-la. “O Profeta não diz, escreve este santo padre, que se deve dar todo o pão, pois pode muito bem acontecer que o doador esteja necessitado e não lhe reste outro pão; mas rompe, diz ele, o teu pão, isto é, se és tão pobre que não tens senão um pão, parte-o e divide-o com o faminto (17)”.

Deus olha antes para o coração daquele que dá do que para o próprio dom… Observai a viúva do Evangelho, que deposita uma pequena moeda no tesouro do templo; Jesus Cristo declara que ela dava muito mais do que os outros, que depositavam grandes quantias; porque ela dava do necessário, enquanto os outros não se privavam senão do supérfluo… “Deus não pesa o dom, diz São Gregório, mas o afeto (18)”.

3. DIVERSAS ESPÉCIES DE ESMOLA

Não podendo nós dar nada a Deus, em troca dos muitos bens com que nos cumulou, demos à sua imagem, isto é, ao nosso próximo; derramemos liberalmente no seio do pobre a esmola material, o alimento, o vestuário, a lenha; façamos a ele a esmola espiritual, muito mais preciosa que a corporal: a esmola dos bons conselhos, da educação, da benevolência, da oração, da vigilância, da correção e, antes de tudo, do bom exemplo.

A compaixão que sentimos pelo pobre é uma esmola, e esmola ainda maior é desejar os meios de socorrê-lo. Esta esmola do desejo muitas vezes iguala e até supera, em mérito, a esmola das obras, porque Deus olha para o coração e para a vontade. Esta é uma grande consolação para aqueles que estão impossibilitados de dar.

Dai como esmola aquilo que tendes: dinheiro, roupas, pão, bons conselhos, palavras consoladoras, votos e desejos misericordiosos, que mostrem a vossa compaixão para com o infeliz, porque a compaixão alivia e suaviza a miséria do pobre. Além disso, há muitas espécies de esmola; faz esmola não somente quem dá de comer ao faminto, ou de beber ao sedento, ou veste o nu, ou aquece o enregelado, ou abriga o viandante, ou visita o enfermo e o encarcerado, ou resgata o escravo, ou ajuda o fraco, ou guia o cego, ou consola o aflito, ou procura remédios para o doente, ou reconduz ao bom caminho aquele que se desvia; mas também faz esmolas abundantíssimas quem perdoa uma injúria recebida, quem dirige bem aqueles que deve instruir, quem restabelece a disciplina, quem a mantém vigorosa, quem trabalha para salvar as almas etc.

Mas a esmola que se faz aos outros nunca deve estar separada; antes, deve ser precedida pela esmola para consigo mesmo. “Como poderás tu ser misericordioso para com os outros — pergunta Santo Agostinho —, se és cruel contigo mesmo? Tem piedade de tua alma, procurando agradar a Deus. A penitência é uma esmola que o homem faz a si mesmo; quem tem uma caridade ordenada começa por prover às próprias necessidades. Ora, quem se arrepende de seus pecados faz uma excelente esmola à própria alma (19).”

4. A ESMOLA MERITÓRIA

Para que a esmola seja meritória para quem a faz, é preciso que, ao fazê-la: 1° se compadeça da miséria do pobre; 2° deseje fazer-lhe o bem; 3° venha realmente em seu auxílio; 4° se antecipe ao seu pedido, principalmente se o pobre for envergonhado; 5° sofra privações para aliviar os outros; 6° faça, a exemplo de Jesus, dos apóstolos, dos missionários e das irmãs de caridade, o sacrifício de si mesmo e da própria vida.

A fé nos ensina que Jesus Cristo está na pessoa dos pobres; por isso, quando vedes necessitados e enfermos, considerai piedosamente e venerai humildemente a nudez e as enfermidades às quais Jesus Cristo, por vosso amor, quis submeter-se. Segue-se, portanto, que a esmola deve ser feita com alegria, segundo o ensinamento de São Paulo aos Romanos (12, 8). É verdadeira esmola, observa o Crisóstomo, aquela que se faz com tal disposição de ânimo, que se experimenta alegria em dar e se julga receber mais do que se dá; pois, na realidade, fazemos bem não tanto aos pobres quanto a nós mesmos e recebemos muito mais do que damos (20).” “Se podeis dar — diz Santo Agostinho —, dai; se não podeis, despedí com boas maneiras e rosto alegre aquele que pede; Deus recompensa a boa intenção de quem não tem outra coisa para dar senão boas palavras. Ninguém diga: Eu nada tenho; a caridade não consiste toda em pão (21).” “Se, ao contrário — continua o mesmo santo —, dais, mas com pesar, a contragosto e de semblante carregado, perdeis a esmola e o mérito (22).”

São Paulo escrevia aos Coríntios, a propósito da esmola: “Dê cada um de vós aquilo que tiver decidido dar; mas de boa vontade, não por obrigação, porque Deus ama quem dá com rosto sereno” (II, 9, 7). Assim comenta o Crisóstomo estas palavras: “Se damos alegremente, a nossa esmola será dupla, porque damos e porque nos julgamos felizes em dar (23).” Também Luciano disse: “Quem dá prontamente, dá duas vezes (24).” Quem considera que nos pobres se honra a Deus, porque o miserável estende a mão suplicante, diz São João Damasceno, mas é Deus quem recebe (25), dá não somente com rosto sereno, mas com deleite e prazer.

É preciso dar: 1° com liberalidade; 2° com prontidão; 3° com alegria; 4° antecipando-se ao pedido do pobre; 5° dos próprios bens, e não dos alheios; 6° não somente do supérfluo, mas também do necessário; 7° em segredo, para que o orgulho não arrebate o mérito da esmola; 8° frequentemente.

“Perde toda a graça — dizia o poeta Ausônio — aquele benefício que se faz esperar; a coisa dada com prontidão torna-se muito mais agradável (26).” Demócrito nos dá este ensinamento: “Se queres fazer um benefício, concede-o imediatamente, porque a demora o estraga (27).” Lemos a mesma coisa nos Provérbios: “Quando podes dar prontamente, não digas a teu irmão: Vai e volta amanhã, e eu te darei o que pedes” (Pr 3, 21). Não se deve adiar para amanhã o socorro do pobre, porque: 1° até amanhã pode surgir algum impedimento; 2° quem dá imediatamente, alivia imediatamente; 3° quem não faz esperar pela esmola une a ela o coração, o que vale mais do que a própria esmola; 4° quem demora a dar perde a ocasião e o mérito do donativo; 5° fazendo imediatamente boa acolhida à súplica do pobre, não o obrigais a voltar e a perder assim o seu tempo; diminuís a sua pena e a sua vergonha e não lhe dais motivo para murmurações. “Meu filho — lemos no Eclesiástico —, não tardes em socorrer aquele que geme na angústia” (Eclo 4, 3).

Olhai para o necessitado com semblante sereno, para que peça com confiança; socorrei-o imediatamente, para livrá-lo do incômodo de insistir e esperar; atendei sem demora às suas necessidades, e proporcionareis a consolação dele e a vossa. Nunca aconteça desprezarmos os nossos irmãos que vemos pobres, porque, embora infelizes, pertencem à nossa família; mas imitemos a Deus, nosso Pai e Pai deles, de quem assim fala o Salmista: “O Senhor é o refúgio do pobre, é o seu abrigo no dia da aflição” (Sl 9, 9). “O Senhor não se esquece do oprimido, não é surdo ao clamor do necessitado” (Id. 18). “Ó Senhor, o pobre está em vossas mãos; o abandonado encontra em vós apoio” (Id. 34).

Não ouvir a súplica do pobre é desprezá-lo, afligi-lo, impeli-lo à impaciência e à cólera. Socorrendo-o pronta e alegremente, vós vos antecipais aos seus desejos e superais as suas esperanças. Quem alivia a miséria de seu semelhante deve fazer como o bicho-da-seda, que se esconde no casulo e o deixa à vista e o abandona ao homem; vê-se o seu benefício, mas ele permanece oculto. O coração bom e generoso foge do exibicionismo e das aclamações; não busca nem espera recompensa exterior alguma.

“Se podemos fazer alguma coisa para aliviar a miséria alheia, façamo-la — diz o Crisóstomo — com prazer e alegria, como se não estivéssemos dando algo a eles, mas recebêssemos deles alguma coisa. Se não podemos fazer nada, não os tratemos com dureza e arrogância, mas demonstremos a eles a nossa compaixão com palavras ternas e respondamos aos seus pedidos com doçura e cortesia. Por que os repeliríamos nós com más maneiras? Por acaso nos constrangem? Por acaso nos violentam? Não: eles pedem, suplicam, imploram; quem se comporta desse modo não merece ultraje. Que faz o mendigo? Pede, insiste e nos deseja muitos bens para obter uma pequena moeda (28).”

“Meu filho — diz ainda o Sábio —, não temperes o teu donativo com palavras ásperas” (18, 15). Quem acompanha a esmola com palavras desagradáveis mistura areia ao pão que dá; oferece com uma mão o pão e, com a outra, dá bofetadas. A experiência ensina que, para os sofrimentos da miséria, uma palavra de bondade e compaixão é mais reconfortante do que a própria esmola, a qual se torna uma ofensa quando acompanhada de palavras pungentes. Uma linguagem benevolente conquista a graça, ainda que não seja acompanhada de auxílio; as palavras consoladoras são o sal da esmola.

5. A ESMOLA BENEFICIA MAIS A QUEM A DÁ

Não somos proprietários, mas apenas administradores, dos bens que administramos e que devemos considerar como bens que não são nossos, para distribuí-los segundo a vontade de Deus. “É um erro, escreve o Crisóstomo, julgarmo-nos senhores dos bens temporais e considerá-los como nossa propriedade. Com efeito, não há coisa alguma que seja nossa, mas tudo pertence a Deus, que no-las deu (29). Quem de nós é senhor da própria alma? Ninguém; ora, como será senhor do seu dinheiro? Se, pois, os bens que possuímos não são nossos, mas de Deus, é claro que devemos dividi-los com nossos irmãos, servos do mesmo Deus. Por que nos irritarmos quando os pobres nos pedem esmola? Eles não nos pedem o que é nosso, mas o que é do Pai (30).” Por isso, São João Esmoler chamava os pobres de seus senhores e proprietários.

