Tesouro n.º 13 · Volume I

AVAREZA AVARIZIA

28 seções · 163 parágrafos · pp. 134–166 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE QUER DIZER A PALAVRA AVAREZA

A palavra avaro significa ávido de ouro, diz Santo Isidoro (1); e é avaro, acrescenta Santo Agostinho (2), não somente quem ama o dinheiro, mas todo aquele que deseja ardentemente qualquer outro objeto. Todo aquele que deseja além do que lhe é necessário é avaro.

As riquezas, segundo Santo Ambrósio, são chamadas divitiae, porque dividem e dilaceram a alma (3).

2. LOUCURA DA AVAREZA

“Não acumuleis riquezas na terra, diz Jesus Cristo em São Mateus, onde ou a traça as consome, ou os vermes as roem, ou os ladrões as descobrem e roubam.” Notai estas três maneiras de destruição: a traça que rói as roupas, a ferrugem que consome o ferro, os ladrões que roubam o ouro e a prata; e daí compreendei que, por três motivos, Jesus Cristo procura afastar o homem do amor às riquezas! Primeiramente, porque elas desaparecem e se corrompem; em segundo lugar, porque ofuscam a mente; em terceiro lugar, porque se apoderam da alma inteira e a impedem de servir a Deus.

“Que loucura é esta, exclama o Crisóstomo, depositar vossos tesouros num lugar que em breve deveis abandonar, e não enviá-los para onde deveis ir e permanecer! Ah! Entesourai para vós tesouros onde está a vossa pátria (4).” Havia um homem muito rico, dizia Jesus Cristo, cujas terras haviam produzido tão bem e abundantemente, que cada colheita lhe trazia grande fartura. Ora, certa noite, este homem refletia consigo mesmo e dizia: Que farei com tantos bens? Ah, eis o que farei: destruirei os velhos celeiros e farei outros novos e maiores, e neles acumularei todas as minhas colheitas; e direi à minha alma: agora tens muitíssimos bens para muitos anos; repousa, pois, alegremente, bebe, come e vive contente. Mas, naquele momento, uma voz terrível lhe disse: Louco, esta mesma noite te será reclamada a alma; e os bens que com tanto empenho preparaste e acumulaste, de quem serão? Tal será a sorte daquele que, avaro, pensa somente em possuir e não é rico diante do Senhor (Lc 12, 16-21).

“Não nos pertence, diz Santo Ambrósio, aquilo que não podemos levar conosco: somente a virtude é companheira dos defuntos (5).”

Somente o sábio é rico, porque nada deseja… “O avaro ensaca, diz o Salmista, e, insensato, nem sequer sabe para quem acumula” (Sl 38, 6); “suas riquezas passarão para mãos estrangeiras, e a ele não restará senão o sepulcro” (Sl 48, 11). A ele se aplicam aquelas palavras da Sabedoria a respeito do idólatra, isto é, que “ama a beleza de um retrato morto e sem alma, cuja vista basta para excitar-lhe a cobiça” (Sb 15, 5). Eis, com efeito, que loucuras cometem os avaros. A primeira é que possuem inutilmente a fortuna, porque não ousam aproveitá-la. A segunda é consumirem-se em trabalhos penosos e em preocupações aflitivas, para acumular tesouros que outros devorarão. A terceira é mostrarem-se cruéis para consigo mesmos, humilharem-se e atormentarem-se porque não ousam desfrutar de seus bens. A quarta é não fazerem bem algum senão sem o saber e contra a vontade. A quinta é tornarem-se escravos de uma paixão insaciável. A sexta é não se saciarem sequer de pão, sendo a mesa do avaro pobre e mal preparada. A sétima é não pensarem que em breve deverão morrer, mas acumularem riquezas como se devessem viver eternamente. A oitava é privarem-se da recompensa devida à esmola, porque, ao morrer, deixam contra a vontade seus tesouros a herdeiros muitas vezes indiferentes e ingratos. A nona é renunciarem à honra que a liberalidade proporciona e cobrirem-se da vergonha e do desprezo da avareza. A décima é tornarem-se indignos dos benefícios divinos e desmerecedores da felicidade, neste e no outro mundo, pois Deus é bom para com os homens generosos e caritativos; mas é avaro com os avaros e é para eles como um martelo que os tritura.

3. CONDIÇÃO INFELIZ DO AVARENTO

Se se observar a alma do avaro, ela será encontrada semelhante a uma roupa roída pela traça: será vista esburacada por toda parte, corroída pelo pecado e coberta pela ferrugem do mal. Ao contrário, a alma do homem caritativo e desinteressado resplandece como o ouro e como o diamante, desabrocha como a rosa pela manhã; ela não teme nem a traça, nem a ferrugem, nem os ladrões; não é perturbada pela inquietação, companheira inseparável dos negócios terrenos… É demasiadamente verdadeira a palavra de São Paulo a Timóteo: “Aqueles que querem enriquecer caem na tentação e no laço do demônio e em muitos desejos inúteis e nocivos, que submergem os homens na morte e na perdição. Porque a raiz de todos os males é a cobiça; por causa dela, alguns se desviaram da fé e se encontram em muitos sofrimentos” (1Tm 6, 9-10). Viagens, vigílias, fraudes, aborrecimentos, angústias, temores, aflições, contrariedades, abatimentos etc.: eis os frutos que o avaro colhe. “Servir-se do ouro e da prata é coisa boa, diz São Bernardo; abusar deles é mau; mas procurá-los por avareza e pôr neles o coração é ação vergonhosa e vil” (De consider. c. XIV).

Fugi da avareza, diz São Próspero; se desejardes riquezas, enredar-vos-eis em mil dificuldades para encontrá-las, imporeis a vós mesmos trabalhos e incômodos para adquiri-las, cuidados e atenções para guardá-las, experimentareis amarguras para desfrutá-las e dores ao perdê-las (De vita contemp., lib. 2, c. 13).

“Ó homem, acrescenta Santo Agostinho, que és atormentado pela avareza, quanto não te custa caro a tua paixão! Deus é amado sem fadiga. A avareza impõe trabalhos, perigos, tristezas, tribulações, e tu te submetes a tudo isso! E com que finalidade? Para encher os teus cofres e perder a tranquilidade. Gozavas de uma paz bem maior antes de possuir, do que agora que começaste a acumular. Vê a que te impeliu a avareza. Enriqueceste a casa e vives temeroso dos ladrões; adquiriste ouro e perdeste o sono. Oh! Isso não acontece com a posse de Deus: basta amá-lo, e adquire-se e possui-se sem fadiga (6).”

Clemente de Alexandria (lib. 4, Strom.) observa que, segundo o dizer dos poetas e da fábula, Pluto, o deus das riquezas, é cego de nascença e cega aqueles que o adoram.

“Sacrificai a vossa prata, diz Santo Agostinho, para comprar para vós o repouso e o tempo de servir a Deus (7)”; porque “a abundância em que o rico se embala, diz o Eclesiastes, não o deixa dormir” (Ecl 5, 11).

A avareza, segundo a graciosa semelhança de São Bernardo, é arrastada sobre um carro de quatro rodas, que são quatro vícios: a pusilanimidade, a desumanidade, o desprezo de Deus e o esquecimento da morte. Os cavalos jungidos a esse carro são a tenacidade e a rapacidade; o cocheiro que os conduz é a ânsia de acumular. A avareza, não podendo manter mais servos, contenta-se com um só; mas este, executor pronto e incansável do trabalho que lhe é imposto, faz girar e estalar sobre o dorso dos cavalos ofegantes dois poderosos açoites, que são a cobiça de adquirir e o temor de perder (8).

Jesus Cristo dá às riquezas o nome de espinhos. E, de fato, explica o Crisóstomo, lançai um olhar um pouco mais profundo à consciência do avarento, e nela vereis um grande número de pecados, um temor contínuo, a ansiedade, a aflição, a suspeita e cem espécies de assombros. O avarento teme as sombras, não está seguro nem de seus servos mais fiéis, desconfia dos estrangeiros que chegam à sua casa, da esposa e dos filhos, que criou semelhantes a si; mas que digo? tem medo de si mesmo (Homil. ad pop.).

“A avareza, diz Santo Ambrósio, inveja a todos, é vil para consigo mesma, pobre em meio às riquezas, e reduz, pelo afeto, aquilo muito que possui de fato (9).” Os dias do avarento passam nas trevas, nos prantos, na cólera, no cansaço e no furor. A paixão o atormenta, os cuidados o torturam, a inveja o crucifica, a demora o irrita, a esterilidade dos campos o lança no desespero, a abundância o inquieta e, algumas vezes, o faz enlouquecer. Sulca o mar, esquadrinha a terra, estuda os elementos, fatiga o céu com votos de insaciável cobiça. Não o contenta nem o tempo sereno, nem o nublado; seu falar é um contínuo queixar-se dos produtos da terra. Não há, a ouvi-lo, casa mais desventurada que a sua. Ah! conclui o citado santo Doutor, “não é na abundância das riquezas que a vida do homem encontra repouso, mas na virtude e na fé (10)”.

4. O AVARENTO VIVE SOMENTE DE SUA PAIXÃO

“Onde está o teu tesouro, diz Jesus Cristo, aí está também o teu coração” (Mt 6, 21). Isto quer dizer: aquilo que vos alegra, que apreciais, amais, acariciais e desejais apaixonadamente domina inteiramente o vosso coração. Ora, se de toda outra paixão se pode dizer que se apodera do homem inteiro, com maior razão se deve dizê-lo da avareza… Por isso, São Jerônimo advertia a Paulino que não sepultasse sua alma num vil metal, mas que a elevasse ao Céu (11).

Santo Antônio de Pádua conta que, tendo morrido um avarento, encontrou-se o coração dele, não mais no peito, mas no meio do monte de ouro amontoado em seu cofre.

Avarentos, vós não pensais senão no ouro, não amais senão o ouro; mas que ouro se pode comparar a Deus? Desejais as riquezas; mas que riquezas valem a posse de Deus? Ah! dai ouvidos ao Salmista, que vos diz: “Se as riquezas vos vêm em abundância, não ponhais nelas o vosso coração” (Sl 61, 11).

