Tesouro n.º 109 · Volume II

LÍNGUA LINGUA

16 seções · 65 parágrafos · pp. 1256–1273 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A LÍNGUA É A INTÉRPRETE DA ALMA E DO CORAÇÃO

Qual é a linguagem, tal é o coração… Quereis conhecer a alma de alguém? Escutai as suas palavras, porque «a boca derrama a plenitude do coração, disse Jesus Cristo; por isso, o homem bom tira da bondade do seu coração boas palavras, e o homem mau tira de um tesouro mau coisas más» (Mt 12, 34-35). Eis por que Sócrates dizia a um jovem: «Fala, ó rapaz, para que eu te veja (1)». A língua é o espelho da alma…

Quando se abre um vaso cheio de imundícies, ele espalha ao redor um fedor pestilencial; assim também o coração mau, quando se abre, exala pela boca a corrupção de que está cheio; mancha e envenena aqueles que conversam com ele. Da boca que encerra um delicioso perfume emana um odor suave; assim é a língua que serve a um coração puro, a uma alma inocente.

Mais uma vez: quereis penetrar o segredo de um coração? quereis ver-lhe a alma, conhecer-lhe o interior? Escutai aquilo que ele diz com frequência e com complacência… Se encontrardes alguém que se deleite em palavras vãs e inúteis, em discursos torpes, em palavras de soberba, de inveja, de maledicência, de cólera, sabei que o seu coração é vão, soberbo, curioso, colérico, ciumento, corrompido… Se, ao contrário, uma pessoa se mostra reservada, moderada, casta no conversar; se as suas conversas versam sobre objetos sérios, úteis, piedosos, virtuosos, sabei que a sua alma é templo do Espírito Santo, que o seu coração é puro, humilde, caridoso… Pelo odor que exala, julgais se um vaso contém vinho, vinagre ou bálsamo; o mesmo dizei da língua a respeito de uma pessoa: ela revela a sua alma.

«Eles são do mundo, escreve São João; por isso falam do mundo, e o mundo os escuta. Quanto a nós, porém, somos de Deus, e quem conhece a Deus nos escuta. Quem, ao contrário, não conhece a Deus, não nos escuta; e este é o sinal pelo qual discernimos o espírito da verdade do espírito do erro» (1Jo 4, 5-6). O homem que gosta de ocupar-se de futilidades mostra um espírito leviano, frívolo, imprudente… Se é inclinado a expressões inconvenientes, torpes, desonestas, deixa entrever que, no fundo do seu coração, ferve a luxúria… Se é propenso a falar mal do próximo, dá prova de que a sua alma não conhece nem a caridade, nem a justiça, nem a consciência… Se fala de bom grado de ódio e de vingança, é sinal de que o seu coração está agitado pelas paixões… «Um discurso vão manifesta uma consciência leviana», escreve São Bernardo (2).

Assim como cada homem fala a língua de sua nação, também aquele que tem uma alma espiritual e celeste gosta de ocupar-se de assuntos espirituais e celestes; quem tem o coração voltado para a terra discorre sobre coisas terrenas… «O homem se enriquece com os frutos que caem de sua boca» (Pr 12, 14); «e a garganta dos ímpios transborda de malícia» (Ib. 15, 28), lemos na Sagrada Escritura; isso, diz Jó, porque «a iniquidade do coração move os lábios a falar» (Jó 15, 5); ou, como se exprime o Ecclesiastico: «O coração dos insensatos está em sua língua, e a boca do sábio está no coração» (Eccli. 21, 29).

2. INSENSATEZ E PERIGO DE FALAR DEMAIS

O trovão faz ouvir ao longe os seus estrondos, e o que produz? As tempestades ribombam, e quais são os seus efeitos? Pois bem, os tagarelas se assemelham ao trovão e às tempestades: fazem grande ruído e são perigosos. O vocábulo fatuus, fátuo, tem a sua raiz no verbo fari, tagarelar; o que significa que aqueles que falam muito e sem propósito são tolos e insensatos. Por isso dizia Sólon: «O insensato não sabe calar-se (3)». Teócrito, ouvindo falar de Anaxímenes, assim o qualificava: «Uma gota de bom senso flutuando num rio de palavras (4)»; um antigo padre do deserto chamava de «estrebaria sem porta» o homem que não sabe refrear a língua (5).

«Assim como a água represada entre diques cresce e se eleva, assim a alma fechada ao mundo se eleva até as regiões celestes», escreve São Gregório; ao passo que, se se dispersa em negócios mesquinhos, enfraquece e perece. Quanto mais se subtrai à salutar disciplina do silêncio, tanto mais, como por muitos regatos, se derrama para fora de si; e assim já não tem força para retornar a si mesma e conhecer o seu estado, porque o falar demasiado a dissipa e lhe tira todo o vigor da meditação. Eis por que a Escritura diz: O homem que não sabe refrear a língua é como uma cidadela desmantelada (Pr. 25, 28). A alma que não está protegida pelo muro do silêncio fica exposta aos assaltos do inimigo. Por suas palavras, ela se põe a descoberto, expõe-se aos golpes de seu adversário, o qual pode abatê-la tanto mais facilmente porque ela, falando em excesso, combate contra si mesma e contribui para a própria derrota (6)».

