Tesouro n.º 221 · Volume III

VIDA RELIGIOSA INTERIOR VITA RELIGIOSA INTERIORE

20 seções · 70 parágrafos · pp. 2438–2466 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A VERDADEIRA VIDA RELIGIOSA E SEUS DEVERES

São Jerônimo traça este esboço dos deveres de um religioso: no convento, é preciso guardar o silêncio e praticar a mansidão; não fazer segundo o nosso capricho; comer o que nos é servido; usar os hábitos que nos são destinados; cumprir o nosso ofício. É preciso que vos sujeiteis, ainda que vos pareça duro; que vades para onde sois chamados, embora vos sintais cansados; que vos levanteis, apesar de o sono vos pesar, por não terdes dormido o bastante. Deveis rezar o vosso ofício, segundo a ordem estabelecida, buscando nele não a doçura da voz, mas o afeto do coração; servir os vossos irmãos, receber as ofensas sem lhes responder; temer os superiores como senhores, amá-los como pais, estar convencidos de que tudo quanto ordenam é salutar, não julgá-los; ter bem presente que a obediência é obrigatória em tudo o que é ordenado. Cuidai para que as pessoas do outro sexo conheçam o vosso nome, mas não o vosso rosto (Epist. ad Rustic.).

Não fala de modo diferente São Basílio: Convém que um religioso seja instruído, puro no falar, modesto no olhar, paciente nas tribulações; que tenha a alma elevada a Deus, se alegre na esperança, ore continuamente e dê graças em tudo; não deve dar ouvido facilmente ao que se diz de mal a respeito de outro; não ser escravo de nenhuma má afeição; não se vingar, esquecer as injúrias, receber as humilhações, jamais infligi-las; não se entregar ao tédio, não cuidar de outra coisa senão de agradar a Deus, que o vê; deve ser fervoroso, amar a Deus de todo o coração, cumprir as suas ordens e, ao mesmo tempo, considerar-se um servo inútil; nada fazer por vanglória, mas tudo por Deus (Serm. de Ascens.).

Foi sobretudo para os religiosos que se disseram aquelas palavras: «Preparai os vossos corações para o Senhor e não sirvais senão a ele» (1Sm 7, 3). É próprio das pessoas perfeitas, diz Teodoreto, entregar inteiramente o próprio coração a Deus e consagrar-lhe toda a alma. Pois aquele que divide seus pensamentos entre Deus e as coisas daqui de baixo, entre a vida presente e a futura, não pode dizer com verdade, como o Salmista: Eu vos louvarei, ó Senhor, com todo o afeto do meu coração (In Psalm.). Quem renuncia ao século é, segundo São Cipriano, maior que todas as honras e todos os reinos do século. Por isso, quem se consagra a Deus e a Jesus Cristo não deseja nada de terreno, mas unicamente as coisas celestes, somente a Deus (Serm. in Orat. Domin.).

Em sua cela, o religioso deve ser uma rola que gema e suspire continuamente por Deus; no coro, um rouxinol que cante com zelo e edificação; no capítulo, um pelicano que se dilacere, condenando sempre a si mesmo; uma pega na acusação, para dizer tudo o que é preciso; um pavão no dormitório, para caminhar com leveza; uma águia na sala de estudo e dos exercícios, para ter elevados os olhos do espírito; uma pomba na recreação, para manter a união com os irmãos; uma ave de rapina nas instruções, para capturar as almas e levá-las a Jesus Cristo; um pardal no refeitório, para comer sem murmurar os alimentos que lhe são dados, ainda que sejam muito simples… São Jerônimo diz de Santo Antônio e de Santo Hilarião que eles não amavam senão o silêncio e a vida desconhecida (Epist.).

Diz Santo Euchério: Considerai, meus irmãos, a vossa vocação; vir para a solidão é suma perfeição; não viver como perfeitos na solidão é suma condenação. De que adianta que o lugar respire silêncio e tranquilidade, se o tumulto e o combate das paixões estão dentro daqueles que nele habitam? Se a serenidade reina exteriormente, enquanto a tempestade sacode e transtorna o interior? Costumamos contar os nossos anos a partir do tempo que vivemos, mas, quem quer que sejais, não vos iludais quanto ao número dos dias e dos anos que passastes no retiro, depois de haverdes abandonado o mundo, pois destes podeis contar somente aqueles em que imolastes e matastes a vossa vontade, resististes aos maus desejos e passastes sem nenhuma violação da regra. Crede-me: não vivestes senão aquele dia que não foi manchado nem de malícia, nem de ódio, nem de orgulho; aquele dia em que não consentistes no pecado ou confundistes o demônio; não vivestes senão o dia que foi iluminado pela piedade e pela santa meditação. Não conteis em vossa vida outro dia senão aquele em que vos afadigastes por vossa alma. Ah! sede cheios de zelo para combater com santo ardor; esteja cada um de vós sempre pronto para a obra de Deus, fervoroso na oração, atento à leitura, puro em tudo, sóbrio, modesto em todo lugar, abundante em lágrimas, sincero de coração, doce, moderado, pouco inclinado ao riso, entregue à compunção, grave, inflamado de caridade (Homil. 9, ad Monach.).

«Que coisa é um religioso? pergunta São Gregório, e responde: É um homem que vive segundo a regra e segundo Deus» (Orat. de Fuc.). Por isso São Bernardo exclama: «Que estultícia, antes, que loucura não é a nossa, por havermos abandonado coisas importantes e agora nos apegarmos com tanta paixão e com tanto risco a ninharias! (1)». Em outro lugar, o mesmo Santo nos retrata assim o verdadeiro religioso: Quando virdes um religioso humilde em sua perseverança, paciente entre os opróbrios, profundamente respeitoso para com os superiores, afável no trato, lento no falar, amante do silêncio, que se dedica à leitura em sua cela, que louva a Deus na igreja com seu canto, que bendiz a Jesus Cristo com terna devoção, que chora, se não continuamente, ao menos todos os dias; sóbrio no comer, pronto para a obediência, cortês com todos, humilde em tudo, modesto em toda parte, que bate à porta do céu com sua oração, que eleva do coração contínuos clamores a Deus, que ama e respeita os outros, sem cuidar de si mesmo, que mortifica a própria carne, então podereis dizer: Este religioso observa o preceito do seu Criador. Oh, como é feliz e contente um tal religioso! (Serm. 9, in Coena Dom.).

Oh! como convêm bem ao religioso aquelas palavras de Baruc: «Jerusalém (alma consagrada a Deus), levanta-te e mantém-te acima de todas as coisas terrenas» (5,5); e aquelas outras de Habacuc: «A pedra clamará contra ti do meio do muro, e a madeira que une as paredes falará de ti» (Ab.2,11). As pedras, as madeiras, os muros, os móveis, a casa, a cela se levantarão no dia do juízo contra o religioso que tiver vivido indignamente em lugares tão santos e dedicados a Deus; que tiver dado escândalo com a sua tibieza, com o seu orgulho, com a sua desobediência, com a sua desregramento, e clamarão contra ele com Isaías: «Ele fez o mal na terra dos Santos, não verá a glória do Senhor» (Is. 26, 10). Assim clamou a pedra contra o sacrílego Baltasar, no momento em que profanava os vasos sagrados, pois foi vista no muro uma mão que escrevia (Dn.5, 25-28). Ora, se esse religioso quer condenar-se no claustro, na terra dos Santos, por que não permanecer antes na terra dos mortos?

2. O BOM RELIGIOSO DEVE RENUNCIAR AO MUNDO

«Quem deseja possuir Deus renuncie ao mundo, diz São Próspero, para que Deus forme a sua feliz posse (2)». E, com efeito, como observa Orígenes, quem se consagra a Deus é considerado estrangeiro à terra, como alguém que está fora do mundo (3). Que poderá invejar ao mundo, pergunta São Cipriano, aquele que é maior que o mundo? Ah! desprezemos, como leve, vão, enganador e indigno do nosso coração, tudo o que está sob o céu (Serm. in Orat. Domin.). «Tudo o que nasceu de Deus, escreve São João, torna-se vitorioso do mundo» (1Jo 5, 4).

