A morte daquele que teme a Deus será doce e feliz, diz o Eclesiástico (Eclo 1, 13). «As almas dos justos estão nas mãos de Deus, diz a Sabedoria, e não saberão o que é o horror da morte. Aos olhos dos insensatos, pareceram morrer, e seu fim foi julgado uma aflição, e sua partida daqui pareceu um extermínio; mas eles estão em paz… E, mesmo quando lhe falta uma morte súbita, o justo se encontra num lugar de refrigério e repouso» (Sb 3, 1-3 — 4, 7).
Tobias rogava ao Senhor que ordenasse que sua alma fosse recebida em paz, preferindo morrer a viver… E, tendo ele de fato progredido muito no temor de Deus, morreu em paz (Tb 3, 6 — 14, 4).
«Os justos armam-se de paciência para viver, escreve Santo Agostinho, e saboreiam doces delícias ao morrer (1)». São Gregório observa que, para o justo, o esplendor do meio-dia se eleva ao entardecer, porque, no instante em que sua vida se extingue, ele conhece que claridade o espera (2).
«Os que dormem no pó da terra despertarão», lemos em Daniel (12, 2); Jesus, falando da morte de Lázaro, chama-a de sono: «Nosso amigo Lázaro dorme» (Jo 11, 11-13). Os Atos Apostólicos, narrando o apedrejamento e a morte de Santo Estêvão, dizem que, «depois de ter rogado a Deus por seus algozes, adormeceu no Senhor» (At Apost. 7, 59) — «Ó sono bem-aventurado, exclama São Pedro Damião, sono feliz! A ele acompanhava o repouso, ao repouso a felicidade, à felicidade, a eternidade (3)».
«A minha carne, canta o Salmista, repousará na esperança; porque vós, ó Senhor, não abandonareis a minha alma na sepultura, não permitireis que o vosso santo veja a corrupção» (Sl 15, 9-10). O que o profeta diz aqui de Jesus Cristo convém à morte do justo, considerada como um breve sono… «Não, repete o mesmo Salmista, não morrerei, mas viverei e narrarei as maravilhas do Senhor» (Sl 117, 17).
«Aos olhos dos insensatos, escreve São Bernardo, os amigos de Deus parecem morrer, mas aos olhos dos sábios a morte deles é um sono plácido, segundo estas palavras do santo rei Davi: Quando o Senhor tiver enviado o sono àqueles que ama, eles receberão a herança do Senhor (4)». Para os justos, o sepulcro é um leito; por isso nós, cristãos, chamamos cemitérios, isto é, lugares de dormição, aqueles onde se sepultam os mortos; assim, dia da dormição é chamado o dia da morte dos santos. Foi precisamente a respeito dos santos que o Senhor disse a Oseias estas palavras: «Eu os libertarei das mãos da morte, resgatá-los-ei do sepulcro: ó morte, eu serei a tua morte!» (Os 13,14).
«Se adormecerdes no sono da morte, dizem os Provérbios, estareis sem temor, repousareis e doce será o vosso sono» (3, 24). «Ah! Quem dera eu estivesse morto, dizia Jó aos seus amigos: dormiria no silêncio e repousaria no meu sono» (Jó 3, 13). «Os mortos que chorais viverão, diz o Senhor; aqueles que foram imolados por mim ressuscitarão; despertai e entoai cânticos de louvor, vós que habitais no pó» (Is 26, 19). «Vai, povo meu, e entra no lugar do teu repouso; fecha a porta atrás de ti, esconde-te por um momento, até que passe a indignação do Senhor. Eis que o Senhor sairá do seu santuário para pedir contas dos crimes cometidos contra ele pelos habitantes da terra» (Ib. 20-21). Esta é a voz do Senhor aos seus santos, àqueles que morrem no seu amor. Ide, ó justos, entrai por algum tempo em vossos túmulos; ali dormi e repousai, porque em breve, isto é, no dia do juízo, eu vos ressuscitarei, para que gozeis da recompensa que merecestes. Repousai de vossos trabalhos! Com efeito, a morte não é coisa penosa, mas doce para o justo. Comparado com a eternidade, o tempo que permanecemos no sepulcro não vale uma noite de sono, comparada com a vida inteira do homem.