«O insensato multiplica os seus discursos» (Ecl. 10, 14); «e os lábios dos imprudentes narrarão tolices» (Ib. 21, 28); isto é, os discursos do insensato, do tagarela, são sobre coisas insípidas, imodestas, arrogantes, imprudentes… mas eles o levarão à ruína, diz o Eclesiastes (Ecl. 10, 12). E o autor dos provérbios nos assegura que há mais esperança na correção de um louco do que na de um homem precipitado no falar (Pr. 29, 20). E, ao contrário: «aqueles que deixam depravar o seu juízo são levianos, escreve São Gregório, e prontos para falar sem regra nem medida (7)»; eles, como diz o Salmista, perdem-se em discursos frívolos (Sl 11, 3); e «a sua boca derrama tolices» (Pr. 15, 2).

O tagarela se assemelha a um estrangeiro que, não tendo terra nem casa, anda por caminhos desconhecidos e regiões ignotas; muitas vezes erra o caminho, e mais frequentemente ainda envereda por trilhas que o afastam da meta e o conduzem entre rochedos e precipícios. O imprudente fala daquilo que não sabe e julga o que não conhece; vai de um disparate a outro; afasta-se da verdade, do justo e do honesto; salta de um assunto para outro, equivoca-se, cai no falso e no ridículo, entrega-se a conversas indecentes e repugnantes, cujo menor defeito é serem insípidas e inúteis.

«O falar demasiado, escreve um autor, é prova de insipiência, instrumento de mentira; conduz à grosseria e à leviandade, sorve a largos goles a maledicência, sufoca o arrependimento, produz a acídia, dissipa a devoção, torna difícil a oração, esfria o fervor da piedade, extingue a paz, destrói toda retidão (8)».

«Muito ressonantes são os vasos vazios, diz Ausônio; os desprovidos de juízo são bocas loquíssimas (9)». «E, assim como são inúteis os edifícios sem porta que lhes defenda a entrada, igualmente, e ainda mais, adverte Plutarco, de nada serve a boca que não sabe permanecer fechada (10)». Antes, como diz Teofrasto, «pode-se confiar mais num cavalo sem rédeas do que em quem fala muito e sem propósito (11)».

3. QUEM FALA MUITO COMETE MUITOS PECADOS

«Eles falavam de coisas vãs, diz deles o Salmista, e o seu coração se encheu de iniquidade» (Sl 40, 6). «Na multidão das palavras, é difícil que o pecado não se insinue», sentencia o Sábio (Pr. 10, 19). «Ó quão verdadeira é, exclama aqui São Bernardo, esta sentença: é impossível falar muito e não pecar! (12)».

A abundância das palavras é uma paixão que domina inteiramente o homem em quem se introduziu; faz-lhe dizer aquilo que lhe conviria calar; no ímpeto do tagarelar, ele cai facilmente no pecado; porque, quando a língua está continuamente em movimento, a memória se engana, tropeça, e facilmente se confunde o verdadeiro com o falso, o útil com o nocivo, o necessário com o inútil. Em meio ao impetuoso transbordamento das palavras, quem dará atenção à prudência, à circunspecção? Pois é isso mesmo! Vemos os tagarelas enredarem-se num espinheiro de imprudências, ofenderem ora uns, ora outros, zombarem, afiarem a língua para a maledicência, não perderem nenhuma ocasião de suscitar o ódio, de cometer afrontas…

«Se, desgraçadamente, nos saiu da boca uma palavra menos ponderada, fechemos ao menos a porta, adverte Santo Ambrósio, para que nela não entre a culpa. Eis de que modo o pecado entra no coração. Quem fala muito, diz a Escritura, não se subtrai ao pecado. As palavras saíram e o pecado entrou; pois, quando se fala demais, não se pesam as frases, mas lançam-se ao acaso; portanto, ofende-se a Deus mais ou menos gravemente, embora o excesso no falar não implique, por si mesmo, pecado grave. Façamos, pois, tesouro da advertência que o mesmo santo nos dá pouco depois: «Ata a tua língua, para que não transborde nem irrompa em discursos obscenos e, com o falar demasiado, não te carregues de pecados. Refreia-a com diques, para que não transborde. O rio que sai do leito traz consigo o lodo (13)».

«Quem fala demais fere a própria alma» (Eclo. 20, 8). Com efeito, cedendo ao prurido de tagarelar, exagera-se: 1° passa-se do útil ao nocivo, da demasiada doçura à demasiada severidade, da caridade à maledicência…; 2° incorre-se na imprudência…; 3° trata-se e divaga-se por mil coisas que mancham a alma; descuida-se da prudência…; 4° perde-se tempo e faz-se que os ouvintes também o desperdicem…; 5° perde-se a devoção…; 6° a alma se expõe às feridas do inimigo, porque não está em guarda e se encontra desarmada.

