Tesouro n.º 123 · Volume II

MUNDO MONDO

18 seções · 68 parágrafos · pp. 1457–1475 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O MUNDO ESTÁ CHEIO DE ERROS E DE ENGANOS

«Eu rogarei ao Pai, disse Jesus aos apóstolos, e ele vos dará outro Paráclito, para que habite em vós eternamente; o espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque de modo algum o vê nem o conhece. Vós, sim, o conhecereis, porque habitará em vós e fará convosco uma só coisa» (Jo 14, 16-17). Jesus Cristo, como se vê deste texto, opõe o Espírito Santo, que é espírito da verdade, ao espírito do mundo, que é espírito da mentira… Jesus afirma que o mundo não pode acolher o Paráclito, porque não o vê e não o conhece; ora, não é isto dizer claramente que o mundo está cheio de erros e de trevas? E o juízo de Jesus Cristo não se engana.

Escrevendo aos coríntios, São Paulo diz: «Quanto a nós, não recebemos o espírito deste mundo, mas o espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons que Deus nos concedeu» (1Cor 2, 12). O espírito do mundo não compreende, diz o Apóstolo, os dons de Deus; vive, portanto, no erro.

O mundo está tão imerso no erro, que confunde a verdade com a mentira, a felicidade com a infelicidade, as verdadeiras riquezas com a pobreza, a morte com a vida. Por isso Santo Agostinho escrevia: «Tudo aquilo que o mundo considera cruz, eu o estimo uma delícia; e aquilo que ao mundo parece agradável e delicioso, a mim se torna enfadonho e pesado (1)».

Do mundo se pode dizer aquilo que o Salmista dizia dos judeus errantes pelo deserto: «Erraram pela solidão, numa terra sem água, e jamais encontraram o caminho da cidade habitável» (Sl 106, 4). «Entregue ao poder de seu espírito perverso, observa São Gregório, o mundo prefere o tumulto à tranquilidade, as coisas pesadas às leves, as penosas às suaves, as duvidosas às seguras, as passageiras às eternas (2)». A vida do mundo, diz Santo Agostinho, é vida miserável, tenebrosa, manchada pela culpa, inchada de orgulho (Medit. c. XIX). «Não há sobre a terra, como já lamentava Oseias, nem verdade, nem misericórdia, nem conhecimento de Deus» (Os 4, 1).

Tudo aquilo que o mundo louva merece censura; aquilo que ele vitupera é digno de louvor; aquilo que pensa é vão; aquilo que esquece é excelente; aquilo que diz é falso; aquilo que condena é bom; aquilo que aprova é mau; aquilo que exalta é infame.

Ó mundo traidor, dizia uma alma cheia de nobre indignação: tu prometes todo bem e não dás senão males; prometes vida e trazes a morte; prometes alegria e trazes aflição; prometes repouso e dás perturbação; prometes flores, mas são flores amarrotadas que murcham no momento em que as colhemos; prometes firmeza e estabilidade, enquanto tu vacilas e cais. Ai de quem confia em ti! Feliz quem te resiste! Mais bem-aventurado quem pode deixar-te sem ferida! Falem todos os homens, fale o velho Adão com toda a sua inumerável família, e digam todos se eles ou algum deles jamais teve, neste mundo de enganos, alegria sem tristeza, paz sem discórdia, repouso sem temor, saúde sem doença, luz sem trevas, pão sem esforço, riso sem lágrimas. Ó mundo impuro! Habitar em ti sem ser enganado e amargurado é impossível; esperar em ti sem temer é loucura; amar-te e não perecer é coisa jamais ouvida nem vista! E nós, imbecis! Nós amamos este mundo que passa, que nos ilude, que nos perturba! Ele nos engana, e nós o julgamos fiel! Mata-nos, e nós o desejamos como vida! Ó mundo sedutor! O teu mel e a tua doçura são fel, são alegria enganosa, são dor certa, são trabalho opressivo, são repouso inquieto; tu estás cheio de misérias e não tens sequer sombra de felicidade consistente (Auct. serm. ad fratr. in eremo serm. XXXI inter Op. S. Aug.).

Sim, os erros e as mentiras abundam no mundo; ou melhor, o mundo inteiro não é senão erro e mentira…

2. O MUNDO ESTÁ CHEIO DE ERROS, PORQUE ESTÁ NA CEGUEIRA ESPIRITUAL

São João, falando do Verbo, diz «que nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam. Ele era a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu; veio à sua casa, e os seus não o receberam» (Jo 1, 4-5, 9-11). O próprio Jesus, voltando-se para o Pai, diz: «Pai santo, o mundo não te conheceu» (Jo 17, 25).

