O Espírito Santo nos ensina que o homem paciente deve ser preferido ao forte, e que aquele que domina o próprio coração vale muito mais do que aquele que conquista cidadelas (Pr 16, 32). Quem é verdadeiramente poderoso? Quem alcança belas e úteis vitórias? Aquele que resiste ao demônio, vence o mundo e subjuga a si mesmo. Esta é a resposta que nos dão Jesus Cristo e a sua palavra infalível. Contudo, é bom ouvir como um eco da mesma resposta ainda ressoa nos próprios lábios dos pagãos: «Livre é a alma, diz Platão, e senhora de suas paixões. A primeira e mais perfeita entre as vitórias é vencer a si mesmo; coisa torpíssima e funestíssima é deixar-se vencer por si mesmo (De Legib.)». Pois, como observa Valério Máximo, é muito mais difícil vencer a si mesmo do que triunfar sobre um inimigo (Lib. 4, c. I). Por isso, Alexandre Magno chamava de ato próprio de um rei subjugar a si mesmo, mais do que desbaratar um exército (PLUTARCH. In Alex.); e sobre o túmulo de Cipião Africano estava gravado este belo epitáfio: ― Maxima cunctarum victoria, victa voluptas. ― A maior de todas as vitórias foi vencer o prazer.
Encontramos o mesmo pensamento expresso em Cícero e em Aristóteles. Vencer a si mesmo, escreve o primeiro, refrear a ira, é ação de homem fortíssimo. Quem faz tais coisas, não digo que o compare aos grandes homens, mas julgo-o semelhante a Deus. Com efeito, aquele que abate um leão não dá prova de maior força do que aquele que reprime a cólera, fera ferocíssima que traz dentro de si; nem aquele que abate as mais terríveis aves de rapina é mais forte do que aquele que refreia as cobiças avidíssimas; nem aquele que prostra uma Amazona guerreira é mais valoroso do que aquele que triunfa da luxúria, paixão destruidora do pudor e da fama; pois as paixões são um mal mais nocivo do que qualquer outro, porquanto são íntimas ao homem.
Por isso, deve ser julgado verdadeiramente forte somente aquele que é temperante, moderado e justo (De Offic.). O segundo, estabelecendo como princípio que é dificílima empresa vencer a si mesmo, deduz daí que aquele que sai vitorioso de suas próprias paixões demonstra maior força do que aquele que vence os inimigos. Forte é aquele que vence um inimigo, mas mais forte é quem triunfa do prazer: com efeito, a história nos recorda não poucos que derrotaram os inimigos e foram derrotados por mulheres (Apud Anton. in Meliss. p. 1, C. XII). Temos exemplos assustadores em Sansão, em Davi, em Salomão etc.… Finalmente, já um antigo poeta havia cantado: «Árdua coisa é vencer os outros; mas vitória muito mais insigne é acalmar em nós mesmos as ondas das paixões».
O próprio Deus faz magníficas promessas àqueles que saem vitoriosos do combate contra as suas paixões: «Ao vencedor darei de comer da árvore da vida, que está no paraíso do meu Deus» (Ap 2,7). «Quem vencer não estará mais sujeito à segunda morte» (Ibid. 11). «Aquele que sair vencedor será vestido de branco, e eu não apagarei o seu nome do livro da vida; mas o proclamarei diante de meu Pai e dos seus Anjos. Farei dele uma coluna no templo do meu Deus, e jamais sairá dele; escreverei sobre ele o nome do meu Deus e o nome da cidade do meu Deus, da nova Jerusalém que desce do céu, e o meu nome novo… Fá-lo-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como eu também venci e me sentei com meu Pai no seu trono (Id. 3, 5, 11-12, 21). Eu, o alfa e o ômega, o princípio e o fim, darei gratuitamente, a quem tiver sede, da fonte da água viva. Quem vencer possuirá estas coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho» (Id. 21, 6-7).
O mesmo Apóstolo conta ainda ter visto uma multidão inumerável de gente de toda tribo, povo, nação e língua, em pé diante do trono do Cordeiro, vestida de linho branco, com palmas nas mãos. E um dos anciãos lhe disse: Estes vestidos de branco, quem são e de onde vieram? Ao que, tendo ele respondido: Senhor, vós o sabeis; o ancião retomou: Estes são os que chegaram aqui passando por uma grande tribulação, e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Por isso estão diante do trono de Deus e o servem, dia e noite, no seu templo; e aquele que está sentado no trono os cobrirá como com um pavilhão. Já não sentirão fome nem sede; o Cordeiro, que está no meio do trono, será seu pastor e os conduzirá às fontes da água viva; e Deus enxugará de seus olhos toda lágrima (Ibid. 7, 9-17).