4. FALAR DEMAIS TRAZ CONFUSÃO E FAZ PERDER TEMPO

«A língua do insensato, encontramos nos Provérbios, conduz prontamente à vergonha e à confusão» (Pr. 10, 14). Os tagarelas têm fama de levianos, vãos, mentirosos e maldizentes; uns os chamam de folhas secas, outros de gralhas; e esses títulos certamente não dão ideia muito favorável do crédito de que gozam e os cobrem de vergonha e confusão diante do próprio mundo… «Os tagarelas, escreve Plutarco, são vazios de mente e cheios de ruído; nem são ouvidos; a loquacidade é odiosa, perigosa e ridícula (14)»; como já advertira o Sábio, ao se ler no Eclesiástico: «O homem se torna odioso pela intemperança de suas palavras» (Eclo. 20, 5).

Ouvi a exortação de São Bernardo: «Nenhum de nós faça pouco caso do tempo que se perde em discursos ociosos; porque o tempo é um dom que o homem recebeu, e dias de salvação são os dias que Deus lhe concede. A palavra foge e já não pode ser retomada; o tempo voa e não retorna mais; perdendo essas duas coisas, o insensato não percebe o que perde. Não será lícito, dirá alguém, tagarelar para passar uma hora? Que dizeis? Passar uma hora! Matar o tempo! Passar inutilmente aquela hora que a misericórdia divina vos concede para fazer penitência, para obter o perdão, para adquirir a graça, para merecer a glória! Perder aquele tempo que vos é dado para vos tornardes propícios à bondade divina, vos fazerdes dignos de entrar na sociedade dos anjos, recuperardes a herança perdida, aspirardes à felicidade que vos foi prometida, reanimardes a vontade enfraquecida, chorardes as culpas cometidas! (15)». Meditemos atentamente estas frases cheias de tanta verdade e de tanta sabedoria! …

5. MALES DA MÁ LÍNGUA

Quem não refreia a língua, principalmente num ato de cólera, esse, diz Hiperíquio, jamais será vencedor das paixões carnais (In Vit. Patr.). E a língua má não prejudica somente a si mesma, mas também aos outros, pois São Gregório diz que a intemperança da língua é a fonte de toda discórdia (16).

«Pequeno membro é a língua, escreve o apóstolo São Tiago, e, contudo, faz grandes coisas. Vede quão pequena centelha basta para incendiar uma grandíssima floresta. E a língua é um fogo, um mundo de iniquidade. A língua não é senão um dos nossos membros e macula todo o corpo; inflamada pelo demônio, incendeia a roda da nossa vida. Toda espécie de feras, de aves e de monstros marinhos se doma e foi domada pela virtude humana. Mas a língua nenhum homem é capaz de domar; é um mal que não admite freio, cheio de veneno mortal. Com ela bendizemos a Deus e ao Pai; e com ela amaldiçoamos os homens, que trazem em si a imagem de Deus. Da mesma boca saem a bênção e a maldição. Não devemos agir assim, meus irmãos» (Tg 3, 6-10).

«A língua, diz São Gregório de Nazianzo, é pequena, mas, quanto à força, vence tudo (17)». Por isso, segundo a observação do Crisóstomo, «embora o demônio procure armar ciladas por toda parte, serve-se, contudo, mais facilmente e com mais frequência de uma língua má, de uma boca maledicente; nada lhe serve melhor do que isso para matar a alma e fazer cometer o pecado (18)». São Bernardo escreve: «Pequeno membro é a língua, mas, se não se está atento, causa grande mal; acaricia com a adulação, morde com a maledicência, mata com a mentira. Ela prende, e ninguém pode prendê-la; serpenteia como uma enguia, penetra como um dardo, rompe a amizade, multiplica os inimigos, provoca as rixas, semeia as discórdias, de um só golpe fere e mata muitas pessoas; acaricia e suplanta, sempre pronta a fazer o mal. Nós dizemos: é pouca coisa uma palavra; sim, em verdade, uma palavra é pouca coisa, porque logo voa, mas fere gravemente; passa veloz, mas queima cruelmente; penetra facilmente na alma, mas dela sai com dificuldade; deixa-se cair inadvertidamente, mas quase impossível é retirá-la; voa facilmente e, por isso, dilacera tão frequentemente a caridade (19)».

Para cortar e derrubar mais facilmente a lenha, o lenhador prepara e afia o machado; assim, os demônios, esses operários do inferno, preparam, aguçam e temperam eles mesmos, para o furor e o ódio, a língua pérfida, a fim de derrubar a virtude dos homens, difamar-lhes os costumes, roubar-lhes a honra, a fama e a própria vida. Tal língua dilacera e despedaça o próximo, acende os ódios, suscita as contendas, impele ao roubo, à injustiça, à vingança e à carnificina, põe de pernas para o ar as famílias, as províncias e os reinos. Ela é verdadeiramente, como a chama São Tiago, artífice e arsenal de toda iniquidade; mal inquieto, transbordante de veneno mortal, que ninguém pode domar (Tg 3, 6, 8).

