Criação desde todo o sempre
(criação desde todo o sempre) – Na concepção criacionista, a potência ativa do Ser Supremo, em sua operatio (operação), implica a potência infinita da determinabilidade. E sem dúvida, e com rigor ontológico, pois podendo o Ser Supremo realizar tudo quanto pode ser, tudo (quanto não é intrinsecamente contraditório) é possível de ser realizado. A potência infinita ativa, o poder sem limites e sem dependência de poder atuar, criando, exige uma determinabilidade correspondente, já que o fazer é, ao mesmo tempo, o fazer-se, porque se se faz algo, algo é feito; quando se atua, algo é atuado. Corresponde, assim, a infinita potência passiva à infinita potência ativa. A infinita potência passiva é, pois, ingenerável e incorruptível. É ingenerável, porque é do poder de atuar do Ser Supremo, e incorruptível porque se a infinita potência passiva se corrompesse, tornar-se-ia outra, contrário ao que é e, neste caso, seria uma resistência ao poder do Ser Supremo, o que ofenderia as teses criacionistas. Consequentemente, é ela ingenerável e incorruptível. E ainda o é mais, porque o que é corruptível vem de seu contrário, como o demonstrou Aristóteles, e a potência passiva infinita não tem o seu contrário na infinita potência ativa, como poderia parecer à primeira vista, pois, como poderia haver a infinita potência ativa sem a infinita potência passiva?
Se o racionalismo encontra aqui dificuldades insuperáveis, pela oposição formal dos conceitos, não o encontra a dialética ontológica da filosofia concreta, porque a infinita potência passiva não é a privação da infinita potência ativa. A afirmação de uma exige a outra, pois como haver uma infinita potência passiva sem uma infinita potência ativa, e vice-versa? A presença ontológica de uma implica, necessariamente, a outra e, onticamente, a presença de uma exige a presença da outra.
Ante as dificuldades teóricas, que surgem sobre este tema, podemos examinar o pensamento de Tomás de Aquino reproduzindo as suas palavras para depois voltarmos aos nossos argumentos dialético-concretos. São Tomás observa (Summa Theologica I – A. 46, A.1):
"Parece que o conjunto das criaturas, o que entendemos hoje por mundo, não começou a existir, mas existiu ab aeterno. Tudo o que começou a existir, antes de existir, já tinha possibilidade de existir, porque de outro modo, seria impossível que existisse. Se, pois, o mundo começou a existir, era possível que existisse antes de existir. Pois bem, o que tem possibilidade de existir é a matéria, que está em potência para existir pela forma e para não existir, pela privação da mesma. Logo, se o mundo começou a existir, antes dele havia matéria. Mas a matéria não pode dar-se sem alguma forma, e a matéria do mundo, junto com alguma forma, constitui o mundo. Logo haveria mundo antes de que este começasse a existir, o qual é uma contradição".
Segunda dificuldade: "Nenhum ser, com potência para existir sempre, pode existir e não existir alternativamente, porque, naturalmente, cada ser existe tanto quanto pode. Mas todo incorruptível tem potência para ser sempre, pois não a tem determinada a um tempo limitado de duração. Logo, nada incorruptível é e não é alternativamente. Por outra parte, tudo o que começa a ser, às vezes é, e às vezes não é; logo, nada incorruptível começa a ser". Ora, havendo pois, coisas incorruptíveis no mundo, este nunca começou a existir, porque nada ingênito começa a existir. E se a matéria é ingênita também o mundo nunca começou a existir, e existe, pois, ab aeterno, desde a eternidade, embora sempre heterogêneo em seus aspectos secundários, mas sempre ele mesmo em seu hipokeimenon, em sua última substância e suporte. É o que levaria a alcançar, se nos colocamos dentro dessas dificuldades, aceitando-as.
Contudo, Tomás de Aquino procura responder com soluções dialéticas:
1) "O vazio é um lugar onde não há nenhum corpo, mas pode tê-lo. Mas, se o mundo começou a existir, onde está agora a massa do mundo não havia corpo algum e, não obstante, podia tê-lo; de outro modo, não o teria tampouco agora. Por conseguinte, havia vazio antes do mundo, o que é impossível".
