Eis de que modo fala do Verbo, que é a sabedoria do Pai, a Sagrada Escritura: «O Senhor me possuiu consigo — diz o Verbo pela boca do Sábio — no princípio de suas obras, desde o princípio, antes de criar coisa alguma. Desde a eternidade tive princípio, antes que a terra fosse feita. Ainda não havia os abismos, e eu já estava concebida» (Pr 8, 22-24). Essas palavras encontram correspondência e explicação nas de São João: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Por meio dele foram feitas todas as coisas; e sem ele nada foi feito de tudo o que foi feito. Nele estava a vida» (I, 1,4). Também São Paulo esclarece as palavras do Sábio quando chama Jesus Cristo de primogênito de toda a criação e diz dele que era ontem, é hoje e será por todos os séculos (Cl 1, 15); (Hb 13, 8). Estas sentenças são assim comentadas por Santo Agostinho: «O Filho recebe eternamente o seu ser de Deus Pai e emana dele, como o esplendor emana do sol. E também nós, que somos irmãos de Jesus Cristo, somos continuamente gerados por Deus em sua inteligência, em suas obras e em suas palavras, se acolhemos em nós a divina semente da graça e com ela cooperamos (In Epistola Ioann.)».
«Quem narrará a sua geração?», diz Isaías (53,8). Quem se elevará tão alto com o pensamento e com a palavra, a ponto de poder narrar a dupla geração do Verbo, divina e humana, eterna e temporal? Ele, com efeito, é concebido desde toda a eternidade nos esplendores da glória do Pai eterno, e é concebido no tempo como Homem-Deus no seio de Maria. Quem poderá penetrar nos abismos dessas duas gerações? A elas alude São Paulo nas palavras: Jesus Cristo era ontem, isto é, desde toda a eternidade; hoje, isto é, encarnou-se. A essas duas gerações do Verbo aludia também o profeta Miqueias: «E tu, Belém Efrata, de ti sairá aquele que há de dominar em Israel, e a geração dele é desde o princípio, desde os dias da eternidade» (5,2).
Quando São Pedro respondeu a Jesus Cristo: «Tu és o Cristo, Filho do Deus vivo» (Mt 16,16), quis dizer-lhe: Tu és o Filho, não por graça e adoção, como os santos, mas por natureza e em virtude da divindade que te foi comunicada pelo Pai em tua geração desde a eternidade. Tu és o Filho do Deus vivo. Vives formalmente da vida eterna, incriada, essencial e bem-aventurada. São Pedro, iluminado por Deus, viu distinta e sobrenaturalmente que Jesus Cristo era o Filho de Deus, concebido e gerado desde toda a eternidade; confessou e proclamou em alta voz que Jesus Cristo é consubstancial ao Pai e verdadeiro Deus, eterno como o Pai.
Moisés havia dito: «No princípio, Deus criou o céu e a terra» (Gn 1,1). Moisés fala do princípio do mundo; mas São João, em seu Evangelho, eleva-se muito mais alto: começa pela eternidade do Verbo: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e Deus era o Verbo». Moisés indica o princípio dos tempos, no qual Deus fez todas as coisas. São João situa o seu princípio na eternidade, quando já existia o Verbo, por meio do qual o Pai fez, no tempo, tudo o que foi feito. No princípio, isto é, no Pai eterno, o Verbo estava no seio do Pai, não feito, mas gerado desde toda a eternidade. No princípio, isto é, fora do tempo, tendo a mesma idade, igual ao Pai por natureza, incompreensível, inefável, Filho sem mãe, princípio sem princípio, o Verbo, gerado desde toda a eternidade, Filho único do Pai.
Mas como pode o Filho ser eterno como o Pai? Do mesmo modo que o raio e o esplendor seriam eternos, se o sol fosse eterno… «Eu saí da boca do Altíssimo» (Eclo 24,5), atesta de si o Verbo. Aqui, a boca simboliza o espírito, a inteligência de Deus… Jesus Cristo, diz São Paulo, é anterior a todos os homens (Cl 1,17).
Mas o evangelista São João não se detém na geração do Verbo: depois de ter feito alusão a esta, fala da geração temporal do mesmo, escrevendo: «E o Verbo se fez carne» (1,14). Três coisas ele menciona nos primeiros versículos de seu Evangelho: primeiramente, a geração eterna; — em segundo lugar, a criação do mundo; — em terceiro lugar, a encarnação do Verbo.
Por que o evangelista São João dá ao Filho de Deus o nome de Verbo? 1° Porque, no início de seu Evangelho e de sua Epístola, alude ao relato de Moisés, no qual Deus criou o céu e a terra, e tudo o que neles se contém. 2° Porque o Filho, que está no seio do Pai e possui toda a sabedoria, tendo revestido a nossa carne, falou-nos dessa sabedoria infinita, e São João quer dar-nos a conhecer essa sabedoria; por isso dá a Jesus Cristo o nome de Verbo, referindo-nos as palavras desse Verbo, porque verbo quer justamente dizer palavra… 3° Chama-o Verbo em vez de Filho, para não dar pretexto a alguns de imaginá-lo corpóreo e em tudo como os outros filhos. A palavra Verbo não é carnal, mas espiritual, intelectual, divina e, por isso, pura, íntegra, incorruptível; e quer dizer que ele é gerado pelo Espírito divino, quase como palavra de seu espírito. Ele é chamado Verbo porque o Verbo, nas coisas divinas, indica o Filho; significando o Verbo a concepção mental de Deus Pai, que é ela mesma a geração do Filho; que manifesta e representa, como uma palavra, a sabedoria e a vontade do Pai.
Por que o Filho se chama Verbo? Eis outras razões. 1° O Filho é íntimo do Pai, como a inteligência ou a razão é íntima do homem. 2° O Filho ou Verbo vem do Pai, como a razão ou o conhecimento vem do espírito. 3° O Verbo traz em si, diz Eusébio (Demonstr. lib. 5, c. 5), as razões de todas as coisas criadas e, por isso, é chamado Sabedoria e Verbo. Note-se, porém, com Santo Agostinho, que o vocábulo razão não exprime tão adequadamente, como o de palavra ou Verbo, que o Filho vem do Pai. Além disso, a palavra razão é essencial, não pessoal, e é comum à Santíssima Trindade (Serm. 38, de verb. Dom.). A 4ª razão é que o vocábulo verbo pode significar ação; com efeito, o Verbo do Pai é a sua ação, semelhante a ele, igual a ele, antigo como ele. A 5ª razão é que a palavra verbo traz consigo o significado de força; o Verbo, de fato, é a força, o poder, o braço, a destra do Pai; por meio dele, o Pai fez e criou todas as coisas. O Verbo, enquanto Deus, é a virtude da criação; enquanto homem, é a virtude da redenção de toda a humanidade. A 6ª é que verbo ou palavra pode ter o significado de forma; e o Verbo é a forma e a beleza do Pai. A 7ª é que verbo pode indicar causa; porque o Verbo é a causa pela qual tudo foi feito e existe.
Se alguém perguntasse se este Verbo divino, e esta palavra, é semelhante à palavra do nosso espírito, eu responderia que, sob um aspecto, há semelhança; sob outro, não.
Há semelhança porque: 1° A palavra do nosso espírito é espiritual, como espiritual é a palavra divina. 2° Assim como o homem concebe e gera em seu intelecto a palavra de seu espírito, que depois produz exteriormente, assim também o Pai, compreendendo perfeitamente em seu espírito e em sua inteligência a sua essência e todos os seus atributos, gera o Verbo; pois o Verbo é o conhecimento e a expressão do conhecimento que o Pai tem de si mesmo. Ele conhece a si mesmo, e esse conhecimento expresso é o Verbo. 3° Assim como nós, por meio de nossa palavra mental, exprimimos todas as coisas, assim também Deus, por meio de seu Verbo, produz todas as coisas. 4° Assim como não se pode determinar uma origem específica para a nossa palavra mental em nosso espírito, assim também ocorre com o Verbo eterno em relação ao Pai, pois ele está junto do Pai, no seio do Pai, como a nossa palavra está unida e é íntima do nosso espírito. 5° Assim como a nossa palavra é uma ideia segundo a qual agimos, assim também Deus Pai realiza toda obra por meio de seu Verbo. 6° Assim como a palavra do nosso intelecto se torna vocal e sensível quando falamos, assim também o Verbo divino se fez exteriormente sensível, isto é, carne, quando se exprimiu por meio da encarnação. 7° Assim como a nossa palavra é a imagem da coisa que compreendemos, assim também o Verbo divino é a imagem do Pai. 8° Assim como a nossa palavra mental, que é o nosso conceito, dura tanto quanto a nossa inteligência, assim também o Verbo divino dura tanto quanto o Pai. Ora, o intelecto do Pai dura para sempre e, por isso, gera sempre; portanto, também o Verbo, que é produzido por seu intelecto, dura para sempre; e, como o intelecto do Pai está sempre em ação, também a geração do Verbo está sempre em ação. 9° Assim como a concepção da nossa mente precede a ação, assim também o Verbo precede a ação de Deus…
Estes são os traços de semelhança entre o Verbo ou palavra divina e a palavra do nosso espírito; eis agora os traços de dessemelhança. 1° A palavra ou conceito mental, em nós e nos anjos, é apenas acidental; o Verbo de Deus, ao contrário, é uma substância e uma pessoa real. 2° A nossa palavra mental é posterior ao espírito; o Verbo de Deus é eterno e tão antigo quanto o Pai. 3° A nossa palavra mental é imperfeita e mutável, portanto varia e se divide; o Verbo de Deus é perfeito, constante, imutável, simples e uno. 4° A nossa palavra mental é distinta do nosso intelecto, isto é, de outra natureza; o Verbo de Deus é consubstancial ao Pai. 5° A nossa palavra está em nosso ser; o Verbo de Deus é uma pessoa distinta do Pai, por meio da qual o Pai diz e faz todas as coisas. 6° O Pai, ao produzir o seu Verbo, comunica-lhe toda a sua inteligência, o que o nosso espírito não faz à nossa palavra. 7° A nossa palavra é impotente e ineficaz; o Verbo de Deus é eficacíssimo e onipotente. 8° A nossa palavra, da boca e do espírito, tão logo é concebida e nasce, perde-se e desaparece; o Verbo de Deus é eterno, porque a inteligência, isto é, a geração do Pai, é eterna. Por isso, mesmo quando nos elevamos da nossa palavra mental ao Verbo de Deus, permanece sempre para nós um mistério incompreensível, que só é conhecido e crido pela revelação de Deus.
«Nós vos anunciamos, diz o apóstolo São João, a vida eterna, que estava junto do Pai; e que agora se manifestou a nós» (1Jo 1,2). O Verbo apareceu para que, de invisível, se tornasse visível por meio da encarnação, da pregação, dos milagres, da ressurreição e da ascensão. A expressão “junto de Deus”, que São João emprega, tem três significados: 1° denota que o Verbo é uma pessoa distinta do Pai; 2° indica que entre um e outro existe uma união perfeitíssima; 3° assinala a igualdade do Filho com o Pai; igualdade claramente confirmada por aquelas outras expressões: «E o Verbo era Deus». Distinção de pessoas, união de pessoas, igualdade de pessoas: eis o sentido daquelas palavras: O Verbo estava junto de Deus.
Sêneca escreve: «Assim como os raios solares, quando vêm tocar a terra, não deixam de estar lá de onde partem, assim o grande Espírito, fazendo-se humilde e pequeno, vem e conversa familiarmente conosco, para nos dar a conhecer mais de perto as coisas celestes; mas permanece ligado à sua origem celeste (Epl. XLI)».
À pergunta que os arianos faziam, se o Filho, quando veio ao mundo revestido da forma de escravo, havia deixado o Pai, assim respondia Agnelo, bispo de Ravena: «Dizei-me, por favor, a palavra que sai de meus lábios e entra em vosso ouvido e, por meio dele, passa a habitar em vosso espírito e em vosso coração: acaso ela não está mais em mim por estar em vós? Quanto mais, portanto, o Verbo de Deus permaneceu no seio do Pai, mesmo fazendo-se homem!» (Storia Eccles.).
Deus fez-se homem; — o Filho de Deus fez-se Filho de Maria: esta é a mais excelente, a mais perfeita das obras de Deus. Nela Deus fez resplandecer a sua onipotência, unindo o homem a Deus, o barro ao Verbo, a terra ao céu; e isso por meio da união hipostática, a união mais perfeita e mais íntima; união indissolúvel e necessariamente indissolúvel. Fez resplandecer a sua infinita sabedoria, assumindo um corpo no seio de uma virgem, para poder sofrer e satisfazer a Deus Pai pelos nossos pecados, pois a divindade não podia padecer, a fim de nos resgatar… Fez resplandecer a sua infinita justiça, pois, com a dignidade de sua pessoa, o Verbo encarnado, ao morrer, satisfez plenamente à justiça vingativa do Altíssimo… Fez resplandecer a sua bondade sem limites, porque se despojou e se aniquilou para nos cumular de seus dons… «Fez-se filho do homem, diz Santo Agostinho, para fazer-nos filhos de Deus (De Incarn.)». «Nasceu na terra, diz São Gregório, para que o homem nascesse no céu (De Incarn.)».
A Escritura nos diz que a sabedoria divina alcança de uma extremidade à outra com força e dispõe todas as coisas com suavidade (Sb 8,1). A verdade dessas palavras resplandece mais do que nunca na encarnação. Aqui Deus tocou e reuniu, mediante a sua potência, sabedoria, riqueza, bondade, ciência, misericórdia e amor infinito, as duas extremidades, as duas coisas aparentemente mais distantes e mais opostas: o infinito com o finito, a divindade, que é a essência por excelência, e o homem, que é o nada. Ele dispôs todas as coisas de modo suave, miraculoso, misterioso. Tudo estava desordenado, abatido, perdido; a encarnação reordena, regula, endireita e restaura tudo milagrosamente.
São Bernardo, aplicando à encarnação do Verbo aquela invocação do Sábio: «Renova os prodígios e faz novas maravilhas. Glorifica a tua mão e o teu braço direito» (Eclo 36,6-7), exclama assim: Senhor Jesus, aumentai as vossas obras admiráveis, renovai os vossos milagres, mudai-os, porque os vossos antigos prodígios são tão numerosos e frequentes que quase já não se presta atenção a eles. É verdade que milagres estupendos são o nascer do sol e o seu ocaso, a fecundidade da terra e a alternância das estações; mas vemos essas maravilhas há tanto tempo que já não nos damos conta delas. Ah, sim! Renovai os vossos milagres, mudai os vossos portentos, dai-nos outros prodígios. Eis, diz Deus, que renovo tudo (Ap 21,5). E é o Cordeiro quem assim fala de seu trono. Ó milagres verdadeiramente novos! Uma virgem concebe sem perder a virgindade e dá à luz sem dor. Assim como um homem comum não pode ter uma virgem por mãe, também um Deus homem não pode ter outra mãe senão uma virgem. Deus realizou em Jesus e em Maria prodígios desconhecidos de todos os séculos; mudou a ordem do mundo e de todas as coisas. A maldição de Eva foi mudada para nós em bênção numa virgem. Uma mulher concebe um filho, homem perfeito por sua ciência, criança pela idade, Verbo eterno por sua pessoa, Deus por natureza, nascido de uma virgem no tempo, cheio de graças, que traz o doce nome de Jesus e é, de fato, o Salvador. Quantos milagres clamorosos neste mistério da encarnação! E o mesmo acontece nos mistérios da paixão, da cruz, da morte, da ressurreição, da ascensão etc. Jesus Cristo é a união, o eixo, a base, o ápice de todas as maravilhas e de todos os milagres que Deus realizou em todos os tempos (Serm. 4, in Vig. Nativ.).
A respeito da mesma passagem do Eclesiástico, assim raciocina Hugo de São Vítor: «Deus fez o homem de maneira admirável, à sua imagem e semelhança; mas, de modo ainda mais admirável, fez-se ele próprio à imagem e semelhança do homem. A vara seca de Aarão reverdece e frutifica maravilhosamente; mas, de modo mais maravilhoso ainda, a Bem-aventurada Virgem concebe e dá à luz um filho, permanecendo virgem. A serpente de bronze curava prodigiosamente aqueles que haviam sido mordidos; mas Jesus curou de modo mais prodigioso todos os crentes, por meio de sua encarnação e de sua cruz. Elias ressuscita milagrosamente o filho de uma viúva; mas Deus Pai, com milagre mais surpreendente, retira seu Filho das fauces da morte. Sansão, ao morrer, derruba prodigiosamente os filisteus; mas Jesus, com vitória mais portentosa, triunfa sobre a morte e os demônios. Jonas sai milagrosamente do ventre da baleia; mas Jesus sai de modo ainda mais milagroso do seio de Maria e do sepulcro selado. Maravilhosa foi a subida de Elias num carro de fogo; mas mais maravilhosa ainda foi a ascensão de Jesus Cristo ao céu. Eliseu, presente à ascensão de Elias, soluçava; os Apóstolos, testemunhas da ascensão de Cristo, jubilavam, extasiados de admiração. Elias, ao subir ao céu, deixa cair o manto sobre Eliseu; Jesus Cristo, sentado à direita do Pai, envia o Espírito Santo. Eis a renovação dos milagres e a mudança dos prodígios» (In Ecclesiast.).
Jeremias havia predito «que o Senhor criaria uma coisa nova sobre a terra; uma mulher encerrará em si um homem»; trará em seu seio o homem Deus (Jr 31,22). Este novo prodígio, observa São Bernardo, encerra muitos outros, jamais vistos nem ouvidos. Com efeito, em Jesus feito homem vê-se o comprimento encurtado, a largura restringida, a altura rebaixada, a profundidade preenchida. Vê-se a luz sem luz, o Verbo criança, a fonte eterna que tem sede, o pão dos anjos que tem fome. Observai e vereis a potência que é governada, a sabedoria que recebe instrução, a força que requer apoio; um Deus que suga leite, enquanto alimenta os anjos, geme e chora enquanto é a consolação dos aflitos. Observai e vede a alegria que se angustia, a confiança que treme, a saúde que sofre, a vida que morre, a força que desfalece; mas considerai aquilo que não é menos estupendo: a enfermidade que fortalece, a morte que dá a vida (Serm. in Vig. Nativ.).
O milagre da encarnação realizado em Maria encerra em si muitos outros milagres. Uma Virgem concebe, permanecendo intacta a sua virgindade… O Espírito Santo cobre a Virgem com a sua sombra… o corpo e a alma de Jesus Cristo encarnado unem-se à divindade pela união hipostática… Deus faz-se homem… O homem torna-se Deus… A criança está repleta de sabedoria desde o próprio instante de sua concepção… É concebida sem a mácula original e cheia de graça… A sua concepção não procede do homem, mas do Espírito Santo… A santíssima alma de Jesus, tão logo criada, vê a essência de Deus e, no mesmo instante, oferece-se a Deus em holocausto de expiação pelos homens. Acaso a terra já viu milagres maiores? Outrora ela viu o sol deter-se à voz de Josué e retroceder sob o rei Ezequias; agora, na encarnação, vê o sol incriado não eclipsar-se, mas aumentar. Outrora viu a sarça ardente conservar verde a sua folhagem; agora vê, na encarnação, o lírio da virgindade manter-se intacto entre os frutos da maternidade. Outrora viu a vara de Abraão reverdecer e florescer de repente; agora vê, na encarnação, a vara de Jessé dar ao mundo um fruto divino, sem a cooperação de homem. Outrora viu a vara de Moisés transformar-se em serpente; agora vê, na encarnação, um Deus transformar-se em homem pelos pecadores. Viu no Egito o mar Vermelho abrir-se e dividir-se; vê, na encarnação, um Deus no seio imaculado de uma Virgem. Viu no deserto o maná chover do céu; vê, na encarnação, o Verbo do Pai, o pão dos anjos, descer ao seio da Mãe de Deus. Viu nos tempos antigos Elias ser levado ao céu num carro de fogo; vê, em nossos tempos, a natureza humana elevar-se até à divindade e unir-se hipostaticamente à pessoa do Verbo eterno. Com razão, portanto, a Igreja diz a Maria: «Com alta maravilha de toda a natureza, vós, ó Maria, concebestes e destes à luz o vosso santo Genitor» (In hymn. Alma Redemptoris).
São Tomás pergunta se Deus pode fazer coisas melhores e mais magníficas do que aquelas que já fez e responde que sim, excetuando-se, contudo: 1° a encarnação do Verbo; 2° a maternidade divina de Maria; 3° a bem-aventurança do céu. Com efeito, diz ele, Deus não pode fazer um homem melhor do que um Homem Deus, nem uma mãe mais perfeita do que a Mãe de Deus, nem uma felicidade mais completa do que a felicidade que traz a visão e a posse eterna de Deus. Na verdade, a humanidade de Jesus Cristo, enquanto unida a Deus; a felicidade dos eleitos, enquanto é o gozo pleno de Deus; a Bem-aventurada Virgem, enquanto é Mãe de Deus, têm em si uma certa dignidade infinita em relação ao bem infinito que é Deus: sob esse aspecto, nada pode existir que seja melhor do que essas três coisas, assim como não pode haver coisa melhor do que Deus (I-I q. 26, art. 6, ad 4).
A encarnação é uma obra-prima da potência de Deus, incomparavelmente maior e mais prodigiosa do que a criação do universo, porque há maior distância entre Deus e o homem do que entre o homem e o nada. Com efeito, o homem, embora seja obra-prima da criação, é sempre um ser limitado, restrito, finito; portanto, a distância que o separa do nada não pode ser infinita; ao passo que entre Deus e o homem há uma distância infinita. Por isso, fazer do homem um Deus é algo infinitamente mais admirável e portentoso do que fazer do nada um ser, um homem, um anjo. Com razão São Cipriano exclama: «Quanto é admirável o vosso nome, ó Senhor! Vós sois verdadeiramente o Deus que opera prodígios. Não admiro somente a estrutura do mundo, a estabilidade da terra, o esplendor do sol, a beleza da lua, o encanto das estrelas, mas admiro infinitamente mais um Deus no seio de uma Virgem; o Onipotente num presépio, a carne unida ao Verbo de Deus; um Deus todo revestido de corpo humano. Isso me deixa atônito de estupor, arrebata-me em êxtase de admiração, e exclamo com o Profeta: Considerei as vossas obras, ó Senhor, e fiquei estupefato de admiração» (Serm. 3, de Nativ. Christi).
Diz São Leão: «Jesus Cristo entra neste mundo inferior de maneira absolutamente nova, com um nascimento jamais visto. De maneira nova, pois, sendo visível no céu, quis tornar-se visível também na terra; sendo incompreensível, quis ser compreendido; vivendo antes dos séculos, começou a existir no tempo; o Senhor infinitamente grande tomou a forma de servo: Deus impassível dignou-se fazer-se homem passível; o imortal submeteu-se ao império da morte. Nova e jamais vista foi também a sua geração, porque, concebido de uma Virgem, nasceu de uma Virgem, sem participação de pai carnal, sem violação da integridade materna (Serm. II de Nativ.)». Por isso São João Damasceno chama a Virgem Maria de: «A sede, o abismo dos milagres (Serm. I de Nativ)».
Maria é, portanto, concluamos com Santo Agostinho, (Serm. de Nativ.), a maravilha dos séculos, o assombro da natureza, o prodígio do universo. Ó milagre verdadeiramente novo, jamais visto nem ouvido, e que jamais se verá novamente! Uma mulher concebe um Deus, gera um Deus que é o homem, ou antes, o gigante da eternidade e da imensidade, que está em todos os lugares e em todos os séculos, que sustenta o céu e a terra, que traz o universo na palma de sua mão; e esse Deus nada sofre com essas profundas humilhações! E essa mulher não é consumida pelos ardentes raios da majestade divina encarnada! E a sua virgindade não sofre nenhuma ofensa! Este prodígio é obra grandíssima do Senhor e é admirável aos nossos olhos.
O Filho de Deus é gerado desde toda a eternidade por um pai no céu, é concebido Homem-Deus por uma mãe no tempo; vem da imortalidade do Pai, da integridade da mãe; de um pai sem mãe, de uma mãe sem pai; de um pai fora do tempo, de uma mãe no tempo; de um pai princípio da vida, de uma mãe fim da morte; de um pai moderador do dia, de uma mãe que consagra o dia ao conceber um Deus! Assim como Eva, primeira mulher virgem, foi formada de Adão, primeiro homem virgem, assim também, de modo diferente, Jesus Cristo, segundo homem Virgem, foi formado de Maria, segunda mulher virgem. «Senhor, exclama o profeta Habacuc, dai vida à vossa obra no meio dos anos; tornai-a conhecida no meio dos tempos» (3, 2). Esta obra por excelência, à qual alude o profeta, é a encarnação.
«A majestade, diz São Bernardo, aniquilou-se para unir-se ao nosso barro e para reunir numa só pessoa Deus e a terra, a majestade e a baixeza, a sublimidade e o nada. E observai que, assim como naquela única divindade há trindade nas pessoas e unidade na substância, assim também nesta singular união, que é a encarnação, há trindade de substâncias e unidade de pessoa. Com efeito, o Verbo, a alma e a carne unem-se para formar uma só pessoa; e destas três coisas resulta uma só, e esta única compõe-se de três, não pela confusão da substância, mas pela unidade da pessoa (Serm. III in vig. Nativ)».
Diz o profeta Ageu: «Eis o que diz o Senhor dos exércitos: Ainda um pouco de tempo, e eu abalarei o céu e o mundo, o mar e a terra. Comoverei todas as nações, e virá o desejado de todos os povos, e eu encherei de glória esta casa. A glória deste último templo excederá em muito a glória do primeiro, e neste lugar darei a paz» (Ag 2, 7-10). Não é este um anúncio claríssimo e solene da encarnação? … E não aludia também a ela Davi, quando dizia a Deus: «Despertai o vosso poder e vinde salvar-nos» (Sl 79, 3)? E Maria também cantou (Lc 1, 51): «Deus manifestou a força de seu braço».
A encarnação é, pois, a obra-prima de Deus: aqui ele esgotou os tesouros de sua sabedoria etc. etc.
De Adão virgem, Deus formou Eva virgem; ora, por que não teria podido, semelhantemente, formar um homem virgem de uma mulher virgem? Eva nasceu somente de seu marido; que impossibilidade há, pois, em que Maria conceba e dê à luz sozinha, do Espírito Santo, pela virtude de Deus? Deus fez Adão vivente e o fez com um punhado de barro; quem impede que tenha formado um homem de uma virgem vivente? Não é porventura uma virgem algo mais que um punhado de pó? … A encarnação aconteceu porque assim Deus quis… A encarnação teve efeito pela potência de Deus, que não é constrangida por limites…
Chegada a hora designada nos decretos de Deus para a encarnação do Verbo, narra o Evangelho que o anjo Gabriel foi enviado por Deus a Nazaré, pequena cidade da Galileia, como mensageiro a uma virgem desposada com um homem da casa de Davi, chamado José; e o nome da virgem era Maria. Entrando o anjo na casa onde ela estava, disse-lhe: Eu te saúdo, ó cheia de graça, o Senhor está contigo; tu és bendita entre todas as mulheres. Com estas palavras, a Virgem perturbou-se e ficou refletindo sobre o sentido daquela saudação; mas o anjo logo acrescentou: «Não temas, ó Maria, porque o Senhor se agradou de ti; e por isso conceberás e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus o assentará no trono de Davi, seu Pai, e ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu império não terá fim» (Lc 1, 31-33). E tendo Maria observado como isso poderia acontecer, uma vez que não conhecia homem, recebeu do Anjo a resposta de que o Espírito Santo desceria sobre ela e que a virtude do Altíssimo a cobriria com a sua sombra. Por isso, o santo fruto que dela nasceria seria chamado Filho de Deus. Ao que Maria, assentindo, respondeu: Eis a serva do Senhor; cumpra-se em mim o que disseste (Id. 35-38).
Desta maneira sublime se efetuava a encarnação do Verbo eterno; ela se consumava em virtude do maior milagre da potência de Deus.
Somente o Verbo ou Filho de Deus encarnou-se, somente ele se fez homem; entretanto, toda a Trindade foi a causa eficiente da encarnação. Ao Espírito Santo atribui-se particularmente esta obra: 1º porque é uma obra santíssima; 2º porque as obras de nossa redenção e da bondade de Deus são referidas ao Espírito Santo, pois ele procede como amor do Pai e do Filho; assim como se atribui a sabedoria ao Filho, enquanto Verbo e palavra, e a onipotência ao Pai, enquanto princípio e fonte. O Espírito Santo foi o artífice da humanidade de Jesus Cristo, porque a formou, dispôs e animou no seio virginal de Maria; não pode ser chamado seu pai, porque nada lhe deu nem lhe comunicou de sua substância, como ensina Santo Agostinho (De Nativ.).
O Espírito Santo virá sobre ti, ó Maria, para que a concepção de Jesus Cristo, e o próprio Jesus Cristo, sejam santos, não somente em virtude da união hipostática da humanidade com o Verbo, mas também em virtude desta concepção divina, que se realiza não por meio do homem e do anjo, mas por meio do Espírito Santo. Por isso, em virtude desta concepção, Jesus Cristo não era filho de Adão, no sentido de contrair dele o pecado original e nascer pecador, mas era puríssimo e santíssimo…
A virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, ó Maria; isto é, como explica São Gregório, o Verbo de Deus tomará em ti um corpo que será como a sombra da divindade, a qual nele permanecerá velada e escondida (Moral. lib. 33, c. 2). Segundo Orígenes, o corpo de Jesus Cristo é chamado sombra porque, em sua paixão, foi de tal modo aviltado, desfigurado e obscurecido que parecia pouco mais que uma sombra (Homil. 3, In Iosue).
Santo Ambrósio entende por esta sombra a vida terrestre e mortal que o Espírito Santo deu a Jesus Cristo; ela é, com efeito, quase uma sombra da verdadeira vida da eternidade (In Psalm. ex 8, serm. V). O mesmo Santo Ambrósio, Santo Agostinho e muitos outros Padres veem nesta sombra que cobrirá Maria a graça do Espírito Santo que, como uma sombra, protegerá a Virgem, na concepção de Jesus Cristo, do fogo da concupiscência carnal; porque ela conceberá Jesus por efeito de puríssimo amor. Santo Agostinho diz ainda: «A virtude do Altíssimo vos cobrirá com a sua sombra, ó Maria, isto é, adaptar-se-á e ajustar-se-á a vós como a sombra ao corpo, porque a vossa fraqueza humana não poderia compreender e suportar toda a sua força e eficácia» (Quaest. Vet. et novi Test. c. 41):
O Espírito Santo vos cobrirá com a sua sombra, isto é, ocultará em vós o mais estupendo dos mistérios e dos milagres… Esta sombra será uma nuvem, porque nas nuvens se forma a chuva; e, assim como a nuvem, ao fazer sombra sobre a terra, a fecunda com a água que derrama, assim também a sombra do Espírito, ó Virgem imaculada, no ato em que vos cobrir, vos tornará fecunda; cumprindo-se aquele oráculo de Isaías: «Derramai, ó céus, o vosso orvalho; chovei, ó nuvens, o justo; abra-se a terra e faça germinar o Salvador» (Is 40, 5, 8).
Diz São Bernardo: «O Espírito Santo vos cobrirá com a sua sombra; porque esta maravilha da encarnação do Verbo era um mistério, e somente a Trindade quis operá-lo por si mesma, somente em Maria e somente com Maria; somente a ela também foi dado compreender aquilo que somente ela podia experimentar. Portanto, à pergunta que ela fez, como poderia isso acontecer, o anjo respondeu, em outras palavras: Por que me perguntas aquilo que em breve encontrarás em ti? Tu o saberás com certeza, e, sabendo-o, serás feliz; mas o saberás daquele mesmo que é o autor do prodígio; quanto a mim, não fui enviado a ti por outro motivo senão para anunciar-te a divina concepção virginal (Serm. 4, super Missus)».