“É coisa boa para o homem ser misericordioso, escreve Santo Ambrósio, porque, enquanto socorre os outros, provê a si mesmo; com o remédio que prepara para os outros, cura as próprias feridas (31).” “Os benefícios da esmola, diz São Basílio, retornam àqueles de quem partiram. Quando alimentastes um pobre, trabalhastes para vós mesmos, porque aquilo que destes vos será restituído com juros (32).” Finalmente, diz São João Crisóstomo: “A esmola é uma veste que ressuscitará juntamente com o morto. Dessa veste estarão cobertos aqueles que merecerem ouvir, no dia do juízo, estas palavras: Vós me vistes desfalecer de fome e me destes de comer (33).”

6. PELA ESMOLA DEUS SE TORNA NOSSO DEVEDOR

Não deve causar admiração que aquele que dá esmola, considerando os bens que possui não como seus, mas como de Deus, e empregando-os não como propriedade sua, mas como depósito que lhe foi confiado pelo Senhor, cuide do próprio bem enquanto procura o dos pobres. Mais ainda: isso é um corolário natural da esmola cristã, que nos torna credores do próprio Deus. Diz São João Crisóstomo: “Com a esmola, constituís Deus vosso devedor (34).” E em outro lugar: “Não há tesouro comparável ao homem misericordioso. Graça mais excelente é socorrer os miseráveis do que ressuscitar os mortos; por esta última, tornas-te devedor de Jesus Cristo, mas pela primeira Jesus se torna teu devedor (35).”

“A esmola sujeita, diz Santo Ambrósio, o próprio Deus, que é onipotente… Com a esmola sacrifica-se um pouco de dinheiro ou de bens, que nada são, e obtém-se a misericórdia eterna (36).”

7. É PRECISO DAR MUITO E SEMPRE

Imitemos a Deus: demos dois óbolos a quem nos pede um; assim Jesus Cristo concedia, além disso, a saúde da alma àqueles que lhe pediam a do corpo. Sede generosos na esmola; isto nos inculca o Eclesiástico com esta advertência: “Dá aos pobres segundo as tuas forças” (Eclo 14, 13). A beneficência, diz Fílon, à semelhança da lua, nunca aparece tão bela como quando está cheia (37).

São João Esmoler, cheio de confiança em Deus, clamava: “Que o mundo inteiro venha a Alexandria pedir esmola; eu a darei a todos, porque o mundo inteiro não pode esgotar os tesouros de Deus.” Outras vezes, dirigindo-se a Deus, dizia: “Ficarei observando, ó Senhor, qual de nós se cansará primeiro: vós, de dar; ou eu, de distribuir os vossos dons” (LEON., In eius Vita). Cessai, pois, ó almas tímidas e desalentadas, cessai de tentar a Deus com a vossa pusilanimidade, mesquinhez e desconfiança. Vendo Deus a grande, absoluta e plenissíssima confiança que nele depositava o citado São João, transformava para ele em prata todos os objetos e lhe restituía a esmola centuplicada, de tal modo que, quanto mais dava, tanto mais recebia.

O mesmo santo costumava dizer: “Sei, por experiência cotidiana, que a esmola, em vez de empobrecer, enriquece; porque, quanto mais dou, tanto mais Deus me envia com que dar” (LEON., In Vita.). Por isso, São João Crisóstomo nos aconselha a jamais nos cansarmos de dar esmola; a dá-la não uma, não duas, não dez, não cem vezes, mas sempre (38).

8. QUANTO MAIS SE DÁ, TANTO MAIS DEUS RESTITUI

Quanto mais formos generosos em esmolas para com os pobres, tanto mais Deus será generoso conosco em dons. “Quem semeia pouco, diz São Paulo, pouco colhe; quem, porém, semeia abundantemente, fará também uma colheita abundante” (2Cor 9, 6). Quanto mais derdes ao pobre, tanto mais recebereis no tempo ou na eternidade. A esmola é o comércio mais lucrativo para o homem; São João Crisóstomo compara quem dá esmola ao agricultor que, ao semear os campos, não perde a semente que lança, mas a confia à terra para dela obter o décuplo, e conclui: Vede que excelente negócio é a esmola: dá-se pão e recebe-se o paraíso; dá-se pouco e recebe-se muito; dá-se coisa perecível e recebe-se coisa imperecível (39).

Narra Sofrônio que certo Evágrio, tendo ouvido ler na igreja que, por uma esmola, se recebe o cêntuplo, entregou ao bispo Sinesio sessenta moedas de prata para serem distribuídas aos pobres, com a condição de que lhe passasse uma declaração por escrito, afirmando que receberia no céu o cêntuplo daquilo que dava como esmola, e fez seus filhos prometerem que lhe poriam essa declaração nas mãos quando morresse. Sua vontade foi cumprida; e eis que, três dias depois de sua morte, Evágrio apareceu em sonho a Sinesio e lhe disse que fosse à sua sepultura buscar o seu documento, porque Jesus Cristo lhe havia pago o cêntuplo, segundo a promessa que lhe fizera (Prato spirit. CLXXXV).

Um nobre senhor de Constantinopla deixou seus bens aos pobres e nomeou Jesus Cristo tutor de seu filho. Sua esperança não foi frustrada, porque Jesus proporcionou àquele filho uma esposa nobilíssima e piedosíssima, que lhe levou como dote um patrimônio muito mais rico do que aquele que teria herdado do pai (Anton. in Meliss.). “Se Jesus Cristo, diz São João Crisóstomo, quer ser alimentado por ti, faz isso para alimentar-te; se te pede que o vistas, faz isso para vestir-te. Não te preocupes, pois, com o dinheiro, se queres que Jesus cuide de ti; se desejas tornar-te rico, dá com mão larga; se queres colher, semeia e, ao semear, imita o agricultor que não mantém o punho fechado (40).”

Quanto mais formos generosos para com os pobres, tanto mais Deus o será conosco; por isso, seremos como fontes que tanto mais água recebem quanto mais derramam. “Quanto mais dás esmola por Deus, torna a dizer São João Crisóstomo, tanto mais Deus te ama. Quem dá esmola recebe em troca um bem muito mais precioso do que aquele que deu e, por isso, deve-se dizer que recebe um benefício, em vez de fazê-lo, porque empresta a Deus, não aos homens; aumenta as suas riquezas, não as diminui; diminuí-las-ia se não quisesse retirar delas coisa alguma nem dar coisa alguma (41).”

Os pobres são terrenos férteis, por pouco que sejam cultivados; quando recebem a semente da esmola, produzem frutos abundantíssimos e preciosos. Quem, podendo investir suas riquezas em esmolas e assim levá-las consigo para o paraíso, não o faz, mostra ser louco. Por isso, Santo Ambrósio escrevia: “Sede cultivadores espirituais; semeai aquilo que pode voltar em vosso benefício: que boa semeadura é semear a esmola nas mãos dos necessitados! Se a terra vos devolve multiplicado aquilo que lhe confiais, não vos darão também as obras de misericórdia muito mais do que destes? Tudo o que dais aos pobres retorna em vosso proveito e para vosso fruto. Lançai a semente na terra, e ela germinará para vós no céu; aquilo que plantais junto aos pobres amadurece junto de Deus (42).”

9. A ESMOLA NOS FAZ IMITADORES DE DEUS, DE JESUS CRISTO E DOS SANTOS

A esmola nos ensina a tornar-nos semelhantes a Deus, imitando a sua misericórdia. É próprio de Deus ser misericordioso e benéfico; ele quer que o imitemos, e imita-o mais de perto aquele que se mostra mais pronto e generoso em fazer o bem. Esta é a doutrina unânime dos Padres: “Se és pródigo em esmolas, diz São Gregório de Nazianzo, és imitador de Deus (43)”. “Mais ainda que imitador, o homem caridoso é imagem de Deus”, diz Clemente de Alexandria (44). Com efeito, diz São Leão, “onde quer que Deus encontre cuidado pela beneficência, aí encontra a imagem de sua bondade (45)”. O que há de mais divino no homem é a beneficência, diz o Nazianzeno, que assim conclui: “Sê, portanto, o Deus do desventurado (46)”.

Que ser benéfico e misericordioso pertence, de fato, à essência de Deus, deduz-se disto: o Pai comunica sua natureza ao Filho; o Pai e o Filho comunicam-na ao Espírito Santo. O Filho se deu a nós na encarnação, no presépio, sobre a cruz, e dá-se a nós todos os dias no adorável sacramento do altar. A esmola torna o homem semelhante à divindade; ora, Deus é o bem supremo, e pertence à natureza do bem ser difusivo, comunicar-se; por isso Jesus diz: “Sede misericordiosos, como é misericordioso o vosso Pai celeste” (Lc 6,36). Nada é tão natural ao homem quanto ser humano; portanto, aquele que se mostra bom, benéfico e humano para com os outros é verdadeiramente homem. Se o homem é dotado de olhos, mãos, pés e língua, não o é somente para seu proveito, mas também para empregar estes e os demais membros no serviço do próximo… “Verdadeiramente régia é a virtude de socorrer os infelizes”, diz um poeta (47); e, segundo o testemunho de Cícero, nenhuma virtude aproxima tanto os homens de Deus quanto a esmola; o mérito de nossa fortuna está em repartir; a bondade da natureza, em querer fazer o bem tanto quanto se possa (48).