5. O AVARENTO NÃO PODE SERVIR A DEUS

É clara a sentença de Jesus Cristo: “Ninguém pode servir a dois senhores… é impossível servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). “Ter fortuna e consciência limpa são duas coisas quase incompatíveis entre si”, escreveu Sêneca (12).

6. POBREZA DO AVARENTO

O avarento é privado tanto daquilo que possui quanto daquilo que não possui, porque não se serve do que tem: fecha sua fortuna em seu cofre, e este, portanto, e não ele, dela desfruta. Não possui o dinheiro, mas é possuído por ele.

Quem é o verdadeiro rico? pergunta Beda, e responde: é aquele que nada deseja; quem é o verdadeiro pobre? o avarento (Sentent.). Com efeito, aquele que deseja riquezas mostra não ter o suficiente delas e, por isso, é pobre. Ao avarento falta tudo, replica São Jerônimo, tanto aquilo que possui como aquilo que não possui (Epl. 103, ad Paulin.).

“Tanto mais serás senhor dos teus bens, diz São Bernardo, quanto menos deles fores ávido; porque o avarento definha sobre o ouro como um pobre, enquanto o verdadeiro cristão não se preocupa com ele, como um senhor (13).”

“É pobre, diz São Gregório, aquele que sente necessidade daquilo que não possui; é rico aquele que, não tendo nada, nada deseja (14).” Depois, comentando aquelas palavras do avarento do Evangelho: “Ora, que farei eu, não tendo lugares onde guardar as minhas colheitas?”, irrompe nesta exclamação: “Ó pobreza nascida da abundância! O avarento se consome de aflição pela excessiva fertilidade dos campos (15).”

Também Sêneca deixou escrito: “Ao pobre faltam muitas coisas; ao avarento falta tudo (16).”

Santo Ambrósio observa que não pode chamar-se rico aquele que não pode levar consigo os seus bens: porque aquilo que devemos deixar não nos pertence, mas aos outros (17).

“Os ricos caíram na indigência e padeceram fome, diz o Salmista; mas aqueles que temem o Senhor não terão falta de bem algum” (Sl 32, 11). E Salomão lhe faz eco: “Há outra miséria que vi debaixo do sol, e também muito frequente no mundo: é o homem a quem Deus deu abundância de riquezas e de bens… sem lhe dar a faculdade de gozá-los; mas tudo será devorado por um estranho: isto é vaidade e grande miséria” (Ecl 6, 1-2). Eis a infeliz condição do avarento, pintada pelo Espírito Santo.

O desejo de acumular empobrece, a inveja devora, a sede de possuir leva a definhar na miséria: pois só se possui aquilo de que se faz uso; ora, o avarento, que não se serve de coisa alguma, nada possui. Do dinheiro que esconde debaixo da terra, é preciso dizer que pertence não a ele, mas à terra. Quem pagasse um imposto igual à sua renda estaria na indigência; ora, a paixão da avareza cobra um imposto tão pesado, que priva o avarento tanto da renda como do capital; e a ele se aplica o dito dos Provérbios: “O invejoso, que corre apressadamente em busca da riqueza, não percebe que a pobreza lhe está às portas” (Pr 28, 20).

“As riquezas não preservam da indigência, escreve Santo Agostinho, e o avarento sentirá tanto mais grave a penúria quanto mais abundantes forem os seus tesouros e mais ardente o desejo com que os acumulou (18).”

O avarento não deveria esquecer a sentença do profeta Ageu: “Aquele que acumulou tesouros, depositou-os numa bolsa sem fundo” (Ag 1, 6); e medite naquela outra de Jó: “Ele vomitará as riquezas que devorou, e Deus lhas arrancará das entranhas” (Jó 20, 15).

“Buscai antes de tudo o reino dos céus e a sua justiça, diz Jesus no Evangelho, e o restante vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 33). “Não imiteis, diz aqui Santo Agostinho, os judeus que, por temerem perder os bens temporais ao confessarem Jesus Cristo, não pensaram na vida eterna e, assim, perderam tanto aqueles como esta (19).”

Os Apóstolos haviam trabalhado toda a noite na pesca e não tinham conseguido apanhar nada, porque Jesus Cristo não estava com eles; mas, assim que Pedro, por ordem dele, lançou a rede ao mar, a pesca foi grandíssima (Lc 5, 5).

Ó avaro! exclama São Basílio, tu não sabes dizer outra coisa senão isto: eu nada tenho, não darei um centavo, porque também sou pobre. Oh! sim, dizes a verdade: és pobre, estás privado de tudo. És pobre de caridade, pobre de bondade, pobre de confiança em Deus, pobre de esperança eterna (Homil. in Div. avar.). Ó ricos, vós não compreendeis quão pobres sois! … A natureza não conhece ricos; ela concebeu todos os homens na pobreza, e nus os pôs no mundo, e nus os restitui a todos ao mesmo sepulcro.

7. O AVARENTO JAMAIS ESTÁ SACIADO

O que mostra vivamente a pobreza do avarento é que ele nunca diz basta e jamais se sacia. Por isso, Santo Agostinho o compara ao hidrópico, que, quanto mais bebe, tanto mais sede tem (20). O mesmo disse Ovídio: “Cresceram as riquezas e cresceu com elas, até tornar-se furiosa, a cobiça; e quanto mais possuem, mais querem possuir (21).” A avareza se assemelha ao fogo, que tanto mais se acende quanto maior é o combustível. “O avarento, diz o Eclesiástico, nunca se saciará de ouro; quem põe o coração nas riquezas não gozará de seu fruto” (Eclo 5, 9). O universo inteiro não basta ao avarento; contudo, chegará o dia em que terá forçosamente de contentar-se com uma sepultura que nem sequer possuirá sozinho, porque lhe será contestada e afinal conquistada pelos vermes… As riquezas nos são dadas para que delas façamos uso com moderação. Quem se enche demasiado facilmente terá de devolver aquilo que engoliu com avidez.

Ó rico avarento! diz Santo Ambrósio, comentando aquela passagem da Sagrada Escritura em que se narra como a pequena vinha de Nabot aguçava a cobiça de Acab; ó rico avarento! não sabes quão pobre és, tu que te vanglorias de ser rico! Quanto mais tens, mais queres; e, quando nadas em riquezas, ainda te parece não ter o bastante. O ouro não somente não extingue, mas alimenta a avareza. Inúmeros degraus conduzem ao templo da cobiça; quanto mais se sobem, mais se deseja subir, mas quanto mais alto se sobe, de mais alto se cai. A Escritura nos demonstra quão faminto é o avarento e como vai mendigando vergonhosamente. Acab era rei de Israel; Nabot, um pobre vinhateiro. Aquele nadava em riquezas; este tinha como única propriedade um pequeno terreno. E, contudo, Nabot de modo algum desejava as terras de Acab, enquanto este rei mostra estar em apuros, porque desejava a vinha de Nabot. Que quer dizer aquele pedido: Dá-me a tua vinha? Que sentia necessidade dela. Dá-ma, porque não tenho o que me é necessário. Que vileza, que baixeza, que penúria! Eis o avarento…

O avarento, não podendo encher de ouro o seu coração, enche-o de desejos insaciáveis; mas nem mesmo esses desejos podem preencher-lhe o vazio; seria preciso derramar nele aquele ouro que é obrigado a deixar nos cofres.

O avarento não pode saciar-se porque: 1° a avareza nunca diz basta; 2° a sua fome vai crescendo; 3° o dinheiro não o alimenta; 4° a avareza não sacia o coração; 5° todos os tesouros que ela acumula são vaidade: de modo que se podem aplicar a ela aquelas palavras do Gênesis (I, 2), e chamá-la terra estéril e deserta.

Que são, afinal, os tesouros que aumentam a penúria à medida que crescem e geram um desejo tanto mais cruel quanto mais abundantes são? O dinheiro não fecha a garganta da avareza nem sacia o ventre, mas o dilata; não refresca, mas abrasa. Os avarentos não se contentam com um copo de água, mas têm sede de um rio.

É menos ávido o pobre ao desejar o necessário do que o rico ao desejar o supérfluo (22). O avarento se assemelha àquelas terras áridas e arenosas que a chuva não irriga, mas que beberiam torrentes de água e quase imediatamente retornam à secura anterior, sempre ávidas de irrigação. Assim como a areia, ainda que seja frequentemente irrigada, não produz frutos, assim também o avarento, embora acumule muito, nada emprega em esmolas, e suas riquezas perecem nele e com ele. Por isso diz São João Crisóstomo (Homil. ad pop.) que o avarento suspira com mais ardor e tem mais sede de dinheiro do que o rico malvado tinha sede de água no Inferno: este suplicava por uma gota; aquele quer um mar; e, como diz São Bernardo, o avarento jamais se sacia de ouro, assim como nossos pulmões jamais se saciam do ar que respiram (23).

O fogo jamais diz basta (Pr 30,16), mas, quando já não lhe resta nada para devorar, então se apaga; a avareza, depois de haver devorado tudo, ainda não se extinguiria. Não se alegra, diz São Basílio, com aquilo que possui, mas atormenta-se por obter aquilo que não possui, como um cão que, enquanto engole o bocado que lhe é oferecido, mantém avidamente os olhos naquilo que tendes na mão e já o devora pelo desejo antes que lho lanceis: não aproveita o que poupou, mas é corroído pelo desejo de poupar mais (Homil. XV). “Atira-se sobre tudo, como a morte, retoma o Crisóstomo; tudo engole, como o Inferno, e desejaria viver sozinho sobre a terra, para possuí-la sozinho (24)”.

Eis por que São Lucas, narrando os tormentos do rico avarento no Inferno, diz que “ao levantar os olhos, enquanto estava nos tormentos, viu ao longe Abraão e Lázaro” (Lc 16,23). “Padecia nos tormentos, observa o Crisóstomo; só tinha livres os olhos e usava-os para contemplar as riquezas alheias (25)”.

