Tesouro n.º 161 · Volume III

ORAÇÃO PREGHIERA

22 seções · 169 parágrafos · pp. 1881–1929 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A ORAÇÃO E SUA NECESSIDADE

A palavra oração, na linguagem da Igreja, diz-se oratio, quase oris ratio, isto é, razão da boca. Com efeito, a razão manifesta-se por meio da palavra, especialmente da oração, porque a oração foi dada por Deus ao homem para suprir a razão; aquilo que a razão, obscurecida pelo pecado, não pode compreender, compreende-o a oração… Além disso, considerada em si mesma, a oração é uma elevação da mente a Deus, pela qual a alma contempla, louva, admira e agradece a Deus, ou lhe expõe as suas necessidades, os seus desejos e os seus votos, e lhe pede que os satisfaça. Quão necessária seja a oração, tanto num como no outro sentido, vê-se facilmente quando se lança um olhar sobre o Evangelho, sobre a doutrina dos Padres e sobre nós mesmos: «Pedi, diz Jesus Cristo, buscai, batei» (Mt 7, 7). Eis três imperativos; e, quando Deus fala de modo imperativo, a sua palavra impõe um estrito dever de obediência. «É preciso rezar sempre e nunca desanimar», diz ainda o Salvador (Lc 18, 1). A oração é necessária no infeliz estado de pecado, para dele sair…; é necessária no estado de graça, para nele perseverar…; é necessária para obter a graça, sem a qual não somos capazes de nada…; é necessária nas tentações. «Vigiai e orai», repete-nos Jesus, como já dizia aos Apóstolos: «Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca» (Mt 26, 41). Quem não reza é como uma cidade sem defesa, cercada, ou melhor, já invadida por bandos de inimigos.

«A oração é para o homem como a água para o peixe», diz o Crisóstomo (Lib. 2, De orand. Domin.). A oração é para a nossa alma aquilo que o sol é para a natureza, para vivificá-la e fecundá-la; aquilo que o ar é para os nossos pulmões, o pão para a vida material, a arma para o soldado, a alma para o corpo… E como não haveria de ser assim? Com efeito, diz o Apóstolo: «Nós não somos capazes, por nós mesmos, nem sequer de pensar alguma coisa como se viesse de nossa própria capacidade; mas toda a nossa capacidade e suficiência vêm de Deus» (2Cor 3, 5). Portanto, orai, mas orai continuamente (1Ts 5,17).

Ah! bem compreendia a necessidade da oração o profeta Davi, que dizia: «A vós elevo, Senhor, a minha prece; atendei-me segundo a multidão das vossas misericórdias. Tirai-me do lodo, para que eu não fique nele submerso. Livrai-me das garras dos meus perseguidores, arrancai-me do seio do abismo. Não me cubra a tempestade das águas, não me trague o abismo, nem se feche sobre a minha cabeça a boca da voragem. Atendei-me, Senhor, na grandeza da vossa clemência, e não desvieis o rosto do vosso servo; gemo em meio às angústias, apressai-vos em consolar-me. Vinde, libertai a minha alma, arrancai-me ao furor dos meus inimigos (Sl 63, 14-19). Senhor, tende piedade de mim e atendei-me, porque sou pobre e indigente» (Sl 85, 1). «Estendi para vós as minhas mãos, como terra ressequida por longa estiagem; a minha alma tem sede de vós, ó Senhor; correi em meu auxílio, porque o coração me desfalece» (Sl 142, 6-7).

«Quem quer estar com Deus deve orar, diz Santo Isidoro; cada vez que o pecado ameaça a nossa alma, recorramos à oração (1)». «Meu filho, diz o Eclesiástico, não te deixes abater em tua enfermidade; mas ora ao Senhor, e ele te curará» (Eclo 37, 9). Por isso, o profeta Joel ordenava aos sacerdotes e aos ministros do Senhor que chorassem entre o vestíbulo e o altar, e clamassem: Perdoai, ó Senhor, perdoai ao vosso povo, e não permitais que a vossa herança se torne objeto de escárnio (Jl 2,17). Por isso, com razão, São Tomás ensina que «depois do batismo, é necessária ao homem uma oração contínua» (2.a, 3, q. 5, art. 8).

A oração é, pois, necessária porque Deus a ordena; é necessária para triunfarmos sobre os nossos inimigos, para sairmos do pecado, para não recairmos nele, para trabalharmos pela nossa salvação, para obtermos a graça, sem a qual não há salvação; é necessária para fortalecer a nossa fraqueza, para praticarmos a virtude, para chegarmos ao céu…

2. EXEMPLO DE JESUS CRISTO E DOS SANTOS

O evangelista São Marcos diz de Jesus Cristo que ele se levantava ao romper do dia e ia orar em um lugar deserto, ou então subia a um monte para orar (Mc 1, 35; Mc 6, 46). A mesma coisa atesta São Lucas, acrescentando que passava noites inteiras em oração, e que durante a oração ocorreu a sua transfiguração (Lc 6, 12; 9, 28). Depois, por todos os Evangelistas sabemos que ele jamais empreendia obra de relevo, nem fazia milagre algum sem que o precedesse a oração. Ora no jardim das Oliveiras, ora na cruz; toda a sua vida não é senão uma contínua oração.

Instruídos por ele, os Apóstolos diziam: «Nós nos consagraremos inteiramente à oração» (At 6, 4); e acerca da multidão dos primeiros cristãos atesta São Lucas que todos se entregavam a uma contínua oração em comum (At 1, 14). E quando Pedro é lançado, carregado de cadeias, na prisão, a assembleia dos fiéis não cessa de elevar preces a Deus por sua libertação (At 12, 5).

«Oramos sempre por vós, escrevia São Paulo aos Colossenses; e nunca deixamos de pedir a Deus que vos encha do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; a fim de que vos conduzais de maneira digna de Deus, procurando agradar-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus».

Os Patriarcas, os Profetas, os Apóstolos, todos os Santos da antiga e da nova lei foram homens de oração… Lede as vidas dos homens de Deus; não encontrareis nenhum que não tenha sido homem de oração contínua e fervorosa.

3. EXCELÊNCIA DA ORAÇÃO

O valor de um diamante é o mesmo, quer se encontre nas mãos de um rude camponês, quer se encontre no escrínio de um joalheiro; assim também, diz São Jordão, a oração é coisa tão excelente em si mesma que vale tanto na boca de um ignorante quanto nos lábios de um douto (SURIUS, In Vita). E, de fato, ouvi o elogio que dela tece Santo Efrém: «A oração é a guardiã da temperança, o freio da ira, a repressão de uma alma orgulhosa, o remédio contra o ódio? a justa constituição das leis do direito, o poder dos reinos, o troféu e o estandarte de uma guerra justa, a protetora da paz, o selo da virgindade, a guardiã da fidelidade conjugal, o bastão dos viandantes, a guardiã dos que dormem, a fertilidade para os lavradores, o refúgio dos navegantes, a advogada dos reis, a consolação dos aflitos, a alegria dos que se alegram, o consolo dos que choram, o bom êxito dos moribundos. Ah, não! Não há, em toda a vida do homem, tesouro comparável à oração (2)».

O Apocalipse nos diz que os Anjos no céu estão diante do Cordeiro, tendo cada um harpas e taças de ouro cheias de perfumes, que são as orações dos Santos (Ap 5,8). As orações, especialmente as das almas fervorosas, são comparadas a um agradável perfume espalhado pela atmosfera. Com efeito, 1° a oração sobe como a fumaça do incenso para o céu; 2° ao se dispersar, espalha ao redor suaves aromas; 3° assim como o incenso expulsa o mau cheiro, também a oração expulsa o pestilento fedor do pecado, afugenta os demônios e acalma a ira divina; 4° o incenso queima e fumega quando é posto sobre o fogo; e a oração se inflama no fogo das tribulações; 5° os perfumes são compostos de aromas pulverizados; a oração deve partir de um coração quebrantado pela humildade e pela mortificação; assim também devemos sepultar a alma na oração, para que dela não mais saia e conserve a incorruptibilidade que lhe foi dada pela graça. Expressões semelhantes às de São João emprega o Eclesiástico quando diz que «a oblação do justo (e qual oblação é mais verdadeira do que a oração?) engorda o altar e exala, diante do Altíssimo, suavíssimo odor» (Eclo 35, 8).

«A oração é, diz Santo Agostinho, a cidadela das almas piedosas, a delícia do bom anjo, o suplício do demônio, grato obséquio a Deus, glória perfeita, esperança certa, saúde inalterável; em suma, compreende todo o louvor e todo o mérito da penitência e da religião (3)». A oração é um colóquio com Deus; é o prelúdio da bem-aventurança eterna, a ocupação dos Anjos, a solução de todas as dificuldades, o remédio daquele que está enfermo no caminho do Senhor, a correção e a fecundidade da alma, o abraço do Espírito Santo, a alegria e o júbilo… Os Padres da Igreja e os teólogos ensinam que há três espécies de boas obras às quais todas as demais se ligam como os membros à cabeça: a oração, o jejum e a esmola. A oração paga o que é devido a Deus; o jejum, o que devemos a nós mesmos; a esmola, o que devemos ao próximo.

A oração é comparada ao orvalho. Assim como o orvalho tempera o ardor do verão e refresca os corpos abrasados pelo calor do sol, assim também a oração, esse familiar colóquio com Deus, apaga as chamas da concupiscência e das paixões: «Na oração, escreve São Bernardo, bebe-se o vinho celeste que alegra o coração do homem; o vinho do Espírito Santo que embriaga a alma e a faz esquecer os prazeres carnais. Esse vinho convém às necessidades de uma consciência árida e seca; converte na substância da alma os alimentos das boas obras e informa todas as suas faculdades, fortalecendo a fé, consolidando a esperança, dando vigor e ordem à caridade, gravidade e firmeza aos costumes (4)». A oração se assemelha a belas e suaves flores que deleitam o olhar de Deus, e cujo divino perfume se eleva até o trono de Deus. Tem o odor da violeta, a candura do lírio, a beleza e o encanto da rosa. É uma flor de ouro tingida das mais graciosas cores e que exala os mais requintados perfumes; alegra o próprio Deus e enche a alma de celeste delícia…

4. EFICÁCIA DA ORAÇÃO

1° Jesus Cristo nos assegura que, pela oração, obtemos tudo o que pedimos. ― «Pedi, e vos será dado; buscai, e achareis; batei, e vos será aberto; porque todo aquele que pede recebe; quem busca encontra; e a quem bate será aberto» (Mt 7, 7-8). «Haverá porventura um pai tão cruel que, a um filho que lhe peça pão, dê uma pedra? Ou que lhe dê uma serpente em vez de peixe? Se, pois, vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhas pedirem (Mt 7, 9-11). Tende por certo que tudo quanto pedirdes a meu Pai em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. E também, se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu a farei (Jo 14, 13-14). «Sim, dou-vos a minha palavra: tudo quanto pedirdes a meu Pai em meu nome, ele vo-lo dará. Até agora nada pedistes em meu nome: pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa» (Jo 23-24).

Ouvi agora a confirmação destas promessas do Senhor pela boca de quem delas fala por experiência: «Clamei ao Senhor, e ele me atendeu» (Sl 3, 5). «Enquanto ainda o invocava, o Senhor me atendeu» (Sl 4, 2). «O Senhor me atenderá quando eu clamar por ele» (Sl 4, 4). «O Senhor me ouviu, prestou atenção à voz de minha oração» (Sl 65, 19; Sl 98, 6). «Ele elevará a voz a mim, e eu o ouvirei», diz o Senhor (Sl 90, 15). «O Senhor está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com sinceridade de coração» (Sl 144, 18). Diante destes numerosos testemunhos claros, precisos e positivos da Sagrada Escritura, quem poderá duvidar de que a oração obtenha de Deus tudo quanto lhe pede?

2º A oração obtém a sabedoria e consola. ― «Se há entre vós, diz São Tiago, quem necessite de sabedoria, peça-a a Deus, que a dá a todos abundantemente, sem recusar ninguém; e ela lhe será dada» (Tg 1, 5). «Desejei-a e me foi dada a inteligência, confessa Salomão a seu respeito; roguei, e veio a mim o espírito de sabedoria» (Sb 7, 7).

«Há entre vós alguém triste? Ore (e será consolado)» (Tg 5, 13). A oração é remédio eficacíssimo para curar toda ferida, toda miséria; enxuga as lágrimas, abranda os desgostos, suaviza as amarguras…

Jesus entra numa barca e se faz ao mar, e eis que de repente se levanta uma tempestade; os ventos sopram, o trovão ruge, as ondas se encavalam, e a barca já ameaça submergir-se; neste lance desesperado, os Apóstolos aproximam-se de Jesus, que dorme placidamente, e, despertando-o, dizem-lhe com o acento do temor e do espanto: «Salvai-nos, Senhor, porque perecemos». E ele, censurando-os docemente por seu excessivo temor e por sua fé não suficientemente firme, levantou-se, deu um sinal aos ventos e às ondas, e imediatamente o mar ficou em bonança (Mt 9, 23-27). Grande milagre foi certamente este; mas notai que Jesus o fez a pedido dos Apóstolos, depois que a oração deles lhe dissera: Senhor, salvai-nos, porque, de outro modo, todos naufragaremos. Podemos dizer daquele que reza o mesmo que, a respeito de Jesus Cristo, diziam entre si os espectadores do milagre: «Quem é este, a quem obedecem os ventos e as ondas?». Quem é aquele que se faz obedecer pelos ventos das tentações e pelas ondas da concupiscência? É o homem que reza.

3º Quem reza será libertado das tribulações e das enfermidades. «Senhor, exclama o régio Profeta, jamais serei confundido, porque vos invoquei» (Sl 30, 20). «E quem jamais invocou a Deus e não se viu por ele atendido?», pergunta o Eclesiástico (2, 12).

«Tu me invocaste na tribulação, e eu te livrei dela», dizia o Senhor a Davi (Sl 80, 8). E este confirmava a palavra do Senhor, exclamando: «Em meio às minhas tribulações, elevei meus clamores ao Senhor, e ele me atendeu» (Sl 119, 1); e não somente eu, mas todos quantos recorreram ao Senhor em suas angústias viram-se libertados de suas misérias (Sl 106, 13).

