Tesouro n.º 196 · Volume III

SOBRIEDADE SOBRIETÀ

2 seções · 7 parágrafos · pp. 2223–2226 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DA SOBRIEDADE

Se a corda de um instrumento musical está demasiado tensa, não produz som, observa São Gregório; se está demasiado frouxa, o instrumento não serve para nada. O mesmo ocorre com a virtude da sobriedade: não se pode dizer que ela se encontre onde não subjuga as paixões com todo o seu poder; esta é a primeira condição da sobriedade; mas ela é imprudentíssima e desregrada se enfraquece o corpo mais do que convém; por isso São Paulo dava a Timóteo, como recomendação higiênica, que não continuasse a beber somente água, mas usasse um pouco de vinho para alívio do estômago (1Tm 5, 23); e exortava os Romanos a que não quisessem ser mais sábios do que era necessário, mas que o fossem com sobriedade e segundo a medida do dom da fé, repartido por Deus a cada um (Rm 12, 3). É necessária sobriedade em tudo: reprovável é o excesso do zelo, dos jejuns, das mortificações e das penitências.

«Sede sóbrios e vigiai, diz São Pedro, porque o demônio, vosso inimigo, anda ao redor como leão que ruge, procurando uma presa para devorar» (1Pd 5, 8). Sem sobriedade não há nem saúde nem santidade… Usar das coisas com temperança, com sobriedade, isto basta àquele que deve morrer. «É preciso servir-se das coisas temporais mais por necessidade do que por gosto, diz Santo Agostinho, para que mereçamos gozar das eternas!» (Confess.). Um cristão deve fazer sua aquela sentença de Sócrates: «Há quem viva para comer; eu como para viver!» (Prov.).

«O princípio da vida do homem é a água, o pão e o vestuário», lemos no Eclesiástico (Eclo 29, 28). Por isso São Paulo quer que, tendo nós o que comer e vestir, nos demos por satisfeitos (1Tm 6, 8). São Bernardo, escrevendo a Roberto, dizia-lhe: «O sal e o apetite bastam como acompanhamento para quem vive sobriamente. Vai à mesa como se fosses à cruz, isto é, toma o alimento por necessidade, não por prazer; e que a fome, não a gula, te conduza. Não alimentes a tua carne para os vermes e, ao comer, regula-te de modo que conserves sempre ainda alguma fome!». O grande Apóstolo dizia aos Tessalonicenses: «Nós, que somos filhos do dia, vivamos sobriamente!» (1Ts 5, 8); a Tito impunha o dever de ordenar aos anciãos, não menos que às mulheres e aos jovens, que fossem sóbrios (Tt 2, 3-6). José, na corte do Faraó, não comia senão pão (Gn 39,6). Olhai para Judite…, Daniel e seus companheiros no cativeiro…, olhai para os anacoretas, os solitários, as ordens religiosas e todos os Santos de todas as épocas: uma severa sobriedade sempre vigorou entre eles.

2. VANTAGENS DA SOBRIEDADE

A experiência confirma a sentença de Orígenes, que chama a sobriedade de mãe de todas as virtudes e a intemperança no comer e no beber de fomento de todos os vícios (Homil. 3, in Levit.). A sobriedade é a mãe da sabedoria, a coluna da força, a couraça da pureza, a guia dos olhos, a guardiã da boa vontade e da benevolência, a circuncisão dos pensamentos e dos desejos perversos, a morte da luxúria, a harmonia do corpo e da alma; impede as revoltas e as paixões vergonhosas e degradantes; conserva a continência e até mesmo a beleza dos traços; suaviza e governa o coração; regula as orações, as confissões, os votos, o zelo, as austeridades… A gula e a intemperança são o reverso da medalha… Interrogado Platão sobre onde havia haurido tanta sabedoria, respondeu: Na sobriedade; pois consumi mais óleo na lâmpada do que vinho no copo (1). Com a sobriedade, economiza-se aquilo com que se podem fazer esmolas aos pobres… Ao sóbrio é fácil fazer qualquer sacrifício, renunciar ao mundo, à carne, a si mesmo, triunfar de todas as provações, tentações e paixões.

A sobriedade é utilíssima: 1º, para a saúde: previne mil enfermidades; mantém afastada uma velhice precoce e cheia de achaques; prolonga e torna alegre a vida. 2º, conserva a castidade e as virtudes que a acompanham; extingue o fogo da concupiscência; modera os apetites da carne. 3º, conduz naturalmente à ciência, ao amor do estudo e do trabalho; impede o peso da mente, facilita as vigílias, abre a inteligência… Moisés, Elias, Judite, Ester, os Macabeus, os Profetas, os Apóstolos, os Mártires, todos os Santos que realizaram coisas tão grandes foram sóbrios; na sobriedade hauriram a aptidão e a força para tantas ações heroicas… Neles vemos viva a pintura que o venerável Beda nos traçou das admiráveis qualidades da sobriedade: «A sobriedade conserva a memória, aguça os sentidos, serena a mente; governa o rosto; mantém íntegro o pudor; rompe o ímpeto das tendências viciosas; dá perspicácia aos olhos, delicadeza aos ouvidos; torna livre o cérebro, desembaraçada a língua, claro o discurso; leva o alimento até mesmo à medula dos ossos, purifica o sangue e o faz circular nas veias, fortalece os nervos; despreza e domina a paixão, proporciona sono doce e tranquilo, prolonga uma velhice saudável; abre os mistérios, fortalece e firma o homem! (2)».

«O vinho bebido a seu tempo e lugar e com sobriedade revigora o estômago fraco, diz São João Crisóstomo, restaura as forças abatidas, aquece os membros entorpecidos, cura as feridas, expulsa a melancolia, destrói os langores da alma, espalha a alegria, dá aos convivas uma jovialidade honesta e agradável; mas, tragado sem moderação, com pouca sobriedade, transforma-se em veneno para a alma e para o corpo» (Homil. ad pop.). «Quanto pouco vinho basta ao homem sensato! exclama o Sábio; não perturba o sono, preserva das dores. O homem sóbrio desfruta de um sono benéfico e reparador. Ao contrário, o intemperante sofrerá insônias, vômitos e tormentos das entranhas» (Eclo 31,22-23).

A água vivifica os sentidos, torna a alma livre, o espírito límpido e penetrante; modera o calor, acalma a sede, acelera a digestão… A sobriedade é, pois, a mãe da saúde, de uma vida longa e feliz, da pureza, da modéstia, da sabedoria, da santidade, da paz, da tranquilidade e de uma boa morte; é a segurança da saúde…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.