«O homem animal, escreve São Paulo, não compreende aquilo que é do espírito de Deus; para ele isso é loucura, e não pode compreendê-lo, porque se julga espiritualmente» (1Cor 2, 14). «Não ameis o mundo, diz São João, nem aquilo que se encontra no mundo» (1Jo 2, 15). Aqueles que amam o mundo são cegos e insensatos; antepõem aquilo que foge àquilo que permanece; aquilo que perece àquilo que é eterno, a terra ao céu, o homem a Deus, o criado ao incriado. Por isso passam juntamente com as ninharias às quais se agarraram; morrem e caem como presa do inferno…

«O que escolhêreis vós, pergunta Santo Agostinho: amar as coisas temporais e passar com o tempo, ou não amar o mundo e viver eternamente com Deus? Pensai que o amor do mundo vos conduz ao pecado (3)». Ao contrário, como observa São Cipriano: «Nada no mundo pode seduzir aquele que é maior que o mundo (4)». Profunda ignorância e grande cegueira é apegar-se ao mundo, todo trevas e ignorância.

São Paulino compara aqueles que amam o mundo àqueles animais cegos que giram sem cessar a mó. Ludíbrio do erro de seus sentidos, com os olhos da mente obscurecidos pela impureza de seus costumes, giram incessantemente, arrastando um peso enorme e, depois de uma existência desventurada, terminam com uma morte desgraçada (Epl. ad Sever.). «O mundo tem as suas noites, e quantas! exclama São Bernardo. Mas que digo, tem as suas noites? E não é ele próprio uma noite profundíssima, coberta de escuridão e de trevas? (5)».

Orígenes, explicando aquele versículo do Êxodo em que se diz que a terra engoliu os inimigos de Israel (Ex 15, 12), observa que a terra também hoje devora os mundanos, os ímpios; engole aqueles homens que pensam sempre na terra, ocupam-se da terra, tratam e discutem sobre a terra, desejam ardentemente a terra e nela depositam todas as suas esperanças; não olham para o céu, não se preocupam com o futuro, não temem o juízo de Deus, nem se deixam atrair por suas promessas. Se encontrardes um desses, podeis dizer que a terra o engoliu. ― Se vedes uma pessoa entregue à luxúria e afogada nos prazeres dos sentidos, uma pessoa na qual o espírito já não serve para nada, porque se tornou joguete das paixões, dizei: a terra o devorou (6). E bem depressa também a morte e o inferno o devorarão… O profeta define muito bem o mundo, chamando-o «terra do esquecimento» (Sl 87, 13). Com efeito, tudo nele é lançado no esquecimento: Deus, a sua lei, a religião, as boas obras, a salvação, o fim do homem, a vida, a morte, a eternidade… Tudo é esquecido nele, exceto o mal…

3. PERIGOS DO MUNDO

Eu temo, escrevia São Paulo aos Coríntios, que, assim como a astúcia da serpente seduziu Eva, também os nossos pensamentos não se corrompam e se afastem da simplicidade que está em Cristo (2Cor 10, 3). Os pensamentos corrompem-se na atmosfera do mundo. O mesmo Apóstolo diz ainda que muitas vezes se encontrou em perigo nas viagens, nos rios, no mar, no deserto, na cidade, por parte dos salteadores, por parte de seus compatriotas, por parte dos gentios, por parte dos falsos irmãos (Ib. 11, 26). São João, em poucas palavras, traça os perigos do mundo: «Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos, orgulho da vida» (1Jo 2, 12). Numa palavra, tudo no mundo é egoísmo.

«Tudo no mundo está cheio de perigos e ciladas, diz São Leão; as paixões comovem, os prazeres lisonjeiam, os ganhos deleitam, as perdas desanimam, as maledicências amarguram (7)». «Ninguém caminha em segurança entre serpentes e escorpiões, diz São Jerônimo; e vós julgais encontrar paz e segurança nesta terra toda coberta de cardos e espinhos, morada da serpente que seduziu Eva? (8)». Cheia de sabedoria e de verdade é a sentença da Imitação: «Todas as vezes que estive entre os homens, voltei menos homem! (9)». Também nós, com São Bernardo, chamaremos feliz aquele que não caminha seguindo as pegadas do mundo e não deseja aqueles bens que, possuídos, oprimem; amados, maculam; perdidos, atormentam (10).

O mundo é a morada das dores, escola de vaidade, praça pública cheia de trapaceiros, embusteiros e charlatães… Todas as vezes que Demócrito saía de casa e ia ao encontro das pessoas, ria; ao contrário, Heráclito chorava; interrogados sobre o motivo, responderam: aquele ria, este chorava ao ver as ocupações vãs e frívolas dos homens, os cuidados e as solicitudes que se dedicam a um nada (Plutarco). De Demócrito, o mesmo Plutarco ainda nos refere esta frase: «Poucas pessoas me bastam; de uma me contento e voluntariamente dispenso todas as demais (11)».

«Perguntas-me, escrevia Sêneca a Lucílio, o que deves evitar; respondo-te: as pessoas. Jamais poderás frequentá-las sem prejuízo. Quanto a mim, confesso a minha fraqueza, nunca voltei para casa tão bem-comportado quanto dela havia saído. Retorno ao meu quarto mais avarento, mais ambicioso, mais faustoso e voluptuoso, ou antes, mais cruel e desumano, porque convivi com os homens (12)». E pouco depois acrescenta que ninguém pode resistir com bom êxito ao impetuoso assalto dos vícios, que chegam cercados por tão numeroso e terrível cortejo. Um familiar astuto enfraquece e debilita pouco a pouco; um vizinho rico excita a cobiça; um mau companheiro inocula seus vícios na alma mais cândida (Ib.).

