A palavra virtude, virtus, deriva do vocábulo vis, que quer dizer força, vigor. Não é diversa dessa substância a etimologia que lhe dá Cícero, fazendo-a derivar da voz latina vir, isto é, homem: ― Appellata est ex viro virtus (De Offic.). Também se pode dizer que é um vocábulo composto das duas vozes latinas viri opus, obra viril. Tal é a virtude em sentido etimológico; considerando-a depois em si mesma, pode ser chamada, com São Bernardo: «O vigor do espírito, estreitamente unido à reta razão (Serm. 85, In Cant.)». Em outro lugar, o mesmo Santo confirma e explica essa sua definição, dizendo que a virtude é filha da razão, mas sobretudo da graça. A virtude é um consentimento voluntário ao bem. É o livre uso da vontade, que segue o juízo da razão (De vita solitar. )… A virtude em si mesma é o amor daquilo que é honesto, daquilo que é bom… A virtude, dizem os filósofos, é um estado do espírito conforme à natureza do homem, à sua razão e à lei que o governa.
Segundo os cristãos, segundo os teólogos, a virtude é o maior dos bens… Santo Agostinho chama-a «a afecção extremamente ordenada da alma» (De Morib. Eccles. c. XI); em outro lugar define-a: «A arte de viver bem e retamente» (De Civit. Dei, lib. 4, c. XXI). Santo Ambrósio faz que ela consista na vontade de não querer pecar e na perseverança dessa vontade (In Luc. lib. 8, c. XVIII). Toda virtude é amor e caridade, isto é, produz-se em atos ordenados pela caridade, a qual é quem ordena, dirige, forma e aperfeiçoa a virtude. A virtude é um bem que se realiza fazendo violência a si mesmo… A virtude consiste em viver segundo Deus, segundo a sua lei, a sua graça e o ensinamento da Igreja… A virtude consiste em fazer aquilo que Deus e a consciência impõem; em evitar aquilo que Deus e a consciência proíbem.
Por isso, a virtude consiste nas obras, não nas palavras, segundo aquelas duas sentenças peremptórias de Jesus Cristo: «Não aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas somente aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus» (Mt 7, 21); e esta outra: «Toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mt 3, 10). Quantos são virtuosos nas palavras e viciosos nas obras! Se o grão confiado à terra não germinasse e não desse fruto, para que serviria?
Do que foi dito acima já resulta quão premente é a necessidade de praticar a virtude; mas essa necessidade é reafirmada por Jesus Cristo naquele mandamento: «Buscai antes de tudo o reino de Deus e a sua justiça» (Mt 6, 33); pois o reino de Deus não se pode buscar nem obter senão pela virtude; advertindo ainda que «quem semeia pouco, pouco colhe, e quem semeia com mão larga, colherá também em abundância» (1Cor 9, 6). Por isso, o Apóstolo animava Timóteo a exercitar-se na piedade (1Tm 4, 7), isto é, a exercitar-se em toda espécie de virtude; e o Sábio dizia: «Amei a virtude, fui em sua busca desde a minha juventude e pedi-a em esposa, atraído pela sua beleza» (Sb 8, 2).., O homem que vive sem virtude não é homem, mas tem apenas a aparência de homem, como reconheceu e afirmou o pagão Epicteto, de quem se refere este dito: «É indigno de levar o nome de homem aquele que não se esforça por ser virtuoso (Anton. In Meliss.)». Depois, jamais se deve parar enquanto não se tiver alcançado a plenitude da virtude; nunca se deve cessar de fugir do pecado, seu mortal inimigo… Sem virtude não há salvação; sem salvação não se tem o céu, não se tem Deus na eternidade; portanto, onde não há virtude, há a eterna reprovação.
À primeira vista, o caminho da virtude parece estreito e espinhoso, mas logo se alarga e se suaviza, e tanto mais se aplaina e se torna deleitoso quanto mais o homem avança por ele… Tudo o contrário do caminho do vício… «Toda virtude, diz São Paulo, parece trazer no presente não alegria, mas tristeza; depois, porém, dá àqueles que nela se exercitaram um fruto dulcíssimo de paz e de justiça» (Hb 12, 11); e ainda: «Tribulação e angústia para a alma do malfeitor; glória, honra e paz para aquele que faz o bem» (Rm 2, 9-10). E antes dele o Sábio já havia observado que a virtude é esplêndida e jamais se obscurece, de modo que é facilmente vista por aqueles que a amam e encontrada por aqueles que a buscam. Ela se antecipa àqueles que a desejam, para mostrar-se primeiro a eles (Sb 6, 13-14).