Um bom religioso jamais deve esquecer aquelas palavras de Jesus Cristo: «Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino dos céus» (Lc 9,62). Lembre-se de que a mulher de Lot foi transformada numa estátua de sal somente por ter olhado para trás e quase se arrependido de haver deixado Sodoma (Gn 19,26). Recorde que o povo de Deus foi exterminado no deserto por ter murmurando e mostrado pesar por haver abandonado o Egito (Nm 21,4-6). Depois do dilúvio, Noé soltou da arca a pomba, para saber por esse sinal se as águas já haviam desaparecido da terra; mas, não tendo encontrado onde pousar o pé em terra seca, ela voltou para a arca, e Noé, estendendo a mão, tomou-a e tornou a colocá-la dentro (Gn 8,8-9). O religioso deve imitar a pomba; e, visto que o mundo está coberto por um dilúvio de iniquidades e escândalos, de modo que não se encontra lugar onde repousar sem perigo de perder a alma, deve considerar-se afortunado por ter saído dele… Ó Deus! E que grande coisa se deixa, afinal, quando se abandona o mundo?

O religioso não deve somente abandonar o mundo, mas despojar-se de tudo o que tem sabor de mundo; para ele, especialmente, o Espírito Santo proferiu esta sentença: «Agora, despojai-vos de todas as coisas, até mesmo de vós mesmos e do homem velho com suas obras; e revesti-vos do homem novo, daquele homem interior que se renova no conhecimento, à imagem daquele que o criou» (Cl 3,8-10). Isto quer dizer que o religioso deve despojar-se de tudo o que há nele, não menos do que daquilo que está fora dele; do mundo que o rodeia e do mundo que traz no coração. A este respeito, diz admiravelmente São Bernardo: Há em cada pessoa dois homens: o velho e o novo; o velho Adão e o novo Cristo; aquele, terreno; este, celeste; a imagem daquele é a velhice ou antiguidade, a imagem deste, a juventude ou novidade; e tanto uma como outra são tríplices. Com efeito, há velhice no coração, na boca e no corpo; por isso pecamos de três modos: pelo pensamento, pelas palavras e pelas obras. No coração encontra-se a velhice dos desejos terrenos e animais, isto é, o amor da carne e do século. Na boca está a velhice da arrogância e da maledicência. No corpo, as iniquidades e as injustiças. Todas essas coisas representam a imagem do homem velho e, portanto, todas devem ser renovadas em nós. Seja renovado o coração e libertado dos desejos terrenos e carnais, para que nele se introduza o amor de Deus e da pátria celeste. Purifique-se a língua da arrogância e da maledicência, e ponha-se em seu lugar o louvor de Deus e o falar bem do próximo. Em lugar das injustiças e dos malefícios do corpo, ponham-se a continência e a equidade, para que, pelas virtudes contrárias, sejam destruídos os vícios opostos (Serm. 30, inter Parvos).

3. NECESSIDADE DA DISCIPLINA

Eis como fala São Cipriano da disciplina: «A disciplina é a guardiã da esperança, o vínculo da fé, a guia no caminho da salvação, o estímulo e o alimento de uma boa índole, a mestra da virtude. Ela nos faz permanecer constantemente em Jesus Cristo e viver sempre de Deus; alcançar as promessas celestes e obter o prêmio eterno. Observá-la é salvação; negligenciá-la e odiá-la é morte (4)». A disciplina é a instrução e a formação dos costumes para a regularidade em tudo e para a virtude… O peso da disciplina é suave, diz Santo Agostinho; o jugo do Senhor é leve; não oprime senão aqueles que estão perdidos ou que se perderão (5).

4. AS PROVAÇÕES SÃO NECESSÁRIAS

«Deus os conduziu por um caminho maravilhoso, e serviu-lhes de abrigo durante o dia e de tocha durante a noite» (Sb 10,17). Essas palavras, ditas a respeito do modo como Deus conduziu Israel pelo deserto, são adequadas para indicar o caminho maravilhoso, isto é, o modo admirável com que Deus guia os seus eleitos pelo deserto desta vida. Através dos perigos, das emboscadas, dos inimigos, dos trabalhos, das tentações, das cruzes e dos suplícios, ele os faz chegar à terra dos viventes, que lhes foi prometida. A guia por esse caminho é a coluna de fogo e de nuvem, isto é, o Espírito Santo, que ilumina os Santos em suas dúvidas, os abriga e protege nas adversidades e em meio ao calor ardente das paixões; aquece-os e inflama-os na tibieza e em meio ao gelo da pusilanimidade. Considere o religioso, o justo, os caminhos pelos quais a sabedoria divina o guia, o conserva e o faz progredir durante o tempo de sua vida, e ficará surpreso, maravilhado, arrebatado, e dará a Deus sinceras e contínuas graças…

1° Aguardam o religioso provas da parte de Deus, e de duas espécies: a prova das consolações espirituais…, a prova das aridezes… 2° Provas da parte dos superiores… 3° Provas da parte dos parentes, do mundo etc…. 4° Provas da parte da regra… 5° Provas da parte do demônio…

5. ALIMENTO, CONVERSAÇÃO, CLAUSURA

Sobriedade…; abstinência…; jejum…; assim deve ser toda a vida de um religioso… São Jerônimo diz: Seja pobre, comum e pouco frequente o vosso alimento; consista em ervas e legumes. Quem deseja Jesus Cristo e se alimenta deste pão dá pouca atenção a qualquer outro alimento (Epist. ad Paul.).

«Sede santos em toda a vossa conduta», diz o Apóstolo São Pedro (1Pd 1,15).

Ao religioso, Jesus Cristo diz, no dia de seu ingresso no claustro: «Não sairá mais» (Ap 3,12); porque «és um jardim fechado e uma fonte selada, ó minha irmã, minha esposa» (Ct 4,12). A profetisa Ana jamais se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia, com jejuns e orações (Lc 2,37). Assim fazem os bons religiosos que amam o claustro… Eu sou a porta que conduz à perfeição, diz Jesus Cristo; quem quer que entre por mim (no claustro) será salvo e encontrará abundantes pastagens (Jo 10,9).

6. VIDA OCULTA

A todos os cristãos, mas de modo especial aos religiosos, dirigem-se aquelas palavras de São Paulo: «Vós estais mortos, e a vossa vida está escondida em Deus com Jesus Cristo. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória» (Cl 3,3-4). A vossa vida está escondida… O mundo não vê a vossa vida, a vida divina da graça que mereceis e que possuís; não vê a glória que vos espera, mas a verá quando Cristo aparecer. Assim como o solo encerra em suas entranhas as minas, as raízes e a seiva das árvores, assim a virtude dos humildes e dos bons religiosos permanece aqui embaixo escondida, tanto deles como de Deus… «Toda a glória da filha do rei é interior e escondida» (Sl 54,14). Jesus Cristo opera silenciosamente, por meio de sua graça, naquela alma, e a beleza, as riquezas e o esplendor com que a adorna encontram-se no interior dela.

A vida de um religioso é chamada vida escondida porque: 1° o mundo ou ignora, ou aborrece e considera como uma morte a prática extraordinária de uma vida piedosa, santa e interior… 2° O religioso segundo o coração de Deus esconde sua vida celeste sob o véu da humildade… 3° A graça e a virtude, alma desta vida espiritual, permanecem escondidas no fundo do coração… 4° Os bons religiosos guardam-se de tudo o que tenha sabor de cobiça secular ou de conversação mundana… 5° Os verdadeiros religiosos escondem-se no amor de Deus e na contemplação interior… 6° A vida da glória, que os bons religiosos esperam e aguardam, está inteiramente fora do olhar humano: «Os bons se escondem, diz Santo Agostinho, porque o seu bem permanece oculto; não é visível e corporal aquilo que amam, mas tanto os seus méritos como os seus prêmios encontram-se em lugar recôndito (6)». Têm a aparência de árvores secas, despojadas de folhas, isto é, mostram-se sem fausto, sem vaidade e sem ornamento; mas interiormente possuem uma raiz, uma seiva vivificante, a caridade de Deus, radicada e viva no solo vivificante do céu…

Presentemente, a vida das pessoas espirituais assemelha-se ao inverno…; mas virão a primavera, o verão e o outono, isto é, a revelação de Jesus Cristo, e elas aparecerão cheias de vida e de esplendor, ressuscitando na glória e para a glória. Quando Cristo, sua vida, aparecer, então também elas aparecerão com ele na glória; isto é, como explica Santo Anselmo, terão, tanto na alma como no corpo, as qualidades da bem-aventurança de Jesus Cristo. Não interpreta de outro modo esta passagem Santo Agostinho: No tempo do inverno, diz ele, até a árvore viva parece morta; não há folhas, nem flores, nem frutos; chega a primavera, e eis que a raiz, que escondia em si a seiva e a vida da planta, produz folhas, flores e frutos por meio dos ramos, e todo o tronco reverdece. Assim, o nosso inverno é o tempo em que Jesus Cristo permanece escondido para nós; o nosso verão é o tempo de sua manifestação. Vós estais mortos, escreve o Apóstolo, e a vossa vida está escondida em Deus com Cristo. Estais certamente mortos, mas mortos exteriormente, vivos pela raiz. Esperai, porém, que chegue o verão, e então, como diz São Paulo: Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis na glória. Ó amabilíssimo Jesus, eis, pois, o pacto que quero fazer convosco: morrerei inteiramente para mim mesmo, conservarei a vida escondida, observarei o silêncio, para que vós faleis em mim; repousarei inteiramente, para que somente vós opereis em mim (Serm. CXII, de Temp.).