“Jesus Cristo, diz São Lucas, assinalou seus passos sobre a terra com outros tantos benefícios e curas” (At 10,38). O santo Tobias dava todos os dias a seus irmãos, que gemiam como ele na escravidão, tudo aquilo de que podia dispor (Tb 1,3). E basta conhecer um pouco a vida dos santos para saber como todos imitaram, na beneficência, na misericórdia e na bondade, tanto Tobias como o divino Mestre.

Os próprios pagãos nos deixaram, neste assunto da esmola, exemplos admiráveis. Ciro, rei da Pérsia, distribuiu entre seus familiares todas as magníficas joias que lhe haviam cabido, sem reservar nenhuma para si; e, interrogado sobre o motivo, respondeu que o ornamento de seus queridos lhe pertencia (Maxim. Orat. VI). Alexandre Magno, interrogado sobre onde guardava seus tesouros, apontando para os que o rodeavam, disse: “Coloco-os nas mãos destes meus amigos”. Tendo o mesmo rei dado a um de seus familiares uma cidade, e representando-lhe este que o presente estava muito acima de seus méritos para que pudesse aceitá-lo, disse o rei: “Não considero aquilo que vos convém receber; considero aquilo que a mim, como rei, convém dar” (Id.). Ptolomeu, rei do Egito, dizia: “É melhor enriquecer do que ser enriquecido” (Elian. lib. XIII).

10. COM A ESMOLA O HOMEM SE CONFORMA À LEI UNIVERSAL E SE TORNA AMIGO DE DEUS

À imitação de Deus, todas as criaturas dão abundantemente; mais ainda, dão a si mesmas. Os céus dão sua luz e sua beleza; o fogo dá seu calor; a atmosfera, o sopro ora suave, ora impetuoso dos ventos; a terra, os frutos de toda espécie; o mar, os peixes; os animais, a lã, a pele, o leite, a carne, os serviços… Todos nós vivemos das esmolas de Deus, das esmolas que nos fazem o sol, a lua, as estrelas, a terra, o ar… Ora, não seria para nós uma vergonha, ou antes, um delito, se não imitássemos as criaturas inanimadas e irracionais? Nós, que recebemos como dote a inteligência, nós, que tudo recebemos de Deus e das criaturas, como nos defenderemos ou nos escusaremos se não fizermos esmola a nossos semelhantes caídos na indigência e não partilharmos com eles as esmolas que recebemos de toda parte?… Tanto mais que as outras criaturas, prodigalizando conosco seus dons, seguem a lei que Deus lhes impôs, sem que disso lhes venha mérito ou recompensa, ao passo que o homem, conformando-se a ela, alcança honra e proveito. Com efeito, como diz São João Crisóstomo (49), a esmola é amiga e confidente de Deus e jamais se afasta dele; por isso, merece para quem a pratica estar sempre diante dos olhos de Deus e obter dele auxílio. São Martinho dá parte de seu manto a um pobre, e Jesus lhe aparece à noite vestido daquele pano…

“A esmola, diz o Sábio, é um tratado feito com Deus e marcado com seu selo” (Eclo 17,18). Quem dá esmola recebe de Deus, por assim dizer, uma folha em branco, na qual pode indicar quanto lhe é necessário ou quanto deseja; e, com essa folha apresentada a Deus, obtém tudo quanto pede. Direi mais: pela esmola, o homem recebe sobre si o selo divino e, assim como ninguém ousa violar uma carta munida do selo real, também os demônios nada podem contra o homem generoso e benfeitor.

11. DUAS IMAGENS DA ESMOLA,

“Se as nuvens estiverem carregadas, lemos no Eclesiastes, derramarão chuva sobre a terra” (Ecl 11,3). A esmola é justamente comparada às nuvens; com efeito: 1° as nuvens formadas na atmosfera não têm outro fim senão espalhar sobre a terra a chuva fecundante; as riquezas vêm do céu àqueles que as possuem, para que estes as derramem no seio dos pobres. 2° Deus faz chover indistinta e igualmente sobre todos, bons ou maus, amigos ou adversários; o homem caridoso derrama seu dinheiro nas mãos de quantos dele necessitam. 3° As nuvens não esperam reconhecimento pela chuva que dão; o rico verdadeiramente cristão não deve dar esmola buscando louvor e agradecimento, mas somente por impulso da caridade e do dever. 4° As nuvens nada perdem ao dar a chuva à terra; esta, com efeito, aquecida pelos raios solares, exala vapores que, elevando-se na atmosfera e condensando-se, voltam a fecundar as nuvens; assim, a esmola, caindo no seio do pobre, transforma-se em espírito de misericórdia e beneficência que, subindo a Deus, retorna sobre o homem misericordioso convertida em graças e benefícios divinos.

“Quando te compadeces ao ver um pobre e lhe dás alívio, diz Isaías, és como uma fonte de águas que jamais seca” (Is 58,10). Belíssima imagem do homem caridoso; uma fonte recebe tanta água quanta derrama; o homem caridoso recebe de Deus na medida em que dá. A fonte prodigaliza água a quem quer que dela retire, espalha suas águas sem secar; a alma liberal socorre continuamente toda necessidade e sem distinção. São Basílio e Clemente de Alexandria observam que, assim como a água se eleva sem esforço até a fonte, também os dons e benefícios de Deus chegam abundante e perpetuamente ao homem benéfico.

12. A ESMOLA ESTABELECE A VERDADEIRA FAMA

“Amas viver na memória dos homens? pergunta o Crisóstomo; eis o modo seguro e facílimo: em vez de desperdiçar tuas riquezas construindo palácios, vilas e banhos, coloca-as nas mãos dos pobres. Assim viverás eternamente; tua memória durará para sempre e te produzirá imensas riquezas, dando-te grande crédito diante de Deus (50)”.

“Os bens do homem caridoso, diz o Sábio, estão sob a salvaguarda do Senhor, e a assembleia dos santos narrará seus louvores” (Eclo 31,11). Ah, sim, muitos arautos proclamam os louvores do homem caridoso, e estes são: as igrejas que ele mandou construir e ornamentar; os mosteiros e hospitais que fundou e mantém; os religiosos, os pobres, os órfãos e as viúvas que veste e alimenta; os enfermos que visita e provê; finalmente, todos os infelizes a quem socorre. Sua casa é como o seio de Abraão na terra; nela, toda espécie de miseráveis encontra alívio e refrigério.

Quem se enternece diante dos pobres não vive senão para consagrar-se à caridade. Assemelha-se a Jó, que dizia: “Desde a minha mais tenra juventude, o órfão encontrou em mim um pai; desde a infância, amparei os passos da viúva” (Jó 31,17-16). Aos homens misericordiosos podem aplicar-se aqueles magníficos louvores da Escritura: “Louvemos os homens que souberam adquirir grande glória; o Senhor os revestiu de magnificência e esplendor. Grandes na virtude, ricos em boas obras, enamorados da verdadeira beleza, vivem em paz em suas casas. Brilharam como astros aos olhos dos filhos de sua nação, são cumulado de elogios por seus contemporâneos. Seus filhos deixaram um nome que perpetuou sua glória… Estes são aqueles que, cheios de misericórdia, jamais permitiram que a voz da compaixão clamasse em vão. Seus corpos foram sepultados em paz, e seu nome passa de geração em geração” (Eclo 44,1-14).

O mais soberbo, o mais completo elogio que se possa fazer de um homem está em dizer: Eis o pai dos pobres. Este encômio compreende todas as virtudes. Todos amam e louvam as pessoas misericordiosas; por ocasião de sua morte, ouve-se um pranto e um pesar geral; invocam-nas como se já estivessem no céu; e não se enganam.

13. A ESMOLA OBTÉM O PERDÃO DOS PECADOS

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”, disse Jesus Cristo (Mt 5, 7). Fazer misericórdia vale tanto quanto obtê-la. Deus concede ao homem caridoso: 1° fazer penitência e merecer o perdão dos pecados; 2° expiá-los. A misericórdia foi prometida aos misericordiosos; o que equivale a dizer que Deus, que é todo misericórdia, dá-se a si mesmo a eles (Sl 57, 17).

“A esmola livra de todo pecado e da morte”, diz Tobias (Tb 4, 11). “Por meio da misericórdia são apagadas as culpas”, repete o Sábio (Pr 15, 27). A esmola dispõe a obter o perdão dos pecados, mesmo mortais; e, se a culpa já foi perdoada, a esmola merece a remissão da pena que caberia sofrer.

Não há, pois, de que admirar-se, se São Leão escreve que as esmolas removem os pecados, matam a morte e extinguem as chamas do inferno (51), e se vários Santos Padres comparam a esmola ao batismo. Santo Ambrósio, por exemplo, assim se exprime: “A esmola destrói os pecados, assim como a água batismal apaga o fogo infernal. Ela é, de certo modo, outro batismo das almas; de modo que, se alguém, por fragilidade humana, depois do batismo, tiver recaído em algum pecado, para purificar-se dele resta-lhe a esmola (52)”. E São Cipriano: “Assim como o fogo do inferno é apagado pela água salutar do batismo, assim a chama do pecado é extinta pelas esmolas e pelas boas obras (53)”. O mesmo Padre ensina em outro lugar que Deus estabeleceu dois meios para apagar o pecado: o batismo, para as culpas cometidas anteriormente; a esmola, para nos livrar das culpas em que caímos depois daquele sacramento. Por isso, assim conclui: “Lavemos com as esmolas toda a nossa mancha, pois a Escritura diz: Assim como a água apaga o fogo, assim a esmola extingue o pecado (54)”.

Além disso, o próprio Jesus Cristo afirma em São Lucas: “Dai esmola e sereis purificados em tudo” (11, 41). Não foi acaso o próprio Deus quem, pela boca de Daniel, aconselhou Nabucodonosor a resgatar os seus pecados com esmolas e a redimir as suas iniquidades com liberalidade para com os pobres? (Dn 4, 24). Disso se conclui que a esmola remite os pecados veniais e a pena dos mortais; dispõe à remissão dos mortais e, na realidade, destrói-os quando é feita com a intenção de nos arrependermos deles.