Não há virtude sem trabalho e esforço, porque a virtude só progride à força de fadiga; mas a doçura da virtude suaviza a aspereza do esforço; aquilo que nele há de triste e penoso logo passa e desaparece; aquilo que nele há de reconfortante e doce vem e permanece. É certo que se saboreia uma felicidade muito mais suave ao chorar os pecados do que ao cometê-los… É preciso mais esforço para ser vicioso do que para ser virtuoso; de fato, Santo Agostinho, que havia bebido na taça dos prazeres mundanos, tão logo conheceu a felicidade e a beleza da virtude, exclamou, inebriado: Beleza sempre antiga e sempre nova, oh! como tarde te amei! (Confess.).
Praticando a virtude, acostumamo-nos a caminhar por seus caminhos com audaciosa segurança, porque firme e sólido é o seu caminho, e quem o segue pode dizer com o Salmista: «Meus pés caminharam pela via reta» (Sl 25, 12). A virtude é o jugo, é o peso de Jesus Cristo; ora, Jesus nos diz: «Tomai sobre vós o meu jugo, porque ele é suave, e o meu peso é leve» (Mt 11, 29-30). O que torna fácil a virtude é a graça, são os sacramentos, os exemplos de Jesus Cristo e dos Santos, a recompensa prometida e esperada… Grande prova de que a virtude é fácil e doce temos nisto: todos os que a amam e praticam são felizes; todos os que retornam a ela depois de tê-la abandonado lamentam não a ter praticado durante toda a vida; e aqueles que a negligenciam e desprezam são os mais infelizes dos homens…
Lê-se no Primeiro Livro dos Reis que os filisteus, tendo tomado a arca da Aliança ao povo de Israel, a colocaram no templo de seu ídolo, Dagom; mas, na presença da arca, o pretenso deus caiu por terra, sua cabeça separou-se do tronco e suas mãos foram vistas decepadas. A arca é a virtude; Dagom é o vício e o pecado… É empreendimento absurdo associá-los… «Que acordo pode haver, diz São Paulo, entre Cristo e Belial?» (2Cor 6, 15). Acaso já se viram as trevas reconciliar-se com a luz, a vida com a morte, o céu com o inferno? «As pessoas insensatas, diz o Sábio, não compreendem a virtude, nem sequer a veem, porque ela está longe de seu orgulho e de sua malícia; os sábios vão ao seu encontro. Os mentirosos não se lembram dela; os homens sinceros jamais dela se afastam um ponto sequer e caminham felizmente ao seu lado até a visão de Deus» (Eclo 15, 7-8).
A virtude é inimiga do vício: persegue-o, assalta-o, expulsa-o; o vício é o inimigo declarado da virtude: arma-lhe ciladas e combate-a exteriormente, sufoca-a e aniquila-a no coração. As virtudes, diz São João Crisóstomo, não podem habitar com os vícios. Quando os vícios são derrotados pelas virtudes, a caridade toma posse do lugar que antes ocupava o espírito de concupiscência; a paciência retoma o que o furor havia conquistado; uma alegria salutar restaura e fortalece aquele coração que a tristeza, companheira da morte, mantinha pisoteado e abatido; o trabalho repara os danos da preguiça, a humildade ergue aquilo que o orgulho havia pisoteado. Triunfando no homem as virtudes opostas aos vícios que antes o dominavam, elas o chamam a uma vida nova (In Exod.).
«A virtude é coisa tão excelente, diz São João Crisóstomo, que nenhuma outra pode comparar-se a ela; basta dizer que até aqueles que a combatem não podem deixar de admirá-la» (Homil. ad pop.), e Santo Ambrósio diz que é perfeita aquela idade, ainda que muito tenra em anos, na qual se encontra uma virtude perfeita (De Iacob.). São Bernardo chama-a um astro e chama céu ao homem que dela está provido (Serm. 27, in Cantic.). E, de fato, a virtude contém em si todos os bens; basta a si mesma e, quando reina em um coração, este já não sente privação alguma, nem teme confusão ou aflição de espécie alguma. Jó, despojado de tudo, sobre o seu monturo, era o homem mais rico e mais tranquilo do mundo, porque possuía a virtude… E a virtude, diz o Espírito Santo, dispõe suavemente todas as coisas (Sb 8, 1); é mais preciosa que todo diamante; todas as pedras preciosas da terra não igualam o seu valor. Seus caminhos são caminhos de doçura, e todas as suas veredas conduzem à paz. Com uma mão, ela apresenta a longevidade; com a outra, oferece honras e riquezas. É a aurora da vida para aqueles que a abraçam; felizes os que a estreitam contra o peito! A sua posse vale mais que todos os tesouros, e os seus frutos são mais preciosos que o ouro puríssimo (Pr 3, 14-18).