“Grande monstro é esta paixão de possuir! As próprias feras têm certa moderação com sua presa: impelidas pela fome, mordem-na e devoram-na, mas, depois de despedaçar uma, poupam a outra. Somente a fome das riquezas é insaciável; devora sempre e jamais se sacia. O avarento não teme a Deus, não respeita o homem, não poupa o pai, não conhece a mãe, despreza o irmão, trai o amigo (26)”.

“O dinheiro não alimenta, mas excita o avarento”, diz Sêneca (27); e, perguntado um filósofo por que o ouro é pálido, respondeu: Porque tem medo, pois todos lhe armam ciladas (28).

“O olho do avarento não se sacia com uma porção, mesmo além da necessidade: não se saciará enquanto não tiver consumido e destruído a sua. O olho mau está voltado para o mal e não saciará a fome, mas permanecerá faminto e melancólico à sua mesa” (Eclo 14,9-10).

“Aqueles que amontoam o ouro e a prata em que os homens confiam jamais se saciam, e a maldição pesa sobre eles” (Br 3,18-19). Ah! A avareza é verdadeiramente aquilo que Santo Ambrósio chama de abismo sem fundo (In Nub. c. II). Pois “o mar, retoma São Basílio, tem seus limites; o avarento, não. Acrescentas posses a posses, mas depois disso? Três pás de terra! (29)”.

8. A AVAREZA É UM PESO QUE OPRIME

Pesado é o ouro por sua própria natureza; a avareza, porém, dele forma uma carga opressiva, que pesa sobre a alma ainda mais do que sobre o corpo. “Vede, diz Santo Agostinho, este homem sob o peso da avareza; observai como bufa, anseia, repousa, ofega e trabalha para acrescentar carga a carga. E que coisa esperas, ó avarento, do peso com que te carregas? A que aspiras? O que desejas? Por que te extenuas em trabalhos? Ah! Queres saciar a avareza; mas, ai de ti!, ela pode consumir-te sem que chegues a saciá-la. Dir-me-ás que a avareza é um peso leve? Mas por que, então, estás oprimido por ela a ponto de morrer? É a avareza uma coisa insignificante? E por que, então, não te deixa fechar os olhos; por que perturba o teu sono? (30)”. “Pensa, acrescenta São Jerônimo, que não possuir nada é estar livre de um peso enorme; segue nu o Cristo nu (31)”.

São Próspero diz: “Não há jugo nem mais pesado nem mais difícil de romper que a avareza. Por que buscais a felicidade em outro lugar que não em Deus, que é todo o bem? O que pode bastar àquele a quem Deus não basta? Este bem infinito possuía o real Profeta, e por ele era possuído, quando exclamava: Deus é a porção da minha herança” (De vita comtempl. c. XIII).

9. CEGUEIRA PRODUZIDA PELA AVAREZA

Quem é acorrentado enquanto dorme não se dá conta de seus grilhões senão quando desperta e tenta levantar-se; assim também aqueles que têm o coração voltado para as riquezas estão ligados a elas por uma afeição secreta, da qual só se dão conta quando as perdem ou a elas renunciam.

Não é o avarento que possui o ouro, mas o ouro que possui o avarento, e de tal modo que o torna seu servo e escravo… Bem o sabia aquele Cúrio romano que, recusando indignado o ouro dos samnitas, dizia: Prefiro governar eu a prata e aqueles que a possuem, em vez de deixar-me governar por ela. A este respeito, Sêneca observava argutamente: Os avarentos têm as riquezas do mesmo modo que dizemos ter febre, porque, na verdade, é ela que nos possui e domina. Deveríamos corrigir nossa linguagem e dizer: a febre o domina; as riquezas o tiranizam (32)”; e em outro lugar conclui com esta sentença: “O dinheiro serve àquele que sabe usá-lo; àquele que não sabe, dá ordens (33)”; daí conclui que é preciso comandar o dinheiro, não servi-lo (34).

“Aquilo que Cristo não toma, dizia Santo Agostinho, o fisco o arrecada: o avarento é apanhado enquanto ajunta; torna-se presa no próprio ato de predar (35)”.

“Quem é escravo das riquezas, diz São Jerônimo, guarda-as como servo; quem, porém, sacudiu o jugo de tal servidão, maneja-as como senhor (36)”.

Ouvi ainda São João Crisóstomo: “O avarento é guardião, não senhor; escravo, não possuidor do dinheiro: pois daria mais facilmente um pedaço da própria carne do que uma moeda de seu tesouro; abstém-se de usar o que é seu, como se guardaria de tocar na propriedade alheia. E, de fato, nem sequer seus bens lhe pertencem, porque, estando disposto a suportar antes qualquer privação do que gastar ou dar um centavo, pode-se dizer que possua alguma coisa como própria? … O avarento não tira proveito algum de suas riquezas; vive e age como se nada possuísse. Se trabalha, trabalha para os herdeiros, com grande perigo e prejuízo para a própria alma. Seus suores e suas vigílias lhe são inúteis, e até mesmo a morte, que para os avarentos é antecipada pelas privações, não lhe traz proveito algum (37)”. Em outro lugar, o mesmo Doutor escreve: “As riquezas são, para aqueles que não sabem servir-se delas, uma pesada cadeia, um tirano cruel e desumano que impõe às suas vítimas tudo o que lhes pode causar dano. Mas, se quisessem, poderiam romper seu jugo, subtrair-se à sua tirania; e de que modo? Fazendo largas esmolas. Enquanto vos encontrais a sós com Plutão, como diante de um ladrão e em lugar solitário e apartado, ele vos faz muito mal e vos abate; mas, se é conduzido à praça pública, cede, deixa-se vencer e oferece os pulsos às correntes com que os pobres o prendem, dando-se as mãos uns aos outros” (Homil. 13, in I ad Cor.).

Santo Agostinho faz Deus falar assim: A avareza vos impõe obrigações difíceis, e eu vos atribuo deveres fáceis; seu jugo é pesado e seu peso oprime, ao passo que o meu é leve e agradável. A avareza vos ordena atravessar os mares, expor-vos às tempestades e aos naufrágios; eu não exijo senão que deis aos pobres que batem à vossa porta aquilo que podeis dar. E será verdade que vós, que vos aventurais intrépidos pelo oceano para obedecer à avareza, não tendes coração para fazer uma boa ação que está em vossas mãos? A avareza manda, e vós sois cheios de zelo para servi-la; Deus manda, e vós não fazeis caso nem dele nem de seus mandamentos… (In Psalm. CXVIII). Obedeceis à avareza, que, longe de vos trazer algum benefício, vos cumula de males, e recusais obedecer a Deus, que vos cumularia de todo bem e vos preservaria de todo mal! …

“O avarento deixa-se apanhar pelo ouro, como o pássaro na visgo”, sentencia São Gregório Nazianzeno (38), que observa ainda que o dinheiro é um tirano oculto que, quando faz ouvir sua voz, abafa ou torna inútil qualquer outra, ainda que suplicante e comovente, oração (39).

Ora, não é o caso de exclamar com Diógenes: “Que vergonha que possua muito aquele que não possui a si mesmo? (40)”.

“Todos os avarentos perecem acorrentados pelo dinheiro”, disse Sofonias (Sf 1, 11). Mas será de admirar que assim pereçam, quando eles, segundo a palavra de Santo Ambrósio, estão continuamente entre laços, sempre acorrentados, jamais são livres, porque vivem sempre no pecado? (De Cain.).

Santo Agostinho observa justamente que “o avarento perde a si mesmo antes de ganhar uma moeda; fica preso antes de prender (41)”. Quem sabe empregar seu dinheiro, escreve o mesmo Doutor, é seu senhor; mas quem não sabe usá-lo tem o ouro por déspota. Sede senhores do dinheiro, não seus escravos; pois aquele Deus que criou o ouro criou-vos muito superiores a esse metal: criou o ouro para vosso uso e criou-vos à sua imagem e para si somente. Fixai os olhos naquilo que está acima de vós e calçai aos pés aquilo que está abaixo de vós (In Psalm. CXXXII). Em outro lugar, diz que aquele que está inteiramente voltado para as coisas terrenas necessariamente se afasta das celestes. A avareza nos prende à terra e ao barro, porque o ouro não é outra coisa senão terra e barro, e não nos deixa sequer dormir em paz (42).

“Não vos aflijais, diz Jesus Cristo em São Mateus, nem com aquilo que haveis de comer, nem com aquilo com que haveis de vestir-vos. Porventura a vida não vale mais que o alimento, e o corpo mais que a roupa?” (Mt 6, 25). Ora, o avarento descuida e esquece inteiramente a alma e a vida, e não se ocupa senão de seu tesouro. Que cegueira! … Ó insensatos, que vos consumis acumulando riquezas, nesta mesma noite morrereis! E de quem será o vosso tesouro? (Lc 12, 20). Ah! muitas vezes nem vós mesmos sabeis para quem trabalhais; de todo modo, trabalhais para outros e não para vós…; mas que digo? Trabalhais contra vós mesmos… E não é isto viver nas trevas? E, de fato, o Evangelho observa que, quando Judas saiu para vender por avareza seu Mestre, era noite (Jo 13, 30).

“O ouro que se busca nas cegas entranhas da terra, diz a propósito Santo Agostinho, guarda-se, sim, nos cegos esconderijos do coração. Buscá-lo faz condenados, assim como amá-lo produziu um Judas; pois o avarento prefere o ouro a Cristo (43)”.

Vós buscais vossa felicidade nas riquezas, diz São Bernardo, mas Deus não nos expulsou do paraíso terrestre para providenciar-nos outro (Serm. in Cantic.). Que cegueira buscar a própria felicidade onde ninguém jamais a encontrou nem a encontrará por toda a eternidade!