«Desejo desligar-me dos laços do corpo, para estar com Cristo», escrevia o grande Apóstolo aos Filipenses (1, 23). A propósito destas frases, Santo Agostinho observa que aquele que deseja morrer para estar com Cristo não morre no sofrimento; mas vive com desgosto e morre com alegria (5). Quem é animado pelo espírito de Deus calca aos pés as coisas terrenas e não deseja senão as celestes e eternas; a morte que lhas proporciona é para ele um ganho, como se exprime São Paulo (Id. 1, 21).
«Infeliz de mim! exclama o Salmista, pois o meu exílio se prolongou!» (Sl 119, 5). «Libertai, ó Senhor, a minha alma da prisão, para que eu glorifique o vosso nome; os justos esperam que me deis a minha recompensa» (Sl 141,10). Os justos anseiam por uma vida melhor que a presente.
«O justo espera na sua morte», lemos nos Provérbios (14, 32). Por isso o Salmista cantava: «O meu corpo repousará na esperança» (Sl 15, 9); e São Paulo alegrava-se por não ter corrido em vão, nem trabalhado inutilmente (Fl 2, 16).
Mas quanta esperança tinha no coração, e com quanta confiança enfrentava a morte o grande Apóstolo, ele mesmo o diz: «Já estou chegando ao termo da minha vida, e o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, completei a minha carreira, conservei a fé. De resto, está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda» (2Tm 4, 6-8). E aos Tessalonicenses escrevia: «Não queremos, irmãos, que ignoreis o que diz respeito àqueles que dormem, para que não vos entristeçais como os outros, que não têm esperança» (1Ts 4, 12). Porque, comenta São Bernardo, «assim como a impiedade nada teme mais que a vinda do grande Deus, assim também a piedade, segura de suas obras, suspira e anseia por ela com toda a alma (6)».
1º pelo que deixa. — Quer se considere aquilo que o homem deixa, quer aquilo que encontra ao morrer, são muitas as vantagens que o justo obtém de sua morte… Pelo que deixa, são quatro as principais vantagens:
1) O justo deixa o próprio corpo. «Enquanto permanecemos sob a tenda do nosso corpo, diz São Paulo, gememos sob o peso; sabendo que, enquanto vivemos na carne, peregrinamos longe do Senhor» (2Cor 5, 4, 6). São Paulo dá ao nosso corpo o nome de tenda, porque: a) Assim como a morada feita sob as tendas é coisa temporária e breve, assim também a permanência da alma no corpo é de pouca e curta duração…
b) O homem permanece em sua casa e nela repousa, mas sai da tenda e parte; assim, a alma não repousa no corpo, mas está sempre em movimento, vai e corre para a morte e, pela morte, para a imortalidade; pois, segundo a palavra do Apóstolo, não temos aqui embaixo cidade fixa e permanente, mas buscamos a futura (Hb 13, 14). c) O nome de pavilhão, ou tenda, indica que somos estrangeiros sobre a terra. d) Assim como o soldado em guerra se aloja sob a tenda, assim os fiéis, soldados de Jesus Cristo, habitam em seus corpos, sempre em guerra contra o mundo, sempre em luta com as próprias paixões… Ora, deixar este corpo de pecado, sujeito à concupiscência, a uma multidão de necessidades, de doenças e de dores, este corpo que dentro em pouco será alimento dos vermes, é livrar-se de um peso opressivo… Deixar este corpo, verdadeira e obscura prisão da alma, este corpo que a mantém acorrentada e escrava, é uma felicidade. «Ó Jerusalém, exclama o profeta Baruc, ó alma fiel, depõe o luto e reveste-te do esplendor e da glória que te vêm de Deus» (5,1). «Devemos deixar o nosso corpo, diz o Crisóstomo, com a mesma ligeireza com que depomos uma veste e com a mesma presteza com que José deixou nas mãos da patroa o seu manto (7)». Nem isso será pesado ao homem justo, porque, como escreve São Gregório: «A própria conservação do corpo é coisa de pouca importância para a alma ferida pelo dardo do amor divino… (8)».
O próprio Sêneca dá este conselho: Queres não estar submetido ao jugo do teu corpo? Permanece nele como se a cada instante devesses sair dele; pensa que não sabes quando te caberá deixá-lo, e te sentirás forte quando for necessário separar-te dele (Prov.).