Depois de testemunho tão autorizado, não é de admirar que todos os santos Padres considerem pobreza e miséria toda riqueza do mundo, quando comparada com a virtude. Clemente de Alexandria ensina que o verdadeiro tesouro é o acúmulo de ações virtuosas (Paedag. l. III). «Não o ouro e a prata, diz São Bernardo, mas as virtudes constituem as verdadeiras riquezas» (Serm. 4, de Advent.). Santo Ambrósio nos adverte que Deus não considera rico senão aquele que é rico para o céu, aquele que recolhe não os frutos das riquezas perecíveis, mas os frutos das virtudes. Não vos parece sumamente rico aquele que possui a paz da alma, a tranquilidade, o repouso; que nada deseja, que não é agitado por tempestade alguma?… Portanto, se quereis encontrar tesouros, escolhei aqueles que encontrareis na virtude, não aqueles que estão sepultados nas entranhas da terra. A vida e a riqueza do homem consistem na virtude. Com a virtude, ainda que faltasse todo o resto, tem-se tudo; sem a virtude, ainda que todo o restante abundasse, não se tem nada (De Abel et Cain, l. 11, c. V – l. 1, c. V).
São Próspero, falando da virtude, diz admiravelmente: Devemos desejar riquezas que nos adornem e protejam; que não adquiramos sem o saber, que não percamos contra a nossa vontade, que nos armem contra os nossos inimigos, que nos tornem vitoriosos sobre o mundo e queridos de Deus; que enriqueçam e enobreçam as nossas almas, que estejam conosco e em nós. E essas riquezas são a pureza, a justiça, a piedade, a humildade, a mansidão, a misericórdia, a fé, a esperança, o amor (De vita contemp.). «As riquezas que não podem permanecer conosco por muito tempo são falsas, escreve São Gregório (Homil. 15, in Evang.); falaciosos são os tesouros que não trazem alívio à pobreza da nossa alma. As únicas riquezas verdadeiras são aquelas que nos tornam ricos em virtude. Se quereis, pois, ser verdadeiramente ricos, amai as virtudes, únicas riquezas verdadeiras e sólidas». Estão cheias de sabedoria as palavras de Tobias a seu filho: «Não temas; é verdade que levamos uma vida pobre, mas possuímos grandes riquezas, se tememos a Deus, se nos abstemos do pecado e fazemos o bem» (Tb 4,23).
O Sábio, nos Provérbios, chama a virtude de árvore da vida (3,18); e, com efeito, 1° ela proporciona e conserva tanto a vida natural da alma quanto a sobrenatural da graça… — Assim como a árvore da vida comunicava o vigor da vida, também a virtude afasta da nossa vida aquilo que a enfraquece e a faz definhar. «O justo florescerá como a palmeira» — diz o Salmista (91,13)… 3° Saborosíssimo era o fruto da árvore da vida; tal é o fruto da virtude… 4° A árvore da vida preservava o homem da morte; esse prodígio também a virtude realiza… 5° A árvore da vida no paraíso representava a visão de Deus; a virtude representa Deus naquele que a pratica. Aqueles que encontram a virtude, lemos nos Provérbios, encontram a vida; sua salvação virá do Senhor. Mas os que pecam contra a virtude são carrascos da própria alma; todos os que a odeiam amam a morte (Pr 8,35-36). «A justiça, em seu sentido mais amplo, isto é, a virtude, exalta as nações; o vício torna infelizes os povos» (Pr 14,34). Santo Agostinho ensina que a virtude é o único e soberano bem (De lib. Arbitr. lib. 2, c. XVIII): e, com efeito, ela nos governa…; faz-se nosso alimento e veste…; instrui-nos…; protege-nos…; proporciona-nos bom nome…; fortalece-nos e eleva-nos…; traz-nos a glória… A virtude regula o apetite dos sentidos e os movimentos das diversas concupiscências… É a saúde da alma e do corpo… Proporciona uma vida santa, uma boa morte e um juízo favorável; fecha o inferno e abre o céu…
O vício lança a perturbação e a angústia na alma, diz Lactâncio; a virtude, ao contrário, traz-lhe doçura e tranquilidade (Lib. 7, c. X). No homem virtuoso, segundo a bela observação de Santo Ambrósio, a justiça busca, a prudência encontra, a fortaleza toma, a temperança possui: a justiça está no coração; a prudência, no espírito; a energia, na ação; a temperança, no uso (Offic.). Jamais nos escapem da memória estas palavras tão sensatas de São João Crisóstomo (Hom. XL, in Ioann.): «Nada estupidifica tanto os homens quanto o pecado; nada os torna tão sábios quanto a virtude, porque os modera para a misericórdia, a gratidão, a bondade, a humanidade e a doçura. A virtude é mãe, raiz e fonte da sabedoria; todo pecado tem suas raízes na estultícia; sapientíssimo é aquele que cultiva a virtude». Quem é privado da virtude torna-se bem depressa, como Caim, fugitivo e errante; marcado com o sinal da reprovação, já não sabe para onde vai, de onde vem, o que faz; em breve se vê mergulhar e desaparecer no abismo do vício…
Também os pagãos perceberam a excelência da virtude. Isócrates, por exemplo, dizia que não há nada mais belo nem mais perfeito (Ad Daemonicum). Aristóteles chama-a medida de todas as coisas, purificação e perfeição da alma (Ethic. lib. 1, c. IV). Epicteto compara a alma virtuosa a uma fonte inesgotável, de águas doces, puras, límpidas, frescas, benéficas, abundantes e incapazes de causar dano (Apud Stobaeum, serm. I). Cícero diz que, fora da virtude, tudo é falso, incerto, caduco e mutável; somente a virtude possui raízes tão profundas e firmes que força alguma basta para abalá-las (Fil IV). E em outro lugar diz: Quem duvida de que as verdadeiras riquezas não consistam na virtude? Com efeito, quantidade alguma de ouro ou de prata pode ser comparada às virtudes. Se os avaliadores dos bens terrenos atribuem preço tão elevado às coisas perecíveis, quanto não deve valer a virtude, que não pode perecer nem ser roubada? Ela que não teme a ruína, nem por naufrágio nem por incêndio? Ela que não está sujeita à mudança, nem pelas vicissitudes do tempo nem pelo ímpeto das tempestades? Aqueles que a possuem são os únicos ricos, porque somente eles possuem aquilo que produz riquezas e frutos abundantes que duram eternamente (Tuscul. II).