A esmola, diz São Lourenço, bispo de Novara, é uma água, uma ablução, uma remissão dos pecados; por isso exorta os cristãos a lavarem o corpo e a alma nas ondas da esmola, para recolocá-los no estado em que o batismo os havia posto; porque a esmola apaga as culpas como água santa (Homil. in Poenit.). “Por meio das liberalidades da caridade, escreve São Leão, todo pecado ou é vencido ou é evitado. Por isso, todos os que desejam que Cristo lhes perdoe, compadeçam-se dos pobres (55)”. Santo Agostinho, depois de observar que a esmola mereceu para Tobias um anjo como guia e a visão para seu pai; depois de dizer que a misericórdia está no limiar do inferno e não deixa precipitar-se nele aquele que lhe é amigo (56), conclui dizendo: “Alimentai as entranhas dos pobres, e a vossa alma se enriquecerá com os dons de Deus. Vestí o nu, e serão cobertos os vossos pecados. Acolhei sob o vosso teto o peregrino, e Deus vos receberá no reino dos céus (57)”.

Finalmente, Tobias nos assegura que “a esmola livra da morte, faz encontrar misericórdia e a vida eterna” (Tb 12, 9). Daí se deduz: 1° que a misericórdia de Deus é prometida aos misericordiosos; 2° os pobres rezam por seus benfeitores, e Deus dá ouvidos às suas orações; 3° a esmola é um ato excelentíssimo de caridade; e a caridade, diz a Sagrada Escritura, cobre a multidão dos pecados.

14. A ESMOLA DÁ EFICÁCIA À ORAÇÃO

A esmola vem em auxílio da oração; era isso que o anjo queria dizer a Tobias com estas palavras: “Boa é a oração acompanhada da esmola” (Tb 12, 8). O Senhor, quando, por meio de Isaías, nos exorta a repartir nossos bens com o pobre, promete-nos que, ao invocá-lo, ele nos ouvirá e virá em nosso auxílio (Is 58, 7, 9). Ah, sim! Do seio do pobre, a esmola reza por nós e pede que todo mal se mantenha longe de nossas almas e de nossos corpos. “Deus olha para quem é benevolente, diz o Eclesiástico; dele se lembra e o socorre na necessidade” (3, 34).

“Não voltes o rosto para longe do pobre, dizia Tobias a seu filho, e assim jamais te acontecerá que Deus volte de ti o seu rosto” (6, 7). “Todos nós somos mendigos de Deus, observa Santo Agostinho; mas, para que Deus reconheça os seus, reconheçamos nós os nossos. Com que rosto ousa pedir a Deus aquele que finge não conhecer o seu semelhante? (58). Quando quiserdes que a vossa oração suba a Deus, muní-a de duas asas: a esmola e o jejum (59)”.

15. FELIZ QUEM DÁ ESMOLA

As riquezas são criadas e concedidas por Deus para que sejam empregadas em honrá-lo e em socorrer o pobre; esse é o seu fim, e quem a ele se dirige e o alcança recebe como prêmio a felicidade, a satisfação da alma. Ouvi-o da boca do Espírito Santo,

“É coisa muito mais doce e satisfatória dar do que receber”, lemos nos Atos dos Apóstolos (At 20, 35). “Bem-aventurado, exclama Davi, aquele que vela pelas necessidades do pobre e as compreende! No dia mau, o Senhor o livrará da ruína; ele o conservará, dar-lhe-á vida e o fará feliz sobre a terra” (Sl XL, 1-8). “Bem-aventurado aquele que se compadece dos males do próximo e se dispõe a socorrê-lo! jamais acontecerá que caia” (Sl 111, 5). “Quem se compadece dos miseráveis será feliz”, dizem os Provérbios (14, 21). Este será bem-aventurado: 1° porque os pobres são eles mesmos bem-aventurados, segundo as palavras do Salvador: “Bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5, 3). Ora, a quem darão eles este reino de que são senhores? Certamente àqueles que os socorreram. 2° Jesus Cristo promete a felicidade aos misericordiosos (Mt 5, 7). Por isso, São João Crisóstomo escreve que é felicidade infinitamente maior dar esmola do que ser rei e cingir um diadema; pois a esmola nos ensina como podemos tornar-nos semelhantes a Deus. Ser misericordioso é uma graça mais singular do que ressuscitar os mortos; porque é obra muito mais excelente alimentar Jesus Cristo, que tem fome em seus membros, do que restituir, em seu nome, a vida aos defuntos (Homil. 33, ad pop.). 3° A esmola diviniza o homem; forma nele uma espécie de divindade na terra e torna-o digno de sentar-se com os bem-aventurados no céu, por toda a eternidade. “Se, para vos estimular a dar esmola, pregava o Nisseno, nós vos mostramos como o título de misericordioso é inteiramente próprio de Deus, a que outra coisa vos exortamos com a nossa palavra senão a vos fazerdes deuses, adquirindo para vós uma qualidade essencialmente divina? (60)”.

16. EXCELÊNCIA DA ESMOLA

Diz admiravelmente São Pedro Crisólogo: “Deus, no céu, come o pão que se dá ao mendigo na terra. Dai, pois, de comer, dai de beber ao pobre, se quereis ter Deus como devedor e não como juiz (61)”. “Entre todas as virtudes dignas de louvor, diz São Gregório de Nissa, a esmola é a rainha. Ela é companheira da felicidade eterna; está sentada e reina com ela, unida a ela por um vínculo que mereceu ter” (Serm. in amor. Paup.). Com efeito, a pobreza, segundo a bela expressão do Crisóstomo, é uma espécie de pessoa moral, sob cujas vestes Deus se esconde; e no pobre que estende a mão, é o próprio Deus quem recebe a esmola (Homil. IX).

A esmola é um sacrifício; o dinheiro é a vítima; os pobres são o altar; o sacrificador é o rico que dá; a distribuição representa a imolação, e aquele por cujas mãos se faz a distribuição representa o diácono. Ela é um sacrifício de louvor e de ação de graças, porque: 1° é feita para a glória de Deus; 2° dá motivo àqueles que a veem ser feita para louvarem a Deus e se animarem a sentimentos de misericórdia; 3° deve ser feita por amor de Deus; por isso, deve-se também bendizer e agradecer a Deus por ter concedido a vontade e a possibilidade de fazer o bem.

O Crisóstomo parece não saber encontrar palavras suficientes para louvar e exaltar a excelência da esmola. Em certo lugar, escreve que ela está sempre na presença de Deus; que obtém tudo quanto pede; que quebra os grilhões dos pecadores e dissipa as trevas em que jaziam; que extingue as chamas do inferno; que, ao entrar no céu, ninguém lhe pergunta: Quem és tu e de onde vens?, mas todos se inclinam diante dela e a recolhem triunfalmente. Ela é virgem e, equilibrada sobre duas asas de ouro puríssimo, sobe ao céu; em seu vestido lê-se: honra e glória; tem o rosto cândido e suave; ágil e leve, voa sempre ao redor do trono real de Deus, distribuindo tesouros aos pobres… “A beneficência nos torna semelhantes a Deus; é a mãe da caridade e o sinal característico da virtude cristã. Dela nascem os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo; ela é o remédio que cicatriza as feridas do pecado; purifica nossa alma das imundícies; é escada que se apoia no paraíso; ela forma o corpo místico de Jesus Cristo, unindo entre si todos os seus membros (62)”.

Em outro lugar, o mesmo santo iguala a graça da esmola à graça dos milagres, da ressurreição dos mortos e da expulsão dos demônios; e acrescenta que Deus ordenou a esmola não somente para que se venha em auxílio dos necessitados, mas também para que aumentem os bens daqueles que dão, pois ela é mais útil aos que a praticam do que aos que a recebem (Homil. ad pop.).

São Cipriano chama a esmola coisa toda bela e divina, ato salutar, a grande consolação dos fiéis, o muro insuperável de nossa segurança, a cidadela da esperança, o apoio da fé, o remédio do pecado. É, ao mesmo tempo, virtude suprema e fácil, que não expõe à perseguição; é a coroa da paz e o mais precioso dos dons de Deus.

Também os próprios pagãos tiveram a beneficência em altíssimo conceito. Perguntado Pitágoras de que modo os homens poderiam tornar-se semelhantes aos deuses, respondeu: Pela beneficência (Elian. 1, 12). Teofrasto, perguntado qual era, segundo ele, o melhor meio de viver longamente, recomendou a beneficência (Stob. Sent. XLI). O rei Anaxilau dizia que o homem mais feliz de seu reino era aquele que praticava mais benefícios (Id.). Sabemos por Suetônio que o imperador Tito, lembrando-se, em meio a um banquete, de que naquele dia não havia feito nenhuma esmola, exclamou: “Ó meus amigos, perdi um dia!”. Epicteto comparava os homens benéficos ao sol, que espalha sobre todos a sua luz, o seu calor, a sua fecundidade e o seu esplendor (Stob.).

17. RIQUEZAS QUE A ESMOLA PROPORCIONA

Se dais esmola, recebereis Deus como recompensa! … A esmola é um investimento muito lucrativo, porque por meio dela nos tornamos credores de Deus, que jamais falta aos seus compromissos. Por um centavo, por um pedaço de pão, ele nos dá o céu! Onde encontrar comércio mais vantajoso?

“Dividi, diz o Senhor, o vosso pão com o pobre, vesti o nu, e então a vossa luz resplandecerá como a aurora, a saúde estará ao vosso lado, a vossa justiça caminhará à vossa frente e a glória do Senhor vos cercará por todos os lados. Então me invocareis, e eu vos atenderei; clamareis a mim, e eu vos responderei: Eis-me aqui. Se o vosso coração se enternecer à vista do miserável, se oferecerdes alívio ao angustiado, a vossa luz resplandecerá na noite, e as trevas serão para vós como o dia em pleno curso. Eu vos darei repouso eterno, refletirei em vossa alma os meus esplendores; reanimarei os vossos ossos, e florescereis como um jardim regado; sereis como uma fonte que nunca seca. Para vós foram estabelecidos os séculos; lançareis as raízes de vossa descendência por uma longa série de gerações; sereis chamados os restauradores das ruínas, os arautos e os portadores da paz em todos os lugares” (Is. c. 58).