2) "Nada começa a mover-se de novo sem alguma mudança do motor ou do móvel. Mas o que muda se move. Logo, antes de todo movimento, que começa de novo, havia algum movimento e, portanto, sempre houve movimento. Logo, sempre houve também móvel, porque não é possível movimento sem móvel".
3) "O que está sempre no começo e sempre no fim, não pode nem começar nem cessar; porque o que começa não está em seu término, e o que cessa não está em seu começo. Mas o tempo está sempre em seu princípio e em seu fim, porque não há mais tempo que o momento presente, que é o fim do passado e começo do futuro. Logo, o tempo não pode nem começar nem cessar, e portanto tampouco pode o movimento, cuja numeração é o tempo".
4) "Deus é anterior ao mundo, ou com prioridade de natureza somente, ou com prioridade de duração. Se é o primeiro, sendo Deus eterno, também o será o mundo; se o segundo, o antes e o depois, em razão de duração, constituem o tempo; logo houve o tempo antes de existir o mundo, o que é inadmissível".
5) "Posta a causa eficiente, põe-se o efeito; porque uma causa, à qual não se segue o efeito, é uma causa imperfeita, que necessita algo para que decorra o efeito. Pois bem, Deus é causa eficiente do mundo: causa final suficiente, por razão de sua bondade; causa exemplar suficiente, por razão de sua sabedoria, e causa efetiva suficiente, por razão de seu poder, como está claro pelo que foi dito anteriormente. Logo, existindo Deus ab aeterno, também o mundo existiu ab aeterno. Aquele, cuja ação é eterna, também seu efeito é eterno. Mas a ação de Deus é sua mesma substância, que é eterna. Logo, o mundo é também eterno".
É, contudo, de fé que o mundo teve um princípio, o que exige o esforço dialético de Tomás de Aquino para responder a essa dificuldade:
"Não é necessário que haja existido algo ab aeterno, exceto Deus. Afirmar isto não implica nenhuma contradição. Demonstrou-se, com efeito, que a vontade de Deus é a causa das coisas. Logo, uma coisa será necessária quanto é necessário que Deus a queira, já que a necessidade do efeito provém da necessidade de sua causa, segundo diz Aristóteles. Do mesmo modo se demonstrou que, falando em absoluto, não é necessário que Deus queira algo, exceto a si mesmo; não é, pois, necessário que Deus tenha querido que o mundo haja existido sempre, mas que o mundo exista enquanto Deus quer que exista, porque a existência do mundo depende da vontade de Deus como de sua causa. Logo, não é necessário que o mundo haja existido sempre e, portanto, tampouco se pode demonstrar sua existência eterna".
Conclui Tomás de Aquino que a existência ou não ab aeterno do mundo não entranha contradição, pois tanto poderia ser como não ser, sem que a aceitação de um ou de outro repugnasse ao espírito humano. Ora, sem dúvida se vê, que ele se coloca numa posição em que logicamente parece-lhe que tanto uma como outra hipótese podem ser verdadeiras. Mas serão ambas verdadeiras como diz? Serão possibilidades igualmente válidas? Não haverá, numa ou noutra, maior ou menor validez? Examinando os argumentos de Aristóteles, ele conclui por afirmar: "O próprio Aristóteles afirma expressamente que há certos problemas dialéticos sobre os quais não temos provas demonstrativas e entre estes menciona o problema de se o mundo é eterno". A concepção de Aristóteles sobre a eternidade é um tanto decepcionante. O eterno, aqui, é o que dura perenemente, o que perdura através do tempo, não tendo tido um antes de ser, mas tendo sido sempre. Neste caso, o tempo de tal mundo se identificaria com a eternidade. A eternidade é tota simul, e é intensistamente em si mesma. Não é algo que sucede, é algo que apenas e simplesmente é. Ora, o tempo é, no mundo, algo que sucede, algo que transcorre, mas perdura através das transcorrências. O tempo é uma pálida imitação da eternidade, e não é ela. Se o tempo não é a eternidade, o afirmar que o mundo se dá num tempo que não teve princípio nem terá fim, ainda não se afirma que ele é eterno dentro da estrutura ontológica desse conceito, mas apenas do modo simplesmente analógico. Assim sendo, consideremos tal expressão analógica uma atitude que está certa em face do que já foi examinado.