Por isso, acrescentou o anjo, o santo fruto que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Ele será santo pelo Espírito Santo, santo pela união hipostática. Será Filho de Deus por natureza, ao passo que nós o somos pela graça… Maria responde: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra; e naquele instante o Verbo se fez carne: ― Et verbum caro factum est… ― Por um fiat o mundo recebeu a vida; por um fiat de Adão, o mundo recebeu a morte; pelo fiat de Maria, o Verbo revestiu-se de carne humana, e o mundo foi chamado de novo à vida! …
Muitas são as causas morais pelas quais Jesus Cristo quis encarnar-se e nascer na terra: 1° para resgatar-nos do pecado e do inferno, sofrendo e morrendo por nós…; 2° para ensinar-nos, com o seu exemplo, melhor ainda que com a sua palavra, o caminho das virtudes e da salvação…; 3° para unir-se à nossa natureza, tornar-se nosso irmão, ou melhor, nossa carne e nosso sangue…; 4° Jesus Cristo assumiu a humilde condição, a baixeza e as misérias da nossa humanidade, a fome, a sede, o frio, o calor, as pancadas, a cruz, os cravos, para tocar os nossos corações, convertê-los, compelir-nos a amar a Deus, e para que todos pudéssemos dizer com o grande Apóstolo: «Já não sou eu que vivo, mas é Jesus Cristo que vive em mim (Gl 2, 20). Diz Santo Ambrósio: «Jesus Cristo fez-se criança para que tu pudesses ser homem perfeito; foi envolto em faixas para que fosses libertado dos laços da morte; está num presépio para que tu subas aos altares; veio à terra para que tu vás ao céu: não encontra lugar na hospedaria, para que tivesses muitas moradas no paraíso. Este grande Deus, infinitamente rico, fez-se pobre por nós, para que com a sua indigência nos enriquecêssemos. A sua pobreza é, pois, o meu patrimônio; a fraqueza do Senhor constitui a minha força. Quis carecer de tudo, para que nada nos faltasse. O sopro da sua infância nos purifica; as suas lágrimas nos lavam e purificam dos nossos pecados. Portanto, ó meu Senhor Jesus, devo mais aos vossos sofrimentos, que me redimiram, do que às vossas obras, que me criaram (De Incarnat.)».
5° «Deus, isto é, o Verbo de Deus, revestiu a nossa carne, como diz Santo Anselmo, para que nos fosse dado compreendê-lo, vê-lo, ouvi-lo e gozá-lo (Lib, 2, c, 20)». Em suma, diz Santo Agostinho: «Deus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus (Serm. IX de Nativ.)». 6° «Nele estava a vida», diz São João (1, 4). Ele encarnou-se, portanto, para dar-nos a vida, a vida da graça e a vida da glória eterna. «Devemos alegrar-nos com a natureza humana, diz Santo Agostinho, por ter sido assumida pelo Verbo para ser constituída imortal no céu, e por o barro ter sido elevado a tamanha sublimidade que se assentasse à direita do Pai. Ora, quem não se congratulará com a própria natureza, já feita imortal em Cristo? E quem não aspirará a tornar-se imortal por Jesus Cristo? (Ut sup.)».
«Deus fez-se homem, observa Hugo de São Vítor, 1° para que o Criador fosse também Redentor; 2 para que o homem, libertado por Deus, pertencesse inteiramente a Deus; 3° para que Deus, mostrando-se semelhante ao homem, fosse por este amado de modo mais familiar; 4° para que o olho do coração fosse preenchido pela sua divindade, e o olho do corpo pela sua humanidade; e assim, quer o homem saísse para fora de si, quer se recolhesse dentro de si, encontrasse sempre abundantemente em Jesus Cristo aquilo de que se alimentar. A isso alude São Paulo naquelas palavras a Tito: ― Manifestou-se a bondade e a humanidade do nosso Salvador (Tit. 3, 4)».
Deus encarnou-se para cumular-nos de bens. Quem quiser formar uma ideia do imenso benefício que a encarnação do Verbo foi para nós, medite nestes quatro pontos: 1° Quem é aquele que se fez homem? 2° Em que se tornou ao fazer-se homem? 3° A quem se uniu ele pela encarnação? 4° Por que se uniu a ele?
1° Quem é aquele que reveste a nossa natureza, que assume a nossa carne? É o Verbo, que existe desde toda a eternidade; é o Deus grande e forte… «O médico onipotente, diz Santo Agostinho, desceu para curar um grande enfermo; humilhando-se até tomar carne mortal, é levado ao leito do moribundo (Serm. LIX de Verbo Domini)».
2° Em que se torna esse grande Deus na encarnação? Torna-se carne, faz-se carne: ― Verbum caro factum est. ― «A carne nos havia cegado, diz Santo Agostinho, e a carne nos curou (Tract. II. in Ioann.)». E em outro lugar: «A alma havia se tornado carne, deixando-se vencer pelos apetites carnais. Ora, o Verbo se fez carne, e o médico da humanidade preparou o remédio para curar, com a carne, os vícios da carne (Ut sup.)». Miserável, enfermo, desagradável, sujeito a males e dores de toda espécie é o corpo do homem; a nossa carne está corrompida por causa da concupiscência. Ora, o Verbo assumiu este corpo, esta carne, exceto o pecado. «Pois, escreve São Paulo, não temos um sumo sacerdote que não saiba compadecer-se das nossas fraquezas, mas um sumo sacerdote tentado e provado em tudo à nossa semelhança, exceto no pecado» (Hb 4, 15). Até este grau se abaixou a majestade divina: deixando os serafins, os querubins e todos os demais coros angélicos, desceu a este vale de lágrimas e misérias, a esta carne desprezível, e uniu-a a si com o mais estreito vínculo que pode existir, isto é, com o vínculo da união hipostática. Que diríeis de alguém que, encontrando uma ovelha conduzida ao matadouro, sentisse tanta compaixão dela que quisesse ser morto em seu lugar, ou antes, ser mudado, transformado em ovelha, para salvá-la? Não chamaríeis insensato um amor tão grande por uma ovelha? Pois bem, infinitamente maior foi o amor de Jesus Cristo por nós, quando se fez homem para morrer em lugar do homem, porque Deus supera infinitamente o homem mais do que o homem supera a ovelha.
«Deus, escreve São Tomás, comunica-se: 1) a todos por sua presença; 2) de modo especial aos justos pela graça; 3) de modo especialíssimo, à nossa carne por sua substância; e isso, 1. Naturalmente, 2. Sobrenaturalmente, 3. Pessoalmente. Ora, o Verbo, por meio da sua humanidade, elevou a si todos os homens e uniu-os, para que Deus seja tudo em todos (Opusc. LX)». Por isso, o cardeal Gaetano vê na encarnação a elevação de todo o universo na pessoa divina (3.a q. 1, art. 1). Além disso, com a encarnação do Verbo, o primeiro ser uniu-se ao último; com efeito, na criação o homem foi feito por último; ora, pela encarnação, unindo-se o homem ao Verbo, Deus retornou, por assim dizer, ao ponto do círculo de onde partira na criação das coisas.
3° A quem se uniu o Verbo ao fazer-se carne? Ao homem decaído, pecador, a um verme da terra. Ele não se encarnou por si, mas por nós. Nós somos, portanto, o termo último da encarnação. Ele nasceu corporalmente na carne, para nascer espiritualmente em nossa alma. «O que se pode imaginar, pergunta Santo Anselmo, mais doce e misericordioso do que a conduta de Deus para com o homem? Deus diz ao pecador, condenado aos tormentos eternos e absolutamente incapaz de redimir-se: Toma o meu Unigênito e dá-o em teu lugar; o Filho acrescenta: Toma também a mim e resgata-te (Lib. 2, c. 20)». Nem se poderia dizer coisa mais terna e, ao mesmo tempo, mais verdadeira, pois, quanto ao Pai, dele testemunhou Jesus Cristo: «Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito» (Jo 3, .16); observa São João que nisto se manifestou principalmente o amor de Deus para conosco: em ter enviado ao mundo o seu Unigênito, para que vivamos por ele (Jo 4, 9). Quanto ao Filho, basta recordar aquelas palavras que São Paulo lhe põe na boca, como dirigidas a seu Pai: «Não quiseste sacrifício nem oblação, mas formaste-me um corpo; não te agradaram os holocaustos pelo pecado. Então eu disse: Eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade» (Hb 10, 5-7).
4° O Verbo fez-se homem para salvar o homem do pecado…, da morte…, do inferno…, e das misérias da alma e do corpo, tornando-as meritórias… Pois o Verbo não teve para si outra coisa senão o aniquilamento, a pobreza, as privações, os opróbrios, os sofrimentos, a morte, a cruz; e tudo isso para libertar-nos de todo mal e cumular-nos de todo bem… «O Verbo do Pai, escreve o Nazianzeno, fez-se homem como nós e por nós, para unir Deus ao homem. É um só e mesmo Deus de uma parte e de outra, tendo-se depois feito homem para fazer de mim, mortal, um deus (In Distich.)». Não é, portanto, de admirar que Clemente Alexandrino diga que Jesus Cristo, com a sua encarnação, mudou a terra em céu e os homens em anjos, ou melhor, em deuses (Adhort. ad Gent.). Era isso precisamente o que Davi via quando exclamava: «Eu disse: Vós sois deuses, e todos filhos do Altíssimo» (Sl 81, 6); confirma-o o evangelista com estas palavras: «Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). O Verbo encarnou-se, portanto, para fazer dos homens outros tantos filhos de Deus, para transformá-los em Deus, como já dizia Orígenes: «O Verbo fez-se carne, mas por nós, que, sem a carne do Verbo, não poderíamos ser transformados em filhos de Deus; ele desceu para que nós subíssemos; transformou os homens em Deus aquele que fez de um Deus um homem. Ele habitou em nós, isto é, assumiu a nossa natureza, para tornar-nos participantes da natureza divina» (Hom. II). Também São Leão observa que «Jesus Cristo fez-se filho do homem para que nós pudéssemos ser filhos de Deus (Serm. de Nativ.)».
Considerai, pois, atentamente a imensidade infinita do benefício da encarnação. Aqui Deus não faz chover o maná, mas, abrindo todos os céus, todos os tesouros da sua divindade e as entranhas da sua misericórdia, lança-se sobre a terra, trazendo consigo todos os seus favores e as suas graças. A encarnação do Verbo é o fim, o ornamento, a forma e o complemento da criação dos anjos, dos homens e do universo.
Digno, porém, de particular consideração é o desígnio que teve o Verbo de nos proporcionar, na encarnação, um objeto e um exercício heroico de todas as virtudes. E 1) da fé, pela qual cremos que Deus se fez carne; pois quem jamais se disporia a crer que aquele menino deitado numa manjedoura, envolto em faixas, que geme e chora, seja o Deus criador e redentor, se uma fé heroica não no-lo mostrasse e não nos ordenasse crer sem hesitação? 2) da esperança, porque quem não esperará de Deus a salvação e todo bem, tendo diante dos olhos um Deus que se faz homem para poder sofrer e morrer, a fim de redimir e salvar o homem? … 3) da caridade; quem, com efeito, não se sentirá tomado de amor por aquele que tanto nos amou, que quis tornar-se nosso irmão e nossa carne? por aquele que disse: «Minha delícia é estar no meio dos filhos dos homens, os quais atrairei e ligarei a mim com cadeias de amor?» (Pr 8,31 ― Os 11,4); 4° da religião; não é, porventura, um ato heroico de religião prestar o mesmo culto de latria, com que se adora a Augusta Trindade, a um menino semelhante a nós, tão miserável e enfermo quanto nós? … 5° da justiça; é esplêndido exemplo e estímulo para praticar a justiça para com Deus e para com os homens o espetáculo de um Deus que derrama lágrimas num presépio, esperando derramar o sangue da paixão, para satisfazer à justiça divina pelas injúrias que lhe foram causadas por nossos pecados; 6° da paciência; haverá quem não suporte, resignado e generosamente, toda prova, por mais dura que seja, e até todo tormento, por mais cruel que seja, se medita seriamente a generosidade, a firmeza e a paciência heroica de um Deus ultrajado e crucificado, que dá as primeiras provas disso entre as paredes mofadas de um estábulo e as misérias de uma pobreza que confina com a indigência? … 7° da obediência; não vence, porventura, toda resistência e obstinação a vista de um Deus que, feito homem por amor, mas também por obediência, se mostra depois obediente até a morte, e morte de cruz, como diz o grande Apóstolo (Fl 2,8)? … 8° da humildade: como, com efeito, recusar-se a ela, quando se considera que o Verbo, o Filho de Deus, se rebaixou, humilhou-se, aniquilou-se, segundo a enérgica expressão de São Paulo, até o ponto de assumir a forma de escravo? (Fl 2,7).
Por que o Verbo se encarnou? «Jesus Cristo, responde São Pedro Crisólogo, veio carregar-se de nossas enfermidades e comunicar-nos suas virtudes; buscar as coisas humanas e dispensar as divinas; receber injúrias e distribuir honras; sofrer incômodos e doenças e trazer alegrias e curas; pois não sabe curar o médico que não conhece as enfermidades, nem sabe confortar e aliviar o enfermo aquele que não padece com o doente (Serm. L)». Santo Agostinho faz esta antítese: «O Deus grande veio ao homem criança, o Salvador ao náufrago, o vivo ao morto.
Porque somos pequenos, ele se fez pequeno; porque estamos mortalmente enfermos, ele primeiro se aproximou de nós e depois morreu para nos restituir a vida» (Serm. 11, de verbo Apost.).
E São Gregório Nazianzeno: «Jesus Cristo nasceu feito carne, para que nós nascêssemos segundo o espírito; nasceu no tempo, para que nós nascêssemos na eternidade; nasceu num estábulo, para que nós nascêssemos no céu (In Distich.)». Depois, em outro lugar, exorta-nos assim: «Jesus Cristo foi concebido, dai-lhe glória; Jesus Cristo desce do céu, ide ao seu encontro; Jesus Cristo vem à terra, elevai-vos, o mundo inteiro entoe hinos ao Senhor: os céus e a terra exultem de alegria; Jesus Cristo se fez carne, tremei e alegrai-vos: tremei por causa do pecado, alegrai-vos por causa da esperança; Jesus Cristo vem da Virgem; respeitai, ó mulheres, a virgindade, para que sejais mães de Jesus Cristo» (Orat. XXXVIII).
«Que outra coisa, pergunta São Bernardo, desejou mais a misericórdia deste grande Deus do que carregar sobre si nossas misérias? Esta foi a ambição de sua misericórdia; pois quanto menor se fez na humanidade, tanto maior se mostrou na bondade; quanto mais se humilhou por mim, tanto mais me é caro (Serm. 1, de Epiph.). Ó suavidade, ó graça, ó força do amor! O mais elevado de todos fez-se o mais baixo. Quem jamais fez isso? O amor, que não considera a própria dignidade, rico em compaixão, poderoso no afeto, eficaz na persuasão. Que coisa podemos encontrar de mais forte? O amor triunfa de Deus, para que entendas que foi efeito do amor o fato de um Deus dignar-se derramar sua plenitude e fazer-se igual a nós; de a grandeza por excelência, de ele, o único, ter querido ter companheiros (Serm. 46, in Cantic.)».
8. O CORPO DE JESUS CRISTO FOI COMPLETAMENTE FORMADO NO MESMO INSTANTE DA ENCARNAÇÃO; E IMEDIATAMENTE SE UNIRAM A ELE A ALMA E A DIVINDADE
É doutrina de São Tomás que, no mesmo instante em que ocorreu a concepção de Jesus Cristo, seu corpo resultou inteiramente formado, completo e perfeito; que a alma se uniu a ele naquele momento e o Verbo eterno dele se apoderou de imediato. Ensina ainda que a humanidade de Jesus Cristo foi, naquele instante, preenchida de sabedoria e de graça; que sua alma viu imediatamente a Deus na visão beatífica e recebeu, ao mesmo tempo, a graça infusa, pela qual conheceu que estava hipostaticamente unida ao Verbo e que, mediante essa união e elevação, prestaria a Deus glória e ação de graças infinitas. Ensina que Deus lhe revelou naquele momento sua vontade acerca da cruz que devia carregar e da morte à qual devia submeter-se, para redimir e salvar os homens. Ensina que Jesus Cristo se submeteu imediatamente a essa vontade, ofereceu-se a Deus em holocausto pelos pecados e pela salvação do mundo, com uma humildade, uma obediência, um respeito, um amor, uma resignação e uma alegria sem limites, dizendo: «Venho para cumprir a vossa vontade; quero o que vós quereis, ó meu Deus» (Sl 39,8) (Opusc. LX).
Muitos milagres acompanham a encarnação. 1° A missão do anjo; 2° o corpo de Jesus Cristo formado de uma só vez; 3° a onipotência do Espírito Santo, que ele mesmo forma o corpo de Jesus Cristo; 4° sua alma bendita, preenchida infinitamente, no mesmo instante de sua criação e de sua união, com a luz da glória e com todos os dons celestes, de modo que nada mais se lhe pode acrescentar no curso de sua vida mortal; 5° ele é concebido por uma virgem…; 6° nasce de uma virgem, sem que a pureza virginal seja ofuscada, mas sai do seio de Maria como entrou no cenáculo com as portas fechadas, como a luz penetra o cristal…; 7° a glória da alma não resplandece sobre seu corpo como a glória da divindade sobre sua alma, mas permanece nele mutável e passível; 8° a alegria beatífica não exclui a tristeza da alma nem a imensidade das dores. Eis alguns dos milagres desta maravilhosa união do Verbo com a natureza humana: e cada um desses prodígios é digno de profundas meditações.
A união do Verbo eterno com a humanidade de Jesus Cristo é tão substancial quanto a união da alma humana com o corpo; por isso a Igreja canta no Símbolo Atanasiano: «Assim como a alma racional e a carne formam um só homem, assim Deus e o homem formam um só e mesmo Cristo (Symb. Athanas.)». União hipostática significa a união pessoal da humanidade de Jesus Cristo com a pessoa do Filho de Deus. Esta é a mais perfeita das uniões, tão íntima e perfeita que em Jesus Cristo há uma só pessoa, que é a pessoa divina, embora nele existam duas naturezas, a divina e a humana. Quem jamais diria, vendo um homem: Há duas pessoas? pois o homem é composto de um corpo e de uma alma. Assim seria ridículo dizer de Jesus Cristo: Há dois Jesus Cristos, havendo nele a humanidade e a divindade. Do mesmo modo, não se poderia dizer: Há vários deuses, porque há três pessoas em Deus.
Em virtude da união hipostática, Jesus Cristo, enquanto homem, participa da natureza divina, porque subsiste nela na mesma pessoa divina do Verbo. Só Deus possui essencialmente a natureza, a essência divina: nenhuma pessoa pode participar do mesmo modo dessa essência divina. Os justos participam da natureza divina, não essencial nem pessoalmente, mas apenas em parte acidentalmente e em parte substancialmente. Participam da natureza divina acidentalmente pelo dom da graça santificante. Essa participação é chamada acidental porque poderia não ser concedida, o que não privaria a alma de sua existência natural. Por essa graça santificante, participamos da natureza divina com uma participação íntima. Participam depois da natureza divina substancialmente pela comunicação da própria natureza divina; por essa participação, somos adotados por Deus como seus filhos e herdeiros, e transformados e quase divinizados. Somos transformados em Deus, como o ferro é transformado no fogo, conservando, contudo, um e outro a própria natureza. Somente Jesus Cristo participa pessoalmente da natureza divina pela união hipostática.
«Beije-me com o beijo de sua boca» (Ct 1,1), suspirava a Esposa dos Cânticos. Esse beijo de Jesus Cristo é a união hipostática, pela qual a carne se une ao Verbo, o homem se une a Deus. Assim comenta São Bernardo essa passagem: «Deus beija e o homem é beijado; o beijo ou o abraço é a união de um e de outro, união que faz dos dois uma só pessoa, que é ao mesmo tempo Deus e homem (Serm. in Cantic.)». Em virtude dessa união hipostática, o Verbo é homem e o homem é Deus; diz-se um Deus-homem e um homem-Deus; diz-se que um Deus chorou, sofreu… morreu…
Isaías profetiza que o Espírito do Senhor repousará sobre o Messias: espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade, espírito de temor de Deus (Is 11,2-3). Esta expressão repousará — requiescet — significa: 1° a solidariedade, 2° a plenitude, 3° um lugar próprio e da mesma natureza. Isto equivale a dizer: o Espírito do Senhor preencherá Jesus Cristo forte e plenamente; permanecerá nele necessariamente e constantemente, como em um lugar e em um sujeito próprio e da mesma natureza, em virtude da união hipostática do Verbo. O Espírito Santo existe naturalmente no Deus feito homem.
Uma imagem da encarnação encontra-se no enxerto das árvores. Com efeito, 1° assim como se enxerta numa árvore brava e estéril uma árvore legítima e produtiva, assim, no jardim celeste do seio de Maria, o Verbo foi, pela ação do Espírito Santo, enxertado em nossa carne, em nossa humanidade brava e estéril, para que a humanidade e a divindade fossem unidas hipostaticamente em Jesus Cristo, de modo que houvesse nele uma só pessoa, um só sujeito, por assim dizer, uma só árvore; e este sujeito produz, por meio do ramo divino do Verbo, frutos excelentes e dulcíssimos. 2° Assim como o ramo é cortado da árvore para ser enxertado em outra, assim Jesus Cristo, descendo na carne, foi de certo modo separado do seio do Pai para ser transplantado do céu à terra… 3° Assim como se corta o ramo e se fende a árvore que se quer enxertar, assim a pessoa humana foi retirada e quase cortada na humanidade de Jesus Cristo, para que a pessoa divina tomasse o seu lugar, fosse enxertada nela e convertida na pessoa divina. 4° Assim como o ramo doméstico, enxertado na árvore brava, une-se perfeitamente a ela e toma-lhe a seiva, para formar uma só árvore, assim a humanidade, pela encarnação, encontrou-se associada ao Verbo e unida a ele numa só pessoa.
«Não há nada, diz São Bernardo, tão nobre e sublime quanto Deus, nem nada tão abjeto e vil quanto o barro; não obstante, Deus desceu com tanta bondade ao barro, e o barro ascendeu a tamanha dignidade em Deus, que tudo quanto Deus fez, o barro o fez, e tudo quanto o barro padeceu, Deus o padeceu nele (Serm. de Epiph.)».
Jesus Cristo, como Deus, Verbo do Pai, é um germe fecundíssimo, porque é da mesma natureza e do mesmo espírito de Deus; esse germe contém em si todas as perfeições, ou melhor, ele próprio é toda perfeição, é a flor eleita dos espíritos e das almas. Ora, esse germe divino foi enxertado no coração da humanidade, por meio da encarnação…
Jesus Cristo é um sol fecundante e vivificante, um germe celeste que, enquanto mantém as raízes no céu desde a eternidade, foi enxertado na terra no tempo, fazendo-se homem. Segundo o modelo divino do Verbo, foram modelados os espíritos angélicos e humanos; Deus os fez à semelhança do Verbo. A palavra desse Verbo eterno havia tirado todas as coisas do nada; e o sangue desse Verbo feito homem resgata o homem e o torna novamente semelhante a Deus, fazendo dele um deus. A palavra de Deus havia feito do homem apenas um homem; o Verbo encarnado faz do homem um deus, tornando-o participante da natureza divina (2Pd 1, 4).
O Filho de Deus é o verbo ou a palavra de Deus, a concepção de seu Espírito. O Pai o gera em sua mente divina, porque ele é o Verbo ou a palavra de sua mente. Nas coisas divinas, o verbo significa o Filho; significa e é a concepção mental de Deus Pai, a qual é ela mesma a geração do Filho que, como a palavra, representa e manifesta a sabedoria e a vontade do Pai. E esta é a causa por que se encarnou o Filho, não o Pai, nem o Espírito Santo; porque a encarnação aconteceu para que, por meio dela, Deus se manifestasse aos homens; ora, compete ao Verbo ou à palavra manifestar as coisas ocultas. Depois, assim como o Verbo é gerado pelo Pai na mente, convém que o mesmo Verbo seja gerado pela mãe na carne.
De várias maneiras se pode meditar sobre este excelso mistério. 1º Com compaixão…, 2º com alegria…, 3º com ações de graças…, 4º com amor…, 5º por imitação…, mas sempre com admiração e assombro, vendo a infinita bondade de um Deus que se digna descer até vis vermes da terra e fazer-se verme com eles (Sl 21, 6); e isso não por si mesmo, mas por nós, para reconciliar e unir a si esses vermes da terra, esses homens do nada, homens rebeldes e culpados, e fazer deles deuses por toda a eternidade! …
São Cirilo de Jerusalém diz que Jesus Cristo quis nascer de uma virgem, para significar que seus membros, isto é, os fiéis, deveriam nascer, pela virtude do Espírito Santo, de uma Igreja virgem (Homil. in Nativ.); segundo o Nazianzeno, depois, Jesus Cristo nasceu carnalmente para que nós nasçamos espiritualmente; quis nascer num estábulo, para nos proporcionar o nascimento no céu (Serm. de Incarnat.). «Toda razão exigia, diz São Bernardo, que um Deus nascesse somente de uma virgem, e que uma virgem desse à luz somente um Deus (Serm. II de Advent.)».
À vista do nascimento de um Deus, Davi exclamava: «A verdade brotou do seio da terra, e a justiça desceu do céu. Por isso, o Senhor derramará as suas bênçãos, e a nossa terra germinará e dará o seu fruto» (Sl 84, 12-13). Também o profeta Isaías previu, muitos séculos antes, este nascimento maravilhoso e assim delineava o menino: «Nasceu-nos um pequenino, foi-nos dado um filho; ele traz sobre os ombros o sinal de seu principado, e será chamado Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da paz» (9,6).
«Nasceu para nós, diz Santo Euchério, aquele que existia por si mesmo; foi-nos, portanto, dado pela divindade e nasceu da Virgem; nasceu para poder morrer; foi-nos dado aquele que não conhece princípio; nasceu para ser jovem, mais do que sua mãe; foi-nos dado aquele que é eterno como o Pai. Nasceu para morrer e foi-nos dado aquele que é fonte da vida: aquele que era nos foi dado, e nasceu aquele que não era; lá em cima impera e aqui se humilha; por si reina e por mim combate (De Nativ.)». «E está envolto em faixas, diz o Niseno, aquele que cingiu aos pulsos as cadeias dos nossos pecados (Homil. de Nativ.)».
Diz Santo Agostinho: «Aquele que é grande, que é o dia eterno dos anjos, faz-se pequeno no dia dos homens. O criador do sol aparece sob o sol; o arquiteto do céu e da terra mostra-se sob o céu, nascido na terra. A suma sabedoria faz-se pequenino por sabedoria; enche o mundo e está deitado numa manjedoura. Aquele que rege os astros suga o leite. Aquele que é supremo na forma de Deus faz-se imensamente pequeno na forma de homem, de tal modo, porém, que sua infinita grandeza não fica de modo algum diminuída por essa sua pequenez, e essa pequenez não é oprimida nem esmagada sob o peso da grandeza (Serm. 27, de Temp.). Ó beata infância, pela qual é reparada a vida do gênero humano! Ó jubilosíssimos e deleitosos vagidos, pelos quais escapamos ao ranger dos dentes e ao pranto eterno! Ó felizes paninhos, com os quais lavamos as manchas dos pecados! Ó esplêndida manjedoura, na qual, sobre o feno dos animais, repousou o alimento dos anjos! (Serm. 3, de Nativ.)».
O Verbo, ao fazer-se carne, tornou-se erva, pois toda carne, segundo diz Isaías, não é senão feno (40, 6). Ele quis ser deposto numa manjedoura, para que o homem, tendo-se tornado semelhante aos animais, comesse daquela erva divina e voltasse a ser homem, ou melhor, se tornasse Deus. Este é um pensamento de São Bernardo que, depois de dizer que o homem, pelo pecado, se tornara semelhante aos animais, assim o interpela: «Ó homem, reconhece, em teu infeliz estado de bruto, aquele que desconheceste quando eras homem. Adora na manjedoura aquele de quem fugias no paraíso; honra a manjedoura daquele cujo mandamento desprezaste; come, feito erva para ti, aquele que tiveste em aversão como pão angélico (Serm. 35, in Cant.)». Depois, em outro lugar, exclama: «Ó parto, único sem dor, único imaculado, que não somente não toca a integridade, mas consagra o templo do seio de Maria! Ó nascimento superior à natureza, que é o milagre dos milagres, que tudo repara pela virtude do mistério! Quem poderá narrar esta geração? Um anjo anuncia, a virtude do Altíssimo cobre com sua sombra, o Espírito Santo sobrevém; a Virgem crê, concebe pela virtude da fé, dá à luz virgem e permanece virgem. Quem não ficará extasiado de assombro? Nasce o Filho do Onipotente, Deus de Deus, gerado antes dos séculos; nasce o Verbo menino. Quem pode admirar suficientemente tantos prodígios?» (Serm. super Missus).
O estábulo fala, a manjedoura fala, os animais falam, as lágrimas falam, as faixas falam. E o que dizem? Pregam a humildade e a pobreza de Jesus Cristo; pregam a penitência e a austeridade da vida; pregam o desprezo das riquezas, das honras, das felicidades terrenas. Sim, Jesus Cristo clama, não com palavras, mas com fatos, do berço da manjedoura, como clamará do madeiro da cruz: «E até quando, ó filhos dos homens, tereis o coração endurecido e a alma cegada? Por que vos perdeis seguindo a vaidade e a mentira? (Sl 4,2). Vãos são todos os tesouros do mundo, vãs as suas grandezas, vãos os deleites, mais que vãs as honras. Desprezai os falsos bens e buscai os verdadeiros. As verdadeiras riquezas, as verdadeiras honras, os verdadeiros deleites estão no céu, junto de Deus, que os concede aos anjos e aos santos. Eis-me aqui para anunciá-los a vós; ofereço-vos, prometo-vos, dou-vos esses bens. Eu sou a Sabedoria do Pai, sou o Filho sabedoria, o Verbo menino, que sabe escolher o bem e rejeitar o mal. A mim, portanto, e não ao mundo mentiroso e enganador, dai ouvidos. Eu ensinei a escolher aquilo que escolhi; a desprezar aquilo que desprezei. Eu sou a vida e vos asseguro que a verdadeira vida, celeste, divina, consiste no desejo e no amor dos bens celestes e eternos. Escolhei, pois, esta vida e fugi daquela vida animalesca e carnal que conduz à morte temporal e eterna.
«A graça de Deus nosso Salvador, escrevia São Paulo a Tito, manifestou-se a todos os homens, para ensinar-lhes que, renunciando à impiedade e aos desejos mundanos, vivam sóbria, justa e piedosamente neste mundo, na bem-aventurada esperança de ver a manifestação da glória do grande Deus, nosso Salvador Jesus Cristo» (II, 11-13).
