Voltar ao Dicionário

Mal

Bem e Mal

O conceito de Bem para os escolásticos expressa tudo aquilo que tem ou pode ter caráter de apetecível, e todo ser é apetecível, pelo menos para o seu sujeito. Mal é um conceito oposto, e em geral se entende tudo quanto se opõe, contraria os desejos e exigências ou necessidades dos seres e que, no homem, origina o sofrimento e a dor.

Podemos colocar o bem e o mal no sujeito, desde que o universalizemos, no sentido de todos os entes:

  1. o Bem e o Mal no sujeito;
  2. o Bem e o Mal para o sujeito (isto é, como o sujeito apetece ou não, como o considera);
  3. como os outros entes o consideram em suas relações.

Toda existência tem uma intencionalidade, pois todo ente, como parte e como todo, tende para algo, para um fim. É essa intencionalidade de todo o existir que nos é revelada pela moção do devir. Há, em toda espécie de moção, os três termos: a quo, quod e ad quem, ponto de partida, o que se move e o ponto de chegada. Quod, o que se move, é um bem enquanto ser, pois como se vê na ontologia, ser e bem se convertem. Mas como se move numa via, essa é composta das coordenadas que constituem, com ele, a realidade do móvel. E para ele (quod), as coordenadas da via que podem permitir a plena realização do fim a que tende ou não. E ser-lhe há um bem o que favorece a realização plena; e um mal, o que a obstaculiza. Na axiologia estudam-se esses três aspectos que são importantes na construção da teoria dos valores, mas suficientes no nosso caso para julgar-se o problema do bem e do mal, que é na teologia tema de controvérsia e de indiscutíveis dificuldades. Muitos consideram que o mal consiste no fato de um ser não realizar o fim para o qual tende. Nesse caso o mal seria pertencente ao mundo da ação; se revelaria no acional, e a ele estaria sujeito quem realiza um fim.

Fundado nessa concepção é que Leibniz nos fala do mal metafísico, o mal de toda existência.

“Podemos considerar o mal metafísico, física e moralmente. O mal metafísico consiste na imperfeição; o mal físico no sofrimento, e o mal moral no pecado”. (Teodicée, § 21)

O mal metafísico decorreria da imperfeição, da ausência de uma perfeição. Os escolásticos chamam de negatio perfectionis debitae, privação da perfeição devida, aquela de que um ser é privado, quando ela faz parte da sua natureza, como a visão no homem, as asas nos pássaros. Não tê-las é um mal. Mas um homem não ter asas ou uma pedra não ter visão, não são privações da natureza desses entes. Mas Leibniz considera que se o homem tivesse asas, por exemplo, ou sentidos para perceber outras vibrações da natureza, seria mais perfeito do que é. Neste caso há uma privação e há um mal, e este é precisamente o que ele considera de mal metafísico. Assim todas as criaturas sofrem do mal metafísico. Mas o mal físico, que consiste na dor, pertence aos seres vivos, em graus diferentes, e só se dá quando sofremos. O mal moral consiste na privação de um bem moral que deveríamos atingir, como se dá no pecado.

Os escolásticos consideram como as principais divisões do mal as seguintes:

a)

mal em si ou absoluto, e mal para outro ou relativo. O mal absoluto é uma privação que não é boa em nenhum aspecto para nenhum sujeito; mal relativo é uma entidade que leva consigo a privação de algum bem, ou é um mal para algum sujeito, distinto daquele no qual se acha. Tomás de Aquino exemplifica com o ser coxo, que consiste em ter uma das pernas mais comprida que a outra. É uma entidade positiva e, como tal, boa, mas que priva a devida proporção. Assim a agilidade e a voracidade do lobo são boas para ele, mas más para a ovelha.


b)

mal físico e mal moral. O mal físico é a privação de qualquer bem nos seres que carecem de razão, ou no homem considerado independentemente de suas relações de ordem moral. O mal moral é uma desviação ou falta de ordem devido à vontade livre, e em sua ação correspondente a respeito das normas de ordem moral.


c)

mal de culpa e mal de pena. O mal de culpa é a transgressão de uma lei que a criatura comete com advertência e liberdade. O mal de pena é o mal infligido à criatura como castigo pelo mal de culpa.