Mas há outros reparos a serem feitos; porém, para que sejam eles profícuos, impõe-se primeiramente examinar o resto da argumentação de Tomás de Aquino.
"Antes que o mundo existisse era possível sua existência; mas esta possibilidade não se fundava em alguma potência passiva, qual é a matéria, mas na potência ativa de Deus, e na potência lógica ou objetiva, que não é nenhuma potência real, mas a mera relação de dois termos, que não se excluem entre si, no sentido em que se opõe o possível ao impossível, segundo consta pelo Filósofo".
"O que tem potência para existir sempre, não é possível que exista às vezes e às vezes não exista desde que tem tal potência; contudo, antes de tê-la não existia. De modo que esta razão, aduzida por Aristóteles, não prova absolutamente que os seres incorruptíveis não tenham começado a existir, nem que não tenham podido começar a existir, mas sim que não começaram a existir pelo modo natural como começam os seres generáveis e corruptíveis".
"Aristóteles prova que a matéria é ingênita, porque não tem sujeito de que se faça".
"Para o conceito completo de vazio não basta que não haja nada; requer-se um espaço capaz de conter algum corpo sem contê-lo de fato, segundo consta por Aristóteles. Pois bem, nós dizemos que antes do mundo, não havia nenhum lugar nem espaço". O espaço seria apenas imaginário, como o que podemos imaginar agora, desde que dele retiramos, pela nossa mente, todas as coisas. Esse espaço não tem nenhuma realidade, pois é apenas imaginário.
"O primeiro motor permaneceu sempre imutável; não assim o primeiro móvel, que começou a existir, depois de não haver existido. Contudo, não se verificou isto por mutação, mas por criação, que não é verdadeira mutação, como se disse. É, pois, evidente que o raciocínio de Aristóteles dirige-se contra os que supunham coisas eternas movíveis, sem admitir movimento eterno, como era o caso de Anaxágoras e Empédocles. Mas nós afirmamos que, desde que começaram os seres móveis, houve sempre movimento".
"O primeiro agente é um agente voluntário e, embora haja tido eternamente a vontade de produzir algum efeito, nem por isso produziu efeito algum eterno, E não é necessário supor mudança alguma, nem sequer em relação à representação do tempo; porque é preciso conceber de distinto modo o agente particular, que pressupõe sempre algo ao causar qualquer coisa, e o agente universal, que o produz totalmente. Como o agente particular produz a forma e pressupõe a matéria, necessariamente aplica a forma com proporção à matéria determinada; pelo qual, com razão, se supõe que aplica a forma a tal matéria e não a outra, em virtude da diferença que há entre matéria e matéria. Mas não há razão para supor isto mesmo no agente, que produz, simultaneamente, a forma e a matéria; ao contrário, neste se deve supor, razoavelmente, que ele mesmo produza a matéria com adaptação à forma e ao fim. O agente particular supõe o tempo, como supõe a matéria; pelo qual se deve atender que tal agente opera no tempo posterior e não no anterior, segundo a representação de sucessão entre tempo e tempo. Mas a respeito do agente universal que produz o ser e o tempo, não se pode supor que opere agora e não antes, segundo a imaginação de um tempo após outro, como supondo algum tempo anterior à sua ação; mas que é preciso pensar que ele mesmo deu tempo a seu efeito, enquanto quis, e segundo era conveniente para manifestar o seu poder. Pois bem, a maneira mais manifesta conduz ao conhecimento do poder divino criador, que preferentemente o mundo não haja existido sempre que o contrário; porque é evidente que tudo o que não existiu sempre teve causa e, ao contrário, não é isto tão manifesto do que existiu sempre. Como diz Aristóteles, no tempo há antes e depois, do mesmo modo que no movimento, e portanto o princípio e o fim é preciso concebê-los também no tempo, como no movimento. Pois bem, suposta a eternidade do movimento, necessariamente cada momento que se tome dele é princípio e fim do mesmo; não há, porém, necessidade se se supõe que o movimento começa. E o mesmo se deve dizer quanto ao tempo. É, pois, evidente que o conceito de um instante presente que seja sempre princípio e fim do tempo pressupõe a eternidade do tempo e do movimento. O próprio Aristóteles aduz este argumento contra aqueles que afirmavam a eternidade do tempo e negavam a do movimento".