O Menino Jesus, esplendor do céu, está reclinado sobre um punhado de palha; uma manjedoura serve de leito àquele a quem pertencem a terra e todos os tesouros que ela contém. Está encerrado num estábulo aquele a quem os céus não podem conter: treme de frio e chora entre dois animais aquele que é a vida, o amor, a alegria dos anjos… Ah! se há entre nós alguém que compreenda, que siga a doutrina de Jesus Cristo, se há quem se glorie de ser verdadeiro cristão, renuncie ao amor das coisas terrenas, deponha-as, lance-as diante do berço de Jesus Cristo, para nunca mais retomá-las: ofereça generosa e resolutamente a Jesus Cristo o coração inteiro, todo amor, toda esperança, tudo o que possui e tudo o que é…
César Augusto ordena o recenseamento de todos os súditos do Império Romano. Obedientes a esse comando, Maria e José dirigem-se a Belém e, chegando, não encontrando alojamento, recolhem-se a um casebre no campo. Ali, entre dois animais, sobre um pouco de palha, a Virgem dá à luz o Messias, o Salvador do mundo; ali nasce o Deus da eternidade. Era justo que, tendo vindo procurar o homem, e tendo o homem se tornado semelhante aos animais, viesse procurá-lo entre estes. Augusto ordena o recenseamento enquanto todo o mundo está em paz: assim dispôs a Providência, para preparar o mundo para o nascimento daquele que, sendo o príncipe da paz, vinha trazer à terra a verdadeira paz…
Para anunciar ao mundo o nascimento do Salvador, a Virgem Mãe de Deus apareceu a Augusto, em Roma, trazendo nos braços o Menino divino e, em seguida àquela visão, da qual dão testemunho vários autores (V. SUÍDA, NICEFORO e outros em BARÔNIO ― Anais, no Apparatu), ele lhe ergueu um altar com esta inscrição: Altar do Primogênito de Deus: ― Ara primogeniti Dei. ― Para recordar esse prodígio, Constantino mandou construir no mesmo lugar um templo em honra de Maria, Mãe de Deus, templo que ainda existe, intitulado ― Ara coeli ―, onde ainda se mostra o lugar da visão de Augusto. Do mesmo modo, na igreja de Santa Maria em Trastevere, mostra-se o lugar onde, no tempo de Augusto, jorrou durante um dia inteiro uma abundantesíssima fonte de óleo, conforme atesta Orósio (Lib. 6, c. 20).
São Gregório pergunta por que, no nascimento do Salvador, Deus dispôs que se fizesse o recenseamento da terra; e responde que foi para mostrar que aquele que aparecia na carne designava seus eleitos para a eternidade (Homil. 8, in Evang.). Porque «inscrito com todos, observa Orígenes, a todos santificava e se unia ao mundo inteiro (De Nativ.)». Santo Agostinho faz notar que Jesus nasceu no momento do ano em que os dias começam a crescer, enquanto São João nasceu quando começam a diminuir; e é precisamente São João quem dizia: «É necessário que ele cresça e que eu diminua» ― Oportet illum crescere, me autem minui (Jo 3, 30). A essa observação podemos acrescentar outra, a saber, que Jesus Cristo nasceu na primeira noite da semana, isto é, no domingo, para que, no dia em que foi dito: «Faça-se a luz, e a luz foi feita» (Gn 1, 3), a verdadeira luz dissipasse as trevas da noite espiritual em todos os corações retos.
Todos os Padres, doutores e teólogos estão de acordo em afirmar que a virgindade de Maria permaneceu intacta tanto no parto como na concepção; ela permaneceu imaculada, e seu casto seio foi sempre aquele jardim fechado de que fala o Cântico.
Quem explicará a alegria, a felicidade, a ternura de Maria ao acolher ela, a primeira, em seus braços, o Menino Jesus? … Que beijos, que abraços, que adorável afeto, que arroubos de amor! Suárez opina que os anjos receberam Jesus Cristo no instante de seu nascimento e o depuseram nos braços de Maria (De Nativ.).
O berço de Jesus Cristo é venerado na basílica de Santa Maria Maior, em Roma.
Narra o Evangelho que, perto do lugar onde Jesus havia nascido, alguns pastores vigiavam, guardando os rebanhos. De repente, um anjo aparece-lhes, uma grande luz os envolve e os enche de temor. Mas o anjo os reanima, dizendo: Não temais, mas alegrai-vos, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo. Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo, o Senhor. E vós o reconhecereis por este sinal: encontrareis um menino envolto em faixas e reclinado numa manjedoura. Então se uniu ao anjo uma multidão da milícia celeste, que louvava a Deus e cantava: Glória a Deus nas alturas, e paz aos homens de boa vontade. Desaparecidos os anjos, os pastores disseram uns aos outros: Vamos a Belém, para ver o que aconteceu e que o Senhor nos anunciou. Foram e encontraram Maria e José, e o menino deitado na manjedoura. Vendo-o, reconheceram que era verdade o que haviam ouvido acerca daquele menino; a notícia se espalhou, e todos quantos souberam do ocorrido admiraram o que os pastores haviam anunciado. Maria, porém, conservava a lembrança de todas essas coisas e as meditava em seu coração. Os pastores voltaram aos rebanhos, dando louvor e glória a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido (Lc 2, 8-20).
Por que o anjo apareceu antes de tudo aos pastores? 1° Porque as pessoas simples e pobres agradam mais a Deus do que as ricas e astutas etc.; 2° porque aqueles pastores levavam a vida dos antigos patriarcas…; 3° porque Jesus Cristo devia ser o pastor das almas…; 4° para ensinar aos pastores das almas que eles devem conhecer os mistérios de Deus; que Deus os revela a eles antes que aos outros, para que depois instruam suas ovelhas…; 5° porque Jesus Cristo era o cordeiro que devia ser oferecido pela salvação do mundo. Por isso, convinha que se fizesse ver, antes que a outros, pelos pastores de cordeiros… Eles gozam da inestimável felicidade de terem visto primeiro, depois de Maria e José, o Messias prometido. Deus manifesta-se de modo inteiramente especial aos bons pastores de almas.
Por que Jesus Cristo quis escolher para lugar de seu nascimento a pequena cidade de Belém, em vez de Jerusalém, Roma ou qualquer outro lugar? 1° Para cumprir a palavra que havia dado por meio do profeta Miqueias: «E tu, Belém Efrata, és pequena entre as cidades de Judá, mas de ti sairá aquele que reinará sobre Israel, e cuja origem é desde o princípio e desde os dias da eternidade» (Mq 5, 2). 2° Para que Belém mostrasse que Jesus era o filho de Davi de Belém, a quem Deus o havia prometido; e que, portanto, era o verdadeiro Messias. São Lucas alude a essa razão quando observa que José partiu de Nazaré, onde habitava, e foi à Judeia, à cidade de Davi (2, 4). 3° Para que, nascendo num lugar humilde e quase desconhecido, mostrasse desde logo o proceder de seu poder, que costuma escolher, como diz São Paulo, aquilo que o mundo considera loucura, para confundir o que o mundo tem de mais sábio (1Cor 1, 27). 4° Porque Belém se encontrava no caminho de Jerusalém e, como Jesus Cristo, segundo diz São Gregório, pela humanidade que havia assumido nascia como hóspede em casa alheia, convinha que nascesse no caminho e em viagem (Homil. 8, in Evang.). 5° Para nos merecer, em virtude desse nascimento pobre e humilde, um nascimento sublime pela graça e pela glória, e para nos conquistar um lugar no paraíso… 6° São Leão diz que Jesus Cristo escolheu Belém para nascer, porque havia tomado a forma de escravo; escolheu Jerusalém para morrer, para condenar o orgulho e as riquezas (Serm. de Nativ.). Ah, sim! exclama Santo Agostinho, «todas as circunstâncias desse nascimento são uma escola, um ensinamento de humildade (Serm. XXVII)». Mas, se assim é, conclui São Bernardo, como o mundo ensina coisas inteiramente contrárias e opostas às que Jesus Cristo ensina e recomenda, segue-se necessariamente que ou Jesus Cristo se engana, ou o mundo está fora do caminho; mas é impossível que a divina sabedoria se engane; portanto, o mundo e seus seguidores estão fora do caminho (In Nativ.). 7° Belém é palavra hebraica que significa casa do pão; ora, Jesus Cristo é o verdadeiro pão descido do céu. Belém traz o nome de Efrata, que significa jardim fertilíssimo; de Belém, portanto, convinha que o mundo recebesse a flor da graça, o fruto da imortalidade. Belém tornou-se, diz o Nazianzeno, pelo nascimento do Salvador, o oriente da terra, a metrópole do mundo (Serm. de Incarnat.).
Desde o princípio do mundo, as almas justas que estavam na terra ou no limbo esperavam e suspiravam ardentemente pelo Messias prometido. «Senhor, dizia Moisés, eu vos suplico que envieis aquele que deveis enviar» (Ex 4, 13). «Despertai o vosso poder, ó Deus, e vinde, exclama o Salmista; mostrai-nos a vossa face e seremos salvos» (Sl 79, 3-4). «Abaixai os vossos céus e descei» (Sl 143, 5). O Eclesiástico implorava ao Senhor que apressasse o tempo e acelerasse o fim, para que os homens narrassem seus prodígios (36, 10). «E quando será, exclamava Isaías, que abrireis os céus, ó Senhor, e descereis!» (64, 1). «Ah, sim! derramai, ó céus, o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o justo; abra-se a terra e germine o Salvador» (45, 8).
E, antes dos profetas, já o patriarca Jacó, contemplando em espírito o Messias, chamava-o: «O desejo das colinas eternas» (Gn 49, 26), e, voltando-se para Deus, dizia-lhe que viveria na expectativa de seu salvador (Gn 49, 18).
Finalmente, aproximando-se os tempos, o profeta Habacuc fazia votos para que Deus salvasse o seu povo e mostrasse o seu poder (Hab 3,2). E Ageu assegurava que viria o Desejado de todas as nações (Ag 2,8). Com efeito, Ele é sumamente desejável; o mundo inteiro sentia uma imensa necessidade da vinda do Salvador, para ser libertado de suas misérias.
Uma terra árida e seca espera uma chuva abundante, suave e fecunda; assim, durante quarenta séculos, os justos esperam, desejam e invocam do céu o Messias, como suave orvalho para aplacar a sua ardente sede.
Por isso, assim que as nações ouviram São Paulo e os outros apóstolos narrar a vida de Jesus Cristo, a sua doutrina, a sua moral, a sua santidade e os seus milagres, voltaram-se imediatamente para Ele e converteram-se: desejaram ir até Ele, adoraram-no, amaram-no e, à sua imitação, deram a própria vida por Ele, na pessoa dos mártires. Isto demonstra que Ele era verdadeiramente a expectativa das nações (Gn 44,10), como o chamara Jacó.
O próprio Jesus Cristo desejava, mais ardentemente que os homens, a sua vinda e a nossa salvação. O seu ardente desejo de arrancar-nos ao demônio, à morte e ao inferno impeliu-o a encarnar-se, a nascer e a morrer pelos homens. Jesus Cristo ama com amor infinito a Igreja, sua esposa; seu desejo é cumulá-la de bens; assim como é desejo da Igreja vê-lo, amá-lo e possuí-lo, e fazê-lo ver pela fé, amar, servir e possuir por todos os seus filhos, pelo universo inteiro.
O mundo suspirava e esperava o Messias como o Salvador da terra, o esplendor da luz eterna; o sol da justiça, para iluminar o século imerso na cegueira, no lodo, na ignorância e na infidelidade; para que curasse, justificasse e tornasse felizes aqueles que estavam nas trevas e nas sombras da morte…
Jesus Cristo no céu é o desejo de todos os santos e de todos os anjos; todos anseiam gozar cada vez mais da sua divindade, da sua humanidade e de todos os seus divinos atributos, e Ele satisfaz plenamente todos os seus desejos… Jesus Cristo é o desejo de todas as almas virtuosas e piedosas que querem agradar somente a Ele, que procuram crescer sempre no seu amor e no seu serviço… «Ó meu Jesus, exclama São Bernardo, definho de desejo por vós! Quando será que vireis, que me fareis feliz, quando me embriagareis de vós mesmo? Jesus, rei admirável, nobre triunfador, doçura inefável, todo desejável! Quando visitais o meu coração, então vejo a verdade; «a vaidade do mundo é para mim fumaça e mau cheiro; o vosso amor o arrebata» (In Hymno).
«Ele é todo desejável, diz a Esposa dos Cânticos; tal é o meu amado, e Ele é o meu amigo» (Ct 5,16).
São Paulo não se cansava do doce nome de Jesus, e tinha-o continuamente nos lábios. Nada menos que duzentas e dezenove vezes ele repete este nome sagrado em suas quatorze Epístolas; e quatrocentas e uma vezes o nome de Cristo. «Deus, escrevia ele aos Filipenses, deu ao nosso Salvador um nome que está acima de todo outro nome; para que, ao Nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e no inferno» (II, 9-10).
«Uma virgem conceberá, predissera Isaías, e dará à luz um filho que será chamado Emanuel» (Is 7,14), o que quer dizer: Deus conosco, Deus está conosco, Deus nos pertence.
Portanto, o Emanuel é Deus conosco, é o Deus forte que combaterá e vencerá o demônio, o mundo, o pecado, a carne e todo inimigo. O Emanuel é o Admirável, o Conselheiro, o Deus poderoso, o Pai do futuro século, o Príncipe da paz; o Anjo do grande conselho, diz Isaías (Is 9,6). O Emanuel é o Senhor altíssimo e infinitamente digno de louvor, que se faz pequeno por nós e infinitamente amável. O Emanuel é o nosso Deus, que preparou a terra desde a eternidade; que envia a luz, e ela vai; que a chama de volta, e ela obedece tremendo, diz Baruc. É o Deus que colocou as estrelas, cada uma em seu lugar, e elas difundem o seu resplendor, dançando festivamente; ao seu nome, responderam: eis-nos aqui; e servem com alegria Àquele que as criou. Ele é o nosso Deus, e nenhum outro estará diante dele. «Depois disso, diz o profeta, ele foi visto sobre a terra e conviveu com os homens» (Br 3,38). O Emanuel é Jesus Cristo, nossa redenção, nosso desejo, nosso amor, o Deus criador de todas as coisas feito homem… O Emanuel é o menino de Belém que, reclinado num presépio, reina ao mesmo tempo no céu… O Emanuel é o Verbo encarnado; é a palavra da vida que existia desde o princípio, diz São João, e que nós ouvimos com os nossos ouvidos, vimos com os nossos olhos e tocamos com as nossas mãos (1Jo 1,1). O Emanuel, diz São Paulo, é o grande mistério da piedade; Deus manifestado na carne, justificado no espírito, contemplado pelos anjos, anunciado às nações, crido no mundo, elevado à glória (1Tm 3,16). O Emanuel é Elohim habitando conosco; é Javé tornado nosso irmão, nosso mestre, nosso amigo, nosso guia, nosso médico, nosso esposo, nossa salvação para a eternidade.
Quem, pois, não amará, ó filhos de Adão, este grande Deus? Ah! Amai, abraçai, adorai o filho de Maria, saboreai as doçuras do vosso Emanuel, deste Homem-Deus, deste Deus-Homem, o mais belo entre todos os filhos dos homens. Jesus Cristo é o Emanuel, Deus conosco: 1° realmente e corporalmente no presépio e na cruz…; 2° no augusto Sacramento do altar…; 3° por meio da sua providência, do seu governo e do seu amor…; 4° por meio dos seus representantes, o Papa, os bispos e os sacerdotes…; 5° pelo santo Evangelho e pela cruz…; 6° pelo seu auxílio, pela sua graça, pelas suas luzes, pelas suas consolações, pela sua força e proteção…
«Destilai, ó céus, o vosso orvalho» (Is 45,8), disse Isaías, suspirando por Jesus, com belíssima figura; e eis os traços de semelhança: 1° Desconhecida é a origem do orvalho; oculta e misteriosa é a encarnação do Verbo… 2° O orvalho, por sua qualidade de vapor puro e sublime, que se transforma em água, é expressivo símbolo da virgindade de Maria… 3° O orvalho tempera os grandes calores; torna pura e fresca a atmosfera; alivia e dilata a respiração dos seres vivos; Jesus Cristo extingue em nós as ardências da concupiscência e faz-nos respirar a pura atmosfera da graça… 4° O orvalho participa da terra e do céu, ao qual retorna feito vapor; Jesus Cristo tem em si a natureza humana, mas, ao mesmo tempo, a divina, e torna divinos e celestes os seus fiéis servos. «O primeiro homem, escreve São Paulo, formado da terra, é terreno; o segundo homem, vindo do céu, é celeste. Assim como trouxemos a imagem do homem terreno, tragamos também a marca do homem celeste» (1Cor 15,47-49). 5° O orvalho deposita-se como suco benéfico sobre as sementes, os brotos, as plantas e as flores, e os fecunda, vivifica e nutre: de modo semelhante, Jesus, com o orvalho da sua graça, fecunda, vivifica e torna fértil o mundo; infunde-lhe nas veias o suco que faz nascer santos, confessores, virgens, doutores, mártires, bispos, missionários, religiosos, esposas castas e viúvas continentes; e, em cada estado, em cada vocação, em ambos os sexos, derrama com profusão os seus dons, favores e benefícios… 6° O orvalho recorda o maná, alimento suave e doce, e Jesus Cristo dá-se a nós como Alimento na santa Eucaristia e como remédio para os males da alma; Ele é aquele maná, aquele pão descido do céu, aquele alimento dos anjos que, segundo diz a Sabedoria, contém em si todos os sabores (Sb 16,20). E, pela virtude deste maná celeste, deste pão sagrado, não somente vivemos e resistimos às tentações do mundo, do demônio e da carne, mas asseguramos também a vida de glória no céu e ressuscitaremos bem-aventurados por toda a eternidade… 7° O orvalho tem certa semelhança com o diamante; a humanidade de Jesus Cristo é verdadeiro diamante divino, que forma o anel da aliança do Verbo com a sua Igreja e com a alma fiel…
A pérola, ou pedra preciosa, de que fala São Mateus (13,45), é Jesus Cristo. Esta pérola, pequena pela humildade, é infinitamente preciosa pelo valor. Levemo-la, levemo-la como coroa e adorno. Resplandeça sobre nossa fronte pela fé e pelo desprezo do respeito humano; penduremo-la nas orelhas pela obediência a Deus, à Igreja e aos superiores; adornemos com ela o pescoço e o peito pela caridade, os braços pelo exercício das boas obras; coloquemo-la no dedo, como anel, pela fidelidade, pela pureza e pela prudência; cinjamo-nos com ela como com um cinto, pela castidade; adornemos com ela nossas vestes, pela modéstia.
«Eu sou a verdadeira videira», disse Jesus Cristo de si mesmo (Jo 15,1). Ora, por que Jesus se compara antes à videira do que a outra planta? 1° pela abundância dos frutos; 2° pela doçura dos mesmos; 3° por causa do vinho…; 4° pela ramificação dos sarmentos…; 5° o sarmento da videira dobra-se e abaixa-se…; 6° ele se deixa manejar à vontade…; 7° o fruto é posto sob o lagar. Ora, Jesus Cristo produz os frutos mais doces; é o vinho que faz germinar os virgens (Zc 9,17); estende seus benefícios a todos os séculos e a todos os lugares; abaixa-se até nós e compadece-se de todas as nossas misérias; fez-se flexível até à cruz; espalha por toda parte o delicioso perfume de seus exemplos e de sua celeste moral; foi submetido ao lagar em sua paixão…
«Assim como o sarmento não produz fruto se não estiver unido à videira, assim também vós, dizia Jesus Cristo aos Apóstolos, não produzireis fruto algum se não permanecerdes unidos a mim. Eu sou a videira, e vós, os sarmentos. Quem está unido a mim, e eu a ele, esse dará muito fruto; sem mim, nada podeis fazer. Quem não permanece em mim será lançado fora, como o ramo cortado, e secará para ser queimado» (Jo 15,4-6). Com estas palavras, o Salvador nos ensina três coisas: 1° com ele tudo podemos. 2° Por meio dele temos a graça e a glória eterna. 3° Fora dele não servimos para nada. «Sem Jesus Cristo, diz São Jerônimo, nossa vida está inteiramente perdida (Lib. sup. Ioann.)». Assim como o sarmento extrai da videira a vida, a seiva e o fruto, assim o cristão extrai de Jesus Cristo, que é o tronco, a vida, as boas obras e a salvação… «O sarmento separado da videira já não serve para nada, observa Santo Agostinho; ou permanece unido ao tronco, ou é lançado ao fogo; se não estiver com a videira, estará no fogo (Tract. LXXXI, in Ioann.)».
Jesus Cristo é a verdadeira árvore da vida, transplantada, por meio da encarnação, do paraíso para a terra; daqui, depois, transportada novamente ao céu, dá às almas eleitas sua visão, sua posse, a vida imortal e a glória, enchendo-as continuamente de suaves desejos e saciando-as por toda a eternidade… Jesus Cristo, diz São Dionísio, é chamado árvore da vida porque alimenta de vários modos e abundantemente seus fiéis, até que passem da vida da graça à vida da glória. Este alimento é o pão das lágrimas, das cruzes e das boas obras, os dons da graça, os consolos da virtude, a esperança do céu; este alimento é o pão eucarístico (In Evang. Ioann.). Quem sincera e fortemente se abraça a Jesus Cristo sente vir a si, dessa árvore da vida, a vida incorruptível…
«A sua vinda está preparada como a da aurora» (Os 6,3), profetizava Oseias, aludindo ao nascimento de Jesus Cristo, que dissiparia as trevas da ignorância e do pecado e iluminaria a humanidade com a luz de sua doutrina e de sua santa vida. E, com toda razão, ele é comparado à aurora, tanto como Deus quanto como homem. 1° Assim como a aurora é a primeira luz do dia, assim o primeiro ato de Deus Pai é a geração eterna de seu Filho; por esta aurora entende-se, portanto, sua eternidade, segundo as palavras do Salmista: «Eu te gerei de meu seio antes da aurora» (109,4); assim, o primeiro ato de nossa redenção foi a geração humana e a encarnação do Verbo. 2° A aurora é uma meia-luz que vai crescendo; o Menino Jesus cresce em idade, em sabedoria e em graça diante de Deus e dos homens. Jesus crescia, não interiormente, mas exteriormente, em idade, fama, milagres etc.; interiormente, era perfeito desde o primeiro instante de sua encarnação… 3° A luz da aurora é puríssima, deliciosa e agradável aos homens cansados das densas trevas de uma longa noite; de modo semelhante, a vinda de Jesus foi preciosíssima e felicíssima para os mortais sepultados havia quatro mil anos nas sombras e na noite tenebrosa da morte.
As vítimas da antiga lei representavam Jesus Cristo, que é a vítima da nova aliança: verdadeira vítima que faz desaparecer todas as outras, as quais não eram senão uma sombra. O boi denotava a força de Jesus Cristo; a ovelha representava sua inocência; o bode figurava sua condição de pecador; a pomba, sua candura, sua doçura e sua íntima união com Deus…
Davi, que golpeia e derruba Golias, é figura de Jesus Cristo, que vence e prostra o demônio e o inferno…
«Sou como um manso cordeiro levado ao matadouro» (Jr 11,19), disse de si mesmo aquele Jesus que, desde a origem do mundo, havia sido figurado como cordeiro imolado: 1° no sacrifício de Abel; 2° no carneiro que Abraão imolou em substituição de Isaac…; 3° no Cordeiro pascal, que devia ser sem mancha. «Nossa Páscoa, dizia o Apóstolo, é Cristo imolado por nós» (1Cor 5,7). «O Cordeiro redimiu as ovelhas, canta a Igreja na Sequência pascal; Jesus Cristo inocente reconciliou com o Pai os pecadores (Sequent. Victimae)». 4° Jesus Cristo era representado no sacrifício perpétuo…
Figura de Cristo era também o véu do templo; assim como este permanecia diante do Santo dos Santos e o ocultava, assim a humanidade de Jesus Cristo escondia sua divindade. Pela carne de Jesus Cristo, o céu foi aberto, assim como, levantando-se o véu, via-se o Santo dos Santos. O véu do templo foi rasgado na morte de Jesus; e, por sua morte, por sua carne dilacerada, foi-nos dado o céu.
Jesus Cristo, verdadeiro pão descido do céu, verdadeira arca da aliança, cumpriu todas as figuras; por isso, ao aparecer ele, todas as figuras desapareceram.
Também todos os personagens mais eminentes da antiga lei eram figura do Messias: Abel, Henoc, Noé, Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, Josué, Sansão, Davi, Salomão, Elias etc….
Todas as profecias encontram sua explicação e seu cumprimento em Jesus Cristo; ele é, portanto, o verdadeiro Messias prometido e o Filho de Deus.
«O cetro não será tirado de Judá, nem faltará príncipe de sua estirpe; até o dia em que venha aquele que deve ser enviado e que será o esperado das nações» (Gn 49,10). O cetro, isto é, o poder de governar, permaneceu de fato na casa de Judá até por volta dos tempos de Jesus Cristo; quando ele apareceu, reinavam sobre a nação judaica príncipes estrangeiros; e nunca mais, desde então, a casa de Israel teve príncipes e chefes próprios que a governassem…
Baruc predissera a encarnação do Verbo quando, depois de enumerar os atos da grandeza e do poder de Deus em favor do povo judeu, diz: «Depois disso, foi visto sobre a terra e habitou com os homens» (Br 3,38).
O Messias devia ser judeu e da estirpe de Davi. Toda a Escritura transborda de promessas feitas por Deus a Davi, a Jacó, a Isaac e a Abraão; e Jesus Cristo é chamado, em toda parte, filho de Davi…
Isaías predissera que o Messias, o Homem-Deus, nasceria de uma virgem (Is 7,14). Ora, entre todos os nascidos de mulher, somente Jesus Cristo nasceu de uma virgem…
Segundo Miqueias, o Messias devia nascer em Belém (Mq 5,2). Os príncipes dos sacerdotes estavam muito bem instruídos acerca dessa profecia e foi precisamente a ela que se referiram quando, interrogados por Herodes sobre onde nasceria o Cristo, para dar resposta aos Magos, responderam: «Em Belém de Judá, pois assim está escrito na profecia» (Mt 2,5-6). Ora, a história e a tradição atestam que Jesus Cristo nasceu no dia 25 de dezembro, em Belém, num presépio, da Virgem Maria: ali os Magos o encontraram e o adoraram.
Davi predisse que os habitantes do deserto, os reis das ilhas e de longínquas regiões viriam prostrar-se aos pés do Messias, o adorariam e lhe ofereceriam preciosos dons (Sl 71,9-10). A festa da Epifania é monumento perpétuo do cumprimento dessa profecia.
Isaías havia dito, prevendo a fuga de Jesus para o Egito: «Eis que o Senhor, levado sobre uma nuvem ligeira, entrará no Egito, e, à sua aparição, os ídolos do Egito estremecerão» (Is 19,1). Ora, estas palavras encontram seu exato cumprimento e confirmação nestas de São Mateus: «O anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e permanece ali até que eu te avise; porque acontecerá que Herodes o procurará para matá-lo. E ele, despertando, tomou o menino e sua mãe durante a noite e retirou-se para o Egito» (Mt 2,13-14).
Encontramos em Jeremias assim indicada a matança dos inocentes: «Uma voz ressoou, voz de pranto, de luto, de angústia, e é a voz de Raquel, que chora inconsolavelmente seus filhos, porque já não existem» (Jr 31,15). Ora, o Evangelho de São Mateus, referindo-se precisamente a essa profecia, diz: «Herodes, vendo-se enganado pelos Magos, enfureceu-se grandemente e mandou matar todos os meninos que havia em Belém e em todos os seus arredores, de dois anos para baixo» (Mt 2,16).
Malaquias havia anunciado que Deus enviaria um anjo para preparar o caminho do Messias e que, pouco depois da aparição desse anjo, viria ao seu templo o Dominador que os judeus esperavam, o anjo da aliança que eles suspiravam (Ml 3,1). Esse anjo prometido por Deus como precursor do Messias aparece clara e distintamente no Batista, o qual afirmava de si mesmo que era «A voz daquele que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor» (Lc 3,4). E note-se que Malaquias, que anuncia como próxima a vinda do Messias, é de fato o último dos profetas.
«Enviai, ó Senhor, o Cordeiro dominador da terra», rogava Isaías (Is 16,1). E São João Batista aponta este Cordeiro quando exclama: «Eis o Cordeiro de Deus» (Jo 2,29),
O mesmo profeta Isaías dizia assim: «Eis o vosso Deus: ele virá pessoalmente e vos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos; o coxo saltará como um cervo e a língua dos mudos se desatará» (Is 35,4-6). Quando jamais e por quem se viram realizados tais prodígios, senão por Jesus Cristo? E que outra coisa é a vida de Jesus, narrada nos santos Evangelhos, senão uma sucessão contínua de milagres, uma poderosa demonstração do cumprimento dessa profecia? Basta recordar a resposta dada pelo Salvador à embaixada que lhe foi enviada pelo Batista, enquanto este estava prisioneiro de Herodes (Lc 7,19-22), para ficarmos inteiramente convencidos disso.
«Enviarei, havia dito Deus pela boca de Jeremias, muitos pescadores, os quais pescarão os homens» (Jr 16,16). Ora, Jesus, depois de escolher pescadores para seus apóstolos, diz-lhes: «Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens» (Mt 4,19). E os doze pescadores conquistam o mundo inteiro, tiram-no do oceano do erro, do delito e da idolatria e lançam-no no mar da verdade, da virtude, da graça e da glória! …
«Alegra-te e exulta, ó filha de Sião, exclama Zacarias; pois eis que o teu rei vem a ti, justo e salvador; ele será pobre, e por isso virá montado numa jumenta e no seu jumentinho» (9, 9). Ora, quem não vê cumprida esta profecia na entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém, narrada pelo Evangelho e recordada pela Igreja no domingo de Ramos?
«O Senhor me chamou antes do meu nascimento, dissera o próprio Jesus pela boca de Isaías; ele manifestou o meu nome antes que eu saísse do ventre de minha mãe» (49, 1). Pois bem, cumpriu esta palavra o anjo que disse a José: Maria, tua esposa, dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus (Mt 1, 21).
O anjo Gabriel aparece a Daniel e claramente lhe anuncia, ou antes, fixa a época da vinda daquele a quem chama o Santo dos Santos, o Cristo-Rei; determina ainda o tempo da morte deste Cristo-Rei e significa-lhe que o povo judeu será rejeitado (Dn 9, 24-26). Tudo se cumpriu literalmente, no tempo de Jesus e por Jesus.
Miqueias proclama os benefícios e as grandezas de Jesus Cristo, a sua fama, a conversão dos gentios: «Aquele que há de vir, diz ele, permanecerá firme e inabalável, e conduzirá o seu rebanho com a força de Javé, com a glória do nome de Javé, seu Deus; os povos se converterão a ele, porque a sua glória resplandecerá até os últimos confins do mundo. E ele será a paz» (5, 4-5). Dezenove séculos afirmam o cumprimento desta profecia…
O que foi revelado cumprir-se-á a seu tempo, dizia Habacuc; a hora ainda está distante, mas não vos enganará. Se tardar em aparecer, espera-o, pois certamente virá e não tardará para sempre (2, 3).
Ageu prenuncia a apresentação de Jesus no templo com estas palavras: «Eis o que diz o Senhor dos Exércitos: Ainda um pouco de tempo, e então abalarei o céu e a terra, o mar e o universo. Comoverei os povos, e virá o Desejado das nações, e encherei este templo de glória. A glória deste templo será maior que a do primeiro, diz o Senhor dos Exércitos, e eu darei a paz neste lugar» (Ag 2, 7, 10). Tudo isso aconteceu no dia em que Maria e José apresentaram o Menino Jesus no templo. Pois, encontrando-se naquela hora no templo de Jerusalém o santo ancião Simeão, a quem o Espírito Santo havia prometido que não morreria antes de ter visto o Cristo Senhor, tão logo Maria lhe apresentou o Menino, ele imediatamente o tomou nos braços e, cheio de espírito divino e de alegria, entoou um hino de louvor e de ação de graças a Deus, exclamando: «Agora, Senhor, deixarás o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram o Salvador que nos deste; aquele que preparaste diante de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo». Também a profetisa Ana, de oitenta e quatro anos, pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino a todos os que esperavam o Messias (Lc 2, 29-39).
Davi havia assinalado como sinal para reconhecer o Messias a ira, o ódio e a perseguição unânime dos grandes da terra e dos chefes do povo, conjurados para a sua ruína (Sl 2, 2). O cumprimento disso foi manifestíssimo, sobretudo na paixão de Jesus Cristo.