Escondida foi a vida dos anacoretas, dos eremitas e dos monges… Escondida foi a vida dos primeiros cristãos, dos mártires e dos confessores; as catacumbas, os antros e as cavernas foram, durante mais de trezentos anos, os únicos templos em que se congregavam. Neles e em todos os que amavam a vida solitária e escondida cumpriram-se aquelas palavras do Espírito Santo: «Percorreram desertos inóspitos, armaram suas tendas em terras solitárias. Fizeram frente aos seus inimigos e repeliram os que os assaltavam. Tiveram sede, invocaram o Senhor, e uma fonte jorrou para eles do alto de um rochedo» (Sb 11,2-4). No deserto caiu o maná; Deus manifestou sua vontade, deixando-se ver e dando sua lei… Quantos prodígios Deus não opera na vida escondida! Quantos favores não recebe aquele que a ela se consagra!

Quem possui um tesouro, mantém-no escondido; as pedras preciosas são fechadas à chave dupla no cofre; somente a pedra comum e sem valor é lançada à estrada e às vias públicas, para ser pisada… Quem morreu para as criaturas e para si mesmo ama a vida escondida e desconhecida. E necessária é esta morte, porque, diz São Gregório, «se não morrermos para o século, jamais poderemos viver para Deus por meio do amor (7)». Por isso São Paulo fazia aqueles protestos e exclamações: «Por amor de Jesus, o mundo está crucificado e morto para mim, e eu estou crucificado e morto para o mundo» (Gl 6,14): «Estou pregado à cruz de Cristo e vivo da vida dele» (Gl 2,19-20). «A minha vida é Jesus Cristo» (Fl 1,21).

Os verdadeiros religiosos, conhecidos somente por Deus e ignorados pelo mundo, servem a Deus por todo o mundo, derramam lágrimas e as oferecem a Deus, para enxugar o mundo de seus delitos. Às suas contínuas e fervorosas orações o mundo deve a sua existência. Sabe viver bem aquele que sabe viver escondido; vivei escondidos, morrei desconhecidos e, naquele grande dia que encerrará os séculos, que será o crepúsculo do tempo e a aurora da eternidade, merecereis, por terdes fugido do mundo, ser coroados juntamente com os coros dos Anjos e receber a glória eterna dos Santos…

7. NÃO FAZER POUCO CASO DAS COISAS PEQUENAS

Todo espírito religioso logo se dissipa daquele mosteiro onde, pela negligência das coisas pequenas, os superiores deixam introduzir-se o relaxamento; pois, se há caso ao qual se possa aplicar aquela palavra do Espírito Santo (Eclo 19,1), «quem não presta atenção às faltas leves cairá nas graves», é precisamente o de um religioso. E é certo, diz Santo Anselmo, e nós o aprendemos pela experiência, que nos mosteiros onde são praticadas as menores prescrições e se mantém em vigor a mais exata observância da regra, reina a paz entre os irmãos. Ao contrário, nos conventos onde se descuidam as coisas pequenas, pouco a pouco toda a ordem se desarranja e desaparece. Se, portanto, desejais subir de virtude em virtude, temei sempre ofender a Deus nas mínimas coisas (Epl. 6, ad Monac.).

Atingimos a perfeição, diz São Gregório Papa, quando temos tal horror não somente às faltas graves, mas também às leves e até aos pensamentos inúteis, que imediatamente os expulsamos e os queimamos com o fogo do sacrifício, com a chama do amor divino, para que o coração não ame senão a Deus (Moral. lib. 2, c. XXXIX). Ora, quem há entre os cristãos que esteja mais obrigado do que os religiosos a fazer tudo o que conduz à perfeição? Eis por que São Gregório Nazianzeno lhes dizia: Não quero que ignoreis como até uma única e pequena mancha vos causa maior desonra do que as faltas mais enormes causam àqueles que vivem no mundo; porque uma mancha sobre vestes sujas é menos visível e inspira menor repugnância do que sobre vestes cândidas, preciosas e de uma só cor (Orat. de Fuco). É digna de um cristão aquela sentença de Platão: «Não damos uma prova medíocre de nosso progresso na virtude quando não julgamos pequena e leve nenhuma falta, mas evitamos cuidadosamente todas elas (8)».

8. EXCELÊNCIA DA VIDA INTERIOR E RELIGIOSA

Os religiosos que vivem segundo o espírito de sua vocação começam já aqui embaixo a sua vida celeste, bem-aventurada e angélica. Portanto, 1° estão continuamente com Deus, como em seu templo; com efeito, a religião por si mesma, e com maior razão a vida religiosa bem praticada, é como um céu terrestre ou paraíso de delícias, e templo e tabernáculo de Deus… São Bernardo chama os religiosos de anjos terrestres e homens celestes. Têm verdadeiramente o corpo na terra, mas a alma no céu (Ad tratres de Monte Dei). 2° Servem incessantemente a Deus; entregam-se e consagram-se inteiramente ao culto divino; realizam todas as suas obras para cumprir a regra, pelo voto de obediência e para seguir a vontade dos superiores. Por isso, todas as suas ações são um ato de religião e de culto divino, porque são feitas por voto e por obediência, obediência que não está separada da virtude da religião. Submeteram-se ao jugo da obediência somente por amor de Deus, por sua honra e por sua glória; pois se submetem voluntariamente a obedecer ao homem por causa de Deus. Deles fala o Apocalipse quando diz: «O Cordeiro que está no meio do trono será o seu guia e os conduzirá às fontes vivas das águas» (Ap 7,17).

3° Estão vestidos de linho branco, lavados no sangue do Cordeiro desde o seu ingresso na religião… 4° Levam palmas nas mãos por terem abandonado e vencido o século com suas pompas, seus bens, seus prazeres e suas lisonjas; depois, dia após dia, dominam suas afeições, dominam a si mesmos… 5° Estão na presença do Cordeiro e têm continuamente diante dos olhos Jesus Cristo e sua cruz, esforçando-se por unir-se a Jesus crucificado e transformar-se nele. A Jesus atribuem, em cada ocasião, a felicidade de sua celeste vocação; a ele atribuem suas graças, sua liberdade e todos os dons que receberam e recebem continuamente. Por isso, não cessam jamais de cantar com os Anjos que rodeiam o trono de Deus: «Amém. Bênção, esplendor, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos» (Ap 7,12).

6° Estes bons religiosos de que falamos são aqueles que vieram de uma grande tribulação, que saíram de uma consciência aflita e torturada pela lembrança de seus pecados, pelos quais, estando presos no século, também estavam presos por Satanás. Depois foram assaltados pelas várias tribulações que lhes vieram do mundo, da carne e do sangue, sobretudo quando decidiram passar da vida do século à do claustro… 7° Servem a Deus noite e dia com contínuas orações e meditações, com salmodias, hinos, atos repetidos de caridade, de zelo, de paciência, de humildade, de obediência, de mortificação e de todas as virtudes… «E esta é a função da milícia angélica: estar sempre ocupada em louvar o Senhor» (Epist. LXXXII).

8° «Aquele que está sentado no trono habitará neles» (Ap 7,15). Os religiosos são, com efeito, a casa e a família de Deus; possuem em sua alma o poder de Deus e a ele clamam em toda circunstância, com o Salmista: «Vós sois o nosso Deus; em vossas mãos estão os nossos destinos» (Sl 30,15-16). «Como o servo mantém continuamente os olhos fixos em seu senhor, e a serva em sua senhora, assim os nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós» (Sl 122,2-3). Sendo amigos de Deus e invocando-o, ele está pronto a protegê-los, ajudá-los e nutri-los, tanto no corpo como na alma; diz-lhes, como outrora a Abraão: «Não temais; eu sou o vosso protetor e serei a vossa magnífica recompensa» (Gn 15,1). Para eles foram escritas estas palavras do Profeta: «Aquele que repousa no socorro do Altíssimo estará tranquilo sob a proteção do Onipotente» (Sl 90,1); e estas outras: «Os olhos do Senhor estão abertos sobre os justos, e seus ouvidos estão atentos às suas orações… Grandes tribulações os esperam; mas o Senhor os livrará de todos os males» (Sl 33,16,20). «Eu serei, diz Deus, um muro de fogo ao redor deles e me mostrarei no meio deles em minha glória. Quem tocar em vós tocará na pupila dos meus olhos. Alegrai-vos e entoai cânticos de louvor; eis que venho e habitarei no meio de vós» (Zc 2,5,8,10).

