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Criacionismo

Criacionismo

Posição sintética entre o panteísmo e o dualismo. Afirma que todas as coisas foram e são criadas por um ser todo poderoso. Criar é um conceito, cujo esclarecimento não está isento de certas dificuldades. Mas, para os criacionistas, tem um sentido restrito e definido: criar é produzir uma coisa nova, que totalmente ainda não era. O criar que conhecemos no mundo do existir é apenas dar uma ordem nova a elementos dispersos, que se estruturam numa forma nova, como a imaginação criadora, na psicologia, que é a estruturação nova dada a um conjunto de imagens. A figura tem um conteúdo extensistamente considerado, conteúdo quantitativo, enquanto a estrutura formal, o número, pitagoricamente considerado arithmos, esquematiza algo novo. Há, aí, um criar, mas esse é apenas a atualização de uma possibilidade já contida nos elementos componentes, a qual se atualiza.

Muitos consideram criação a transformação de coisas preexistentes que recebem nova forma. Essa forma de criação é o que os escolásticos chamavam de creatio ex nihilo sui non subjecti como a criação do artista, por exemplo, pois neste caso a coisa criada não o é substancialmente criada, mas apenas uma nova disposição dos acidentes. A criação, sem a presença de elementos preexistentes, que os escolásticos chamavam de creatio ex nihilo sui et subjecti, que é a verdadeira criação, implica não só a ordenação dos acidentes, mas a positivação da própria substância, é uma criação substancial, enquanto a primeira é apenas acidental.

Na creatio ex nihilo, a matéria não é preexistente, modelada pelo criador, o que levaria à posição dualista. O ato criador precede à criatura. Spinoza para evitar a dificuldade que surge aqui de uma anterioridade de Deus e de uma posterioridade da matéria criada ex nihilo, definia a criação da seguinte maneira: A criação é uma operação à qual não concorrem outras causas que a eficiente, isto é, que uma coisa criada é uma coisa que, para existir, não supõe antes dela senão Deus. Os seres finitos têm, assim, Deus como causa de sua criação. Não são uma emanação de Deus, como o pretendem os panteístas, pois só há emanação quando há decorrência do poder criador, que é algo da criatura. O criador, portanto, ao criar, não tira de si a criatura, mas cria-a simplesmente.

Todas as aporias em que se colocam o dualismo e o panteísmo provocaram a formação da concepção criacionista. O panteísmo leva-nos à aporia da emanação e, consequentemente, ao problema do mal, ao problema da imperfeição. O dualismo leva-nos à aceitação de um ser separado. Ora Deus é fonte do ser; portanto o ser criado só pode ser subsistente em Deus, que é o único ser que é a se, que tem aseidade. É a criatura uma realidade distinta da realidade de Deus, mas é nesta que encontra a sua subsistência.

Mas surgem, no entanto, muitos problemas ao dar-se a aceitação desta posição, cujas aporias passamos a examinar.

O criacionismo oferece um "impasse" para a inteligibilidade. Se a razão, em sua última providência abstratora, alcança o nada, não pode, por sua vez, compreender como o nada se concretizaria, de modo a dar surgimento a algo, ou como dele seria possível extrair alguma coisa, pois de zero (e este é o argumento mais caro dos ateus) como poderia sair o alguma coisa? Desta forma, a tese criacionista é ininteligível. As concepções criacionistas, por exemplo, na paleontologia, não podem deixar de aceitar que há uma solidariedade com o passado de todos os seres vivos para que se possa compreender o surgimento de uma nova espécie. Não se pode aceitar aqui uma exceção, pois do contrário ter-se-ia de admitir uma creatio ex nihilo o que é absurdo, afirmam os opositores do criacionismo.

Contudo, retrucam os criacionistas: se o mundo é feito ex nihilo, não foi precedido por um nada absoluto, mas sim pelo Criador, Deus, que é ser absoluto. O nada é criatural e não do ser. Se a criação é ininteligível, por ser impensável, dizem, também o é a potência, a causalidade, etc. A deficiência da nossa razão não pode ser um argumento definitivo; se não podemos aceitar o criacionismo, considerando o existente como causa eficiente, tal não implicaria nenhum absurdo, quando compreendemos, na ideia de Deus, um poder absoluto, que ultrapassa totalmente as nossas possibilidades pensamentais, pois de Deus só podemos, quando muito, construir ideias analógicas, e não captá-lo em toda a sua imensidade, o que nos tornaria, neste caso, iguais a ele. É a prova da nossa finitude e, portanto, a afirmativa da infinitude, essa mesma impossibilidade de intelecção. Por não podermos compreender é que o "incompreensível" se afirma, pois como compreender, como prender, com os nossos esquemas, o que ultrapassa a toda esquematização, a toda limitação?

Objetam, porém, os adversários que a admissão da criação implicaria um antes e um depois. E sendo Deus infinito, nesse antes não teria criado, não teria sido ativo, para o ser depois, o que implicaria, automaticamente, no antes, uma possibilidade de criar, que só se atualizaria depois. Ora se em Deus havia possibilidades, não era totalmente ato, isto é, ato puro, o que implicaria numa limitação e, portanto, a negação da sua infinitude.

Mas os defensores do criacionismo alegam que a aceitação de uma criação ab aeterno resolveria facilmente a dificuldade oferecida pela objeção, pois Deus cria coeternamente, e antecede, axiológica e não cronologicamente, à criatura. A criação é atividade de Deus e não há precedência cronológica qualquer, porque o tempo implica a criação. É ela coeterna com o ato de criar, mas por dignidade e valor, o poder de Seus a antecede. O tempo só tem realidade para nós, e ante a eternidade ele se esfuma. O ato criador é eterno como essência divina. Os efeitos, que são exteriores a esse ato, situam-se no tempo, porque sucedem, acontecem, mudam. Deus não sucede nem acontece; Deus é. Assim o mundo é ab alio, tem abaliedade, vem de outro, de Deus, que é a sua origem, não por emanação, mas por criação.

Esta tese, porém, encontra também seus objetores, pois desta forma cairíamos no panteísmo. Se as criaturas não têm um ser próprio, elas o tem de Deus, que lhes dá subsistência e razão de ser, pois desde o momento que faltasse esse apoio, o que é existencialmente como sistência prefixada, o mundo do criado, o cosmos deixaria, automaticamente, de ser. Portanto, o ser do mundo é Deus, afirmam os objetores. A criação contínua de Deus leva-nos a esta nova aporia, pois a coloca no campo do panteísmo.

Mas respondem os criacionistas: essa tese não procede, porque ela peca de saída, pois funda-se na univocidade do ser, e o ser não é unívoco, mas análogo. O ser da criatura é um ser participado, e a criação é a continuação dessa participação. O ser criado é um em si, não porém o é por si.

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