«O homem, escreve Santo Agostinho, doma as feras e não doma a língua; acorrenta e domina o leão, não freia nem domina a ânsia de falar; ele manda, mas não manda em si mesmo; chega a subjugar aquilo que lhe infundia temor e, para subjugar a si mesmo, não teme aquilo que deveria temer. Aprendei com as feras que domamos; nem o cavalo nem o leão se amansam por si mesmos, mas, para amansá-los, é necessário o homem; assim, o homem não se doma por si mesmo, mas, para domá-lo, é preciso recorrer a Deus (20)». Não, o homem não se subjuga com as forças da natureza, mas com a influência da graça… testemunha disso é Saul.

As frases citadas de São Tiago revelam-nos doze males que provêm da língua imprudente e má. 1° Ela se assemelha, em seus efeitos, a um cavalo indomável; 2° levanta tempestades; 3° é uma centelha que desencadeia um vasto incêndio; 4° é uma oficina de iniquidade; 5° macula o corpo; 6° devasta toda a vida; 7° tira seu ardor do fogo do inferno; 8° é mais indomável que as feras, e ninguém pode governá-la à vontade; 9° é um mal inquieto que jamais repousa; 10° transborda de veneno mortal; 11° amaldiçoa o próximo; 12° é uma fonte da qual brota uma onda amarga.

Ao linguarudo podem aplicar-se estas palavras do Apocalipse: «De sua boca saía uma espada de dois gumes» (Ap 1, 16); porque, com sua fala, faz mal a si e aos outros. Nos Provérbios encontram-se estas duas sentenças: «Onde abundam as palavras, aí se encontra a miséria» (Pr. 14, 23). «A língua que não sabe moderar-se mata o espírito» (Id. 15, 4). Sim, a língua má prejudica a si mesma e aos outros, tanto na alma como no corpo, por causa da maledicência e da calúnia, das contendas e das rixas que suscita, das desgraças e dos homicídios que causa. Ela é princípio de intrigas, de desgostos, de ódios, de vinganças, de desespero e de perdas consideráveis. Quem não sabe refrear a língua ou é, ou se torna, homem colérico, soberbo, ciumento, invejoso, ávido, curioso etc.

Ninguém melhor que Davi traçou o quadro dos horrores produzidos pela língua perversa: «Sua garganta é um sepulcro aberto; a língua destila a mentira, os lábios estão cheios do veneno da áspide. Sua boca vomita maldições, palavras amargas e enganadoras, que produzem angústia e dor (Sl 13, 3) e acumulam tesouros de iniquidade no coração daqueles que as pronunciam» (40, 6).

«Sentado tranquilamente, falavas contra teu irmão e lançavas a desordem sobre o filho de tua mãe. Tua boca se fartava de maledicência, e tua língua tramava enganos. Eis o que fizeste; e, porque não te fulminei no mesmo instante, tu me julgaste semelhante a ti, ó iníquo; mas eu te acusarei e te farei ver a tua torpeza. Cuida, ó boca infernal, para que não te esqueças do Senhor» (49, 19-22).

«Por que te orgulhar de tua maldade, ó tu que és poderoso no crime? Tua língua afia-se continuamente na pedra de amolar da injustiça; é uma navalha afiada que tempera a fraude. Preferiste o mal ao bem, a linguagem da iniquidade às palavras da justiça; amaste os discursos nocivos e desoladores. Mas o Onipotente te destruirá para sempre; arrancar-te-á de tua morada e te desarraigará da terra dos vivos» (LI, 3-7).

«A língua dos malvados é uma espada afiada (Sl 56, 6), mas a boca dos iníquos será tapada para sempre (Sl 62, 11). Eles afiaram a língua como uma espada, retesaram-na como um arco, para ferir com suas flechas o inocente (Sl 63, 3-4). As mentiras dos perversos prevaleceram contra mim; falaram para minha ignomínia e fizeram de mim o alvo de seus motejos (Sl 64, 3; 68, 13). Conceberam a iniquidade em seu pensamento e deram à luz a calúnia; falaram contra o Altíssimo; puseram a boca no céu, e sua língua percorreu a terra (Sl 72, 8-9). E até quando, Senhor, triunfarão as línguas maledicentes? Até quando se entregarão a discursos injustos e culpáveis? Eles pisoteiam, Senhor, o vosso povo e devastam a vossa herança. Desventram a viúva e o estrangeiro, estrangulam o órfão (Sl 92, 3, 5-6). As flechas da língua má são afiadas, devoram como chama (Sl 109, 4). Aguçaram a língua à maneira de uma serpente; de seus lábios salta o veneno da áspide» (Sl 139, 3).

A língua da serpente é trifurcada; por isso o Salmista compara a ela a língua dos maus, porque também ela tem três pontas, das quais uma se volta contra Deus, outra se dirige ao próximo e a terceira contra o próprio falador. A língua maledicente é um flagelo público: lisonjeia o vício, fomenta as paixões, espalha o escândalo, enche a sociedade de erros e de desordem.