2) O justo deixa o mundo, seu inimigo jurado, implacável… Abandona a terra semeada de perigos e escândalos etc. (Veja-se Mundo e Nada do mundo).
3) O justo deixa os bens deste mundo e, por isso, livra-se de gravíssimos incômodos e de contínuos temores; com efeito, os bens da terra não passam de ciladas, enganos e males (Ver Riquezas).
4) Abandona esta miserável vida que, segundo São Gregório, se comparada com a vida eterna, deve ser chamada antes morte que vida (9). A vida presente é um contínuo e rigorosíssimo inverno; a futura é uma primavera, um verão, um outono deliciosíssimos. A vida deste mundo é uma morte lenta; Sêneca via na morte nada mais que o fim dos males (Pr.).
São Paulo e os outros santos desejaram a morte, porque consideravam os três laços que nos apertam os pulsos e nos mantêm acorrentados à terra. O primeiro é o laço das penas do corpo; o segundo é o laço da concupiscência e dos pecados; o terceiro, o laço do mundo e das coisas mundanas. A morte rompe todas essas cadeias; ela nos torna impassíveis, impecáveis, celestes e divinos.
«O homem tem três motivos para se alegrar na morte, observa São Bernardo: é libertado de todo sofrimento, de todo pecado e de todo perigo (10).» Depois, em outro lugar, repete: «Três coisas concorrem para tornar preciosa a morte do justo: o repouso depois das fadigas da vida, a alegria de ver tantos objetos novos e nunca vistos, a certeza da eternidade bem-aventurada (11).»
Para a alma, a morte não é outra coisa senão a saída da prisão, o fim de seu exílio e de seus padecimentos, a entrada no porto, a meta da viagem, o despojamento do peso que a oprimia, a alegria de poder descer de um cavalo furioso e sair de uma casa que desmoronava; o término de todos os desgostos, o afastamento de todos os perigos, o rompimento de todas as cadeias, o fim de todos os males, o pagamento da dívida contraída para com a natureza…
«Aquele que agradava a Deus tornou-se seu amado, lemos na Sabedoria; vivia entre os pecadores e foi transportado para uma morada melhor; foi arrebatado, para que a malícia não lhe pervertesse o entendimento, nem a impostura enganasse sua alma. Viveu pouco tempo e completou longa carreira; sua alma agradava a Deus; por isso o Senhor se apressou em tirá-lo do meio das iniquidades» (Sb 4,10.14). Eis desvendado o mistério da morte, também quando prematura, dos bons.
Por costume, dizia o santo bispo Máximo, dá-se o nome de morte ao fim desta vida; porque, se se considerasse bem, dever-se-ia antes chamar o afastamento da morte, a separação da alma da corrupção, o desaparecimento das trevas, numa palavra, a cessação de todos os males (SÚRIO, In Vita). Esse era o pensamento de São Gregório Nazianzeno, que diz: «Não sei se esta vida não deveria antes ser chamada morte e, ao contrário, dar-se o nome de vida à morte (12).» E com razão, diz Santo Ambrósio, porque «vivendo, põe-se em risco a inocência; morrendo, afastamos de nós o perigo de cair no erro. A morte nos proporciona, pois, um ganho, enquanto o uso da vida, tornando-nos como devedores de um usurário, aumenta o peso de nossas culpas (13)».
Quem morre vê o fim dos penosos e contínuos trabalhos da vida, fica livre dos embaraços, das dores, das agonias, das perseguições que acompanham o homem sobre a terra; encontra-se a salvo dos golpes dos inimigos contra os quais estava em guerra; já não tem de temer tentações nem ciladas por parte do demônio… «O Senhor, diz o Salmista, protege as almas justas; ele as livrará das mãos dos malvados (com uma morte santa)» (Sl 96,10). No momento da morte, o justo pode repetir com o profeta: «O Senhor livrou minha alma da morte, meus olhos das lágrimas e meus pés da queda; caminharei na presença de Deus na terra dos vivos» (Sl 114,8.9).
2° Pelo que encontra. Não somente pelo que deixa, mas também pelo que encontra, a morte é vantajosa para o justo… Para ele, a morte é uma flecha de ouro que o enriquece enquanto o fere… A morte é para o justo o princípio do repouso e da paz, a fuga da tristeza, a chegada da alegria, a calmaria depois da tempestade, o término de uma navegação sumamente perigosa, a entrada no porto da salvação, a saída da prisão e do exílio, o retorno à pátria.