Se falarmos depois, em particular, das enfermidades curadas pela oração, inumeráveis são os exemplos. Um homem coberto de lepra, vendo Jesus, prostra-se por terra e clama: «Senhor, se quiserdes, podeis purificar-me». Jesus, em resposta àquela oração, estende a mão, toca-o e diz: «Eu quero, fica purificado»; e imediatamente a lepra desaparece (Lc 5, 12-13). Outros dois leprosos, indo ao encontro de Jesus, que entrava numa aldeia, gritam em alta voz: «Jesus, nosso mestre, tende piedade de nós», e ei-los curados no mesmo instante (Lc 17, 12-14).

Dois cegos estavam à beira de uma estrada; ouvem o ruído dos passos de uma multidão que avança, perguntam que novidade havia e, ouvindo que Jesus Cristo passava, começam a gritar: «Senhor, filho de Davi, tende compaixão de nós». ― Jesus para, chama-os para junto de si e pergunta-lhes o que querem. Ouvindo a oração deles, movido de piedade para com eles, tocou-lhes os olhos e, com aquele toque, recuperaram a vista (Mt 20, 30-34).

Marta e Maria rogam a Jesus que tenha piedade de Lázaro, seu irmão, sepultado havia quatro dias; e, por sua intercessão, Jesus o ressuscita (Jo c.11). Inúmeras outras curas milagrosas, a pedido dos enfermos ou pelas orações de outras pessoas, realizou Jesus Cristo, de modo que era imensíssimo o número daqueles que podiam dizer: «A vós elevei a minha voz, ó Senhor, e vós me restituístes a saúde» (Sl 29, 3).

O rei Ezequias cai mortalmente enfermo; Isaías anuncia-lhe da parte de Deus a morte e diz-lhe: «Põe em ordem os teus negócios, porque morrerás e não viverás mais». «Ezequias então faz oração ao Senhor». ― E este envia novamente Isaías para dizer-lhe que ouvira a sua oração e que lhe concedia quinze anos de vida (Is 38, 1-3)… Quantas curas não obtiveram os santos com suas orações? Quantos filhos foram restabelecidos pelas orações de mães virtuosas?

4º Com a oração obtém-se a saúde da alma. ― «Os médicos do corpo, diz São Lourenço Justiniani, fazem-se pagar pela saúde que nos restituem, e nem sempre conseguem dá-la; mas Deus cura infalivelmente a alma sem ouro e sem prata; nada exige senão a oração; e cura sempre a alma que reza e por quem se reza, por grave e mortal que seja a doença que a aflige. A oração cura os enfermos espirituais; é remédio pronto e eficacíssimo para aquele que é fortemente tentado pelos vícios. Recorra ele a este remédio todas as vezes que dele necessitar, e extinguirá o fogo das paixões e se purificará. A oração abranda os ardores da concupiscência, assim como a água apaga o fogo (5)».

«O Senhor, confessa de si o régio Profeta, inclinou-se para mim, ouviu o clamor do meu coração e retirou-me do abismo da miséria e do lodo fétido» (Sl 39, 3). Outra vez exclamava: «Este pecador vos pediu a vida, e vós lha destes» (Sl 20, 5).

Quem deseja libertar-se do pecado e romper as cadeias de sua vergonhosa escravidão, reze: Deus quebrará seus grilhões e terá misericórdia dele. O pecador não pode, por si só, converter-se e alcançar a salvação, mas necessita da graça de Deus; ora, por meio da oração, obtém todas as graças…; a oração restitui a vida à alma; ressuscita os mortos espirituais: milagre muito mais estupendo que o da ressurreição dos corpos. Até mesmo Plutarco deixou escrito: «A oração é o verdadeiro médico da alma» (In morib.).

5° A oração opera no homem uma verdadeira transfiguração. ― Narra São Lucas que, tendo Jesus subido a um monte acompanhado de Pedro, Tiago e João, para orar, enquanto rezava, seu rosto tornou-se inteiramente outro, e suas vestes apareceram de uma brancura resplandecente (Lc 9, 28-29). Jesus quis transfigurar-se em sua oração para mostrar-nos quais são os frutos da oração; para fazer-nos compreender que, na oração, somos cercados, penetrados, envolvidos e como que transfigurados pela luz celeste, a fim de que, de terrenos, nos tornemos celestes e divinos, e, de homens, nos transformemos em Anjos.

Com efeito, a oração é a transfiguração da alma: 1) porque a alma recebe a luz de Deus para conhecê-lo e conhecer e saber aquilo que deve fazer; e isso de modo claro e visível. A oração obtém luzes para discernir os bons autores e livros dos maus, ou perigosos, ou inúteis; obtém que se entenda, veja e compreenda aquilo que se lê, que se retenha de memória e dele se tire proveito. 2) Por meio da oração, pede-se e obtém-se de Deus a sua graça, com a qual se limpam as manchas da alma, purifica-se ela dos vícios e se a defende das tentações. Pela oração, os consolos sucedem às angústias, a força à fraqueza, o fervor à tibieza, o conhecimento à dúvida, a coragem à pusilanimidade, a alegria à tristeza, a vigilância ao sono, a vida à morte. Ó preciosa transfiguração, e bem digna de que aquele que a experimenta exclame com Pedro, ébrio de felicidade ao contemplar a Transfiguração do Senhor: «Que ventura é estar aqui! Façamos aqui tendas para permanecer» (Mt 17,4). 3) Pela oração, a alma se eleva acima de si mesma e, dirigindo-se para o céu, ascende até Deus; lá percebe e aprende que todas as coisas daqui de baixo são vis; daquela altura à qual a oração a elevou, ela as despreza, porque compreende que as verdadeiras honras, as verdadeiras riquezas e os verdadeiros bens amados só se encontram no céu. 4) Pela oração, a alma vê que todas as cruzes são leves, que a pobreza, as doenças, os reveses, as provações etc. são um peso ligeiro: por isso, mediante a oração, suporta tudo; repete com São Paulo: «Considero que os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória futura que será revelada em nós» (Rm 8, 18). 5) Pela oração, a alma une-se a Deus, transforma-se em Deus, participa da natureza de Deus. «Quando rezamos, diz Santo Isidoro, falamos a Deus; quando nos dedicamos a piedosas leituras, Deus fala conosco (6)».

A oração faz de nós o povo de Deus: «Ele invocará o meu nome, diz o Senhor, e eu o atenderei. Eu direi: Tu és o meu povo; e ele dirá: Tu és o meu Deus» (Zc 13, 9). Ele rezará ao Senhor, diz Jó, que se aplacará e lhe mostrará a sua face» (Jó 33, 26).

Nem pode ser de outro modo, porque a oração, diz o Crisóstomo, faz de nós outros tantos templos de Jesus Cristo (De Orand. Dom. lib. II). Além disso, ela nos dá a pureza e a castidade, e é palavra de Jesus Cristo que aqueles que têm o coração imaculado e puro verão a Deus. ― E que a oração nos obtenha de Deus essas virtudes, declara-o expressamente Salomão, por experiência própria: vendo que lhe era impossível viver continente se Deus não o socorresse com a sua graça, recorreu a Ele mediante a oração (Sb VIII).

6° A oração é onipotente. ― «Nada no mundo vence em poder o homem probo que reza», sentencia o Crisóstomo (In Matth.). A oração é tão poderosa, seus frutos e efeitos são tão grandes, que nenhum obstáculo a detém; não há nada que ela não obtenha: «A oração, observa São João Clímaco, considerada em sua natureza, é uma conversação familiar, é a união do homem com Deus. Mas, considerando sua eficácia e poder, é a conservação do mundo, a reconciliação com Deus, a mãe e a filha das lágrimas; é a remissão dos pecados, a ponte sob a qual passam as ondas das tentações, a fortaleza contra o ímpeto das aflições, a trégua e a cessação das guerras, o ofício dos Anjos, o alimento de todos os espíritos, a glória futura, a obra para a eternidade, a fonte das virtudes, a reconciliadora das graças divinas, a perfeição espiritual, o alimento da alma, a luz do espírito, o remédio contra o desespero, a demonstração da esperança, a consolação na tristeza, a riqueza dos religiosos, o tesouro dos solitários, o freio da cólera, o espelho da perfeição religiosa, o índice da regra, a manifestação do estado, a explicação das profecias, o selo da glória eterna (7)».

A oração é o respiro da alma; rezando, enviamos a Deus o sopro do desejo e recebemos dele o sopro das virtudes; aspiramos a Deus… A alma que reza é uma fortaleza inexpugnável… Pedro está na prisão, carregado de ferros; a Igreja reza por ele, e eis que, na véspera do dia em que deveria ser morto por Herodes, no coração da noite, aparece-lhe um Anjo do Senhor, uma viva claridade resplandece na prisão, Pedro é despertado e, ao despertar, as cadeias caem quebradas; ele se encontra livre, as portas se abrem e, passando por entre os guardas, sai da prisão sem que nenhum de seus inimigos o perceba. Quem operou tantos prodígios? A contínua e fervorosa oração dos devotos (At 12, 5-9).

A oração 1) acalma a cólera de Deus; mas que digo? leva-o a obedecer ao homem… Josué reza, e o sol detém seu curso (Js 10,13). 2) Os Anjos assistem aos que rezam (Dn 9,21). Eles mesmos oferecem a Deus as orações daquele que reza e lhe apresentam o fruto da oração atendida, diz Jó (Jó 12, 12). 3) A oração livra o homem de mil males; obtém a graça e a salvação presente e futura. 4) Domina todos os elementos e todas as criaturas; detém o curso dos astros; faz chover fogo do céu (2Rs 1, 10). Divide o mar e os rios (Ex 4, 15-21; 108. 111, 16). Ressuscita os mortos, liberta as almas do purgatório; amansa as feras; cura a lepra e a febre; mantém longe a peste e as enfermidades, acalma os furacões, apaga os incêndios, detém os terremotos; impede os naufrágios; toma do céu todas as virtudes e graças e as traz à terra; triunfa sobre Deus onipotente e, de certo modo, acorrenta-o a si.

Jeremias, rezando, é encorajado em sua prisão… Daniel, na cova com os leões, torna-os mansos como cordeiros e, com a oração, fecha-lhes as fauces… Os três jovens, na fornalha ardente, cantam os louvores do Senhor e, a seu pedido, as chamas nem sequer tocam seus cabelos… Jó, sobre o monturo, por meio da oração, triunfa sobre Satanás e sobre todas as suas desgraças… Com a oração, José sai vitorioso da mais terrível das paixões… Com a oração, Susana salva sua virtude e sua vida; é libertada das ciladas dos dois velhos impudicos que, como caluniadores, são condenados a uma morte ignominiosa… O bom ladrão, em virtude da oração, voa da cruz ao céu… Estêvão reza, vê o céu aberto e sobe até lá…

Não há, portanto, lugar nem tempo em que não se deva rezar. A oração é a coluna das virtudes, a escada da divindade, das graças e dos Anjos para descerem à terra, e dos homens para subirem ao monte eterno. A oração é a irmã dos Anjos, o fundamento da fé, a coroa das almas, o sustento das viúvas, o alívio do jugo matrimonial. A oração é uma cadeia de ouro que liga o homem a Deus, Deus ao homem, a terra ao céu; fecha o inferno, acorrenta os demônios; previne os delitos e os apaga… A oração é, dentre todas as armas, a mais polida e vigorosa; dá segurança inabalável; é o mais rico tesouro; o porto seguro da salvação; o verdadeiro lugar de refúgio… «A oração é, diz São Gregório de Nissa, o vigor dos corpos, a abundância e a riqueza de uma casa» (De Orat.).

O povo hebreu no deserto reza, e, à sua oração, as aves do céu vêm fazer-se sua presa; o maná lhe cai do alto, e um pão milagroso lhe serve de alimento (Sl 104, 40). O povo tem sede, reza, e, à sua oração, Deus fende os rochedos e as águas jorram em abundância; um rio corre para irrigar um deserto árido (Ib. 41). Jaziam sepultados nas trevas e nas sombras da morte, acorrentados pela fome e pelo ferro, e clamaram ao Senhor, e ele os tirou de suas misérias. Tirou-os da escuridão tenebrosa da morte, quebrou seus grilhões, porque rezavam (Sl 106, 14).

A oração pode ser comparada à torre de Davi, da qual se diz nos Cânticos que se eleva coroada de ameias, munida de toda defesa, guarnecida de milhares de escudos e de toda espécie de armas robustas (Ct 4, 4). «A oração é uma arma celeste, escreve São Cipriano, uma cidadela espiritual, um dardo divino que nos protege (8)». Santo Efrém chama-lhe um arco com o qual lançamos para Deus flechas de santos desejos; com essas flechas ferimos o coração de Deus e triunfamos dele: com as mesmas flechas atravessamos e abatemos nossos inimigos (De Orat.).

A oração faz descer o Pai, o Filho e o Espírito Santo à alma; melhor dizendo, eleva a alma ao mais alto dos céus e a coloca no seio da glória da Augusta Trindade; tanto que São Jerônimo ousa afirmar que ela tem força para deter e mudar os decretos de Deus (In Exod.). E, de fato, Moisés, como diz a Sabedoria, resistiu à cólera de Deus, empregando a oração (Sb 18,21); e, quando já os cadáveres se amontoavam como montanhas, ele, com a oração, fez-se mediador, desarmou a vingança de Deus e impediu que ela se estendesse àqueles que ainda viviam (Id. 23); a Sagrada Escritura afirma que, se Abraão tivesse encontrado ao menos dez justos que houvessem rezado, Sodoma não teria perecido (Gn 18,32).

Quereis outras provas da eficácia da oração? A história do povo judeu fornece-vos provas claríssimas e inegáveis. Os judeus pecam por idolatria, adorando um bezerro de ouro; o Senhor, indignado com tamanha dureza, diz a Moisés que o deixe — isto é, que não reze mais por aquele povo culpado —, e Ele os exterminará no furor de sua indignação. Moisés não se rende, mas, com fervorosa oração, põe-se a suplicar ao Senhor que lhes perdoe e não cumpra suas ameaças, para que os egípcios não possam dizer, para injúria de seu nome, que Ele os havia tirado de propósito do Egito para matá-los nas montanhas e exterminá-los da face da terra. E o Senhor reconciliou-se com o povo e não fez o que havia estabelecido (Ex c.32).