9° «Não terão mais fome nem sede» (Ap 7,16), porque neles está apaziguada a fome dos bens terrenos e extinta a sede dos prazeres terrenos. Neles não reinam nem a cobiça nem a ambição. Entre eles não há nenhuma preocupação de prosperar para a família, nenhum incentivo à avareza, pois, pela regeneração do espírito e do corpo neles realizada, afastaram de si todos aqueles assaltos e ocasiões de pecado que nunca deixam de encontrar-se no mundo. 10° «O Cordeiro será o seu guia e os conduzirá às fontes vivas das águas» (Ap 7,17); pois o Cordeiro, Jesus Cristo, que permanece no meio deles, ilumina-os, inflama-os, fortalece-os e os dessedenta nas fontes vitais da graça. O Cordeiro está entre eles como um mestre, como um pai de família, como outrora no meio da assembleia dos Apóstolos. Que outra coisa são, com efeito, os religiosos senão os companheiros dos Apóstolos, a família íntima de Jesus Cristo? Por isso, neles se cumpre aquela palavra dos Provérbios: «O nome do Senhor é uma cidadela forte; o justo nela se refugiará e será exaltado» (Pr 18,10). Além disso, o Cordeiro muitas vezes os alimenta com sua carne na Eucaristia; em nenhum outro lugar há tanta frequência à comunhão quanto nas casas religiosas… 11° «Deus enxugará de seus olhos toda lágrima» (Ap 7,17). Deus enxuga suas lágrimas, as lágrimas do arrependimento e da compunção, tanto nesta vida, tornando-as doces e acompanhadas da alegria de uma consciência santa, serena e tranquila, e das consolações e comunicações divinas; como principalmente na outra, com recompensas inefáveis e eternas…

Às casas religiosas bem dirigidas podemos aplicar aquelas frases do Salmista: «Monte fértil, monte fecundo, monte rico, monte de delícias do Senhor, é o monte de Deus» (Sl 67,16-17). «Os males não se aproximarão de vós, e os flagelos não ousarão lançar-se sobre a vossa tenda. O Senhor ordenou aos seus Anjos que vos guardassem em todos os vossos passos; eles vos levarão em seus braços» (Sl 90,10-12). «O Senhor transformou o deserto em rio e as areias do deserto em jorros de água» (Sl 106,33-35).

«Venha o meu amado ao seu jardim e saboreie os frutos de suas plantas. Entrei em meu jardim, minha irmã, minha esposa; colhi a mirra e os perfumes; comi o mel de minhas colmeias e bebi o meu leite e o meu vinho. Comei e bebei também vós, caríssimos amigos» (Ct 5,1). «Eu vos conduzi a um lugar de delícias, diz Deus aos religiosos, e vos concedi seus frutos e seus bens» (Jr 2,7); e pela boca de Isaías promete dar-lhes um repouso eterno, envolvê-los em seu esplendor e reanimar seus ossos; diz que eles serão como um jardim sempre irrigado, como uma fonte cujas águas jamais faltarão (58,11).

A Sabedoria nos diz que o Senhor guia o justo por caminhos retos e lhe mostra o reino de Deus; dá-lhe a ciência dos Santos; abençoa seus trabalhos e faz prosperar suas obras (Sb 10,10). São Boaventura, comentando esta passagem, assinala seis benefícios insignes que o Senhor concede aos religiosos; o primeiro é a justificação: Iustum deduxit; o segundo é que os conduz pelo bom caminho: Per vias rectas; o terceiro é que lhes mostra seu reino, por meio da graça e do segredo da contemplação: Ostendit illi regnum Dei; o quarto é o dom da ciência dos Santos, instruindo-os no conhecimento da vontade divina: Dedit illi scientiam sanctorum; o quinto é que torna meritórios os seus trabalhos e os enriquece de favores: Honestavi illum in laboribus; o sexto é que abençoa seus esforços, concedendo-lhes a perseverança e a glória eterna que os coroa: Et complevit labores illius (In haec verba).

Os caminhos do Senhor são caminhos retos, observa São Bernardo, caminhos belos, caminhos ricos, caminhos suaves (Serm. in Cantic.). São caminhos retos, sem erro, porque conduzem à vida. Caminhos ricos, porque cheios de graças. Caminhos fáceis, porque dão força e suavidade… «O povo de Israel, diz o mesmo Santo, foi tirado do Egito; aqui (isto é, entrando na vida religiosa), o homem é arrancado do século. Lá, o faraó foi prostrado; aqui, o demônio é abatido. Lá, foram derrubados os carros do faraó; aqui, são vencidos e destruídos os desejos carnais que combatem a alma.

Os egípcios perecem nas águas; os religiosos purificam-se nas lágrimas. Aqueles, nas ondas; estes, no pranto. E eu ouço os demônios que ousam enfrentar a alma religiosa gritarem: Fujamos de Israel, afastemo-nos desta alma, porque o Senhor combate em seu favor (9)».

Magníficas e consoladoras promessas Deus faz pela boca de Ezequiel, e dirige-as de modo especial às pessoas religiosas: Como um pastor visita o seu rebanho, assim eu visitarei as minhas ovelhas e as libertarei de todos os lugares em que foram dispersas pela tempestade (no tempo em que, vivendo ainda no século, vagavam entre as trevas e os perigos do mundo). E eu as retirarei do meio dos povos, reuni-las-ei de todos os países e as conduzirei à sua terra, onde as farei pastar sobre as montanhas santas, junto às correntes perenes e nas regiões mais férteis. Eu mesmo as conduzirei às pastagens e ao repouso. Procurarei as que se perderam, levantarei as caídas, enfaixarei e tratarei as feridas, fortalecerei as fracas, conservarei as robustas… Salvarei o rico rebanho, e ele não será mais feito presa; eu, que sou o Senhor, serei o seu Deus. Firmarei com elas uma aliança de paz e exterminarei de sua terra as feras; e os que habitam no deserto dormirão tranquilos no meio dos bosques. Estabelecerei a bênção no meio da colina em que habito, farei cair a chuva de bênção. E as árvores dos campos darão os seus frutos, e a terra germinará e será fecunda; as minhas ovelhinhas habitarão em segurança na sua terra; e saberão que eu sou o Senhor, quando tiver quebrado as suas cadeias, despedaçado o seu jugo e arrancado a elas mesmas das mãos daqueles que imperiosamente as comandam (Ez c.39).

9. É UMA GRAÇA PRECIOSA SER AFASTADO DOS PERIGOS DO MUNDO

Quem obteve do Senhor a graça singular de recolher-se a um sagrado asilo, de professar a vida religiosa, nunca deve cansar-se de repetir com o Salmista: «Do alto dos céus, o Senhor se dignou estender-me a mão; tomou-me e tirou-me das águas do abismo; arrancou-me das mãos de fortíssimos inimigos, daqueles que me odeiam e queriam prejudicar-me. Abriu-me um caminho amplo; salvou-me, porque assim lhe aprouve» (Sl 17, 17-18.20). «Meu coração tremeu no peito, e um terror mortal apoderou-se de mim. O temor e o terror me deixaram atônito, e encontrei-me cercado de trevas. E disse: Quem me dará asas como à pomba? E eu voarei para a solidão e ali repousarei. E eis que apressei a minha fuga, estabeleci a minha morada no deserto. Vi na cidade a violência e a discórdia. Dia e noite elas cercam os seus muros; nela dominam a iniquidade e a miséria. O crime, a fraude e a mentira estão continuamente nas suas praças» (Sl 54, 4-7.9-11).

Retirando-vos do século, fugistes da terra do esquecimento de Deus, da religião, da virtude, de todos os deveres; da terra dos crimes, dos escândalos, de toda espécie de males… Que insigne favor! Que preciosa graça! … Deveis dizer com o rei Profeta: Tirando-me do mundo e chamando-me à solidão, Deus livrou a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, os meus pés do abismo. Caminharei na presença do Senhor na terra dos viventes (Sl 114, 7-9). «No mundo, os meus inimigos armavam emboscadas no caminho que eu seguia… Clamei a vós por socorro, meu Deus, e disse: Vós sois a minha esperança e a minha porção na terra dos viventes» (Sl 141, 4-6).