4. FALSA SABEDORIA DO MUNDO

«A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus», sentencia o grande Apóstolo (1Cor 3, 19). 1° A sabedoria do mundo é loucura porque, inchado de sua pretensa sabedoria, o mundo não sabe, não aprecia e não se preocupa em conhecer e apreciar as verdades da salvação e as coisas divinas…

2° É loucura porque Deus não quis servir-se dela para anunciar o Evangelho e fazê-lo triunfar, mas escolheu para esse ministério homens que de modo algum conheciam o mundo. E é precisamente isto que São Paulo diz na primeira Epístola aos Coríntios: «Está escrito: destruirei a prudência dos prudentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o investigador deste século? Porventura Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo? Pois, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria; aprouve a Deus salvar os que creem por meio da loucura da pregação. Os judeus pedem milagres, os gregos buscam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas, para aqueles que são eleitos, judeus e gentios, poder e sabedoria de Deus; porque a loucura é mais sábia que a sabedoria, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força dos homens. Agora observai, irmãos, entre vós, quão poucos sábios, poucos nobres, poucos poderosos segundo o mundo se encontram; mas Deus escolheu o que é simples, para confundir os sábios; o que é fraco, para subjugar os fortes; o que é plebeu e vil, para destruir os nobres e os soberbos» (1Cor 1, 19-28).

3° A sabedoria do mundo é loucura porque muitas vezes essa sabedoria se opõe aos dogmas, à moral e às obras da fé. Querendo compreender tudo e explicar tudo somente pelas luzes da razão, ela nega a revelação, a encarnação, a redenção e muitos outros pontos da doutrina cristã… Deus falou; ela nega esse fato… Deus ordenou que se cresse neste e naquele mistério; ela ainda o nega… e chega até a negar a Deus… Qual é, pois, a sabedoria do mundo em matéria de moral e de conduta? Por acaso suas máximas não são o reverso das de Cristo? Jesus Cristo, por exemplo, diz: Bem-aventurados os pobres; bem-aventurados os que choram; bem-aventurados os que têm o coração puro; bem-aventurados os que sofrem! … O mundo clama: Bem-aventurados os ricos; bem-aventurados os que desfrutam a vida; felizes os que nada têm de sofrer! Eis duas morais inteiramente opostas: agora, quem se engana, Jesus ou o mundo? Ah! a árvore conhece-se pelos frutos… Observai a diferença que há entre o sábio segundo Jesus Cristo e o sábio segundo o mundo… Todos os filósofos que se vangloriaram de conhecer, eles somente, os princípios da sabedoria e quiseram ensiná-los, não fizeram senão iludidos e infelizes; acumularam ruínas sobre ruínas. Sua sabedoria revelou-se, na prática, uma loucura perigosa e um flagelo público… «Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos» (Rm. 1, 22), sentenciou São Paulo, e sua sentença é confirmada em todos os séculos.

5. NÃO HÁ PAZ PARA O MUNDO

«Eu vos deixo a paz, disse Jesus aos apóstolos; eu vos dou a minha paz, não porém como a dá o mundo» (Jo 14, 27) … Assim é; o mundo jamais terá a verdadeira paz da alma, porque 1° foge e abomina tudo aquilo que poderia dá-la: a prática do bem, a obediência à lei etc.… 2° porque busca tudo aquilo que a destrói: as riquezas, as honras, o prazer, o cumprimento da própria vontade, que ele substitui à vontade de Deus.

«O Senhor não se encontra na agitação nem em meio aos tumultos», diz a Escritura (1Rs 19, 11). Ora, que outra coisa é o mundo senão tumulto, agitação, desordem, ruído contínuo? Não pode, portanto, haver nele nem a paz nem o Deus da paz… «Não há paz para os ímpios», diz o Senhor (Is 40, 8, 22). Ora, existem homens piedosos nessa cloaca que se chama mundo? …

6. VIDA CORROMPIDA DO MUNDO

Diz São Paulo: «Já vo-lo disse muitas vezes e agora vo-lo repito, chorando: muitos procedem como inimigos da cruz de Cristo; o fim deles será a perdição; fizeram de seu ventre o próprio deus, vangloriam-se de sua vergonha e não apreciam senão as coisas da terra» (Fl 3, 18-19). Eis a piedade que há no mundo!

O mundo é adúltero, e tal é também quem o ama; pois, entregando sua alma ao mundo, a tira de Jesus Cristo, de quem deveria ser esposa… Em vez de se aplicarem a conhecer, amar e servir a Deus, os mundanos se desgastam em conhecer, amar e servir o mundo. Para cair nas boas graças deste, pisam a lei de Deus e o próprio Deus… Sodoma nos oferece o tipo do mundo; assim como Lot se afastou daquela cidade para escapar do fogo, também nós devemos afastar-nos do mundo, se não quisermos participar de sua corrupção e de seu infeliz destino… E como não seria corrompido o mundo, se, segundo a sentença do Espírito Santo, tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos, concupiscência da carne, soberba da vida? (1Jo 2, 16).