Comentando esta passagem diz a nota 29 (Summa Theologica): "Se o tempo fosse eterno, todos os seus instantes seriam ao mesmo tempo término do instante precedente e princípio do seguinte; se não é eterno, o primeiro instante é só princípio do seguinte, e o último é só término do anterior, sendo todos os outros instantes término e princípio ao mesmo tempo".
Prossegue Tomás de Aquino respondendo às últimas objeções:
"Deus é anterior ao mundo em duração; mas esta prioridade de duração não é prioridade de tempo, mas de eternidade. Ou, então, pode dizer-se que a prioridade se entende a respeito de uma eternidade de tempo imaginário, e não existente na realidade; como dizer que sobre o céu não há nada, entende-se pela palavra sobre um lugar somente imaginário, enquanto é possível imaginar que às dimensões dos corpos celestes se acrescentam outras. Do modo como o efeito segue a causa, que opera naturalmente de conformidade com sua forma, assim o efeito da causa, que opera pela vontade, segue-se dela conforme à forma preconcebida e determinada por esta causa como se disse anteriormente. Portanto, embora Deus tenha sido, desde toda eternidade, causa eficiente do mundo, não é necessário supor que o mundo tenha sido produzido por Deus, senão em conformidade com o que predeterminou sua vontade, isto é, que o mundo recebera a existência depois de não ter existido, para que assim evocasse, de uma maneira mais patente, o seu autor. Posta a ação, segue-se o efeito, mas em conformidade com a natureza da forma, que é princípio da ação. Nos agentes voluntários porém, o que foi preconcebido e determinado toma-se como forma, que é princípio da ação. Da ação eterna de Deus não se segue, por conseguinte, o efeito eterno, mas tal qual Deus o quis, a saber, que tenha o ser depois do não ser".
Ora, o Ser Supremo é eterno, pois é puro ato. Seu operar ad extra surge em sua eternidade. Não há nela um antes nem um depois. A operatio do Ser Supremo é ele mesmo, idêntica a ele mesmo. Ora, pela fé cristã, a criação teve um princípio. Mas revela Tomás de Aquino que não há nenhuma contradição se a criação é ab aeterno ou não, isto é, se teve um princípio. Essa é a resposta da filosofia, que em nada ofende a fé, pois ademais há a favor desse princípio razões diversas, que passaremos a expor a seguir, e que foram manejadas pelos escolásticos, através das grandes discussões que este tema suscitou. É questão de fé, para a escolástica, que o mundo não tenha existido sempre; ou melhor, que a criação não seja ab aeterno. Reconhece, ademais, Tomás de Aquino que não é possível provar apoditicamente que uma vez tenha começado a ser. E a razão está que o começo do mundo não pode ter uma demonstração tomada da natureza da própria criação. E Duns Scot justifica a sua posição que, neste ponto, é idêntica à de Tomás de Aquino, porque jamais encontraremos uma razão necessária para justificar a priori um ato contingente. Por outro lado, uma coisa considerada em sua espécie, e enquanto tal, não se pode dizer que não tenha existido sempre, pois o que é ou pode vir-a-ser, de certo modo, já é na ordem do Ser, pois, do contrário, viria do nada, o que é absurdo.