«Caminhemos sobre as pegadas de Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, e, se soubermos vencer nossas paixões e nossos vícios, se os obrigarmos a permanecer sujeitos a nós, faremos deles uma escada para subir ao alto. Se dominarmos nossas paixões, se pisotearmos os vícios, eles nos elevarão e nos servirão de escada celeste; mas, se eles nos dominarem e estiverem sobre nós, então nos sufocarão e matarão (Serm. 2, de Ascens.)». «Se não triunfarmos de nossas más inclinações, repete São Bernardo, elas triunfarão de nós; se não as oprimirmos, certamente permaneceremos oprimidos por elas (Serm. IV de Ascens.)». E mais adiante observa que uma espécie de martírio muito meritório é mortificar e vencer com o espírito as obras da carne; o martírio do ferro e do fogo parece mais terrível, mas aquele é mais doloroso por sua duração.
Seremos reis, se soubermos dominar e reger nossos afetos. Todo aquele que triunfa de seu corpo e que, governando a si mesmo, não permite que sua alma seja agitada pela cólera ou por outra paixão, este, segundo a sentença de Santo Ambrósio, é chamado rei, e com razão, porque sabe comandar, sabe conservar sua liberdade e não é de modo algum escravo do pecado (Offic. lib. III). «Por verdadeiros reis, diz São Gregório, devem-se entender aqueles que dirigem todos os seus movimentos segundo a vontade de Deus; que os dominam como um rei poderoso, vitorioso e sábio; que, colocando-se no alto da razão, como sentados sobre um trono real, presidem a tudo, reduzem à escravidão tudo o que se rebela contra a ordem e, pacificando todas as coisas, fazem reinar em si mesmos os direitos da equidade e da justiça (Pastor.)».
«Um rei sentado no trono do juiz põe em fuga a iniquidade com seu olhar», lemos nos Provérbios (Pr 20, 8). Esse rei é a razão, ou a alma, a qual, quando ocupa no homem o lugar que lhe cabe, derrota e dissipa os erros e os vícios que nascem dos sentidos e, principalmente, os vícios da concupiscência e da irascibilidade. Enquanto a alma governa com sabedoria, força tudo o que há nela a regular-se bem, e é sua rainha. Por isso, quem age segundo a doutrina da razão entrega à sua alma, e não à carne nem aos sentidos, o governo de si mesmo; coloca a alma sobre o trono real do juízo, para que ela comande todas as potências e faculdades e as sujeite a si. Então o reino da alma triunfante é pacífico, tranquilo, santo e glorioso.
Jesus Cristo oferece aos vencedores graças copiosas e preciosíssimas nesta vida e, depois dela, a coroa da glória celeste. Para nos animar a merecer essa coroa por meio da vitória, ele a chama por muitos nomes, todos magníficos e sublimes: ora a chama árvore da vida, ora maná escondido, pedra de maravilhoso candor, nome novo, veste branca, estrela da manhã, coluna no paraíso, trono de Deus… Ânimo, pois, ó atletas de Jesus Cristo; combatei valorosamente o bom combate, apoderai-vos da vida eterna. Nenhum trabalho vos pareça longo, nenhuma fadiga vos pareça excessiva, nenhuma dor vos assuste, nenhuma provação vos desanime; e que coisa deveria assustar-vos ou desencorajar-vos, se vos esperam o céu, uma coroa imortal, um trono resplandecente de luz, a eternidade da glória, a visão e a posse de Deus e mil bens incomparáveis?
O primeiro e mais seguro meio de sermos sempre vitoriosos sobre nossos terríveis e mortais inimigos consiste em aproximarmo-nos quanto pudermos de Deus, porque então ele se aproximará de nós (Tg 4, 8). E, se o Senhor é nossa luz e nossa salvação, quem temeremos ainda? Se o Senhor é o protetor de nossa vida, quem poderá fazer-nos tremer? (Sl 26,1). E por que caminho pode o homem aproximar-se de Deus? 1° Afastando-se do demônio e resistindo-lhe. 2° Humilhando-se. «Vede grande milagre, meus irmãos, diz Santo Agostinho: Deus é infinitamente alto; contudo, se quereis elevar-vos, ele se afasta de vós; se vos abaixais, ele desce até vós (Serm. 2, de Ascens.)». 3° Purificando-se das culpas pela penitência. 4° Amando a Deus e aplicando-se às obras de caridade. 5° Rezando e dedicando-se à perfeição.