A missão do Messias era, segundo os profetas, tomar sobre si os pecados do mundo e sofrer-lhes o castigo e a pena. Mas, para que não restasse dúvida acerca da pessoa em quem se cumpriria este decreto divino, eis que o Senhor faz predizer aos seus inspirados quase todos os tormentos particulares que seu Filho deveria padecer e, por vezes, até as mais minuciosas circunstâncias. Claro e circunstanciado acima de todos é Isaías, a tal ponto que, ao lê-lo, parece ouvir-se não um profeta, mas um evangelista; e, comparando a imagem que ele nos pinta do Messias paciente com aquela que nos deixaram de Jesus as testemunhas de sua paixão, nós as encontramos idênticas. Consultai o capítulo LIII, dos versículos 1 a 12, e nele encontrareis previstos os bofetões, os socos, as chicotadas, os escarros, as feridas e as dilacerações que tornaram o rosto e a pessoa do Redentor tão desfigurados, maltratados e feridos, que quase já não se reconhecia neles a imagem de um homem. — Encontrareis indicadas as injúrias, as blasfêmias, os insultos, os ultrajes, as zombarias, os sarcasmos e os motejos de que foi alvo, a tal ponto que se teria acreditado ser ele o último dos homens, a escória dos malfeitores, o lixo da plebe. — Encontrareis mencionados tanto o julgamento injusto a que teve de submeter-se quanto os ladrões entre os quais o crucificaram, e o constante silêncio e a prodigiosa mansidão por ele conservada, tão inalterável que o fazia assemelhar-se a um cordeiro levado à tosquia. — E não é esquecido o abandono em que é deixado por todos, nem a coroa de espinhos com que lhe cingem a cabeça.
Jeremias lamentava que o Cristo seria saciado de opróbrios e feito objeto de escárnio da plebe (Lm 3, 30), (Ib. 14). Não é este o Ecce homo de Pilatos?
Davi, falando em nome do Messias, havia predito que ele seria acusado por falsas testemunhas (Sl 26, 12); que seria cruelmente flagelado (Sl 34, 15); que seria traído por um dos seus (Sl 40, 9). Zacarias, por sua vez, designa a soma de trinta moedas de prata que seria paga como recompensa ao traidor (11, 12).
O Sábio põe na boca dos ímpios que tramam a ruína do justo este discurso: «Armemos ciladas contra o justo, porque ele não nos é útil e se opõe às nossas obras; repreende-nos os pecados contra a lei e divulga, para nosso dano, as faltas de nossa vida. Ele se vangloria de possuir a ciência de Deus e dá a si mesmo o nome de Filho de Deus. Tornou-se o censor dos nossos pensamentos. É penoso para nós até mesmo vê-lo, porque a sua vida não é como a dos outros, e diferentes são os seus caminhos. Somos considerados por ele como gente de nada; evita os nossos costumes como imundícies, prefere o fim dos justos e gloria-se de ter Deus por pai. Veja-se, pois, se as suas palavras são verdadeiras, e provemos o que lhe acontecerá, e veremos onde irá terminar. Porque, se ele é verdadeiramente filho de Deus, este o defenderá e o salvará das mãos dos adversários. Provemo-lo com insultos e tormentos, para ver a sua resignação e conhecer qual é a sua paciência. Condenemo-lo à morte mais vergonhosa» (Sb 2, 12-20). Poderiam porventura ser retratados mais vivamente os escribas, os fariseus e os príncipes dos sacerdotes? Não parece ouvi-los, reunidos em conselho na casa de Anás e de Caifás, estudando os meios mais seguros de se desfazerem de Cristo? Não empregaram eles porventura quase as mesmas palavras no pretório de Pilatos e na praça, pedindo a sua crucificação, e no Calvário, insultando-o em seus sofrimentos?
«O Cristo, anunciava Daniel, será morto, e o seu povo já não será o seu povo, porque o renegará» (Dn 9, 26). O povo judeu cumpriu literalmente esta profecia quando disse a Pilatos que não conhecia outro rei senão César (Jo 19, 15).
O Salmista também havia dito em nome de Cristo: «Perfuraram-me as mãos e os pés; deram-me fel por alimento e vinagre por bebida; repartiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram a sorte. Todos os que me viam zombavam de mim e, meneando a cabeça, murmuravam, escarnecendo: Ele confiou em Deus; pois bem, que este Deus o salve, se puder» (Sl 21,16); (Sl 68,22); (Sl 21,18); (Sl 21, 7-8). Quem não vê aqui retratada a cena do Gólgota?
Zacarias, falando das chagas feitas nas mãos de Cristo pelos cravos, faz notar que elas lhe haviam sido infligidas por seu povo dileto e vaticina que, depois de morto, reconhecerão quem era aquele que crucificaram (13,6), (12,10).
O cordeiro pascal era figura de Cristo; ora, Moisés havia ordenado que fosse comido sem que lhe quebrassem os ossos (Nm 9, 12). Também esta circunstância se cumpriu na cruz; pois, enquanto aos dois ladrões foram quebradas as pernas, segundo o costume, antes de os tirarem da cruz, as de Jesus não foram quebradas.
O sepultamento de Jesus Cristo, a incorruptibilidade de seu corpo no sepulcro e sua descida aos infernos encontram sua predição naquelas palavras de Davi (Sl 15, 9-10).
Isaías havia profetizado que o sepulcro de Cristo seria glorioso (Is 2, 10), certamente por causa dos prodígios que haveriam de ocorrer em sua ressurreição, a qual também fora predita por Davi: «Eu adormeci em sono profundo e despertei» (Sl 3, 5). O mesmo profeta já havia igualmente feito menção à ascensão de Jesus Cristo ao céu, acompanhado pelas almas dos patriarcas e dos justos antigos, por ele libertados; e à sua posição, como homem, à direita de Deus (Is 66,19), (Is 109,1).
«Derramarei — havia dito o Senhor pela boca de Zacarias — o espírito de graça e de oração sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém» (12,10). Onde jamais teve esta profecia cumprimento mais claro e pleno do que no retiro dos apóstolos no cenáculo e na descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes?
Daniel havia anunciado que o povo judeu seria rejeitado e disperso, como punição por ter condenado à morte o Messias; que o templo seria destruído, a cidade arrasada, abolido todo sacrifício; que a desolação atingiria todas as coisas e duraria para sempre (Dn 9,26). Desde o dia em que as águias de Tito, imperador romano, tremularam sobre as ruínas de Jerusalém até o presente, todos os séculos são testemunhas e provas do cumprimento desta profecia.
Todos os profetas vaticinaram o chamamento e a conversão dos gentios ao culto do verdadeiro Deus, a realizar-se depois da vinda do Messias prometido. Eis, por exemplo, como Deus fala ao Messias figurado em Isaías: «Não é somente para que me sejas ministro no restabelecimento do povo de Jacó e na conversão dos últimos descendentes de Israel que te escolhi; mas também para que sejas luz para as nações e leves a minha salvação até os confins do mundo» (Is 49,6). Ora, está escrito a respeito dos apóstolos que sua palavra ressoou por toda a terra, e que a voz anunciadora da religião de Cristo encontrou eco nos mais remotos recantos do mundo (Rm 10,18).
Também o estabelecimento da Igreja no seio da humanidade e sua duração eterna foram preditos por Daniel com estas palavras: «Nos dias desses reinos, o Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído e cujo império nunca passará a outras mãos; antes, derrubará e consumirá todos os outros reinos, e ele permanecerá de pé eternamente» (Dn 2,44).
Os profetas não predisseram somente que a Igreja se estabeleceria sobre as ruínas da Sinagoga e da idolatria, mas anunciaram também que, em lugar dos antigos sacrifícios, que só podiam ser oferecidos no templo de Jerusalém, se ofereceria em todos os lugares, de uma extremidade à outra do mundo, uma hóstia pura e santa (Ml 1, 10-11).
Ora, que outro sacrifício se viu no mundo, depois da morte de Jesus Cristo, senão o sacrifício do altar? Não é porventura a vítima eucarística imolada e oferecida a Deus em todas as épocas, em todos os lugares da terra?
Todas as profecias foram, portanto, cumpridas com o nascimento, a vida e a morte de Jesus Cristo; elas, pois, se referiam ao Messias e anunciavam o Filho de Deus. Por isso, o Redentor, desafiando a má-fé dos judeus, dizia-lhes: «Estudai as Escrituras; elas vos darão testemunho de mim» (Jo 5, 39). Ah, sim! Quem lê e medita atentamente a Escritura encontra nela Jesus Cristo em tudo: ora visível no cumprimento dos fatos, ora oculto sob as figuras e as sombras…
Deus mandara anunciar por Ageu que a vinda do Desejado das nações seria precedida, acompanhada e seguida de grandes prodígios no céu, sobre a terra, no mar e em meio às nações, de modo que o universo inteiro seria por eles comovido (Ag 2,7-8). Com efeito, ocorreram prodígios no céu:
1° No dia da encarnação, um anjo aparece a Maria… 2° No mesmo instante do nascimento de Jesus Cristo, os anjos se mostram aos pastores, anunciam o feliz nascimento e cantam glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14). 3° Uma nova estrela, já prenunciada muitos séculos antes, aparece no firmamento, vinda do Oriente, e guia os Magos para adorarem o menino Jesus em Belém (Mt 2,1-2). 4° Pouco antes do nascimento do Salvador, no início do império de Augusto, segundo o testemunho de Orósio e Suetônio, num dia perfeitamente sereno e límpido, viu-se um resplandecente círculo, semelhante a um arco-íris, circundar o globo solar, como que para indicar que o Criador do sol estava prestes a aparecer (lib. 6, Hist. c. XVIII). 5° O mesmo autor refere que, naquela época, os romanos viram um globo imenso, de cor dourada, descer do céu sobre a terra, aumentar de tamanho e depois subir novamente ao céu, ocultando o sol (Loc. cit.). 6° Um ano antes do império de Augusto, afirma Eusébio, apareceram no céu três sóis, que se uniram num só (In Chronic.). — Um ano depois, segundo relatam Dião e Baronio, o sol mostrou-se resplandecente em meio a três círculos luminosos, um dos quais estava cingido por uma coroa de espigas de fogo. Dião pensa que isso fosse um presságio do triunvirato de Augusto, Antônio e Lépido; não é mais razoável ver aí Jesus Cristo, o verdadeiro sol, e a manifestação material da existência de um Deus em três pessoas? (lib. XXXVII). 7° O Espírito Santo desce em forma de pomba sobre Jesus Cristo no dia de seu batismo. A voz do Pai faz-se ouvir do céu nestas palavras: «Este é o meu Filho amado» (Mt 3,17). E essa voz ressoou novamente no dia da Transfiguração (Mt 17,5). 8° Os anjos vêm servir a Jesus Cristo no deserto, em sua paixão, na ressurreição e em outras ocasiões (Jo 1,51). 9° Na paixão do Redentor, o sol se obscurece completamente, embora um eclipse naquela circunstância fosse impossível; a noite sucede ao dia, a natureza anuncia e chora a morte de seu Criador, a tal ponto que Dionísio Areopagita exclama: «Ou o Deus da natureza sofre, ou o mundo» (Epist. ad Apolloph). 10° Quarenta dias depois de sua ressurreição, ele sobe visivelmente e em triunfo ao céu (At 1,9). 11° Cinquenta dias depois de sua ressurreição, o Espírito Santo desce de forma visível sobre os apóstolos e com tal estrondo que toda Jerusalém é abalada (At 2,2-3). 12° A Virgem Mãe de Deus aparece do céu, no Capitólio, a César Augusto, trazendo nos braços um menino. Ele já sabia, pelo oráculo de Apolônio, que nascera um menino judeu que obrigava os oráculos a silenciar. Em consequência dessa aparição, erigiu-lhe no Capitólio um altar dedicado ao Primogênito de Deus. — Assim narra o fato Baronio, seguindo Suidas, Nicéforo e vários outros.
Quanto aos prodígios ocorridos sobre a terra em testemunho da divindade de Jesus Cristo, eis o que narram os historiadores:
1° Orósio conta que, no ano do nascimento de Jesus Cristo, houve em toda parte uma abundância tão grande e extraordinária que não encontra palavras para exprimi-la. Em todo o universo reinava uma paz geral, não pela suspensão, mas pela abolição das guerras. O templo de Jano está fechado; todo foco de rebelião é extinto, o universo inteiro jura em nome de César e não constitui senão um império, uma sociedade, uma família… Desse modo, diz São Leão (Serm. de Nativ.), César, por seu poderoso domínio, preparava o caminho para Jesus Cristo, verdadeiro rei da paz, supremo Senhor da terra, e para o seu Evangelho, que deveria ser anunciado a todo o mundo a partir da capital do mundo, isto é, de Roma.
2° Os romanos e os demais povos foram comovidos, uns pelo temor, outros pela esperança, pelos oráculos das sibilas, que prenunciavam a vinda de um rei do Oriente, o qual reinaria sobre todo o mundo. Tácito atesta que «em muitos se havia arraigado a convicção, insinuada e fortalecida pelos antigos escritos dos sacerdotes, de que por aquele tempo o Oriente recuperaria forças e de que homens vindos da Judeia se assenhoreariam do mundo (l. 1, 21)»; e, embora esse autor pagão aplique a Vespasiano e Tito aquilo que se referia a Jesus Cristo, ele é, contudo, testemunha do desejo universal que então animava os povos. Suetônio emprega a mesma linguagem e acrescenta que os judeus, impelidos por essa crença e pela esperança do Messias, o novo rei que em breve deveria aparecer, rebelaram-se contra os romanos e foram, por isso, derrotados por Tito (Maxim.).
3° Cícero, Arnóbio e vários outros afirmam que, pouco antes do nascimento de Jesus Cristo, o oráculo de Delfos e todos os demais silenciaram; e um autor pagão conta que se ouviu uma grande voz, que bradava sem que se visse pessoa alguma: o grande Pã morreu (Ita Paxus ex Euseb. in Chronic.).
4° No terceiro ano do triunvirato de Augusto, isto é, cerca de quarenta anos antes do nascimento de Jesus Cristo, brotou em Roma uma fonte que jorrou copiosamente óleo durante todo um dia. Ora, esse prodígio, observa Orósio, não indicava porventura que Cristo viria sob o reinado de Augusto? Com efeito, o nome Cristo significa Ungido ou consagrado. Aquela miraculosa abundância de óleo anunciava a vinda de Jesus Cristo e as obras de misericórdia que ele haveria de espalhar pelo mundo. Para perpetuar a memória de tão grande prodígio, foi construída uma magnífica basílica no próprio lugar onde brotou a fonte (Hist. t. 6, cap. 1).
5° Dião conta (lib. XXXVII) que, em Roma, muitas estátuas atingidas por um raio caíram destruídas e fundidas; outras imagens foram encontradas derrubadas e despedaçadas; a própria estátua de Júpiter, colocada sobre uma coluna, desabou ao chão reduzida a pedaços; o quadro que representava a loba amamentando Rômulo e Remo rasgou-se; os caracteres nos quais estavam escritas as leis sobre as colunas foram apagados. Tudo isso levou Suetônio a dizer, em seus escritos sobre Augusto, que «um grande prodígio acontecera em Roma, pelo qual se anunciava que a natureza estava prestes a dar à luz um rei para o povo romano. Por isso, aterrorizado, o senado romano ordenou que naquele ano não se criasse filho varão algum (In August. c. LIII)». O mesmo Suetônio diz ainda que Augusto renunciou ao título de Senhor, como se pressentisse a vinda de Cristo, verdadeiro Senhor do céu e da terra (Ibid.)».
6° Conserva-se ainda hoje a tradição de que, quando Jesus fugia da ira homicida de Herodes, assim que chegou ao Egito, os ídolos tremeram e caíram à sua passagem; e isso concorda com a profecia de Isaías: «Eis que o Senhor é levado sobre uma nuvem ligeira; entra no Egito, e, diante dele, os ídolos são abalados» (Is 19,1).
7° Por ocasião da morte de Jesus Cristo, a Escritura nos diz que a terra tremeu e se abriu, e que os pedregulhos e as rochas se fenderam. Com os autores sagrados concordam os profanos, pois Plínio diz que, sob o reinado de Tibério César, houve um terremoto tão grande que não se lembrava de outro semelhante e que, numa só noite, destruiu doze cidades (Anton. in Meliss).
Finalmente, não faltaram prodígios no mar e nas ilhas para atestar a divindade de Jesus Cristo: 1° Uma tempestade tão extraordinária assolou as costas da Grã-Bretanha que os habitantes das ilhas pensaram que havia morrido um dos heróis ou semideuses. 2° Jesus acalma as tempestades do mar, caminha sobre as ondas e faz São Pedro caminhar sobre elas. Por ocasião de sua morte, o mar foi comovido não menos que a terra.
São muitas as causas pelas quais o céu, a terra, o mar e as ilhas se comoveram com a vinda de Jesus Cristo: 1° O céu, a terra e o mar ficaram tomados de admiração e assombro diante do aniquilamento e da caridade do Salvador… 2° Tudo foi abalado para comover os corações frios dos homens diante de tão grande prodígio, para quebrantá-los e obrigá-los a se beneficiarem da infinita bondade de Jesus Cristo, a agradecer-lhe tão grande amor e a retribuir-lhe amor com amor… 3° Porque todas as criaturas foram reerguidas de sua queda e, por meio de Jesus, como que divinizadas, pois estão unidas ao Verbo de Deus por meio de Jesus encarnado, sendo o homem um composto de todas as criaturas, que todas compreende em si. Quando o Verbo divino assumiu a humanidade, associou a si todas as criaturas; por isso, elas se puseram em movimento em sua encarnação, em seu nascimento, em sua vida e em sua morte: ao nascer, exultaram de alegria; ao morrer, fremiram de indignação. Regozijaram-se com sua vinda, principalmente porque deveriam ser libertadas da corrupção e da miséria em que haviam incorrido juntamente com o homem, pelo pecado de Adão, segundo estas profundas palavras de São Paulo: «As criaturas aguardam com ardente expectativa a manifestação dos filhos de Deus; pois as criaturas estão sujeitas à vaidade, não por sua própria escolha, mas por causa daquele que as sujeitou, na esperança de que também elas serão libertadas da escravidão da corrupção e reconduzidas à liberdade dos filhos de Deus. Com efeito, sabemos que toda criatura geme ainda agora e sofre como que dores de parto» (Rm 8,19-22).
Jesus Cristo é concebido e nasce de uma mãe virgem… Fechado no seio de sua mãe, faz exultar de alegria São João Batista no seio de Isabel… «Jesus, diz São Mateus, percorria toda a Galileia, curando entre o povo toda doença e enfermidade» (Mt 4,23). Os leprosos, os cegos, os surdos, os mudos, os coxos, os febris, os aleijados, os lunáticos, os possessos, eram por ele curados… Multiplica duas vezes, prodigiosamente, poucos pães e poucos peixes; ordena aos ventos, ao mar e à tempestade, e sucede a bonança…; ressuscita os mortos…; ressuscita a si mesmo…
Ele opera milagres a todo instante e durante todo o curso de sua vida; realiza-os em seu próprio nome e anunciando-se como Messias, como Filho de Deus; portanto, ele é o verdadeiro Messias, é verdadeiramente Deus. Seus milagres acontecem em público, com uma só palavra, com um só contato, no mesmo instante… São visíveis, numerosos, estupendos, esplêndidos, assombrosos, úteis ao bem e ao alívio dos miseráveis… Tamanha é a virtude no corpo de Jesus Cristo que, ao simples toque da orla de sua veste, os enfermos ficam curados. Portanto, Jesus é verdadeiramente o Messias, o Salvador do mundo, o Verbo de Deus; se não o fosse, não teria realizado verdadeiros milagres, porque, estando os milagres acima das forças da natureza, somente Deus pode realizá-los; e Deus não faz nem permite que outros façam milagres para apoiar a mentira e o erro, para cegar e enganar os homens. Os apóstolos e os santos de todos os séculos operaram milagres, mas nunca em seu próprio nome, e sim sempre em nome de Jesus Cristo; somente Jesus os realizou em seu próprio nome; ele é, portanto, verdadeiramente Deus.
Os judeus podiam certamente, à vista dos milagres de Jesus Cristo, reconhecer nele o Messias esperado havia quarenta séculos; 1º porque Jesus os realizava com esse propósito… 2º ele operava todos aqueles milagres que os profetas haviam predito acerca do Messias… 3º Embora alguns profetas e outros santos personagens tivessem realizado milagres, não fizeram tantos nem tão estupendos e, além disso, nunca em seu próprio nome, mas sempre em nome de Deus. O poder absoluto, a virtude contínua de realizar milagres de todo gênero, de fazê-los a cada passo, com uma só palavra, com um só olhar, encontra-se somente em Jesus… Moisés, os profetas, o anjo, a estrela, os pastores, os magos, Zacarias, Isabel, Simeão, Ana, a profetisa, João Batista, todos os enfermos que ele curava, todos os elementos, os próprios demônios, davam-lhe testemunho, atestavam sua divindade…
Eu me apresento diante de vós como o Messias, como o Filho de Deus, dizia Jesus aos judeus; realizo as obras que o comprovam; cumpro tudo o que os vossos profetas predisseram acerca do Cristo; se é verdade que credes em Moisés e nos profetas, deveis também crer em mim e reconhecer-me como o Desejado das nações. Vós pegais pedras para apedrejar-me porque me anuncio como Filho de Deus! Pois bem, sim, eu sou verdadeiramente o Filho de Deus, e, para prová-lo, realizo em vossa presença as obras que o demonstram. Ora, se faço as obras que somente meu Pai celeste pode fazer, se não quereis crer em mim, crede ao menos nas obras que me vedes realizar; pois é precisamente para isso que as faço: para que vejais e creiais que o Pai está em mim e eu estou no Pai (Jo 10,37-38). Crede no testemunho destes cegos que veem, destes coxos que correm, destes surdos que ouvem, destes mudos que falam, destes mortos ressuscitados. — Outra vez, assim os desafiava: Vós vos escandalizais com o que vos digo; pois bem, para que saibais que sou o Filho de Deus, que tenho o poder de perdoar os pecados, poder que vós mesmos afirmais pertencer somente a Deus, eis aqui este paralítico; eu lhe digo: Levanta-te, toma o teu leito e vai para casa (Mt 9,6); e o vosso paralítico está curado; portanto, eu sou verdadeiramente o Filho de Deus. Ah! Investigai e estudai as Escrituras, e todas elas vos darão testemunho da minha divindade (Jo 5,39). Comparando o que elas dizem do Messias com aquilo que eu faço, não podereis deixar de reconhecer em mim o Messias por elas indicado. Esse raciocínio devia ser peremptório para os judeus, tanto mais que eles mesmos eram os primeiros a dizer: «Poderá acaso o Cristo, quando vier, realizar milagres maiores do que os que este homem realiza?» (Jo 7,21).
Portanto, aqueles que negam que Jesus Cristo é o Messias prometido, o Filho de Deus, aqueles que não querem crer nele, são ignorantes ou agem de má-fé; por isso lhes acontecerá o que sentencia São Paulo: «Porque não quiseram receber o amor da verdade para sua salvação, Deus os abandonará ao poder da sedução do erro, para que creiam na mentira; sejam condenados todos os que não creram na verdade, mas aprovaram a iniquidade» (2Ts 2,10-11).
1º Antes de sua paixão, «Jesus, diz São Mateus, declarou aos apóstolos que devia dirigir-se a Jerusalém e que ali haveria de sofrer muitos padecimentos da parte dos anciãos, dos escribas e dos príncipes dos sacerdotes, até ser morto por eles, e que no terceiro dia ressuscitaria» (Mt 16,21). Predisse-lhes sua ascensão, a descida do Espírito Santo, as coisas admiráveis que eles fariam no mundo, etc. E de todas as suas predições a história registra o cumprimento…
2º Predisse claramente a queda do templo e até as circunstâncias da mesma. Com efeito, São Mateus narra que, certo dia, ao saírem de Jerusalém, os apóstolos lhe faziam notar a beleza do templo, e ele lhes respondeu: «De tudo isto não ficará pedra sobre pedra, mas tudo será derrubado desde os fundamentos» (Mt 24,2). Outra vez, chegando diante de Jerusalém, desfez-se em lágrimas, dizendo: «Ah! Se ao menos conhecesses, ainda hoje, o que te traria a paz! Mas estas coisas estão agora ocultas aos teus olhos. Virá sobre ti um dia em que os teus inimigos te cercarão, te apertarão de todos os lados, te reduzirão a um monte de ruínas, não deixando de teus soberbos edifícios pedra sobre pedra, e levarão cativos teus filhos e tuas filhas» (Lc 19,41-44). Tudo se cumpriu…
3º Predisse que Judas o trairia (Mt 26,2), que os apóstolos o abandonariam em sua paixão e que Pedro o negaria três vezes. E assim aconteceu…
4º Anunciou aos seus apóstolos que seriam perseguidos, maltratados e mortos, mas que triunfariam sobre todo obstáculo. Anunciou que sua Igreja partilharia no mundo a sorte dos apóstolos, mas subsistiria até o fim dos séculos, vencedora de todos os artifícios e de todo o poder do inferno e da impiedade.
Ainda durante a vida de Jesus Cristo, os apóstolos já haviam operado milagres; mas, depois da ascensão de Jesus e da descida do Espírito Santo, realizam em nome de Jesus um número imenso deles, claros, públicos e assombrosos. O coxo que mendigava à porta do templo e que, a uma só palavra de Pedro — Levanta-te e caminha — se levanta cheio de vigor e completamente curado (At 3,2-7), não é senão o princípio das inumeráveis maravilhas operadas pelos apóstolos, as quais conduziram o mundo pagão à conversão. Basta lembrar que era tão grande a ideia que se tinha do poder de Pedro para fazer milagres, que o povo acorria em massa à sua passagem, levando seus enfermos, para que a sombra de seu corpo os tocasse, pois já haviam experimentado que isso bastava para curar toda enfermidade (At 5,15).
E depois, além dos milagres materiais, a conversão das nações, a morte e o triunfo dos mártires em meio aos mais cruéis tormentos; a doutrina, a moral e a vida dos apóstolos não são acaso maravilhas que valem os mais estupendos milagres? … Em todos os lugares, um grande número de santos operou milagres, e todos os dias, na Igreja de Deus e em nome de Jesus Cristo, continuam a operar-se verdadeiros milagres. Portanto, não há dúvida de que Jesus é verdadeiramente Deus…
Jesus Cristo proíbe tudo o que desagrada a Deus…; tudo o que prejudica o próximo…; tudo aquilo com que se pode causar dano a si mesmo…; prescreve, além disso, o exercício de todas as virtudes…
Que sublime é a moral das oito bem-aventuranças! … que sublime é a moral que proíbe o ódio e ordena o perdão, que manda amar os inimigos, rezar por eles e fazer-lhes o bem! … Que excelentes lições de moral acerca da pobreza, da abnegação, da castidade, da humildade! … Que livro incomparável é o dos Evangelhos, dos Atos dos Apóstolos, das Epístolas canônicas! … Ah! esta moral só pode ser a moral de um Deus; somente Deus podia sugerir uma moral tão nova, tão desconhecida, tão pura, tão celeste, tão divina. Portanto, o autor desta moral é Deus; portanto, Jesus Cristo é Deus, é o Verbo de Deus…
Jesus Cristo é o modelo vivo, o mais perfeito exemplar de todas as virtudes, de todas as perfeições… Ele eleva ao mais alto grau o zelo pela glória de seu Pai, pela salvação das almas… Apresenta em si o retrato mais completo da pobreza, da obediência, da humildade, da paciência, da mansidão, da bondade, da misericórdia, da caridade, da sabedoria, da justiça, da prudência, como veremos mais adiante.
Estudai o Evangelho, lede os escritos dos Apóstolos, e vereis qual foi a vida sublime e divina de Jesus Cristo… Ah! quanto seria desejável que todo cristão conhecesse o que os Santos Padres disseram da vida de Jesus Cristo, o que dizem dela os mestres da vida espiritual e as vidas dos santos! A vida dos santos nos causa admiração; ora, os santos tiveram uma vida tão perfeita porque se empenharam em imitar Jesus Cristo. E aqueles que chegaram ao cume da perfeição só chegaram a ele pela imitação de Cristo. Com efeito, quanto mais o homem imita vivamente Jesus Cristo, tanto mais se eleva, se enobrece, se aperfeiçoa; Jesus Cristo é, portanto, verdadeiramente Deus… Os mais furiosos inimigos do Salvador não puderam deixar de louvar-lhe a vida…; os próprios pagãos fizeram-lhe o elogio… Seja vosso livro a Imitação de Cristo.
Deus havia dito de Jesus Cristo, seu Filho, pela boca do profeta Ageu: «Eu te conservarei como um selo, porque te escolhi» (Ag 2,24). E Jesus Cristo, como homem, é precisamente o selo e a impressão de Deus: 1° pela comunicação dos idiomas, em virtude da qual aquilo que é do homem pertence a Deus, e aquilo que é de Deus pertence ao homem. E, assim como o Verbo é a impressão, a imagem do Pai, também Jesus Cristo, enquanto homem, estando unido hipostaticamente ao Verbo, é a impressão, o selo, a imagem do Pai.
2° Jesus Cristo é formalmente o selo do Pai; porque o Verbo imprimiu na humanidade a sua semelhança, isto é, a sua ciência, a sua virtude, a sua santidade, a sua palavra, o seu pensamento, as suas ações, os seus costumes.
3° Jesus Cristo homem é o selo da divindade, isto é, o sinal evidente dos atributos de Deus, de sua justiça, de sua sabedoria, de sua longanimidade, de sua misericórdia, de seu amor infinito pelos homens; porque, para manifestar todos esses seus atributos, Deus quis que seu Filho se encarnasse. Portanto, Jesus feito homem é o selo impresso, no qual vemos escrito e gravado o amor de Deus, o seu poder, a sua sabedoria, a sua misericórdia, a sua justiça.
4° Jesus Cristo é o selo da divindade porque, como um selo, mostrou e certificou qual era a vontade de Deus, a sua doutrina, a sua lei; e é precisamente esse o conteúdo do Evangelho. «Ninguém, diz São João, jamais viu a Deus; o Filho Unigênito, que está no seio do Pai, foi ele quem o revelou» (Jo 1,18). Deus deu a Jesus Cristo o poder de fazer milagres, para confirmar com o seu selo as suas palavras e provar que elas lhe haviam sido reveladas e ordenadas por Deus, segundo estas palavras de São João: «Deus Pai colocou o seu sinal sobre o Filho» (Jo 6,27).
5° Deus quis reinar sobre a terra por meio de Jesus Cristo, pela fé, pela lei, pela graça… Sendo, como Deus, invisível em si mesmo, quis revestir seu Filho de carne e, desse modo, velar a divindade, para que os homens pudessem suportar-lhe a visão e chegar a conhecê-lo, compreendendo quais são as suas virtudes e perfeições imitáveis.
6° Jesus Cristo, selo divino, é a honra, o ornamento, a riqueza, a glória do Pai, da Igreja, dos anjos e dos homens. Com efeito, o Verbo encarnado não somente reconciliou o homem com o Verbo, a terra com o céu, as criaturas com Deus, mas também as uniu em si mesmo e as ligou fisicamente em sua pessoa mediante a união hipostática.
7° Jesus Cristo é o selo de Deus, na qualidade de enviado do Pai aos homens, segundo estas palavras de Isaías: «Eu o dei como testemunha aos povos, guia e mestre das nações» (Is 55,4).
8° Jesus Cristo é o selo da divindade, isto é, o amado do Pai, o amabilíssimo, o preciosíssimo, o unido ao Pai de modo sumamente íntimo, e é, ao mesmo tempo, a delícia do mundo inteiro por seus benefícios e pela alegria que nele derrama; pois a sua humanidade, como esposa dileta, foi unida ao Verbo, que se tornou seu esposo.
