Tesouro n.º 76 · Volume II

FUGA DAS OCASIÕES PRÓXIMAS DO PECADO FUGA DELLE OCCASIONI PROSSIME DEL PECCATO

2 seções · 6 parágrafos · pp. 845–847 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. AS OCASIÕES PRÓXIMAS DO PECADO SÃO MUITAS E PERIGOSÍSSIMAS

As ocasiões próximas de pecado são frequentes, grande é o risco que nelas se corre, incalculáveis são as desgraças que trazem consigo. Numerosos, cruéis e aguerridos são os assassinos das almas (Pr 17, 5): «o caminho do malfeitor está eriçado de espadas», dizem os Provérbios. «Quem brinca com a ocasião próxima de pecado já não está seguro — escreve São Cipriano —; enganadora é a confiança que leva o homem a aventurar-se no perigo de perder a vida; arriscada é sempre a esperança que nos faz crer que nos salvaremos permanecendo no meio do mal. Incerta é a vitória quando se quer combater em meio ao exército inimigo; lançar-se entre as chamas de um vasto incêndio sem se queimar, ou poder sair dele quando se quiser, é empreendimento impossível. Seria necessário um milagre; mas Deus não é obrigado a realizá-lo, e o homem que se expõe dessa maneira não o merece; ao contrário, faz tudo para afastar Deus e perecer. Por isso, cai-se e precipita-se miserável e escandalosamente» (Lib, l, Ep. II).

«Quem ama o perigo perecerá nele», diz o Espírito Santo (Eclo. 111, 27). Qualquer que seja o perigo, quem o ama, procura-o e nele se deleita, naufragará. Assim, a convivência com pessoas do sexo diferente, sem motivos razoáveis; o convívio com os ímpios, com os libertinos, nas vigílias, nas danças, nos teatros e nos salões, são ocasiões próximas de pecado, nas quais quase sempre se cai. O demônio oculta o perigo e o reveste das aparências de uma amizade honesta… Quem tem o coração apegado àquilo que o expõe ao mal mostra amar o perigo que está unido àquilo que procura. «Mata — bradava São Jerônimo — o inimigo enquanto ainda é pequeno e fraco; arranca o joio do meio da boa semente logo que nasce (1)».

«Sustentar a guerra que se levanta contra nós, contra a nossa vontade, é por vezes coisa indispensável; mas aventurar-se nela por própria iniciativa é solene loucura», adverte São Basílio (2); e São Cipriano diz que expor-se às ocasiões próximas de pecado é seduzir a própria alma com imperdoável cegueira. Somente quem vigia, foge, teme e desconfia de si mesmo não perece (De singular. Cleric.). Por isso, São Bernardo diz que «indício de culpa já cometida, ou impulso para cometê-la, é procurar a ocasião do pecado (3)». Já Sêneca via nos olhos os excitadores do vício, os porta-estandartes do crime (4).

2. É PRECISO FUGIR DAS OCASIÕES PRÓXIMAS DO PECADO

«Meu filho — dizia o Sábio —, se os malvados te acariciarem, não te deixes seduzir» (Pr. I,10). «Não dês ouvidos aos seus perversos conselhos; não lhes permitas a entrada em tua mente, em teu coração, em tua vontade, em tua memória; não os admitas sequer à tua presença, não te mostres afável e sorridente com eles; não procures vê-los nem ser visto… Quem quer guardar a sua alma fuja daqueles que podem ser-lhe ocasião de pecado» (Id. 22, 5). Este é o conselho que o Sábio dá a todos; à mulher, particularmente, São Martinho recomenda que permaneça recolhida em casa, pois a primeira virtude da mulher e sua mais honrosa vitória consiste em não ser vista (5).

Santo Agostinho diz: «Quem não prevê nem evita o perigo que deve prever e evitar não roga a Deus, mas antes o tenta (6)». Por isso, diz Davi: «Não me assentei na assembleia dos vaidosos, não porei os pés entre os malfeitores e não me sentarei com os ímpios» (Sl 25, 4-5). «Com os de coração depravado não tive convivência, e não conheci o malvado que se afastava de mim» (Psalm. C, 4).

Todas as almas piedosas sempre, em todos os tempos, imitaram Davi: temeram a própria fraqueza e buscaram seu refúgio na fuga. A virtude e a boa conduta são alcançadas a esse preço… Quantos imprudentes se expõem a ocasiões mortais de pecado! … quase todos perecem nelas…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.