«O mundo, diz ainda São João, jaz todo inteiro no mal» (1Jo 5, 19). 1° O mundo, isto é, os mundanos, pertencem de alma e corpo ao maligno, porque estão sujeitos ao tirânico poder do demônio; curvados sob o seu jugo, levam uma vida imunda, perversa, escandalosa… 2° Jazem no mal porque apodrecem na malícia do pecado, presas da brutal concupiscência que os impele a todo delito. 3° O mundo pertence ao maligno porque todos os homens nascem no pecado. 4° Pertence ao maligno porque ocupa um lugar estreito, tenebroso, semeado de escolhos, cheio de precipícios… Esta frase significa ainda que os mundanos têm um coração mau, estéril, semelhante a um terreno pedregoso ou eriçado de espinhos e abrolhos, que não produz bom fruto. Têm um coração maligno, isto é, duro, avarento, que jamais se entrega a Deus e nada faz para merecer a sua graça; um coração inimigo da justiça, astuto, fraudulento, de sentimentos diabólicos… «O mundo, diz o profeta, afundou-se na morte que ele mesmo preparou» (Sl 9, 15).

«Cai num péssimo engano, escreve Santo Agostinho, aquele que se lisonjeia de poder conhecer a verdade enquanto vive na iniquidade. Ora, viver na iniquidade é amar este mundo, é ter em grande estima aquilo que nasce e morre, desejá-lo, afadigar-se para obtê-lo, alegrar-se quando se o possui em abundância, temer perdê-lo, entristecer-se quando o perdeu (13)».

Os enviados por Moisés para explorar a terra prometida responderam que haviam visto monstros e que o solo devorava os seus habitantes (Nm. 13, 33-34). A mesma resposta poderiam dar quantos têm conhecimento e experiência do mundo. Quem conhece um pouco o mundo o chamará, com São Bernardo: «Estábulo, prisão, átrio do demônio, noite tenebrosa, caminho dos pecadores, campo de espinhos, cruz, inimigo de Deus, infiel, impelido pelo vento da vaidade, amante do nada (14)».

O mundo é tão inclinado ao mal que desnatura e corrompe tudo. Ataca os dogmas da religião com dúvidas e negações… Corrompe a moral com ensinamentos contrários aos virtuosos e moderados… Calca aos pés o culto com o desprezo e a indiferença religiosa…

No mundo se vê cumprida aquela sentença de Oseias: «A blasfêmia, a mentira, o homicídio, o furto, o adultério inundaram a terra, e o sangue se misturou ao sangue» (Os 4, 2).

Outra descrição não menos verdadeira nem menos viva lê-se no capítulo XIV da Sabedoria: «Os mundanos imolaram os seus filhos, instituíram sacrifícios tenebrosos e vigílias em que se comete toda espécie de loucura. Não respeitam a vida daqueles que hão de nascer, nem a santidade do leito nupcial; matam-se por inveja e entristecem-se por causa dos adultérios. Tudo é tumulto e confusão; o sangue, o homicídio, o furto, a dissimulação, a corrupção, a infidelidade, o perjúrio, a perseguição dos justos, o esquecimento de Deus, a degradação das almas, o aborto, as desordens do matrimônio, as dissoluções do adultério e da impudicícia, tudo anda misturado e confundido… As suas alegrias terminam em loucura, as suas previsões, na falsidade; vivem na injustiça, juram falsamente sem cessar… Mas a pena do pecado caminha juntamente com a transgressão do ímpio».

Santo Anselmo, arrebatado em êxtase, viu um dia um imenso rio que arrastava todas as imundícies da terra, de modo que nada se poderia encontrar de mais repugnante, de mais pestilento. As ondas negras e lamacentas daquela torrente arrastavam homens, meninos, ricos e pobres, que todos comiam daquela lama. Tendo o santo perguntado o que significava aquela visão, foi-lhe respondido que o rio era o mundo, e os que nele se afogavam, os amantes do mundo (SURIO, In Vita).

7. O MUNDO É EGOÍSTA, TRAIDOR E CRUEL

Ao mundo se aplica aquela sentença de São Paulo: «Todos buscam os seus próprios interesses, e não os de Jesus Cristo» (Fl 2, 21). O mundo age em tudo por egoísmo, não vê além da própria vantagem; somente isso deseja e somente a isso atende… A caridade é, para ele, nome desconhecido, vão ou aborrecido… Nele não se encontra nenhum desinteresse, nem generosidade, nem sacrifício para alívio de quem sofre… Poucas esmolas, escassos auxílios, pequenos serviços, mil vezes lançados em rosto… Os ricos competem entre si para ver quem arranca juros mais exorbitantes; os pobres disputam para ver quem rouba mais ou melhor engana; não há confiança, nem honestidade, nem boa-fé; cada um busca o próprio interesse, ainda que por isso o universo inteiro devesse perecer.

Mas não basta: não satisfeito em cuidar somente do próprio interesse, o mundo calca aos pés todo senso de fidelidade e de honra quando isso lhe convém. Ele está verdadeiramente imerso, como diz São João, na malignidade e, portanto, nas crueldades e traições que dela são consequência e fruto. A sua morada é na oficina dos enganos e das fraudes, segundo a frase de Jeremias (Jr 9, 6): o mundo é a morada dos hipócritas e dos impostores.