«Que coisa é para nós a virtude, senão a beleza interior do homem?», diz Santo Agostinho (Epl. CCXXII, ad Cosentium); e Fílon acrescenta que não somente a virtude é bela, mas é ainda a ideia, a imagem da própria beleza de Deus (De vita Mosi); com efeito, a virtude é a suprema participação de Deus que, sendo a suprema beleza, reflete o seu raio sobre a virtude e principalmente sobre o Verbo encarnado, Jesus Cristo, espelho divino de todas as virtudes, a respeito do qual cantou o Salmista: «Tu superas em beleza todos os filhos dos homens» (Sl 44,3). Ó virtude, maravilha das maravilhas, beleza das belezas! Ó virtude, cândida como o lírio, doce como a rosa, humilde como a violeta, flor das flores! Tu reúnes em ti toda a beleza e todo o perfume de todas as flores mais belas e mais suaves! Ó virtude, como são belos os teus caminhos, como são encantadoras as tuas veredas! (Pr 3,17).
A virtude é a verdadeira beleza, o rico manto, o incomparável fulgor da alma, de todas as ações e do homem inteiro. Ao contrário, o vício é a sua deformidade, fealdade e vergonha. A virtude reveste o homem da beleza de Deus; o vício dá-lhe a fealdade do demônio… Tão bela e esplêndida se mostra a virtude que os maus, embora vivam torpemente, amam-na e admiram-na nos outros… «A virtude, diz o Nazianzeno, está entre os vícios como a rosa entre os espinhos (In Praeceptis ad Virgin.)». Por isso o Sábio afirma que se mostram amantes da verdadeira beleza aqueles que são ricos em virtude (Eclo 44,6).
A virtude é luz esplêndida, porque: 1° ama a luz e a presença de Deus…; 2° ilumina a alma, o espírito e o coração; vê o passado, o presente e o futuro; clareia o tempo e a eternidade…; 3° ilumina aquele que a possui e os outros que dela se aproximam. Pode-se afirmar a seu respeito aquilo que o Evangelista escreveu sobre Jesus Cristo, manifestação incriada e encarnada da virtude: «Ele era a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo» (Jo 1,9)… 4° A virtude é luz porque procede de Deus; luz incriada que supera, ilumina e vivifica todas as coisas, e atrai para si todas as outras luzes, como o sol atrai os planetas… Contemplai os patriarcas, os profetas, os apóstolos, os mártires, os santos de todos os tempos; cada um deles era um esplêndido modelo de virtude e uma luz luminosa que clareava o mundo, como deve ser a vida de todo cristão. Nenhum mérito, observa o Crisóstomo, dá ao homem tanta clareza e tanto lustro, mesmo quando ele procura permanecer oculto, quanto o esplendor da virtude; ele resplandece não somente na terra, mas também no céu (Homil. ad pop.). Com efeito, como diz São Gregório, «na clareza da virtude encontra-se sempre Deus (In Lib. 1, Reg.)».