Não foi diferente o que aconteceu quando o povo judeu murmurou contra Moisés. Também então Deus disse a Moisés que se afastasse do meio da multidão e lhe deixasse livre o braço para fulminá-la. Então Moisés, tendo adorado a Deus, correu até Aarão e disse-lhe: Toma o turíbulo e, colocando nele fogo do altar com incenso, vai depressa ao encontro da multidão, para rezar por ela, porque a cólera de Deus já se desencadeou sobre o povo e o está devastando. Aarão obedeceu e correu para o meio da multidão, que a chama já devorava; ofereceu o incenso e, permanecendo de pé entre os vivos e os mortos, rezou pelo povo, e a praga cessou (Nm 16,41-48).

No Êxodo lê-se que, tendo Israel sido combatido e vencido por Amalec em Rafidim, Moisés ordenou a Josué que, escolhendo guerreiros valorosos, saísse e enfrentasse Amalec, enquanto ele subiria no dia seguinte ao cume do monte, levando na mão a vara do Senhor. Josué cumpriu a ordem do chefe, que foi ao seu encontro, com Aarão e Hur, no cume do monte, antes que Josué travasse batalha com Amalec. Ora, observou-se que, enquanto Moisés mantinha as mãos elevadas, Israel triunfava; mas, se as abaixava, Amalec vencia. Tendo observado isso e visto, em certo momento, que os braços de Moisés já não podiam manter-se erguidos por causa do cansaço, fizeram-no sentar-se sobre uma pedra, e Aarão e Hur sustentaram-lhe os braços, que assim permaneceram levantados até o pôr do sol. E, por essa oração de Moisés, Josué desbaratou Amalec (Ex 18,8-13). «Moisés, diz Crisóstomo, estava no monte, perto do céu, e, quanto mais alta era a montanha, tanto mais sua oração estava próxima de Deus. Qual é o justo que não tenha triunfado com a oração? Qual é o inimigo que não tenha sido vencido com a oração? Por meio da oração, Daniel penetra e desvenda as misteriosas visões, as chamas se extinguem, os leões despem-se de sua ferocidade, os inimigos caem desbaratados e vencidos (9)».

Percorrei a história do povo judeu durante todo o tempo em que foi governado pelos Juízes e, se de um lado nela vedes uma cadeia de quedas, infidelidades no serviço do Senhor, delitos e idolatrias e, portanto, desventuras, desastres e escravidão, de outro admira-se uma sucessão de perdões, benefícios e libertações, renovadas tantas vezes quantas o arrependimento lhe moveu o coração e lhe abriu a boca à oração. Se Otoniel venceu Cusã e libertou Judá de uma servidão de oito anos, mantendo-o depois em paz por quarenta; se Aod matou Eglon, rei dos moabitas, e pôs fim, para Israel, a uma servidão de dezoito anos; se Débora pôs em fuga o exército de Jabin, rei de Canaã, matando com sua própria mão o capitão Sísara e libertou os filhos de Jacó de uma opressão que durava havia vinte anos; se Gedeão derrotou os madianitas, que oprimiam Israel havia sete anos; se Jefté o arrancou das mãos dos filisteus, que lhe faziam pesar um jugo de ferro havia mais de cinco lustros; e se Sansão o libertou novamente da servidão dos mesmos filisteus, prolongada por quarenta anos; à oração e aos clamores que a estirpe de Jacó dirigia do fundo do coração a Deus, naqueles cruéis momentos, deve-se o mérito… Deus se compadecia deles e sempre lhes perdoava quando, arrependidos, recorriam à oração. Como é tremendo o pecado! Como é poderosa a oração! Como é punida a iniquidade! Como é recompensada a oração!

Deus costuma dar mais do que aquilo que se pede. Salomão pede somente a sabedoria, e Deus, além de concedê-la em grau supremo, acrescenta-lhe ainda muitos favores temporais (2Sm c.3). Sara e Ana são estéreis; rezam, e Deus as faz mães: àquela, de Isaac; a esta, de Samuel. «Quem reza, diz o Crisóstomo, obtém bens insignes de sua oração antes mesmo de receber aquilo que pediu; sua oração reprime os tumultos da alma, acalma a ira, expulsa o ciúme, extingue a cobiça, diminui o apego às coisas perecíveis, dá a paz e faz subir ao céu (10)».

Samuel reza pelo povo de Deus, oprimido pelos filisteus, e o Senhor o atende (1Sm 7,9). Os filisteus combatem contra Israel; mas Samuel reza, e Deus faz ribombar sobre eles o trovão com estrondo tão horrível que, tomados de espanto, caem por terra diante do exército judeu. O profeta Elias reza, e duas vezes o fogo do céu devora os inimigos do Profeta, cinquenta de cada vez (2Rs 1,10). O rei da Síria quer apoderar-se de Eliseu e envia para esse fim cavalos, carros e soldados escolhidos. Eliseu pede ao Senhor que cegue toda aquela tropa; e o Senhor cumpre imediatamente a prece do profeta (Ib. 2,18). A propósito desse fato, Santo Ambrósio observa que «a oração alcança mais longe do que uma flecha. Eliseu subjugava seus inimigos não com as armas, mas com a oração (11)». Depois, mais adiante, retoma: Eliseu reza e cega toda a tropa inimiga. Onde estão aqueles que digam que as armas dos homens são mais poderosas do que as orações dos Santos? Eis como, pela oração do único Eliseu, um número imenso de inimigos é feito prisioneiro; pela oração e pelos méritos de um só Profeta, todo um exército é desbaratado e vencido. Onde está o exército, por mais numeroso, aguerrido e valente que seja, que possa apoderar-se de todos os inimigos, sem excetuar sequer um, e isso tão subitamente? Mas a oração opera esse prodígio: apodera-se de todos os inimigos e, com outro prodígio não menos grandioso, desses inimigos, embora vencidos, nenhum é ferido (ut sup.).

O rei Ezequias reza e, com sua oração, obtém o extermínio das numerosas falanges assírias; Senaquerib perde a vida juntamente com cento e oitenta e cinco mil homens (2Rs c.19). Tobias reza e recupera a visão… Sara reza e é libertada de sete maridos bestiais. Judite deseja e decide libertar seu povo e salvá-lo das mãos de Holofernes. Que pede aos seus para conseguir realizar o intento? Nada além de que façam oração ao Senhor por ela, até que retorne para lhes trazer notícias (Jt 7,53). Armada com a oração, parte; vai ao campo inimigo, passa entre as fileiras dos soldados, entra na tenda do comandante e, sustentada pela oração, corta a cabeça de Holofernes, põe em fuga o exército sitiante e liberta Betúlia. A santa mulher Judite, diz Santo Agostinho, abre o céu com suas orações; com a arte da oração, fabrica armas vitoriosas com as quais abate o inimigo e livra seu povo de espantoso terror. Betúlia, sitiada por numerosa horda de bárbaros, mais feras que homens, gemia abatida e desanimada. Todos definhavam, morriam de fome e de sede, todos já se imaginavam caídos nas garras daqueles ferozes. Mas eis Judite que, santificada pela oração, pelo jejum, pela cinza e pelo cilício, avança, esperança do povo, destinada a devolver-lhe a segurança. Entre as muralhas de Betúlia, ela está inquieta; mas, sustentada pela oração, permanece impávida onde tudo é perigo para ela. Por meio da oração, conserva sua castidade, salva seu povo e abate o inimigo. A oração é mais poderosa do que todas as armas: com a oração, uma mulher salva uma cidade inteira e uma nação, enquanto um exército inteiro, sem oração, não pode salvar seu comandante (In Iudith.).

Um decreto de morte é promulgado contra o povo de Deus, escravo na Pérsia. Ester reza, sua oração muda o coração de Assuero, e Israel é salvo. Nos tempos de Jeremias, o povo despreza o Senhor, e o Profeta se volta para rezar a Deus. Este, querendo punir o povo culpado, diz ao Profeta: a tua oração ata-me as mãos; não rezes por eles, não me dirijas cântico nem súplica em seu favor, não te oponhas a mim (Jr 7,16). Deus se sente como que impedido pelas orações dos justos e não pode punir os maus, como já havia dito a Moisés: «Deixa-me livre para exercer a minha justa vingança» (Ex 32,10). Mas, na verdade, Deus deseja que haja quem se oponha e detenha sua vingança; alegra-se quando alguém lhe detém o braço vingador e lhe ata as mãos com a oração. Ele se queixa, pela boca do profeta Ezequiel, de que não se lhe faça violência com a oração, de que não se reze para desarmá-lo (Ez 13,5). «Procurei entre eles um homem que se interpusesse como uma sebe entre mim e eles e se opusesse a mim para salvar esta terra, a fim de que eu não a devastasse; mas não o encontrei» (Ez 22,30). «Por isso derramei sobre eles o vaso da minha indignação e os consumi com o fogo da minha cólera (Id. 31). A oração é sebe e muro de oposição à justa cólera de Deus. O mundo subsiste somente pelas orações das almas fervorosas. Por isso Jesus Cristo diz que, no fim dos séculos, a fé estará extinta; e é por isso que virá o fim do mundo.

Jonas reza no ventre da baleia, e o Senhor ordena ao cetáceo que o lance à margem (Jn 2,2-11). «Jonas, comenta aqui São Gregório, clama a Deus do ventre do peixe, do fundo do oceano, do seio da desobediência; e sua oração sobe até os ouvidos de Deus, e Deus o livra da baleia e das ondas, absolve-o de sua culpa. Clame o pecador que a tempestade das paixões afastou de Deus, que o transtornou e submergiu, que se tornou presa do espírito maligno, que foi engolido pelas ondas do século; reconheça e confesse que jaz no fundo do abismo, para que sua oração chegue a Deus (12)».

Finalmente, Santo Agostinho resume assim todos estes prodígios da oração (13): «Por sua oração, Jeremias é confortado no cárcere; Daniel permanece alegre no meio dos leões; os três jovens entoam alegres louvores na fornalha ardente; Jó triunfa sobre o demônio em seu monturo; o ladrão passa da cruz ao céu; Susana escapa à cilada dos anciãos; Estêvão, vitorioso sobre seus apedrejadores, é recebido no céu; não há, portanto, lugar algum em que não se deva rezar. Rezemos, pois, sempre e em todo lugar, uns pelos outros, para que sejamos salvos. A oração é a santa coluna da virtude, a escada da divindade, o esposo das viúvas, a amiga dos Anjos, o fundamento da fé, a coroa dos religiosos, o alívio dos casados».

7° A oração é o terror dos demônios. ― «Revesti-vos da armadura de Deus, exortava São Paulo aos Efésios, para que possais permanecer firmes e fortes contra as ciladas do demônio» (Ef 6,11). Comentando estas palavras, São Bernardo escreve: «Certamente são ferozes as tentações que nos vêm do inimigo; mas muito mais terrível é para ele a nossa oração do que, para nós, os seus assaltos (14)». Com efeito, «não é tão prontamente, diz São João Crisóstomo, que o rugido do leão põe em fuga as feras, como a oração do justo derrota os demônios (15)». Ela é uma flecha tal, diz Santo Ambrósio, que atinge o inimigo, ainda que esteja muito distante (Serm. 80, VI); e Santo Agostinho chama-a o flagelo dos demônios (De Orat.). A oração expulsa os demônios do corpo e da alma; força-os à obediência e à fuga; muito sábio, portanto, é o conselho que o abade João dava aos seus monges: «Que faz um homem, diz ele, quando vê algum animal feroz vir ao seu encontro? Ou foge, ou sobe em uma árvore; assim fazei vós, quando o demônio vos tenta; fugi para Deus por meio da oração, subi até ele e sereis salvos; pois a oração derruba as tentações e o tentador, assim como a água apaga o fogo (16)».

«Louvarei e invocarei o Senhor, cantava o Salmista, e serei libertado dos meus inimigos» (Sl 17,4). «Afasta-te de mim, Satanás», ordenou Jesus ao demônio que ousava tentá-lo (Mt 4,10), e Satanás retirou-se imediatamente, e os Anjos aproximaram-se dele para servi-lo (Ib. 11). Esses mesmos favores a oração nos alcança: expulsa os espíritos maus e aproxima de nós os bons. Digamos com frequência: Afasta-te de mim, ó Satanás; esta simples oração põe o inferno em fuga e nos faz comunicar com o céu… O demônio jamais pôde vencer aquele que reza com frequência e como convém. Se, portanto, somos vencidos, é porque ou não rezamos, ou rezamos mal.

8° A oração ilumina. ― Lê-se nos Atos dos Apóstolos que o Senhor disse a um discípulo chamado Ananias que fosse à rua chamada Direita e procurasse, na casa de Judas, certo Saulo de Tarso, «porque ele reza», dando-lhe a entender, ao mesmo tempo, que aquele homem que rezava era um vaso de eleição para levar o nome de Jesus Cristo entre os gentios, diante dos príncipes da terra e dos filhos de Israel. Ananias foi, entrou na casa que lhe fora indicada e encontrou Saulo em oração; impondo-lhe as mãos, disse-lhe: Saulo, meu irmão, o Senhor Jesus enviou-me a ti para que recuperes a vista e sejas cheio do Espírito Santo. E imediatamente recuperou a visão (At 9,10-18). Observai que Saulo recebe a visita de Ananias, o Espírito Santo e a restituição da vista, porque reza. ― Queremos que Deus mesmo nos visite, que os bons Anjos nos assistam; desejamos ser iluminados pelo Espírito Santo? Imitemos Saulo, que reza.

9° Pela oração obtém-se a conversão dos pecadores. ― Basta para nos persuadir deste efeito da oração o exemplo de Santa Mônica, cujo filho Agostinho era um grandíssimo pecador e pedra de escândalo. Ela reza, reza muito, reza com frequência, não cessa de rezar e continua, por muitíssimo tempo, a rezar; e recomenda-se a todas as pessoas boas, para que rezem por seu filho; mas, finalmente, a sua oração faz de Agostinho um grande santo e um dos primeiros Doutores da Igreja, cumprindo-se aquela palavra de um bispo à mãe: Ide tranquila, pois o filho de tantas lágrimas não pode perecer (In Vita). Lê-se na vida de Santa Teresa que ela obteve, com as suas orações, a conversão de tantos pecadores quantos São Francisco Xavier, Apóstolo das Índias, havia convertido com as suas pregações e os seus milagres (In Vita).