«O mundo sorri para se tornar cruel, lisonjeia para enganar, acaricia para transpassar, exalta para humilhar; com a avidez de um usurário, tanto mais se vinga atormentando os seus quanto mais largamente os cumulou de dignidades e honras (15)». Por isso escreve Santo Agostinho: «Uma de duas: ou nós zombamos do mundo, ou o mundo zombará de nós; se não o desprezarmos, ele nos desprezará (16)».

O mundo trai com os bens, com as honras, com os prazeres que proporciona, com as promessas, com as lisonjas, com os elogios e até com as ameaças… Ele nunca fez, em tempo algum, senão iludidos, infelizes ou vítimas… É a sereia que canta, seduz e adormece, para atrair os incautos… Arma-se de iscas e anzóis envenenados, para levar ao delito e precipitar na perdição. «Ó século mau e cruel, que não sabes tornar felizes os teus seguidores de outro modo senão fazendo-os rebeldes contra Deus! (17)».

O mundo enriquece a um e despoja outro; a um dá, de outro tira. Um não pode nadar na abundância sem que outro se encontre na miséria, e daí vêm a inveja e as maldições. Assim como o sol não ilumina um hemisfério sem antes deixar o outro nas trevas, assim também no mundo ninguém resplandece sem que outro se obscureça; ninguém se eleva sem que outro lhe sirva de escabelo… Ao contrário, Deus é rico para todos os homens; por isso o Salmista diz, a respeito do justo que o serve, «que a glória e os tesouros abundam em sua casa; a sua justiça durará pelos séculos… a sua virtude será coroada de glória» (Sl 111, 3, 8). E em outro salmo (o 36): «Esperai no Senhor e praticai o bem, e habitareis a terra e vos alimentareis de suas riquezas. Colocai as vossas delícias no Senhor, e ele cumprirá todos os desejos do vosso coração. Apresentai ao Senhor as vossas obras, confiai-vos a ele, e ele agirá; fará resplandecer a vossa justiça como uma tocha e a vossa inocência como o sol em pleno meio-dia».

Quantas traições, quantas crueldades não se cometem no mundo pelo pensamento, pelo desejo, pela palavra, pelos atos e pelas omissões! E como não seria o mundo traidor e cruel? Não promete ele acaso a felicidade a todos os seus idólatras? E, entretanto, quantos a alcançam? Que fez, há cerca de seis mil anos, de todos os que o amaram, que recompensas lhes deu? Uma vida miserável, uma morte desesperada, o inferno eterno. O mundo jamais salvou ninguém.

São Gregório pinta ao vivo esta sabedoria traidora do mundo: «A sabedoria deste mundo consiste em cobrir o coração com uma máscara fingida, em ocultar as intenções com palavras, em dar como verdadeiro aquilo que é falso e mostrar como falso aquilo que é verdadeiro. O século chama urbanidade à perversidade da mente, ensina a ambicionar os bens, a vangloriar-se do vão fulgor de uma glória que passa, a vingar-nos do mal recebido, a jamais ceder diante de quem nos contradiz. Ao contrário, para os justos é sabedoria nada ostentar, abrir candidamente o próprio pensamento, amar a verdade, evitar a falsidade, fazer o bem sem pretender recompensa, sofrer o mal em vez de praticá-lo, não buscar vingança pelas afrontas e considerar como ganho os insultos recebidos pela causa da verdade; mas esta simplicidade dos bons é ridicularizada, porque, aos olhos da sabedoria do século, a virtude da sinceridade parece loucura; e tudo o que é feito com pureza de intenção ela chama de ingenuidade (18)».

8. CUIDADOS DO HOMEM MUNDANO

«Ó vãs preocupações dos homens, exclama São Jerônimo, que vazio se encontra no fundo das coisas! Um só pensamento nos torna felizes: pensar em Deus (19)». «O mundo corre de desejo em desejo, escreve Cassiodoro; e este é o círculo pelo qual os ímpios são obrigados a girar (20)», cumprindo-se nos homens mundanos aquelas imprecações de Davi: «Faze, Senhor, dos príncipes do mundo outras tantas rodas» (Sl 82, 12).

A este respeito, também Santo Agostinho diz: «Penso que o mundo foi comparado a um moinho, porque, posto a girar pela roda do tempo, tritura aqueles que o amam (21)».

Neste baixo mundo há um contínuo ir, vir, avançar, retroceder; compra-se, vende-se, troca-se, perde-se, ganha-se, sempre em agitação, muitas vezes na dor, algumas vezes no desespero. O mundo é uma feira contínua em que o demônio ocupa a praça; vende-se-lhe a alma, e ele dá o inferno como pagamento; todos os homens se vendem: uns à avareza, outros ao orgulho, outros à gula, outros à luxúria; um se faz servo de tal estado, outro de tal profissão; aqui encontrais quem se aprisiona num negócio, ali quem se enreda nos tribunais, em outro lugar quem se prende à terra. Todos, porém, são devorados pelas preocupações e solicitudes: pensamentos para o corpo, esquecimento da alma; pensamentos para o tempo, esquecimento da eternidade; pensamentos para o nada, esquecimento dos mais sagrados deveres e da única coisa necessária: a salvação eterna.