No leito de morte, o justo considera, diz São Bernardo, os perigos dos quais escapou, as fadigas suportadas, as lutas das quais saiu triunfante e, depois de uma vida santa, aguarda, com confiança plena de segurança, a bem-aventurada esperança e a manifestação da glória do grande Deus.
Oh, como são felizes aqueles que morrem no Senhor! Eles compreendem aquelas consoladoras palavras do Espírito Santo: «Bem-aventurados os que morrem no Senhor. O Espírito já lhes diz que repousarão de seus trabalhos; porque suas obras os acompanham» (Ap 14,13). Eles vão não somente à posse do repouso, mas também da alegria que provém do espetáculo novo e nunca mais visto que se lhes apresenta diante dos olhos, e da certeza de jamais perder a bem-aventurada eternidade. Boa é a morte do justo, se se considera o repouso que proporciona; melhor, se se considera a novidade que lhe revela; ótima, se se considera a eternidade que lhe assegura. Péssima, porém, é a morte dos pecadores. Por quê? É má, porque os separa do mundo; mais má, porque os separa do corpo; péssima, porque os precipita no inferno e os entrega ao verme roedor (Serm. in Cant.).
«Preciosa aos olhos do Senhor é a morte dos santos», diz o Salmista (Sl 115,5). «Porque sobre eles se levanta a luz e a alegria embriaga os de coração reto. Ó justos, alegrai-vos e exultai no Senhor!» (Sl 96,11-12).
No momento supremo da morte, Deus aparece à alma do justo e lhe diz: «Levanta-te, tu que bebeste até o fundo o cálice das minhas provações. Agora eu o tirei de teus lábios, e jamais o provarás novamente por toda a eternidade» (Is 51, 17, 22). Ergue-te, reveste-te de tua força, veste os trajes de tua glória; tu és agora a cidade do santo, e nenhuma mancha tornará a obscurecer-te. Levanta-te do pó e senta-te no trono que te preparei; quebra os grilhões que, pouco antes, cingiam teu pescoço (Id. 52, 1-2). Tuas antigas angústias estão agora esquecidas para sempre; eu as fiz desaparecer, e jamais voltarão a renovar-se por toda a eternidade (Id. 65,16).
«Eu ouvi, escreve São João Evangelista, uma voz do céu: escreve: Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor» (Ap 14, 13). Por quê, como diz São Bernardo, «sua morte já não tem aguilhão, mas traz alegria (14)». Com efeito, para os justos, a morte é o princípio da vida e assinala sua partida para o céu.
Diz São Paulo: «Sabemos que, se esta nossa casa terrena em que habitamos se desfizer, teremos outra, edificada pela mão de Deus e não pelos homens, e que durará eternamente nos céus. Por isso gememos, suspirando por nossa habitação que vem do céu e está no céu. E a teremos, contanto, porém, que sejamos encontrados vestidos, e não nus» (2Cor 5, 1-3); isto é, como se exprime São Paulino, «se, despojados do corpo, não formos encontrados nus da graça» (Epist.).
Para o justo, a morte é a aquisição de Jesus Cristo e da bem-aventurança que ele nos preparou; é a compra da vida eterna. Neste sentido, São Paulo escrevia que, sendo Cristo a sua vida, a morte era para ele um ganho (Fl 1, 21) … A morte é a entrada na pátria e na glória. «Pelo caminho da morte, diz São Cipriano, passamos à imortalidade. Não se chega à vida eterna sem sair da temporal; a morte não é morte, mas passagem (15)». E São Bernardo: «Aqui embaixo o justo morre cheio de dias e é acolhido lá onde está a plenitude dos dias (16)».
«A luz do justo (moribundo) resplandecerá como a aurora, diz Isaías; a justiça caminhará diante de seus passos, e a glória do Senhor o cercará por todos os lados. Vossa luz, ó justos, resplandecerá nas trevas da morte, e essas trevas se tornarão para vós brilhantes como o sol. O Senhor vos dará repouso eterno, cercará vossa alma de seu esplendor, reanimará vossos ossos, e sereis como um jardim sempre irrigado, como uma fonte à qual não falta água… A cinza com que cobríeis a cabeça será transformada em coroa, vosso pranto em júbilo, e as vestes de luto em trajes de festa» (Is 58, 8, 10-11; 61,3).