De onde vêm essas mudanças repentinas, essas estupendas conversões milagrosas que ocorreram em todos os séculos e das quais somos testemunhas, e diante das quais devemos dizer: «Aqui está o dedo de Deus»? (Ex 18,19). Das orações do justo, dos religiosos, da Igreja…

10° A oração nos salva. ― «Nossos pais, diz o Salmista, elevaram os seus clamores ao Senhor e foram salvos… Quanto a mim, elevei a minha voz para Deus, e o Senhor me salvará» (Sl 21,6). ― Ego autem ad Deum clamavi et Dominus salvabit me (Sl 54,17).

«A oração do justo, diz Santo Agostinho, é a chave do céu; a oração sobe ao céu, e a misericórdia de Deus desce dele» (Serm. CCXXVI); o mesmo diz Santo Efrém, assegurando-nos que a oração tem sempre aberta a passagem para o céu (De Orat.). Estas sentenças se fundamentam na própria palavra de Deus, pois encontramos no Eclesiástico que a oração suplicante sobe até as nuvens; que a oração daquele que se humilha atravessa as nuvens e não para enquanto não chega ao próprio trono de Deus (Eclo 35,20-21).

Quão grande não deve ser a força e a eficácia da oração, se ela sobe até o céu, o abre e avança até o trono de Deus? Temos um exemplo notável no profeta Elias, que, com a sua oração, abre e fecha o céu segundo a sua vontade!

Pela oração, escreve o Crisóstomo, deixamos, mesmo no tempo presente, de ser mortais; somos mortais por natureza, mas, pela oração, pela nossa familiar conversação com Deus, passamos à vida imortal. Aquele que fala familiarmente com Deus torna-se necessariamente mais forte do que a morte e do que tudo quanto está sujeito à corrupção. A oração assegura à alma a glória imortal e aos corpos a ressurreição gloriosa (In Eccles. c. XXVIII).

11° A oração contém bens imensos. ― Deus ouve, esclarece, ilumina, dirige, fortalece e atende aquele que reza. «De quantos tesouros de sabedoria, de virtude, de prudência, de bondade, de sobriedade e de igualdade de costumes não nos enche a oração!», exclama São João Crisóstomo (17). Na oração cumpre-se aquela palavra de Deus ao Salmista: «Abre a tua boca, e eu a encherei» (Sl 80,11). Quanto mais se pede, tanto mais se recebe; quanto mais se desejam riquezas, mais Deus concede… «Clama a mim, disse Deus a Jeremias, e eu te atenderei; e te revelarei coisas grandes e seguras que não conheces» (Jr 33,3).

A oração é como o trabalho em uma mina inesgotável; ela obtém tudo quanto quer; como a mina dos tesouros divinos jamais poderia se esgotar, ainda que dela se extraísse tudo o que se deseja, a mina permanece sempre inteira. Deste oceano de riquezas, que é Deus, há seis mil anos bebem todos os que rezam; e este mar que banha e fecunda a terra não diminuiu nem sequer uma gota. Está sempre cheio, sempre transborda sobre aqueles que rezam. Digamos mais: aqueles que rezam permanecem ao redor deste mar, e a sua oração os mergulha nele por toda a eternidade.

Ouçamos ainda alguns ensinamentos dos santos Padres sobre este assunto: «A oração, diz o Crisóstomo, é a guardiã da temperança, a repressão da ira, o freio da soberba, a expiação dos desejos de vingança, a extinção da inveja, a confirmação da paz (18)». Segundo São Bernardo, «purifica a alma, ordena os afetos, dirige as ações, corrige os excessos, forma os costumes, constitui a beleza e o ornamento da vida (19). Serena o coração, diz Cassiano, afasta-o das coisas caducas, purifica-o dos vícios, eleva-o às coisas celestes e torna-o capaz e digno de receber todos os bens (20)». Em suma, como diz Santo Agostinho, «a oração é um sacrifício agradável a Deus; é um auxílio para quem reza; é o flagelo de Satanás (21)».

5. FACILIDADE DA ORAÇÃO

A oração é coisa facílima para todos, ricos e pobres, doutos e ignorantes, velhos e jovens, e todos podem facilmente rezar. A oração, embora seja o meio mais eficaz, ou melhor, o indispensável meio de salvação, é, ao mesmo tempo, a coisa mais fácil. Pode-se rezar em todo tempo e lugar… Quem quer que tenha coração possui tudo quanto é necessário para rezar. Dar o coração a Deus, isto basta: Deus não pede outra coisa…

Às vezes alguém se queixa de não saber rezar. Como! Não sabeis rezar! Isso provém do fato de que não rezais; rezai, e sabereis rezar; e quanto mais rezardes, tanto mais sabereis rezar; ninguém se torna sábio na oração senão à medida que reza: rezando com frequência, aprende-se a rezar.

A oração é fácil, porque pode ser breve e, ao mesmo tempo, eficacíssima. O Pai-Nosso, que é a mais rica e a mais perfeita de todas as orações; o Pai-Nosso, que encerra em si todas as outras orações, é uma oração não longa e conhecida por todos… Qual foi a oração do cego? «Senhor, fazei que eu veja!». Qual foi a oração do publicano? «Senhor, tende piedade de mim, porque sou pecador». Qual foi a oração dos Apóstolos em perigo de naufragar? «Senhor, salvai-nos, porque estamos perecendo». — Qual foi a oração do centurião? «Senhor, não sou digno de que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra, e meu servo será salvo». — Qual foi a oração do bom ladrão na cruz? «Senhor, lembrai-vos de mim quando estiverdes em vosso reino». — Todas estas orações são breves, facílimas, e todas foram imediatamente atendidas.

A oração é fácil, porque se pode rezar a qualquer hora, de noite e de dia.

A oração é fácil, porque Deus, que está sempre presente, está sempre disposto a atender-nos, socorrer-nos e ouvir-nos.

A oração é fácil, porque Deus é de fácil acesso; embora infinitamente grande, quer que nos dirijamos a Ele com a maior liberdade.

A oração se torna fácil pelas consolações que nela se saboreiam e pelo alívio que nela se encontra para todos os males.

6. INFINITA BONDADE DE DEUS NA ORAÇÃO

O apóstolo São Tiago diz que quem tem necessidade «peça a Deus, que dá a todos com abundância» (Tg 1, 5). Diz São João Crisóstomo: «Deus quer que recebamos por meio da oração aquilo que desejamos; ah, que felicidade, que ventura é esta para nós: conversar com Deus, poder pedir aquilo de que necessitamos! (22)». «Deus é todo para nós, diz Santo Agostinho; n’Ele encontraremos todas as coisas. Tens fome? Ele é teu alimento; tens sede? Ele é tua bebida; encontras-te tateando no escuro? Ele é tua luz; estás nu? Ele é tua veste para a eternidade (23)». Digamos também nós, com São Bernardo: «Deus deu-se todo a mim; empregou-se inteiramente em meu benefício» (Serm. 3, in Circumcis.).

«Deus está perto daqueles que o invocam» (Sl 144, 18); e todos os que o invocam são atendidos (Sl 98,6). E o próprio Senhor empenha sua palavra, prometendo atender aquele que elevar a Ele seus clamores (Sl 90, 15); e apelava à experiência do Salmista, dizendo: «Tu me invocaste na tribulação, e eu te libertei» (Sl 80, 8). Em suma, podemos desafiar, com o Eclesiástico, o mundo inteiro a dizer-nos quem jamais invocou a Deus e não foi atendido (Eclo 2, 12).

É tão grande a bondade de Deus, que Ele deseja mais dar do que nós receber; e, quando solicitado, dá com muito mais abundância do que aquilo que lhe é pedido. Deus, como observa São Tomás, dá: 1° livremente, não vende os seus dons…; 2° geralmente, não a um só, mas a todos…; 3° copiosamente…; 4° generosamente e sem censuras… Envergonhe-se, pois, de si mesma a indolência humana; Deus está mais disposto a dar do que nós a receber; dar faz parte da natureza de Deus (24).

7. A ORAÇÃO É UMA HONRA, UMA GLÓRIA, UMA FELICIDADE

Como é bela e verdadeira aquela sentença de São João Crisóstomo: «A corte e os ouvidos dos príncipes estão abertos a poucas pessoas privilegiadas, mas a corte e os ouvidos de Deus estão escancarados para quem quer que deseje ter acesso a eles» (De Orand. Dom. l. II). Nos aposentos reais, penetra-se apenas com dificuldade; aos monarcas, raramente se pode falar, tantos são os obstáculos que fecham o caminho para o seu palácio e para a sua pessoa! Mas a oração tem livre entrada no céu; vai a Deus quando bem lhe apraz; entra na corte celeste, chega até o trono da divindade, sozinha e a todo instante, sem que nenhum guarda lhe grite: olá, aonde vais? O rei do céu não concede audiência; a esta hora tu o incomodas. Pelo contrário, os guardas da corte divina, que são os Anjos, dizem a quem reza: vem, entra, pede quanto quiseres e te será dado. — E se é uma honra insigne ser admitido à audiência de um rei, quão infinitamente maior não é a honra de ter sempre livre acesso à pessoa do rei do céu!

O mendigo é expulso dos palácios habitados por homens que, afinal de contas, são semelhantes a ele por natureza; e os pobres, os miseráveis, são aqueles que o grande Deus admite mais facilmente em seu cortejo e ouve com maior solicitude. Ide, diz continuamente a seus ministros o Rei dos reis, o Senhor dos monarcas, ide pelas praças e pelas estradas, pelos becos e pelas encruzilhadas, e trazei aqui todos os mendigos, enfermos, cegos e coxos que encontrardes, e insistai com eles para que entrem, a fim de que a minha casa se encha (Lc 9, 21-23).

Mas não somente esse grande Deus nos permite dirigir-nos a Ele, assegurando-nos de que nos dará tudo quanto pedirmos, o que já é altíssima honra e singularíssima distinção; Ele ainda no-lo impõe como obrigação… Suponhamos que um mendigo ousasse aproximar-se da mesa de um rico: com que palavras e de que maneira seria expulso! E o mais miserável dos mendigos vai, por meio da oração, sentar-se, quando quer, à mesa de Deus, junto da própria pessoa de Deus. Que dignidade! Que honra! Que glória! … «É-te permitido conversar com Deus, escreve o Crisóstomo; é-te lícito permanecer com Ele quanto quiseres; por meio da oração, é-te dado merecer aquilo que desejas. E embora não possas ouvir com os ouvidos do corpo a voz de Deus, ao receberes o que pedes, bem vês que Ele se digna falar contigo, se não com palavras, certamente com benefícios (25)».

«Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja perfeita», diz Jesus Cristo (Jo 16,24) … «E que felicidade maior pode ter o homem, exclama São Basílio, do que reproduzir na terra os concertos dos Anjos, dedicar-se à oração ao amanhecer, exaltar o Criador com hinos e cânticos? E depois, despontado o sol, aplicar-se ao trabalho, sem jamais esquecer a oração? E, finalmente, temperar, como que com sal, todas as ações com cânticos espirituais? (26)».

«Eu criei a paz como fruto da oração», diz o Senhor pela boca de Isaías (Is 57,19). Eis a recompensa, a felicidade, a doçura da oração: é a paz. Com efeito, nada torna o homem tão contente, alegre e tranquilo quanto a oração, principalmente nas provações, nas tribulações, na contrição e no pranto pelos pecados… Para o mundo insensato que não reza, a oração se torna um grave incômodo; não encontra tempo para rezar; não consegue compreender como as almas virtuosas possam amar e praticar tanto a oração, a ponto de consagrar-lhe horas inteiras, não somente sem tédio, mas antes com deleite. Infelizes! Eles não conhecem a unção da oração; jamais provaram, porque não são dignos dela, ou melhor, porque não querem, as consolações inefáveis, as doces alegrias que acompanham esse divino trato com Deus! A oração é verdadeiramente uma amostra antecipada das delícias celestes. Almas tíbias, áridas, negligentes, preguiçosas, experimentai, fazei algum esforço e compreendereis o que digo, porque o sentireis, o experimentareis no fundo do coração.

8. MOTIVOS PARA REZAR

«Pedi, diz Jesus Cristo, buscai, batei» (Mt 7,7). Pedi para obter forças, porque vós não sois senão fraqueza… Buscai a luz e a verdade por meio da oração, porque vós não sois senão trevas e erros… Batei, com a oração, à porta do céu e da graça, porque ambas vos são necessárias… Pedi a graça, sem a qual nada podeis… Esforçai-vos por reencontrar, mediante a oração, a veste da inocência e das virtudes que perdestes… Batei, para que vos sejam abertos os tesouros do Coração riquíssimo de Jesus Cristo.

Os motivos que nos impelem a rezar são a nossa pobreza…, a nossa fraqueza…, as nossas dívidas espirituais…, as culpas, a cegueira…, o tempo que nos foi dado precisamente para que rezemos…, a morte…, o juízo…, o inferno, o paraíso…, a eternidade.

9. QUALIDADES DA ORAÇÃO

1° O que se deve fazer antes da oração. ― «Antes de começares a oração, prepara a tua alma», diz o Eclesiástico (Eclo 18,23). Preparamo-nos para a oração: 1) com a leitura…; 2) com o arrependimento…; 3) com a consideração da divina majestade à qual vamos falar…; 4) com a meditação do nosso próprio nada…; 5) com a consideração das nossas necessidades…; 6) com a consideração das vantagens da oração…; 7) com a premeditação das coisas que pretendemos pedir, para que não nos aconteça pedir coisas inúteis, nocivas ou injustas; mas que o nosso pedido verse sobre objetos justos, santos, dignos de Deus, agradáveis a Ele e salutares para nós. São Bernardo diz: «Tal como te preparares para comparecer diante de Deus com a oração, assim Deus se mostrará a ti; como Ele te encontrar, assim tu O encontrarás; porque Ele é santo, estará com quem é santo; sendo inocente, estará com o inocente (27)».

Deus cuidará de atender àquele que preparar a sua oração com atenção e recolhimento; mostrar-se-á solícito e liberal para com aquele que aplicar diligência e generosidade.