Que preferis, diz Santo Agostinho: amar as coisas temporais e passar com elas, ou não amá-las e viver eternamente com Deus? O Senhor vos deu todas as coisas criadas; sede, pois, agradecidos a ele, amando-o. Em vez do ouro, ele quer dar-vos a si mesmo. Ora, se pondes o coração nos bens daqui de baixo, embora vos venham dele, e não cuidais dele, vosso amor não é porventura adúltero? Os bens que Deus vos dá são um convite a amá-lo; se preferis a ele os seus dons, assemelhai-vos a uma esposa que estima mais o anel de ouro que lhe foi dado pelo esposo do que o próprio esposo; e esse afeto certamente tem sabor de adultério (Serm. XXVIII de Verb. Domini).

Por causa das riquezas perecíveis, acrescenta São Cirilo, o avarento sacrifica as celestes e imperecíveis. Tem olhos e não vê; abandona os verdadeiros bens pelos falaciosos, o que dura pelo que passa, o Céu pela terra; troca tesouros infinitos pela pobreza, a glória pela miséria, o certo pelo incerto, o bem pelo mal, a alegria sincera pela aflição. Ajunta fora de si bagatelas e ninharias; por dentro, despoja-se e empobrece; apega-se a fios de lã que uma rajada de vento dispersa; possui a terra e habita no Inferno. Ele devora, mas seu estômago não consegue digerir o alimento de que está demasiadamente cheio; ama aquele que o mata, adquire para perder, conserva diligentemente aquilo que lhe causará um eterno remorso, impõe-se cargas para precipitar-se mais depressa no abismo eterno (Homil. VII).

Entre as outras misérias que o Eclesiastes afirma ter visto no mundo, enumera entre as mais deploráveis a de riquezas conservadas para tormento de seu possuidor; porque elas perecem e não deixam senão calamidade e aflição. Profunda miséria! O avarento, assim como veio, assim partirá; e de que lhe aproveita ter trabalhado tanto? “Durante toda a sua vida, comeu nas trevas, atormentado por uma infinidade de cuidados, entre a angústia e a melancolia” (Ecl 5, 12-16). Essas trevas indicam a iniquidade do avarento, seu viver miserável, desgraçado, repugnante.

O avarento vive nas trevas, isto é, na ignorância, nas preocupações, trazendo o sinal e a pena do pecado que continuamente comete. Para ele é sempre noite cerrada; e a prova palpável de sua cegueira é que quer viver na pobreza para morrer na abundância.

Quem se lisonjeia de poder conhecer a verdade vivendo viciosamente engana-se redondamente, escreve Santo Agostinho. Ora, que é viver viciosamente senão amar o mundo e aquilo que o mundo contém? É pôr o coração naquilo que passa, considerá-lo como coisa de grande valor, desejá-lo, afadigar-se para adquiri-lo, alegrar-se quando se alcançam as riquezas, tremer ao pensar em uma perda, irritar-se sobremaneira ao perder um objeto que se possui? “Que estranheza, que cegueira é esta de nossas almas! perder a vida, desejar a morte! adquirir o ouro, lançar fora o Paraíso (44)”.

É certo, escreve São Gregório, que quem ambiciona enriquecer não se preocupa em evitar o pecado: como a ave ofuscada pelo espelho do caçador, fixa o olhar ávido no esplendor das riquezas e já não vê nem evita a rede do pecado (Pastor. admon. XXI).

Os avarentos são tão cegos que nem sequer veem quanto são culpados; a seus olhos, a avareza é uma virtude; fazem dela um princípio de ordem e, por isso, jamais se convertem. É fácil encontrar quem resista às outras inclinações, quem freie as outras paixões; mas quase nunca se encontra quem vença a avareza; pelo contrário, ela vai sempre aumentando à medida que se aproxima a morte, a qual despoja, num instante, de tudo o que se havia ajuntado. A vida do avarento começa nas trevas, consome-se nas trevas e passa das trevas temporais às eternas do Inferno.

Com razão, portanto, Demóstenes, vendo levarem um avarento ao sepulcro, exclamava: “Ele não soube viver” (Maxim.).

10. NULIDADE DAS RIQUEZAS

Se me mostrásseis vossas magníficas moradas, fossem elas até palácios cravejados de ouro e de diamantes, eu não encontraria nenhuma diferença entre elas e o ninho de uma andorinha, pregava São João Crisóstomo; tudo é lama que, com a chegada do inverno, se desprende e cai (Homil.).

Mas ouvi a Sagrada Escritura: “Vinde agora, ó ricos, diz São Tiago, chorai e clamai por causa das misérias que virão sobre vós” (Tg 5, 1). “Vossas riquezas apodreceram e vossas vestes foram roídas pelas traças. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram, e essa ferrugem será um testemunho contra vós e, como fogo, devorará vossas carnes. Ajuntastes tesouros de ira para os últimos dias” (id. ibid., 2-3).

“O homem passa como uma sombra, diz o Salmista; e, além disso, agita-se sem fundamento; entesoura, e não sabe para quem ajunta” (Sl 38, 5). E nos Provérbios está escrito que “aquele que põe sua confiança nas riquezas cairá por terra” (Pr 11, 28). As riquezas são para o avarento um ídolo, a felicidade, a força, todo o seu bem, toda a sua esperança, sua única alegria; mas tudo isso não passa de sombra, vaidade e engano. “Ai daquele, exclama o profeta Habacuc, ai daquele que multiplica bens que não são seus! E até quando acumulará contra si montões de lama?” (Ab 11, 6).

As riquezas são chamadas montão de lama: 1° porque são coisa vil; 2° porque mancham a alma, oprimem-na e arrastam-na ao abismo. As riquezas são lama que corrompe o coração e o transforma numa poça de iniquidade… são uma ameaça ou uma ruína para a alma, são alimento do pecado.

O avarento leva seus tesouros fechados nos punhos ou escondidos nas vestes, mas seu coração está vazio… Porventura a morte poupa as riquezas? … acaso se abstém de ferir aquele que possui ouro?

11. QUÃO VIL E DESPREZÍVEL É O AVARENTO

Se, como diz São Cipriano, é maior que o mundo aquele que nada deseja nem pede ao mundo (45), podemos imaginar quão vil e abjeto é aquele que deseja as riquezas, as quais não passam de um punhado de barro. Por isso, com razão, o Crisóstomo afirma: “A maior prova de fraqueza é deixar-se vencer pela avareza (46)”; e São Pedro Damião declara que “nenhuma chaga exala um fedor mais intolerável a Deus que o das chagas causadas à alma pela avareza. O avarento, aumentando os frutos de um dinheiro sórdido, transforma seus cofres numa fossa (47)”, e o Crisólogo sentencia que “o avarento sacrifica sua reputação, renuncia a toda glória (48)”. E quando uma pessoa perdeu Deus, a consciência, a fama, a honra, a caridade e o próprio coração, não é ela, porventura, o ser mais vil e abjeto do mundo? Tal é precisamente o avarento.

12. O AVARENTO É DESCONFIADO, INVEJOSO, INGRATO, TRAIDOR, CRUEL, DÉSPOTA

“Confia ao Senhor o cuidado de tuas necessidades, diz o Salmista, e Ele sustentará a tua alma” (Sl 54,22). Depois, em outro lugar, exprime a sua confiança: sendo o Senhor aquele que o sustenta, jamais lhe poderá faltar coisa alguma; antes, confessa que Ele já o colocou na abundância (Sl 22,1-2). O avarento, ao contrário, não demonstra acaso que desconfia de Deus, da Providência, dos homens e de tudo quanto o cerca?

O avarento olha com olhos de inveja para tudo e para todos… A prosperidade dos outros é, para ele, um espinho nos olhos e uma espada no coração. Mas considerai que a inveja arruinou os anjos… Adão e Eva…; observai a que excessos conduziu Caim…; os irmãos de José etc.; considerai que a inveja é, segundo a expressão de São Bernardo, o verme roedor da alma; fatiga os sentidos, queima as entranhas, corrói o espírito, corrompe o coração. O invejoso quer o que não lhe pertence e não colhe senão pecados (De Considerat.).

No universo, toda criatura dá graças a Deus, exceto o avarento… Ele se esquece dos benefícios de Deus e dos homens; murmura contra a Providência; nunca está satisfeito… Ora, a ingratidão, diz São Bernardo, é inimiga da alma, destrói os méritos, expulsa as virtudes. Seca a fonte dos benefícios (De Considerat.).

Quem fez de Judas um traidor? A avareza… Aquele desgraçado estava, como diz São Jerônimo, “embriagado de avareza (49)”. Estava tão dominado pelo vício que temia que Jesus escapasse daqueles que tinham vindo para prendê-lo; temia perder os trinta dinheiros… Ele próprio ordenou que o segurassem firmemente e o amarrassem (Mt 26,48).

O ouro é um servo que nos trai… O avarento venderia até mesmo a Deus… E, de fato, Judas diz aos príncipes dos sacerdotes: “Que quereis dar-me para que eu vo-lo entregue?” (Mt 26,15).

O avarento trai a própria consciência…, os homens…, os seus amigos…, a sua família… Nada há de sagrado para ele… A queda de Judas nos mostra como a avareza é um mal enorme e a que excessos arrasta. Ela foi a causa da traição desse apóstolo, de sua hipocrisia, de seu desespero, de seu suicídio, de sua morte eterna e da condenação de Jesus Cristo.

O avarento transforma o supérfluo em necessário…, não sente em seu coração nem compaixão, nem caridade, nem benevolência… Não tem piedade, mas é uma espécie de tigre doméstico… “Como pode haver, exclama São João, a caridade de Deus num homem que, rico dos bens deste mundo, vê seu irmão definhar de fome sem sentir compaixão por ele?” (1Jo 3,17).

Apoiando-se na sentença dos Provérbios: “O que é cruel repele até os seus parentes” (Pr 11,17), o Crisóstomo afirma que “a avareza torna cruéis e atrozes todos os que a servem (50)”; e a considera uma “grave doença que torna cegos, surdos e ferozes como animais (51)”.