6. QUEM TEM MÁ LÍNGUA CARECE DE RELIGIÃO

«Se algum de vós, diz São Tiago, julga ser religioso, mas não refreia sua língua, enganando o próprio coração com ilusões, sua religião não vale nada» (Tg 1, 26). Quem não mantém a própria língua sob controle não honra, nem serve, nem obedece a Deus… Não demonstra amor nem a Deus, nem ao próximo, nem a si mesmo…

Como poderá governar os olhos, os ouvidos, as mãos, os pés, o coração, a alma e o próprio espírito quem não sabe governar a língua? Tudo nele se desordena, e a desordem destrói a piedade… «Acorrentai a língua, prega São Bernardo, se quereis ser cristãos piedosos e devotos, porque, sem o freio da língua, vã é a religião. Bem sabem os homens espirituais que disso tiveram experiência quanto o falar demasiado enfraquece a piedade e quanta dispersão traz ao espírito. Assim como um forno aberto não pode conservar o calor, também não pode conservar a graça do fervor aquela pessoa cuja boca não é fechada pela porta do silêncio (21)».

«A boca do insensato o conduz à perdição, e os seus lábios são a ruína de sua alma», dizem os Provérbios (18, 7); e «basta uma palavra maliciosa para perverter o coração», diz o Eclesiástico (37, 21); e um coração pervertido ou já não possui, ou bem depressa perde, todo fundamento da verdadeira piedade e da sã religião.

7. É PROIBIDO PROFANAR A LÍNGUA

«Cuidai, escrevia São Paulo aos Efésios, para que jamais saia de vossa boca alguma palavra má; por isso, como convém aos santos, guardai-vos de fazer, em vossas conversas, a menor alusão a coisas relacionadas com a impureza ou a avareza» (Ef 4, 29; 5, 3). «Nem vos entregueis à obscenidade, às pilhérias, às frivolidades. Ninguém vos seduza com palavras vãs» (Ib. 4-6). Aos Coríntios, por sua vez, recomendava que não se deixassem enganar, porque as más conversas corrompem os bons costumes (1Cor 15, 33).

8. QUEM FALA MAL SEMPRE TERÁ DE ARREPENDER-SE

«Muitas vezes me aconteceu ter de arrepender-me por haver falado, nunca por haver calado (22).» Cada um pode e deve fazer sua esta sentença de Simônides. Com efeito, é quase impossível conversar longa e frequentemente sem tropeçar em alguma coisa que fira ou a caridade, ou a pureza, ou a verdade, ou algo semelhante.

E depois, como quereis que alguém não se arrependa de ter falado demais, quando não há coisa tão má quanto a língua mal empregada? «A boca dos ímpios abriga a iniquidade» (Pr. 10, 11), dizem os Provérbios, e São Tiago diz que a língua é um mal inquieto, cheio de veneno mortal… Sim, a boca do ímpio é uma cloaca transbordante de lodo envenenado… Assemelha-se ao lago Asfaltite, no qual estão sepultadas as cidades sodomitas da Pentápole… O coração do ímpio está tão cheio de malícia que esta transborda pela boca. É a cratera de um vulcão, da qual se lança, para inundar as cercanias, a lava ardente das paixões cujo foco é o coração…

9. CADA UM DARÁ CONTA DE SUAS PALAVRAS

A sentença de Jesus Cristo é peremptória: «Eu vos asseguro que, no dia do juízo, os homens prestarão contas de toda palavra ociosa que tiverem proferido. Pois a vossa justificação ou condenação dependerá das palavras que tiverdes dito» (Mt 12, 36-37). Ó Deus! Que terrível conta terá de prestar uma língua maledicente, caluniadora, impura, escandalosa; uma língua que profere blasfêmias, imprecações e maldições! …

«Se uma palavra é declarada ociosa, comenta São Bernardo, porque não há motivo razoável para proferi-la, que razão poderemos dar das palavras que são contrárias à razão, que a ferem e a desonram? (23)».

10. CASTIGOS DA MÁ LÍNGUA

«O homem que abusa de sua língua não se firmará na terra; muitos males o atingirão no momento da morte», diz o Salmista (Sl 139, 12). «Os lábios causarão ferida ao insensato», diz o Sábio (Pr. 10, 10). Será punido no momento da morte e na eternidade… Será condenado por Deus…, castigado por aqueles a quem feriu ou ultrajou… O homem que emprega sua língua a serviço da iniquidade prepara dores e suplícios para si e para os outros. Dilacera e é dilacerado; cai em abominação diante de Deus e dos homens, o que constitui o mais espantoso dos castigos…

«A ruína corre ao encontro do malvado, por causa dos pecados de seus lábios», diz o Sábio (Pr. 12, 13). Perde a paz do coração e a graça de Deus, e condena sua alma a ser eternamente infeliz. Pode-se imaginar punição mais terrível? O Crisóstomo diz que Adão e Eva foram expulsos do paraíso terrestre porque não foram suficientemente vigilantes com sua língua, mas se detiveram a conversar com a serpente (Homil. ad baptiz.).