“Observai, diz Santo Agostinho, como procede o usurário: ele quer dar menos do que recebe; e assim fazei vós: dai pouco e retirai muito. Vede como cresce o vosso empréstimo: dai as coisas temporais e recebereis as eternas; dai a terra e recebereis o céu (63).” “Assim como o trigo semeado no campo, diz São Basílio, dá lucro ao semeador, assim o pão lançado no seio do pobre produzirá fruto centuplicado (64).”

“Que é o ouro? Que é a prata?”, pergunta São Bernardo, e responde: “Não são senão uma espécie de terra amarela ou branca, e com essa terra compra-se o céu e o próprio Deus” (In Psalm.). Por isso, o venerável Beda nos adverte de que aquele que quer ser rico em Deus não deve acumular tesouros para si, mas distribuir aos pobres aquilo que possui (65). De resto, de que serve entesourar? “O fisco, como diz Santo Agostinho, toma aquilo que não se dá a Cristo; quem é rico em Deus deve ser pobre em dinheiro (66).” “É gravíssimo erro”, acrescenta o mesmo santo, “julgar rico aquele cujos cofres transbordam de ouro e considerar pobre aquele que possui Deus, especialmente por meio da esmola” (Sentent.).

Desejais uma grande recompensa? Dai em abundância aos pobres. Desejais o supremo das recompensas? Dai tudo. Foi isso que fizeram Santo Antônio e tantos outros santos. “O cofre do rico deve ser o campo em que o pobre colhe”, diz São João Crisóstomo (67), que em outro lugar acrescenta: “O pobre compra o céu para o rico que o socorre; porque fazer o bem ao homem é depositar uma grande fortuna junto de Deus (68). Por isso, entre todas as artes, a mais lucrativa é a esmola (69).”

“Quem são, de fato, os pobres? Os pobres”, responde Santo Agostinho, “são os nossos carregadores. Dai ao pobre, e ele levará por vós ao céu aquilo que lhe dais. Enquanto conservais os vossos tesouros nos cofres, a vossa alma treme; dai-os aos necessitados, e vós os fechareis num cofre onde não tereis de temer mão rapace (70).” “Quem dá esmola”, diz o Crisóstomo, “coloca a sua fortuna em lugar seguro, isto é, no céu, por meio dos pobres. Onde haveremos depois de guardar os nossos tesouros? Como poderemos conservá-los? Entregues aos pobres, permanecem; guardados a chave, fogem… E como poderiam fugir-nos, se são retidos por um exército de viúvas e de pobrezinhos? (71)”

É cheia de verdade esta sentença de São Cipriano: “Um patrimônio confiado a Deus não pode de modo algum perecer (72).” Com razão Santo Agostinho assegura que, para aquele que o semeia, o campo dos pobres é uma propriedade fecunda e rica de bela e pronta colheita (73). Com efeito, não disse porventura Jesus Cristo: “Dai, e ser-vos-á dado”? (Lc 6, 38). Não lemos nos Provérbios: “Quem dá esmola ao pobre não sofrerá miséria; e quem é surdo às vozes do mendigo padecerá penúria”? (Prov. 28, 27). Não nos assegura Tobias que “um grande prêmio é providenciado, para o dia da necessidade, ao homem caritativo”? (Tb. 4, 10). A esmola aumenta não menos os méritos do homem que a graça e as bênçãos de Deus. Tudo o que é depositado no seio dos pobres não se perde para o doador, mas encontra-se guardado nas próprias mãos de Deus, que dele se torna o custodiante e sabe restituí-lo a seu tempo cem vezes mais nesta vida, e sem peso, sem número e sem medida na outra.

“Homem cego”, diz Santo Ambrósio, “não sabes entesourar; se queres ser rico, sê pobre segundo o mundo, e serás rico em Deus. Quem não sabe dar ao mendigo e socorrer o miserável mostra-se escravo, e não senhor, de seus haveres; porque os conserva zelosamente, como faz o servo com os bens que não são seus, e não deles se serve como convém a um senhor. Ora, quem alimenta tais sentimentos não é, digamo-lo francamente, possuidor de riquezas, mas escravo das riquezas (74).” E que loucura é esta, afinal?, pergunta aqui um poeta: enquanto um Deus resgatou com o seu sangue escravos, nós nos afligimos em comprar um Deus ao preço de uma pequena moeda? (75). Tanto mais que, agindo assim, não cuidamos de nossos próprios interesses, porque, como muito bem observava já Santo Agostinho (76), mal voltamos as costas às exortações de Cristo, que nos chama a dar esmola, eis que caímos sob a garra do fisco, que nos despoja de todos aqueles bens dos quais recusamos dar a Deus os dízimos. Pois a justiça divina costuma deixar apenas o décimo dos bens àquele que não quis dar o dízimo a Deus, nos pobres.

«Honra a Deus», deixou escrito o Sábio, «dando-lhe uma parte (certamente na pessoa dos pobres) dos teus bens e das primícias das tuas colheitas; e os teus celeiros transbordarão de trigo, e as tuas adegas regurgitarão de vinho» (Pr 3, 9-10). «As riquezas», diz Clemente Alexandrino, «caem em abundância sobre aqueles que as distribuem largamente (77)». Por isso, São Pedro Crisólogo dizia: «Sede ricos em beneficências, se quereis ser sempre ricos. As vossas despensas estarão sempre cheias, se não as fechardes por avareza, mas as esvaziardes para socorrer a indigência» (Serm. CIV). «Assim como a árvore plantada em terreno apropriado produz folhas e frutos, assim», diz São João Crisóstomo, «o dinheiro semeado entre os necessitados produz frutos em abundância, não somente todos os anos, mas todos os dias. A confiança em Deus, a aversão ao pecado, uma boa consciência, a alegria espiritual, a bem-aventurada esperança e todos os bens que Deus conserva preparados para aqueles que o amam são os frutos da esmola. Deus cumula de suas bênçãos o homem que é caridoso para com os pobres» (Homil. XXXV).

Tendo alguns embaixadores na corte de Amadeu, duque de Saboia, manifestado o desejo de ver seus cães de caça, ele lhes disse que viessem no dia seguinte, e os veriam. E, quando se apresentaram, mostrou-lhes uma longa fila de pobrezinhos sentados à mesa, dizendo-lhes: — Eis os meus cães de caça; com eles espero apoderar-me do céu (In Vita).

Para mostrar a eficácia, a virtude da esmola e quanto ela é agradável a Deus, Salomão assegura que «empresta a Deus quem dá ao pobre, e que o próprio Deus lhe retribuirá» (Pr 19, 17). Com efeito, Deus irmana consigo os pobres e miseráveis, faz deles os filhos de sua providência e chama-se seu Deus e protetor especial. Por isso, em São Mateus, ele diz: «O que fizestes ao menor destes, considero como feito a mim» (Mt 25, 40); e, como se exprime São Leão: «O próprio Deus se constitui fiador dos pobres e restitui com usura aquilo que lhes é emprestado (78)».

São Basílio procura a razão pela qual a Escritura não diz: Quem conhece o indigente dá a Deus, mas antes: empresta com usura; e crê que seja esta: sabendo Deus que a nossa avareza é insaciável, temia que, se dissesse simplesmente: quem dá esmola dá a Deus, nós julgássemos que se tratava de uma simples liberalidade de sua parte; dizendo, porém: empresta com usura a Deus, o nosso desejo de lucro seria mais excitado e a nossa avareza se inclinaria mais facilmente a dar (In Psalm. XXXVIII).

A usura que se pratica para com Deus é usura santa, divina, extremamente lucrativa; o empréstimo que se lhe faz é muito mais vantajoso que qualquer outro empréstimo. Porque: 1º não se faz a um homem miserável e vil, mas a um Deus infinitamente rico e poderoso. Ora, que lucro não representa para nós tornar um Deus nosso devedor e tê-lo como fiador da dívida do pobre? Diz Santo Ambrósio: «Ensinar-vos-ei como podeis emprestar a forte usura e como podeis tornar-vos afortunados e santos usurários: dai aos pobres; este é o único empréstimo verdadeiramente útil, isento de todo pecado, absolutamente irrepreensível; esta é a usura digna de louvor. Não penseis, ó ricos culpados, que eu inveje os ganhos que retirais injustamente do dinheiro que emprestais. Emprestai a Deus; emprestareis inocentemente e com imenso lucro. Se confiardes a vossa fortuna às mãos dos pobres, o próprio Deus se constitui vosso devedor, responde pelos pobres, subscreve a obrigação deles e vos dá como garantia a sua palavra registrada no Evangelho. Ele jura assumir a dívida de todos os pobres; por que, então, temeis? Se um homem abastado se oferece como fiador da restituição de um empréstimo que vos seja solicitado, vós desembolsais o vosso dinheiro; ora, o Senhor do céu, o Criador do mundo, parecer-vos-á pobre demais, para que hesiteis e procureis outro fiador mais endinheirado!» (In Tob. c. XVI). Diz o Nazianzeno: «Preferi Deus a qualquer outro devedor; socorrendo os pobres, vestindo os mendigos, socorreis e vestis o próprio Deus» (In Distich.).