O avarento é cruel para com sua alma, seu corpo, seus parentes, o próximo e Deus. O avarento assemelha-se à aranha; consome as próprias entranhas para produzir ouro; tece uma teia inútil, que recolhe apenas ninharias.

“Não são acaso os ricos (avarentos), clama o apóstolo São Tiago, os que abusam contra vós do seu poder e vos arrastam a julgamento? (Tg 2,6). Com efeito, as riquezas transtornam de tal modo o espírito do avarento que ele julga lícita toda coisa, pensa que lhe pertence por direito o comando sobre os pobres, os quais considera seus servos e escravos, e instrumentos de que pode servir-se impunemente para aumentar seu fausto e seus tesouros. O rico avarento engole o pobre como o peixe grande engole o menor e, se encontra obstáculos, enfurece-se e não perdoa; considera-se superior a quantos o cercam, e ai deles se tentam resistir-lhe: tudo atrai para si, nada deixando aos outros. “O asno selvagem é presa do leão no deserto, e os pobres são o engordo dos ricos”, diz o Eclesiástico (Eclo 13,23).

13. ERROS, PERIGOS, INJUSTIÇAS DO AVARENTO

O avarento engana-se: 1° lisonjeando-se de viver longos anos…; 2° ocupando-se somente de coisas terrenas…; 3° vivendo uma vida animalesca…; por isso São Basílio assim interpela um avarento: “Vós vos comportaríeis de modo diferente se tivésseis não uma alma humana, mas uma alma de porco?” (Homil. in Evang.); e São Francisco de Assis chamava o ouro de instrumento do demônio, víbora cujo veneno mata (SAN BONAV., In Vita).

O avarento joga fora o ouro e o perde, porque o enterra e o deixa enferrujar…

Diz São Basílio: “O pão que escondeis na arca pertence a quem tem fome; as vestes que guardais sob chave são devidas a quem está nu; aquele calçado que deixais embolorar entre as tralhas é o calçado do pobre; a prata que enterrais é o patrimônio dos pobres (52)”. E, em outro lugar: “Procurais vós celeiros, ó avarentos? Ei-los, belos e prontos, no estômago dos mendigos (53)”.

“Morreu o rico, lemos no Evangelho, e foi sepultado no Inferno” (Lc 16, 22). Foi a sua avareza, a sua dureza, o seu desprezo por Lázaro, a sua culpável injustiça para com aquele miserável mendigo, que o fez ser sepultado no Inferno.

“É um erro, diz São João Crisóstomo, acreditar que as coisas deste mundo nos pertençam de tal modo que possamos dispor delas como senhores absolutos. Nada é absolutamente nosso, mas tudo é de Deus, de quem provém… Por isso, é réu de furto aquele que não reparte com os outros os bens que administra… E o rico do Evangelho era atormentado no Inferno, não porque tivesse sido rico, mas porque não tivera piedade de Lázaro (54)”.

“A vossa alma não vos pertence, diz ainda o Padre citado; como vos pertencerá, então, o vosso dinheiro? Não digais, portanto: Eu como o que é meu; não é vosso, mas de outros (55)”. E, em outro lugar, observa que o avarento é depositário, não senhor dos seus bens; é escravo, não possuidor. Guarda-os com solícito cuidado, privando-se deles como de coisa que não é sua; e, de fato, suas riquezas não são suas (Homil. 16, in Matth.).

Está escrito no Primeiro Livro dos Reis (21, 4) que Acab, vencido pela irritação e pela melancolia, porque Nabot não cedia aos seus desejos, deixou de comer; e, a propósito disso, Santo Ambrósio observa: “Deixou de comer o seu pão porque cobiçava o dos outros. Com efeito, vivendo os ricos avarentos de furtos e rapinas, alimentam-se mais do pão alheio do que do próprio (56)”.

Oh! como facilmente cai na injustiça quem dá livre curso aos apetites desordenados! A avareza é um mal e uma injustiça, 1° porque é um mal que o homem, esta criatura tão nobre e sublime, se apegue ardorosamente às riquezas e aos bens da terra, e lhes consagre o espírito e o coração; 2° porque a avareza arrasta às fraudes, às usuras e a outros pecados semelhantes; 3° porque é difícil adquirir e conservar a riqueza sem causar dano a alguém, principalmente no meio de uma sociedade que conta aos milhares os miseráveis; 4° porque Jesus Cristo ameaçou de anátema os ricos (Lc 6, 24); 5° finalmente, porque Deus muitas vezes concede as riquezas aos maus, por exemplo, aos infiéis, aos judeus, aos usurários.

“Quem procura enriquecer não atenta para nenhuma outra coisa”, diz o Eclesiástico (Eclo 27, 1).

O cofre de um avarento é o túmulo onde jaz a vida dos indigentes. Avarentos, vós sepultais vivos os pobres, mas sepultais a vós mesmos com eles: o vosso tesouro é o vosso sepulcro. Ouvi o que vos diz Santo Agostinho: “Vós lucrastes, mas, para fazê-lo, ofendestes a Deus: adquiristes ouro e perdestes a fé; alegrais-vos por terdes enchido a bolsa e não vos afligis por terdes dado morte ao coração? Ai de mim! A perda foi muito maior que o ganho, e perdestes aquilo que nem mesmo um naufrágio vos teria tirado. Adquiristes? Bela aquisição, realmente! Experimentai levá-la convosco para o Inferno. O vosso coração, privado da fé, vai para os tormentos, quando iria para a coroa, se estivesse cheio de fé (57)”.

Daquelas palavras do profeta Ageu: “Meu é o ouro e minha é a prata, diz o Senhor dos exércitos” (Ag. 2, 9), o mesmo Doutor toma argumento para estimular os avarentos e lhes diz: “Sim, o ouro e a prata pertencem a Deus e, quando Ele vos ordena distribuí-los aos pobres, ordena-vos dar o que é seu; e a esmola que dais não é de bens vossos, mas daquele que vos ordena dá-la… Deus fornece dinheiro às pessoas caridosas, para que obedeçam à voz da humanidade e exerçam a caridade; aos avarentos, porém, concede-o para castigá-los por sua cobiça. Se vos esforçais por tornar-vos ricos, podeis estar certos de que ofendereis a justiça; se, ao contrário, amais conservar-vos na justiça, sacrificareis as riquezas (58)”.

Ouvi como São Basílio dialoga com o avarento: “A quem faço injustiça, retendo e conservando o que me pertence? — Mas o que é que vos pertence? Não saístes por acaso nus, como todos os outros, do seio de vossa mãe? E não retornareis nus ao seio da terra? Dizei-me, por favor, de quem reconheceis ter recebido esses bens? Do acaso, da fortuna? Mas então sois um ímpio, que desconheceis Aquele que vos criou, e sois ingrato para com quem vos cumulou de dons. Confessais, ao contrário, tê-los recebido de Deus? Mas, nesse caso, dizei-me: por que os recebestes? … O que é que constitui o avarento? Não é por acaso reter para si somente aquilo que pertence a todos? Ó! Quais riquezas estão encerradas nestas palavras: Vinde, ó benditos de meu Pai, tomar posse do reino que vos foi preparado desde a origem do mundo. Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber! etc. De que pobreza espantosa, de que calamidade horrenda não está grávida, ao contrário, aquela sentença: Afastai-vos de mim, ó malditos, e ide para o fogo eterno! … Eu estava faminto e me negastes um pedaço de pão; estava sedento e não me oferecestes um copo de água, etc. Retorquireis que fizestes uso do que era vosso? Pois bem, também Deus usa do que é seu: Afastai-vos de mim, ó malditos. Infelizes, que respondereis vós ao vosso juiz?” (Serm. in verb. Evang. Destruam horea).

14. O AVARENTO É UM IDÓLATRA

“Tornei-me rico, adquiri para mim um ídolo” (Os 12, 8), dizia Efraim, e assim repete o avarento. E qual é o seu ídolo? Ouvi-o do mesmo profeta Oseias: “Do seu ouro e da sua prata fizeram ídolos que os conduzirão à perdição” (Os 8, 4).

“Sabei, escrevia São Paulo aos Efésios, e tende bem presente que nenhum… avarento, que quer dizer idólatra, será herdeiro no reino de Cristo e de Deus” (Ef 5, 5). E por que razão se chama idólatra precisamente o avarento, e não o escravo de outro vício? Eis as razões: 1° porque os avarentos depositam no dinheiro todas as esperanças de sua vida; consideram-no, portanto, seu Deus…; 2° os idólatras adoram estátuas de ouro, de prata ou de outro metal; procedem eles, os avarentos, de modo diferente? 3° a avareza é insaciável…; 4° ela ocupa o homem inteiro e continuamente…

O idólatra adora um vão simulacro; o avarento prostra-se diante de seu ouro. O idólatra serve a um ídolo: o avarento faz-se escravo de seu tesouro. O idólatra faz inclinações e reverências ao objeto de seu culto; o avarento vigia escrupulosamente o seu tesouro. O idólatra confia em seu ídolo: o avarento, em suas riquezas. Aquele não mutilaria por coisa alguma do mundo o seu ídolo: este não tocaria, ainda que o mundo tivesse de perecer, em seu tesouro.

Os avarentos amam e adoram as riquezas, porque todos os seus pensamentos e ações tendem a adquiri-las e conservá-las; a elas consagram o corpo, o coração, a alma, as solicitudes, os trabalhos, os suores, os sonos, as vigílias, a vida. Obedecem inteira e cegamente à sua paixão, e nela depositam toda a sua felicidade e o seu último fim. Por causa dela descuidam do culto de Deus, violam os seus preceitos, negam a sua providência… Os judeus adoraram o bezerro de ouro; os avarentos os imitam.

Está escrito no livro de Daniel que o rei Nabucodonosor ergueu uma estátua de ouro; o povo permanecia de pé diante dela; mas, a um sinal dos arautos, prostrou-se por terra e a adorou (Dn 3, 1). Assim procede o avarento… O bezerro de ouro é o deus deste século.