Quem não vigia sua língua e a mancha atrai muitos castigos, entre os quais os seguintes: 1° o remorso da consciência; 2° o pesar de haver dito alguma palavra imprudente e nociva; 3° o desgosto de haver feito nascer inimizades, rancores, disputas, vinganças e injustiças; 4° a dor de haver merecido a prisão ou de ter incorrido em infâmia; 5° a obrigação de reparar ao próximo a reputação que injustamente lhe foi tirada; 6° a necessidade de reparar os danos causados pela maledicência, pelas calúnias e pelos maus conselhos; 7° a vingança de Deus; 8° a perspectiva do juízo e da condenação… Todos esses castigos são, para o linguarudo, como outras tantas flechas ardentes que o ferem, dilaceram e atormentam…

11. AS MÁS LÍNGUAS DEVEM SER EVITADAS

«Ninguém vos seduza com discursos vãos, advertia São Paulo aos Efésios, porque, por causa de tais coisas, a ira de Deus cai sobre os filhos da desobediência. Não vos associeis, pois, a gente desse tipo» (Ef 5, 6-7). Davi rogava a Deus: «Livrai, Senhor, a minha alma dos lábios iníquos e da língua enganadora» (Sl 119, 2).

12. EXCELENTE COISA É A LÍNGUA, QUANDO DELA SE FAZ BOM USO

Falamos dos males que a língua causa quando é mal empregada; vejamos agora os grandes bens que dela resultam quando é usada segundo Deus, a sã razão e a consciência.

«A boca do justo é o canal da vida» (Pr 10, 11), dizem os Provérbios; porque o justo se serve da língua para discorrer sobre coisas justas, úteis, edificantes, fecundas em bem e que levam àqueles que as ouvem a vida da graça. «A língua do homem reto, lemos ainda nos Provérbios, é semelhante à prata pura» (10, 20). Podem-se notar cinco afinidades entre a prata e a língua do justo: a prata pura tem como qualidades a brancura, o valor, a solidez, a pureza e o tinido sonoro; a língua prudente e reservada reveste-se de todas essas qualidades…

«Considerai, diz o Crisóstomo, que a língua é um instrumento com o qual rezamos a Deus, nós o bendizemos e falamos com ele. Este é o membro por meio do qual recebemos o venerável e augustíssimo Sacramento; em virtude da poderosa língua do sacerdote sacrificante, Jesus Cristo desce sobre o altar. A língua dos apóstolos iluminou e converteu o mundo pagão. A língua dos justos salvou o mundo em todos os séculos. A língua serve de mediadora entre Deus e os homens; estabelece a paz sobre a terra; une os homens entre si por meio da caridade; embriaga os corações com as graças e doçuras divinas; imenso e preciosíssimo dom de Deus é uma língua sábia, piedosa e persuasiva. O que forma uma língua pura e zelosa é o amor de Deus e do próximo, nascido da graça interior» (In Psalm. CXL).

13. VANTAGENS QUE DERIVAM DO BOM USO DA LÍNGUA

«Quem não peca no falar, diz São Tiago, é homem perfeito e pode governar com o freio todo o seu corpo» (Tg 3, 2). Assim como o homem, quando pôs o freio na boca do cavalo, o domina e o conduz à sua vontade, assim também aquele que sabe refrear a língua sabe ainda dominar as suas concupiscências e paixões… Ele é doce, bom, modesto etc…

«Quem governa a sua boca preserva a sua alma», lemos nos Provérbios (Pr 13,3). Preserva a sua alma: 1º da tibieza…; 2º de uma multidão de culpas que se cometem com a língua…; 3º de muitos desgostos e perigos, frutos da inimizade e do ódio…; 4º dos remorsos…

O Sábio compara a língua prudente e suave à árvore da vida (Pr 15, 4); porque os bens que uma língua assim proporciona se assemelham, em certa medida, aos frutos que a árvore da vida produzia: 1° Ela conserva e prolonga a saúde tanto da alma quanto do corpo, pois preserva das perturbações, das iras, das contendas e das rixas. 2° Conserva o homem numa paz, numa serenidade, numa alegria contínua. 3° Modera e regula todas as faculdades, os sentidos e as afeições do homem. 4° Alivia e cura as dores e as angústias do próximo. A árvore da vida curava todas as alterações do corpo; a língua sábia e suave acalma os coléricos, reconcilia os inimigos e os invejosos, encoraja os tímidos, torna humildes os soberbos etc….

Quão cheia de verdade é a sentença do Espírito Santo: «Quem vigia a sua boca e a sua língua preserva a sua alma das angústias» (Pr 21, 2-5). Guarda a sua alma de mil inimigos: da injustiça de causar dano, da ira de Deus, do Inferno. E, favorecido pelo céu e pela terra, vive contente, morre da morte dos justos, assegura a sua salvação e adorna a sua coroa para a eternidade…

Guardemos ainda como tesouro estas duas advertências do Eclesiástico: «Quem é inimigo da tagarelice sufoca o mal; e quem usa sabiamente a sua língua torna-se amável e querido» (19,5; 20,13).

14. É PRECISO FAZER BOM USO DA LÍNGUA

«Evita as conversas tolas e próprias de velhas», escrevia São Paulo a Timóteo (I, 4, 7); e recomendava aos Filipenses que, em suas conversas, mantivessem uma linguagem digna do Evangelho (Fl 1, 27). São Pedro, entre as suas admoestações, inculcava também esta: que os cristãos se comportassem santamente em toda a sua convivência e mantivessem entre si conversas edificantes (1Pd 1, 15; 2, 12).