2º O usurário pretende os juros de seu empréstimo e, quanto mais elevados puder estipulá-los, tanto mais contente fica. Ora, Deus declara que não nos dará cinco, nem dez, nem vinte por um, mas cinquenta e cem. «Todo aquele que tiver abandonado, por meu amor, o pai, a mãe, os irmãos, ou a casa e as propriedades, receberá cem vezes mais do que deixou e, juntamente, a vida eterna» (Mt 19, 29). Por isso, São João Crisóstomo exclama: «Vede que admirável usura pratica a esmola! Não é aquele a quem se dá que se compromete a restituir, mas Deus, que promete restituir todos os dias o cêntuplo e, depois, a eternidade. Se fôssemos solicitados por empréstimo por alguém que se obrigasse a devolver-nos o dobro e fosse homem capaz de querer e poder manter a sua palavra, todos lhe entregaríamos alegremente a nossa fortuna; entretanto, não queremos fazer esse contrato com Deus, que nos pede um nada e nos promete bens incomparáveis! Entre homem e homem, o empréstimo é muitas vezes pago com ingratidão; o avarento não raro se vê decepcionado em suas esperanças e, algumas vezes, perde, por fraude ou impotência, juntamente com os juros, também o capital; mas com Deus não se corre tal risco: o nosso capital está aplicado em lugar seguro; o cêntuplo que nos foi prometido para esta e para a outra vida não nos faltará. Como, pois, desculparemos a nossa sonolência, se não nos apressarmos a receber o cêntuplo, ao preço de algum sacrifício? A trocar os bens futuros pelos presentes, os eternos pelos perecíveis?» (Homil 3, in Gen.).

«Que produz a gula, que tudo devora?», diz em outro lugar o mesmo padre; «a corrupção. Que fruto dá a vanglória? O desgosto e a inveja. Que se colhe da avareza? Mil aflições e inquietações. Que se ganha com a intemperança? O inferno e o verme roedor. Estes são os devedores dos ricos, e eis a usura que pagam: mil incômodos e males na terra, tormentos inefáveis no inferno. Emprestam para colher castigos! E não confiam, insensatos, em Jesus Cristo, e recusam emprestar a ele, que lhes promete e assegura o cêntuplo nesta vida; o céu, uma felicidade eterna e todo bem na outra!» (Homil. 35, ad pop.).

Com o mundo, tudo se arrisca: capital e juros; com Deus, tudo está seguro. Se, portanto, desejais riquezas, enriquecei-vos negociando e emprestando a Deus por meio da esmola. Não temais a perda: Deus se faz vosso fiador; ele mesmo se oferece por hipoteca… E, se sois de poucos recursos, dai aquilo pouco que puderdes, e vos tornareis ricos.

De vossa esmola Deus não tira proveito algum: tudo isso é vosso; entretanto, ele se compromete a retribuir-vos centuplicado. Por pouco que receba pelas mãos dos pobres, restitui-vos muitíssimo, dando-vos os seus bens em troca. «Entregai», diz São Cipriano, «os vossos tesouros àquele que os conserva; seja ele o tutor de vossos filhos, e os guardará de toda desgraça. O patrimônio confiado a Deus fica fora das garras dos ladrões, do fisco e da calúnia. Quem age desse modo provê a sua posteridade de bens preciosos e seguros; ocupa-se piedosa e paternalmente de seus herdeiros, dá crédito à palavra da Escritura, que diz: Fui jovem e agora estou velho, mas jamais me aconteceu ver o justo abandonado ou seus filhos mendigarem. Todos os dias o justo se compadece do indigente e lhe dá quanto lhe é necessário, e sua posteridade será abençoada» (De Op. et Eleem.).

«Se vos importa deixar vossos filhos abastados e ricos», pregava São João Crisóstomo, «confiai-os à providência de Deus; pois como poderá o Senhor deixar de cumular de prosperidade vossos filhos, quando vir que providenciais pelos seus filhos, que são pobres? Se, portanto, vos agrada deixar riquezas à vossa família e não partir deste mundo com o temor de que elas lhes escapem das mãos, constituí Deus seu devedor, propondo-lhe este acordo, e ele o ratificará» (Homil. 7, in Epl. Ad Rom.).

O prestamista comum empresta o seu dinheiro e não o de outrem; ao contrário, quem dá esmola não dá do que é seu, mas dos bens de Deus; e, no entanto, Deus lho restitui como se aquilo que foi dado aos pobres fosse realmente propriedade do doador, e lho restitui com lucro. «Aquele que vos deu» a fortuna, escreve São Basílio, «pede-vos esmola pela boca dos pobres; emprestai-lhe, e tereis lucro; pois, embora receba o que lhe pertence, ele vo-lo restituirá como se fosse propriedade vossa» (In lib. Paral., c, XVI). «Deus deseja e se alegra de ser nosso devedor», ensina o Crisóstomo. Mais ainda: este padre não hesita em dizer que Deus deseja ser obrigado, acorrentado por aquilo que nos deve, para poder, no dia do juízo, fechar os olhos às dívidas que contraímos com ele e aos nossos pecados, poupando-nos assim à condenação. O nosso juiz deixa-se corromper em vista das esmolas feitas aos pobres (79).» Retoma este pensamento em outro lugar e escreve: «Batei à sua porta com a mão do pobre; procurai conquistá-lo com dons; ele os receberá por meio dos pobres e mudará a sua sentença. Sim, aceitá-los-á de bom grado e, antepondo a misericórdia à justiça, de juiz severo se tornará pai indulgente. A espada de sua cólera está nas mãos dos pobres; fazei-vos amigos destes, e não sereis feridos» (Homil. in Psalm. XXXVIII).

A vida humana pode ser comparada a um rio que é preciso atravessar a nado para chegar ao termo da jornada; ora, quem jamais viu um nadador entregar-se às ondas carregado de prata? … A esmola jamais empobreceu ninguém; antes, enriqueceu muitos. Aquilo que é consagrado a Jesus Cristo não se perde; o céu o guarda. Engano fatalíssimo para o rico avarento e cego é não dar crédito àquele oráculo da Escritura: «Quem dá ao pobre não sofrerá jamais necessidade; quem não olha para ele cairá na pobreza». Deus vos promete um aumento de riquezas, se as repartirdes com os pobres; Deus vos dá a sua palavra, e vós não dais crédito a Deus! Com toda razão o papa São Leão pregava: «Ó cristãos! Dai em abundância, dai continuamente; dai para receber, semeai para colher; fazei esmola de tudo, para obter uma colheita abundante. Não temais perder: tendes assegurado o ganho; bem distribuídas, as vossas riquezas aumentarão. Negociar com a compaixão e com as esmolas é comerciar em vista de um bem eterno» (Serm. in Ieiun.).

Mas, se são abundantes os frutos materiais prometidos por Deus ao homem caritativo, mais excelentes e abundantes são aqueles que Ele promete à alma; com efeito, Deus a abençoa e a rega, como jardim predileto, com a chuva fecunda de sua graça. “Sem misericórdia para com os pobres, é impossível obter misericórdia”, diz São Cipriano (80). “A misericórdia, diz o Crisóstomo, é uma espécie de bela arte que tem seu ateliê no céu, e não é um homem o seu mestre, mas Deus (81).” Meditem os ricos nestas palavras do papa Agapito ao imperador Justiniano: e o vestuário da beneficência é um vestuário que não se rasga, nem se desgasta ou envelhece; a piedade para com os pobres é uma veste incorruptível; quem deseja viver piedosamente deve revestir sua alma com esta bela veste; quem enverga a púrpura da esmola assegura para si o gozo do reino dos céus”.

18. VANTAGENS DA ESMOLA

1° A esmola jamais é esquecida por Deus. “As tuas orações e as tuas esmolas, disse o anjo a Cornélio, subiram à presença de Deus, e Ele se lembrou de ti” — (At 10, 4). Assim como o olhar se volta frequentemente para o anel que se traz no dedo e no qual está esculpida a imagem de uma pessoa amada, assim o olhar de Deus se volta para a esmola, contempla-a, observa-a e conserva dela grata lembrança, como de uma joia preciosíssima. 2° “A esmola é, como diz o Crisóstomo, o colar de ouro que cinge os maiores santos e os filhos mais queridos de Deus (82).” É isto precisamente o que significam aquelas palavras da Escritura: “Nunca te esqueças da piedade para com os pobres; cinge-a ao teu pescoço, grava-a em teu coração; estarás cheio de graça e de honra diante de Deus e dos homens” (Pr 3, 3-4).

3° A esmola é como a pomba da arca que, enviada por Noé, voltou trazendo um ramo de oliveira; a esmola traz àquele que a pratica confiança, alegria, paz e glória eterna.

4° A esmola é o sinal característico da predestinação, como resulta destas palavras de São Paulo aos Colossenses: “Revesti-vos, como eleitos de Deus, seus santos e prediletos, de entranhas de misericórdia e de bondade” (Cl 3, 12).

5° Ouvi-o da boca de Sêneca: “O dinheiro, para quem sabe fazer bom uso dele, serve como escravo; para quem não sabe, manda como senhor (83).”

6° “As riquezas, observa o Crisóstomo, quando são mantidas fechadas, rugem como leões e põem tudo em desordem; ao contrário, retiradas dos cofres e colocadas nas mãos dos pobres, transformam-se de feras em cordeiros; em vez de serem rochedos fatais, tornam-se porto seguro; em vez de nelas encontrardes naufrágio e morte, encontrais tranquilidade e vida (84).”

7° A esmola torna favoráveis também as pessoas mal-dispostas; não somente os amigos, mas também os inimigos; e, ao sentimento de hostilidade que os anima, substitui o respeito e a amizade.

8° “Expulsa os demônios e, por grande que seja a sua maldade, reduz-nos à impotência de nos fazerem mal”, escreve o Crisóstomo (85), e assim continua: “Ao redor do homem caritativo estão acampados os pobres. Na guerra que travamos contra os inimigos de nossa salvação, os pobres se enfileiram ao nosso lado e combatem por nós; recebendo de nós o soldo, rezam a Deus e O tornam propício a nós; preservam-nos das ciladas do demônio; não permitem que o espírito maligno nos assalte e nos vença; antes, quebrantam-lhe a audácia. Já que tendes tais soldados, que combatem por vós todos os dias contra os demônios, dai-lhes, em reconhecimento, alimento e vestuário.” “Encerra a esmola no coração do pobre, diz o Sábio, e ela afastará de ti o mal; combaterá por ti mais e melhor do que o escudo e a lança do guerreiro” (Eclo 29, 15-17).