10. FELICIDADE DA VIDA RELIGIOSA E INTERIOR

Ninguém é tão feliz, diz Salviano, quanto aquele que, com pleno conhecimento e vontade, se consagra a Deus pelos votos religiosos. É humilde, porque quer sê-lo; é pobre, mas encontra as suas delícias na pobreza; não tem ambição, porque a ela renunciou; vive no esquecimento, porque foge das honras; chora, mas voluntário e doce é o seu pranto; é enfermo e fraco, mas alegra-se com isso, repetindo com o Apóstolo: «Quando sou fraco, então é que sou forte». ― Portanto, qualquer coisa que possa acontecer ao verdadeiro religioso, devemos chamá-lo feliz, porque ninguém é tão feliz quanto aquele que quer sê-lo, por mais que as adversidades e contradições o assaltem (De vero Iudic. et Prov. Dei, lib. I). Ele é feliz porque saiu do mundo e não passará mais com o mundo. Pois há uma grande diferença, diz Santo Agostinho, entre estas duas coisas: «Sair do mundo é ir para Deus; passar com o mundo significa ir-se com o demônio. Também os egípcios saíram, porque, perseguindo o povo de Deus, não ficaram imóveis; entretanto, não passaram do Mar Vermelho para o reino dos céus, mas do mar foram para a morte (10)».

E como poderia jamais um bom religioso não ser feliz, tendo escolhido como sua porção as oito bem-aventuranças ensinadas por Jesus Cristo? Ele abraçou a pobreza voluntária, e Jesus disse: Bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino dos céus. Escolheu as lágrimas e a mortificação, e Jesus disse: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra (dos viventes). Consagrou-se a Deus porque tinha fome e sede da justiça, da santificação, da salvação de sua alma, e Jesus disse: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Escolheu a caridade, a misericórdia, e Jesus disse: Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. Escolheu por voto a continência, a castidade, e Jesus disse: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Escolheu a paz, a calma, a tranquilidade da solidão, e Jesus disse: Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Escolhendo esta condição de vida e consagrando-se a ela, expôs-se às perseguições do inferno e do mundo, mas Jesus disse: Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, para alcançarem a salvação, porque deles é o reino dos céus (Mt 5, 3-10). Por isso, com toda razão, São Jerônimo escrevia a Rustico: «Considera a tua cela como um paraíso. Quanto a mim, a cidade parece-me uma prisão, e a solidão, um paraíso (11)».

Os bons religiosos começam aqui na terra aquela vida bem-aventurada, angélica, celeste, divina, que continuarão por toda a eternidade no céu… «Sim, ó Senhor, exclamam estas almas inflamadas de amor, nós nos alegraremos na salvação que nos dais» (Sl 19, 6). «Feliz, ó Senhor, aquele que escolhestes ou chamastes para habitar nos vossos pavilhões! Seremos saciados dos bens da vossa casa, no templo onde reside a vossa Majestade» (Sl 64, 5). «Um só dia passado em vossa casa, ó Senhor, vale mais que mil outros» (Sl 83, 11). Neles se cumprem aquelas palavras de Davi: «Os justos verão e se alegrarão» (Sl 106, 42). «Vozes de alegria e gritos de vitória ressoam sob os pavilhões dos justos» (Id. 117, 15). «Ei-los contados entre os filhos de Deus; a sua herança está entre os Santos!» (Sb 5,5).

A eles se dirigem aqueles encorajamentos dos Profetas: «Alegra-te, ó filha de Sião, louva o Senhor; eis que venho e habitarei no meio de ti» (Zc 2, 10). «Filha de Deus, abre os lábios para cânticos de louvor; Israel, alegra-te, exulta e rejubila, Deus apagou as tuas culpas; derrotou os teus inimigos; o Senhor teu Deus está no meio de ti; ele é o Deus forte, o teu Salvador, nada mais terás a temer; ele se alegrará contigo, repousará no seu amor, exultará de alegria por tua causa» (Sf 3, 14-17). «Entrareis jubilosos e sereis conduzidos na paz; os montes e as colinas ecoarão diante de vós cânticos de alegria, e todas as árvores ao redor exultarão de júbilo… Então vos alegrareis no Senhor, e eu vos colocarei nas alturas da terra, e vos darei a herança de Jacó, vosso pai; esta é a palavra, esta é a promessa do Senhor» (Is 55,12; 58,14).

Aquele que faz do jejum o seu alimento, da palavra de Deus o seu sustento, da oração o seu repouso; aquele que tem trapos por vestes, um saco e poucos gravetos por leito; aquele que dorme sobre o duro; aquele que vigia em sua alma para o Senhor, este possui, como diz São Paulino, a verdadeira felicidade (Epist. III). Estes que nada procuram, nada desejam do que há no mundo, voam, diz São Gregório, sem tocar os pés no chão (Moral.).

11. UNIÃO PERFEITA DOS CORAÇÕES NA VIDA RELIGIOSA

São João Crisóstomo, falando do poder e da eficácia da união, diz: A união de dez religiosos faz com que esses dez sejam um só; porque um só está nos dez, e os dez estão no um. Por isso, cada um dos dez tem vinte mãos, vinte olhos, respira com dez almas, porque cada um se ocupa de todos com tanto cuidado como de si mesmo. Ninguém é egoísta, ninguém se ocupa exclusivamente de si; mas cada um se ocupa dos outros e deles cuida; e assim um só pode muito, pode tanto quanto dez. E se o mosteiro contasse cem religiosos assim, cada um poderia tanto quanto cem. E se fossem mil, dez mil e quantos quiserdes, haveria a mesma união, a mesma força, a mesma unidade (Homil. 77, in Ioann.). É um feixe de braços, de almas, de corações unidos e ligados juntos pelo vínculo do amor… Que vantagem inestimável!

Lemos acerca dos primeiros cristãos, que tinham entre todos um só coração e uma só alma; e, quanto ao que possuíam, ninguém dizia que esta ou aquela coisa fosse sua, mas tudo era comum entre eles (At 4, 32). São Jerônimo, Santo Agostinho e São Basílio veem naquela comunidade dos primeiros fiéis os fundamentos, não do viver em comum que deveria ser adotado entre os cristãos, mas da vida religiosa nos mosteiros e conventos. Todos aqueles fervorosos cristãos, pouco numerosos, mas santos, formavam uma vasta comunidade de apóstolos, mártires, confessores e virgens…

A comunhão dos bens, das orações e dos corações é a base da observância da virtude e da perfeição. Com efeito, 1º, é estímulo poderosíssimo ao amor mútuo, o que levou São Lourenço Justiniani a dizer (12): «Com que nome chamarei eu os mosteiros dos religiosos e os lugares onde habitam os servos de Deus, senão com o de trincheiras e acampamentos espirituais? Haverá porventura coisa mais rica do que esta: nada possuir e possuir tudo? Haverá ação mais útil do que esta: deixar o miserável e pequeno patrimônio familiar e tornar-se herdeiro de Cristo?». 2º, Esta comunhão desapega do amor aos bens e aos deleites terrenos e transfere todo afeto para Deus e para as coisas celestes. Um verdadeiro religioso é, pois, superior ao mundo; é senhor do universo, igual aos Anjos, concidadão dos Santos, habitante do paraíso, herdeiro de Deus, coerdeiro de Jesus Cristo. A exemplo do grande Apóstolo, nada possui e possui tudo; isto é, os verdadeiros tesouros e a verdadeira riqueza (2Cor 6,10). 3º, Esta união dos corações traz consigo a comunhão dos méritos e de todos os bens. Por isso São Basílio disse: «Entre eles, Deus é comum; comum é o comércio da virtude; comum é a salvação; comuns os combates; comuns as fadigas; comuns as recompensas e comuns também as coroas das vitórias alcançadas sobre o inimigo; porque entre eles muitos formam um só, e ninguém está só, mas está em todos (13)».