Ante o espetáculo do mundo os homens ou atualizam exageradamente a presença do mal ou a presença do bem; o que fundamenta as atitudes dos pessimistas e as dos otimistas. Há um pessimismo sentimental e poético na literatura, por exemplo, em Vigny, em Leopardi, em Machado, etc., e um pessimismo filosófico, o de Epicuro, Schopenhauer, Hartmann, e dos filósofos existencialistas. O otimismo opõe-se ao pessimismo e chega à afirmação de que o mundo é o mais perfeito possível. Mas em sentido mais freqüente é otimista a posição que afirma a predominância do bem sobre o mal no mundo.

O mal na teologia – O mal foi sempre usado como o grande argumento contra a divindade.

“Ou Deus quer suprimir os males e não o pode, ou o quer e pode; se quer e não o pode, seria impotente, o que repugna a Deus; se pode e não o quer, é que nos odeia, o que também é contrário a Deus; se não pode nem o quer, nem tem forças nem amor, não é portanto Deus; se quer e pode, é a única solução que lhe convém de onde vêm os males e por que não os suprime?” (Cícero)

A resposta mais geral que se oferece a este argumento é que o mal não é uma coisa ou um ser criado por Deus para o qual tendessem os homens. Seria a ausência de um bem maior, e quando o homem o deseja, o faz em busca de um bem de qualidade menor, desprezando um bem superior que ele deveria preferir. Dionísio Areopagita, por influência platônica, dizia que é em vista do bem que se realiza toda a ação, quer boa ou quer opondo-se ao bem, pois estas mesmas realizamos por amor ao bem, pois ninguém efetua nenhuma operação com os olhos voltados para o mal. Este não nasce de uma tendência dirigida para ele mesmo, mas de uma tendência dirigida para o bem. Para Leibniz o mal metafísico não é um verdadeiro mal, mas apenas quando de uma comparação com a perfeição, sentimos o que nos falta ou o que seria melhor se tivéssemos. Ele percebeu que todo o ser ôntico tem um ímpeto para a perfeição, por isso sentimos que tudo quanto não temos, se o tivéssemos, seríamos mais e melhores. É tal perspectiva que leva à construção da ideia do mal metafísico.

O mal físico surge das desordens físicas. Não é um mal absoluto, pois pode ser um meio para alcançar um bem maior. A dor é útil, como dizia Nietzsche, e a incapacidade de sofrer é muitas vezes um mal maior. Um mal físico surge de nossa finitude. Mas o que causa maior escândalo é a injustiça na retribuição, pois encontramos muitas vezes o crime triunfante e a virtude oprimida, o bem desprezado e o mal exaltado. Mas tais injustiças são da natureza do homem e não da de Deus. É o homem que se afasta do bem e sofrerá as conseqüências, embora não sejam facilmente percebidas. As religiões afirmam que a virtude não encontra infalivelmente na terra a sua recompensa, nem o vício o seu castigo. É a falta de uma justiça retributiva nesta vida que leva os teólogos a especularem sobre uma outra vida, onde se dê tal retribuição.

Quanto ao mal moral, cabe ao homem, pela sua liberdade, pois ele tem a possibilidade de fazer o bem e o mal. Mas há quem pergunte: por que Deus deu liberdade ao homem? Por que não fez um autômato, evitando assim o mal moral? A liberdade do homem não é um mal, mas um bem; o mal está no uso desta liberdade para fins afastados do bem superior. O que não se pode deixar de considerar é que toda e qualquer posição, que negue a possibilidade de uma retribuição extraterrena, coloca o homem em situação de máxima perplexidade, que só o pode levar do pessimismo ao desespero.

Voltar ao Dicionário