15. O AVARENTO É MORTAL INIMIGO DE SI MESMO

“O avarento não é bom para ninguém, mas para si mesmo é péssimo”, sentencia Sêneca (59).

Ninguém jamais perde tanto, diz São Cirilo, quanto aquele que perde a si mesmo. O que possuís vós quando a avareza vos domina? Um coração de pedra (Homil. VI). 1° O avarento proíbe a si mesmo o uso de seus próprios tesouros e, por isso, faz-se perseguidor e carrasco de si mesmo: condena-se à fome, à sede, ao frio, ao calor, ao suor, à nudez, a toda privação, à morte. Nenhum anacoreta jamais se submeteu, para ir ao Céu, a mortificações mais penosas do que aquelas a que o avarento se sujeita para ir ao Inferno. Ó! Quantos méritos e títulos poderosíssimos não colheria para o Céu se fizesse por Deus uma parte dos sacrifícios que faz pelo demônio! E, entretanto, não somente não adquire nenhum título às recompensas divinas, como ainda se sobrecarrega de pecados e maldições. 2° O avarento propõe-se acumular para si; em vez disso, acumula para os outros e, às vezes, precisamente para aqueles a quem não desejaria dar sequer um centavo. 3° É agitado pelo temor de perder suas riquezas e de vê-las passar para mãos estranhas. Experimenta continuamente a ferroada de algum espinho: dir-se-ia que faz assentos e leitos com as urtigas e os espinheiros que arranca de suas terras.

O avarento se enfurece contra si mesmo com as privações incessantes: chega a doer-lhe até que se consuma o pão de ervilhaca com que alimenta os servos.

Guardando o dinheiro, o avarento perde a si mesmo; e, enquanto se senta entre os montes de ouro, vê a mais esquálida miséria em sua alma. O coração sangra-lhe quando é obrigado a dar alguma coisa; não dá senão a contragosto, perdendo desse modo os dons e o mérito da cortesia. O avarento mata o seu corpo e a sua alma; perde o tempo e a eternidade…

“A casa do avarento está repleta; a consciência, vazia”, diz Santo Agostinho (60).

16. O AVARENTO É DETESTADO, DESPREZADO, AMALDIÇOADO

“Quem esconde o trigo, dizem os Provérbios (11, 25), será amaldiçoado pelo povo; e quem abre os seus celeiros receberá bênçãos”; em outro lugar lê-se que “o avarento põe em desordem a sua casa” (Pr 15, 27). E de que modo a põe em desordem? 1° Obrigando os familiares, os filhos, a esposa e até os seus animais a trabalhar além de suas forças, e algumas vezes também aos domingos e dias festivos: consome-os, mantendo-os em extrema parcimônia; torna-os seus inimigos, tratando-os com dureza, falando-lhes com altivez, grosseria, cólera e insolência. Agindo assim, obriga-os a murmurar contra ele, a desprezá-lo, aborrecê-lo, odiá-lo, amaldiçoá-lo, a brigar entre si e a competir para lançar uns sobre os outros o enorme peso que lhes impõe. 2° O avarento costuma enriquecer por meio de fraudes, usura e injustiça; e isso não pode acontecer sem lançar a perturbação na casa e sem atrair contra ela as maldições e imprecações de todos.

“Quem quer enriquecer depressa não se mantém na inocência”, dizem os Provérbios (Pr 28, 20); e terá no mundo fama de ladrão e malfeitor. Deus, os homens e os próprios demônios amaldiçoam o avarento, o homem sem coração: Deus o rejeita, os homens o odeiam; e que farão os demônios deste ser inútil? “O avarento é o inimigo comum do gênero humano”, escreve o Crisóstomo (61); e para que, de fato, pode ser útil, lê-se no Eclesiástico, aquele que prejudica até a si mesmo? (Eclo 14, 5). “Ah! não há pessoa pior do que aquela que inveja a si mesma” (Eclo 14, 6); e não é este verdadeiramente o caso e o castigo do avarento?

Lemos que os partos, tendo encontrado no campo de batalha o cadáver do vencido M. Crasso, para indicar o desprezo em que tinham aquele general romano, tão extorsivo e avarento, derramaram ouro fundido em sua boca, dizendo-lhe: “Tinhas sede de ouro: agora bebe-o!” (62).

A ave acompanha-se da ave, o peixe do peixe, a ovelha da ovelha; somente o avarento se aparta de toda sociedade e permanece só…

Detestado e maldito enquanto vive, o avarento ainda o é na morte. Ao expirar, os vivos se alegram; nenhuma lágrima banha seu esquife, nenhum suspiro acompanha seu féretro… De início, fala-se dele com desprezo; depois, deixa-se sua lembrança cair no mais profundo esquecimento. Seu sepultamento será sem honras, porque, por avareza, não quis ocupar-se dele, nem em vida nem no leito de morte, nem de viva voz nem por testamento; e seus herdeiros, que não pensam senão nas riquezas que lhes couberam, não se preocupam com isso. Eis uma justa punição que Deus inflige ao avarento: por ter enterrado o dinheiro, é sepultado sem honra. Todos o abominam, e lhe é recusado um túmulo; quer-se até ignorar o lugar de seu sepultamento, para não mais pensar nele. Sobre o sepulcro do homem benfeitor escreve-se: “Feliz aquele que cuida dos pobres; Deus o salvará no dia mau” (Sl XL, 1); sobre a pedra sepulcral do avarento poderiam ser gravadas aquelas palavras de São Pedro: “Porca revolvida no lamaçal” (II, 2, 23).

17. QUÃO INFELIZ É O AVARENTO

O ouro, que tanto atrai o avarento e do qual ele cuida com o maior zelo, constitui, segundo Santo Agostinho, o objetivo de muitos trabalhos, o perigo daqueles que o possuem, o enfraquecimento das virtudes; é um mau senhor, um servo pérfido (Homil. XI).

O amor das riquezas, já pregava o Crisóstomo, é um veneno, uma doença incurável, um fogo inextinguível, um tirano. As riquezas são perecíveis, ingratas, homicidas, cruéis, implacáveis, feras. São um abismo que devora, um lugar cheio de ciladas e perigos, um mar em tempestade e agitado por mil ventos. O amor ao dinheiro gera inimizades implacáveis; é um terrível adversário que fere quem o ama, despoja quem se reveste dele, obscurece o entendimento, destrói a fé, trai a afeição, perturba o repouso, mata a caridade e a inocência, ensina o furto, ordena a mentira, determina os roubos (Homil. LXIV, in Ioan.). Considerai, diz em outro lugar o mesmo Santo, e meditai, ó avarentos, no que aconteceu a Judas: perdeu o dinheiro, tornou-se culpado de um crime espantoso, condenou sua alma. Assim costuma a avareza tratar aqueles que a servem. Judas não pôde gozar do dinheiro recebido, não gozou da vida presente, não gozará da futura; perdeu, pois, tudo de uma só vez e, desprezado pelos mesmos a quem vendera Jesus Cristo, enforcou-se por desespero (In Psalm.). Não se deve, pois, chamar infeliz o avarento?

A avareza é, segundo o ensinamento de São Paulo, o princípio de todos os males, a origem de imensas penas (1Tm 6, 10). Os avarentos não recuam diante dos remorsos, das perdas temporais, das inquietações; não se afastam da usura, da fraude, da maledicência; não os abala a maldição nem de Deus nem dos homens; e, por fim, precipitam-se no Inferno… Não vos deixeis, pois, seduzir pelas riquezas, exclama São Bernardo, porque amá-las mancha, possuí-las inquieta, perdê-las atormenta (Conv. ad Cler. cap. XII).

“Eis que os pecadores, dizia outrora o Salmista, e os afortunados do século acumularam imensos tesouros… Mas Vós, ó Senhor, os colocastes sobre uma encosta escorregadia e os precipitastes no mesmo instante em que se julgavam salvos. Como caíram num só momento no abismo de tamanha desolação? Faltou-lhes o apoio; a iniquidade foi a causa de sua perdição. Eles não comparecerão, ó Senhor, em vossa cidade santa; desaparecerão como o sonho de um homem que desperta (Sl 72, 12, 18-20). Ah! livrai-me, ó Senhor, dos filhos do estrangeiro: sua boca diz mentiras, suas mãos estão cheias de iniquidade. Seus filhos prosperam como plantinhas em sua juventude, e suas filhas crescem adornadas como o ídolo de um templo. Suas despensas estão cheias e transbordantes; fecundas, suas ovelhas saem em numerosos rebanhos; gordas, suas vacas. Suas muralhas estão livres de ruína e de incursão; nem se ouve um grito lastimoso em suas praças. Feliz, disseram, o povo que possui tais coisas! Ah, não! Feliz, porém, o povo que tem o Senhor por seu Deus” (Sl 143, 11-15).

“Ai de vós, exclama Isaías, que juntais casa a casa, acrescentais campo a campo!” (Is 5, 8). Ai de vós, repete Jesus Cristo, ricos (Lc 6, 24).

Por mais doce que seja a água dos rios, torna-se amarga ao desaguar no mar; eis a imagem das riquezas mundanas. Aqueles que as possuem alegram-se com elas durante os dias de sua vida, mas, chegados ao vórtice da morte, onde tudo é tragado, não encontram senão amargura e vaidade…

18. A AVAREZA É UM DELITO

“Nada há de mais perverso que o avarento… nada de mais iníquo que aquele que ama o dinheiro; porque este põe à venda até a própria alma” (Eclo X, 9-10). Ao comentar esta sentença do Eclesiástico, Salviano escreve: É incontestavelmente verdade que não há pessoa mais perversa que o avarento; pois pode haver coisa pior que converter os bens presentes em princípio de males futuros e empregar, para comprar a morte e a eterna condenação, aquelas riquezas que Deus nos deu para que alcançássemos um bem eterno?