O justo que morre eleva, como Santo Estêvão, os olhos ao céu e vê o paraíso aberto e, nele, a glória de Deus (At 7, 55). Vê a escada de Jacó, os anjos que descem para buscá-lo e convidá-lo, e, no alto da escada, Deus, que lhe diz: «Servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, eu te constituo senhor de muito; entra na alegria do teu Senhor: Vem, ó bendito de meu Pai, tomar posse do reino que te preparei desde a origem do mundo. E ele parte para a vida eterna» (Mt 25, 21, 34, 46).
Os próprios pagãos haviam conservado algum vestígio da crença, herdada da tradição primitiva, de que, para aqueles que tivessem observado as leis da justiça, a morte era passagem para uma vida melhor. Ferido mortalmente em batalha, Epaminondas, general tebano, perguntou se a vitória era de seus homens e, tendo recebido resposta afirmativa, disse: Minha vida está prestes a terminar; mas começa agora para mim uma vida melhor e de ordem muito mais elevada que a presente. Morrendo como morre, Epaminondas nasce (PLUTARCO). Se dermos crédito a Estrabão, os brâmanes ensinavam que a morte é um nascimento para a vida verdadeira e feliz.
«Aquilo que os homens chamam de morte, diz um antigo filósofo, é o princípio da imortalidade, é o ato que lhes cria a vida futura (17)». O dia da morte, que tanto amedronta o homem, é, segundo Sêneca (Prov.), o nascimento do dia eterno. «A morte, escreve Cícero, separa-nos dos males, e não dos bens; não é uma destruição que nos tire tudo e tudo arruíne, mas uma emigração, uma mudança de vida que, para os homens ilustres e as mulheres célebres, é ordinariamente o caminho do céu (18)». Também Paládio reconhece que, com a morte, a alma foge do corpo como de uma prisão e parte para o Deus imortal (19).
«Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor» (Sl 88, 1), dizia o profeta Davi. E São Bernardo faz este comentário: «O justo morre cantando e canta ao morrer. Ó morte, mãe da aflição, serves à alegria; inimiga da glória, serves à glória; porta do inferno, serviste de entrada ao reino celeste; abismo de perdição, serves para fazer encontrar a salvação. Ó morte, abres aos fiéis que atravessam teus domínios uma saída ampla e jubilosa para chegarem à vida (20)». Pela graça de Jesus Cristo e pela força que dele recebiam, São Lourenço, São Vicente e todos os mártires riam-se dos carrascos, de seus tormentos e da morte. Os confessores, as virgens e os anacoretas jubilavam no momento da morte. Os imitadores de suas virtudes se alegrarão e exultarão como eles, porque serão vencedores da própria morte e passarão da vida presente à eterna.
A morte é um brinquedo para os verdadeiros cristãos; a vida lhes é pesada, e a morte constitui o objeto de seus votos e de sua felicidade. A vida não lhes é tirada pela morte, mas transformada numa existência melhor. Pela morte, deixam de morrer e começam a viver uma vida que não terá fim… «Os maus, observa São Bernardo, chamam morte à passagem para a vida; mas, para o justo, a morte é uma verdadeira e preciosíssima páscoa (21), porque ele morre para o mundo, a fim de viver perfeitamente em Deus; entra na admirável morada do Senhor, penetra no santuário de Deus» (De nat. et dignit. divini amor. C. XV). São Cipriano escrevia: «Nosso adversário compreendeu que os soldados de Jesus Cristo não podem ser vencidos e que, justamente por isso, não temem morrer; jamais poderão ser vencidos (22)». Ele mostrou em si mesmo a verdade dessas palavras. Com efeito, quando ouviu a sentença de morte pronunciada contra ele, irrompeu nesta exclamação: Dou graças a Deus onipotente, que se digna libertar-me das cadeias deste corpo (In Vita).
De Santo Estêvão, o Nazianzeno diz: «No momento de sua morte, ele, que não via nada do que acontecia ao seu redor, via Jesus Cristo (23)». São Nicolau, nos últimos momentos, repetia: Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma (SÚRIO, In Vita). O venerável Beda: Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo (SUR. In Vita). Santa Maria Egipcíaca: Senhor, deixareis que vossa serva parta em paz, segundo a vossa palavra (In Vita). Santa Gorgônia: Dormirei e repousarei em paz (RIBADEN. Vit. Sanct.).