A luz do sol obscurece todas as luzes inferiores; a virtude também é uma luz que faz empalidecer a da ciência… Assim como o sol, ao nascer, com seus raios clareia todo o céu, ilumina a terra e transforma, por assim dizer, o ar em luz, penetrando-o, assim, diz Fílon, as virtudes, penetrando o homem com seus raios celestes, transformam-no todo em fulgurante claridade (De Plant. Noe). Assim como a alma clareia e vivifica o corpo, também a virtude clareia e vivifica a alma e o coração… A virtude ilumina pelo bom exemplo, e a ela se pode aplicar aquilo que o Eclesiastes diz do sol: «Percorrendo o seu curso, espalha por toda parte torrentes de luz» (Ecl 1,6). Sejamos, pois, por nossas virtudes, um sol sobre a terra… Os sublimes exemplos de Jesus, de Maria e dos Santos são para nós sóis luminosíssimos… Quem pratica a virtude jamais caminha nas trevas, porque tem como guia a luz da vida… O homem virtuoso é, pelo exemplo que dá, como um farol luminoso que avisa, dirige e guia o navegante, para que não naufrague nos rochedos e chegue a tal porto…
A virtude é a prática da verdade, que é sempre pura de todo erro; ela é a verdade em sua manifestação exterior; é o sol da verdade… Fora da virtude, tudo é erro, falsidade, mentira e engano… Ela pode repetir aquelas palavras: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). «Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz» (Jo 18,37). Por isso, a Escritura diz que os mentirosos não se lembrarão da virtude, mas os homens sinceros jamais a abandonarão e caminharão felizes até a visão de Deus (Eclo 15,8).
A virtude é onipotente: triunfa sobre o inferno, o mundo e a concupiscência. Nenhum inimigo pode resistir-lhe… Mais ainda, ela vence o próprio Deus e toma o céu de assalto… O mar e o Jordão fogem à vista da arca (Sl 113,3). À vista das virtudes, o mar das paixões e os rios das concupiscências desaparecem… A virtude alcança de uma extremidade à outra com força e dispõe tudo com suavidade (Sb 8,1). São João Crisóstomo afirma que, enquanto o vício não passa de fraqueza, a virtude é toda vigor e força, de modo que não há coisa mais poderosa do que ela; e prova-o com a constância e a paciência demonstradas por José, com sua coragem para evitar e vencer a mais terrível das paixões. De tamanha força é a virtude, diz ele, que se torna maior e mais corajosa quando é atacada e caluniada… Ela leva sua potência até tocar o heroísmo. Quem a possui, quem tem o auxílio da graça sobrenatural, torna-se mais forte que o mundo inteiro; ela é invencível, escapa às ciladas do homem e do demônio (Homil. ad pop.).
A virtude, posta à prova, cresce, engrandece-se, agiganta-se e resplandece com todo o esplendor de seu poder e grandeza: «Não há virtude sem fadiga, escreve Santo Ambrósio, porque da fadiga dependem o progresso e o triunfo da virtude (In Psalm. CXVIII)». Mas acaso a verdadeira virtude recuou alguma vez diante das mais ásperas e heroicas fadigas? A própria morte, mesmo a mais horrível, não a assusta nem a abate… As virtudes são cadeias que prendem os demônios e os impedem de se aproximar e causar dano. São Bernardo as representa naquelas cinco pedras lisas que Davi escolheu na torrente e com as quais derrubou o gigante Golias (In I Reg.). Mas observemos, direi com o mesmo santo Doutor, que, se a virtude é forte por sua natureza, torna-se invencível e meritória quando a graça se une a ela. Ela é forte pelo juízo da razão que a aprova; e essa força se torna vitoriosa pelo bom desejo da vontade iluminada (Serm. in Cant.). Louvemos, pois, como homens fortíssimos e gloriosos, os homens grandes em virtude e adornados de prudência (Eclo 44,1-3).
A verdadeira e sólida virtude é, pois, onipotente; é um diamante preciosíssimo, de tal dureza que não pode ser quebrado, que resiste a tudo, tudo supera e de tudo triunfa… A virtude é tão ativa que faz o bem até aos maus, até aos inimigos, e é tão poderosa que sai vitoriosa deles por meio de seus benefícios… Fazer o bem aos maus é a vitória da virtude, diz São Cirilo (Catech. 2, 5). A verdadeira virtude permanece oculta; mas, se se tenta oprimi-la, então ela se faz ver e mostra-se invencível. Assim como as estrelas, diz São Bernardo, brilham à noite e permanecem ocultas durante o dia, assim também a verdadeira e sólida virtude, que muitas vezes não aparece na prosperidade, brilha em todo o seu fulgor nas adversidades (Serm. XXVII. in Cant.).