4º, Esta comunhão dos bens elimina pela raiz todo motivo de queixa, de litígio, de contenda, de inveja, de cobiça, de ciúme, de murmuração, de descontentamento, de preferências, de desprezo etc., e permite dedicar-se livremente às obras de piedade. 5º, Proporciona a paz do espírito e uma alegria contínua; elimina toda solicitude, toda ansiedade, toda aflição…

Esta vida é uma imagem da vida de Adão e Eva no paraíso terrestre, antes de sua queda; é a imagem e o começo da vida dos eleitos no céu. Por isso São Lourenço Justiniani chama o claustro de jardim fechado, paraíso de delícias, tálamo nupcial, aposento imaculado, escola de virtude, tabernáculo da aliança, lugar de repouso para o Esposo celeste, posto dos combatentes, casa de santidade, guardião da castidade, fundamento da prudência, magistério da religião, espelho singularíssimo da santa obediência (14). Almas religiosas, vós podeis repetir com toda a verdade as palavras do Profeta: Como é bom, como é agradável que os irmãos habitem juntos! A paz, a união fraterna, é como o unguento derramado sobre a barba de Aarão, que desce sobre o seu rosto e se espalha até a orla de suas vestes; como o orvalho do Hermon, que desce sobre o monte Sião, assim desce sobre nós a bênção do Senhor e a vida pelos séculos (Sl 132).

Lemos nos Provérbios que os irmãos unidos entre si formam uma cidadela inexpugnável; são fortes como portas de bronze nas entradas da cidade (Pr 18,19). Isto se realiza nos claustros onde vigoram a disciplina, a humildade, a obediência e a caridade. A casa, a comunidade inteira, por esta concórdia e união dos religiosos, é mais forte do que todas as hostes dos invejosos, dos maldizentes e dos demônios. «Eu chamo perfeitíssima», dizia São Basílio, «aquela comunidade da qual é excluída toda posse própria e particular de qualquer objeto, da qual é banida toda contenda, toda disputa, toda maledicência, todo ciúme; na qual tudo é comum: as almas, os espíritos, os corações, as forças, as vestes, o alimento etc. Que modo de viver se pode imaginar mais admirável do que este? Que coisa se pode encontrar de mais feliz, de mais suave e de mais perfeita? Que há de mais belo do que esta maravilhosa concordância de almas e de costumes? Que existe de mais esplêndido e de mais poderoso do que este perfeito acordo de pessoas de diversas nações e regiões, de várias e diferentes condições, dessemelhantes na idade, na inteligência e no saber, e que formam um só coração, uma só alma, um só e mesmo espírito? (Constit. Monast.). E quem opera esta união tão desejável? Deus: serve-se ao mesmo Deus, faz-se uma só coisa com ele e nele… Depois, a obediência a uma mesma regra… Finalmente, o ardente desejo de salvar a própria alma…

A semelhança e a pureza dos atos nos mosteiros conciliam o amor mútuo e a benevolência recíproca. Ao contrário, a singularidade e a diferença geram a desunião e a aversão. Por isso, aquele que, numa casa religiosa, deseja tornar-se agradável a Deus e a seus irmãos e passar seus dias na paz e na edificação deve procurar viver à mesma mesa, vestir as mesmas roupas, dedicar-se às mesmas ocupações e aos mesmos exercícios de seus confrades. Os que querem parecer singulares, os que se separam dos outros, tanto nas recreações como nos demais exercícios comuns, são observados com reprovação e malvistos, julgados e condenados por todos.

12. A VIDA RELIGIOSA É UM CONSÓRCIO DIVINO

Os bons religiosos são os amigos íntimos de Deus; ao entrarem na religião, os Anjos do céu dizem: «Alegremo-nos, exultemos e demos graças ao nosso Deus, porque chegaram as núpcias do Cordeiro e sua esposa se adornou» (Ap 19,7). «Ó Deus, como são honrados, para além de toda crença, os vossos amigos!» (Sl 138,17). «Felizes os que são chamados às núpcias do Cordeiro!» (Ap 19,9). Feliz aquela alma à qual o Esposo celeste pode dizer: «Tu és bela, ó minha amada; sim, tu és bela, e os teus olhos são olhos de pomba», e ela pode responder: «Tu és belo, ó meu amado; tu és belo e gracioso» (Ct 1,14-15).

Que sociedade sublime! Que união divina!, exclama Hugo de São Vítor. Aquele que é a beleza por essência une-se àquela que é toda beleza. «Eu sou a beleza em pessoa», diz o Esposo, «e tu, minha esposa, és perfeitamente bela; eu, por essência e por natureza; tu, pela graça. Eu sou belo em tudo, porque tudo o que é belo se encontra em mim; também tu és toda bela, porque nada de manchado se encontra em ti: bela de corpo, bela de alma; no corpo, torna-te bela a castidade, a integridade da virgindade; na alma, torna-te bela a humildade unida à pureza. Convinha a tal esposo uma esposa assim, e era digna de tal esposo uma esposa assim. Ó esposa tão bela de um esposo tão belo! Ó esposa pura de um esposo tão puro! Ó esposa augusta de um esposo que é a grandeza por essência!» (Instit. Monast. ad Novit., c. V).

São Lourenço Justiniani assim fala do casto e celeste matrimônio do Verbo divino com a alma pura que se consagra a ele: «Nesta alma sublime celebra-se um festim no qual se come o Cordeiro imolado. Ali se saboreiam uma paz interior, uma segurança perfeita, uma felicidade tranquila, uma alegria incomparável, uma fé sem nuvens, uma sociedade amável, os beijos da unidade, as delícias da contemplação, a suavidade no Espírito Santo. Ali está a porta do céu, a entrada do paraíso. A esposa sobe frequentemente do leito nupcial ao céu; o esposo desce sempre do céu ao leito nupcial. A esposa não tem temor, não é incerta de sua salvação; entra na morada dos espíritos celestes como na casa de seu amado, como em seus próprios aposentos. Este esposo, para comprar e unir a si esta esposa, vendeu aos estrangeiros tudo quanto possuía, lutou nas tentações! Combateu e ainda combate contra os espíritos malignos. Não temerariamente, mas com plena confiança, ela entra na casa do esposo; pois, embora outrora fosse estrangeira a esta cidade santa, agora se tornou concidadã dos bem-aventurados, dos anjos, esposa do Verbo. Por um privilégio do amor, tudo o que pertence ao esposo pertence também a ela, porque o verdadeiro amor nada tem de próprio, nada reserva para si, mas dá tudo o que possui, dá a si mesmo com alegria e sem restrições. E, em virtude desta mesma lei, por este mesmo amor que leva o esposo a dar tudo, ele serve-se de tudo o que a esposa possui. Pela superabundância deste amor mútuo, existe tão grande, tão perfeita e tão suave familiaridade entre o Verbo e a alma, tão estreita confiança e intimidade de palavras, de linguagem e de pensamentos, tamanha segurança da glória, que a esposa de modo algum se inquieta com a infinita diferença de sua condição» (De Connubio Verbi et animae).

«Quem pode conceber», escreve Santo Ambrósio, «uma beleza e uma honra que possam suportar a comparação com a beleza e o decoro daquela que o supremo juiz considera digna de si; daquela que se dedica e se consagra ao próprio Deus? Sempre esposa, sempre pura, sempre amável, o amor que inspira não tem fim e seu pudor nada tem a temer. Esta é a verdadeira e completa beleza à qual nada falta (15)». Este é o sentimento que, segundo o testemunho do mesmo Santo Ambrósio, exprimiu Santa Inês, virgem e mártir, quando disse ao filho do Prefeito de Roma, que lhe solicitava a mão, que Jesus Cristo, já antes escolhido por ela como esposo, era infinitamente mais belo, mais digno e maior; e acrescentou: «Afasta-te de mim, incentivo do pecado, alimento da morte; já estou prometida a outro amante muito mais nobre do que tu, que me ligou a si com o anel de sua fé; sua generosidade não conhece limite; seu poder não tem confim; seu aspecto arrebata, sua doçura enamora; ele é todo elegância e graça. Virgem é sua mãe, seu pai não conheceu mulher, os anjos o servem, o sol e a lua admiram sua beleza; ao seu perfume os mortos ressuscitam, ao seu toque os enfermos se levantam curados; imensas e eternas são suas riquezas. Somente a ele me conservo fiel, a ele me entrego inteiramente. Amando-o, sou casta; tocando-o, sou pura; desposando-o, permaneço virgem» (Serm. 90, apud. S. Ambr.).

Almas religiosas, almas interiores, consagrando-vos a Deus, renunciais a um esposo carnal e mortal, e recebeis como esposo Jesus Cristo; renunciais a uma aliança com a criatura e contraís uma com o Criador; gozareis da sociedade dos Anjos e dos Santos… «Eu te desposarei comigo para sempre, diz o Senhor; serás minha esposa na justiça e na equidade, na graça e na misericórdia. Serás minha esposa na fé e saberás que eu sou o Senhor» (Os 2,16-20). Os outros esposos são fracos, enfermos, pobres, ignorantes etc.; Jesus Cristo, que tomais como esposo, é um esposo imortal, forte, poderoso, rico e sábio; ele é rei, ele é Deus… Que glória, que honra contrair uma aliança assim!… Ó vocação sublime! Ó escolha feliz! Ó estado divino! Ó casa de Deus, mosteiro sagrado, quantas maravilhas se contam de ti! (Sl 86,3).