São Martinho, a quem queriam deitar mais comodamente em seu leito, respondia: Deixai-me antes contemplar o céu que a terra, para que minha alma, tomando seu caminho, se dirija para o Senhor (Stor. eccles.). Ai de mim, dizia São Jerônimo, quanto se prolongou minha peregrinação! Minha alma anseia por vós, ó Senhor, como o cervo sedento corre para a fonte (Stor. eccles.). Santo Ambrósio dizia: Não vivi para temer a morte, e não a temo, porque o Senhor é bom (POSSIDÔN. In Vita S. August.).
São Francisco de Assis exclamava: Tirai, ó Senhor, tirai a minha alma da prisão, para que ela louve o vosso nome; os justos esperam que eu receba a minha recompensa (S. BONAV.). São Pedro de Alcântara expirava cantando: Alegrei-me com aquilo que me foi dito: Nós iremos à casa do Senhor (SURIUS. In Vita). Santa Maria Belga exclamava ao morrer: Ó Senhor, nosso rei, como sois belo! Louvai a Deus: Aleluia! (RlBADEN. Vit. Sanct.). Santa Maura, virgem de Troyes, expirou recitando aquela súplica do Pater: Venha o vosso reino (GODESC.). Santo Aelredo expirava dizendo: Senhor, meu Deus, cantarei eternamente a vossa misericórdia, a vossa misericórdia, a vossa misericórdia! (GODESC.).
Assim falava Santo Antônio no fim da vida: Quando chegar o dia da ressurreição, receberei das mãos de Jesus Cristo este corpo que estou prestes a abandonar, e ele se tornará incorruptível. Depois, voltando-se para os religiosos, disse: Adeus, meus filhos, adeus; Antônio parte (Vit. Patr.). São Bernardo ouviu uma voz que lhe dizia: Vem, és esperada. (In Vita). São João Crisóstomo despiu-se de suas vestes e vestiu outras brancas, como para preparar-se para as núpcias celestes do Cordeiro; recebeu a comunhão e disse: Deus seja glorificado. Assim seja (SUR. In Vita). Os amigos de São Lourenço Justiniani, enquanto choravam inconsoláveis ao redor de seu leito, ouviram-no exclamar, em um êxtase de alegria: Eis o esposo; vamos ao seu encontro; Senhor Jesus, eu venho a vós! (SURIUS. In Vita).
Hoje entro na posse de um reino que Jesus Cristo quer dividir comigo, dizia São Fileu, mártir (SUR. In Vita). Santo Eduardo, rei da Inglaterra, vendo junto ao seu leito a rainha, sua esposa, desfazer-se em lágrimas, disse-lhe: Não chores, pois de modo algum morrerei; antes, viverei; espero que, deixando esta terra de morte, entrarei na terra dos vivos, para gozar ali da felicidade dos santos (GODESC.). Ó meu Senhor e meu esposo, exclamou Santa Teresa, eis que chegou, enfim, a hora tão desejada! Eis-me próxima da minha libertação. Seja feita a vossa vontade. Eis, finalmente, a hora em que sairei do meu exílio e em que a minha alma encontrará na vossa presença a felicidade que há tanto tempo suspira (GODESC.). O beato Nicolau de Longobardo, recolhendo o último alento, gritou com toda a força de sua voz: Ao paraíso! Ao paraíso! E, dizendo isso, expirou (GODESC.).
São Francisco Xavier, com os olhos marejados de lágrimas e ternamente abraçado ao seu crucifixo, pronunciou estas palavras: Em vós, ó Senhor, pus toda a minha esperança e não ficarei decepcionado. Dito isso, uma alegria celeste brilhou em seu rosto, e ele entregou a alma a Deus (GODESC.). São Estanislau Kostka expirou placidamente, depois de dizer que via a Bem-aventurada Virgem acompanhada de uma multidão de anjos (GODESC.). São Luís Gonzaga agradeceu a Deus por querer chamá-lo tão cedo para junto de si e pediu a um dos padres que recitasse com ele o Te Deum; a outro disse: Meu padre, partimos, e partimos com alegria (GODESC.).