Também os pagãos admiram o poder da virtude; Sêneca adverte que a virtude está mais pronta para enfrentar as provações do que a crueldade para inventá-las. Ela é ávida por ações heroicas; dirige-se ao seu objetivo sem se inquietar com aquilo que deverá sofrer. É o apoio da fraqueza humana e constitui seu invencível abrigo. Quem se entrincheira nela está seguro de não cair nas mãos dos sitiantes. Sem adversários e sem combates, a virtude entorpece-se e enfraquece; posta à prova, engrandece-se e triplica suas forças (Epist. XXIV). As provações, escreve em outro lugar o mesmo autor, são como as nuvens para o sol, ou antes, menos que isso; pois a virtude resplandece nas tribulações e se purifica nas adversidades. O verdadeiro bem é de tal natureza e condição que, sendo verdadeiro bem, não pode deixar de ser vantajoso; tal é também a natureza da virtude. Ela nos purifica e nos conduz ao céu depois de nos haver purificado (De Prov.). É próprio de uma virtude corajosa e de um espírito magnânimo, diz Cícero, não temer coisa alguma, desprezar tudo o que é humano e não considerar insuportável nada de desagradável que possa acontecer ao homem. Quem é dotado de grande virtude não se inquieta absolutamente com o que lhe possa sobrevir; considera-o um nada; dirige e domina tudo o que lhe é inferior; despreza as dores e a morte (De Offic. l. III). Que nobre e justa testemunha dão à virtude os próprios pagãos!
«Glória, honra e paz a todo aquele que faz o bem», isto é, ao homem virtuoso, escreve São Paulo (Rm 2,10); e já antes dele o Sábio havia dito: «Procurai adquirir para vós um bom nome por meio da virtude; este bem será para vós mais duradouro que mil dos mais preciosos tesouros (Eclo 40, 15); pois a virtude apresenta àquele que a pratica, de um lado, longevidade, e, de outro, riqueza e glória (Pr 3, 16). Por isso São Bernardo dá à virtude o nome de mãe da honra e a indica como o verdadeiro caminho para a glória (Serm. I. de S. Victor.). «Summa nobreza, suprema honra é, aos olhos de Deus, ser ilustre pela virtude, escreve São Jerônimo (Epist.)». Somente a virtude é nobre, diz Cassiano, e é nobilíssimo e grandíssimo diante de Deus aquele que resplandece pela virtude (Collat. 2, c. 10). Quem vive da virtude viverá glorioso na memória dos homens; sendo a virtude, como observa Santo Agostinho, o caminho pelo qual o homem de bem chega à glória, à honra e ao poder (De Civit., 1. 1, c. XV). O Papa Urbano respondeu a alguém que lhe censurava a baixa origem: Os grandes homens não nascem já sendo grandes, mas tornam-se tais mediante a virtude (Histor. Eccl.). O imperador Maximiliano disse a um rico que lhe oferecia grande soma de dinheiro para que lhe concedesse títulos de nobreza: Eu posso enriquecê-lo, mas, quanto a torná-lo nobre, somente a sua virtude pode fazê-lo (ANTON. In Meliss.).
Neste assunto temos duas notáveis sentenças de Sêneca: «Ornamento incomparável é a virtude, e torna sagrado aquele que a pratica (Epist. LX)». Há uma só coisa que pode tornar-nos imortais e semelhantes aos deuses: a virtude (Apud. Lactant., 1. 3, c. XII)»; e o poeta Juvenal declara que somente a virtude é nobre e grande (ANTON. In Meliss.).
A virtude tem como único objetivo Deus, sua lei, sua vontade, seu serviço e seu amor; ora, se esta não é a via do céu, é preciso dizer que não há outra… Sim, somente a virtude conduz ao céu; ela é o caminho para a vida eterna; o caminho do inferno, da morte eterna, é o pecado. O caminho da morte é o mundo; o caminho do paraíso é o desprezo do mundo… É precisamente por isso que a virtude é um bem que jamais nos abandona. «A virtude nos faz herdeiros de um nome eterno», diz o Sábio (Eclo 15, 6).
«Não podemos dizer que sejam verdadeiramente nossas aquelas coisas que não podemos levar conosco, escreve Santo Ambrósio; somente a virtude acompanha os defuntos (De Abel et Cain, l. I. c. XV)». As vestes, os móveis, o ouro e a prata, diz o Crisóstomo, estão sujeitos à deterioração, à perda e ao furto; mas quem está revestido de virtude possui um tesouro que nem os vermes podem roer, nem os ladrões roubar, nem a ferrugem consumir (Homil. ad pop.). Pois, como diz São Bernardo, «a verdadeira virtude não conhece fim, não morre com o tempo (Epist. CCLIII, ad Guarin.)». O que pertence ao século permanece no século; a virtude vai para a eternidade (S. AMBROGIO, In Luc. XII). Ó virtude inestimável, tu dás à alma frutos e bens imortais!…
Platão nos assegura que a virtude nos torna semelhantes a Deus. Ora, Deus é eterno (De Legib.). A virtude vale muito mais que uma longa posteridade para tornar eterno um nome; por isso Sêneca diz que ela nos dá a imortalidade (Epist. XXVII), e Sófocles a chama de uma posse infalível e eterna (In Eurifilo). Os altos obeliscos e as grandes pirâmides exigem muito trabalho para serem colocados, observa Plínio; mas, uma vez erguidos, permanecem imóveis para sempre; assim também a virtude custa esforço à natureza débil; é preciso coragem, firmeza e trabalho para elevar-nos até ela e estabelecê-la em nossa alma; mas, uma vez nela estabelecida, é um bem que não se deteriora nem se corrompe com o tempo, mas dura imortalmente (Hist. 36, c. IX).