Não há coisa mais perversa que o avarento: porque 1° a avareza é uma grave injúria feita a Deus, a quem se antepõe o ouro. 2° É uma injustiça cometida contra o Estado, que ela inunda de usuras, furtos, fraudes, processos, sedições, homicídios, ódios etc… 3° Prejudica a própria pessoa do avarento, que ela mancha e corrompe e, por fim, precipita no Inferno. 4° É um delito contra os pobres. 5° Violenta o próprio ouro, porque a finalidade e, se assim se pode dizer, a honra do dinheiro está em satisfazer às necessidades comuns dos homens: para isso Deus o criou. O avarento o desvia desse fim, porque o esconde e o aniquila. Mas aquilo que recusa aos homens, concede-o ao Inferno, que lhe compra a alma. 6° A avareza insulta todos os elementos, os céus e a terra… 7° Despreza todas as leis e todas as virtudes.

19. A AVAREZA É A ORIGEM DE TODOS OS MALES E DE TODOS OS PECADOS

É doutrina de São Paulo que a avareza é raiz de todo mal e pecado; por isso recomendava a Timóteo que a evitasse com todas as forças (1Tm 6, 10; 11, 11), advertindo-o de que aquele que deseja as riquezas cai nos laços do demônio e se enreda em mil desejos nocivos que o conduzem à perdição (Ibid. 6, 9). Com isso vem também a dizer que ela corrompe o coração e que, uma vez corrompido este, nele pululam males e pecados de toda espécie. Oh! quantos pobres, quantos homens de condição mediana, que eram flores de honestidade, corromperam-se assim que tiveram a desventura de enriquecer! Tendo Alexandre Magno enviado cem talentos a Fócion, que vivia pobre, este perguntou por que o rei lhe mandava tal soma; e, tendo-lhe respondido: — Porque Alexandre não conhece entre os atenienses ninguém de bom e honesto além de vós —, então, recusando o presente, respondeu: — Se é assim, deixai-me como sou (Elian. lib. XI).

As riquezas são uma terrível ocasião de pecado, escreve Santo Ambrósio, porque incham, ensoberbecem e fazem esquecer o Criador. A avareza não se detém diante de pecado algum, mas é mãe de todos, porque, para aplacar seus desejos, coisa impossível, recorre aos malefícios, torna-se culpada de homicídios, impurezas e toda espécie de delitos (De Cain et Abel).

Os costumes dos romanos, segundo o testemunho de Juvenal, foram corrompidos pela avareza. Depois que a pobreza desapareceu de Roma, nela surgiram e se instalaram os crimes e as corrupções de toda espécie (63).

A avareza zomba de todo direito… As riquezas são ocasião de vaidade, de luxo, de glutonaria, de embriaguez, de preguiça e de todo excesso… Diz-se de Naamã, general dos exércitos do rei da Síria, que era um homem rico, mas leproso (2Rs 5, 1). A lepra do pecado é inseparável da avareza; ou melhor, a avareza é uma lepra que cobre e infesta o homem inteiro.

A avareza gera a incredulidade: não teme nem a Deus, nem o seu terrível juízo, nem o Inferno. Os avaros desprezam a religião, maltratam os santos preceitos de Deus e da Igreja; e, como um crime conduz a outro, não acontece que o rico avaro, crescendo em orgulho, em ambição, em injustiça e em toda sorte de desordens, não caia afinal na heresia, no ateísmo e na idolatria. Sim, o desejo das riquezas inspira, como já advertia o Crisóstomo, o perjúrio, o furto, as pilhagens, a inveja, as matanças, o ódio entre irmãos, a guerra, a hipocrisia e a adulação (64).

Que são, afinal, as riquezas terrenas, acrescenta São Cirilo, senão o estímulo das paixões, o foco da cobiça, a presa da morte? Engenhosamente cruel, a avareza martiriza, pelas mãos de cada vício, aqueles que a servem: corrompe-os, cega-lhes o entendimento, macula-lhes o corpo, destrói-lhes as virtudes; nada escapa ao seu furor (Homil. X). Por isso, com toda razão, São Isidoro sentencia que “quem arde de desejo pelas riquezas, esse está inflamado pelo sopro da inspiração de Satanás (65)”.

Em uma de suas orações contra Verres, Cícero diz: “Nada há de tão santo que não possa ser violado, nada de tão bem defendido que não possa ser conquistado pela avareza (66)”; e Laércio chama-a de metrópole de todos os vícios.

Filhos da avareza são: a traição, a fraude, os enganos, o perjúrio, a violência, a inquietação, a desumanidade, a dureza de coração etc…

20. A AVAREZA É UM SINAL DE REPROVAÇÃO

É palavra de Jesus Cristo que ninguém pode dedicar-se ao mesmo tempo a Deus e ao dinheiro (Mt 6, 24). Ora, aquele que não serve a Deus não pode ser salvo… O Filho do Homem, observa São Jerônimo, não tinha onde reclinar a cabeça; e vós nadais nas comodidades! Ah, aspirais à herança do século; não podereis, portanto, ser coerdeiros de Jesus Cristo, pois o discípulo do Homem-Deus não tem fora dele outro tesouro (Comment. in. Matth.).

São Gregório ensina que os eleitos buscam o Céu, e os réprobos, as riquezas da terra (Lib. Moral.). E desde quando, afinal, se viu um santo prezar a riqueza e trabalhar para alcançá-la? … O avaro não ambiciona senão os bens daqui de baixo; dos eternos não se importa absolutamente nada… Ora, São Paulo nos assegura que “o homem colherá aquilo que tiver semeado” (Gl 6, 8).

21. CONDENAÇÃO DA AVAREZA

Jesus Cristo prova a culpabilidade do avaro por sete razões: 1° porque a alma vale mais que o corpo…; 2° ao colocar diante de nós o exemplo das aves, que Deus alimenta…; 3° porque toda a nossa solicitude é vã se não for auxiliada por Deus…; 4° recordando-nos que as florzinhas e as ervas dos campos não fiam absolutamente nada e, entretanto, Deus as veste e adorna…; 5° porque correr atrás dos bens daqui de baixo é imitar os pagãos…; 6° porque Deus conhece as nossas necessidades…; 7° porque basta a cada dia a sua pena…

Este é o castigo com que Deus pune muitos homens; este é o argumento de condenação para muitos que trabalham muito e sem Deus: trabalho perdido… “Pereça o teu dinheiro contigo”, dizia São Pedro ao avaro Simão (At 8, 20).

22. CASTIGOS QUE A AVAREZA ATRAI

Sigeberto e Baronio narram um terrível castigo da cólera divina contra a avareza. No ano 605 de Jesus Cristo, as provisões de víveres de um navio pertencente a um avaro transformaram-se em pedras, porque o piloto respondera a um mendigo que pedia esmola que a nave não continha outra coisa senão pedras; ao que o pobre, indignado e desesperado, acrescentara que desejava que assim fosse.

Ateneu narra três outros castigos infligidos pelo Céu à avareza (Deipnosoph. lib. II). Eis o primeiro. A fava não medra na Grécia; aconteceu, porém, que, durante dois anos e sem que ninguém a tivesse semeado, uma grande quantidade dela surgiu nos pântanos do Epiro. Produziu vagens em abundância e serviu para alimentar os numerosos pobres da região. Ora, tendo Alexandre, filho de Pirro, proibido que se tocasse nessa colheita, os pântanos secaram e as favas desapareceram para sempre.

Outro exemplo ainda nos oferece a história do Epiro. Corria nesse país um riacho cuja água era de maravilhoso alívio para os enfermos. Mas, assim que os agentes fiscais de Antígono, por avareza, impuseram uma taxa aos que dela bebiam, a água perdeu toda a sua virtude e, por fim, a fonte acabou por secar.

Terceiro exemplo. Na Tróade, enquanto cada um foi livre para retirar de Tragusa o sal de que necessitava, jamais faltou essa substância. Lisímaco sujeitou-a a um imposto, e ela desapareceu; estupefato, retirou a taxa, e eis que o sal reapareceu prontamente.

Isso demonstra que a avareza impede os dons de Deus e resseca a fonte de suas maravilhosas liberalidades; pois esse Deus, que derrama abundantemente seus benefícios sobre todos os homens, não permite que os avarentos deles façam provisão ou monopólio.

Testemunhas dignas de fé atestam que, no ano de 970, tendo um avarento, por desprezo, dado aos pobres o nome de ratos, viu-se, por efeito da vingança divina, devorado por uma multidão desses pequenos animais. Tampouco se admira disso quem recorda a palavra do Senhor, que disse pela boca do Salmista: “Por causa da miséria dos indigentes e ao som dos gemidos dos pobres, eu me levantarei para socorrê-los” (Sl 11, 6); e dizia ao povo de Israel pela boca de Isaías: “A avareza deste povo me causou náusea, e eu o feri; em minha indignação, escondi-me dele, e ele vagou errante segundo os desejos de seu coração” (Is 57, 17).

Deus pune o avarento tirando-lhe o uso de seus bens…, privando-o deles etc. Vede Giezi: ele é acometido pela lepra por causa da avareza (2Rs 5). Os avarentos repelem os bons sentimentos do coração; são insensatos, cegos, surdos; direi mais: estão mortos para a vida espiritual. Eis um exemplo dos terríveis castigos que atingem o avarento.

Vós vos queixais, diz São Cipriano, da seca e da miséria, como se a seca trouxesse maior carestia que a avareza. Vós que fechais os celeiros aos pobres, não tendes nenhuma razão para vos queixar de que o céu retenha as nuvens. A causa de todos esses males é a vossa avareza. Vossas colheitas apodrecem no seio da terra, como punição daquilo que injustamente retendes e deixais corromper-se em vossas despensas. Não há dúvida de que a avareza seja, na maioria das vezes, a causa das desgraças públicas e privadas (67).

O avarento deveria gravar em sua mente aquelas palavras de Jó já citadas acima (Jó 20, 35): “O avarento vomitará as riquezas que devorou; Deus lhas arrancará das entranhas”.

Diz-se por provérbio que a fortuna adquirida desonestamente não chega à terceira geração. Judas é ávido de dinheiro e prepara, sem o saber, a corda que deve estrangulá-lo; antecipa a própria morte e conquista o Inferno. Por avareza, os judeus temem pôr a nação em risco: renegam Jesus Cristo e fazem-no condenar, mas perdem a graça da salvação, a nação e a si mesmos.