13. DEUS É A PORÇÃO DAQUELES QUE A ELE SE CONSAGRAM; ELE OS ILUMINA, OS SOCORRE

Poder-se-iam escrever nas portas dos conventos e dos mosteiros estas palavras do Deuteronômio: «A porção do Senhor foi este povo. O Senhor o encontrou numa terra deserta, num lugar de horror e de vasta solidão; conduziu-o, instruiu-o e guardou-o como a pupila de seus olhos. Estendeu suas asas como a águia que voa ao redor de seus filhotes e os provoca ao voo; tomou-o e o levou sobre os próprios ombros. Somente o Senhor foi seu guia, e nenhum deus estrangeiro esteve com ele. Estabeleceu-o numa terra elevada, para que se alimentasse dos frutos dela, recolhesse mel das rochas, óleo do rochedo (a unção da graça de Jesus Cristo, pedra fundamental da salvação), manteiga das manadas e leite dos rebanhos, a gordura dos carneiros e a flor da farinha; para que bebesse do mais precioso suco da vinha» (Dt 32,12-13). A alma que tem Deus por herança possui todos os bens espirituais figurados nos referidos bens temporais recordados pela Escritura… Ela pode repetir aquelas exclamações do Salmista: «O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice; sois vós, ó meu Deus, que me dareis a minha herança. Coube-me uma parte bem fértil, uma porção nobilíssima de herança» (Sl 15,5-6).

Quem tem Deus tem tudo; quem tivesse todo o restante e não tivesse Deus seria o mais pobre dos mortais… «Jesus, diz São Jerônimo, é tudo para a alma que se entrega e se consagra a ele, a fim de que, tendo ela abandonado tudo por Jesus Cristo, encontre tudo somente nele, e ele lhe faça as vezes de tudo, e ela possa dizer livremente: O Senhor é minha herança (16)». Mas Jesus, diz São João, é a vida e a luz dos homens; vida e luz que não é compreendida pelas trevas; mas àqueles que a recebem dá o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,4-5, 12); entregar-se, pois, inteiramente a Jesus Cristo, consagrar-se a ele por completo e para sempre, é obter a verdadeira luz, a verdadeira ciência dos Santos. Os Santos são os únicos sábios, os únicos verdadeiramente iluminados…

Por isso, dizia o Salmista: «Bendirei o Senhor, que me iluminou em meio às trevas; meu amor foi a minha luz» (Sl 15,7). Bendirei o Senhor, que me esclareceu, que me libertou da noite escura do século e que, das trevas, me chamou à sua luz prodigiosa (1Pd 2,9). O Senhor ilumina e conduz esta alma eleita por caminhos retos, mostra-lhe o reino dos céus, dá-lhe a ciência dos Santos (Sb 10,10).

Deus não dá somente luz, mas também força e coragem aos seus Santos, e manifesta-se admirável neles (Sl 67,36). Em favor dessas almas consagradas ao seu serviço, o Senhor realiza milagres, diz Davi. Divide o mar e abre-lhes o caminho em meio às ondas. Condu-las durante o dia à sombra de uma nuvem e, durante a noite, ao clarão de uma luz celeste. Fende as rochas do deserto, faz brotar regatos da pedra viva e sacia-as com abundantes e límpidos riachos (Sl 72,15-19). «Receberão, diz a Sabedoria, o reino de honra e o diadema de glória da mão do Senhor, que as cobrirá com sua mão e as defenderá com seu braço» (Sb 5,17). Deus deve todo a si mesmo àquele que tudo abandona por ele; ele cumpre todos os seus votos e torna firme todo propósito seu (Sl 19,5).

14. A VIDA DE UM BOM RELIGIOSO É VIDA SUBLIME E CHEIA DE MÉRITOS

O rei Profeta fala em seus Salmos de uma rainha que está à direita do Rei do Céu, vestida de ouro e ornada com graça, de tal modo que o rei se enamora de tamanha beleza (Sl 44,10-12). Esta rainha tão esplendidamente vestida, tão rica e variadamente adornada, que se senta à direita do Rei, é, em primeiro lugar, a Santíssima Virgem, Mãe de Deus; depois, é a alma religiosa consagrada a Deus, que vive unicamente de Deus e para Deus… «Esforçar-me-ei, diz ela, por agradar ao Senhor na terra dos vivos» (Sl 114,9). O bom religioso é como uma oliveira carregada de frutos na casa do Senhor (Sl 51,10). Crescerá como a palmeira, multiplicar-se-á como o cedro do Líbano. Plantado na casa do Senhor, florescerá nos átrios de nosso Deus; dará frutos na velhice e será abundante em graça e vida (Sl 91,13-15).

«Preparai vossos corações para o Senhor» (1Sm 7,3). Os bons religiosos consagram inteiramente seus corações ao Senhor e unem-se a Deus tão estreitamente que, na linguagem da Escritura, são chamados seus esposos… «Se vedes uma alma, escreve São Bernardo, que, depois de ter abandonado tudo, se abraça de todo o coração ao Verbo, vive no Verbo e pelo Verbo, regula-se segundo o Verbo, concebe do Verbo para produzir frutos de virtude por meio do Verbo, de tal modo que possa dizer: Jesus Cristo é a minha vida, e morrer é para mim um lucro, crede que essa alma é desposada com o Verbo, é esposa do Verbo? (17)». Ora, não é esta uma vida elevadíssima e repleta de méritos? Um religioso deve, como diz Eusébio, não ser apegado ao repouso, fugir de tudo o que tenha sabor de prazer, amar o trabalho; deve ser paciente na humilhação, não desejar as honras, pobre de dinheiro, rico em sua consciência, humilde nos méritos, severo contra os vícios (Homil. 9, ad Monach.). Os religiosos, diz São Próspero, que não se despojam de seus velhos costumes, que não mudam de espírito, mas somente de hábito, que não vivem de ações vivificadas, mas de hábitos; que, enfim, parecem religiosos nas palavras, mas não nas obras, tais religiosos vivem mundanamente na religião: querem parecer virtuosos sem o serem; pregam grandes coisas sem praticá-las; acusam os vícios e não os abandonam. (De Vita contempl.). Hugo de São Vítor compara um convento a uma cidade e assim distingue suas várias partes: as primeiras trincheiras desta cidade dos eleitos são o desprezo das coisas terrenas; os baluartes, a esperança; as meias-luas, a paciência; as torres, a humildade; as fontes, as lágrimas; a sentinela, a prudência; o porteiro, a obediência; o rei, a caridade; a guarnição, a justiça; a temperança, a fortaleza (Instit. Monast.).

15. PRIVILÉGIOS DA VIDA RELIGIOSA

Quando Pedro perguntou a Jesus Cristo o que daria de especial àqueles que haviam abandonado tudo para segui-lo, ele respondeu que, no dia da regeneração, os faria sentar-se em doze tronos e os faria juízes das doze tribos de Israel. E acrescentou: todo aquele que deixar a casa, os parentes e os bens por amor de mim receberá cem vezes mais do que deixou, e, juntamente com isso, a vida eterna (Mt 19,27-29). Eis o privilégio concedido àqueles que professam a vida religiosa! A eles se aplicam mais particularmente aqueles louvores de São Pedro: «Vós sois uma raça escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo eleito, para proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas à sua luz admirável» (1Pd 2,9).

A vocação à vida religiosa é uma graça insigne, rara e especialíssima… As almas consagradas a Deus em uma ordem religiosa são a porção mais nobre, mais honrosa e mais pura da Igreja de Jesus Cristo; formam o seu mais belo ornamento… Estão mais próximas de Deus do que todas as outras… Constituem o cortejo e, eu diria, a coroa do Altíssimo. Seguem o Cordeiro aonde quer que vá… Terão no céu um assento mais elevado, um lugar distinto… Têm mais méritos para serem atendidas naquilo que pedem… São para-raios que detêm os golpes da justiça de Deus; são outros Moisés que se interpõem entre a ira de Deus e os delitos dos povos; aplacam o céu e salvam a terra. Ah! Deus não tratou assim todas as almas (Sl 147,20). Vós bem podeis, ó almas privilegiadas, dizer com a Esposa dos Cânticos: «A voz do meu amado, que bate à porta, diz: Abre-me, minha irmã, minha amiga, minha pomba, minha imaculada» (Ct 5,2). Minha irmã pela criação e pela encarnação; minha amiga e minha esposa pela fé e pelos votos; minha pomba pelo batismo e pela regeneração; minha imaculada pela caridade.