Quem se põe a rezar sem preparação, quem se aproxima de Deus sem pensar nisso, não aplaca a Deus com a sua oração, mas O tenta, irrita e provoca com a sua temeridade, audácia, irreverência e impudência; sobretudo se, encontrando-se em pecado e, portanto, inimigo de Deus e sob o peso de sua cólera, ousa chamá-Lo de amigo, sem experimentar dor alguma por tê-Lo ofendido. Deus ouve somente aqueles que Lhe dirigem orações acompanhadas de reta fé e de boas obras…

Portanto, antes de começar a oração, pensai que sois uma pessoa sumamente vil, porque sois pecador ingrato, que sois cinza, pó e corrupção; e, por essa consideração, humilhai-vos. Pensai, então, na grandeza do Deus diante do qual vos apresentais com a oração; Ele é um Deus sapientíssimo, santíssimo, boníssimo, onipotente; amante das naturezas angélicas, reparador da natureza humana, criador de todas as coisas. Admirai, respeitai, adorai a divina majestade, intimamente presente; ela está diante de vós. Amai a sua imensa bondade, inclinada a ouvir-vos, a atender-vos e a fazer-vos o bem. Reavivai a vossa esperança, sabendo muito bem que não saireis nem de mãos vazias nem com o coração desolado da presença de tão grande rei, depois de Lhe haverdes dirigido a vossa oração.

Eis uma maneira prática de vos preparardes para a oração: 1) Pretendo rezar para dar louvor, bênção e honra a Deus. Uma oração assim é um ato de religião. 2) Proponho-me rezar a Deus para agradar-Lhe; esta oração é ordenada pelo amor. 3) Quero rezar para agradecer a Deus todos os seus dons temporais e espirituais, concedidos a mim e a todos os demais; eis um ato de reconhecimento. 4) Quero rezar para imitar Jesus Cristo, a Bem-aventurada Virgem Maria, os Santos Anjos e todos os Santos do céu, que jamais cessam de rezar; uno as minhas orações às suas preces e aos seus méritos; e, nessa união, oferecerei a Deus as minhas orações. Eis a hiperdulia e o culto dos Santos… 5) Quero rezar para obter o perdão dos meus pecados e satisfazer por eles; eis um ato de penitência… 6) Quero rezar pela libertação das almas do purgatório, para obter o perdão para os pecadores e o aumento da justiça para os justos; eis um ato de amor ao próximo… 7) Pretendo ainda rezar para pedir um aumento de graça e de glória, isto é, de humildade, de caridade, de mansidão, de castidade, de sobriedade, de fortaleza, de constância, de perseverança, de zelo e, consequentemente, para pedir um acréscimo de glória celeste que corresponda ao aumento dessas virtudes e dessas graças: eis um ato de esperança e de diversas virtudes… É utilíssimo ter tais intenções não somente na oração, mas também em todas as ações do dia… Temos nós, até hoje, preparado assim a nossa oração?

2° É preciso rezar em nome de Jesus Cristo. ― É promessa formal do divino Redentor que tudo quanto pedirmos ao Pai em seu nome, Ele o fará (Jo 14,13). «Se não sempre imediatamente, observa Santo Agostinho, sempre com certeza; pois as graças às vezes são adiadas, nunca negadas (28)». Em outra ocasião, repete: «Dou-vos a minha palavra: tudo quanto pedirdes a meu Pai em meu nome, Ele vo-lo dará»; e queixava-se aos Apóstolos de que, até aquele dia, nada tivessem pedido em seu nome (Jo 16,23-24). Por isso vemos a Igreja concluir todas as suas orações com a invocação do nome de Jesus Cristo.

Por que é preciso rezar em nome de Jesus Cristo? Primeiramente, porque Jesus é o nosso mediador junto do Pai (1Jo 2,1). Em segundo lugar, porque Jesus Cristo nos resgatou… Em terceiro lugar, porque todas as graças vêm d’Ele, que é seu autor e dispensador… Em quarto lugar, porque tudo recebemos d’Ele, tudo Lhe devemos e, principalmente, a eficácia das nossas orações…

Quando é que nós pedimos, isto é, rezamos em nome de Jesus Cristo? Responde São Gregório: «O nome do Filho de Deus é Jesus; e Jesus quer dizer Salvador: portanto, reza em nome de Jesus quem pede coisas que verdadeiramente sirvam para a sua salvação eterna (29)». Ora, como Jesus Cristo nos abriu o céu, fez-se homem e morreu para no-lo alcançar, o verdadeiro meio de rezar em nome de Jesus Cristo consiste em pôr em prática estas palavras do Salvador: «Buscai, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo» (Mt 6, 33).

3° É preciso rezar com atenção. ― Por que razão Jesus Cristo nos inculca que rezemos em segredo, que nos afastemos do tumulto quando queremos rezar, senão para nos ensinar a estar atentos e recolhidos durante o tempo da oração? «Quando rezardes, diz ele, entrai no vosso quarto e, fechada a porta, rezai a vosso Pai em segredo; e ele, que vê em segredo, vos recompensará» (Mt 6, 6). Entrai no vosso quarto, isto é, recolhei-vos dentro de vós mesmos, prestai atenção ao que dizeis… Fechai a porta, isto é, vigiai sobre os vossos sentidos, expulsai as distrações, aplicai toda a alma à oração. Entrai na vossa cela, que é o vosso coração; porque, segundo a expressão de São Francisco de Assis, «quando rezamos, o corpo deve fazer as vezes de cela, e a alma desempenhar o ofício de eremita (30)». «Sede atentos em vossas orações», adverte São Pedro (1Pd 4, 7). «Não empregueis ao rezar uma grande profusão de palavras, escreve Santo Agostinho, mas, com poucas palavras, a oração se torna excelente quando é feita com atenção piedosa e perseverante (31)». Tal era a oração de São Paulo, que dizia: «Rezarei com o espírito, rezarei com atenção» (1Cor 14, 15).

Quando rezamos, é como se disséssemos com o Salmista: «Senhor, inclinai o ouvido às minhas palavras, escutai os meus clamores; ó meu rei, ó meu Deus, escutai a minha oração» (Sl 5, 1-2). «Senhor, escutai a minha oração; ela não procede de lábios mentirosos» (Sl 16, 1). Ora, qual não seria a nossa insolência, a nossa audácia, se, enquanto dizemos a Deus: escutai-nos, inclinai-nos o ouvido, atendei às orações que vos dirigimos com toda a sinceridade, nós não prestássemos absolutamente atenção ao que dizemos, não pensássemos no que pedimos, nem sequer soubéssemos o que queremos? Vivemos continuamente em distrações voluntárias, assistimos à oração desatentos, distraídos, preguiçosos, sonolentos, pensando em tudo, menos em Deus: e isto é rezar? Não é antes zombar de Deus, um insulto a Jesus Cristo?

A oração é uma elevação da mente a Deus. Mas, se, enquanto a boca reza, a alma vagueia pela terra, ocupa-se da família, dos negócios, das criaturas e de coisas semelhantes, pode ela dizer que está elevada a Deus? Ah! Tal oração não merece o nome de oração. Muitas vezes nos queixamos de não obter aquilo que pedimos. Ah! Não é Deus que se recusa a no-lo dar, mas somos nós que nos recusamos a recebê-lo. Ousaríamos nós proceder desse modo ao pedir alguma coisa aos homens? «Vós pedis, dizia já São Tiago, e não recebeis, porque pedis mal» (Tg 4, 3). «Hipócritas, dir-lhes-ia Jesus Cristo, bem profetizou de vós Isaías, quando diz: Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mt 15, 7-8).

4° Com zelo, diligência e fervor. ― Quando Jesus nos inculca que peçamos, que busquemos, certamente nos insinua, com esse modo de falar, que a nossa oração deve ser feita com diligência, zelo e fervor. Tal era o costume do profeta Davi, que podia dizer a Deus: «Ó Deus, meu Deus, eu vos busco desde a aurora; pois a minha alma tem sede de vós» (Sl 62, 2). E ainda: «Lembrei-me de vós estando no meu leito, no mais profundo da noite; meditei nas vossas maravilhas ao primeiro romper da aurora» (Id. 7). «A vós clamei, ó meu Senhor; e pela manhã a minha oração vos previne» (Sl 85, 14). Os santos velam à noite em oração, levantam-se de madrugada para rezar; e nós? Nós nos entregamos à preguiça, nós dormimos.

«Ó alma, diz Santo Agostinho, sê solícita para com aquele que é todo solicitude a teu respeito; sê pura para com aquele que é puro, sê santa para com aquele que é santo, põe-te à disposição daquele que está inteiramente aos teus acenos; qual fores para Deus, tal será Deus para ti (32)»; isto é, como se exprime Santo Euchério de Lião: «tanta diligência e cuidado quanto empregarmos na oração, tanta empregará Deus em nos atender e em nos conceder as suas graças» (Epist.). Se sois solícitos na oração, se procurais preparar-vos, dedicar-vos a ela e agir bem, Deus vos admitirá de bom grado à sua audiência, coroará os vossos votos, realizará os vossos desejos, cumular-vos-á de benefícios. Quanto melhor as vossas disposições concordarem com as de Deus, tanto mais ele vos escutará com prazer e vos responderá com solicitude; pois o amigo conversa de bom grado com o amigo e permanece com ele alegre e festivo… «A oração, escreve Alvarez, não é sono, mas vigília; não é preguiça, mas atividade; porque o coração deve aplicar-se diligentemente, e o intelecto deve empenhar-se solícito em compreender as coisas divinas, para que a vontade as saboreie e a elas se afeiçoe (33)».

Estamos certos de obter tudo quanto pedimos com caridade. Uma oração breve, mas fervorosa, vale infinitamente mais que orações longuíssimas, feitas com tédio e desleixo. «A oração fervorosa, diz São Bernardo, penetra certamente os céus, de onde jamais retorna, sem dúvida alguma, vazia de efeito. O clamor que vai diretamente ferir os ouvidos de Deus é o desejo ardente que, por meio da oração, se desprende do coração (34)». «Não são os grandes clamores, diz o Crisóstomo, que comovem a Deus, mas o amor fervoroso, que o move. Deus não escuta a voz, mas o coração (35)».

«Vós me invocareis, diz Deus, e partireis atendidos; buscar-me-eis e me encontrareis, porque me buscastes de todo o coração» (Jr 29, 12-13). Eis por que o rei Profeta dizia ter encontrado o seu coração para rezar (2Sm 7, 27); e desejava que a sua oração subisse ao céu como incenso de agradável odor (Sl 140, 2). A oração fervorosa é incenso de agradável odor. Três coisas são necessárias para que o incenso se eleve: o incensário, o fogo e o incenso. O incensário é o coração; o fogo do incensário é o amor de Deus; o incenso é a oração. Sem fogo, inútil é o incenso. Quando o coração arde de fervor, a oração sobe num instante até Deus, e Deus cumula a alma de mil favores… A oração fraca e indolente é uma oração não atendida.

5° Com fé e confiança. ― São claras as palavras de Jesus Cristo: «Tudo o que pedirdes com fé, vós o recebereis» (Mt 21, 22). É verdade que a oração supõe a fé; de outro modo, não se rezaria; mas isso não basta: requer-se uma fé firme e viva. Ouvi o apóstolo São Tiago: Se alguém necessita de sabedoria, volte-se para pedi-la a Deus, que a dá a todos com abundância, e ela lhe será dada. «Mas peça com fé, sem duvidar; porque aquele que duvida se assemelha à onda do mar, agitada e impelida pelo vento. Não pense esse homem que receberá coisa alguma» (Tg 1, 5-7).

«O fundamento da oração é a fé; portanto, conclui Santo Agostinho, creiamos para podermos rezar, e rezemos para que jamais nos falte nem esfrie esta fé que nos faz rezar: a fé inspira a oração; a oração feita obtém a confirmação da fé. Vigiai e rezai para que não entreis em tentação: que coisa é entrar em tentação, senão sair da fé? (36)».

«Batei, e abrir-se-vos-á», diz Jesus Cristo (Mt 7, 7). Pedir e bater indicam confiança: não se pediria, muito menos se bateria, quando não se tivesse esperança de obter. Mas é necessária uma confiança inteira, absoluta, inabalável… Busca-se porque se tem confiança de encontrar. Em qualquer outro lugar, a confiança pode ser enganada; na oração, jamais… Se Deus demora a conceder-nos o que pedimos, redobre-se a confiança, e obter-se-á. Aquilo que pedis, tereis no devido tempo. «Deus, diz o profeta Habacuc, não enganará a vossa confiança; se tarda em vir, esperai, pois virá e não tardará» (Hab 2, 3). É coisa indigna vacilar na confiança… Quem carece de confiança não merece ser atendido… A confiança e a fé são como as duas asas da oração, com as quais ela voa até o trono de Deus e obtém tudo o que deseja…

6° Com humildade e compunção. ― Se, como ensina São Paulo, não somos capazes de conceber por nós mesmos o menor bom pensamento, mas é Deus quem nos dá essa capacidade (2Cor 2, 5), pensais vós que poderemos rezar? Importa, portanto, que aquele que quer rezar se humilhe diante de Deus, reconheça as suas misérias e as suas necessidades. «A oração do homem que se humilha, diz o Sábio, atravessa as nuvens, penetra no céu e não se afasta dele enquanto o Altíssimo não a tiver contemplado» (Eclo 35, 21). Não, Deus jamais despreza nem rejeita a oração dos pobres, isto é, daqueles que têm o coração humilde; antes, olha para ela com olhar benigno e cortês, como nos assegura o Salmista (Sl 21,25; 101,18); por isso dizia a Deus: «Escutai a minha oração, porque me humilhei profundamente» (Sl 141, 7).

A humildade é chamada por São João Crisóstomo de carro da oração (De Orat.). Mais ainda: podemos dizer que ela lhe dá as asas com que voa rapidissimamente ao céu e sem as quais não faz senão arrastar-se pela terra. Tendes um exemplo palpável disso na oração do publicano, que é imediatamente aceita e atendida por Deus, enquanto a do fariseu é repelida e castigada. Observai também a oração do centurião: pela humildade e pelo baixo conceito que tinha de si mesmo, declara-se indigno de acolher Jesus Cristo entre os seus muros; mas justamente porque se reconhece indigno, Jesus Cristo quer ir até lá. Ah! «Deus resiste aos soberbos, diz São Tiago, e dá a sua graça aos humildes» (Tg 4, 6).