9° “A esmola, ensina o Crisóstomo, quebra os grilhões, abre a prisão, dissipa as trevas, extingue o fogo. Liberta do amor às riquezas, que aperta como forte e pesada cadeia os avarentos e os torna imóveis (86).”

10° Esta vantagem é indicada por Isaías nestas palavras: “Dai alívio ao faminto, vesti o nu, acolhei o forasteiro, e então resplandecereis como a aurora, tereis saúde e glória da parte do Senhor, e a vossa justiça precederá os vossos passos” (Is 58, 7-8, 11).

Considerai a compaixão para com os pobres como um remédio poderosíssimo para curar as vossas dores e enfermidades, porque, socorrendo o pobre, tornareis propícia para vós a misericórdia de Deus. A esmola é um específico eficaz que cura todas as chagas; dissipa todo mau humor do corpo e da alma; proporciona longa vida àquele que a pratica. Traz-lhe a saúde da vontade, curando-lhe os afetos e os desejos maus. Dá-lhe a saúde da memória, porque a lembrança de seus benefícios constitui o seu consolo em vida, na morte e, especialmente, no tribunal de Deus. Traz-lhe a saúde do entendimento, porque a luz que o ilumina será esplêndida e suave como a luz da aurora e o preservará de todo erro e perigo.

11° “O homem que se consagra às obras de misericórdia encontrará a vida, a justiça e a glória” (Pr 21, 21).

12° Procura e assegura a salvação. “Deus não permitirá que a alma do homem benfeitor vá para o inferno”, diz Tobias (Tb 4, 11). Com efeito, ela liberta do pecado; ora, sendo o pecado o único obstáculo à salvação, pode-se afirmar que a esmola fecha o inferno e abre o céu,

13° Traz consigo recompensas amplíssimas. “Quem der, diz Jesus Cristo, um copo de água fria a qualquer um destes pobres, dou-lhes a minha palavra de que não perderá a sua recompensa” (Mt 10, 42). “Vendei o que tendes, disse ainda o mesmo Salvador, e dai o seu preço aos pobres, e tereis um tesouro no céu” (Mt 19, 21). Isto é: a vossa alma ficará repleta de graças nesta vida e de felicidade na outra.

14° Santifica todas as coisas. Santifica as riquezas com as quais se promove o decoro do culto externo; santifica o ouro com o qual se resgatam os escravos; santifica a prata que se gasta em socorro da viúva e do órfão, o pão que se distribui ao mendigo, as vestes que se oferecem ao maltrapilho, o alojamento que se concede ao peregrino, o fogo com que se aquece o pobre. Eis por que a Igreja chama obras de piedade às obras de misericórdia, e nós chamamos virtuoso e piedoso o homem caridoso.

15° Procura uma morte santa, porque as boas obras são companheiras inseparáveis daqueles que partem para a eternidade. “Não me recordo, escrevia São Jerônimo a Nepociano, de ter lido jamais que tenha morrido de má morte algum daqueles que em vida exerceram de bom grado a esmola; eles têm, com efeito, muitos intercessores junto de Deus, e é impossível que as orações de muitos não sejam atendidas (87)”. A esmola tem nas mãos as chaves da terra, do céu e do inferno.

“Ela, diz Santo Agostinho, mantém-se diante da entrada do inferno e não permite que nenhum de seus amigos caia naquela horrenda prisão. A misericórdia conduz o homem a Deus e atrai Deus ao homem. Eu jamais vi um homem caridoso terminar mal (88)”.

“Bem-aventurado, exclama Davi, aquele que compreende a necessidade do indigente e lhe leva remédio; no dia de sua morte, o Senhor o livrará” (Sl 40, 1). O homem benfeitor, lemos no Eclesiástico, encontrará apoio no dia de sua morte (3, 34). No momento da morte, a esmola derrama no coração a esperança da salvação; resplandece aos olhos do moribundo como a estrela da manhã; reanima-o, faz brilhar diante dele algum fulgor da glória eterna e lha promete… Ah, sim, ó corações ternos e compassivos, a vossa justiça para com os miseráveis, isto é, a vossa misericórdia, vos precederá (Is 58, 8).

16° Prepara um juízo e uma sentença favorável. Não é acaso isso que resulta do processo do juízo final, predito por Jesus Cristo? Que razão dará ele para a sentença: “Vinde, ó benditos de meu Pai, tomar posse do reino que para vós foi preparado desde a origem do mundo”? Nenhuma outra senão esta: “Vós me destes de comer quando eu tinha fome; destes-me de beber quando eu tinha sede; vestistes-me quando eu estava nu; acolhestes-me como peregrino…

E tudo isso fizestes a mim quando o fizestes a qualquer um dos meus pobrezinhos”. E, ao contrário, a razão da condenação dos réprobos se apoiará principalmente nisto: não se comoveram com a compaixão pelos pobres, não socorreram a Deus nos necessitados.

O apóstolo São Tiago nos assegura que “a misericórdia prevalece sobre o juízo” (Tg 2, 13); isto é, a misericórdia triunfa sobre a severidade do juízo: “No dia do juízo, escreve Santo Agostinho, a esmola protegerá o homem caridoso e o livrará do temor das chamas eternas (89)”. Tobias nos diz que “no tribunal de Deus, a esmola será motivo de confiança e segurança para aqueles que a praticaram” (Jó 4, 12).

“A esmola, já pregava o Crisóstomo, está diante do tribunal de Deus, não somente para proteger o homem caridoso, mas também para induzir o juiz a fazer-lhe misericórdia e a proferir uma sentença de bênção. Quando somos julgados, a esmola vem em nosso auxílio; cobre-nos com suas asas e nos defende dos perigos (90)”.

17° A esmola nos assegura o céu. “Somente as obras de misericórdia, diz Santo Ambrósio, vêm ao nosso encontro e abrem aos defuntos os tabernáculos eternos (91)”. “Um dom transitório e temporal, diz São Leão, transforma-se em uma recompensa eterna (92)”. Tenhamos bem presente que o céu pertence aos pobres, se forem pacientes e resignados; sabei que eles para lá enviam os seus benfeitores, porque os pobres são os porteiros do céu…

Por isso, com toda a razão, São João Crisóstomo afirma: “É muito mais proveitoso saber dar esmola do que ser rei; a esmola nos constrói no céu moradas eternas (93)”.

Quereis conquistar o céu? Dai pão, e tereis o paraíso. A esmola é a ecônoma do céu; ela distribui a cada um, segundo os seus méritos, o lugar e a coroa. Os mártires compraram o paraíso ao preço do sangue; a preço muito mais baixo o compram os homens caridosos, pois isso lhes custa apenas algumas moedas. As riquezas têm o valor que lhes dá a esmola; um milhão sem esmola não vale um centavo; um centavo dado em esmola vale o céu!

Somos pilotos que navegamos no mar do tempo: governa bem a sua nave e alcança com segurança o porto aquele que sabe, no tempo e lugar oportunos, aliviar a embarcação; e isso se obtém com a esmola. É boa aquela fortuna que frutifica para a eternidade; são preciosas aquelas riquezas que não nos abandonam na morte, que servem para comprar o céu, que nos merecem ir para lá, que nos precedem e nos acompanham!

“O pobre é o caminho do céu; por meio dele vamos ao Pai, diz Santo Agostinho. Comecemos, pois, por dar esmolas, se não queremos errar o caminho. Rompamos a cadeia que nos prende às riquezas, para que nos seja dado subir livremente ao céu (94).” Do mesmo modo, São João Crisóstomo escreve que a esmola é o caminho régio para ir prontamente ao céu; que é uma grande virtude; que se eleva acima das nuvens, da lua, do sol e do firmamento, associa-nos aos anjos, aos arcanjos, aos tronos e às potestades, e nos coloca diante do trono de Deus (Homil. 9, de Poeni.). O mesmo santo, depois de observar em outro lugar que a compaixão para com os pobres nos constrói no céu uma morada, fabrica-nos um palácio que jamais abandonaremos e que o tempo não poderá demolir, conclui assim: “Gastemos o dinheiro para prover-nos dessa casa, mas não nos preocupemos em encontrar arquitetos e operários. As mãos dos pobres bastam para essas obras; os infelizes e os mendigos são os operários, e a esmola é o arquiteto (95).”

Estendei as vossas mãos aos pobres e tocareis o cume dos céus, porque receberá as vossas esmolas Aquele mesmo que reina lá no alto. Santo Agostinho põe estas palavras na boca de Deus: “Eu, o Senhor do céu, recebi e retribuirei; eu tinha fome e vós me destes de comer etc.; recebi a terra e vos darei o céu; recebi bens temporais e vos retribuirei com bens eternos; recebi pão e vos restituirei pão, mas pão celeste e incorruptível; recebi hospitalidade e vos darei um palácio; fui visitado quando enfermo e vos darei a saúde; fui socorrido quando prisioneiro e vos darei a liberdade (96).”

19. MILAGRES DA ESMOLA

Num tempo de fome, o abade Apolônio distribuía aos pobres todos os seus bens e, às reclamações, respondia: “Por acaso os profetas e os apóstolos não fizeram o mesmo? E aquele Deus que então assistia àqueles, ter-se-á porventura afastado agora de nós?” E não foi frustrada a sua confiança; de fato, pessoas desconhecidas forneceram-lhe milagrosamente toda espécie de víveres, mel, leite e até frutas que não eram próprias do Egito (Vit. Patr.).

São João, o Esmoler, nunca deixava de dar com mão generosa e, ó prodígio!, recebia continuamente muito mais do que dava (LEONT., In Vita).