A grande dificuldade que surge para a aceitação de uma criação ab aeterno provém do seguinte dilema: ou o Ser Supremo criou livremente ou criou por necessidade. A criação só poderia ser livre, pois já está demonstrado que aquele é absolutamente livre. Seu ato criador é, pois, absolutamente livre. Se, por necessidade, importaria um exame rigoroso. Se entendemos que essa necessidade é de natureza, que o Ser Supremo é forçado a criar por ser infinito, nesse caso não lhe restaria o poder não-criar, o que o tornaria não-livre. Mas cremos haver aqui ante os escolásticos uma dificuldade, que nos parece ser facilmente resolúvel, fundando-nos em argumentos apodíticos. Não se pode atribuir a criação à necessidade. Mas impõe-se examinar o que se entende ontologicamente por tal. Uma criação ab aeterno duraria uma duração infinita a parte ante, ou seja, jamais haveria o primeiro dia (tomado aqui em sentido simbólico). Não se encontra o nexo de necessidade para a criação ab aeterno, partindo do contingente, que é a criatura, pois esta depende de outro, e da parte do Ser Supremo essa necessidade seria a afirmação da carência da liberdade nas ações ad extra, o que é absurdo. A única necessidade encontrada é a da criatura que necessariamente, para ser, pois é um ser dependente, exige o ser que lhe dá o ser. A necessidade está na criatura, não no criador. Ademais é tese já demonstrada que a ação transitiva não muda o agente enquanto tal. A criatura, por ser necessariamente dependente, implicaria a necessidade do ato criador, do Ser Supremo operar ad extra, realizando a criação. Não procedem os argumentos de que o Ser Supremo, ao criar, sofre uma mutação, e como não pode sofrê-la, a criação deve ter sido ab aeterno, porque se trata de uma potência ativa e não passiva, pois é da sua essência o ato puro. Ademais não caberia também a alegação, dizem os escolásticos, de que sendo a sua essência ativa, tem de criar sempre. O ativo é entitativo e não terminativo. Ademais a ação eterna é imanente, e essa é eterna, não a transitiva. Aquela é da essência do Ser Supremo, é o próprio Ser Supremo.
Resta saber se, para a escolástica, é a criação ab aeterno possível. Ora, vimos que para Tomás de Aquino ela o é, sob o ângulo filosófico. Vasquez e também muitos tomistas aceitam essa possibilidade. Entre os que a julgam impossível encontramos Billot, Tongiogi, São Boaventura, Sylvester Maurus, Alberto Magno, Henricus Gandavensis, Toledo, Valentia e muitos outros. Para Suarez e os suarezistas é esta a tese que deve ser mantida. E entre os principais argumentos temos: É impossível a criação ab aeterno das coisas sucessivas, porque teríamos um número infinito quantitativo das coisas seriadas, o que é absurdo. Esse infinito quantitativo seria o infinito numérico, porque a alegação contra essa tese, de que haveria um infinito quantitativo atual não procede, pois esse infinito quantitativo não seria atual, já que o passado não é atual. O passado não existe em ato. E assim como podemos admitir um infinito quantitativo potencial a parte post, pois sempre há um outro dia após outro dia, pode-se conceber um infinito quantitativo potencial a parte ante um dia antes de outro dia, ou em linguagem menos simbólica, um agora depois de um agora, e um agora que já foi, que antecedeu a outro agora. Ao que foi e deixou de ser, sendo sempre o que era, chamamos de infinito potencial epimeteico, e ao que é deixando de ser sendo o que é, para ser o que ainda não é, constitui o infinito potencial prometêico. Ora, tal infinito quantitativo potencial epimeteico é tão possível quanto o outro. Se o primeiro não é alcançável jamais, também não é o segundo. E não se diga, para argumentar contra, que havendo um início, o dia um, haveria um número limitado de dias, porque a análise matemática nos mostra que poderíamos dividir esses dias em agoras, e jamais atingiríamos a um tempo que não fosse matematicamente divisível. Estas são as razões apresentadas por alguns tomistas em defesa da tese da ab-aeternalitas, que julgam perfeitamente justificável. Assim um dia reduzido a instantes teria um número quantitativo potencialmente infinito. O argumento contra a criação ab aeterno parece assim frágil.
Na matemática pitagórica a criação, como tal, é um número. Mas quantitativamente qualquer quantidade pode ser reduzida sempre a um número quantitativo potencialmente infinito. Já o não pode quanto à matemática qualitativa, porque o número qualitativo não se presta à divisão. As qualidades revelam graus, e se esses graus são contáveis, de modo a atingir um infinito potencial quantitativo, não o é a espécie, dos quais os graus são graus. Na matemática aplicada aos eide, às espécies, já essas são perfeições absolutas, pois os graus que as coisas revelam de participação da perfeição absoluta, permitem uma medida com aquela, mas aquela é sempre a unidade de medida, o que não se verifica na quantitativa porque nesta a medida é um minimum de quantidade, enquanto naquela é um maximum. A criação assim uma, mas potencialmente infinita na heterogeneidade dos graus e dos modos de ser dos entes diversos. Desse modo, o infinito quantitativo potencial a parte ante não é um absurdo, e fica perfeitamente clareada a sua aceitação, prosseguem argumentando os defensores da tese.