Em nossas orações devemos imitar o mendigo. Apoiado em seu bastão, com a cabeça descoberta, fica à porta pedindo, por caridade, um pedaço de pão; e, se tem algumas chagas, deixa-as descobertas. Todas essas coisas — seus farrapos, suas misérias, sua voz fraca, sua humilde posição — comovem o coração do rico, que estende a mão benfazeja para socorrê-lo… Nós somos todos, diz Santo Agostinho, mendigos do grande Pai de família; estamos prostrados à sua porta para pedir-lhe o nosso pão de cada dia. Fomos expulsos do paraíso terrestre, despojados da veste da inocência e privados de todo bem pelo demônio e pelo pecado. É preciso, portanto, pedir com profundíssima humildade (Serm. 15, de Verb. Dom. sec. Matth.); rezando assim, temos a certeza de obter quanto nos é necessário, porque Deus sempre se agradou da oração dos humildes (Jt 9, 16).

O que, ao mesmo tempo, serve para despertar em nós a humildade e para torná-la certamente agradável a Deus e salutar para nós é a compunção do coração; porque Deus jamais rejeita de si um coração contrito e humilhado (Sl 50, 19); e a alma que reza compungida e contrita, segundo São Bernardo, avança rapidamente pelo caminho da salvação (37).

«A oração, escrevia Santo Agostinho, faz-se melhor com gemidos do que com palavras, mais com lágrimas do que com a língua (38)». Oh! quão bela e eficaz oração são as lágrimas do coração! «Quando tu rezavas chorando, disse o Anjo a Tobias, eu apresentava a tua oração ao Senhor» (Tb 12, 12). «Misturemos lágrimas às orações, sugere-nos São Cipriano: estas são armas celestes que nos tornam invencíveis; estas são fortalezas espirituais e escudos divinos que nos defendem (39)». Lisias avança à frente de oitenta mil homens e de um forte contingente de cavalaria, e vai sitiar Betsura. Tendo chegado a Judas Macabeu a notícia de que o inimigo investia contra a fortaleza, lançou-se por terra diante dos seus, para pedir ao Senhor, com pranto e gemidos, que enviasse um Anjo para a salvação de Israel. Então um cavaleiro apareceu diante deles, vestido de branco, com armas de ouro e a lança na mão. Fortalecido por esse auxílio, Judas, com o seu exército, trava batalha com o inimigo, mata grande parte dele e põe o restante em fuga, alcançando uma esplêndida vitória (2Mc c.11).

7° É preciso rezar, quanto possível, em estado de graça; com o coração puro e livre de ódio. ― São Tiago nos assegura que muito pode a oração fervorosa e assídua do justo (Tg 5, 16); e as orações que São João viu exalar como perfumes das taças de ouro que os Anjos tinham nas mãos no céu eram as orações dos Santos (Ap 5, 8). As orações daqueles que se encontram em estado de graça são comparadas aos perfumes, por causa de seu valor e de seu bom odor. Se Aarão, colocando-se no meio do povo e elevando a voz a Deus em oração, fez cessar a peste que ceifava a multidão, foi porque era justo e santo (Nm 16, 46). Se Moisés, Elias, Samuel etc. tinham tanta força em suas orações, a ponto de obter quanto pediam, e ainda mais, deviam-no ao estado de graça em que se encontravam.

Embora seja desejável que aquele que reza se encontre em estado de graça, contudo o pecador que perdeu a graça também deve rezar, e rezar muito, mais que o justo, para obter o perdão de seus pecados e reconciliar-se quanto antes com Deus. O enfermo precisa de médico e de remédio; ora, o pecador sofre da mais assustadora e horrível enfermidade, que o conduziria ao sepulcro do inferno se não empregasse o eficaz remédio da oração, se não recorresse a Jesus, verdadeiro médico.

«Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus», disse Jesus Cristo (Mt 5, 8). Ora, se acontece que os puros, os castos, vejam a Deus aqui na terra, isso certamente acontece na oração. Se nos apresentarmos diante de Deus para rezar-lhe com o coração puro, poderemos, dizia o abade João, na medida em que isso é possível ao homem revestido de carne, ver a Deus e dirigir-lhe, em nossa oração, o olhar do coração, e contemplar em espírito o Invisível (Vit. Patr.). A castidade de Judite, unida à sua oração, salvou o povo judeu de um extermínio total. A oração que brota de uma alma casta, pura, sem mácula, é infinitamente cara e agradável a Deus, e torna-se onipotente para o homem.

Ora, que será da oração que sai de uma alma atormentada pela ira, corroída pelo ódio? «Ah! ninguém, exclama São João Crisóstomo, seja tão audacioso que se aproxime de Deus com a oração, se abriga em seu coração ódio e vingança (40)». Deus rejeita não menos horrorizado a oferta, o sacrifício daquele que reza com ódio no coração, do que a oblação daquele que reza com o coração voluntariamente mergulhado no mais fétido lodaçal.

A oração, para ser atendida, deve brotar de um coração livre de má vontade e cheio de caridade. Ao rezar, o homem quer e pede que Deus lhe faça misericórdia; é preciso, portanto, que ele mesmo esqueça e perdoe as injúrias recebidas de seus semelhantes. Todas as vezes que o homem que odeia profere aquelas palavras do Pai-Nosso: Perdoai-nos como nós perdoamos aos que nos ofenderam, pronuncia a sua condenação; sua oração é um ultraje.

8° É preciso rezar frequentemente e perseverar na oração até a morte. ― Não basta rezar uma vez; é preciso ser assíduo neste exercício e perseverar nele até a morte. «É necessário rezar sempre e nunca desanimar» (Lc 18, 1). «Se ele continua a bater, asseguro-vos que lhe será dado tudo quanto necessita» (Lc 11, 8). «Digo-vos: pedi e vos será dado; procurai e achareis; batei, e vos será aberto» (Ib. 9). Todas essas sentenças são de Jesus Cristo; observai que ele não diz: pedi, procurai, batei uma vez, duas, dez, mil vezes; mas, em termos gerais, recomenda pedir sempre, bater sempre. E confirmava a palavra com o exemplo, pois passava noites inteiras em oração (Lc 6, 12). Três vezes ele reza no jardim das Oliveiras, e somente depois da terceira vez desce um Anjo para consolá-lo. Não é este um sublime exemplo e um forte estímulo para perseverarmos na oração?

«Quando Deus tarda um pouco a dar-nos aquilo que lhe pedimos, quer fazer-nos notar o valor de seus favores; não no-los nega, escreve Santo Agostinho; aquilo que se espera longamente chega mais doce e caro; se é concedido imediatamente, não se lhe dá valor. Pedindo-o e procurando-o, cresce com o desejo o gosto que depois se experimenta ao saboreá-lo (41)». Quantos bens preciosos e abundantes não nos dará Deus em sua bondade, diz o mesmo Santo; esse Deus que nos exorta a pedir e quase se irrita se não pedimos (42), insistindo junto dele com uma violência que, segundo Tertuliano, lhe é agradabilíssima (Lib. de Orat.). Além disso, aquele que não persevera na oração não colhe fruto duradouro algum, assim como não alcança o prêmio o corredor que cai exausto antes de tocar a meta: a comparação é de São Lourenço Justiniano (43).

São Lucas narra a respeito dos Apóstolos que, tendo retornado a Jerusalém depois de assistir à ascensão do Salvador, estavam continuamente no templo, cantando os louvores do Senhor (Lc 24, 53); e perseveravam todos, unânimes, na oração, com as santas mulheres, Maria, mãe de Jesus, e seus irmãos (At 1, 14). E era tão grande o amor que tinham pela oração que renunciaram a toda ocupação exterior, para consagrar-se inteiramente, de propósito, à oração contínua (At 6, 4).

Por isso se compreende com que empenho inculcavam a oração aos cristãos. «Orai com toda espécie de súplicas e pedidos, em todo tempo, vigiando e orando sem cessar, no espírito, por todos» (Ef 6, 18). «Vigiai e perseverai na oração com ações de graças» (Cl 4,2). «Orai sem cessar» (1Ts 5, 17). «A verdadeira viúva deve perseverar dia e noite nas orações e súplicas» (1Tm 5, 5). E aquilo que recomendava aos fiéis, o próprio Apóstolo o praticava, podendo dizer de si mesmo: «Oro continuamente por vós» (Cl 1, 3). «Nunca cesso de orar por vós e de pedir que sejais providos do conhecimento da vontade de Deus, com toda sabedoria e inteligência espiritual; a fim de que vos comporteis de maneira digna de Deus, procurando agradar-lhe em tudo» (Ib. 9-10). Enquanto São Pedro estava guardado na prisão, não se cessava de orar por ele (At 12, 5); e Pedro foi libertado; porque grande valor, diz o Apóstolo São Tiago, tem a oração do justo, contanto que seja assídua (Tg 5, 16).

Diz São Gregório: «Deus quer que se ore a ele, que se lhe faça violência, que se o vença pela importunação. Por isso diz: O reino dos céus deve ser tomado à força, e dele se apoderam os que usam de violência. Sede, pois, assíduos na oração, sede importunos em vossas súplicas, não vos desanimeis com as recusas. Se aquele a quem oras parece não te escutar, faze-lhe violência para que recebas o reino dos céus: sê violento para forçar a porta do céu. É esta uma doce violência, pela qual Deus não se ofende, mas se aplaca; não se prejudica o próximo, mas se o ajuda; não se comete pecado, mas se o apaga (44)».

Ouçamos, pois, o conselho de São Jerônimo: «Ao sair de tua casa, arma-te com a oração e, ao retornar, abraça-a novamente; nunca dês repouso ao teu corpo antes de teres alimentado a alma com a oração (45)». Procuremos com toda diligência, segundo a sugestão de Bartolomeu dos Mártires, fazer com que, por meio da assiduidade à oração, nosso coração esteja sempre aberto a Deus (46), lembrando aquele dito de Santo Isidoro: «Quem quer estar continuamente com Deus deve ler e orar frequentemente: a frequência na oração nos protege do assalto dos vícios (47)». Deveríamos poder dizer com o Salmista: «Tende piedade de mim, ó Senhor, porque clamei a vós durante todo o dia» (Sl 85, 3). Este rei nos assegura que louvava e orava ao Senhor sete vezes por dia (Sl 118, 164).

No fato de Judite, nota-se que, tendo convocado todo o povo ao templo, ela passou ali a noite em oração, pedindo socorro ao Deus de Israel (Jt 6, 21). Que fez Jesus quando se tratou de escolher os discípulos? «Retirou-se para o monte a fim de orar e passou toda a noite em oração; ao amanhecer, reuniu ao redor de si os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais chamou Apóstolos» (Lc 6, 12-13). Aprendamos deste exemplo a nunca empreender negócio importante algum sem antes ter invocado frequentemente e por longo tempo, mediante a oração, as luzes do Espírito Santo.

«Dediquemo-nos, pois, concluamos com São Cipriano, a orações frequentes» (Epl. ad Martyr.); e lembremo-nos de que, como diz o Espírito Santo, persevera na oração aquele que não cessa de orar até obter do Altíssimo aquilo que pede (Eclo 35, 21). Na perseverança está a força da oração; ela obtém tudo o que pede com assiduidade… A oração perseverante é indicada pelo Crisóstomo como a arma mais poderosa (De Orando Dom.). Quem não cessa de permanecer junto de Deus por meio de uma oração perseverante assegura sua alma contra toda tirania das paixões…

10. COMO SE PODE REZAR SEMPRE

Mas como é possível, dizem os partidários do mundo, os avarentos, os dissipados, como é possível dedicar-se frequentemente à oração, orar, orar sempre, em meio aos cuidados da família, aos ruídos e às perturbações dos negócios? Sem contar que falta tempo, como pode a mente sustentar-se numa oração contínua? Isto é impossível. Engano e erro: a coisa não é somente possível, mas facílima. Ouvi como se pode orar sempre.

O Venerável Beda nos dá, sozinho, em duas palavras, a solução de toda dificuldade: «Ora sempre aquele que realiza todas as suas ações segundo Deus», diz o citado escritor (In Sentent.). A mesma máxima já havia sido expressa por São Basílio com estas outras palavras semelhantes: «Quem sempre se comporta bem ora sempre; sua vida é uma oração contínua» (Hom. in Iudittham mart.).

Também segundo Santo Ambrósio, o justo ora sempre, porque, mesmo quando sua alma não ora, as obras que ele realiza intercedem por ele e ocupam o lugar da oração; mais ainda, até quando dorme, seus atos resplandecem diante do Senhor e lhe servem de advogados junto de Deus (48). O próprio pecador que se encontra em pecado mortal ora sempre, a partir do momento em que deseja ardentemente romper suas cadeias e sair do pecado, orando e oferecendo a Deus seus esforços, suas ações presentes, para obter a graça de converter-se.

Assim, se, apenas despertos e levantados, oferecermos a Deus nosso primeiro pensamento, e as ocupações diárias, o dia inteiro será para nós uma oração contínua. Ides trabalhar? Oferecei-o a Deus, e vosso trabalho será uma oração ininterrupta. Sentais-vos à mesa ou saís para recrear-vos? Oferecei a Deus vosso alimento, recreai-vos tendo-o em mente, e tanto o alimento como o divertimento vos servirão de oração. Recomendai a Deus o sono antes de fechar as pálpebras, e vosso sono será uma oração… Oh! quão facilmente e sem incômodo nos enriqueceríamos, se fizéssemos assim! Como ganharíamos o céu quase sem esforço, se verdadeiramente o quiséssemos! Poderíamos dizer com o Salmista, embora em outro sentido: «Obtiveram por preço baixíssimo a terra desejada» (Sl 105, 24).

11. MAS QUANDO É PRECISO REZAR PARTICULARMENTE

Em 1º lugar, é preciso orar principalmente pela manhã, depois que nos levantamos: «Senhor, diz o rei profeta, vós escutais pela manhã a minha voz; nas primeiras luzes do dia me apresentarei diante de vós e contemplarei vossas obras maravilhosas» (Sl 5, 4-5). «Ó Deus, meu Deus, ofereço-vos meus pensamentos desde a aurora» (Sl 62, 1). «Senhor, clamei a vós, e minha oração subirá a vós de madrugada» (Sl 87, 14).

De madrugada devemos encher nosso coração com os tesouros da oração… O Eclesiástico nos diz que o verdadeiro sábio «aplicará, ao primeiro alvorecer da aurora, seu coração a pensar no Senhor que o fez e a orar na presença do Altíssimo» (Eclo 39, 6); e o autor da Sabedoria nos faz notar que o maná, que não podia ser consumido pelo fogo, derretia-se ao primeiro raio de sol que o tocasse, para que se tornasse manifesto a todos que é preciso preceder o sol para louvar a Deus e convém adorá-lo nas primeiras luzes do dia (Sb 16, 27-28).