16. PUREZA DAS ALMAS CONSAGRADAS A DEUS

Estas almas eleitas por Deus são a flor dos campos e o lírio dos vales; são lírios entre os espinhos; são o jardim, o paraíso de delícias de Jesus Cristo, que habita nelas como em seu jardim, para colher-lhes as flores e comer-lhes os frutos (Ct 6,1). Estas almas religiosas, irmãs e esposas do Verbo, são um jardim fechado, uma fonte selada (Ct 4,12). À imitação da Imaculada Virgem Maria, cada virgem é um jardim fechado, uma fonte selada com o selo de Deus; selada pela graça da virgindade e da pureza, pela guarda dos olhos e dos ouvidos, pelo pudor virginal, pelo silêncio, pelo recolhimento, pela fuga do mundo.

Uma virgem, escreve Santo Ambrósio, é como um jardim inacessível aos ladrões; assemelha-se à videira em flor, espalha largamente ao redor o perfume de suas virtudes, é bela como a rosa; pelo método de vida, é a religião posta em prática; é a paz, a modéstia. Ó virgens afortunadas, vós sois um jardim cercado; conservai vossos frutos, amadurecei vossas uvas; não vos toquem os espinhos, nem mão imprudente vos arranque a sebe do pudor; pois está escrito: A serpente morderá aquele que derruba a sebe. Vós sois fontes seladas, ó virgens de Jesus Cristo; que ninguém turve esta água límpida e fresca, para que vossa alma possa sempre espelhar-se no cristal desta onda puríssima (Exortat. ad Virgin.).

17. NO ESTADO RELIGIOSO HÁ VERDADEIRA LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE

Das almas religiosas pode-se dizer, como de Jesus: «Subistes às alturas, levastes cativa a escravidão» (Sl 67,19). «Sois livres entre os mortos» (Sl 87,5); porque, segundo a palavra do Apóstolo: «Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2Cor 3,17). Uma alma consagrada a Deus é livre do mundo, das mentiras, dos caprichos e dos costumes do mundo…; livre dos bens, das honras, dos prazeres e das vaidades da terra…; livre das preocupações e das complicações da família, da casa e da criadagem…; livre para dedicar-se à oração, à meditação, à missa, à confissão e à comunhão frequente…

A pretensa liberdade do mundo não passa de uma dura escravidão… Na religião encontram-se os três grandes bens que o mundo procura há longo tempo e que, de tempos em tempos, proclama ter encontrado, mas que, na verdade, não chegou nem jamais chegará a descobrir, porque, em sua inconcebível cegueira, não os procura onde se encontram. Esses três grandes bens de que o mundo tanto alardeia sem possuí-los, e que a vida religiosa verdadeiramente possui, são a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A verdadeira liberdade consiste na observância do Evangelho, na fuga do pecado, na prática da virtude… Não há pessoa verdadeiramente livre senão o servo de Deus… Deus é a liberdade por essência; quem o segue, o serve e se une a ele é livre, é o único verdadeiramente livre… Na vida religiosa encontram-se a igualdade e a fraternidade sincera, porque há a união perfeita dos corações na mais terna caridade… Todos são irmãos; todos vestem o mesmo hábito, todos comem o mesmo alimento, todos vivem da mesma maneira, sem preferências e sem distinções…

18. BOM EXEMPLO DE QUEM SE CONSAGRA A DEUS

As bênçãos de Deus derramadas sobre aquelas almas privilegiadas que entram na religião, o admirável exemplo que dão de renúncia a si mesmas e ao mundo, são o motivo pelo qual os conventos e mosteiros se conservam florescentes… Seu exemplo conduz outras, de modo que podemos dizer com o Salmista: «Deus as abençoou e elas se multiplicaram» (Sl 106,38). E ainda: «Seguindo aquela que escolhe a Deus por seu esposo, aparecerá uma multidão de virgens que serão apresentadas ao rei celeste» (Sl 44,15-16).

Aos olhos do mundo, tu, ó virgem de Jesus Cristo, apareces como um ser inútil e estéril… Sim, és estéril, mas para o pecado: não concebes nem geras as obras do mundo, o vício, o escândalo, a morte. Bendita esterilidade! que é também a de Jesus Cristo, teu esposo, da Bem-aventurada Virgem Maria, dos Apóstolos e dos eleitos da Igreja. Uma virgem estéril desse modo é feliz; ela se conserva sem mancha, diz a Sabedoria, e receberá a recompensa quando Deus visitar as almas santas; um dom preciosíssimo será concedido à sua fidelidade, e um assento esplendidíssimo na casa de Deus (Sb 3, 13-14). Mas, se as virgens de Jesus Cristo são estéreis segundo o mundo, que fecundidade miraculosa não será a delas segundo Deus! Essas virgens terão por família a fé, a esperança, a caridade, a obediência, a castidade, a humildade, a piedade, em uma palavra, todas as virtudes: eis uma família divina, uma fecundidade celeste… Além disso, terão por família, não os que são da carne, mas os que são do espírito: todos os cristãos que essas almas consagradas a Deus atraem, por seus discursos e por seus exemplos, ao seguimento de Jesus Cristo e à prática da religião. Nelas se realiza aquela promessa do Senhor: darei a essas almas, estéreis segundo o mundo, estéreis para o mal, mas fecundas para o bem, na minha casa, um nome e um lugar de honra; dar-lhes-ei um nome que não morrerá (Is 56, 5). Eu lhes atribuirei o primeiro lugar no meu coração, na minha graça e na minha glória… Dar-lhes-ei um nome melhor, isto é, uma fama, uma lembrança e uma glória maiores e mais extensas que as dos outros; uma família mais ilustre e imortal…

19. UM BOM RELIGIOSO ASSEGURA PARA SI UMA BOA MORTE

Ensina Santo Agostinho que, ordinariamente, uma boa morte sela uma boa vida, e uma má morte é consequência de uma vida má (Enchirid.). Quem vive em Deus morre em Deus, e quem vive como pecador obstinado morre como réprobo. Ora, assim como não há ninguém que disponha de mais meios para viver bem do que o religioso, assim também não há ninguém que, vivendo como bom religioso, tenha argumento mais seguro para terminar bem. A ele se dirigem de modo especial estas palavras consoladoras do Senhor: Levanta-te, ergue-te, reveste-te da tua força, ó Sião (ó alma santa)! veste as vestes da tua glória. Levanta-te do pó e senta-te, ó Jerusalém; rompe os grilhões da tua prisão, filha de Sião, sobe ao trono. O Senhor te dará um repouso eterno e te cingirá com o seu esplendor (Is 52,1-2; 68,11). Ó Jerusalém, depõe o traje do luto e da tristeza, e veste-te de claridade, de honra e da glória eterna que te vem de Deus (Br 5,1).

20. É PRECISO CORRESPONDER ÀS GRAÇAS DO ESTADO RELIGIOSO

Sendo o estado religioso, entre todos os outros estados, o mais nobre, o maior, o mais perfeito, o mais rico e o mais feliz, é necessário corresponder às graças que Deus vinculou a esse estado. É um estado que traz consigo a confiança, a serenidade da alma, a tranquilidade do coração, a liberdade, a luz, a ciência de Jesus Cristo, do céu e da eternidade, a sabedoria, os conselhos de Deus, o trato íntimo com Jesus Cristo, a vigilância, a adoração, a união com Deus e a participação na divindade. Nele se vive somente para Deus e em Deus; o homem conhece a si mesmo e conhece tudo o mais; escondido em Deus, nada vê senão o próprio Deus. Que graças imensas! Mas que estreito dever de corresponder a elas e de fazê-las frutificar! … «Sei por experiência, diz Santo Agostinho, que é raro encontrar em outro lugar almas mais perfeitas do que aquelas que cumprem exatamente seus deveres nos conventos; mas nunca me aconteceu encontrar outras piores do que as que se tornam infiéis nos mosteiros. Por isso creio que foi precisamente para tais almas que o Espírito Santo ditou aquela sentença: Quem é justo, justifique-se ainda mais; quem está manchado, manche-se ainda mais (18)». Santo Antônio costumava repetir que a água é o elemento dos peixes, e que a solidão é o ornamento e a vida dos monges; e que, assim como o peixe morre se é lançado sobre a terra, assim acontece ao religioso que ama sair do recolhimento do mosteiro (In Vit. Patr.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.