A verdadeira felicidade encontra-se na vitória sobre as paixões e, como tal vitória depende da virtude, segue-se que alcança a felicidade aquele que pratica a virtude. A ele convém aquela palavra do Apocalipse: «A todos os que seguirem esta regra, paz e misericórdia» (Gl 6, 16). A virtude produz paz, serenidade, alegria, tranquilidade de consciência, contentamento, confiança e segurança da salvação. Onde encontrar estado mais feliz e invejável? A Sagrada Escritura diz que a virtude nos alimenta com o pão da inteligência e da vida, nos dessedenta com a água da sabedoria e da salvação, nos fortalece, nos revigora, nos sustenta, não permite que sejamos confundidos, cobre-nos de glória e acumula sobre o homem que a ama a alegria e o júbilo (Eclo 13, 3-6). A virtude proporciona a paz, a união com Deus, com o próximo e conosco mesmos. Pela prática da virtude, o homem assegura para si a graça e a amizade de Deus, uma vida santa, uma boa morte e uma esplêndida coroa no céu. Eis a verdadeira, a suprema, a incontestável felicidade!… Com razão, portanto, Santo Agostinho diz que a virtude torna felizes todos aqueles que a praticam (De Civit.); e nós podemos colocar em sua boca aquelas palavras que o Espírito Santo faz a Sabedoria dizer: Feliz o homem que me escuta, que passa seus dias à soleira de minha casa e que vigia junto ao limiar de minha porta! Quem me encontra, encontra a vida e a salvação (Pr 8, 35-36)
Esta verdade não escapou inteiramente às considerações dos sábios pagãos. «Somente a virtude, escrevia Sêneca, proporciona uma alegria perpétua e segura (Epist. XXVII)». A virtude me basta para ser feliz, dizia Antístenes (Ita LAERT., l. VI). Platão convida a considerar a índole contrária da virtude e do vício; por um momento de prazer na vida, lançamo-nos em arrependimentos, dores e sofrimentos que não têm fim; mas a virtude, depois de breves dores, vê nascer alegrias verdadeiras e grandes, que a acompanham também depois da morte e duram eternamente (Dialog. III). O mesmo autor observa ainda que os sábios dão o primeiro lugar ao espírito, o segundo ao corpo e o terceiro às riquezas; e quer que, no Estado, a virtude ocupe o primeiro lugar, depois as forças do corpo e, finalmente, a riqueza (De Repub.). De resto, todo o mundo sabe que os mais sensatos dos filósofos antigos, os estoicos, ensinavam que a verdadeira felicidade nesta vida não se encontra senão na virtude, e apresentavam as seguintes razões: 1° O sumo bem, a suprema felicidade, está na alma; mas, para a alma, não há nada melhor, mais salutar e mais rico que a virtude… 2° O sumo bem é aquilo que nos torna perfeitos; ora, a virtude é esse bem, porque aperfeiçoa o homem… 3° Deve chamar-se sumo bem aquilo que é bom em si mesmo e torna bons os demais bens; ora, a virtude, boa em si mesma, torna bons e úteis os bens da fortuna e da natureza, os quais, se dela estão separados, nos trazem antes dano que proveito… 4° Deve chamar-se sumo bem aquilo que, separado de todo outro bem, torna feliz quem o possui e que, se lhe falta, torna infeliz aquele que dele está privado, ainda que estivesse largamente provido de todos os demais bens; ora, tal é o bem da virtude: porque o homem que possui a virtude, embora privado de todo o resto, é chamado homem probo; mas, se lhe falta a virtude, ainda que seja riquíssimo, não é chamado nem bom nem probo… 5° O sumo bem deve comunicar força e poder; ora, tal é a virtude, e quem dela é dotado triunfa sobre as adversidades, as tribulações, os desastres da fortuna, os incômodos da natureza, a volúpia etc.… 6° O sumo bem deve ser fixo e seguro; ora, somente a virtude é constante e duradoura… Concluíam, pois, que a virtude constitui o sumo bem e, portanto, a felicidade daquele que a possui.
As recompensas da virtude são indicadas naquele versículo de Davi: «Aqueles que semeiam entre lágrimas colherão com alegria; iam e choravam, espalhando suas sementes, mas voltarão jubilosos, trazendo nos braços os feixes» (Sl 125, 6-8). A semente é a virtude; os feixes são as recompensas. E que recompensa! É-nos indicada pelo próprio Salvador: «Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, eu te constituirei senhor de muito; entra na alegria de teu Senhor» (Mt 25, 21). «Vinde, benditos de meu Pai, tomar posse do reino que vos foi preparado desde a criação do mundo» (Ibid. 34). E, de fato, que o paraíso, a felicidade eterna, o sumo bem estejam preparados para os virtuosos, vê-se por isto: Jesus Cristo assegurou que o reino dos céus sofre violência e que somente os violentos o arrebatam (Mt 11, 12). Ora, quem faz violência a si mesmo e força a entrada do céu, senão o homem virtuoso?… E dizer reino dos céus quer dizer posse de Deus, gozo de Deus; com toda razão, portanto, o Nazianzeno resume as recompensas que esperam o homem virtuoso, dizendo que a virtude o faz tornar-se Deus (In Distich.).