«Um duplo exército, diz Santo Agostinho, dispõe o mundo contra os soldados de Jesus Cristo: de um lado, as carícias para seduzir; de outro, os terrores e as ameaças para abater. Ah! que nossa vontade não nos sirva de obstáculo, nem nos intimide a crueldade dos outros, e o mundo será vencido (Sentent. XXI)». O Apocalipse nos mostra que o leão da tribo de Judá venceu (Ap 5,5). O leão é Jesus Cristo; vamos a este leão vitorioso do inferno, do mundo, do pecado e da justiça de seu Pai, e sairemos vencedores de todos os nossos inimigos (Ap 12,11).
Eis como fazia o Salmista nos duros embates da guerra interior e exterior, e como deles saía sempre triunfante. «Esperei em Deus; não temerei qualquer assalto que a carne me faça. Quanto aos homens, em vão se empenham em tramar a minha ruína» (Sl 55,5; 62,10). «O Senhor está comigo; não temerei absolutamente nada do que o homem me possa fazer. O Senhor me ajuda, e eu não presto atenção aos inimigos. O Senhor é minha força, minha glória e se faz meu Salvador» (Sl 115, 6-7, 14). «Ele me livrou das ciladas dos caçadores e das palavras envenenadas» (Sl 90, 3).
Outras vezes cantava: «Enquanto homens ávidos de presa se aproximam de mim para despedaçar-me, eis que de repente caem por terra. Ainda que um exército inteiro estivesse contra mim, meu coração não se atemorizaria; quando for dado o sinal da batalha, eu exultarei de alegria. Nos dias de angústia, Deus sempre me protegeu. Ele firmou meu pé sobre a rocha e elevou minha cabeça acima das hostes de meus inimigos» (Sl 26, 2-3, 5-6). «Senhor, vós destruís todos os que afligem minha alma, porque sou vosso servo» (Sl. 142, 12). «Vós me fareis vencedor de meus perseguidores; livrar-me-eis do poder do ímpio. Vós me revestistes de vigor para a luta e curvastes diante de mim meus inimigos; fizestes que fugissem, exterminastes os que me odiavam. Com vosso auxílio, eu os dispersarei como pó ao sopro do vento; pisá-los-ei como a lama da via pública. Persegui-los-ei, alcançá-los-ei e não descansarei enquanto não os tiver visto desfalecer. Eu os esmagarei, e não poderão sobreviver; cairão sob meus calcanhares» (Sl 17, 49, 38-43). Soldados de Jesus Cristo, diz o mesmo Profeta, avançai para a vitória; subi ao carro da verdade, da clemência e da justiça, e realizareis obras maravilhosas (Sl 44, 4-5). «O Deus de Israel dá a seu povo força e coragem» (Sl 67, 36). O Senhor vos cobrirá com sua sombra, e vossa esperança crescerá sob suas asas. Sua verdade será vossa armadura e vosso escudo. Não temereis nem os fantasmas noturnos, nem as flechas lançadas durante o dia, nem o contágio que se espalha na escuridão da noite, nem os assaltos do demônio meridiano… O Senhor ordenou a seus Anjos que vos acompanhem por toda parte; que vos carreguem em seus braços, para que vosso pé não tropece. Caminhareis sobre o leão e a áspide, pisareis o dragão e o basilisco (Sl 90, 4-6, 11-13).
Vós vos queixais da guerra que vos movem vossos inimigos; mas por que, ó soldado cristão, sois tão covarde e delicado? diz São João Crisóstomo: julgais poder vencer sem combate? Adestrai vossos membros, combatei com firmeza e valentia; considerai a aliança que firmastes com Deus, recordai as condições dessa aliança; reconhecei a obrigação que tendes de servir e combater (Serm. de Martyr.), e pensai que o Espírito Santo vos assegura que Deus vos protege contra os inimigos, vos defende contra os sedutores, prepara ásperas lutas e longas guerras para fazer-vos sair delas triunfante; ele jamais abandona o justo (Sb 10, 12-13).