9° Jesus Cristo é o selo da divindade, enquanto, como Verbo, é a sabedoria incriada do Pai; como homem, é a sua sabedoria criada; por isso, revelou-nos os segredos, os mistérios do Pai, as coisas ocultas desde a origem do mundo. Ele é ainda o selo de Deus porque, pela força de sua fé, de sua graça, da virtude de seus exemplos e por seu caráter divino, imprime o selo e a marca de Deus em seus fiéis no batismo e nos outros sacramentos. Com efeito, como escreve São Paulo, «aqueles que Deus conheceu por sua presciência, predestinou-os para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele mesmo seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rm 8,29); «e para que nós, assim como trouxemos a marca do homem terreno, também tragamos a do homem celeste» (1Cor 5,49); de modo que todo homem regenerado possa dizer: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20),
10º Finalmente, Jesus Cristo, como selo divino, protege das tentações e dos inimigos aqueles que trazem a sua marca. E o selo de Jesus Cristo é a cruz, que nos previne contra as insídias da carne, do mundo e do demônio; faz de nós outros tantos companheiros, soldados e mártires de Jesus crucificado.
O cristão deve ser o selo de Deus, um selo passivo, isto é, conforme o modelo divino, marcado com a imagem que nele foi esculpida na criação e que foi refeita por Jesus Cristo na redenção; além disso, um selo ativo, isto é, deve imprimir a mesma imagem em todos os demais, para que em todos se manifeste o efeito daquelas palavras do Salmista: «Está marcada sobre nós, Senhor, a impressão do vosso rosto» (Sl 4, 6). É preciso que o fiel arranque de si e calque aos pés todos os selos do mundo, da carne e de Satanás. Assim como a cera traz a marca do selo, assim é preciso que o cristão não tenha outra efígie, não viva de outra vida, não adote outros costumes senão os de Jesus Cristo. É preciso que, a quem quer que o contemple, possa repetir com o Apóstolo: «Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo» (1Cor 4, 16). São Paulo foi selo de Jesus Cristo, porque imprimia em todos os corações a doutrina e a moral do Redentor; sejamos também nós assim, e Jesus nos marcará com a impressão da sua glória… Dizia o esposo à Esposa dos Cânticos: «Põe-me como um selo sobre o teu coração, sobre os teus braços» (Ct 8, 6); peçamos também nós o mesmo favor a Jesus Cristo; supliquemos-lhe que marque com o seu selo todos os nossos pensamentos, palavras e ações, para que nada pensemos, nem queiramos, nem digamos, nem façamos senão por ele, com ele e nele… Jesus Cristo traz tão profundamente impressa em si a marca divina, que «nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade» (Cl 2, 9); mas notai, observa São Paulo, que assim é para que sejais por ele preenchidos (Ib. 10). É, pois, nosso dever trazer em nós a marca, a imagem de Jesus Cristo…
Voltando-se um dia Jesus Cristo para os Apóstolos, disse-lhes: «Que pensa o povo do Filho do homem, e quem dizem que eu sou?». E, tendo eles respondido: «Uns creem que sois João Batista, outros, Elias, e outros, Jeremias ou algum dos profetas», o Salvador acrescentou: «E vós, quem dizeis que eu sou?» ― «Então Simão Pedro exclamou: Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 15-16); isto é: vós sois o Messias prometido a Abraão, a Isaac, a Jacó, a Moisés e a Davi. Vós sois aquele que os patriarcas e os profetas ardentemente desejaram e que as nações ansiosamente esperaram. Vós sois o Cristo Messias, isto é, o Ungido de Deus pela unção da união hipostática com o Verbo eterno e, por isso, consagrado doutor do mundo, pontífice, profeta e rei do universo: doutor, para ensinar aos homens a lei e a vontade de Deus; pontífice, porque vos ofereceríeis a vós mesmo em sacrifício a Deus, para reconciliar a terra com o céu; profeta, para anunciar as coisas futuras, abrir os segredos de Deus e, sobretudo, pregar as recompensas celestes prometidas aos virtuosos e os suplícios reservados aos incrédulos e aos maus; rei, para reinar no céu, na terra e em toda parte.
— Vós sois o Cristo, Filho de Deus vivo, não por graça, como os outros santos, mas por natureza e pela divindade que tendes em comum com Deus, em virtude da vossa geração eterna… — Vós sois o Cristo, Filho de Deus vivo; viveis formalmente, essencialmente, da vida eterna, incriada e bem-aventurada; inspirais a todas as coisas, como princípio vivificante, a força, o vigor, a alma e a vida, porque de vós, como da fonte, brotam a luz e a vida de todos os anjos, de todos os homens e de todas as criaturas…
São Pedro, sobrenaturalmente iluminado por Deus, viu de modo claro e distinto que Jesus Cristo era o Messias, o Filho de Deus, gerado desde toda a eternidade nos esplendores da glória; confessou e proclamou em alta voz que Jesus Cristo é consubstancial ao Pai e, portanto, verdadeiro Deus eterno… «As promessas do Messias, diz São Paulo, foram feitas a Abraão e àquele que deveria nascer dele. A Escritura não diz: E aos que nascerão, como se se tratasse de muitos; mas fala de um só, dizendo: E àquele que nascerá de ti, que é o Cristo» (Gl 3, 16).
«Nasceu-nos um menino, diz Isaías, foi-nos dado um filho; traz sobre o ombro o sinal do seu império e será chamado o Forte» (Is 9, 6). Esse pequenino será a potência por natureza; será príncipe, rei do universo, porque é seu criador e governador; será soberano do céu e da terra. Tal é Jesus Cristo desde o momento de sua concepção, em virtude de sua origem, isto é, em razão da união hipostática com o Verbo… Por isso, Jesus poderia, se assim lhe aprouvesse, depor do trono Augusto e todos os reis da terra; mas, em vez de um império e de um poder material, preferiu um reino e um poder espiritual. Será chamado Deus, o Forte; onipotente e invencível, vencerá todo obstáculo; levará a cabo os maiores empreendimentos; sairá triunfante de todo inimigo…
A potência, a força e a coragem encontram-se em Jesus Cristo em grau heroico e incomparável. 1º Ele supera toda fadiga, todo tormento e a própria morte… 2º Como juiz dos vivos e dos mortos, condenará os poderosos; governando os maus com vara de ferro, por fim os despedaçará como vasos de argila… 3º Sem o seu auxílio, a força de toda criatura é vã… 4º Ele nos protege e fortalece em toda tribulação; combate por nós e põe em fuga os nossos inimigos… 5º Abate o reino de Satanás, do pecado e da concupiscência; reconcilia o homem com Deus, fecha o inferno, abre o céu; faz do homem um deus… 6º Do alto de sua cruz, atrai a si todas as coisas… 7º Triunfa e submete o universo com doze pobres pescadores sem estudo e sem letras… 8º Sua potência resplandece nos mártires, nas virgens etc.
São Paulo escrevia aos Hebreus que «Deus constituiu seu Filho herdeiro de todas as coisas e, por meio dele, criou os séculos; ele, que é o esplendor da glória e a imagem da sua substância, e que sustenta todas as coisas com o poder de sua palavra, depois de nos purificar dos pecados, sentou-se à direita da majestade no mais alto dos céus» (Hb 1, 2-3).
«Enviai, Senhor, exclamava Isaías, o Cordeiro que há de dominar como rei da terra» (Is 16, 1). «Sião, diz o mesmo profeta, é a nossa cidade forte; porque o próprio Salvador será para ela muralha e baluarte» (Is 26, 1).
Sansão não era senão uma imagem desvanecida da força e da potência de Jesus Cristo… Com efeito, o Salvador cura toda espécie de enfermidades, expulsa os demônios, acalma as tempestades, ressuscita os mortos; derruba com uma palavra os guardas que chegaram ao Horto para prendê-lo; fende os rochedos no instante em que morre; e, ainda quando está no sepulcro, remove-lhe a pedra e dele sai vencedor da morte. Pregado à cruz, ele sozinho é mais poderoso que todos os reis da terra, os quais inutilmente unem contra ele as suas forças, porque ele zomba delas como de esforços infantis e quebra como uma cana todos os aparatos de sua força (Sl 2, 4). Derruba Saulo no caminho de Damasco, abate os ídolos do paganismo. Jesus Cristo quebra as cadeias dos pecadores, rompe os corações endurecidos, acorrenta os demônios e senta-se vitorioso sobre o mundo conquistado por ele pela palavra evangélica. Por meio de Pedro, armado apenas da cruz, submeterá em pouco tempo a si Roma e o Império Romano, que até então permanecera invencível; e aquela Roma que, depois de seiscentos anos de lutas, guerras e triunfos, se tornara a capital de um império, torna-se em pouco tempo e pela ação de um só homem, para todos os tempos, a capital do mundo. Há dezenove séculos, do alto dos céus, ele sustenta os sucessores de Pedro e, em virtude do poder que lhes comunica, eles prostram as heresias e os hereges; vencem as revoluções e a impiedade; eles são Pedro, e a Igreja fundada sobre eles jamais cairá sob o martelo destruidor do cisma, da heresia, da impiedade ou da falsa política (Mt 16, 18). E, pelo poder que lhe foi comunicado por Cristo, aquilo que o Pontífice romano liga ou desliga na terra fica ligado ou desligado nos céus (Ib. 19). Já se viu algum poder igual a este? Ah! Jesus Cristo é verdadeiramente aquele cavaleiro que o extático de Patmos viu sobre um cavalo branco, com o arco na mão e a fronte coroada, saindo vencedor para vencer ainda (Ap 6, 2). Ele se chama, diz o mesmo São João, o Fiel, o Veraz; julga e combate com justiça. Seus olhos são como chama de fogo; sobre sua cabeça brilham muitos diademas; traz escrito um nome que ninguém conhece senão ele, e seu nome é Verbo de Deus. As hostes celestes o seguem; de sua boca sai uma espada afiada para ferir as nações, as quais governará com vara de ferro. E está escrito sobre sua veste e sobre seu flanco: Rei dos reis, Senhor dos dominantes (Ap 19, 11-16).
No Apocalipse lemos ainda que o «leão de Judá venceu» (Ap 5, 5). Ora, Jesus Cristo é indicado sob o nome e a figura de leão: 1º porque pertence, pela geração humana, à tribo de Judá, cujo emblema era um leão, pois Jacó, abençoando seu filho Judá, havia dito: «Judá é como um leãozinho: levantaste-te para o butim, meu filho; no repouso dormes como um leão e como uma leoa que ninguém ousa despertar» (Gn 49, 9). 2º Jesus Cristo é chamado leão por causa de sua incomparável força, que o faz superar qualquer obstáculo; 3º assim como o leão é o rei dos animais, assim também Jesus Cristo, enquanto homem, é o rei de toda a humanidade; 4º ele é terrível para os maus, como o leão para as feras do deserto, e, assim como o leão, com o seu simples rugido, incute terror e espanto nos outros animais, assim Jesus Cristo se apresentará diante dos perversos no dia em que vier julgar o mundo. «Então, diz o Evangelho, verão o Filho do homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder e majestade» (Mt 24, 30).
Contemplai, diz São Jerônimo, com um olho o presépio de Belém e, com o outro, o céu. Aquele menino que choraminga numa manjedoura é adorado e louvado pelos anjos no céu. Herodes o persegue, mas os Magos o procuram e o veneram; os fariseus o ignoram, mas a estrela o anuncia ao universo; é batizado por seu servo, mas a voz de Deus o manifesta como Filho do Altíssimo; é imerso na água, mas o Espírito Santo o envolve (Lib. sup. Matth.). Jesus Cristo é tão grande no seio de Maria, na estrebaria, em sua vida oculta, na paixão, na morte e no túmulo quanto no esplendor da majestade divina.
Jesus Cristo, como Deus, possui toda a glória, a essência, a majestade e o poder da divindade que o Pai possui; como homem, está sentado à direita de Deus Pai, acima dos anjos e dos homens; assim, participará tão intimamente e de modo tão perfeito da grandeza e da glória de Deus Pai, que se pode dizer com verdade que possui a mesma glória e grandeza: infinitamente superior a todos os espíritos celestes, os quais também, a seu modo, estão na glória de Deus Pai… Dele profetizava o Salmista que dominaria de um mar a outro, desde o rio até os confins da terra (Sl 71,8); que seu nome seria glorificado em todos os séculos; que nele seriam benditas todas as nações e que todos lhe dariam glória (Sl 71,17); que todos os reis da terra o adorariam, todos os povos o serviriam e que, em suma, o mundo inteiro estaria repleto de sua majestade (Ib. 11,19). «E ao nome de Jesus, diz o Apóstolo, se dobre todo joelho no céu, na terra e no inferno (Fl 2,10). O céu e a terra reconhecem e adoram sua grandeza, os astros lhe entoam louvores, o inferno o respeita e teme.
«Nasceu-nos um menino, diz Isaías; e será chamado Conselheiro» (Is 9,6). Jesus Cristo é nosso Conselheiro: 1° por sua ciência divina, na qual está a ciência do Pai e do Espírito Santo, e por meio dela dirige, como mestre, os anjos, os homens e todas as criaturas…; 2° por sua presciência, em virtude da qual vê, desde o primeiro instante de sua concepção, perfeitamente, em Deus, todos os seus desígnios relativos ao presente e ao futuro, no que diz respeito aos anjos e aos homens, aos eleitos e aos réprobos…; 3° principalmente pelo conhecimento e pela dispensação das graças de Deus e da redenção, que é a maior obra de Deus, da vocação dos gentios e da reprovação dos judeus… Com efeito, Jesus Cristo é aquele «Deus que perscruta os rins e o coração» (Sl 7,9); «que vê tudo sem véu» (Hb 4,13); «que pesa os espíritos» (Pr 15,2), «e cujos olhos são como chama de fogo» (Ap 1,14).
«Penso, escrevia São Paulo, que tudo é perda quando comparado com a sublime ciência de Jesus Cristo, meu Senhor; por causa dele desprezo tudo, considerando-o como imundície» (Fl 3,8). Por isso, escrevendo aos coríntios, gloriava-se de não ter tido entre eles outra ciência senão a de conhecer e pregar Jesus, e Jesus crucificado (1Cor 2,2).
«Sabemos, diz o apóstolo São João, que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência, para que conheçamos o verdadeiro Deus; e estamos no verdadeiro Filho dele. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna» (1Jo 5,20).
«Não há coisa mais excelente que o conhecimento de Deus, diz Santo Agostinho, porque não há nada mais bem-aventurado; antes, nesta ciência consiste a bem-aventurança por essência (Serm. CXII, de Temp.)». E, com efeito, Jesus, dirigindo-se ao Pai, assim falava: «Meu Pai, a vida eterna consiste nisto: que os homens conheçam a vós, único Deus verdadeiro, e aquele que enviastes, Jesus Cristo» (Jo 17,3).
«Jesus Cristo nos ensina, diz São Paulo a Tito, que, renunciando à impiedade e aos desejos mundanos, vivamos com sobriedade, justiça e piedade neste século» (Tt 2,12). Conhecer Jesus Cristo é a verdadeira ciência, porque ele é o autor de todas as ciências, é a ciência por essência; toda ciência, sem a ciência de Jesus Cristo, é ignorância e cegueira. «Se não conheces Cristo, canta um poeta, nada vale qualquer outra coisa que possas saber; se conheces Jesus, sabes o bastante, ainda que nada saibas de todo o resto».
São Anselmo observa que Jesus Cristo «revestiu-se de nossa carne para que pudéssemos concebê-lo, vê-lo, ouvi-lo e gozar dele (Monolog.)», como justamente canta a Igreja no Prefácio do Santo Natal; no qual diz ser justo que demos louvor e glória a Deus, «porque, pelo mistério da encarnação do Verbo, uma nova luz do esplendor divino resplandece aos nossos olhos, para que, conhecendo o nosso Deus feito visível, por meio dele nos elevemos ao amor das coisas invisíveis».
«A luz surgiu para o justo, e a alegria para os de coração reto», exclamava o Salmista (Sl 96,11); e São Mateus, referindo-se a Isaías, observa que «um povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; e um esplendor vivíssimo surgiu para iluminar aqueles que tateavam nas regiões tenebrosas da morte» (Mt 4,16).
Qual era essa esplêndida luz? Era, responde São João, o Verbo Encarnado, Jesus Cristo. Pois «nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz resplandece nas trevas» (Jo 1,4-5). «Ele era a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo» (Ib. 9). E, com efeito, no nascimento do Redentor, «um anjo apareceu aos pastores, e o esplendor de Deus os envolveu» (Lc 2,9). Por que esse clarão? Por que uma nova estrela se acende no firmamento para escoltar os Magos até Belém, senão para anunciar ao universo que nascera o Deus da luz? Aquele Deus que o olhar de Zacarias, pai do Batista, via presente, nascendo como sol do alto, para iluminar os que jaziam nas trevas e nas sombras da morte (Lc 1,78-79).
Jesus Cristo, pois, diz de si mesmo: «Eu sou a luz do mundo; quem me segue não anda nas trevas, mas tem consigo a luz da vida. E, enquanto eu estiver no mundo, serei a sua luz» (Jo 8,12; Ib. 9,5). «Quem me vê, vê aquele que me enviou. Eu vim como luz ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas» (Ib. 12,45-46).
«Deus é luz, escrevia São João, e nele não há treva alguma. Ora, se alguém diz estar em comunhão com Deus e, entretanto, caminha nas trevas, mente e não pratica a verdade; mas, se caminhamos na luz (de Jesus Cristo), como ele mesmo está na luz (é a luz eterna), estamos em mútua comunhão, e o sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado» (1Jo 1,5-7).
«A noite passou, mas o dia se aproximou, escrevia São Paulo aos romanos; rejeitemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz» (Rm 13,12). Revestir-se da luz é revestir-se de Jesus Cristo. «Houve um tempo, dizia o mesmo Apóstolo aos efésios, em que éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; caminhai, portanto, como filhos da luz» (Ef 5,8). E aos coríntios escrevia que aquele Deus que fizera brilhar a luz em meio às trevas havia ele mesmo iluminado seus corações com a luz da ciência, do esplendor de Deus, estampada na face de Jesus Cristo (2Cor 4,6).
«Jesus Cristo, diz São Cipriano, é a nossa luz, porque nos abre os segredos de Deus e da Santíssima Trindade, ensina-nos o que é necessário para a salvação, os preceitos, as regras para levar uma vida nova, revela-nos os desígnios e manifesta-nos os artifícios da malícia diabólica, para que deles nos preservemos» (Serm.). Ah, sim! Jesus Cristo é a nossa luz, o nosso guia; oferece-nos conselhos sobre a castidade, a pobreza e as demais virtudes ensinadas pelo Evangelho, virtudes que vencem a natureza e ultrapassam o entendimento da razão humana. Mas «não tenhais medo, diz São Cipriano, ao seguir esses conselhos, das oposições da natureza e das tentações (Serm.); pois quem vos aconselha é o Deus forte, que, depois de ter vencido ele mesmo, promete a vitória aos seus soldados e o céu aos vencedores». Jesus nasceu no mais profundo da noite para dissipar as trevas. Ao nascer, aparece a estrela de Jacó; ao morrer, o sol se obscurece. Se fizermos Jesus nascer em nossos corações, seremos iluminados; se o fizermos morrer, precipitar-nos-emos nas trevas do inferno.
Santo Ambrósio chama o sol de «olho do mundo, alegria do dia, beleza do céu, medida do tempo, força e vigor de todas as estrelas (Hexamer.)». E o sol não passa de uma imagem pálida do esplendor do Verbo encarnado, que é a verdadeira luz incriada; verdadeira luz por sua doutrina celeste; luz que ilumina as almas com a sua graça; luz universal que ilumina tudo e a todos; luz da verdade, luz pela verdade do seu ser, do seu espírito, das suas palavras, dos seus milagres, da sua vida, das suas obras. Ele ilumina todo homem, na medida em que isso depende dele; aqueles que não querem ser iluminados estão e permanecem nas trevas. O sol ilumina a terra, contanto que não se interponham nuvens; mas, nesse caso, não é defeito do sol; assim, Jesus Cristo ilumina todo aquele que vem a este mundo, a menos que alguém deliberadamente se mergulhe nas trevas das paixões…
«Meu Pai, orava Jesus Cristo, fazei que seja conhecida a luz do vosso Filho» (Jo 17, 1). Há uma tríplice luz em Jesus Cristo: 1° a luz incriada e infinita; 2° a luz da humanidade criada; 3° a luz pela qual manifesta aos apóstolos e aos demais fiéis a sua luz incriada e a sua luz criada, a sua divindade e a sua humanidade! Pois, como observa São Paulo, «Jesus Cristo destruiu a morte e fez resplandecer a vida e a incorruptibilidade por meio do Evangelho» (2Tm 1,10).
Como Deus, como Verbo eterno, Jesus Cristo é a luz formal, eterna; como homem, é a luz criada, porque está cheio de sabedoria e de glória. É também luz como causa, porque a ele se devem a nossa sabedoria, a nossa graça e a nossa glória. «Ele é, como disse o velho Simeão, a luz das nações» (Lc 2, 32). «E por isso, diz Santo Agostinho, Jesus veio para iluminar, porque o demônio tinha vindo para cegar (Homil. XLIII, inter L)».
Jesus Cristo comunica a sua luz aos fiéis e especialmente aos homens apostólicos, para que também eles se tornem luz do mundo. Por isso lhes dizia: «Vós sois a luz do mundo» — «Não pode ficar escondida uma cidade situada no alto de um monte; nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, a fim de que ilumine todos os que estão na casa. Assim brilhe a vossa luz diante do mundo, para que veja as vossas boas obras e glorifique o vosso Pai que está nos céus» (Mt 5, 14-16).
A luz do Verbo resplandece nas trevas dos ímpios por meio da luz da razão, dos remorsos da consciência, da voz das criaturas, que todas proclamam que existe um Criador, a quem se devem serviço, veneração, culto e amor… «Pois as coisas invisíveis dele, desde a criação do mundo, compreendidas por meio das coisas criadas, veem-se; e também o seu eterno poder e o seu ser divino; por isso, os incrédulos são indesculpáveis e tornam-se insensatos» (Rm 1, 20-22).
A sua luz ilumina por meio da lei natural escrita no fundo da alma; por meio da nova lei, da Escritura, dos Padres, dos doutores, dos pregadores, dos santos, das boas inspirações, dos sacramentos, dos milagres, do ensinamento da Igreja… Com razão se compara a divindade de Jesus Cristo ao sol, e a sua humanidade à lua; porque 1° assim como o sol é o foco, o pai das demais luzes, assim Jesus Cristo, como Deus, é a fonte, o centro, o pai das luzes; e assim como a lua extrai do sol o seu clarão, assim a humanidade do Redentor recebe da divindade a sua sabedoria, a sua graça e a sua glória. 2° Deus criou o sol como o grande luzeiro para presidir ao dia, e a lua como uma tocha suave e temperada para dominar a noite. Assim, a divindade de Jesus Cristo é o grande sol que forma o dia eterno da suprema bem-aventurança no céu; a sua humanidade é lâmpada preciosa e temperada, que cintila para romper a noite deste século, como já advertia Santo Agostinho (Tract. in Ioann. XXXIV). Pode-se dizer de Jesus Cristo, mais do que do sol, «que percorre o seu curso derramando por todos os lados torrentes de luz» (Ecl 1, 6). A esse respeito dizia Santo Ambrósio: «Jesus Cristo é um novo sol que penetra na sombra e nas trevas, aquece os corações e aperfeiçoa o que é disforme. É um novo sol que vivifica com o seu raio aquilo que está morto, repara o que está arruinado, ressuscita o que está sem vida, consome com o seu calor o que é sórdido, dissipa o que é vicioso e faz desabrochar as flores da virtude. Ele é verdadeiramente o sol da justiça e da sabedoria, que não ilumina indistinta e igualmente os bons e os maus, como faz o sol que brilha no firmamento, mas, com justo juízo, resplandece para os santos e põe-se para os pecadores endurecidos» (Serm. X, de Nativ. Christ.).
Por meio dos profetas, Deus já havia anunciado este caráter do Messias; já havia prometido dar ao mundo o seu Filho, para que ele fosse a luz que iluminasse as suas partes mais recônditas. «Eu te darei como sinal da aliança com o meu povo e como luz para as nações, dizia o Senhor a Jesus Cristo na pessoa de Isaías, para que abras os olhos dos cegos, rompas as cadeias dos prisioneiros e ponhas em liberdade aqueles que estão presos no meio das trevas» (42, 6, 7). «Estabeleci-te como sol para as nações e âncora de salvação para o mundo inteiro; mediador da minha aliança com o povo, para que faças reviver a terra e reúnas as heranças dispersas; para que digas aos prisioneiros: Vossos grilhões estão quebrados; e àqueles que jazem nas trevas: Vede a luz» (49, 6, 8-9).
Voltando-se então para Jerusalém, esse grande profeta exclama: «Vamos, abre agora os olhos à luz, ó Jerusalém, porque ela chegou, e a glória do Senhor resplandece sobre ti. As nações caminharão ao clarão da tua luz, e os reis ao fulgor do teu raio» (60, 1, 3). Levantai-vos, ó povos, convidados a aproximar-vos de Jesus Cristo, luz do mundo; povos infelizes, que dormíeis na cegueira da incredulidade, da idolatria e da ignorância; vós que estáveis sepultados no sono da morte espiritual, encerrados no sepulcro de todos os delitos, levantai-vos; contemplai a luz do Verbo feito carne que avança; e vós que gemíeis acorrentados na escravidão de Satanás, sacudi-vos, abri os olhos; chegou o momento de ver; levantai-vos e recebei Jesus Cristo, o sol divino da justiça que se ergue para vós; erguei a cabeça, abraçai a liberdade e a alegria que vos são oferecidas por Jesus Cristo. Recebei a luz da fé e da graça, para que, transformados à imagem do Filho de Deus, do Deus da luz, também vós vos torneis outros tantos sóis. Não hesiteis; vamos, correi ao encontro da luz que se aproxima. — A vossa luz avança, ei-la chegada. Essa luz é a presença de Jesus Cristo, a sua doutrina, a sua graça, todos os esplendores e a glória do Evangelho.
Diz o profeta Zacarias: «Eis o homem; Oriente é o seu nome» (6, 12). Jesus Cristo é chamado Oriente porque do oriente se ergue a luz… Verdadeiramente, escreve o Crisóstomo, a luz da divindade ergueu-se sob a sombra da humanidade. A luz veio ao mundo; ela se mostra aos nossos olhos turvos. O que estava sepultado nas trevas foi visto, o que estava oculto apareceu em pleno dia, as noites tenebrosas dissiparam-se, para que a luz resplandecesse aos nossos olhos. A luz surgiu para nós, que jazíamos envoltos nas trevas e nas sombras da morte (Homil. ad pop.).
O profeta Malaquias dizia: «Para vós se levantará o sol da justiça: sob a sombra das suas asas estará a salvação» (4, 3). Jesus Cristo, como sol nascente, ilumina, aquece, fecunda e vivifica por meio de mil graças e virtudes. É chamado sol da justiça, 1° porque envia raios de justiça, com os quais ilumina e justifica os pecadores que querem fixar nele o olhar, isto é, crer nele e obedecer-lhe, assim como o sol comunica a sua luz, a alegria e a vida a tudo o que recebe os seus raios. 2° O sol nascente representa um esposo que sai do aposento nupcial; Jesus Cristo, verdadeiro sol, é o esposo da Igreja. 3° O sol percorre o seu curso como um gigante; de modo semelhante, Jesus Cristo percorre, poderoso, a via gloriosa da sua graça, e nada pode detê-lo. 4° O sol não espera que estejamos despertos e levantados, não aguarda que o convidemos e supliquemos, mas resplandece assim que nasce e apresenta a todos os que o veem a luz e a vida. Do mesmo modo, Jesus Cristo nos amou primeiro; e, enquanto ainda éramos seus inimigos, ele se antecipou a nós, iluminou-nos e enriqueceu-nos… 5° O sol se vela de nuvens; Jesus Cristo, tendo-se revestido da nossa carne, velou a sua divindade. Nenhum olho pode fixar o sol, se ele não estiver velado por alguma nuvem: a divindade velou-se com a nuvem da nossa mortalidade, para que nos fosse possível contemplá-la e nada tivéssemos a temer ao nos aproximarmos dela.
Jesus Cristo vence em beleza o mais belo dos filhos dos homens, diz o Salmista; o mais encantador sorriso da graça floresce em seus lábios, porque o Senhor o abençoou pela eternidade. Ninguém pode competir convosco, ó divino Jesus, em beleza; a formosura está derramada sobre o vosso rosto. Nessa beleza incomparável, na vossa majestade, caminhais para o triunfo do mundo; na verdade, na clemência e na justiça, a vossa destra realizará obras portentosas (Sl 44, 2, 4).
«Como és belo, meu amado, como és gracioso!» (Ct 1,15), exclamava a Esposa dos Cânticos. Estas palavras sugeriram a São Bernardo uma dulcíssima apostrofe: «Quanto és belo aos olhos dos anjos, ó Senhor Jesus, em tua forma de Deus, no dia de tua eternidade, no esplendor dos santos, gerado antes da aurora! Tu és o esplendor e a figura da substância do Pai, e eternamente sem nuvens. Quanto és belo, ó meu Senhor, aos meus olhos, no lugar de tua glória! Como és belo em teu aniquilamento, onde escondeste tua luz eterna! Tua piedade mostrou-se mais abertamente; tua caridade resplandeceu mais ardente; tua graça derramou-se mais abundantemente. Como esplêndida e luminosa apareces para mim, ó estrela de Jacó; como gracioso e magnífico te apresentas a mim, ó flor da árvore de Jessé! Como és belo, maravilhosamente belo para as virtudes celestes, em tua concepção pelo Espírito Santo, em teu nascimento de uma Virgem, na inocência de tua vida, em tua doutrina, no fulgor de teus milagres, na revelação de teus mistérios! Ó sol de justiça, com quanta beleza radiante apareces quando, depois de sepultado, ressuscitaste! Como és belo, ó Rei da glória, em tua ascensão! Ah! por que não posso transformar todos os meus membros em outras tantas línguas, para clamar: Quem é semelhante a ti, ó meu Senhor?» (Serm. in Cantic.).
«Que nossa fé, diz Santo Agostinho, nos revele a beleza deste Esposo celestial. O Deus Verbo é belo junto de Deus; belo no seio da Virgem, onde assumiu a humanidade sem perder a divindade. Belo é o Verbo nascido, belo o Verbo menino; pois, enquanto é criança, enquanto mama, enquanto sua mãe o sustenta nos braços, os céus falam, os anjos louvam, a estrela guia os Magos, e ele é adorado no presépio. Ele é belo no céu, belo na terra, belo no seio de Maria, belo nos braços de José, belo nos milagres, belo nos sofrimentos, belo em seus convites à vida, belo ao curar a morte, belo quando sacrifica sua alma, belo quando a retoma, belo na cruz, belo no sepulcro, belo em nossas almas» (In Psalm. XLIV).
São Paulo exortava os filipenses a nutrirem em si os sentimentos que Jesus Cristo tinha em si; ele, estando na forma de Deus, podia, sem usurpação, dizer-se igual a Deus; não obstante, aniquilou-se até o ponto de revestir a forma de servo, feito à semelhança dos homens, tido exteriormente como homem (Fl 2,7)
De todos os bens da terra, Jesus Cristo, Rei dos reis, não quis senão uma estrebaria e uma cruz; e, por meio desses dois instrumentos, pobreza personificada, tirou o mundo dos trapos da mais sórdida miséria e lhe proporcionou riquezas imensas… Aquele que é a riqueza por natureza, diz São Cirilo, nasce numa estrebaria; Aquele que cobre o céu de nuvens é envolto em pobres trapos; Aquele que é o único rei é colocado numa manjedoura» (Homil.).
Jesus Cristo, nos trinta anos de sua vida privada, trabalha com São José para ganhar a vida, ensinamento para nós, a fim de que amemos o trabalho e fujamos da ociosidade. «Um Deus que fez o mundo, pregava Santo Agostinho, trabalha como um pobre artesão. Eis — humilde operário, aquele Deus que endireita a alma, aplaina suas asperezas e corta seus pensamentos orgulhosos (Serm. CV)». «Aquele que despedaça o diamante com um só ato de sua vontade é filho de um carpinteiro», diz Santo Hilário (lib. III).