As palavras pronunciadas a seu tempo e lugar são frutos de ouro em vaso de prata, dizem os Provérbios (15, 11). Quisera Deus que todos os cristãos pudessem repetir o que, no momento da morte, dizia o abade Pambo: «Até este momento não me lembro de ter proferido palavra de que tivesse de me arrepender» (24),

«Sejam as vossas palavras sempre temperadas com o sal da graça, diz São Paulo, para que saibais como responder a cada um» (Cl 4, 6). «O sal torna saborosos os alimentos, escreve Santo Anselmo, e a carne bem salgada não apodrece; assim também seja a vossa linguagem, de modo que aqueles que a ouvem a saboreiem como alimento saboroso. Não a torne insossa a falta de sabedoria, nem nauseante a luxúria, nem corruptora a mentira; mas seja sempre temperada com o sal da sabedoria espiritual, torne-a incorruptível a integridade da verdade e exale o perfume celeste (25)».

«Foste tu vilipendiado, ultrajado? Não abras a boca, aconselha São João Crisóstomo; do contrário, sopras na tempestade. Toma exemplo do que acontece num aposento onde haja duas portas abertas uma diante da outra: se vês que o vento se levanta, apressas-te a fechar uma delas e assim reduzes o vento à impotência; o mesmo se deve dizer quando te encontras diante de um homem agitado pelas fúrias; também aqui há duas portas frente a frente: a tua boca e a boca dele (26)». Em outro lugar, o mesmo doutor assim fala: «Se vos falta o óleo da sabedoria, ou se não fechais as portas ou as janelas do vosso coração, a vida da vossa alma se apagará, como se apaga uma lâmpada, ou por falta de óleo, ou por uma rajada de vento (27)». As janelas do coração são os olhos e os ouvidos; a boca é a porta.

Somente entre os animais o homem possui a palavra, porque somente ele é dotado de razão; quando fala, deve, portanto, servir-se da razão… Por que temos uma única língua fechada e defendida por duas barreiras, os dentes e os lábios? Certamente, para nos ensinar a falar pouco e com prudência… A língua é um cavalo indômito que é preciso governar com o freio da razão e da prudência… Obriga-se os navios a submeter-se à quarentena; submetamos também a ela a nossa língua… «Vós escolheis o que quereis comer, diz Santo Agostinho; escolhei também o que haveis de dizer; falai antes pelas obras do que pelas palavras (28)». São Bernardo nos sugere que retoquemos duas vezes pelo pensamento as nossas frases, antes de aventurá-las uma vez à língua. A reflexão cura o pensamento, governa o afeto, dirige as ações, corrige os excessos, forma os costumes, ordena a vida e a torna honesta (29).

Cada um deve procurar adaptar suas palavras ao lugar, ao tempo, à idade e às pessoas, para evitar que sua linguagem se torne mordaz… Todos somos naturalmente inclinados a louvar uns, censurar outros, lisonjear, dissimular, enganar, mentir, fabular; ora, a prudência nos salva de todos esses defeitos.

E era justamente essa prudência nas palavras que o profeta pedia a Deus: «Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca e uma porta de vigilância aos meus lábios» (Sl 140, 3). Com razão Santo Ambrósio nos dá como regra medir e pesar nossos discursos nas balanças da justiça, para que o assunto seja sério, a expressão moderada e a forma conveniente (30). Isso é certamente dificílimo e não se pode obter sem o auxílio da graça. Perguntado Aristóteles qual era a coisa mais difícil para o homem, respondeu: «Calar aquilo que não se deve dizer (31)».

«Uma porta, escreve São Bernardo, não se mantém sempre fechada nem sempre aberta; assim também nossa boca, porta do coração, deve estar aberta quando a prudência e a utilidade o exigem; mas deve permanecer cuidadosamente fechada às palavras más que procedem de um coração corrompido (32)». O Espírito Santo insiste frequentemente na necessidade de guardar a própria língua. É preciso vigiá-la com o mesmo cuidado com que se vigia uma cidade sitiada; assim como uma fortaleza é defendida por soldados, munições, baluartes e torres, assim também Deus deu à língua, para sua defesa, o palato, os dentes e os lábios. Assim como nas torres de vigia de um castelo ficam postadas sentinelas e ao redor das muralhas de uma praça de guerra se faz a ronda dia e noite, para manter o inimigo sob vigilância e guardar a fortaleza, assim é preciso que a inteligência e a razão sejam sentinelas vigilantes à porta da boca, para que nela não entre nem dela saia coisa alguma nociva ao homem. E assim como o palato saboreia e os dentes mastigam os alimentos antes que passem ao estômago, assim também todas as palavras devem ser provadas, trituradas e ruminadas antes que se permita à língua proferi-las… «O homem prudente, diz Santo Ambrósio, antes de abrir a boca, atenta para muitas coisas: isto é, para o que deve dizer, a quem, em que lugar e em que tempo deve falar (33)». Ele terá sempre diante dos olhos o conselho de São João Crisóstomo, segundo o qual, como regra geral, todos os nossos discursos devem tender a um fim honesto, útil e razoável (34). Com efeito, sendo o homem dotado de razão e tendo o dom da fé, não é natural, não é justo que fale com sabedoria e dirija cada palavra a Deus? A língua nos foi dada para que rezemos e louvemos a Deus, sirvamos ao próximo e santifiquemos a nós mesmos…