Oh, que felicidade! exclamava São Francisco Régis; como morro contente! Vejo Jesus e Maria, que se dignam vir diante de mim para conduzir-me à casa dos santos! (GODESC.). O beato Bernardo de Corleone alegrava-se todo ao ver que se aproximava a hora de sua morte. Passemos, minha alma, repetia ele; passemos desta vida miserável à felicidade eterna! Passemos do sofrimento à alegria! Passemos da corrupção do mundo aos divinos abraços de Deus (GODESC.). Todos os que estiveram presentes à morte de São Paulo da Cruz diziam, depois que ele expirou: Hoje vimos como morrem os santos (GODESC.). Estes edificantes exemplos da morte de alguns santos aplicam-se a todos, porque de todo justo que morre se pode dizer aquilo que o Eclesiástico deixou escrito sobre o rei Ezequias: «Viu com grande ânimo os seus últimos instantes» ― (48,27).
«O pescador Pedro, escreve o Crisóstomo, resplandece, mesmo depois da morte, com tanta luz, que ofusca a do sol (24)». Sobre o túmulo de todo santo poder-se-ia gravar a inscrição que se lê no túmulo do cardeal Alciati, na igreja de Santa Maria dos Anjos, em Roma: «Viveu na virtude, vive na memória dos homens, viverá na glória». Ou ainda o epitáfio composto pelo Salmista: «A memória do justo viverá eternamente» (Sl 111, 7). Por isso, a Igreja dá o nome de nascimento ao dia da morte dos santos. Eles, com efeito, nascem para a vida, para a posse da glória eterna, para a fama, para a celebridade e para a veneração do mundo.
«A casa do ímpio, dizem os Provérbios, será arrancada desde os fundamentos; mas as tendas dos justos permanecerão eternamente» (Pr. 14,11). «Bênção do Senhor sobre a cabeça do justo. A sua memória é um perfume que se espalha pelo futuro; mas o nome dos ímpios apodrecerá» (Id. 10, 6-7). A lembrança do justo é querida e doce, a sua memória é ilustre e honrada, de modo que Deus e os homens o honram, celebram-no e bendizem-no. Assim vemos glorificados Abraão, Moisés, João Batista, os apóstolos, os mártires etc.
«Aquele que teme o Senhor encontrará o bem nos seus últimos instantes, e será bendito o dia de sua morte» (Eclo. 1, 13). «A sua glória jamais desaparecerá, e o seu nome passará de geração em geração. Os povos narrarão a sua sabedoria, e a Igreja celebrará os seus louvores» (Id. 39, 13-14). «Ricos em virtudes, amantes da verdadeira beleza e vivendo em paz em suas casas, os justos, nossos pais, alcançaram a glória, cada qual entre os filhos de sua nação; obtiveram louvor durante a vida, e aqueles que deles nasceram deixaram um nome que lhes serviu de elogio… Os seus corpos foram sepultados em paz, e o seu nome passa de boca em boca por todas as gerações» (Id. 44, 6-8, 14).
1° Eles estão em paz, porque morreram depois de terem empregado bem os seus dias e acumulado um rico tesouro de boas obras; morreram em boa e ditosa velhice; e, mesmo quando morreram no florescer dos anos, tiveram uma longa vida pelos méritos de suas virtudes e de sua santidade. 2° Estão sepultados em paz, porque a pompa que acompanhou os seus funerais lhes era devida, e receberam amplo tributo de lamentos e orações etc. Se já não estão na posse da glória eterna, participam de todas as esmolas, orações, boas obras e sacrifícios da Igreja. 3° Estão em paz, porque os seus ossos repousam, sepultados por mãos amigas, entre aqueles com os quais viveram em caridade e paz. 4° Estão em paz, porque aguardam a ressurreição para a glória. 5° Estão em paz, isto é, gozam de bom nome, e uma fama gloriosa acompanha a sua memória.
«O nome deles vive de geração em geração» (Eclo. 44, 14). Vive tanto no céu, junto de Deus, dos anjos e dos santos, quanto na terra, junto dos homens de todos os tempos e de todos os lugares. Enquanto a sua alma resplandece, revestida dos raios da glória eterna, vê Deus face a face e o possui por inteiro, os seus corpos são expostos à veneração pública sobre os altares.