É preciso que entendamos bem o conceito de ab aeterno, usado pelos escolásticos. Já vimos que significa que a criação dura de duração infinita a parte ante. Na concepção da criação ab aeterno, entende-se que a emanação da coisa criada parte de Deus, por Deus ser Deus, ou em outras palavras: não há nenhuma prioridade do tempo entre Deus e o efeito criacional. O nada precedeu a criação, mas apenas indica que esse nada era nada do que existe agora; isto é, o que existe agora tem a sua razão de ser em Deus e antes de ser o que é, era nada do que é agora. Antes da criação não havia algo que pudesse ser informado por Deus para tornar-se a criatura. Mas esse antes não é um antes temporal, pois antes de haver a criação não havia o tempo. Falar aqui de um antes, não é falar de um antes temporal real, mas apenas imaginário. A antecedência ontológica, axiológica e divina de Deus na criação, concebida desse modo, está perfeitamente salva, para os defensores desta tese.
Resta agora saber se admitindo a criação ab aeterno e, portanto, como algo que emana da operação divina criadora, dele emana por necessidade de sua natureza ou não; em suma, se a criação é necessária ou contingente. E se a aceitação de que a criação é necessária ofende ou não a liberdade de Deus. Para a escolástica, a solução é uma só: a criação é contingente, pois ofenderia a liberdade divina. A ideia de necessidade implica o que não pode ser de outra maneira, o que inevitavelmente tem de ser, e seu oposto contraditório é o impossível, o que de modo algum pode ser. Mas assim como a impossibilidade pode ser relativa, também o pode ser a necessidade, pois pode-se falar na impossibilidade disto ou daquilo, aqui e agora, sem que haja a impossibilidade total de ser isto ou aquilo, ali ou depois. Se a macieira é impossível no Sol, não o é em nosso planeta. Essa impossibilidade é condicionada. Assim também a necessidade pode ser relativa, quando condicionada a coordenadas, sem as quais perderia a sua inevitabilidade. Desta forma, a necessidade absoluta seria incondicionada, também incondicionada seria a impossibilidade absoluta. O nada absoluto é incondicionadamente impossível, enquanto o Ser é incondicionadamente necessário, pois é incondicionadamente necessário que alguma coisa exista. A necessidade absoluta é chamada de metafísica e funda-se nas relações de essências que se incluem ou se exigem reciprocamente. Se há criador, há criatura. Mas o nexo de necessidade liga a criatura ao criador, pois aquela exige, necessariamente, este e não inversamente, pois Deus pode criar, porém não seria necessário absolutamente que criasse.
É precisamente aqui que surge a aporia que atravessa o tempo, e que exige sempre o maior cuidado por parte dos filósofos. Criou Deus por necessidade de sua natureza? Não é por ser ele infinitamente poderoso que podia criar? Por ser infinitamente poderoso ele cria. A ordem é evidente, mas não o é a de que ele crie necessariamente, porque é infinitamente poderoso. Deus, não criando, nada perde de seu infinito poder, pois a criação é uma emanatio, uma ação transitiva, não significando a sua ausência nenhuma negação à sua infinita potencialidade ativa, assim para não movermos este objeto agora não implica absolutamente nenhuma diminuição na nossa potencialidade ativa de poder movê-lo. Mas a comparação poderia ser julgada falha, porque há uma infinita distância entre criar, entre criação divina e o ato de mover ou do criar humano, que se realiza através da ordenação de elementos já existentes, que antecedem à criação. Naquele não há tal. O ato criador é só de Deus, é necessariamente só de Deus, só ele pode criar. Ontologicamente a ideia de criação exige, necessariamente, o ser infinitamente poderoso. A criação não pode ter outra causa. Mas, por ser Deus infinitamente poderoso, deve inevitavelmente criar? Não poderia permanecer apenas como Deus, sem criar?