Ouvi o que diz o Sábio: «Os lábios dos imprudentes proferirão discursos insípidos, mas as palavras do homem sensato sairão de sua boca com peso e medida» (Eclo. 21, 28). «Quem fala muito dificilmente está sem culpa; mas quem modera os lábios será louvado como prudentíssimo» (Pr 10, 19); «Por isso, não fales ao acaso e precipitadamente, mas sê antes tido por parcimonioso nas palavras» (Eclo. 5, 1).

Eis por que Davi dizia: «Vigiarei sobre minha conduta para não pecar em minhas palavras; e, quando o ímpio me maltratava, afrontando-me, pus uma guarda à minha boca» (Sl 38, 1). E o Eclesiástico diz: «Quem porá uma guarda à minha boca e um selo inviolável sobre meus lábios, para que não se tornem para mim causa de tropeço e de ruína?» (Eclo. 22, 33).

15. MEIOS PARA BEM SE SERVIR DA LÍNGUA

Por isso, é preciso: 1° pesar as próprias palavras…; 2° falar pouco e dizer sempre coisas úteis…; 3° examinar frequentemente a própria consciência…; 4° oferecer a Deus, pela manhã, as palavras do dia…; 5° purificar e santificar a língua com o fogo da oração… Esse fogo é o amor de Jesus Cristo e sua graça; ele vem do Espírito Santo, que purifica o coração e a língua dos justos, os governa e os inspira, para que não digam senão coisas verdadeiras, úteis, edificantes e santas… Qual é a fechadura da boca? É a razão, a lei, o temor de Deus… Há muitos alimentos, diz o Venerável Beda, que não se podem comer senão temperados com sal; assim, as virtudes valem pouco se não forem acompanhadas pela caridade (Pr.). Ora, onde encontrar a caridade sem a sabedoria e a prudência da língua?

16. É PRECISO OBSERVAR O SILÊNCIO

Alguém disse que a palavra língua deriva de ligare: Lingua a ligando; por isso, o profeta Miqueias nos adverte a guardar o claustro de nossa boca (7, 5); o Sábio nos recomenda abrir raramente a boca (Eclo. 5, 1); São Tiago exorta a todos a ter sempre o ouvido atento para ouvir, mas a língua tardia para falar (Tg 1, 19). Davi diz de si mesmo que observou o silêncio (Sl 38, 2). Raramente falou Deus…; pouco falava Jesus Cristo; quase nada, a Bem-aventurada Virgem Maria… Os céus anunciam a glória de Deus, mas com a calma do silêncio… O universo canta os louvores de seu Criador, mas com o sublime concerto do silêncio… Somente o trovão e a tempestade falam, e falam com força; mas que produz o seu estrépito?

«Falem as vossas obras, diz Santo Agostinho, mas cale-se a vossa língua (35)». Não há melhor guarda da língua fora do silêncio. Se quereis aprender a falar, calai-vos e, em vosso silêncio, pensai no que se deve dizer e em como dizê-lo. Ouvi, examinai, calai-vos, se vos importa viver em paz… Arsenio recebeu da própria boca de um anjo este ensinamento: «Foge, cala-te, permanece tranquilo: este é o fundamento e o caminho da salvação (36)».

O abade Agatão manteve durante três anos uma pedrinha na boca, para se habituar a observar o silêncio (Vit. Patr.). Guardai o silêncio, dizia o abade Doroteu; porque o falar demasiado sufoca no coração os bons e celestiais sentimentos (Doctr. XXVI de Compunct.). Uma fornalha conserva o calor enquanto se mantém tapada a sua boca; assim, o coração conserva o amor de Deus quando o homem não abre com demasiada frequência os lábios para falar. «É preciso guardar a língua, diz o Crisóstomo, se quisermos recuperar, quanto possível, a felicidade celeste que Adão perdeu falando (37)».

A excelência e a utilidade do silêncio não escaparam ao olhar sagaz dos mais sensatos entre os pagãos. Perguntado Demóstenes por que o homem tinha duas orelhas e uma só língua, respondeu: «Porque deve ouvir duas vezes antes de falar uma só (38)». Sêneca diz que não sabe falar quem não sabe calar-se (39); Catão adverte que ter calado jamais fez mal a alguém, mas que a muitos pôde fazer mal ter falado (40)

É máxima de Epaminondas que o homem deve ser mais solícito em ouvir do que em falar, porque do ouvir se recolhe ciência; do falar, arrependimento (41). Assim dizia também Apolônio: «A loquacidade nos expõe a muitos erros; o silêncio nos preserva deles (42)»; por isso, Simônides confessava ter-se muitas vezes arrependido de haver falado, mas nunca de haver calado (43).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.