«Desde a manhã, dizia São João Clímaco, conheço o curso de todo o meu dia» (Grad. VII); e queria dizer que sua oração matinal o iluminava e dirigia durante todo o dia, santificando-lhe o dia inteiro. Todos os cristãos gozariam desta excelente vantagem, se todos imitassem este grande Santo… Com a oração da manhã, todo o dia é bem empregado e santificado. Pode-se quase afirmar que é inteiramente profanado, triste e perdido aquele dia em que se negligenciou a oração da manhã.

2° É preciso rezar no princípio e no fim de cada ação… Por este meio, todas as obras ficam santificadas; evitam-se as ações más, porque não se pode oferecer a Deus aquilo que é mau.

3° É preciso imitar o Salmista, que dizia: «À tarde, pela manhã e ao meio-dia invocarei o Senhor, e ele ouvirá a minha voz» (Sl 54, 18). A Igreja, para nos recordar esta prática piedosa e útil, e para nos encorajar e ajudar a segui-la, estabeleceu o Angelus…

4° É preciso rezar à noite, antes do repouso. Ouvi o Salmista: «Suba a minha oração como incenso à vossa presença; seja a elevação das minhas mãos o meu sacrifício vespertino» (Sl 140, 2).

5° É preciso rezar nas tentações, em meio aos perigos, nas enfermidades, quando se trata da escolha do estado de vida e, em geral, em todo assunto de importância.

6° É preciso rezar particularmente aos domingos e nas festas…

7° É preciso rezar ao chegar à idade da razão, em todas as idades da vida e em todos os lugares, mas especialmente na hora suprema da morte.

12. ORAÇÃO PÚBLICA

A oração particular é coisa excelente, mas ainda mais poderosa junto de Deus é a oração pública. Diz Jesus Cristo: «Digo-vos, em verdade, que, se dois dentre vós concordarem na terra para pedir alguma coisa, obtê-la-ão de meu Pai, que está nos céus, porque onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles» (Mt 18, 19-20).

Todo o povo rezou com Judite; aquela oração operou prodígios… Os ninivitas rezam todos juntos, obtêm a graça… Os Apóstolos rezam juntos no cenáculo, o Espírito Santo desce sobre eles e os cumula de seus dons… Os primeiros cristãos, unindo-se aos Apóstolos, fazem orações públicas e obtêm a conversão de todo o universo pagão. Ester sugere a Mardoqueu que reúna todo o povo e que todos rezem por ela enquanto ela entrar nos aposentos do rei. Assim se fez e, em virtude daquela oração pública, Ester tornou-se célebre e gloriosa, transformou Assuero, fez Aman ser castigado, livrou seu povo da mortandade e proporcionou grandíssima glória a Deus. Por isso, por ocasião de calamidades públicas, de pestes, de fomes, de guerras e de flagelos semelhantes, a Igreja sempre teve o costume de recorrer à oração pública.

As orações públicas são mais eficazes junto de Deus do que as outras, porque, na multidão, há sempre justos misturados com pecadores, e Deus ouve também a oração dos pecadores, porque está unida à dos justos… Principalmente nas orações públicas, o Espírito Santo pede ele mesmo por nós e suplica com gemidos inefáveis, como diz São Paulo aos Romanos (Rm 8, 26). Os Santos Padres dizem que o Espírito Santo pede por nós, isto é, move-se a pedir e a gemer. Pede depois com gemidos inefáveis, isto é, celestes e divinos, e por meio das misteriosas inspirações da graça… Aprendamos disto que a verdadeira oração consiste nos gemidos, nos afetos, nos desejos, nas orações jaculatórias, nos suspiros ardentes.

Mas, embora estejamos sós, podemos, de certo modo, fazer orações públicas, unindo a nossa intenção à da Igreja e pedindo com ela, com todos os seus justos e os seus santos, tudo aquilo que ela pede a Deus. Há também uma oração comum que todos podemos fazer. É perfeita e comum a oração daqueles que rezam com o coração, com a alma, com o espírito; que rezam com as palavras, com a compostura e com o recolhimento de todos os sentidos. Oração comum a tudo aquilo que em nós pode invocar o nome do Senhor é unir, quando rezamos, a palavra, a atenção, as boas obras, uma vida santa, o corpo, a alma, a vontade, o espírito e o coração. Estes são como outros tantos seres reunidos que rezam juntos; e uma oração assim é sempre bem recebida, ouvida e atendida por Deus…

Assim rezava o Apóstolo, que diz: «Que farei eu? Rezarei com o espírito, com a alma, com o coração» (1Cor 14, 15) … A mais perfeita de todas as orações públicas é a Missa, isto é, o Sacrifício do altar…

13. A ORAÇÃO FEITA NA IGREJA TEM MAIS EFICÁCIA

A oração feita na igreja tem maior valor e honra mais a Deus do que a feita em outro lugar, porque, 1° sendo a igreja a própria casa de Deus neste mundo, a oração que nela se faz reveste o caráter de invocação pública, de louvor e de adoração a Deus diante de toda a Igreja. 2° Na Igreja, todas as orações estão unidas: as de Jesus Cristo, as do sacerdote e as dos fiéis. 3° No templo, o justo, unido ao pecador, vem em auxílio deste. 4° Ali se encontra o exemplo dos outros, e esse exemplo é de grande estímulo e consolação. «O Senhor ouviu a minha oração em seu santo templo», dizia o rei profeta (Sl 17, 8).

O profeta Joel diz que os sacerdotes, os ministros de Deus, chorarão entre o vestíbulo e o altar, e clamarão: Perdoai, ó Senhor, perdoai ao vosso povo, e não abandoneis ao opróbrio a vossa herança. E então o Senhor terá piedade dos homens, poupar-lhes-á a vida e lhes perdoará; cumulá-los-á de seus favores e lhes dará abundância dos frutos da terra (Jl 2,17-19). Salomão constrói o templo de Jerusalém; e Deus lhe anuncia e promete: «Eu santifiquei esta casa que construíste, para nela colocar o meu nome eternamente, e para cá se voltarão os meus olhos, e aqui repousará o meu coração por todos os tempos» (2Sm 9,3).

14. É PRECISO REZAR UNS PELOS OUTROS

«Orai uns pelos outros, diz São Tiago, para que sejais salvos» (Tg 5,16). A caridade nos convida e nos impõe o dever de orar uns pelos outros; a isso nos impele o exemplo do Redentor, dos Apóstolos e de todos os Santos. «Pai santo, dizia Jesus a Deus Pai, eu vos peço que conserveis em vosso nome aqueles que me destes, para que todos sejam uma só coisa, como nós» (Jo 17,11). E tanto lhe importa que oremos uns pelos outros, que não quer excluir desse ato de caridade nem mesmo os inimigos; antes, impôs-nos isso expressamente com estas palavras: «Orai por aqueles que vos perseguem e caluniam» (Mt 5,44), e confirmou o preceito com o exemplo, publicamente, na cruz, quando disse: «Pai, perdoai-lhes (aos carrascos), porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34).

«Nós oraremos continuamente por todos», diziam os Apóstolos (At 6,4). «Não cessamos jamais de orar por vós», escrevia São Paulo aos Colossenses (1,3), e também vós orai por nós (4,3). Ele assegurava aos Romanos que sempre se lembrava deles em suas orações (Rm 1,9-10). A Timóteo, por sua vez, recomendava que em sua Igreja se fizessem orações, súplicas, pedidos e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por aqueles que ocupam altos cargos (1Tm 2,1-2). A Igreja ora todos os dias por todos: não ora somente por seus membros, mas por todos os homens; pelos pagãos, pelos hereges, pelos cismáticos; ora por seus inimigos, pelos perseguidores, por seus carrascos.

«Quanto a mim, exclamava Samuel, Deus me livre deste pecado: deixar de orar por vós!» (1Sm 12,23). «Se Estêvão não tivesse orado por Saulo, talvez a Igreja não tivesse um São Paulo», escrevia Santo Agostinho (Epl. XCVII) … Orar pelos outros é caridade, e a caridade é a primeira condição da oração. Cada um, portanto, concluo com Santo Agostinho, ore por todos, e todos orem por cada um (Epl. XCVII).

15. AS VÁRIAS ORAÇÕES EM USO ENTRE OS CRISTÃOS

A oração da manhã ajuda a passar santamente o dia…; a da noite é feita para que Deus nos abençoe e nos conserve durante a noite.

Com a invocação que fazemos antes do almoço e do jantar, demonstramos e confessamos: 1° que reconhecemos ter recebido de Deus os alimentos e todas as demais coisas; 2° que queremos tomar o alimento por amor de Deus; 3° que não comemos como os animais; 4° pedimos que esse alimento seja proveitoso para a alma e para o corpo; 5° oramos para nos lembrarmos de Deus ou termos outro bom pensamento durante a refeição; 6° para que o alimento não seja para Satanás um meio de nos tentar; 7° para não comer demais nem por gulodice, mas somente segundo a necessidade; 8° para expulsar o demônio dos alimentos, não menos do que de nós. A ação de graças depois da refeição é feita: 1° para agradecer a Deus pelos alimentos que, em sua bondade, nos concedeu; 2° para obter a graça de fazer bom uso deles; 3° para que não abusemos do vigor e das forças que esse alimento nos deu; 4° para que Deus continue a nos fornecer o pão de cada dia…

A oração antes do trabalho tem por finalidade atrair sobre nós e sobre nossas obras a bênção de Deus, tanto na ordem temporal como na espiritual. A oração depois do trabalho tem o objetivo de agradecer a Deus por nos haver inspirado o amor ao trabalho, que é uma virtude, por nos haver dado coragem para trabalhar, e de pedir-lhe perdão pelas culpas ou faltas cometidas durante o trabalho.

O Angelus serve para honrar a Mãe de Deus e a Santíssima Trindade, e para nos recordar o insigne benefício da Encarnação do Verbo e a nossa grandeza pela Redenção.

A oração do domingo serve para santificar o dia do Senhor e para obter graças para a semana, etc….

16. A ELEVAÇÃO DAS MÃOS, NA ORAÇÃO, NOS ALCANÇA O FAVOR DE DEUS E ELA MESMA É UMA ORAÇÃO

«Ofereço o meu sacrifício da tarde, elevando as mãos», dizia o Salmista (Sl 140,2). «Senhor, exclama ele em outra passagem, elevei as minhas mãos para vós; a minha alma é como terra ressequida pela seca; ah! ouvi-me depressa!» (Sl 142,6-7). Lemos no Êxodo que, quando Moisés elevava as mãos, Israel era vitorioso sobre os inimigos; mas, quando as abaixava, Amalec triunfava (17,11). Além disso, verificamos que, desde os primeiros tempos do cristianismo, os Apóstolos haviam estabelecido essa prática nas orações públicas e privadas: «Quero, escrevia São Paulo a Timóteo, que os homens orem em todo lugar, elevando mãos puras» (1Tm 2,8).

Mas, com as mãos, devemos também elevar nossos corações a Deus, que está nos céus, segundo a exortação de Jeremias (Lm 3,41). Como comentário a essas palavras, serve aquele trecho de São Gregório: «Aquele que confirma suas orações com boas obras eleva as mãos com o coração; assim como aquele que ora sem acrescentar as obras eleva o coração, mas não as mãos; quem, ao contrário, pratica boas obras, mas não reza, este eleva as mãos, não o coração (49)».

Àquelas palavras do Prefácio da Missa — Sursum corda — o sacerdote eleva as mãos, e depois as mantém erguidas até a comunhão… 1° Elevar as mãos é ato de suplicante… 2° Estendemos as mãos como infelizes que, prestes a naufragar, pedem auxílio… 3° A elevação das mãos indica a elevação da alma a Deus… 4° Pela extensão das mãos, oferecemo-nos a Deus e nos colocamos em seus braços divinos… 5° Imitamos a posição de Jesus Cristo na cruz… 6° É o sinal da caridade que abraça o mundo inteiro… 7° Professamos nosso desapego da terra… 8° Damos a entender que tendemos e aspiramos ao céu… 9° Fazemos violência a Deus e, animados pela confiança, mostramos querer quase agarrar com as mãos aquilo que lhe pedimos… 10° Estendemos os braços como para nos apegarmos àquele a quem suplicamos, para vencê-lo e constrangê-lo a ter misericórdia de nós, a tratar conosco e a conceder-nos o objeto de nossos desejos… 11° Proclamamos os méritos de Jesus crucificado e os oferecemos ao Pai como meio eficacíssimo de obter tudo aquilo que pedimos. Por isso, o sacerdote, no altar, reza muitas vezes com os braços estendidos em forma de cruz. 12° Finalmente, com essa atitude mostramos querer repelir os inimigos de nossa salvação.

17. HÁ ALGUNS QUE REZAM MAL

«Vós não sabeis o que pedis», disse Jesus Cristo aos Apóstolos, a propósito do pedido que haviam feito de algo inconveniente (Mt 20, 22); a quantos se poderia dar esta resposta! «Pedis e não recebeis, porque pedis mal», pode-se repetir a muitos outros com São Tiago (Tg 4, 3).

De três modos pode acontecer que uma pessoa, falando a alguém, não consiga fazer-se ouvir e entender: 1° ou porque aquele a quem se fala não ouve o som das palavras; 2° ou porque não apreende o seu significado; 3° ou porque está distraído com outros pensamentos e não presta atenção ao que lhe é dito… Deus ouve tudo, entende tudo, compreende tudo, está atento a tudo. Mas quer-se dizer que, algumas vezes, não entende, ou não ouve, ou não está atento, porque não se importa com a oração mal feita, antes a despreza, como se não prestasse atenção, ou não ouvisse, ou não entendesse. Por isso, o Profeta, antes de se pôr em oração, dizia ao Senhor: Prestai ouvido às minhas palavras, escutai os meus gemidos, ouvi o grito da minha dor, ó meu rei, ó meu Deus; estai atento à minha oração (Sl 5, 1-2). Ele pede, portanto, logo no princípio, que Deus o entenda, lhe preste ouvido e o compreenda. Ora, Deus despreza, como se não entendesse o som das palavras daquele que lhe reza, quando este está tão distraído que nem sequer ele mesmo compreende o que diz, ou reza com tamanho torpor e tanta divagação que sua oração não pode elevar-se ao alto. Deus procede como se não compreendesse o que lhe é pedido, quando aquele que reza não sabe o que diz, pedindo aquilo que lhe é inútil ou até nocivo, ainda que o peça com atenção e desejo. Finalmente, Deus age como quem está distraído quando aquele que reza não é digno de ser ouvido, ou reza sem a humildade requerida, sem a confiança necessária e sem as demais disposições que devem acompanhar a oração, ou quando, sendo pecador, nem sequer começou a arrepender-se, a corrigir-se e a fazer penitência.