Narra São Gregório de Tours que, estando a Borgonha assolada por uma fome, o senador Edício sustentava diariamente quatro mil pobres; por isso mereceu ouvir uma voz que lhe disse: “Em recompensa pela tua caridade, ó Edício, nem tu nem a tua descendência jamais tereis falta de pão. Porque te lembraste dos meus preceitos e me socorreste na pessoa dos necessitados, eu jamais me esquecerei da tua casa…” Em circunstância semelhante, São Domingos, ainda jovem, vendeu os seus livros e tudo quanto possuía, e entregou o preço aos mendigos…

Encontramos registrado nos Anais de Baronio, no ano de 457, que o imperador Leão I, quando ainda era um simples particular, tendo encontrado um cego que ardia de sede, tomou-o pela mão, fê-lo sentar-se à sombra e, enquanto isso, pôs-se a procurar uma fonte; mas, ao fazê-lo, perdeu de vista o pobre cego. Enquanto o procurava, apareceu-lhe a Bem-aventurada Virgem, que lhe mostrou uma poça de água, sugeriu-lhe que tomasse um pouco de lama e a pusesse sobre os olhos do cego, que recuperaria a vista, e finalmente lhe predisse a sua elevação ao trono imperial; e tudo se cumpriu.

Um dia, São Vilibrordo apresentou-se a um rico e pediu-lhe algo para comer; mas este, tendo-se recusado, foi imediatamente acometido por tamanha sede que não pôde, de modo algum, aplacá-la durante um ano inteiro. Transcorrido o ano, o santo voltou àquela casa, e o infeliz pediu-lhe perdão e obteve a cura. O fato é narrado por Albino, que escreveu a vida do Santo.

São Gregório, na sua XXXIX homilia sobre o Evangelho, refere o caso acontecido a São Martinho, o qual, tendo envolvido e carregado em seu manto um pobre leproso, veio a descobrir que, por admirável prodígio, havia vestido e carregado Jesus Cristo na pessoa do leproso. Com efeito, apareceu-lhe o Redentor e disse-lhe: “Tu não te envergonhaste de mim, ó Martinho, na terra; eu não me envergonharei de ti no céu.”

São Francisco ainda vivia no século quando vestiu com as suas próprias roupas um pobre soldado; aconteceu então que, à noite, viu em sonho um grandioso e suntuosíssimo palácio e, tendo perguntado a quem pertencia, uma voz respondeu-lhe que ele estava preparado para ele e para aqueles que militariam sob o seu estandarte (S. BONAV., In Vita).

Santa Isabel da Hungria certa vez deu o seu manto a um pobre; mas, quando o marido lhe pediu contas disso, ela pôde mostrá-lo imediatamente, pois lhe fora milagrosamente restituído, como atesta Tiago de Espira, escritor da vida da referida santa.

Ouvi um episódio da liberalidade de Santa Catarina de Sena, narrado por Raimundo, e como ela foi recompensada por isso. A santa saía da igreja e dirigia-se para sua casa, quando viu vir ao seu encontro um jovem peregrino, que lhe pediu algumas vestes. Catarina foi ao quarto, despiu uma saia sem mangas que vestira por causa do frio e, num instante, estava à porta para entregá-la ao viandante, sem a menor suspeita de que aquele pobre fosse o próprio Jesus Cristo. Tendo recebido a saia, o peregrino pediu-lhe ainda a saia de linho que ela vestia, e ela lha deu. Para pôr à prova a bondade e a paciência dela, Jesus Cristo pediu-lhe ainda várias outras coisas, que ela prontamente lhe entregou. Finalmente, disse-lhe: “Que farei eu com uma saia sem mangas?” E Catarina logo pensou no modo de providenciar-lhe umas. Tendo-lhe vindo às mãos um vestido belo e novo de sua criada, desprendeu-lhe as mangas e deu-as ao viandante; este, tendo-lhe dito que conhecera sua boa vontade, foi-se embora. Ora, estando ela em oração na noite seguinte, apareceu-lhe o Senhor sob a aparência do jovem viajante, trazendo nas mãos o vestido que Santa Catarina lhe presenteara, todo ornado e resplandecente de gemas; mostrando-lho, dizia-lhe que lhe daria em troca uma veste invisível, que a preservaria do frio e de todo perigo, e que acrescentaria no céu uma esplêndida coroa.

Conta-se de Pedro Telonário que, estando enfermo, viu em sonho os anjos e os demônios colocarem todas as suas ações sobre uma balança. Mas, enquanto os demônios haviam carregado de seus pecados o prato do lado esquerdo, os anjos não encontraram na vida dele outra coisa que pudessem contrapor no braço direito senão um pão que dera, num ato de impaciência e cólera, a um mendigo; e, contudo, ó maravilha!, isso bastou para manter a balança em equilíbrio. Então ouviu-se uma voz dizer: “Vai e acrescenta ainda alguma coisa a este pão; do contrário, estes que vês tão negros e horrendos te agarrarão.” Ao despertar, mudou de vida e, de avarento, tornou-se pai dos pobres. O fato é narrado por Leoncio, que escreveu a vida de São João Esmoler.

Quantos santos, em todos os tempos, viram o pão da esmola multiplicar-se em suas mãos! Quantas pessoas piedosas, privadas de recursos, receberam pronto auxílio, ora por meio de homens desconhecidos, ora pelas próprias mãos dos anjos! Caridade, compaixão, esmola, quanto és preciosa…

20. NÃO SE DEVE ESPERAR A MORTE PARA DAR ESMOLA

Certamente é coisa boa fazer, no momento da morte, legados de beneficência aos pobres; mas provê melhor quem pensa neles durante a vida; porque: 1º dá-se com maior liberdade: quem beneficia os outros enquanto vive dá daquilo de que ele mesmo pode ter necessidade, ao passo que, na hora da morte, presenteia aquilo que já não lhe pode servir. 2º Em vida, o homem priva-se daquilo que dá; na morte, não é ele quem dele se despoja, mas a morte lho tira. 3º A esmola feita em vida atrai sobre quem a faz as orações dos pobres, o favor, as graças e os dons de Deus; o que não sucede com a esmola feita depois da morte: então o homem já não pode receber novas graças, nem sua justiça pode mais aumentar. 4º As liberalidades testamentárias e os legados feitos no leito de morte correm o risco de ser cumpridos muito tarde e, às vezes, de não ser cumpridos de modo algum, além de estarem sujeitos a contestações e litígios. “Entretanto”, conclui São João Crisóstomo, “embora deis mais insigne prova de caridade e mereçais maior recompensa alimentando Jesus Cristo enquanto estais vivos, se porventura não o tiverdes feito, não convém omitir esse ato no momento da morte e perder a ocasião de deixar Jesus como herança a vossos filhos” (Homil. 18, in Ep. ad Rom.).

São Basílio assim fala aos ricos avarentos: “Não quero, dizeis, ser generoso com os pobres enquanto vivo, porque tenho necessidades que me apertam e parece-me justo gozar os frutos de minhas economias; mas, na morte, pensarei nas necessidades deles e, com meu testamento, providenciarei para elas. Ó infelizes, sereis, pois, liberais e benfeitores para com os homens quando já não estiverdes entre eles? Então direi que começareis a amar os irmãos quando já fordes cadáveres! Na verdade, sereis dignos de alto louvor, de muita estima e de grande reconhecimento se, encerrados no sepulcro e reduzidos a pó, vos mostrardes generosos e magníficos! Ó cegos! Se dissipastes em festins, prazeres, delícias e caprichos o tempo que vos fora dado para adquirir méritos; se nunca tivestes em estima nem socorrestes os pobres, com que razão esperareis ou pretenderíeis a recompensa de obras boas e ações caritativas feitas depois da morte? Já vistes alguém ocupar-se de negócios depois de concluídos e encerrados? Porventura o soldado se apresenta para receber o prêmio depois de uma batalha da qual não participou? Não; não se demonstra bravura depois de terminada a guerra, nem se merecem os louvores e os prêmios da caridade depois da morte (97).”

21. AO DAR ESMOLA, DEIXE-SE DE PECAR

Ninguém se iluda, por mais pródigo que seja em esmolas, pensando que isso lhe basta para obter impunidade e que lhe deixa livre rédea para uma vida dissoluta. — “Não imaginem os pecadores”, escreve São Gregório, “que a justiça divina se deixa corromper e que lhes é permitido entregar-se impunemente ao pecado, apenas porque se preocupam em resgatar com dinheiro suas culpas, pois a alma vale mais que o alimento e o corpo vale mais que a veste (98).” São Cesário de Arles pregava: “A esmola aproveita àquele que cessa de pecar (99).”

22. O HOMEM CARITATIVO E O AVARENTO

Que diferença há entre o homem caritativo e o avarento? A mesma que há entre o bicho-da-seda e a aranha. O bicho-da-seda esvazia as próprias entranhas para produzir a seda; assim também aquele que ama os pobres sente comover-se o íntimo da alma, por compaixão de suas misérias, e o derrama para fora em generosos donativos. O avarento também sente comoverem-se suas entranhas; trabalha e se afadiga, mas, como a aranha, para tecer uma teia de nenhuma utilidade e própria apenas para apanhar moscas. Com efeito, que são as riquezas pelas quais o avarento se desgasta e se consome? São moscas armadas de ferrão; nesse sentido, Isaías diz: “Teceram teias de aranha” (Is 59,5). O homem caritativo é como a abelha, que faz cera e mel para uso do homem; o avarento se assemelha ao zangão.

23. MEIOS DE DAR ESMOLA

“Se tens pouco”, dizia Tobias ao filho, “dá de bom grado daquilo que tens…”. Quem não dispõe de meios para dar esmola, compadeça-se, console, deseje dar, reze, visite os enfermos, instrua os ignorantes, dê bons conselhos e santos exemplos etc. “Quem não possui bens da fortuna”, diz São Clemente, “jejue e, daquilo que subtrair ao próprio alimento, faça esmola aos pobres” (100).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.