23. CONDENAÇÃO DO AVARENTO

No dia do juízo, Jesus Cristo dirá aos avarentos alinhados à sua esquerda: “Afastai-vos de mim, malditos; ide para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus anjos; porque eu tinha fome e não me destes de comer etc. E estes irão para o suplício eterno” (Mt 25, 41-46). Ora, comenta aqui São Gregório: “Se tão terrível pena atinge aquele que não fez esmola, que juízo, que castigo não deve esperar aquele que rouba os bens alheios? (68)”.

Os avarentos são condenados ao fogo preparado para o demônio, porque imitaram o demônio cruel e impiedoso. Por isso, o Crisóstomo, comentando aquelas palavras do Evangelho: “Morreu o rico avarento e foi sepultado no Inferno” (Lc 16, 22), exclama: “Vede que belo proveito vos dão o ouro e as riquezas!” (Serm. In Laz.). E São Tiago já os havia advertido de que, com a sua avareza, acumulariam um tesouro de vingança para o último dia (Tg 5, 3).

São Gregório de Tours diz que o avarento, no Inferno, não encontrará, para matar a sede, senão ouro derretido misturado com enxofre (De Avarit.).

No Inferno, os avarentos serão atormentados por uma fome cruel, por uma sede lancinante, por uma pobreza inconcebível, por uma nudez absoluta… “Sua prata, como diz Ezequiel, será lançada fora, e o ouro irá para o meio das imundícies. Nem o ouro nem a prata deles poderá salvá-los no dia do furor do Senhor, nem poderá saciar-lhes a alma nem encher-lhes o ventre, porque foi ocasião de tropeço para a sua maldade” (Ez 7, 19).

Relembrem os avarentos que nem as riquezas, nem os tesouros, nem os filhos, nem as esposas, nem os netos, nem os parentes, por eles enriquecidos contra a consciência e com dano para a alma, jamais poderão livrá-los da cólera divina, da morte eterna e do Inferno. “Não, não; vós não encontrareis misericórdia, ó avarentos cruéis, diz São Basílio. Não abristes vossas casas aos pobres e encontrareis fechadas as portas dos Céus. Negastes um bocado de pão ao faminto: a vós será negada a vida eterna (69)”.

24. JUÍZOS DOS PAGÃOS SOBRE A AVAREZA

Crates de Tebas lançou ao mar todas as suas riquezas, para poder dedicar-se mais inteiramente à filosofia, dizendo: “Prefiro perder-vos a que vós me percais (70)”.

Na opinião de Demócrito, a avareza é mais miserável que a pobreza mais extrema (Maxim. Serm. XII). Com efeito, quanto mais ardente é o desejo de possuir, mais se sente a própria indigência.

Diógenes comparava os avarentos aos hidrópicos e exclamava: “Não é coisa vergonhosa para o avarento possuir tantos bens e não ser senhor de si mesmo? (71)”.

Sócrates dizia que vale tanto pedir um favor a um avarento quanto pedir uma conversa a um morto (72).

Platão dizia ao avarento: “Ó miserável, não te afadigues tanto em aumentar tua fortuna quanto em extinguir a cobiça (73)”.

Aristóteles observava que os avarentos procedem como se jamais tivessem de morrer, porque nada dão e tudo conservam (Ethica).

Plutarco observa que Licurgo baniu de Esparta as riquezas e a avareza. Por isso, Esparta manteve, durante seiscentos anos, a primazia na Grécia, tanto pela equidade de suas leis quanto por sua glória. Depois, o oráculo predisse ao rei Teopompo que o amor ao dinheiro haveria de arruinar os espartanos, o que aconteceu.

Jugurta exclamava, dirigindo-se a Roma: “Ó cidade venal, que perecerás assim que tiveres encontrado um comprador! (74)”.

O rei Afonso chamava seus ministros avarentos de harpias de sua corte (In Vita). “Ter fortuna e uma boa alma são coisas quase incompatíveis entre si”, sentenciava Sêneca (75).

25. POR QUE NOS SÃO DADAS AS RIQUEZAS

“O ouro e a prata são coisas boas, diz Santo Agostinho, não porque te tornam bom, mas porque te servem para fazer o bem (76)”. “Empreguemos, pois, nossas riquezas, adverte São Pedro Damião, em ganhar almas e adquirir virtudes (77)”. “As riquezas são boas, diz Santo Ambrósio, quando, abrindo vossos celeiros, vos tornais o pão dos pobres, a vida dos indigentes, os olhos dos cegos, o pai dos órfãos (78)”,

26. É PRECISO IMITAR O SOLDADO

“Eis a advertência que te recomendo, escrevia São Paulo a Timóteo: que combatas segundo as leis da santa milícia” (1Tm 1, 18).

Ouvi São Basílio: Onde está Jesus Cristo, nosso rei? No Céu; para lá deveis, ó soldados de Jesus Cristo, manter fixo o olhar, esquecendo as coisas terrenas. Vede o soldado: não constrói morada, não compra propriedades, não se envolve no comércio, não se desgasta pelo lucro. O soldado veste o uniforme que lhe é fornecido pelo rei; arma a tenda nas praças públicas; come somente quando a necessidade o exige; bebe água; dorme apenas o quanto requer a natureza. Está frequentemente em viagem, e muitas vezes ainda vigia durante a noite; suporta o frio e o calor; exercita-se na paciência; trava combates terríveis e perigosos com os seus inimigos; muitas vezes, é verdade, encontra a morte, mas esta é gloriosa, honrada e louvável. Tal deve ser a vossa vida, ó soldados de Jesus Cristo. O pensamento dos bens eternos sustente a vossa coragem. Propõe-vos viver aqui embaixo como se não tivésseis morada nem bens. Rompei os laços da avareza, e que nenhuma preocupação vos aperte em demasia. Não permitais que o afeto devido à vossa esposa vos acorrente, nem que a excessiva ansiedade pelos filhos vos roube todo o coração. Imitai o Esposo celeste: derrotai os inimigos que frequentemente vos assaltam; expulsai-os do coração; não lhes deixeis nenhuma brecha aberta; frustrai as tramas que se urdem contra a fé em Jesus Cristo; tramas cujo objetivo é tornar-vos traidores e apóstatas… (Praef. in Ascet. ser. 1).

«A piedade e o necessário para a vida já são uma grande riqueza, diz São Paulo; porque nada trouxemos conosco para este mundo, e é certo que nada levaremos quando partirmos. Portanto, quando não nos falta o que comer e o que vestir, estejamos satisfeitos» (1Tm 6, 6-8).

27. É PRECISO FUGIR DA AVAREZA

São Paulo queria que os seus efésios se mantivessem tão afastados da avareza, que nem sequer se fizesse menção dela entre eles, como convém a santos (Ef 5, 3); e recomendava aos hebreus que fossem, em seus costumes, puros de avareza; que se contentassem com o que tinham, porque Deus empenhou a sua palavra de que não nos abandonará nem se esquecerá de nós (Hb 13, 5).

O autor dos Provérbios pedia a Deus que não lhe desse nem a pobreza nem as riquezas, mas somente o necessário para a vida, porque temia que, na abundância dos bens, chegasse a negar a Deus e a dizer-lhe descaradamente: Quem é o Senhor? Ou, impelido pela miséria, se entregasse ao furto e jurasse falsamente pelo nome de Deus (Pr 30, 8).

«Não deixemos que o ouro fale, diz São Gregório Nazianzeno, porque, quando ele fala, toda súplica é forçada a permanecer sem resposta (79).» Ah! não damos atenção à voz do pobre, não atendemos à sua oração, quando o som do ouro retine em nossos ouvidos…

Jamais nos saiam da mente estas palavras de Jó: «Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá» (Jó 1, 21). Orígenes, em seus Comentários sobre o livro I de Jó, comenta assim o texto citado: O demônio não poderá zombar de mim: saí nu do ventre de minha mãe, e nu serei depositado na terra. Nada possuía quando vim, nada peço para partir: não levava um fio comigo ao nascer, nem um fio levarei ao partir. Irei embora despojado e sem dinheiro, mas também sem pecado; sem tesouros, mas igualmente sem culpas; sem riquezas, mas sem injustiças; pois muitas vezes a injustiça é companheira da fortuna. Partirei sem arrastar comigo nem um pouco sequer de maldade, ira, orgulho ou avareza; estarei livre de todo esse fardo. Não terei lugar entre aqueles dos quais se diz: Por não terem vestes, foram vestidos de chamas infernais. Partirei puro de toda maldade, mas senhor de todo bem, vestido de justiça, revestido de santidade, adornado de caridade, coroado de misericórdia e de boas obras. Ah! Felizes aqueles, ó glorioso Jó, que vos tiverem imitado: aqueles que, a vosso exemplo, puderem dizer: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu retorno à terra! Mas ai daqueles que, tendo vindo nus a este mundo, dele partirão carregados de iniquidades e injustiças de toda espécie! Experimentarão a indignação e o castigo no justo juízo de Deus, onde não haverá acepção de pessoas.

Fugi do ouro, exclama São Cirilo (Apologet. lib. III), desprezai as riquezas, apag ai as chamas da avareza; porque as riquezas, em vez de enriquecerem a alma, empobrecem-na e a tornam escrava do vício. Não ameis nem busqueis senão a virtude, este bem sólido e verdadeiro; então serão satisfeitos os vossos desejos.

28. AVAREZA ESPIRITUAL

A avareza espiritual consiste em não se dedicar suficientemente à instrução, ao ensino, à oração e ao auxílio do próximo. Quem é tíbio e relaxado no serviço de Deus é avaro dos dons celestes que recebeu; pouco se aproveita deles e, com dificuldade e má vontade, os comunica aos outros. Deus se ira contra tal avaro; muitas vezes lhe tira os bens que lhe concedeu, permite que se entregue a todos os apetites desregrados e se perca…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.