Tesouro n.º 53 · Volume I

DESINTERESSE DISINTERESSE

4 seções · 13 parágrafos · pp. 585–588 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. É PRECISO SER DESINTERESSADO

“Para que não aconteça que o cristão, demasiado avidamente aplicado às coisas temporais, cuide mal das coisas eternas, deve depositar em Deus uma confiança tão ilimitada que, mesmo quando lhe aconteça não poder prover às necessidades da vida, esteja, não obstante, seguro de que não lhe faltará o necessário”, diz São Gregório Magno (1).

Estas palavras não são senão o eco ou o comentário daquelas outras proferidas por Jesus Cristo aos apóstolos: “Não leveis ouro, nem prata, nem dinheiro de espécie alguma em vossas bolsas, nem alforjes para a viagem, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão” (Mt 10, 9-10). Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e os vermes os devoram e os ladrões vo-los roubam, mas ajuntai-os para o céu, onde estão a salvo das traças, da ferrugem e dos ladrões… Não vos preocupeis demasiadamente com a vossa vida, pensando no que comereis ou em como vos vestireis. Olhai as aves do céu, observai os lírios dos campos: eles não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros, e, contudo, vivem, porque vosso Pai celeste os alimenta; estes crescem vestidos com tamanha magnificência que nem mesmo Salomão ostentava igual esplendor na glória de sua majestade; e, no entanto, quem jamais os viu trabalhar ou fiar? Ora, se Deus provê assim às aves, se assim veste a erva do campo, que hoje viceja vigorosa e amanhã é lançada ao fogo, como não pensará em vós o vosso Pai celeste, vós que sois seus filhos? Buscai, pois, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois a cada dia basta a sua própria preocupação e aflição” (Mt 6, 19-34).

“Quem é maior que o mundo não deve mais buscar nem desejar coisa alguma que pertença ao mundo (2)”, escreve São Cipriano, certamente instruído pelas palavras de Jesus Cristo a Marta: “Ó Marta, Marta, tu te inquietas e te afadigas com muitas coisas, quando uma só é necessária” (Lc 10, 41-42); e lembrado da sentença de São Paulo: “Sejam os vossos costumes isentos de avareza e contentai-vos com o que tendes, pois o próprio Deus disse: Eu não vos deixarei, nem de modo algum vos abandonarei” (Hb 13, 5).

2. VANTAGENS DO DESINTERESSE

“Onde há piedade juntamente com o necessário para a vida, há grande riqueza”, escreve São Paulo a Timóteo; pois nada trouxemos a este mundo ao vir a ele, e nada levaremos conosco ao sair dele; tendo, portanto, com que nos alimentar e vestir, contentemo-nos com isso. Tanto mais que aqueles que querem enriquecer não podem fazê-lo sem cair na tentação e no laço do demônio, e em mil desejos inúteis e nocivos, que arrastam aqueles que deles são vítimas ao fundo, ao abismo da perdição” (1Tm 6, 6-9).

Aqueles que se mantêm desinteressados evitam todos esses males. Além disso, não devemos esquecer-nos, diz o mesmo Apóstolo, de que nós, cristãos, possuímos bens de natureza muito diversa e mais sólida que os bens deste mundo (Hb 10, 34).

“Se nada possuis, estás livre de um grande peso; segue, em tua nudez, o Cristo nu”, escrevia São Jerônimo a Rústico (3). Ser pobre não é infâmia, mas glória; além disso, quem nada deseja e é rico em Deus não é pobre.

O céu se compra com o desinteresse e o desprezo dos bens perecíveis. Deixai os bens da terra e recebereis os do céu, diz Santo Agostinho, pois o reino dos céus se adquire pelo desapego do mundo (De Civ. Dei). “Os que são desinteressados, diz São Gregório, quase não tocam a terra ao caminhar para o céu, mas voam, porque nada desejam de terreno (4).” E São Próspero conclui que deve renunciar ao mundo aquele que quer possuir a Deus e tê-lo por sua bem-aventurada herança (5).

O filósofo Sisto (Sentent. C, IV) torna o homem desinteressado semelhante a Deus; Sêneca exclama: Que tesouro é para a alma não rogar a ninguém, não pedir nada à terra e poder dizer: Fortuna, nada te peço; antes, não me importo contigo. Tem acaso pouco aquele que não teme nem a fome, nem a sede, nem o frio? Júpiter não é mais rico. O que basta é muito; o que não basta é pouquíssima coisa. Alexandre, senhor do mundo, é pobre, porque não está contente. Não bastará ao homem aquilo que basta à natureza inteira! Mas tamanha é a cegueira da mente que se encontram aqueles que levam seus desejos para além de tudo quanto existe (Pr.).

3. EXEMPLOS DE DESINTERESSE

Abraão abandona a terra natal, a casa, os parentes, as riquezas, para obedecer a Deus… Jesus Cristo não busca senão almas… Os apóstolos não têm nem ouro nem prata… e todos podiam afirmar de si mesmos, como São Paulo, que não haviam cobiçado dinheiro nem roupas de ninguém (At 20, 33).

Observai Santo Agostinho, São Francisco de Assis, todos os anacoretas etc. É coisa manifesta que os santos de todos os tempos e de todos os lugares praticaram um desinteresse heroico… Entre todas as virtudes, a do desinteresse é a mais estimada e louvada também no mundo… Ela basta, por si só, para formar o elogio de uma pessoa, e é tida em tão grande consideração que se diria que somente ela vale por todas as outras…

4. MEIOS PARA SER DESINTERESSADO

“Depositai, diz-nos São Pedro, todo cuidado e inquietação no seio de Deus, pensando que ele mesmo vela por vós” (1Pd 5, 7). “E como, diz Santo Agostinho, pode vir-vos à mente que aquele que pensou em vós antes que nascêsseis não cuide de vós agora que sois aquilo que ele quis que fôsseis? Deus não vos falta em nada; não falteis vós a ele, nem falteis a vós mesmos (6)”.

O cristão deve comportar-se com Deus como a criança que não se preocupa com nada, mas repousa tranquila no colo da mãe, à qual deixa todo cuidado. Deus é nosso pai e nossa mãe… Tão bom é o Onipotente, diz o Padre citado, que cuida de cada um como se este fosse o único, e cuida de todos como de cada um (7).

“Não te aflijas com os teus negócios, diz o Crisóstomo, mas entrega-te nas mãos de Deus; porque, se tu te afadigas, afadigas-te como homem; mas, se os confias a Deus, Deus cuidará deles (8)”. Entregando tudo a Deus, ele proverá às necessidades temporais e espirituais etc…. É preciso submeter-se em tudo à vontade de Deus e dar-lhe graças em todos os acontecimentos, à imitação do santo Jó, que, de riquíssimo tornado mendigo, e depois, de pobre novamente feito riquíssimo por Deus, como prêmio de sua resignação e paciência, repetia sempre: “O Senhor me havia dado tudo; o Senhor me tirou tudo; aconteceu como aprouve a Deus; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1, 21).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.