A virtude tem por pai a graça; por mãe, a vontade; e por família, os bons pensamentos e as santas inspirações; de fato, a vontade, conquistada e fecundada pela graça divina, produz as boas obras, a penitência, o jejum, a esmola, a fé prática, a caridade, a obediência, a humildade, a prudência, o zelo etc.…
A virtude procede e sobe por três graus: o primeiro é a virtude ordinária, isto é, aquela que é comum aos fiéis que vivem honestamente, religiosamente, segundo os mandamentos de Deus… O segundo grau é o dos cristãos que vão além desse limite ordinário e se empenham mais deliberadamente em imitar a Deus; suas virtudes chamam-se purgativas; o que significa que a prudência, pela meditação das coisas divinas, deixa de lado as coisas terrenas e dirige todos os pensamentos da alma para o céu; que a temperança abandona, tanto quanto o permite a fraqueza da natureza, tudo aquilo que o bem-estar e as comodidades do corpo exigem; que a alma, pelo seu afastamento do corpo e pela sua proximidade das coisas divinas, não se deixa atemorizar nem desviar do caminho da perfeição por dificuldade alguma… O terceiro grau, e o mais sublime, consiste na semelhança já adquirida, na união com Deus; nesse grau, as Virtudes são chamadas, e realmente são, virtudes de uma alma purificada e perfeita; são as virtudes dos perfeitos neste mundo e dos eleitos no outro… Há, portanto, a virtude dos principiantes, a virtude dos que progridem e a virtude dos perfeitos.
As riquezas da virtude devem ser conquistadas por meio do esforço… O caminho da virtude tem seus espinhos; espinhos longos, agudos, numerosos, que ferem e causam dores; eles estão entrelaçados uns nos outros; se arrancais um, outro vos perfura; isso constitui o desespero das almas preguiçosas e pusilânimes, mas as almas fortes e corajosas, pouco a pouco, com paciência e resignação, conseguem embotá-los, arrancá-los e acabam por destruí-los… O ponto é este: queremos ser humildes sem sofrer desprezo, pacientes sem experimentar dissabores, obedientes sem nos submeter ao comando, pobres sem sentir falta de coisa alguma, virtuosos sem suor e sem fadiga, penitentes sem dor e arrependimento; queremos ser louvados sem merecê-lo, ser amados sem ser bons, ser honrados sem santidade. Mas não são esses nem os ensinamentos nem os atos de Jesus Cristo… De modo bem diferente procederam também os Santos…
Quem quer praticar a virtude deve resignar-se a carregar a cruz; e quem pode carregar a cruz sem esforço e sem dor? «Todos aqueles, diz São Paulo, que querem viver piedosamente em Jesus Cristo sofrerão perseguição» (2Tm 3,12). São João Crisóstomo, comentando essa passagem, diz que sob o nome de perseguição devem entender-se todas as dificuldades, os trabalhos, as dores, as penas, as provações e as privações que encontram e suportam aqueles que praticam a virtude, quando se esforçam por subjugar as concupiscências; quando procuram conservar a continência, adquirir a humildade, a obediência, a mortificação e a temperança; quando, em uma palavra, se dedicam ao bem e à piedade. «A graça de Deus nosso Salvador, escreve São Paulo, manifestou-se a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e aos desejos do século, vivamos neste mundo com temperança, justiça e piedade» (Tt 2, 11-12).
Para praticar a virtude requer-se: 1° uma resolução generosa da alma e uma vontade eficaz de pô-la em execução…; 2° ardor e zelo…; 3° o combate e a mortificação das paixões…; 4° a perseverança no estudo e no amor da virtude…; 5° a penitência exterior, porque, como afirma São Cirilo, na mortificação da carne está a força da virtude (Catech.). As virtudes são como uma fortaleza inexpugnável: defendem o homem contra todos os inimigos. Aqui está a cidade dos eleitos, cujas cercas, diz Hugo de São Vítor, são o desprezo das coisas terrenas; os bastiões, a esperança; as fortificações avançadas, a paciência; as torres, a humildade; as fontes, as lágrimas; as sentinelas, a prudência; as armas, a oração e os sacramentos; as portas, a obediência; o comandante, a caridade; os soldados, a justiça, a temperança e a fortaleza (Institut. Monastich. ad Novit. c. III).