9. MISÉRIA E ESCRAVIDÃO DO MUNDO

«Nos vínculos deste mundo, dizia por experiência Santo Agostinho, há verdadeiro sofrimento, alegria aparente; dor certa, prazer incerto; temor pungente, repouso inquieto; vã esperança de felicidade em meio à absoluta miséria. Nestas cadeias pomos as mãos e os pés! Os bens temporais que buscamos inflamam de ardentes chamas o nosso coração; aqueles que já se desvaneceram atormentam-nos. Quando são desejados, queimam; quando possuídos, perdem o seu valor; quando perdidos, desaparecem para sempre (22)». «Na região dos mortos, diz alhures o mesmo Padre, não se encontra senão dor, aflição, temor, fadiga, tribulação, gemidos e suspiros. No século não há senão dias maus, mas em Deus gozam-se sempre dias bons (23)».

«Em toda parte deste mundo, diz São Gregório, correm a morte e as lágrimas; reina a desolação. De todos os lados recebemos feridas, a todas as horas somos dessedentados com amargura; contudo, a nossa alma, cegada pela concupiscência, agarra-se como ensandecida aos falsos bens do mundo; corremos atrás deles quando se afastam e apegamo-nos ainda mais a eles quando ameaçam desaparecer. Não podendo depois reter aquilo que nos escapa, também nós caímos e desaparecemos com ele. A vida presente, comparada com a futura e eterna, deve antes ser chamada morte que vida (24)». O mundo é verdadeiramente, como o chama o Salmista: «Terra deserta, sem caminhos e sem água» (Sl 62, 2). Dizei aos mundanos que rezem, que pensem na sua salvação eterna, e eles vos respondem que não têm tempo para isso. Não é esta uma deplorável escravidão, uma horrível miséria!

10. O DEMÔNIO É O REI DO MUNDO

O Redentor chama o demônio de «príncipe deste mundo» (Jo 12, 3); São Paulo chama-o «deus deste século» (2Cor 4, 4), e São João nos mostra o mundo rastejando acorrentado aos pés deste monstro (1Jo 5, 19).

São Bernardo vê no mundo o átrio do demônio (Serm. in Psalm.), e São Lourenço Justiniani escreve: «Quando foi dito à serpente: comerás a terra, também foi dito ao pecador: tu és terra e à terra hás de voltar. Isto quer dizer que o pecador é dado como alimento ao demônio: não sejamos, pois, terra, se nos importa não ser devorados pela serpente (25)». Sim, o mundo tem por rei, por pai e por guia o diabo, mas tê-lo-á também por remunerador. Como prêmio pela fidelidade com que os mundanos ouviram as suas palavras, obedeceram-lhe e o serviram, o demônio lhes dará o desespero e as chamas eternas.

11. AS CALAMIDADES SÃO O PATRIMÔNIO DO MUNDO

«Ai do mundo», disse Jesus Cristo (Mt 18, 7). «Ai, ai, ai dos habitantes da terra!», anunciou São João no Apocalipse (8, 13); isto quer dizer que desgraças sobre desgraças cairão sobre os homens mundanos e carnais que se apegam de alma e coração à terra e às criaturas.

«Não penseis encontrar alguma felicidade na arena deste mundo, onde a nossa missão é lutar e combater (26)», escreve Eusébio. Santo Agostinho nos adverte de que todos os dias do mundo são nefastos e marcados por alguma desgraça (Serm. XLII de Verb. Dom.). Portanto, se amamos a Deus, não conheceremos o temor e a ansiedade do mundo e caminharemos, seguros de não naufragar, sobre as suas ondas. Se, ao contrário, amamos o mundo, ele nos tragará em seus redemoinhos, pois devora e não leva consigo aqueles que o amam (27).

Quanto mais crescem os sofrimentos e as provas suportados por Jesus Cristo, tanto mais aumentam também as consolações. Ao contrário, os sofrimentos e as provas que se sofrem pelo mundo são fel sem uma gota de mel; quanto mais crescem em intensidade e em número, mais aumentam e se agravam os desgostos, as dores, as angústias, os tormentos… Ó cegueira! O mundo não dá senão males, dores e desgraças, e é amado; Deus não dá senão consolações e bens, e é esquecido e ofendido! …

12. SOMENTE O VICIOSO AMA O MUNDO

«Se o mundo te agrada, diz Santo Agostinho, é sinal de que te agrada estar na lama; se, ao contrário, o mundo não te agrada, faze de modo que habite em ti aquele que purifica, e serás puro; mas, quando fores puro, jamais poderás habitar no mundo (28)». Portanto, não se pode ser mundano e viver bem; mas, a partir do momento em que se começa a viver bem, deixa-se de ser mundano. Amar aquilo que mancha e torna vicioso é o mesmo que estar manchado e ser vicioso. É próprio do mundo seduzir ao desafogo de toda paixão e impelir a todos os excessos do mal; por isso, quem o ama e o escuta é degradado e sepultado na lama e na sujeira.