«Jesus Cristo, diz São Pedro Crisólogo, era filho de um ferreiro; mas daquele ferreiro que ergueu o edifício do universo, não com golpes de martelo, mas com uma palavra de seu poder; que criou e ordenou os elementos com um aceno de sua vontade; que formou e fundiu a massa do mundo não com o calor do carvão, mas com o sopro de sua onipotência: é filho do artífice que acende o sol não com o fogo terreno, mas com seu supremo calor; que criou a lua, estabeleceu a noite, o dia e as estações; que distinguiu as estrelas por seu diferente esplendor, que tirou todas as coisas do nada (Serm. VI)».
«As raposas têm suas tocas, dizia Jesus Cristo, e as aves, seus ninhos; o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20). Entra triunfante em Jerusalém, mas montado num jumentinho que lhe fora cedido por favor… Pobreza voluntária que condena as riquezas e santifica a pobreza… Ele é vendido por trinta dinheiros, preço de um escravo… Portanto, com razão diz: «Ai de vós, ó ricos! Bem-aventurados os pobres!» (Lc 6,24); (Mt 5,3).
Onde encontrar humildade maior que em Jesus Cristo, que a levou até o ponto, diz São Paulo, de aniquilar a si mesmo, revestindo a aparência de servo? (Fl 2,7). «O grande por excelência, exclama Santo Agostinho, veio ao pequeníssimo por essência; o vivente abaixou-se para abraçar-se ao morto. E que fez? Tomou os membros de uma criancinha, fazendo-se pequeníssimo, para assumir a forma de servo; unindo-se ao pequeno, fez-se pequeno ele mesmo, para transformar nosso corpo de ignomínia num corpo conforme ao seu, cheio de glória (Serm. LV)».
Por amor à humildade, Jesus Cristo desce ao seio de uma virgem, nasce numa estrebaria, leva uma vida pobre, ignorada e escondida durante trinta anos, e a consuma num patíbulo infame, entre dois malfeitores, sendo ele mesmo tido por criminoso… Que sublimes e numerosas lições de humildade para os homens! … E, enquanto nosso grande Deus tanto se abaixa, será lícito a nós, vermes da terra, ensoberbecer-nos? «Para que o homem não desdenhasse humilhar-se, Deus se abaixou, diz o citado Santo Agostinho; e nós, homens, pela humildade do Verbo de Deus, que tomou nossa carne, tornamo-nos deuses. Portanto, o homem, que é um nada, abaixe a fronte orgulhosa e não desdenhe seguir os passos de um Deus em sua humildade» (Serm. LV).
Tal foi a obediência de Jesus Cristo para com o Pai celeste que, ainda antes de nascer, já se oferecia como vítima de obediência, dizendo-lhe: «Tu rejeitaste o sacrifício e as ofertas e me deste um corpo; não quiseste holocausto nem sacrifício pelo pecado; então eu disse: «Eis-me pronto para fazer tua vontade; assim o quis, meu Deus» (Hb 10,5-7).
Durante sua vida, depende em tudo dos acenos de José e de Maria (Lc 2,51); e «aquele Cristo, comenta aqui Santo Agostinho, por cujo império o mundo se rege, está submetido à ordem de seus parentes (In Luc. Evang)». Quanto à sua submissão ao Pai celeste, ela é tão plena e tão absoluta que pode dizer «que seu alimento e sustento é fazer a vontade daquele que o enviou» (Jo 4,34); uma prova esplêndida disso ele ofereceu no horto das Oliveiras, onde, tomado de tristeza, entre angústias tão cruéis que lhe fizeram exprimir pelas veias um suor de sangue, profere estas palavras: «Ó Pai, se é possível, seja-me poupado este cálice de amargura; não se faça, porém, como eu quero, mas como tu queres» (Mt 26,39). Com razão, portanto, São Paulo afirmava de Jesus Cristo que ele se fizera obediente até a morte, e à morte de cruz (Fl 2,8).
A exemplo de Jesus Cristo, também nós devemos imolar nossa vontade e sujeitá-la inteiramente à vontade de Deus. Devemos dizer e praticar aquelas sublimes palavras que ele nos ensinou na oração do Pai-Nosso: «Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu» (Mt 6,10).
Quem não admirará a bondade e o amor de Jesus Cristo, quando se lembrar e meditar em tudo quanto fez e padeceu por nós? Aquele Deus que era somente nosso pai, na sua divindade e na criação, tornou-se, ao revestir-se da nossa humanidade e ao redimir-nos, também nossa mãe. Deus tomou como esposa a humanidade, nossa mãe; uniu-a a si hipostaticamente. Os filhos, a quem a severidade do pai causa temor, costumam recorrer à mãe; façamos também nós o mesmo: recorramos à santa humanidade de Jesus Cristo, tomemo-la por nossa mãe, e ela nos conduzirá a Deus, nosso pai. Por isso, a Igreja encerra todas as suas orações com estas palavras: Nós vos pedimos estas graças, ó Deus, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A humanidade de Jesus Cristo é nossa mãe; assim como uma mãe carrega com muito cuidado e sofrimento, em seu ventre, o filho; forma-o, dá-lhe à luz, amamenta-o, enfaixa-o, toma-o nos braços, instrui-o e faz dele um homem, assim também Jesus Cristo, qual terna mãe, durante trinta e três anos, à custa de contínuos trabalhos, de incessantes dores e, principalmente, com sua paixão e sua morte na cruz, concebeu-nos, deu-nos à luz para a graça, amamentou-nos, alimentou-nos e formou-nos, para que nos tornemos homens perfeitos. Esta é a razão por que Jesus Cristo, ao tomar nossa carne, quis nascer somente de mãe, sem pai… «Por amor de nós, diz São Paulo, Jesus Cristo entregou-se por nós, para nos remir de toda iniquidade e formar para si um povo puro, agradável e zeloso de boas obras» (Tt 2, 14).
«O homem, em seu miserável estado de perdição, necessitava de duas coisas, observa São Tomás: isto é, de participar da divindade e de despojar-se do homem velho. Ora, Cristo nos obteve uma e outra: a primeira, quando nos fez, por sua graça, participantes da natureza divina; a segunda, quando, pelo batismo, nos regenerou e transformou em uma nova criatura (In Epistola ad Tit.)». Jesus Cristo, diz o mesmo doutor, fez-se nosso companheiro, nascendo; nosso alimento, comendo conosco; nosso preço, morrendo por nós; nosso prêmio, reinando na glória (Hymn. in Officio SS.mi Sacram.)».
Isaías havia predito acerca do Messias que ele não seria ruidoso nem faria acepção de pessoas; que não quebraria a cana fendida, nem apagaria o pavio ainda fumegante (Is 42, 27). Ora, foi precisamente isto que Jesus Cristo fez quando, instigado por seus discípulos a fazer descer fogo do céu sobre a cidade que se recusara a recebê-lo, disse-lhes: «Ah! vós não sabeis de que espírito sois movidos ao fazer tal proposta. O Filho do homem não veio para condenar as almas, mas para salvá-las» (Lc 9, 54-56).
Observai a bondade de Jesus Cristo para com a Samaritana, a mulher adúltera, Madalena…! Contemplai sua bondade nas parábolas do bom pastor, que toma sobre os ombros a ovelhinha perdida e indócil; do caridoso Samaritano; do pai do filho pródigo etc. Pensai que Judas o trai com um beijo e, todavia, lhe dá o doce nome de amigo; Pedro o renega três vezes, e ele lhe perdoa; o bom ladrão pede graça, e a obtém; seus inimigos clamam: Seja crucificado — e ele exclama do alto da cruz: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» — Ele morre de amor por nós, que éramos seus crucificadores… E depois disso, vos admirareis de ouvi-lo repetir: «Vinde a mim, todos vós que vergais sob o peso do trabalho, e eu vos confortarei» (Mt 11, 28)? … O amor de Jesus Cristo é incompreensível, inefável, principalmente na cruz e no santo sacramento do altar… Ele verdadeiramente «nos constrange e nos impele», como se exprime São Paulo (2Cor 5, 14).
Jesus Cristo, como Deus, é a santidade por essência, a santidade incriada, infinita; como homem, é santíssimo, não somente pela graça infundida em sua alma, graça pela qual supera infinitamente todos os anjos e santos, mas principalmente pela união da graça hipostática, em virtude da qual a plenitude da divindade, como se exprime São Paulo, e, portanto, da santidade, habita nele corporalmente (Cl 2, 9).
Esta santidade em Jesus Cristo é incomparável, incompreensível, porque Deus constituiu Jesus Cristo como fonte, nascente da expiação e da santificação do gênero humano. Todos nós haurimos desta plenitude de santidade, e o que dela resta é suficiente para purificar e limpar milhões de mundos de todos os pecados possíveis, e santificar um número infinito de almas. Isto explica aquelas palavras de São Paulo: «Deus nos escolheu em Jesus Cristo antes da constituição do mundo, para que fôssemos santos e imaculados diante dele na caridade» (Ef 1, 4).
A santidade de Jesus Cristo é, pois, a causa eficiente, meritória, exemplar e final de toda a santidade dos homens; pois toda a nossa santidade deve conformar-se à santidade de Jesus Cristo, como ao seu modelo, e ser orientada para a sua glória, como para o seu último fim, a fim de que ele seja honrado, louvado e glorificado eternamente em todos aqueles que redimiu e santificou. Por isso, devemos a Jesus Cristo o mais profundo respeito, reconhecimento, amor e uma obediência ilimitada.
(Ver também acima n. 30. e 31).
Jesus Cristo é o fundamento de todas as coisas; jamais houve, nem jamais haverá, outro. «Ninguém, diz São Paulo, pode lançar outro fundamento além daquele que já foi lançado; e este é Jesus Cristo» (1Cor 3, 11); Santo Agostinho diz que Jesus Cristo é o fundamento dos fundamentos (Sentent. CVI).
São Paulo, falando dos judeus peregrinantes no deserto, diz que todos beberam a mesma bebida espiritual, que brotava da pedra espiritual que os seguia; e essa pedra era Cristo (1Cor 10,4). O rochedo de Horeb e a água que dele jorrava figuravam Jesus Cristo, sua doutrina, seu sangue e seus sacramentos. Ele é a rocha sobre a qual está fundada a Igreja; é a fonte dos favores que os israelitas receberam e daqueles que nós recebemos continuamente de Deus. Aquela pedra era a figura de Jesus Cristo, verdadeira pedra fundamental, que seguia os judeus no deserto e acompanhava e acompanhará para sempre a sua Igreja, segundo sua promessa: «Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo» (Mt 28, 20).
Que desígnio teve Deus Pai na missão de Jesus Cristo? Este, responde São Paulo: «o de restaurar, reparar e reunir em Jesus Cristo todas as coisas que estão contidas no céu e na terra» (Ef 1, 10). «O céu foi restaurado por Jesus Cristo, comenta aqui Santo Agostinho, porque, por meio dele, os homens ocupam os lugares deixados vazios pelos anjos; a terra é renovada e restabelecida, porque os homens predestinados à vida eterna são purificados da antiga corrupção e rejuvenescidos em Jesus Cristo (Serm.)».
«Nós somos obra, edifício de Jesus Cristo — continua o mesmo Apóstolo —, alicerçados sobre ele como sobre a pedra angular, sobre a qual é necessário que se apoie toda construção que se queira elevar como templo santo de Deus; e sobre a qual também vós sois edificados para serdes a morada de Deus no Espírito Santo» (Ef 2, 20-22). «Em Jesus Cristo foram criadas todas as coisas no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis; os tronos e as dominações, os principados e as potestades: tudo, enfim, foi criado por ele. E ele existe antes de todas as coisas, e nele subsiste tudo. Ele é a cabeça do corpo da Igreja, é o princípio, o primogênito dentre os mortos, de modo que tem o primado em todas as coisas; porque aprouve ao Pai que nele habitasse toda a plenitude (Cl 1, 16-19), e quis reconciliar consigo todas as coisas por meio dele, pacificando, pelo sangue de sua cruz, tudo o que há no céu e na terra; nele também encontramos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados» (Cl 1, 20, 14).
A mesma doutrina de São Paulo é ensinada por São João, que diz abertamente que «todas as coisas foram feitas por meio do Verbo, e sem ele nada foi feito de tudo o que foi feito. O mundo foi criado por meio dele» (Jo 1, 3).
Os Atos dos Apóstolos narram que São Pedro, movido pelo Espírito Santo, disse aos príncipes do povo e aos anciãos de Israel, falando de Jesus Cristo: «Esta é a pedra rejeitada por vós, construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; pois não há, sob o céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos» (At 4, 11-12). E, em sua Primeira Epístola, escrevia: «Aproximando-vos dele, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrada por Deus, também vós, como pedras vivas, sois edificados sobre ele como casa espiritual, sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo. Por isso lemos na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra principal, angular, escolhida, preciosa; e quem nela crer não ficará confundido» (II, 4-6).
1° Jesus Cristo é a pedra angular e fundamental da Igreja…; 2° Jesus Cristo é firme como um rochedo…; 3° Jesus Cristo golpeia e derruba o demônio, como a pedra de Davi derrubou Golias…; 4° Jesus Cristo é a pedra de refúgio para todos os que nele esperam. As Sagradas Escrituras nos oferecem Jesus Cristo simbolizado: 1° na pedra sobre a qual Jacó repousava, quando viu uma escada que, apoiada na terra, tocava com o cimo o céu, e pela qual subiam os anjos (Gn 28, 11-12); 2° na pedra sobre a qual Moisés rezava, mantendo os braços elevados ao céu, enquanto Josué, com seu exército, combatia os amalecitas (Ex 17, 12); 3° no rochedo que, tocado pela vara de Moisés, fez brotar uma fonte de água para o povo sedento (Nm 20, 11); 4° na pedra da gruta, na qual Moisés viu a glória de Deus que passava (Ex 34, 5-6); 5° na pedra com que Davi prostrou o gigante (1Rs 17, 49); 6° na pedra das tábuas sobre as quais Deus escreveu o Decálogo…; 7° na pedra que Josué ergueu como testemunho da miraculosa passagem do Jordão (Js 4, 5-11); 8° na pedra sobre a qual foi colocada a arca da aliança (1Sm 6, 15); 9° na pedra de refúgio e de auxílio (1Sm 7, 12).
Jesus Cristo é a pedra viva e vivificante de todas as coisas… Já a ele aludia o Salmista quando dizia: «A pedra que os arquitetos rejeitaram tornou-se a pedra angular. Esta é obra do Senhor, e nós a contemplamos, admirados» (Sl 117, 21-22).
«Jesus Cristo é o fim da lei, para a justificação de todo aquele que tem fé», lemos em São Paulo (Rm 10, 4).
Jesus Cristo é o fim da lei: 1° porque a terminou — diz Santo Agostinho —, fê-la cessar, cumprindo suas figuras (Sentent.). 2° É fim, isto é, consumação da lei, porque, como observa o Crisóstomo, fez aquilo que a lei não pôde fazer, isto é, tornar justo o homem (Homil. in Epistola B. Pauli). 3° É fim, ou perfeição da lei — escreve Santo Anselmo —, porque, sem a fé em Jesus Cristo, a lei não pôde nem pode ser praticada e cumprida (In Monolog.). 4° Fim, isto é, finalidade da lei, é Jesus Cristo porque, segundo a observação de Teodoreto, toda a lei se refere, tende, visa e conduz a Cristo, como a seu próprio fim, termo e finalidade (In Epistola S. Pauli).
«O fim dos fiéis — observa Santo Agostinho — é Jesus Cristo; quando chegamos a ele, nada mais nos resta encontrar, mas devemos repousar nele (Sentent. CVI)».
Cristo é o fim da lei, para a justificação de todo aquele que tem fé. ― Deus estabeleceu esta justiça, ou justificação, não na lei, mas na fé em Jesus Cristo. Moisés promete, segundo a justiça legal e aos justos segundo a lei, somente a vida temporal; mas Deus promete a salvação e a vida eterna à justiça que provém da fé em Jesus Cristo e aos fiéis que vivem dele… Jesus Cristo é o autor, a causa, o fim da lei, da graça e da virtude de todos os fiéis, segundo estas palavras de São Paulo aos Coríntios: «Há diferentes graças, mas um só Espírito; diferentes ministérios, mas um só Senhor; diferentes operações, mas um só Deus, que opera tudo em todos» (1Cor 12, 4-6).
Deus reuniu e uniu todas as coisas em Jesus Cristo, para que ele seja a base, a perfeição, o fim, a conclusão, a coroa, o compêndio, a união, não somente da lei e dos profetas, mas de todas as obras de Deus e de todo o universo, segundo a sentença do Apóstolo aos Efésios: «Deus se propôs restaurar em Cristo tudo o que há no céu e na terra» (Ef 1, 9-10). Por isso Jesus Cristo é chamado no Apocalipse: «Princípio e fim» (Ap 1, 8); o Salvador, do alto da cruz, sabendo que tudo estava consumado, disse: Tudo está consumado; e, inclinando a cabeça, entregou o espírito (Jo 19, 28-30).
A Igreja, os profetas, os apóstolos e todos os santos começam, continuam e terminam todas as suas palavras e obras em Jesus Cristo e por Jesus Cristo; a ele dizem, com São Gregório Nazianzeno, como ao fim e centro de seus corações: «Tudo se cumpre por vós, ó Princípio de tudo» (In Distich.). Assim como aquele que se consagra inteiramente a um objeto pensa continuamente nele, fala dele com frequência e até o representa em sonhos, assim também os profetas, feridos pelo amor divino, desejavam o Messias com tanto ardor que a ele dirigiam o pensamento, as palavras e as ações; nada mais buscavam, nada mais cantavam, nada mais anunciavam senão a ele: toda a sua pessoa e vida eram uma figura daquele em quem somente estavam a salvação, a vida, a redenção do mundo, os bens espirituais, os mistérios, a ressurreição e a felicidade suprema…
Jesus Cristo é, pois, o princípio, o termo, o fim, o propósito, o modelo, o nó, o vínculo, o centro, a vida, a salvação e a bem-aventurança de todo o universo. Ele une todas as coisas, restaura todas elas: é a cabeça de tudo; tudo se consumou e se consuma nele. Por isso escreve admiravelmente Santo Agostinho: «Jesus Cristo nasceu de uma Virgem, para que nós nascêssemos do seio da Igreja virgem. Foi tentado, para nos libertar da tentação; preso, para nos dar ocasião de fugir; amarrado, para romper os grilhões da maldição; escarnecido, ridicularizado e ultrajado, para nos defender dos insultos e das zombarias do demônio. Foi vendido, para nos resgatar; humilhado, para nos exaltar; despojado, para vestir a nudez do primeiro homem, nudez que abriu a porta à morte para que entrasse no mundo. Foi coroado de espinhos, para arrancar de nós os espinhos do pecado; deram-lhe de beber vinagre, para nos inebriar com a doçura dos desejos celestes e da alegria eterna; crucificado, para destruir o reino da morte; sepultado, para abençoar o túmulo dos santos e sepultar nossas concupiscências e vícios» (Serm. CLXXXI de tempo C. VI).
«Por meio dele (Jesus Cristo) temos acesso ao Pai, mediante o mesmo Espírito» (Ef 2, 18), diz São Paulo; e em outra passagem exorta-nos assim: «Tendo nós um grande pontífice, que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus, conservemos a nossa profissão de fé. Pois não temos um pontífice que não possa compadecer-se de nossas enfermidades, mas que, à semelhança de nós, foi provado em tudo, exceto no pecado. Aproximemo-nos, portanto, com confiança do trono da graça, para obter misericórdia e encontrar graça para o auxílio oportuno» (Hb 4, 14-16). «Pois Jesus não entrou num santuário feito por mãos humanas, imagem do verdadeiro, mas no próprio céu, para comparecer agora em nosso favor diante de Deus» (Hb 11, 24). «Por isso pode salvar perpetuamente aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós». «Com efeito, convinha que tivéssemos um pontífice santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e elevado acima dos céus; que não tivesse necessidade, como os sacerdotes, de oferecer vítimas todos os dias, primeiro por seus próprios pecados, depois pelos do povo; porque isso ele o fez uma só vez, oferecendo-se a si mesmo» (Hb 7, 25-27).
Referem-se a Cristo estas palavras da Sabedoria: «Quando já se elevavam montões de mortos, ele se interpôs como mediador; deteve a vingança de Deus e a reteve. Diante dele parou a espada do Senhor» (Sb 18, 23). Diz Santo Ambrósio: «Onde está Jesus Cristo, aí está todo bem; aí estão a sua doutrina, a remissão dos pecados, a graça, a separação dos vivos dos mortos. Ele separa as virtudes dos cadáveres das paixões mortíferas e expulsa a peste dos maus pensamentos. Aqui ele está pronto, tendo vindo por isso ao mundo, para quebrar o aguilhão da morte, fechar a boca devoradora, dar aos vivos a eternidade da graça e aos mortos a ressurreição para a glória (Lib. 3, de Virg)».
«Eu te dei, disse Deus a Jesus Cristo pela boca de Isaías, para ser aliança entre mim e o povo» (Is 49, 8); isto é, eu te constituí mediador entre mim e os homens; tu farás uma nova aliança, um novo pacto entre Deus e as nações, entre o céu e a terra, e o selarás com o teu sangue, com a tua morte na cruz.
Observa Santo Ambrósio: «Jesus está suspenso na cruz entre o céu e a terra, como mediador para reconciliar o homem com Deus; para receber sobre si as flechas inflamadas da ira de Deus, lançadas contra os maus, e impedir que cheguem a feri-los; para recebê-las todas em sua carne santa e pagar ele só pelas iniquidades de todos. Ele estende, em forma de arco, os braços sobre a cruz, e seu Pai lança sobre ele os dardos destinados aos pecadores. Ele, por sua vez — ó admirável vingança de Jesus Cristo! — estende os braços para o Pai e lhe devolve as flechas ardentes da oração e do amor, para ferir-lhe o coração e fazer dele sair o perdão para o homem!» (lib. 3, de Virg.).
Jesus Cristo é mediador para aplacar a ira de Deus e obter o perdão dos pecados. Seu sangue lava a terra e a transforma em céu. Ele ressuscita os mortos, expia os pecados, mata a própria morte, fecha o inferno, cancela a maldição fulminada contra Adão e sua descendência… Jesus Cristo é mediador e reparador: «Ele reedificará, diz o Senhor dos exércitos, a minha cidade e porá em liberdade os prisioneiros» (Is 45, 13). Construirá a Igreja, romperá as cadeias do pecado e do demônio… Jesus Cristo é a causa formal e final da justificação… Jesus Cristo repara o céu, povoando-o; a terra, perdoando-lhe; liberta as almas do purgatório…
Jeremias predisse que, nos tempos de Jesus Cristo, Judá seria salvo e Israel viveria em plena segurança (Jr 23, 6); Jesus, pela boca de Isaías, nos diz: «Voltai-vos para mim e sereis salvos» (Is 46, 22).
Os santos Padres aplicam a Jesus Cristo estas palavras do Senhor a Isaías: «A minha justiça se aproxima; já não está longe e não tardará a manifestar-se. Darei a luz em Sião» (Is 50,13). Com efeito, Jesus Cristo leva a Sião, isto é, à sua Igreja, a verdadeira e eterna justiça, a salvação e a glória. Porque a nossa justiça, salvação e glória se aproximam à medida que Jesus Cristo se aproxima. Quanto alguém está longe de Cristo, tanto está longe da justiça, da salvação e da glória; quanto mais alguém está perto de Jesus Cristo, tanto mais está perto da justiça, da salvação e da glória…
«Fortalecei as mãos enfraquecidas, robustecei os joelhos vacilantes, diz também Isaías, profetizando a respeito de Cristo. Dizei aos corações tímidos: Reanimai-vos e não temais; eis que o vosso Deus vem em pessoa e vos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos. O coxo caminhará veloz como um cervo, a língua do mudo se soltará livre e desembaraçada; então as rochas do deserto se fenderão e delas brotarão rios» (Is 35,3-6).
«Jesus Cristo, diz São Paulo, salvou-nos não por causa das boas obras que nós fizemos, mas por sua misericórdia» (Tt 3, 5); — «e morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2Cor 5, 15); «e é sua vontade que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm 2, 4).
Os anjos também pertencem ao rebanho de Jesus Cristo. Ele é seu salvador, porque lhes mereceu todas as graças e toda a sua glória, isto é, sua eleição, predestinação, vocação, todos os auxílios prevenientes, suficientes e eficazes; enfim, todos os seus méritos e o aumento da graça e da glória. Tendo os anjos tido uma fé viva em Jesus Cristo, foram, em virtude dessa fé, justificados; assim ensinam unanimemente os teólogos.
Jesus Cristo é salvador dos anjos, não redentor, porque os anjos bons e fiéis, não tendo pecado, não necessitam de redenção…
«Ó Deus, nosso protetor, exclama o Salmista, olhai e contemplai o rosto do vosso Cristo» (Sl 80,9). Jesus Cristo nos protege contra a justiça de seu Pai, oferecendo-se como vítima… Protege-nos contra os demônios, acorrentando-os… Protege-nos contra o mundo, mostrando-nos seus escolhos e seus erros… Protege-nos contra nós mesmos, ajudando-nos… Protege-nos contra o pecado, dando-nos a sua graça etc.…
Jesus Cristo é nosso pai por um título muito mais forte do que Adão, porque este foi o autor da morte, ao passo que Jesus é o autor da vida… Ele é nosso Criador…, Conservador…, Redentor…, etc. A ele somos devedores de tudo…, da vida do corpo…, da vida da alma…, da graça…, da glória…
«Eu salvarei o meu rebanho, dizia Deus pela boca de Ezequiel; estabelecerei sobre ele um pastor que o apascentará» (Ez 34, 22-23). Este pastor é Jesus Cristo, que disse de si mesmo: «Eu sou o bom Pastor e dou a minha vida para salvar a de minhas ovelhas» (Jo 10, 14-15). Sim, Jesus Cristo é o verdadeiro e único pastor; os papas e os bispos são seus vigários. Este bom pastor nos alimenta com sua graça, com seu Evangelho, com sua palavra, com seus sacramentos, com sua carne, com seu sangue, com sua alma, com sua divindade; e nos alimentará com sua glória eterna, se soubermos aproveitar o alimento que nos oferece no tempo…
«Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedeque» (Sl 109, 5), dizia Davi, contemplando o Cristo.
Todos os séculos suspiram pelo Cristo como o grande sacerdote, que deve salvar o homem de todos os males e proporcionar-lhe todos os bens. Jesus Cristo é o pontífice do grande templo, isto é, do universo. O mundo é como o templo sagrado de Deus, cujo sacerdote é o homem, que deve dar graças a Deus por todas as criaturas e obter para cada uma delas a abundância dos bens e o afastamento do mal. Ora, como os homens, quase sempre curvados para a terra, não olham para o céu e já não podem cumprir convenientemente tal ofício, Jesus Cristo foi enviado como pontífice para cumprir esses deveres e oferecer a Deus o tributo de reconhecimento, de amor e de glória que lhe é devido, para que ofereça um culto digno em nome de todos e mova os homens a imitá-lo.
Este grande pontífice ofereceu o sacrifício da cruz; imolou-se a si mesmo pelo mundo inteiro; sacrifica-se todos os dias nos altares católicos pelas mãos dos sacerdotes.
«Eu sou a porta, disse Jesus Cristo; quem quer que entrar por mim será salvo; entrará e sairá, e encontrará pastagem» (Jo 10, 9).
Para esta porta salutar e divina corria São Paulo: «Eu corro para o termo, diz ele, para a sublime recompensa a que Deus me chamou em Jesus Cristo. Tenhamos estes sentimentos, se somos perfeitos» (Fl 3, 14-15). E em outra passagem: «Esforço-me por alcançar aquilo para o que também fui alcançado por Cristo Jesus. Eu não creio ter atingido a meta; mas, esquecendo-me do que fica para trás, lanço-me para as coisas que estão diante de mim» (Ib. 12-13).
Jesus Cristo é a porta da luz, da graça, do perdão, da boa morte, do céu, da glória eterna. Ele é a única e verdadeira porta; por nenhuma outra se entra no céu, assim como não há outro nome pelo qual se possa alcançar a salvação, como afirma São Pedro.
«Eu sou, diz Jesus Cristo, o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim» (Jo 14, 6).
Jesus é o caminho: porque 1° nos abriu o céu com seu sangue… 2° nos traça o caminho com sua doutrina… 3° inspira-nos a fé, a graça e as boas obras; por meio das quais, conduzidos como por guias seguros, vamos para a vida eterna… 4° ele mesmo nos precedeu neste caminho do céu, com sua vida e sua paixão, para que, imitando-o, possamos segui-lo e chegar à suprema felicidade do céu.
«Fazei, ó Senhor, suplica São Bernardo, que nós vos sigamos e que por vosso intermédio cheguemos a vós, porque vós sois o caminho, a verdade e a vida: o caminho pelo exemplo, a verdade pelas promessas, a vida pela recompensa. Eu sou, dissestes vós mesmo, o caminho pelo qual é preciso caminhar, a verdade à qual é preciso ir, a vida na qual é preciso permanecer. Eu sou o caminho sem desvio, a verdade sem erro, a vida sem morte. Eu sou o caminho reto, a verdade irrevogável, a vida interminável. Eu sou o caminho largo e espaçoso, a verdade forte e universal, a vida deleitosa e gloriosa» (Serm. 2, de Ascens.).
Jesus Cristo é o caminho; ele vem do céu; é a verdade da fé, é a regra do nosso crer; é a vida, e ninguém mais pode dar-nos a vida que esperamos. «Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, segundo a humanidade é o caminho, porque veio a nós e voltou ao Pai; segundo a divindade é a verdade. Aonde quereis ir? Eu sou a verdade. Onde quereis morar? Eu sou a vida. Todos desejam a verdade e a vida. Jesus Cristo vai por si mesmo, a si mesmo e ao Pai; nós vamos por ele, a ele e ao seu Pai» (Serm. LV, de Verbo Dom. in Ioann.).
«Jesus Cristo não nos desencaminha, diz Santo Hilário, porque é o caminho; não nos engana, porque é a verdade; não nos deixa no horror da morte, porque é a vida. Se ele é o caminho, não precisamos de outro guia; se é a verdade, é infalível; se é a vida, chega-se a ele também por meio da morte» (De Trinit. lib. VIII).
«Ah, sim, vinde a mim, vós que estais aflitos e cansados» — diz-nos o divino Salvador —, porque eu sou, como explica São Bernardo, «o caminho da luz e da paz, a verdade viva sem dor, a vida feliz e amena. Sou o caminho para o Calvário, a verdade no inferno, a vida na alegria da ressurreição. Sou o caminho reto, a verdade perfeita, a vida sem fim. Sou o caminho da reconciliação, a verdade da recompensa, a vida da eterna bem-aventurança» (Serm. 7, in Coena Dom.)
«Jesus Cristo, diz São Cirilo, é o nosso caminho por sua santa vida, a verdade para a segurança da fé, a vida para a santificação» (Catech. lib. 9, c. 35). Ou, como se exprime São Leão, «é o caminho do santo proceder, é a verdade da doutrina divina, é a vida da eterna bem-aventurança» (Serm. 3, De Resurr.).
«Entremos, pois, direi com Santo Ambrósio, neste caminho que é Jesus Cristo; conservemos a verdade, sigamos a vida. Ele é o caminho que conduz, a verdade que confirma, a vida que é dada aos perseverantes. A possibilidade está no caminho, a fé na verdade, a recompensa na vida. Ó Jesus, acolhe-nos como caminho, confirma-nos como verdade, vivifica-nos como vida (De Bono mortis. c. XII)». E com Santo Agostinho: «Vós bastais a Jesus Cristo, e também a vós baste Jesus, que é o caminho, a verdade, a vida» (De Trinit. lib. 1, c. 8).