O Salmista, inspirado pelo Espírito Santo, pede, portanto, a Deus o dom de rezar bem, para que lhe seja dado rezar como convém, a fim de que Deus não rejeite sua oração, mas ouça o seu som, entenda o seu significado e a escute. O Salmista acrescenta: meu rei, para obter mais facilmente; porque um bom rei costuma atender ao seu povo. Acrescenta: meu Deus, para mostrar que, neste rei, ele vê o seu Deus, de quem é criatura e de quem depende inteiramente, nada podendo sem ele… Deus não ouve, nem compreende, nem olha para aqueles que rezam mal; e, portanto, não os atende, por não serem dignos disso.

Oh, como é grande o número daqueles que rezam mal! Se os que rezam mal não alcançam o que pedem, não se deve culpar nem a Deus nem à oração em si mesma, mas somente aquele que reza mal, porque reza com más disposições, ou pede mal, ou pede aquilo que não deve pedir… «Muitos, diz Santo Agostinho, ao rezar, languidecem e ficam sonolentos. Como! O inimigo vigia e tu dormes? (In Psalm. LXV).

Portanto, rezam mal e não merecem ser ouvidos nem atendidos aqueles que rezam sem preparação, sem atenção, ou não rezam em nome de Jesus Cristo; aqueles que rezam sem zelo, sem diligência, sem fé, sem confiança, sem fervor, sem humildade, sem compunção, sem caridade, sem perseverança. Faltando ainda que seja uma só dessas disposições, reza-se mal… Vós pedis e não recebeis; não vos queixeis nem murmureis contra Deus ou contra a oração: culpair-vos a vós mesmos; nada recebeis, nem mesmo quando pedis, porque pedis mal (Tg 4, 3).

18. ERROS QUE SE COMETEM NA ORAÇÃO

«O que devemos pedir ao rezar, não o sabemos», diz o grande Apóstolo (Rm 8, 26). Isso pode acontecer-nos de seis modos: 1° se pedimos um bem temporal que venha a prejudicar a alma; 2° se rezamos com a intenção de ser absolutamente libertados da tentação ou de alguma enfermidade ou cruz que nos ajuda a permanecer humildes e a praticar alguma virtude especial; 3° se pedimos algum favor, ainda que espiritual, mas por ambição, como os filhos de Zebedeu; 4° se pedimos por um ímpeto de zelo indiscreto, como os Apóstolos que pediam a Jesus Cristo que fizesse chover fogo do céu sobre os habitantes da Samaria, porque não o haviam querido hospedar entre suas muralhas; 5° se pedimos a Deus que nos conceda imediatamente alguma graça que mais nos convém que nos seja adiada, para que, com essa demora, cresçam em nós a aplicação à oração e o mérito da paciência e da perseverança; 6° se pedimos uma condição no mundo, um estado de vida ao qual Deus não nos chama… Ora, o Espírito Santo, invocado, recebido e reinante em nós, governa e dirige todas essas coisas na oração, e dissipa todos os nossos erros e enganos. É isso que São Paulo quer dizer com estas palavras: «O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza; pois não sabemos o que nos convém pedir ao rezar, mas o próprio Espírito pede por nós com gemidos inefáveis» (ut sup.).

«Há muitos, escreve Santo Isidoro, aos quais Deus não atende segundo a sua vontade, mas segundo o que convém à sua salvação (50)». Deus nos atende algumas vezes tirando-nos a tribulação da qual pedíamos ser libertados; outras vezes, dando-nos a virtude da paciência, e, neste último caso, o dom é ainda maior; algumas vezes, comunica-nos não somente a paciência, mas também a alegria nas provações, e este é um benefício excelentíssimo… Quanto às coisas temporais, é preciso sempre pedi-las com a condição de que possam redundar na glória de Deus, em nossa salvação e na edificação do próximo… As espirituais podemos pedir sem reserva.

19. OBSTÁCULOS AO BOM ÊXITO DA ORAÇÃO

1° Santo Isidoro aponta como dois obstáculos insuperáveis ao bom êxito da oração a obstinação no pecado e a recusa de perdoar uma ofensa recebida (51).

2° São impedimentos à oração a agitação, a aflição e os escrúpulos. Assim como na água turva nada se vê, também a alma agitada, perturbada e excessivamente escrupulosa não pode ver a Deus na oração, nem saber o que lhe falta, nem pedir como convém…

3° «A oração é manca, diz o Crisóstomo, quando a ação não caminha a par da oração; porque a oração e as obras são os dois pés que sustentam a alma (52)».

4° O pecado, e principalmente o hábito do pecado, são um imenso obstáculo à eficácia da oração. «Vossos delitos levantaram um muro de separação entre vós e o vosso Deus, lemos em Isaías; e os vossos pecados esconderam a sua face de vós, de modo que ele já não vos ouve» (Is 59, 2).

5° Rezar sem preparação constitui outro obstáculo ao bom êxito da oração. Sobre isso nos adverte o Espírito Santo com esta sentença: «Antes de rezar, prepara a tua alma; e não sejas como o homem que tenta a Deus» (Eclo 18, 23).

6° Outro obstáculo ao feliz êxito da oração é pedir coisas injustas, inúteis, vãs e nocivas. Deus, diz São Cipriano, promete estar presente e atender às orações daqueles que rompem os laços da injustiça e fazem o que Ele ordena: estes merecem ser atendidos pelo Senhor. Não se deve pretender aproximar-se de Deus com orações desprovidas de ornato, infrutuosas e estéreis; uma oração nua não tem eficácia diante de Deus, porque, assim como toda árvore que não produz frutos é cortada e lançada ao fogo, assim também uma oração sem boas obras, sem fecundidade de virtudes, não é capaz de aplacar a Deus e não merece ser atendida (Serm.).

7° «Mudemos os nossos corações, segundo o conselho de Santo Agostinho: pois o supremo juiz se torna subitamente propício por meio da oração, se aquele que reza corrige as suas más inclinações (53)».

20. HÁ ORAÇÕES QUE, EM VEZ DE SEREM ATENDIDAS, MERECEM SER PUNIDAS

«Há uma oração execrável, diz o Espírito Santo, e é a daquele que tapa os ouvidos para não ouvir a lei» (Pr 28,9); e desta oração o salmista dizia: «A sua oração lhe seja imputada como pecado» (Sl 108,7). 1° Esta é a lei de talião, porque Deus restitui aquilo que Lhe é oferecido; assim como o ímpio não quer ouvir a Deus, que fala por meio da sua lei, assim também Deus, por sua vez, recusa-se a ouvir o ímpio quando este Lhe fala pela oração… 2° A oração daquele que obstinadamente permanece no pecado, estando unida ao afeto pelo pecado e trazendo, por isso, consigo um desprezo de Deus, é um pecado; torna-se, portanto, abominável e execrável para Deus. Ora, como quereis que Deus a ouça sem puni-la, em vez de recompensá-la? Quem reza com tal disposição de ânimo diz, com efeito: quero invocar a Deus e servi-Lo, mas, ao mesmo tempo, ofendê-Lo e irritá-Lo. Ele se assemelha verdadeiramente àqueles judeus que, dobrando o joelho diante de Jesus Cristo e adorando-O, gritavam: Salve, rei dos judeus; e, nesse mesmo instante, cuspiam-Lhe no rosto (Mt 27,29). Além disso, aquele que assim reza parece fazer de Deus cúmplice do seu crime, porque orações dessa espécie pedem que Ele favoreça o pecado; e então são blasfêmias e infinitamente ultrajantes para Deus. Reza verdadeiramente somente aquele que não quer mais pecar; mas quem reza e, entretanto, continua no pecado zomba de Deus, em vez de rezar-Lhe. 3° O mais delicioso perfume cheira mal se for misturado ao fedor de uma cloaca; assim é com a oração: por mais perfumada e agradável que seja a Deus em si mesma, se sai de um coração infectado e incorrigível, permanece corrompida pelas pestíferas exalações do pecado: é um perfume corrompido que Deus já não pode suportar. 4° A oração daquele que permanece no pecado é execrável, porque quem se obstina no mal vive em estado de inimizade com Deus; ora, Deus necessariamente odeia o seu inimigo e não acolhe a sua oração. Por isso, quem reza a Deus enquanto quer permanecer no pecado imita Judas, que trai o seu mestre enquanto o beija.

Santo Ambrósio, para nos fazer compreender a cegueira e a desgraça daqueles que continuam no mal e, entretanto, ousam rezar sem vontade de se corrigir e converter, serve-se da seguinte comparação: Um homem estava afundado na lama até o pescoço; vendo passar um viajante, estendeu as mãos e gritou: Ah! tende piedade de mim e tirai-me desta poça. O viajante estendeu-lhe a mão, mas aquele, em vez de servir-se dela para sair, lançou na lama o braço que vinha em seu auxílio e procurou arrastar consigo para a poça o seu benfeitor. Este então, transformando a caridade em furor, disse-lhe: Infeliz hipócrita, por que me pedes socorro, enquanto queres permanecer na imundície e procuras fazer-me afundar contigo? Já que amas a corrupção e a morte, permanece nelas; conserva aquilo que escolheste. Assim fazem aqueles que pedem a Deus que os tirem da cloaca impura dos vícios e, entretanto, permanecem estreitamente abraçados ao vício; não querem sair dele e obstinam-se em nele permanecer (In c. IV Apoc.).

Oh! como é grande, neste mundo perverso, o número daqueles que imitam esse infeliz! Todos os que não querem observar as leis de Deus e da Igreja, sair do pecado e afastar-se das ocasiões próximas de pecado zombam de Deus ao rezar-Lhe; a sua oração é um pecado, é execrável. ― Ó cegos, desgraçados e culpados, que, não satisfeitos em servir-se daquilo que é mau em si mesmo, transformam também o bem em mal; que, não contentes em beber águas envenenadas, transformam em veneno as águas límpidas e salutares em si mesmas! … Foi precisamente isso que Deus significou ao dizer: «Quando estenderdes as mãos para Mim, desviarei os meus olhos; multiplicareis as orações, e Eu permanecerei surdo, porque as vossas mãos estão gotejando sangue» (Is 1,15).

A razão disso é evidente, diz Alvarez: Eu não vos atenderei porque estais cobertos de pecados voluntários; pois, quanto depende de vós, derramais o sangue de Jesus Cristo e nele banhais as mãos (In cap. I Isai.). Não menos vigorosamente fala São Basílio: A causa, diz ele, pela qual Deus não nos atende é que O irritamos com os nossos pecados. É como se um assassino, com as mãos ainda gotejantes do sangue de um filho amado, por ele degolado diante dos olhos do pai, fosse estendê-las ao pai desolado para abraçá-lo e pedir-lhe clemência. O sangue do querido filho, de que estão rubras as mãos do assassino, não levaria antes o pai à cólera que à piedade? E tal oração não seria execrável? Se este pai desviasse os olhos e não desse atenção a semelhante oração, como poderá Deus olhar, ou como poderá atender às orações daqueles que calcam aos pés as suas leis, que O desprezam sem se arrepender, que querem continuar a ultrajar e crucificar o seu divino Filho? Quem reza a Deus sem vontade de sair do pecado tenta a Deus, provoca-O e irrita-O com a sua temeridade e irreverência.

21. DESGRAÇA DOS QUE NÃO REZAM

Se é desgraça, ou melhor, pecado rezar mal, e especialmente com vontade de não abandonar a culpa, desgraça mais grave e pecado mais enorme é abandonar a oração; pois isso seria renunciar inteiramente à própria salvação e querer viver e morrer condenado, eternamente réprobo e maldito… Um cego que já não vê o sol é digno de toda a nossa compaixão; mas infinitamente mais digno de compaixão é o cego espiritual que já não vê a luz da oração. São Boaventura ensina que aquele que abandona a oração traz uma alma morta em um corpo vivo, ou é um corpo sem alma (In Speculo). Abandonar a oração equivale a ser marcado com o selo da maldição de Deus e da eterna reprovação, que é a extrema de todas as desgraças…

Holofernes, visitando os arredores de Betúlia, descobriu que a água que servia para abastecer a cidade vinha de fora; e ordenou que se rompessem os aquedutos, para vencer pela sede a cidade sitiada (Jt 7,6). O demônio corta o canal da graça quando nos afasta da oração; priva-nos das forças, subjuga-nos e triunfa sobre nós à sua vontade, se consegue fazer-nos abandoná-la… «Assim como uma cidade sem torres nem muralhas cai facilmente em poder do inimigo, assim também o demônio, com pouco esforço, conquista e submete uma alma não defendida pela oração, e pouco a pouco a impele a toda espécie de crimes (54)».

22. MEIOS PARA REZAR BEM

1° Como se pode obter que não sejamos distraídos durante o tempo da oração?, pergunta São Basílio, e responde: Pensando que estamos sob os olhos de Deus (55).

2° «Se procurássemos buscar, pedir e bater à porta com sincera devoção, com grande afeto e com ardente desejo, ficai certos de que quem pede receberia, quem busca encontraria e àquele que bate seria aberta a porta (56)», diz São Bernardo.

3° É preciso acompanhar a oração com o jejum e a esmola… A oração sozinha é fraca, mas torna-se vigorosa e robusta quando é auxiliada pelas duas asas do jejum e da esmola; com estas, voa rapidamente até o céu. Por isso o Senhor diz: Reparte o teu pão com o faminto, acolhe em tua casa o peregrino, veste o pobre… Depois vem invocar-Me, e Eu te atenderei; clama a Mim, e Eu te responderei: eis-Me presente (Is 58,7-9). Apoiado nestas palavras, São Cipriano ensina que Deus não atende à oração se ela não estiver unida a obras de piedade (Serm.). Por isso Daniel dizia ter-se voltado a rezar e suplicar a Deus em jejuns, na cinza e no cilício (Dn 9,3).

4° Finalmente, quem deseja rezar bem e tirar fruto da oração deve amar o recolhimento: «Eu amamentarei esta alma, diz Deus, conduzi-la-ei à solidão e falarei ao seu coração» (Os 2,14).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.