Em face dos argumentos, jogados logicamente, a tese de que a criação é um possível, que a potência ativa de Deus livremente torna real, é absolutamente segura. É rigorosamente lógica. Mas o será rigorosamente ontológica? A pergunta não é descabida; impõe-se e exige resposta. Temos de respondê-la dentro das nossas possibilidades. A ação transitiva é aquela que faz, porque pode fazer. Se faz, é porque pode e, se pode fazer, faz, e o fez. Decorre necessariamente do Ser Supremo o infinito poder de fazer. É da essência do Ser Supremo a infinita potência de operar. Esta necessariamente decorre daquela. Ora a criação só pode surgir de uma ação transitiva, diz-se, de uma emanação ad extra, e não contradiz o Ser Supremo. Necessariamente, portanto, a criação é um possível que lhe pertence. Só o Ser Supremo poderia criar, e só há criação se partir dele. O poder criar dele é ato, está fundado em seu infinito poder. Se não criasse, permaneceria em eternidade apenas no ato de si mesmo. Mas essa eternidade não é tempo. O tempo só surge com a criação. E se o tempo só surge com a criação, não há necessidade do dia um. Um antes, aqui, um antes temporal, é apenas imaginário e não real. Portanto se a criação é dependente, ela pode ser ab aeterno, sem modificar em nada o Ser Supremo, que permanece, na eternidade, o que é. Se ele necessariamente cria, essa necessidade deve ser compreendida dentro da eternidade. Para absolutamente criar é necessário ser absolutamente infinito, onipotente. Um nexo de necessidade antes é absurdo, porque não há o antes. A pergunta, portanto, de se Deus cria por necessidade de natureza é falsa, é uma pseudo-pergunta, porque não tem sentido. O nexo que procuraríamos seria o mesmo que procurarmos nas coisas finitas e finitamente potentes. Nele não o poderemos encontrar, porque sendo eterno e onipotente, não há um antes entre Deus e a criação. A criação começa quando começa, isto é, só há começo onde há finitude; no infinito onipotente não se pode falar em começo, nem em contingência, porque necessidade ou contingência surgem como opostos nas coisas finitas. A necessidade é revelada no dependente. A criação exige necessariamente o Ser Supremo, mas essa necessidade é da criatura não daquele. A única necessidade do Ser Supremo é a de existir, e é a simpliciter. A da criatura é a necessidade hipotética relativa. Para que a criatura exista é necessário o criador. Aqui a necessidade é hipotética. Porque existe o Ser Supremo deve existir a criatura, e para dizer-se tal, ter-se-ia de admitir que sem a criatura o Ser Supremo não seria. Neste caso, a necessidade dele seria hipotética e não simpliciter, o que seria absurdo. Não se pode inverter a ordem. Há necessidade, para que algo finito (criatura) seja, haver o ser infinito onipotente, que é necessário por isso, que não pode não ser para que alguma coisa seja, porém não se pode inverter o nexo de necessidade, porque da parte de Deus não há antes ou depois, há o eterno, e o eterno não permite a prioridade disto àquilo. Assim, no Ser Supremo, os atributos não têm prioridade real, mas apenas a prioridade que nós captamos, por sermos temporais e sucessivos. Os nexos ontológicos são simultâneos. Em Deus todos os atributos, todos os seus predicados são simultâneos. Se a nossa operação intelectiva extrai, deduz uns de outros, essa extração, essa dedução, processa-se em nossa mente, porque é de sua natureza proceder assim, mas tal não quer dizer que, nele, haja antecedentes ou consequentes. Nele, há apenas a eterna presença infinita de onipotência. Por esta razão não há um antes da criação. E esta não pode ter tido um começo no tempo. O tempo começou com ela, porque é algo que começa, e esse tempo, que nós procuramos ingenuamente dividir em dias, em meses, em séculos, na criação, não se divide essencialmente em tal, mas é absolutamente divisível potencialmente, portanto, é infinitamente potencial.
A criação é assim ab aeterno, porque ela começa ab aeterno, porque só o eterno a antecede sempre. Não teve um antes, ela começou quando começou, sem um antes temporal. Só nesse sentido ontológico podemos compreendê-la. E nesse sentido ela absolutamente não contradiz a fé cristã.