Participação
(do lat. participare, e de participatio, participação). Etimologicamente vem de capio, capere, que dá cipere e de partis, parte, parte cipere, sinônimo de recipere. Neste sentido participar é receber de outrem algo. Mas o que é recebido, é recebido não totalmente (totaliter), pois totaliter recipere seria receber em totalidade algo (áliquid). É intuitivo que o conceito de participação implica um receber parcial de algo (áliquid) de outro (ab alio). O que participa é o participante, o qual participa do participável (participabile = o que pode ser recebido) de outro, o participado. Participação seria o fato de participar o participante do participável do participado.
Estabeleciam os neoplatônicos um adágio, posteriormente muito usado pelos escolásticos: “o que é recebido o é segundo o modo de ser do recipiente”.
quid-quid recipitur ad modum recipientis recipitur
“o que é recebido o é segundo o modo de ser do recipiente”, que poder-se-ia, como na verdade foi feito, dizer do seguinte modo: “Tudo quanto é participado em algo, o é, nele, segundo o modo de ser do participante, pois nada pode receber acima de sua medida” (Omne quod est participatum in aliquo est in eo per modum participantis; quia nihil potest recipere ultra mensuram suam).
Em suma, se alguém participa de alguma perfeição, dela participa segundo o seu modo de ser; isto é, na medida em que é capaz de participar, no grau que é capaz de receber. E o que marca esse grau, essa capacidade, é o próprio recipiente, o participante. Um exemplo: Numa conferência sobre determinado tema, os ouvintes participarão do mesmo na proporção da sua capacidade de participantes. Desse modo a participação, como fato de receber, será proporcionada ao participante. O participado pode ser de maior grau de perfeição, mas a participação, por parte do participante, dependerá do grau deste. Esse modo de entender do neoplatonismo foi aceito por Tomás de Aquino. Evidencia-se desde logo que o conceito de participação aponta que o participante recebe ou participa de um participável, que pertence a outro em grau mais elevado, do qual o participante apenas participa. Neste caso, o participável não é do ser do participante, mas sim do ser do participado. Apenas o participante participa de algo que o participado tem em plenitude.
Na filosofia medieval, o que é por essência, é causa de tudo o que é por participação. Assim, o que é por essência do gênero é participado pela espécie. Na definição clássica “homem, animal racional”, este participa da animalidade. A primeira é gênero, e a segunda, diferença específica, que é da essência humana, mas que não é exclusivamente dela, pois racionalidade é, por sua vez, atribuída a outros seres, como os anjos que a teriam em graus mais elevados, e a divindade em grau absoluto.
Entre as diversas espécies de participação temos a participação por composição, que se fundamentaria na dualidade de um recebedor (participante), e de um elemento recebido (participável). Neste caso, participar seria possuir algo que foi recebido; o recebido toma a modalidade do sujeito recebedor. Se o recebedor é menos perfeito do que o elemento que ele recebe, este terá os limites próprios do recebedor. Portanto, na participação por composição, há uma limitação. Esta, ao primeiro olhar, parece verificar-se em todas as espécies de participação, porque há participações sem esta limitação. O conceito de limite, desde que não seja considerado dialeticamente, pode colocar-nos em uma verdadeira aporia, pois ao considerarmos que, na participação por composição há uma limitação, esta é por sua vez participada, o que nos obrigaria a desdobrá-la em duas: participação por limitação e participação por recepção. Na participação por composição o recipiente é menos perfeito do que o que é por ele recebido, e o recebe apenas como parte, pois não pode recebê-lo sem limitá-lo. É distinguível a composição de a limitação, embora a composição seja um elemento essencial dessa participação. O que é importante salientar aqui é que a limitação não surge propriamente da composição, mas do sujeito receptor, porque nem toda composição é uma participação.
Outra espécie de participação é a participação por similitude ou por hierarquia formal. Neste caso, a essência que é participada não se encontra no participante na plenitude absoluta do seu conteúdo formal. Essas duas espécies de participação não se excluem totalmente. Aristóteles admitia que a espécie participa do gênero, e que este é atribuído à espécie por participação. Essa afirmativa nos vem de Tomás de Aquino. Na verdade, Aristóteles sempre recusou admitir que a espécie participasse do gênero, pois só admitia participação quando se desse a união de elementos distintos, o que o levava a recusar uma relação de participação entre o gênero e a espécie, pois fundado numa participação apenas de composição, não se daria a unidade da substância, a qual seria em tal caso apenas uma composição de gênero e espécie. Este aspecto é de capital importância nos estudos teológicos, pois o homem não é concebido apenas como uma composição de animalidade e racionalidade, como se desse nele a conjunção de dois elementos, o animal e o racional. O racional já contém a animalidade, e a essência humana é considerada como uma unidade de simplicidade, e assim Tomás de Aquino empresta identidade substancial entre gênero e espécie. E surgem diversas dificuldades que ele explica da seguinte maneira:
“participar é, por assim dizer, receber uma parte. Quando um ser recebe de maneira particular o que pertence a outro de maneira universal, diz-se que dele participa. Assim diz-se que o homem participa do animal, porque ele não possui a razão do animal, segundo toda a sua generalidade. Pelo mesmo motivo, Sócrates participa do homem. Da mesma forma o sujeito participa do acidente; e a matéria, da forma; pois a forma substancial ou a forma acidental que, de per si, são comuns, encontram-se determinadas a tal ou a tal sujeito. Diz-se, finalmente, que o efeito participa de sua causa, sobretudo quando ele não iguala a virtude da causa. Dizemos, por exemplo, que o ar participa da luz do sol, porque não a recebe com todo o brilho que possui no sol.”
Temos aqui claramente exposto que Tomás de Aquino aceita a participação por similitude ou por hierarquia formal, não propriamente a de composição, que era aceita por Boécio. Não se deve concluir que ele aceitasse a composição na participação, mas aceitava-a como um dos seus elementos. Deste modo a participação, para ele, teria dois elementos: a composição entre o sujeito, que ele participa e o de que ele participa. Assim a espécie participa do gênero, não porém de toda riqueza do gênero.
As participações podem se dar de quatro modos diferentes:
- participação de um sujeito concreto a uma forma qualquer;
- participação entre os elementos de uma essência composta;
- participação entre termos abstratos, estranhos uns aos outros em seu conteúdo formal;
- participação entre termos abstratos, mais ou menos universais, compreendidos em uma mesma linha formal.
Na simbólica das religiões os símbolos são participantes das perfeições do Ser Supremo, segundo o seu modo de ser. Daí haver uma hierarquia. Eles são superiores, à proporção que participam mais da perfeição atribuída ao ser supremo que, nas religiões, é a divindade.