Ora, a fonte e o princípio desta honra, desta glória dos santos, é uma virtude perfeita; com efeito, a virtude constitui o nome, e a memória depois gera a glória no tempo e na eternidade. Os justos são louvados e o serão em todos os tempos; porque, segundo a frase de Santo Antônio, a memória dos santos é o caminho que conduz à virtude, é estímulo à santificação (Vit. Patr.).
«O Senhor te vestirá, ó justo, com o manto da justiça, diz o profeta Baruc, e cingirá a tua cabeça com o diadema da felicidade eterna. Fará ver em ti o seu esplendor a todo o mundo, pois o nome pelo qual te tornará famoso para sempre será este: A paz da justiça e a honra da piedade. O Senhor conduzirá os justos, levados como filhos de rei» (Bar 5, 2-4, 6).
Lançai um olhar sobre a inumerável multidão de peregrinos de todas as idades, condições e sortes, que, de todos os recantos do mundo, vão todos os anos ajoelhar-se junto ao túmulo dos apóstolos e de outros santos, e beijar com veneração suas sagradas relíquias. Contai os templos, as capelas, os altares erigidos à memória desses amigos de Deus; escutai os cânticos, as orações, os ofícios públicos celebrados em sua honra. Todas as paróquias católicas do universo escolheram entre os santos um patrono particular, e quantas trazem o nome de um mesmo protetor! Quando se batiza uma criança, impõe-se-lhe o nome de um santo, sob cuja proteção é colocada… E os prodígios, os milagres com que Deus se compraz em honrar os santos, em exaltar seu poder e sua glória, que nos dizem? … Que a morte dos justos eterniza sua memória e provoca sua veneração…
«Nós gememos, escreve São Paulo, desejando ser revestidos de nossa habitação que vem do céu; e o seremos, contanto que sejamos encontrados vestidos, e não nus» (2Cor 5,2-3). E pouco depois: «Queremos ir habitar com o Senhor; por isso, tanto presentes como ausentes, empenhamo-nos em agradar-lhe» (Ib. 8-9). «Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor», diz o Apocalipse; mas por quê? «Porque suas boas obras os seguem» (Ap 14,13).
«Uma boa morte, diz Santo Agostinho, é ordinariamente consequência de uma boa vida; assim como, ao contrário, uma má morte põe fim a uma má vida» (25). Como poderá esperar morrer no beijo do Senhor aquele que nunca viveu nem de Deus nem para Deus? Aquele, porém, que viveu unido ao Criador, como poderá temer morrer separado dele? A morte é o eco da vida. Se a vida é um concerto de virtudes, de caridade, de boas obras, a morte, eco fiel, responde: virtudes, caridade, boas obras. Mas, se da vida se eleva um estrépito de blasfêmias, de ódio, de impureza, de cólera, de impiedade, de escândalos, a morte o repete e diz eternamente: blasfêmias, ódio, impureza, cólera, impiedade, escândalos. O céu ouve esse horrível alarido, e o anjo da justiça celeste fecha ao pecador a entrada.
Os bons cristãos morrem da morte dos justos; mas por quê? Porque, responde o Salmista: «Seus dias estão completos» (Sl 72,10); e, mesmo quando morrem jovens, cumpriram uma longa carreira com suas virtudes, como diz a Sabedoria (Sb 4,13). «O justo morre cheio de dias, comenta São Bernardo, e renasce na plenitude dos dias. Ele está repleto de todos os lados: aqui embaixo, de graça; lá em cima, de glória; porque o Senhor dará a graça e a glória (26)».
A Sagrada Escritura diz de Abraão que morreu em boa velhice e cheio de dias (Gn 25,8); e do santo ancião Eleazar observa que partiu deste mundo deixando, não somente aos jovens, mas a toda a nação, a lembrança de sua morte como exemplo de coragem e de força (2Mc 6,31). Os justos são ricos em virtudes; eis por que morrem no Senhor… Antes mesmo de deixarem a terra, os justos já morreram para o mundo: vivem de privações, de jejuns, de penitência, de paciência; vivem sobre a cruz, mas, depois da morte, gozam de uma vida que será eternamente gloriosa.
Desejamos morrer da morte dos justos? Vivamos de sua vida… Viver como pecador e querer morrer como justo é pretender o impossível, salvo o caso de um milagre incontestável, que Deus de modo algum nos deve e que, muito provavelmente, não fará.