13. QUEM AMA O MUNDO PERECERÁ

Há uma grande diferença, escreve Santo Agostinho (fazendo um jogo de palavras com os dois sentidos opostos do vocábulo mundo (mundus)), entre sair do mundo (isto é, do século) e abandonar o mundo (isto é, a pureza da vida, ou seja, a prática do bem); uma coisa é ir para um pai, e outra é ir para um inimigo. Os egípcios saíram do Egito, porque, perseguindo o povo de Israel, não permaneceram no Egito; contudo, não passaram do mar para a terra prometida, mas do mar para a destruição (Tract. XXXVIII in Ioann.). Isto acontece aos mundanos que passam do mundo para a morte eterna… Encontram a sorte dos habitantes de Sodoma; as suas paixões e os seus crimes recaem sobre eles como chuva de fogo e enxofre, que sufoca neles a vida espiritual e os sepulta no lago ardente que a cólera de Deus acendeu para eles.

A cruz é o caminho para a vida; o mundo, o caminho para o abismo, para a perdição, para a morte; chega à salvação somente aquele que despreza o mundo, porque este, diz Santo Agostinho, esmaga e tritura os seus amantes. (Loc. cit.)

14. DEUS AMALDIÇOOU O MUNDO

«Eu não rogo pelo mundo» (Jo 17,9), disse Jesus Cristo ao Pai. Jesus abandona, portanto, o mundo ao seu juízo pervertido; e que fará o mundo sem Deus? … Se alguém pensa poder permanecer com o mundo e não ser abandonado por Deus, ouça o que diz São Tiago: «Não sabeis que o amor do mundo é inimigo de Deus? Portanto, quem quer que goze dos favores do mundo encontra o desfavor de Deus; quem é amigo do século é inimigo de Deus» (Tg 4,4). Deus e o mundo não podem habitar sob o mesmo teto, ao mesmo tempo. O mundo abandona Deus, e Deus rejeita o mundo; o mundo ultraja Deus, e Deus amaldiçoa o mundo. «Não ameis, pois, o mundo, conclui São João, nem o que há no mundo; porque naquele que ama o mundo não há o amor do Pai» (1Jo 2,15).

15. NÃO SE PODE SERVIR A DEUS E AO MUNDO

É sentença do Redentor que ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo; porque ou amará um e odiará o outro; ou será obediente e dócil a este e desprezará aquele (Mt 6,24).

«Ninguém pode abraçar num só amplexo, diz São Gregório, o mundo e Deus (29).» São Paulo recomendava aos romanos que não imitassem os costumes do século (Rom. 12,2). E em outra passagem dizia: «Se eu ainda agradasse aos homens, não seria servo de Jesus Cristo» (Gl 1,10). E declarava que aquilo que era lucro, ele o considerava perda, por Jesus Cristo. Além disso, instruído pela sublime ciência de Jesus Cristo, seu Senhor, por amor do qual se despojara de todos os bens, considerava como perda e como lixo todas as coisas do mundo (Fl 3,8).

«Dois amores construíram duas cidades, escreve Santo Agostinho; o amor de Deus, até o desprezo de nós mesmos, edificou a cidade de Jerusalém; o amor de nós mesmos, até o desprezo de Deus, construiu a cidade de Babilônia (30).» E em outro lugar (31) observa que, assim como é impossível que um olho contemple ao mesmo tempo o céu e a terra no mesmo ponto, assim também o amor de Deus e o amor do século não podem coexistir no mesmo coração.

O amor do mundo gera o ódio de Deus… Deus não derrama o perfume de suas graças senão numa alma livre e pura, que evita toda mancha do mundo e se entrega somente a ele.

«Desprezemos como leve, falaz, vão e indigno do nosso amor tudo o que se encontra sob o céu», diz São Cipriano (32). «E que importa a terra, diz o Crisólogo, àquele que possui o céu? Que importam as coisas humanas àquele que saboreou as divinas? A não ser que haja deleite em gemer, prazer nos trabalhos, nas penas e nos perigos; a não ser que nos conforte uma morte péssima e nos agrade mais sofrer o mal do que gozar o bem! (33)».

«Se a pátria do homem, segundo São Gregório Nazianzeno, se encontra em toda parte e em parte alguma sobre a terra (34)», sábio conselho é o de Hugo de São Vítor, que nos exorta, como a um grande princípio de virtude, a exercitar pouco a pouco a alma a desprezar aquilo que é visível e transitório, para poder depois abandoná-lo. Quem ainda ama o seu país é fraco; aquele para quem todo país é pátria é forte; mas quem considera o mundo como um exílio é perfeito. O primeiro ainda tem o coração no mundo, o segundo o fere, mas o terceiro já o matou. (Instit. mon., c. VIII).