Jesus Cristo, segundo a bela observação de São Jerônimo, é a verdade porque é testemunha de tudo quanto o Pai prometeu e deu ao mundo. É testemunha do cumprimento de todas as profecias e de todas as promessas de Deus. É testemunha da vontade divina, porque nos ensina o que Deus quer de nós, para que lhe sejamos agradáveis e operemos a nossa salvação. É testemunha da verdade, da doutrina verdadeira, sã e salutar; por isso diz a Pilatos: «Eu nasci para dar testemunho da verdade» (Jo 18, 37); e Isaías havia profetizado que o Messias Jesus seria o guia e o doutor das nações. É testemunha das coisas futuras na eternidade; porque nos assegura que haverá um juízo universal, uma ressurreição geral, uma recompensa pelas boas obras, um castigo pelo delito, um prêmio para as almas piedosas, um fogo eterno para os incrédulos e os ímpios. Ele, porém, não é apenas testemunha dessas grandes coisas, mas é o guia pelo caminho para a eternidade bem-aventurada, e nos ensina os meios para lá chegarmos (De Incarn.).
«Por um homem, diz o Apóstolo, entrou a morte no mundo, e por um homem a ressurreição dos mortos: e quem são esses dois homens, um da morte, outro da vida?» «Assim como todos morremos em Adão, assim todos recebemos a vida em Jesus Cristo» (1Cor 15, 21-22). A razão no-la diz São João: Jesus Cristo é o Verbo de Deus; ora, no Verbo estava a vida e a luz dos homens (Jo 1, 4). «Mais ainda: esta é uma prova esplêndida que Deus nos deu do seu amor, pois enviou ao mundo o seu unigênito, para que vivamos por ele. E nele há tal abundância de vida que quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho não tem a vida. Sabei, portanto, vós todos que credes no nome do Filho de Deus, que tendes em vós a vida eterna» (1Jo 4,9); (Ib. 5, 11-13).
Com toda a razão podia afirmá-lo São João, que havia sido instruído por esse Cristo que já dissera, voltando-se para o Pai: «Esta é a vida eterna: conhecer a ti, único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo» (Jo 17,3).
A propósito do anúncio feito por Jesus Cristo da instituição da santa Eucaristia, o evangelista observa que alguns de seus seguidores se afastaram dele; e então Jesus disse aos doze: Quereis também vós ir embora? Mas Simão Pedro respondeu prontamente: «A quem iremos, Senhor? Só vós tendes palavras de vida eterna» (Ib. 6, 67-69). São Pedro havia compreendido bem a sentença pronunciada pouco antes por Jesus Cristo: «Eu sou o pão da vida; quem vem a mim nunca mais terá fome» (Ib. 35).
«O sopro de nossa boca, o Cristo Senhor, foi envolvido em nossos pecados; a ele dissemos: À tua sombra viveremos», lemos em Jeremias (Lm 4, 20). Sim, viveremos de seu sopro, à sombra de sua proteção, à sombra de sua paixão, de seu sangue, de sua morte, de sua ressurreição.
Jesus Cristo é chamado nosso sopro, nossa respiração: 1° porque dele vem o espírito de profecia…; 2° porque ele é o fim, o objetivo, o termo de todas as profecias…; 3° porque é nossa alma e nossa vida…; 4° porque aqueles que amam Jesus respiram-no continuamente e dele se inspiram em tudo; têm-no sempre diante dos olhos, nos lábios, no coração; repetem com São Bernardo: «Jesus é mel para a minha boca, harmonia para o meu ouvido, júbilo para o meu coração» (Serm. 15, in Cant.); 5° porque somente ele é nosso refúgio e nosso alento nas tribulações e aflições…; 6° porque deve ser doce e caro ao nosso coração, como o respiro e o espírito vital; pois, assim como a respiração modera o calor do coração e conserva a vida, assim a graça de Jesus modera a concupiscência e mantém a vida da alma. Finalmente, não é Jesus, como afirma São Paulo, a atmosfera na qual nos movemos, vivemos e existimos? (At 17, 28).
A alma fiel, a alma consagrada a Deus, diz muitas vezes consigo mesma: Seja Jesus o meu alento, a minha sombra, a minha alma, a minha vida; Jesus Cristo é aquele que eu respiro; Jesus Cristo me é mais caro, mais íntimo, mais precioso que o meu respiro, a minha alma, a minha vida; porque ele é a alma da minha alma, o espírito do meu espírito, a pulsação e o centro do meu coração. Assim como a alma vivifica o corpo, move, sustenta e governa todos os membros, de modo que ele fala pela boca, vê pelos olhos, ouve pelos ouvidos, caminha com os pés, toca com as mãos, assim Jesus Cristo anima e vivifica a minha alma e, por meio dela, o meu corpo, os meus sentidos, as minhas faculdades e todo o meu ser; ele dirige os meus membros e as minhas potências para o bem e para a obediência à sua lei; conduz a língua, para que reze e narre os seus benefícios; os olhos, para que vejam os seus prodígios; os ouvidos, para que escutem a sua voz, os seus conselhos, os seus preceitos; o coração, para que o ame; a alma, para que lhe dê graças; as mãos e os pés, para que trabalhem para a sua glória e para a saúde de todo o corpo. Tal era o espírito, a alma, o coração de São Paulo, que por isso dizia: «Já não sou eu que vivo, mas é Jesus que vive em mim» (Gl 2, 20). «Jesus Cristo é a minha vida e a morte é para mim um lucro» (Fl 1, 21).
Sem Jesus Cristo, toda a nossa vida se consome sem proveito e inutilmente; ele mesmo o disse: «Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15, 5). Ora, isso implica o dever de viver, falar e agir em Jesus Cristo e por Jesus Cristo, segundo a exortação do Apóstolo: «Quer vivamos, vivamos para o Senhor; quer morramos, morramos para o Senhor; e, vivendo, portanto, e morrendo, somos do Senhor» (Rm 14, 8). E então podemos, no momento da morte, repetir com Santo Estêvão: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito» (At 7, 58).
Este era o modo de viver dos santos, os quais estavam tão familiar e intimamente unidos a Jesus Cristo, que neles aparecia mais a semelhança de Jesus Cristo que a própria, e parecia ouvir-se e ver-se neles o próprio Jesus Cristo. Por isso, São Dionísio e os mestres da vida espiritual ensinam que o ápice da perfeição consiste nesta união com Jesus Cristo, a qual substitui à ação do homem a ação de Jesus; isto é, a alma, rezando, agindo e sofrendo, torna-se antes passiva que ativa; recebe de Jesus Cristo todas as suas inspirações e movimentos, e deixa-se conduzir cegamente por ele em tudo.
Os que assim procedem repousam tranquilos em Jesus Cristo, em sua providência, em seus cuidados, em seu amor; lançam em Jesus Cristo todos os seus pensamentos, temores e sofrimentos, dizendo com o Salmista: «Quanto a mim, sou pobre e miserável, mas o Senhor cuida de mim. Tu és meu auxílio e meu libertador, ó meu Deus, não tardes» (Sl 39,17). Estando em Jesus Cristo, nada temem: nem o homem, nem a carne, nem o mundo, nem o demônio, nem as doenças, nem as cruzes, nem a morte, nem o próprio inferno; porque com Jesus não se desce ao inferno, mas se sobe ao céu. Este é o caminho do paraíso e o princípio da bem-aventurança celeste e eterna.
Ó dulcíssimo Jesus, sede minha respiração, minha aspiração e minha inspiração; minha sombra, meu refúgio. Ah! Fazei que, quando eu respirar, aspire a vós, me lembre de vós, fale de vós, vos sinta e saboreie a cada instante; fazei que eu inspire estes sentimentos a todo o mundo, para que, enquanto minha alma governar este corpo, vós habiteis em minha alma; a animeis e governeis de tal modo que eu não diga, nem escreva, nem faça, nem pense senão por vós, em vós e convosco. Pois tudo o que posso e devo desejar está em vós; vós sois minha salvação e redenção, minha esperança e minha força, minha luz e minha felicidade, minha honra e minha glória, minha vida, meu amor, minhas delícias, minha eternidade, minha suprema coroa. Quer eu viva, quer eu morra, em vossas mãos entrego minha alma, meu espírito, meu coração; ou melhor, direi com Santa Catarina de Sena: Eu vos dou a alma e o nosso coração, porque meu coração não pertence a mim, mas a vós (In Vita).
À vossa sombra, sob a vossa proteção e à vossa imitação, ó amável Jesus, viveremos. — Ah, sim! Viveremos à sombra de Jesus Cristo, isto é, protegidos por seu nome, à sombra de sua humanidade, de sua carne adorável, sob a qual, quase à sombra salutar da divindade, recebemos a vida espiritual. Pois, como diz São Bernardo, os bem-aventurados no céu já não vivem à sombra, mas em meio aos esplendores divinos. «Que dizer — exclama Santo Ambrósio — da eficácia da sombra de Jesus Cristo, se a própria sombra de São Pedro curava de toda enfermidade? A vossa sombra, ó Jesus, é a vossa carne, que refrescou e temperou o calor de nossa concupiscência, refreou a insolência de nossos vícios e extinguiu o incêndio de nossas paixões» (In Psalm. CXVIII, Serm. XIX).
«Nada prova mais abertamente a onipotência do Verbo — escreve São Bernardo — do que o poder que ele comunica àquele que nele se confia. Quem assim se apoia no Verbo e está revestido de virtude do alto não pode ser abatido nem vencido, nem por força, nem por fraude, nem por qualquer lisonja, mas sai vencedor de todo combate (Serm. in Cantic.)». Pois «aquele Jesus que venceu o mundo — acrescenta São Cipriano — prometeu também a vitória aos seus soldados (Epistola ad Martin)».
«Ao nome de Jesus — diz São Paulo — todo joelho se dobre no céu, na terra e no inferno» (Fl 2,10). Com Jesus, assaltamos intrépidos o antigo inimigo, porque reencontramos em Jesus Cristo a força que perdemos em Adão; por meio dele saímos vitoriosos do mundo, do demônio e de nós mesmos. Jesus Cristo é nosso escudo, nosso elmo, nossa espada, nossa couraça, nosso triunfo. Pois precisamente para isso, assegura-nos São João, Jesus veio ao mundo, isto é, para destruir as obras do demônio (I, 3, 8). A encarnação do Verbo esmagou a cabeça da serpente infernal; sua cruz a decepa. Assim que o Verbo começou a falar em Jesus Cristo, cumpriu-se a palavra de Isaías: «Bel foi despedaçado, Nebo foi derrubado» (Is 46,1), porque todos os pretensos deuses das nações, isto é, os demônios, foram reduzidos ao silêncio…
(Ver acima, n. 34).
«A verdade vos libertará» (Jo 8,32), disse o divino Redentor. Ora, sendo Jesus a verdade por essência (Id. 14, 6), teve razão de dizer aos judeus e a nós: «Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres» (Id. 8, 36).
Do mesmo modo, São Paulo argumentava assim: «Deus é espírito; mas onde está o espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2Cor 3,17). Mas, como Jesus, em sua qualidade de Verbo, é por natureza o sopro, o espírito de Deus, ele nos libertou (Gl 4,31). Jesus Cristo nos tornou livres da escravidão do pecado…, do demônio…, da carne…, da maldição de Deus…, da morte…, do inferno…
«O Verbo se fez carne — escreve o Evangelista — e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória própria do Unigênito de Deus, cheio de graça» (Jo 1,14). «A graça de Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo» — escrevia São Paulo aos Romanos (7,25); com efeito, por meio dele a recebemos e dele estamos repletos (Rm 1,5). (Cl 2,10). Sim, Jesus Cristo é o autor de todas as graças… Todos os méritos estão unidos à graça de Jesus Cristo…
Isaías chama Jesus Cristo pelo nome de Príncipe da paz (Is 9,6). Príncipe da paz: eis o nome de Jesus Cristo; por isso Salomão, símbolo de Cristo, foi rei da paz, e por isso também, ao nascer o Messias, reinava no mundo uma paz geral e profunda.
A razão deste título está nisto: 1° Jesus Cristo deu a paz ao mundo e deixou a paz à Igreja como testamento; antes de morrer, disse: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; mas a minha paz não é como a que o mundo vos dá» (Jo 14,27). 2° Jesus Cristo destruiu, com sua morte, o muro de separação que existia entre Deus e o homem; reconcilia o homem com Deus, restabelece a concórdia entre o céu e a terra… Por isso, diz admiravelmente São Leão: «O nascimento do Senhor é o nascimento da paz; ofereça, pois, cada fiel ao Pai da paz a concórdia que deve existir entre os filhos (Serm. in Nativ. Domini)». 3° Jesus Cristo é o rei dos corações pacíficos…
Por três razões convém a Jesus Cristo o nome de rei: 1º Por sua união hipostática e por herança. 2º Pela redenção; desde que nos resgatou com seu sangue, adquiriu sobre nós direito de rei absoluto, mais do que o senhor sobre o escravo comprado. 3º Pelo mérito… Jesus Cristo é «o Rei dos reis, o Senhor dos monarcas» (Ap 19, 16). «Seu reino é o reino de todos os séculos, e seu domínio se estende de geração em geração» (Sl 144, 13). «Bendito seja eternamente o nome de sua glória, e toda a terra está cheia de sua majestade» (Sl 71, 19). O nome de Jesus Cristo é o cumprimento da profecia de Daniel, que vaticinava que Deus estabeleceria um império que jamais seria destruído, nem passaria de povo em povo, mas duraria eternamente (Dn 2, 44). Império que se estenderia, segundo o vaticínio de Davi, de um mar a outro e de uma extremidade à outra da terra; império ao qual todos os reis prestariam vassalagem e todas as nações pagariam tributo (Sl 71, 8-11).
Não somente Jesus Cristo é o rei da paz, mas ele mesmo é a paz, diz Miqueias (5, 5). E é por isso, diz São Paulo, «que aprouve ao Pai reconciliar consigo todas as coisas por meio dele, pacificando pelo sangue de sua cruz o que há na terra e nos céus» (Cl 1, 19-20). Jesus Cristo é o rei da paz; ele dá a paz à Igreja, ao céu e à terra… Jesus Cristo nos dá a paz com Deus, com o próximo, conosco mesmos… Quereis esta paz múltipla e desejável? Ide a Jesus Cristo, rei da paz; pedi-a à paz incriada; colocai Jesus em vossa alma, e tereis a verdadeira paz. Assim como o sol não pode existir sem luz, nem o fogo sem calor, assim também Jesus Cristo, rei da paz, não pode estar em lugar algum sem a paz; porque, como diz Davi, sua morada está na paz (Sl 75,2). Por isso diz São Paulo: «Que a paz de Cristo alegre os vossos corações» (Cl 3, 15).
«Ele estenderá cada vez mais o seu império e estabelecerá a paz eterna» (Is 9, 7). Este reino de paz, profetizado por Isaías como característica do Cristo, deve ser entendido principalmente em sentido espiritual: consiste na tranquilidade da alma e nas consolações interiores. Por isso São Paulo diz: «O reino de Deus não consiste em comer e beber, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 10, 17). Este reino nós pedimos todos os dias no Pai-Nosso. — Não pedimos já ser elevados de um só golpe ao reino celeste, mas pedimos a destruição do reino de Satanás e do pecado; pedimos que, em lugar deste reino tenebroso e cruel, venha e se estabeleça em nós o reino esplêndido e pacífico de Jesus Cristo; pedimos que o divino Salvador reine com sua graça e com seu espírito em nossas mentes e em nossos corações: pois Jesus nos assegura que o reino de Deus está dentro de nós (Lc 17, 21). E o reino desta paz nos corações não tem fim, dizem os Padres.
São João Crisóstomo, por exemplo, explica este reino de paz, dizendo que ele se realiza de quatro modos: 1º Jesus Cristo nos ensina como se submete a carne ao espírito e, obtida esta vitória, cessam as guerras na alma, e ela repousa na paz… 2º Quando éramos inimigos de seu Pai, ele nos reconciliou com ele… 3º Ele uniu, pelo vínculo da paz, os judeus às nações… 4º Dá àqueles que une a graça da perseverança, para que gozem de paz inalterável. E este reino, esta paz, não terão fim, porque Jesus Cristo, como ele mesmo afirmou, opera hoje não menos do que nos séculos passados e nos futuros (Jo 5, 17). Jesus Cristo é, pois, o verdadeiro rei; rei do céu e da terra, rei do tempo e da eternidade. Por isso, à pergunta de Pilatos: És tu rei? Respondeu que sim e acrescentou que havia nascido rei e que precisamente para reinar viera ao mundo, mas seu reino não era deste mundo, isto é, não lhe vinha do mundo nem durava com o tempo, mas lhe vinha da eternidade e durava com ela (Jo 18, 37-36). Meu reino é a fé, a esperança, a caridade, a graça; reino deste modo nas almas e nos corações, e reinarei sobre as almas e os corações por toda a eternidade no reino de minha glória…
Mas, direis vós, por que, sob Jesus Cristo, rei da Igreja, os fiéis devem sustentar a guerra contra os infiéis, os hereges, os ímpios, os demônios, o mundo e a carne? Quem se queixa desta condição considere que esta terra não é o lugar do repouso e que a paz da Igreja e da alma fiel não consiste na destruição dos inimigos, mas em combatê-los sem cessar e em levar deles a vitória; e isto consiste, na maioria das vezes, na paciência, na resignação, em meio às cruzes e às adversidades, em suportar as tentações; nisso consiste a vitória e a paz, e não na exclusão das provações, na destruição dos inimigos, na cessação da luta, como já observavam Cipriano e Tertuliano… Além disso, aqui se trata da paz interior da alma, do reino espiritual de Jesus Cristo. Ora, em meio às mais duras provações, às mais terríveis perseguições e aos mais encarniçados combates, goza-se de profunda paz na alma quando Jesus Cristo, rei da paz, reina no fundo do coração; todas as tempestades exteriores se transformam em leve brisa, se a alma está em boa harmonia com Jesus Cristo; antes, aumentam a paz e a graça, e a coroa imortal…
«Todas as nações da terra serão benditas nele», dizia Davi, referindo-se a Jesus Cristo (Sl 71, 17); e sua palavra encontra cumprimento na de São Paulo: «Deus Pai constituiu Jesus Cristo cabeça de toda a Igreja» (Ef 1, 22). Tudo vem de Jesus Cristo, em Jesus Cristo, por Jesus Cristo. Ele une o céu à terra; é o centro da unidade na fé, no dogma e na moral. E é o centro da unidade da Igreja, que é uma nele e por ele.
«Jesus Cristo, escrevia São Paulo aos efésios, constituiu uns apóstolos, outros profetas, outros evangelistas, outros pastores e doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para o ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que nos reunamos na unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, em um homem perfeito, à medida da idade plena de Cristo. Por isso, não sejamos mais crianças vacilantes e levadas de um lado para outro por todo vento de doutrina, pelos ardis dos homens, pelas astúcias com que o erro seduz; mas, seguindo a verdade na caridade, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, isto é, Cristo. De quem todo o corpo, bem ajustado e unido por meio de todas as juntas de comunicação, segundo a operação proporcionada de cada membro, recebe o seu crescimento próprio e se aperfeiçoa mediante a caridade» (Ef 4, 11-16). O mesmo apóstolo exortava os colossenses a despojarem-se do homem velho e de todas as suas obras e a revestirem-se do novo, daquele que se renova pelo conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; junto do qual não há distinção entre grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro ou cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos. E conclui: «Que a paz de Deus triunfe em vossos corações, para a qual também fostes chamados, a fim de serdes um só corpo» (Cl 3, 9-11-15).
«Jesus Cristo, diz São Bernardo, é admirável em seu nascimento, conselheiro em sua pregação, Deus em suas ações, forte em sua paixão; é o pai do século futuro em sua ressurreição, o príncipe da paz em sua perpétua bem-aventurança» (Serm. XXII).
Nele estão encerrados os mais esplêndidos e preciosos tesouros. Sua encarnação, seu nascimento, sua majestade, sua eternidade, tudo é maravilhoso, tudo inefável e incompreensível. Prodigiosas são as obras de seu poder; miraculosa é a criação e o governo do mundo. Sua concepção no seio de uma virgem, pela ação do Espírito Santo, sua vida privada e pública, sua doutrina, sua moral, sua paixão, sua morte, sua ressurreição, sua ascensão etc., tudo é sobre-humano. Admirável é sua graça em seus mártires, em seus confessores e em suas virgens; mais admirável ainda será na glória que reserva aos seus eleitos… Quem não admirará sua caridade, sua bondade, sua misericórdia, sua paciência, sua humildade, sua obediência? …
Jesus Cristo é simbolizado por uma flor, por sua beleza e pelos suaves perfumes que exala, em razão de sua vida santa, de sua fama etc.… Jesus Cristo, florescente em virtude e graça e crescendo até se tornar magnífica e imensa árvore, dá ao céu e à terra frutos abundantes e deliciosíssimos…
Em Jesus Cristo sobressaem sobretudo seis coisas por ele merecidas: 1º a ressurreição; tendo sido obediente até a morte, mereceu ressuscitar primeiro; e, triunfador da morte, destrói-a em si e em nós… 2º As qualidades dos corpos gloriosos; tendo entregue sua própria carne para ser dilacerada na paixão, mereceu como recompensa, em sua ressurreição, um corpo gloriosíssimo, imortal, impassível, resplandecente, ágil, sutil… 3º Mereceu ser elevado acima dos anjos e dos santos… 4º Sentar-se à direita do Pai… 5º Julgar os vivos e os mortos… 6º Reinar sobre o céu e a terra, mandar nos anjos, nos homens e em todas as criaturas…
Jesus Cristo, no Evangelho, é comparado a um rei, a um chefe, a um senhor, a um pai de família, a um agricultor, a um pastor, a um médico, a um pescador, a um negociante e assim por diante. Todos esses títulos e comparações nos dão uma ideia de suas qualidades divinas.
«Vós bem conheceis, dizia São Paulo aos Coríntios, a ternura de Jesus Cristo, o qual, sendo riquíssimo, por vós se reduziu à indigência, para que, por sua pobreza, vos tornásseis ricos» (2Cor 8, 9). E, com efeito, por que ele se fez homem?, pergunta Santo Agostinho, e responde: «Para fazer de mim, mortal, um Deus (Serm. de Nativ.)».
«Assim como o Senhor, diz Santo Atanásio, se fez homem, assumindo um corpo, assim nós, homens, somos deificados por meio do Verbo de Deus, porque o Verbo foi recebido na carne (Serm. IV. contra Arian.)». Todos nós podemos repetir com São Gregório Nazianzeno: «Recebi em mim a imagem divina e não a conservei; Jesus Cristo se torna participante da minha carne, para levar salvação àquela imagem e imortalidade à carne (In Distich)».
Somos devedores a Deus, pela encarnação, de um amor novo e mais intenso, tanto em razão da união mais estreita que por ela se realizou entre nós e Ele, quanto por causa dos novos e insignes benefícios que nos foram concedidos por sua encarnação. Em virtude da encarnação do Verbo, estabeleceu-se uma nova relação entre nós e o Pai, o Filho e o Espírito Santo; contraímos, além disso, uma nova relação entre nós, muito mais íntima e estreita do que antes; e daí nos advém um novo e mais premente motivo para amar a Deus e para nos amarmos mutuamente. Pela encarnação, o Verbo se tornou nossa carne, nosso irmão; e, portanto, o Pai se tornou nosso pai de maneira mais maravilhosa, e o Espírito Santo se derrama inteiramente em nós. Eis por que Jesus Cristo dizia ter-nos dado um novo preceito de amor; é sua vontade que os homens se amem entre si não somente como próximos, mas como irmãos; que se amem por causa dele e como formando um só corpo com Ele.
«Jesus Cristo, diz o papa São Gregório, fez-se carne para nos tornar espirituais; humilhou-se para nos elevar; saiu para que nós entrássemos; mostrou-se visível para que víssemos as coisas invisíveis; suportou os flagelos para nos curar; tolerou os opróbrios para nos libertar do opróbrio eterno; morreu para nos restituir a vida (Serm. de Nativ)». «Deus desceu, diz Santo Ambrósio, e o homem subiu: o Verbo fez-se carne, para que a carne pudesse subir ao trono do Verbo, à direita do Pai. Enquanto seu corpo se abria com cruéis feridas, delas brotava um bálsamo restaurador (De Passione)». E São Bernardo: «Cristo se tornou nossa sabedoria na pregação, nossa justiça no perdão dos pecados, nossa santificação em seu trato com os pecadores, nossa redenção em sua paixão (Serm. 22, in Cantic.)». «Prestemos, pois, diz o Nazianzeno, à imagem a honra que ela merece; reconheçamos nossa dignidade. Somos semelhantes a Cristo, porque Cristo se fez semelhante a nós. Tornemo-nos deuses por Ele, porque Ele se fez homem por nós (Orat. 6, de Deo)».
«A lei do espírito de vida em Jesus Cristo, escrevia o Apóstolo das gentes, libertou-me da lei do pecado e da morte» (Rm 8, 2). «E, como nele estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e da ciência» (Cl 2, 3), por isso vos enriquecestes nele de toda maneira, em toda palavra e em toda ciência (1Cor. 1, 5). E, quanto a si mesmo, considerava altíssima honra e singularíssima graça o fato de Deus o ter escolhido para o ministério de dar a conhecer ao mundo as inestimáveis e incompreensíveis riquezas de Jesus Cristo, a fim de iluminar as nações e derramar sobre o mundo inteiro torrentes de graças e bênçãos (Ef. 3, 8-9).
«Tudo quanto pertence ao poder divino, no que diz respeito à vida e à piedade, diz São Pedro, nos foi dado juntamente com o conhecimento daquele que nos chamou por sua própria glória e virtude; e, por meio de seus dons, cumpriu as magníficas e preciosas promessas que nos havia feito, para que por elas nos tornássemos participantes da natureza divina» (II, 1, 3-4). Por isso, o Nazianzeno exclama: «Feliz aquele que compra Cristo ao preço de todos os seus bens! (In Distich.)».
«A origem de Jesus Cristo é desde o princípio, desde os dias da eternidade», diz o profeta Miqueias (5, 2). Ora, Ele nasceu e viveu no tempo para nos comunicar sua eternidade; saiu dos dias da eternidade e veio aos dias do tempo, para que, dos dias do tempo, nós partamos e entremos nos dias da eternidade bem-aventurada; fez-se homem para nos comunicar sua divindade. Esta transformação e sublime elevação do homem em Deus já era indicada por Davi com estas palavras (Sl 81,6).
«Vinde, ó Senhor Jesus, suspirava São Bernardo, retirai os escândalos de vosso reino, que é minha alma, para que, devendo reinar em mim, verdadeiramente reineis; pois a avareza quer entrar em minha alma; o orgulho quer dominar-me; a vaidade quer prender-me; a luxúria quer enredar-me; a ambição quer dar-me ordens; a inveja quer impor-se; a detração, a cólera e a gula combatem dentro de mim para tiranizar-me. Mas eu digo: Não tenho outro rei senão o Senhor Jesus. Vinde, pois, ó meu Senhor, debandai, exterminai, prostrai com vosso poder todos esses inimigos: reinareis em mim, porque somente vós sois meu rei e meu Deus (Homil. 4, super Missus est).
«A bem-aventurada Virgem, diz Santo Atanásio, deu à luz um cordeiro, cuja preciosa lã nos teceu a veste da imortalidade; e, cobertos com ela, não podemos ser devorados pelo fogo, nem tragados pelas ondas, nem vencidos por qualquer outra coisa; antes, passamos ilesos por meio de todo tormento e voamos para o céu (Tract. de Virg.)».
«Tudo me foi dado por meu Pai», disse Jesus Cristo (Lc 10, 22). Ora, se tudo foi dado a Jesus Cristo, tendo Ele se feito homem, tudo foi nele corrigido e restaurado; e a terra, tornada perfeita, obteve a bênção em lugar da maldição; o paraíso foi aberto e o inferno, fechado; os sepulcros se abriram, e os mortos ressuscitaram. Porque, como diz São Paulo, por um homem veio a morte, mas também por um homem veio a ressurreição dos mortos. E, assim como todos morrem em Adão, assim todos serão vivificados em Cristo (1Cor. 15, 21-22).
Jesus Cristo diz de si mesmo, por meio de Isaías: «O espírito do Senhor repousa sobre mim: Ele me deu a unção divina e me enviou para pregar o Evangelho aos pobres, para restaurar a coragem nos corações aflitos, levar luz aos cegos, liberdade aos prisioneiros, consolar os tristes, proclamar a reconciliação, enxugar as lágrimas dos que choram, converter em coroa a cinza de sua cabeça, em riso o seu pranto, em vestes de alegria as roupas de luto» (Is. 61, 1-5). Desde Jesus Cristo, sempre foi e sempre será tempo de jubileu para todos os fiéis que obedecem a Jesus Cristo e desejam receber suas liberalidades. Para eles, são sempre dias de misericórdia, de perdão, de paz, de salvação, de liberalidade, de liberdade, de alegria, de festa, de graça e de felicidade. Todo este tempo é concedido, depois de quatro mil anos da cólera de Deus, para voltarmos à graça com Ele, recebermos seus dons, sua pessoa, sua herança, sua glória e todos os antigos bens que possuíamos no paraíso terrestre, no estado de inocência. Depois de Jesus Cristo, veio uma hora de graça, de jubileu perpétuo para os cristãos; mas é um tempo de cólera para os demônios, seus perpétuos inimigos, porque Jesus Cristo vingou deles o gênero humano, expulsando-os do meio dos homens e esmagando-os com sua cruz, com seu império, com seu poder…
1° Jesus aplaca a cólera de seu Pai contra os homens e os reconcilia com Ele. «Quando estáveis mortos no pecado, escreve São Paulo, Jesus Cristo vos fez reviver com Ele, perdoando-vos todas as vossas faltas; rasgando a sentença de condenação proferida contra nós, aboliu-a e afixou-a na cruz; e, despojando os principados e as potestades (infernais), levou-os cativos, alcançando em sua pessoa um esplêndido triunfo sobre eles» (Cl 2, 13-15). 2° Jesus Cristo desfez a aliança feita por meio de Moisés e estabeleceu uma nova entre Deus e o homem: aliança pela qual Deus se obriga a dar aos cristãos a graça e a glória eterna, e os cristãos se obrigam, para com Deus, a crer em Jesus Cristo, seu Filho, a obedecer-lhe, a seguir sua lei, sua doutrina, sua moral e sua vida… 3° Jesus Cristo desceu do céu à terra para que, revestindo a carne, unisse mais estreitamente o barro ao Verbo, a terra ao céu e o homem a Deus, pelo vínculo da união hipostática… 4° Jesus Cristo, na última ceia, na véspera de sua morte, fez seu testamento e o sancionou com a instituição da divina Eucaristia, dizendo: Eis o sangue da nova aliança» (Mt 26, 28). 5° Jesus Cristo traz do céu esta aliança e este testamento aos homens, promulga-o sobre a terra durante o curso de trinta e três anos, trabalhando, pregando, fazendo milagres, viajando pelas cidades e povoados, enfrentando fadigas e suores, experimentando a fome, a sede, o frio e o calor, evangelizando todo o país da Judeia. Finalmente, sanciona esta aliança com sua morte, sela-a com seu sangue, e tudo isso por todo o mundo, pelo tempo e pela eternidade…
«Colocamos a nossa glória e a nossa felicidade em Jesus Cristo», escrevia o Apóstolo (Fl 3, 3). E com toda razão, porque Jesus Cristo dá a paz, a graça, a luz, a força, a saúde, a vitória, o céu, a coroa da glória eterna. Ora, não consiste em tudo isso a verdadeira felicidade? Onde há meios mais apropriados para alcançá-la do que estes? Ah! O Salmista já o havia predito: «Ele descerá como chuva miúda sobre a campina recém-ceifada, como gotas benéficas de orvalho sobre as flores que desabrocham. Em seus dias florescerá a justiça e, com ela, a abundância e a paz, e sua duração será como a dos astros no céu» (Sl 71, 6-7).
Assim nos ensina São Gregório Nazianzeno: «Jesus Cristo é concebido: louvai-o; Jesus desce do céu: ide ao seu encontro, jubilosos; Jesus está sobre a terra: exultai. Cante a terra hinos de alegria, conduzam os astros do céu suas danças festivas! Jesus se fez homem: alegrai-vos e rejubilai, ó homens; Jesus nasceu de uma virgem: sede puras e castas, ó mulheres, para que vos torneis mães de Jesus Cristo» (In Nativ.).
«Quanto mais Jesus Cristo se fez pequeno em sua humanidade, diz São Bernardo, tanto maior se mostrou em sua bondade; quanto mais se aniquilou por mim, tanto mais me é caro. Ó suavidade, ó graça, ó força do amor! O maior de todos se fez o menor de todos!» (Serm. in Cant.). Ah, sim, a vinda de Jesus Cristo à terra é um perene motivo de alegria para Deus Pai, para Jesus Cristo, para o Espírito Santo, para os anjos, para os homens… O inferno fechado, o céu aberto, as trevas dissipadas, a luz trazida etc.: quantos motivos de louvor, de alegria, de júbilo, de paz!… Para nós, cristãos, cada dia é um dia feito expressamente pelo Senhor; por isso, digno de que celebremos e exultemos (Sl 117, 23). A todo momento podem ser repetidas a nós as palavras de Zacarias: «Alegra-te e exulta, ó filha de Sião, porque o teu rei vem a ti, justo e salvador» (9, 9).
«Eu já te elegi, disse Deus Pai a Jesus Cristo, para que renoves a terra e reúnas as heranças dispersas» (Is 49, 8). Essas heranças dispersas eram as virtudes negligenciadas, desprezadas antes de Jesus Cristo. As mortificações, os jejuns, o amor da pobreza, da humildade, a inocência, a castidade, o perdão das injúrias, a mansidão, toda espécie de virtude eram desconhecidos, ou desfigurados, ou pisoteados; Jesus Cristo as reergueu, deu-lhes o valor, a honra e a glória que lhes convêm. Essas virtudes eram propriedades abandonadas e desertas; Jesus Cristo reconduziu o homem a elas e fez que nelas encontrasse imensos tesouros, os únicos verdadeiros tesouros; de modo que, de objeto de desprezo, tornaram-se o ardentíssimo desejo dos cristãos; elas os fazem voltar-se para o céu e os tornam felizes no tempo e na eternidade.
Mas não eram apenas esquecidas ou ridicularizadas, antes da vinda de Jesus, as virtudes que agora embelezam a Igreja e florescem no mundo cristão; pareciam, antes, coisas impossíveis ao homem e, aos poucos que delas tinham algum conhecimento, pareciam quase montanhas inacessíveis; Jesus, porém, tornou-as fáceis, deleitáveis e agradáveis. Por isso, Jesus nos abriu um caminho novo, aplainou-nos a via para o céu.
Aqui se aplica muito bem aquele belo texto de Santo Agostinho, já citado acima por nós e que gostamos de repetir: «Jesus Cristo nasceu de uma virgem, para fazer que nascêssemos do seio virginal da Igreja; foi tentado, para nos armar e tornar invencíveis nas tentações; foi atado e açoitado, para nos libertar dos laços da maldição e nos proteger dos golpes dos demônios; foi escarnecido, para nos fazer evitar as zombarias de Satanás. Foi vendido, para nos resgatar; humilhado, para nos elevar; capturado, para nos tornar livres; despojado, para cobrir a nudez do primeiro homem; coroado de espinhos, para arrancar de nós os espinhos do pecado; dessedentado com vinagre, para nos inebriar com a doçura dos desejos celestes; imolado no altar da cruz, para destruir os pecados do mundo; morreu, para aniquilar o império da morte; foi sepultado, para abençoar os sepulcros dos santos e sepultar os nossos vícios e as nossas concupiscências» (Serm. CLXXX, de Temp. c. VI). Portanto, Jesus tirou para si tudo o que havia de duro, penoso e amargo no exercício das virtudes, deixando-nos todas as suas doçuras… A sua graça faz superar todo obstáculo… Com Jesus Cristo, tudo é possível…
1° Jesus Cristo estabelece os cristãos numa vida nova e evangélica e os prepara para a santidade do céu. Assim como Noé é o pai dos séculos posteriores ao dilúvio, também Jesus Cristo é o pai, o autor dos novos séculos. As nações bárbaras desaparecem, e formam-se povos civilizados e santos… 2° Jesus Cristo, depois de sua paixão, ressuscitando e subindo ao céu, abre-nos a porta da ressurreição e do paraíso; por meio de sua paciência e de sua morte, merece-nos o prêmio da vida eterna… 3° Adão nos gera para o tempo; Jesus Cristo nos gera para a eternidade; Adão nos gera para a morte; Jesus Cristo, para a ressurreição e a imortalidade; Adão nos gera para a terra; Jesus Cristo, para o céu… «Eis que renovo todas as coisas» — diz Jesus no Apocalipse (21, 5). Com efeito, abole os antigos sacrifícios e os substitui pelo grande sacrifício da cruz e do altar… Destrói o sacerdócio segundo Aarão e estabelece o sacerdócio segundo Melquisedeque… Institui os sete sacramentos, que são outras tantas fontes celestes, das quais haurimos a vida… Deus não era conhecido por outro povo senão o judeu; pela obra de Jesus Cristo, ele é conhecido, amado, seguido e adorado em todo o universo…
Em Jesus Cristo encontra-se o passado, o presente e o futuro. Tudo o que há de grande, sublime e perfeito em Noé, Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, Josué, Sansão, Davi, Salomão, nos patriarcas, nos reis, nos profetas e nos heróis, tudo se encontra eminentemente em Cristo. Todos esses grandes personagens e suas obras não eram senão a figura, a sombra de Jesus e de suas obras. Tudo o que há de graça e de virtude, tudo está em Jesus Cristo; quanto aconteceu de maravilhoso, quanto foi feito de mais heroico, tudo está em Jesus Cristo. O que há de memorável na história, o que havia de magnífico e precioso no templo de Jerusalém, o que havia de bom nos sacrifícios, e até mesmo o que há de santo nos espíritos celestes, nós o encontramos, mas em grau infinitamente superior, em Jesus Cristo… Nele se encontram a encarnação, a redenção, o Evangelho, os sacramentos, a graça, a virtude, os dogmas, a moral, a disciplina, o culto, os apóstolos, a Igreja, a ciência, a verdade, a vida, o exemplo etc…
«Eu suplico de joelhos — escrevia São Paulo aos Efésios — ao Pai de nosso Senhor Jesus Cristo… para que Cristo habite em vossos corações mediante a fé e, fundados e enraizados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade de seu amor» (Ef 3, 14-17-18). E aos Filipenses afirmava que aquilo que para ele eram lucros, por causa de Cristo, considerava como perdas. Mais ainda: julgava que todas as coisas são perda, em comparação com o eminente conhecimento de Jesus Cristo, por causa de quem se despojou de tudo e considerava tudo como lixo, para ganhar Jesus Cristo (Fl 3, 7-8).
Jesus Cristo é tudo; isto é, todo santidade, toda justiça, toda religião, todo bem… Ele é tudo para nós: é nosso salvador, senhor, mestre, guia, pai, mãe, Deus, cabeça, rei, pontífice, vítima, amigo, irmão, esposo, médico etc.… Ele é a fonte, a origem, o fundamento, o princípio, o meio e o fim de tudo.
Santa Inês, virgem e mártir, solicitada em casamento pelo filho do governador de Roma, respondeu-lhe que Jesus Cristo, seu esposo eleito, era infinitamente mais belo, mais digno e mais nobre do que todos os outros homens; e acrescentou: «Vai-te, ó fonte de pecado, alimento de morte; já dei a minha fé a outro amante, muito mais excelente do que tu: sua generosidade é incomparável, seu poder não conhece limites, sublime é o seu olhar, todo doçura é o seu amor, cheio de graça é o seu porte; ele me desposou com o anel de sua fé. Seu pai é Deus, virgem é sua mãe; os anjos o servem, o sol e a lua são eclipsados pelo seu esplendor; o perfume que exala ressuscita os mortos; seu contato cura os enfermos; suas riquezas são infinitas e eternas; somente a ele conservo a fidelidade, a ele me confio; pois, amando-o, sou casta; tocando-o, sou pura; desposando-o, permaneço virgem» (In Vita).
«Onde está Jesus Cristo, encontra-se tudo (In Hemax.)», diz Santo Ambrósio, e a ele faz eco São Bernardo, quando escreve: «A fonte das nascentes, a origem dos rios, é o mar; a fonte de todas as virtudes é Jesus Cristo; a continência da carne, a retidão do coração e da vontade brotam dessa fonte. Quem necessita de inteligência ou de palavra, vá a Jesus Cristo; quem é puro, é tal por Jesus Cristo; a ciência e a sabedoria dele provêm, porque nele se encontram todos os tesouros» (Serm. in Cant.).
Jesus Cristo é o princípio de tudo o que existe: da predestinação, da eleição, das causas, dos efeitos, dos dons, das graças, das virtudes, das riquezas, da glória. Tudo está nele, e tudo quanto há de vida e de bem em seus membros, que são os fiéis, tudo deriva dele, que é a cabeça de todo o corpo… Ó Jesus, vós sois a luz das almas, o rei dos espíritos, o guia dos corações.
«Jesus é doce, diz São Bernardo, Jesus é deleitável, porque ornado de todas as perfeições. Os anjos deleitam-se com sua doçura, os eleitos são felizes com sua presença; ele santifica tudo o que é santo, forma a alegria do mundo, o júbilo do céu, a beleza, a glória, a bem-aventurança eterna. As virtudes são outros tantos lírios; por isso Jesus traz o nome de lírio, porque é lírio, e lírio é tudo o que lhe pertence. Sua concepção, seu nascimento, sua vida, sua palavra, seus milagres, seus sacramentos, sua paixão, morte, ressurreição, ascensão, tudo resplandece de pureza e nos purifica» (Serm. 2, de Coena Domini).
Estais com fome? Desejai Jesus; ele é o pão da vida, o alimento dos anjos, o maná celeste que contém todos os sabores e satisfaz todos os gostos. Estais com sede? Desejai Jesus; ele é a fonte das águas vivas que correm do Líbano celeste e vos saciam por toda a eternidade; é o néctar, a ambrosia, o vinho que embriaga a alma. Sentis-vos enfermos? Ide a Jesus; ele é o médico, o salvador, a saúde. Estais em perigo de morte? Suspira por Jesus; ele é a vida e a ressurreição. Estais na incerteza e na dúvida? Consultai Jesus; ele é o caminho, a verdade, a vida. Sois pecador? Implorai Jesus; sua missão é apagar os pecados do mundo, salvar o seu povo; para isso veio à terra. Sentis-vos tentados ao orgulho, à gula, à luxúria, à avareza, à acídia? Invocai Jesus; ele é a humildade, a sobriedade, a castidade, a pobreza, o amor e o zelo em pessoa; ele carregou e continuamente carrega nossas enfermidades e dores. Apreciais a beleza? Ele é o mais belo entre os filhos dos homens, a beleza e a graça por excelência. Desejais riquezas? Nele estão todos os tesouros, porque nele habita corporalmente a plenitude da divindade. Quereis honras? A glória e a magnificência estão em sua casa; ele é o rei da glória. Procurais um amigo? Ele vos ama entranhadamente; e como não vos amará, se por amor de vós desceu do céu, trabalhou, suou, carregou a cruz e sofreu a morte? Desejais a sabedoria? Ele é a sabedoria eterna e incriada. Quereis consolação e alegria? Ele é o consolo dos aflitos, a alegria e o júbilo dos anjos. Quereis justiça e santidade? Ele é o santo dos santos; é a justiça eterna que justifica e santifica todos os que nele creem e esperam. Quereis a vida feliz? Ele é a vida eterna, a suprema felicidade dos anjos, a coroa de glória dos eleitos. Quereis a paz? Ele é o príncipe da paz… Desejai, portanto, Jesus, aspirai a ele: nele encontrareis todo bem; fora dele, todo mal e miséria. Dizei com São Francisco de Assis: «Meu Jesus, meu amor, meu tudo» (In Vita).
Ó bom Jesus, abri as comportas de vosso amor, para que seus rios, ou melhor, seu oceano se derrame sobre nós, nos embriague e nos submerja. Ó mar de santo amor e de doçura, meu Jesus! Vinde e dai-vos à minha alma. Dai-vos a mim, para que eu me dê a vós com toda a alma, com toda a vontade, com todo o afeto; para que eu respire feliz em vós, vos prefira a tudo e renuncie a tudo por vosso amor. Ó Jesus, atraí-me a vós; apoderai-vos de tal modo e absolutamente de minha alma, estreitai tão tenazmente meu coração ao vosso, que eu esteja morto para todo o restante. Ó meu dileto! Ó suspiro de meus votos, concedei-me a graça de vos encontrar e, depois de vos haver encontrado, de vos conservar comigo para sempre. Eu vos desejo; suspiro por vós, ó eterna bem-aventurança! Uni-vos a mim, uni-me a vós; ah! que eu viva de vós, em vós, por vós; que morra em vós e por vós, e viva eternamente convosco na morada de vossa glória! Amém…
Jesus Cristo é tudo em todos, diz o Apóstolo (Ef 1, 23). Jesus Cristo habita em Salomão pela sabedoria, em José pela castidade, em Moisés pelo poder e pela doçura, nos profetas pela santidade e pela inteligência, nos Apóstolos pelo zelo, nos mártires pela paciência, nas virgens pela pureza, etc.; é tudo em todos os seus eleitos no céu: cada um deles o possui inteiro. Jesus Cristo é tudo em si mesmo; e, dando-se inteiro, é tudo em todos e em cada um…
«É fácil compreender, diz Orígenes, como Jesus seja todo bem e como todos os bens estejam em Jesus: a vida, por exemplo, é um bem, e Jesus é a vida; a ressurreição é um bem, e Jesus é a ressurreição; a luz é um bem, e Jesus é a luz verdadeira; a verdade é um bem, e Jesus é a verdade, a sabedoria, o poder, a regra; Jesus, em uma palavra, é o tesouro de todos os bens (In X cap. ad Rom.)».
São João Evangelista narra ter visto, na mão direita daquele que estava sentado no trono no céu, um livro fechado com sete selos, escrito por dentro e por fora (Ap 5, 1). Esse livro é Jesus Cristo, porque ele é o seu fundamento e a sua razão. Os sete selos que o fecham são os principais mistérios de Jesus Cristo: a encarnação, o nascimento, a paixão, a ressurreição, a ascensão, o envio do Espírito Santo, sua segunda vinda para o juízo final… Somente Jesus Cristo abre esses selos, porque somente ele realiza e cumpre os referidos mistérios.
São Bernardo vê nesses sete selos os sete mistérios que ocultaram a divindade e a sabedoria de Jesus Cristo, e são os seguintes: o primeiro, o desposório da Virgem Maria com São José; o segundo, a enfermidade do corpo de Cristo…; o terceiro, a circuncisão…; o quarto, a fuga para o Egito…; o quinto, a tentação no deserto…; o sexto, o escândalo de sua cruz…; o sétimo, seu sepultamento (In Apoc.).
Segundo Serafino Firmano, esses sete selos indicam os sete mistérios compreendidos na paixão do Senhor: o 1° é a grande impotência naquele que é onipotente…; o 2° é o sumo padecimento naquele que é impassível…; o 3° é a grande loucura aos olhos do mundo naquele que é a sabedoria eterna e divina…; o 4° é a extrema pobreza no senhor do céu e da terra…; o 5° é a suprema ignomínia na suprema majestade…; o 6° é o sumo abandono de Deus na suma união com ele…; o 7° é a suma severidade do Pai que ama com infinito amor o Filho…
O Evangelho é o livro de Jesus Cristo, sua filosofia, sua teologia; é a boa e preciosa nova da encarnação, da redenção…; é a graça, a salvação trazida ao gênero humano por Jesus Cristo e concedida aos que creem… O Evangelho foi ditado por Jesus Cristo.
«Se confessardes com a boca o Senhor Jesus, escrevia São Paulo aos Romanos, e crerdes em vosso coração que Deus o ressuscitou dos mortos, sereis salvos» (Rm 10, 9); isto é, sereis salvos do pecado, da morte, da condenação, por vossa fé e por vossa gloriosa ressurreição com Jesus Cristo. Começareis a ser salvos aqui embaixo pela justificação, e depois plenamente no céu pela glorificação… «Quem vence o mundo? pergunta São João, e responde: Ninguém senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus» (1Jo 5, 5); e quem crê nisso demonstra que nasceu de Deus (1Jo 1); «e, se o confessa, Deus habita nele e ele em Deus» (1Jo 4, 15). Contudo, quem crê em Cristo lembre-se de que deve seguir seus preceitos, obedecer-lhe e, à imitação dele, desprezar o mundo…
É preciso ter uma fé firme e viva em Jesus Cristo, porque ele é Deus. Sua divindade é provada: 1° por seus milagres…; 2° por suas profecias…; 3° pelo testemunho dos anjos que anunciavam sua divindade aos pastores, da estrela que guiou os Magos a Belém, dos demônios que, expulsos do corpo dos possuídos, gritavam que aquele que os expulsava era o Cristo, Filho de Deus…; 4° pelo testemunho de São João Batista, a quem os judeus consideravam e honravam como profeta e homem celeste: ora, toda a pregação do Batista visava mostrar em Jesus o Messias prometido e preparar-lhe o caminho; ao indicá-lo, saudava-o como o Cordeiro de Deus, que apaga os pecados do mundo (Jo 1, 29); 5° pela palavra de Moisés e de Elias que, na Transfiguração de Jesus Cristo, atestam diante de Pedro, Tiago e João que ele é o Messias…; 6° por sua vida perfeitíssima e santíssima, a tal ponto que pode desafiar os próprios inimigos a encontrar nele algum pecado (Jo 8, 46); 7° por sua doutrina e por sua moral…; 8° pelos prodígios que acontecem em sua morte e obrigam o centurião a dizer: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus» (Mt 27, 54); 9° por suas predições, que vemos todas cumpridas. Com efeito, ele havia predito sua morte na cruz, sua ressurreição, sua ascensão ao céu, a descida do Espírito Santo, a ruína de Jerusalém, a pregação do Evangelho em todo o mundo, a conversão dos gentios, a incredulidade dos judeus, os milagres que os apóstolos fariam em seu nome e por seu poder e as perseguições que lhes seriam movidas; a estabilidade e a duração da Igreja contra as armas, os favores e as artes iníquas dos hereges e dos tiranos.
Finalmente, o próprio Deus e todas as criaturas do universo inteiro proclamam que Jesus Cristo é o Messias, o Redentor do mundo, o mediador da nova Aliança. O céu, a terra, o ar, o mar, o sol, as estrelas, os mortos, os demônios, tudo anuncia em alta voz a fé em Jesus Cristo, a sua divindade… Em seu batismo, o Pai eterno, com uma voz saída do céu, declara-o seu Filho dileto (Mt 3, 17). O Espírito Santo une a isso o seu testemunho, descendo sobre ele em forma de pomba. Os anjos confessam a sua divindade em sua concepção e em seu nascimento; o firmamento anuncia-o por meio de uma nova e esplendidíssima estrela; o ar reconhece-o quando Jesus Cristo se eleva glorioso ao céu. O mar vê nele o seu senhor quando se consolida sob os seus pés e quando, ao seu simples comando, volta a acalmar-se. A terra reconhece-o como seu Deus quando estremece ao seu último suspiro; a morte reconhece-o, restituindo as suas vítimas; o inferno e o limbo reconhecem-no, devolvendo as almas dos justos que aguardavam a sua vinda; o sol reconhece-o, eclipsando-se por ocasião de sua morte; a água reconhece-o, transformada em vinho nas bodas de Caná; o pão reconhece-o, tanto quando por ele é instantaneamente multiplicado no deserto, como, muito mais, quando é transformado em seu corpo, como ocorreu no cenáculo de Jerusalém e ocorre todos os dias até hoje. A luz reconhece-o quando o reveste de seus esplendores na Transfiguração; o fogo, quando ele o envia em forma de línguas sobre os apóstolos no dia de Pentecostes; os rochedos reconhecem-no, fendendo-se por ocasião de sua morte; os ventos reconhecem-no, calando-se tão prontamente ao seu sinal que o povo exclama: «Quem é este, que ordena aos ventos e às ondas, e eles lhe obedecem?» (Lc 8, 25).
Além disso, todos os sexos, todas as idades, todos os estados atestam a divindade de Jesus Cristo e a fé que se deve ter nele. O velho Simeão e a profetisa Ana, Nicodemos, o fariseu, e o centurião, juntamente com outros gentios, proclamam-no Deus, Salvador e Messias. Ao entrar em Jerusalém montado num humilde jumento, multidões de meninos e adultos gritam: Hosana, e o aclamam como o Bendito que vem em nome do Senhor! (Mc 11, 10). E os inocentes condenados à morte pelos sicários de Herodes, por ódio a Jesus Cristo, confessaram com o seu martírio que o Messias havia vindo, pois Herodes temia que ele lhe tirasse o reino.
É uma confirmação admirável da predição de Jesus Cristo sobre o endurecimento dos judeus ver que o cumprimento, em Jesus, de tudo quanto havia sido predito acerca do Messias não lhes abra os olhos. Como podem não levar em conta aquelas palavras de Malaquias: «Eis que eu envio o meu anjo, diz o Senhor, e ele preparará diante de mim o caminho; e imediatamente virá ao seu templo o dominador que vós esperais, o anjo da aliança que vós desejais. Eis que ele já vem, diz o Senhor dos exércitos»? (3, 1). O profeta, aqui, evidentemente se eleva e se transporta aos tempos de Jesus Cristo. O dominador a que ele alude é o Senhor Jesus Cristo, Rei dos reis, Senhor dos senhores, que vem depois de São João Batista, o qual era o anjo precursor anunciado pelo profeta. E em vão procuram os judeus aplicar as referidas palavras ao Cristo que virá no fim do mundo. Pois, como já observava São Jerônimo, «que templo encontrará esse pretenso dominador, se do de Jerusalém não resta pedra sobre pedra? E, se outro templo deve ser construído antes que venha o Cristo, que fará ainda o seu Cristo, quando tudo já tiver sido reorganizado e regulado por outro? (Sup. Matth.)». Esta verdade aparece ainda mais claramente se acrescentarmos que o profeta Ageu determina explicitamente (Ag 2, 7-8) que o desejado das nações haveria de encher de sua glória o templo que subsistia naqueles dias, isto é, o segundo templo reconstruído por Zorobabel, e que é precisamente aquele em que entrou Jesus Cristo…
«Vi e ouvi milhares de anjos, escreve São João no Apocalipse, os quais, dispostos ao redor do trono, exclamavam a uma só voz: Digno é o Cordeiro que foi imolado de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força, a honra, a glória e a bênção» (Ap 5, 11-12). Eis as adorações que o céu presta a Jesus Cristo; é justo e necessário que também a terra acrescente as suas, para prestar a Jesus Cristo as homenagens que lhe são devidas como Deus e como homem… Mas somos nós, como os anjos, cheios de respeito e de adoração pelo Cordeiro imolado por nós, por Jesus Cristo, Verbo encarnado?
O Senhor jurou-lhe que lhe daria glória no meio dos seus, dizia o Sábio falando do Cristo; que multiplicaria a sua posteridade como os grãos de poeira, elevaria a sua descendência como as estrelas do firmamento e estenderia o seu império de uma extremidade à outra da terra (Eclo 44, 22-23). E assim, de fato, aconteceu: a profecia feita a Abraão cumpriu-se em Jesus Cristo, fundador da Igreja, a qual em poucos anos se difundiu pelo mundo inteiro e conta como sua descendência povos e nações inumeráveis. «Deus Pai, escreve São Paulo, constituiu Jesus soberano de toda a Igreja» (Ef 1, 22). «Ele é a cabeça do corpo da Igreja, repete em outro lugar o mesmo Apóstolo, o princípio, o primogênito dentre os mortos, para que tenha em tudo a primazia» (Cl 1, 18). Jesus funda a sua Igreja do alto da cruz, e ela sai de seu sagrado lado, aberto pela lança. «A Igreja, estéril por longo tempo, observa São Jerônimo, não deu à luz antes que Jesus nascesse de uma Virgem; mas, quando Cristo nasceu, ela gerou e deu à luz para Deus uma imensa prole (Ad Eustoch. de custod. Virg.)».
«Eu te constituí como luz das nações, para que leves a minha salvação até os confins da terra», disse Deus a Jesus Cristo pela boca de Isaías (Is 49, 6). Eis a magnífica, a incomparável glória de Jesus Cristo! E não é ele porventura infinitamente, imensamente glorioso, pelo fato de um crucificado ser a luz e a salvação do mundo inteiro? Pelo fato de ser adorado como Deus em toda a terra e até o fim dos séculos? Pelo fato de conduzir ao seu Pai as nações bárbaras e idólatras, por meio do ministério de seus discípulos? Não é suma glória para Jesus Cristo ter conquistado o universo a partir da obscura região da Judeia? Com efeito, tudo quanto os apóstolos fizeram de admirável, Jesus o fez neles com a sua palavra, com a sua graça e com a sua divina cooperação… Sim, ó Jesus, Salvador do mundo, em vós se cumpriu aquela profecia: «Chamarás e adotarás como tuas nações que antes nem sequer conhecias pelo nome» (Is 55, 5).
Os meios de que Jesus Cristo se serviu para converter as nações são: a sabedoria, a integridade, a verdade, a santidade, os milagres, a eficácia de sua palavra, a glória da ressurreição, a vinda do Espírito Santo, a graça, o zelo e a virtude dos apóstolos. Todos esses meios mostravam que Jesus era Deus; por isso, quando as nações percebiam esses sinais, acorriam a Jesus e se convertiam.
«O Senhor será conhecido por meio de um sinal eterno, que nada bastará para remover», profetizava Isaías (Is 55, 13). Esse nome, ou sinal, ou monumento, que recordará perpetuamente a vitória e a glória de Deus, é precisamente a estupenda e maravilhosa conversão e santificação das nações, operada pela graça de Jesus Cristo mediante o ministério dos apóstolos. Erguem-se monumentos em memória de algum feito esplêndido ou de uma retumbante vitória; ora, não será um monumento único da glória de Jesus Cristo ver povos numerosíssimos e nações grandíssimas submeterem-se e converterem-se a Jesus Cristo: tomarem o nome de cristãos, confessarem publicamente, com o coração e com a boca, que creem em Jesus, que o adoram e lhe obedecem? E, se os reis e imperadores assumem, como troféu perpétuo de suas vitórias, o nome e os títulos dos povos subjugados, não se torna solene e imperecível troféu de Jesus Cristo o fato de ele ser dominador de todas as nações e de todos os séculos, de tal modo que todas as nações submetidas a Cristo levam o nome de Cristo e dele se chamam cristãs?
Portanto, o nome de Jesus é um sinal, um monumento, um troféu. ― Portanto, cumpre-se a profecia de Jesus Cristo: «E eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim» (Jo 12, 32). Enquanto São Paulo ainda vivia, Jesus Cristo já era anunciado e conhecido em todo o mundo (Rm 1, 8).
São Paulo recorda aos Colossenses que, tendo recebido o Senhor, devem viver segundo a sua lei, fundados e arraigados nele, firmes e sólidos naquela fé que lhes foi ensinada, e que, além disso, progridam e abundem em ação de graças; pois ele os cumula de benefícios para o tempo e para a eternidade (Cl 2,14). Procedendo dele, devemos ir a ele; tendo dele tudo quanto temos, devemos agradecer-lhe por tudo; sendo devedores a ele de tudo, devemos entregar-nos inteiramente a ele.
Caminhar em Jesus Cristo, segundo a expressão do Apóstolo (Cl 2, 6), quer dizer que Jesus deve ser o nosso caminho, a nossa raiz, o nosso fundamento, o nosso modelo, a nossa salvação… Jesus Cristo passou fazendo o bem, dizem os Atos dos Apóstolos (10, 38); assim devemos fazer nós, pois tal é a nossa vocação: reproduzir Jesus Cristo… «Para isso fostes chamados, diz São Pedro, porque Cristo sofreu por nós, deixando-nos o seu exemplo, para que sigamos os seus passos» (I, 2, 21).
Todos os nossos pensamentos, palavras e ações devem ser dele, nele e por ele. Jesus Cristo deve ser o nosso alvo, o nosso estandarte, o nosso fim, a nossa insígnia, o nosso exemplo, o nosso guia e o nosso prêmio… Todos os santos só se tornaram tais imitando Jesus Cristo… Ó Senhor Jesus, imprim
am em mim a vossa imagem…
«Revesti-vos do Senhor Jesus», dizia São Paulo aos Romanos (12,14). Deveria haver tantos Cristos quantos são os cristãos… Jesus Cristo nos reveste por todos os lados, nos adorna, nos coroa; porque Jesus Cristo é nosso esposo, nosso alimento, nossa bebida, nossa luz, nossa riqueza, nossa vida etc…. Quem está revestido de Jesus Cristo não sente a pena, a dificuldade das virtudes, mas somente a doçura.
«Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo» (Gl 3,27). Que felicidade, que honra, que glória, ter Jesus Cristo por vestimenta! Que rica, que preciosa veste! Tão necessária é esta veste para a nossa alma que, sem ela, está nua; qualquer outra veste, para ela, não passa de trapos. A nossa alma, possuída pelo demônio, é um monstro…; revestida do pecado, está morta…; adornada com o mundo, está nua…; cercada pelo corpo, não tem por manto senão a concupiscência… Somente Jesus Cristo deve servir-nos de veste. Nós nos revestimos de Jesus Cristo pela fé, pela esperança, pela caridade, pela humildade, pela oração, pela pureza, pela paciência, pelo zelo, pela boa vontade, pelas obras de salvação…
Claras e formais são as palavras do grande Apóstolo a esse respeito: «Nós somos membros do corpo dele (Jesus Cristo), carne da sua carne e ossos dos seus ossos» (Ef 5,30). «Porventura não sabeis que os vossos corpos são membros de Jesus Cristo? Ora, quem está unido a Deus é um mesmo espírito com ele. Glorificai, pois, e trazei Deus no vosso corpo» (1Cor 6,15-20). Nós somos membros de Jesus Cristo porque somos filhos da Igreja.
Mas, se somos filhos da Igreja, somos necessariamente filhos de Deus, irmãos de Jesus Cristo e, portanto, herdeiros de Deus, co-herdeiros com Jesus; e é precisamente este o raciocínio de São Paulo aos Romanos (Rm 8,16-17): repete a mesma coisa aos Efésios: «Nós somos co-herdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa de Deus em Jesus, por meio do Evangelho» (Ef 3,6). Chamados a partilhar a herança com Jesus Cristo, é nosso dever e nosso interesse empenhar-nos com todas as forças para assegurar-nos uma herança tão rica, esplêndida e preciosa. A quem poderá parecer demasiado árduo qualquer esforço que para isso tivesse de empreender? …
O velho Simeão disse que Jesus Cristo viera para a perdição e a salvação de muitos (Lc 2,34); isto é, para a perdição e ruína dos maus, para a vida e a salvação dos bons. Com efeito, São Paulo nos assegura que Cristo «deve reinar até que tenha feito de todos os seus inimigos um escabelo para os seus pés» (1Cor 15,25).
Jesus Cristo é a vara que flagela os maus; porque 1° ele é rei; como tal, devem-se-lhe obediência e respeito, e quem negligencia ou despreza esses deveres é justo que seja severamente punido… 2° Jesus Cristo é pastor e, portanto, tem o direito de querer que seus ensinamentos sejam ouvidos, recebidos e praticados, e de punir aqueles que se comportam de outro modo. 3° Jesus Cristo é juiz, antes, é a suprema justiça; ora, quem ousará negar-lhe o direito e o dever de retribuir a cada um segundo as suas obras, de condenar e punir o mal onde quer que o encontre? … «Todas as coisas estão sujeitas a Jesus Cristo, conclui São Paulo, para que Deus seja tudo em todos» (1Cor 15,27-28).