Todos os cristãos devem estar mortos para o mundo, crucificados com Jesus Cristo; devem ser estranhos às pompas e às obras do mundo, para que o Cristianismo seja a imagem da cruz e o cristão represente Jesus Cristo. Todos nós prometemos junto à fonte batismal, e todos devemos dizer com São Paulo: «Quanto a mim, Deus me livre de me gloriar em outra coisa que não seja a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo» (Gl 6,14):

«Tu és céu, contanto que o queiras, diz Santo Agostinho; mas para isso deves expulsar do coração tudo o que tem sabor de terra. Então serás verdadeiramente céu, quando já não cederes aos desejos da terra e não responderes em vão que tens o coração no alto. Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas que estão no alto, onde Cristo está sentado à direita do Pai; apreciai as coisas celestes, não as terrenas. Dizes que começas a preferir as coisas do céu às da terra; nesse caso, não te tornaste céu? Ainda carregas o peso da carne, mas teu coração está mais alto: tu és céu. Com efeito, tua morada estará nos céus (35)».

16. O CRISTÃO DETESTA O MUNDO

«Não ameis nem o mundo nem as coisas que estão no mundo», diz São João (1Jo 2,15). E um sinal certo de ser filho de Deus é não amar o mundo, porque «tudo o que nasceu de Deus vence o mundo; e a vitória que derrota o mundo está na nossa fé» (1Jo 5,4). «Vivia, diz São Gregório, mas não da vida do mundo, aquele que podia dizer: Eu vivo; mas já não sou eu que vivo: é Jesus Cristo que vive em mim (36).» E mostrava também viver da vida de Cristo aquele que exclamava: «Oh! quanto me causa repugnância a terra, quando olho para o céu!» (RIBADEN. In Vita S. Ignat. de Loyola).

Santo Agostinho diz: «Viveu como verdadeiro cristão aquele que desprezou as carícias do mundo e chegou a obter a palma de Deus, porque não cedeu às perseguições. Tendo seguido o Cordeiro, venceu o leão. O leão fremia e rugia, mas o cristão, elevando as pupilas ao céu, para o Cordeiro, calcava aqui embaixo o leão. Ele sabia por qual vida desprezava a vida presente; sabia por qual felicidade suportava uma infelicidade passageira e a quais prêmios chegaria, se não desse atenção aos males presentes (37)». Depois, em outro lugar, conclui assim: Tens o coração voltado para a terra? Serás terra; amas a Deus? Serás Deus. Se, portanto, quereis ser deuses e filhos do Altíssimo, não ameis nem o mundo nem as coisas mundanas (38).

17. É PRECISO FUGIR DO MUNDO

«Levantai-vos, exclama Miqueias, ide-vos daqui, porque não há aqui repouso para vós, por causa da impureza que tudo inunda» (Mq 2, 10). «Fugi da Babilônia, repete Jeremias, e cada um salve a sua alma» (Jr 51, 6). «O culto puro e imaculado diante de Deus é conservar-se puro das manchas deste século», escreve São Tiago (Tg 1, 27).

«Foge do mundo, se queres ser puro, diz Santo Agostinho; foge da criatura, se queres possuir o Criador, porque, para que o Criador te seja doce, é preciso que a criatura te seja amarga (39)». Súrio refere este dito de São Tomás da Inglaterra: «O mundo não é puro, porque mancha; e como será puro aquele que permanece no mundo? (40)».

18. COMO DEVE PORTAR-SE QUEM VIVE NO MUNDO

Quem é obrigado a viver no mundo deve: 1° considerar-se como estrangeiro e peregrino. «Nossos pais, escrevia São Paulo aos Hebreus, saudando de longe as promessas, confessavam que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra» (Hb 11, 13). «Caríssimos, dizia Pedro, exorto-vos, como peregrinos e estrangeiros, a vos guardardes dos desejos carnais que fazem guerra ao espírito» (1Pd 2, 11).

«Nada neste mundo deve estar tanto a peito quanto dele sair o quanto antes», escreve Tertuliano (41); Santo Agostinho diz que «quem pertence à cidade de Deus é estrangeiro ao mundo. Enquanto se serve da vida presente, vive num país que não é sua pátria e onde, em meio a mil seduções e ciladas, é glória de poucos conhecer e amar a Deus (42)».

2° Devemos gemer sobre as iniquidades do mundo e lamentar ter de nele habitar, como se estivéssemos encerrados numa prisão ou vivêssemos na escravidão. Devemos dizer como os hebreus, escravos na Babilônia: «Às margens dos rios da Babilônia, sentamo-nos em silêncio e choramos, lembrando-nos de ti, ó Sião. Nos salgueiros penduramos nossas cítaras e, àqueles que nos diziam: Cantai para nós um hino daqueles que se cantam em Sião, respondíamos: E como haveremos de cantar o cântico do Senhor em terra estrangeira? Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, seja esquecida a minha direita. Apegue-se a minha língua ao palato, se eu não me lembrar de ti; se não puser Jerusalém acima de toda a minha alegria» (Sl 136).

3° É necessário pôr em prática as excelentes lições do grande Apóstolo aos Coríntios: «Eu vos advirto, ó irmãos: o tempo é breve; portanto, os que têm mulher, vivam como se não a tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se não o usassem; porque a aparência deste mundo passa» (1Cor 7, 29-31).

4° É preciso seguir em tudo a lei de Deus e aborrecer as máximas, a moral e os exemplos do mundo.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.