É próprio de Deus a bondade, a vontade de fazer o bem… Não é Deus quem nos inflige os males e os suplícios que suportamos, mas somos nós que os atraímos sobre nós… São Paulo chama a Deus Pai das misericórdias (2Cor 1,3); e com razão, acrescenta São Bernardo, pois Deus não é pai das condenações e dos castigos. Ele é o Pai das misericórdias porque é a origem e a causa do bem; os juízos severos e as punições provêm de nós, e são os nossos pecados que os atraem sobre nós (Serm. 5, in Nativ. Dom.).
Deus é o Pai das misericórdias. Tão grandes e tão numerosas são as nossas misérias, que o Apóstolo não pede a Deus que nos trate segundo a grandeza da sua misericórdia, mas segundo a multidão das suas misericórdias; e o Profeta fazia o mesmo pedido (Sl 50,3).
“Eis que o Senhor sairá da sua morada, descerá e caminhará sobre as alturas da terra”, diz o profeta Miqueias (Mq 1,3). Deus é invisível na sua substância e essência e torna-se visível somente por meio das suas obras. Quando sai, mostra-se como juiz e vingador, para condenar e punir os delitos dos homens e das nações. Deus sai da sua morada, diz São Jerônimo com outros Doutores, quando faz vingança e castiga, porque pertence à natureza de Deus ter piedade e perdoar; a estada, a morada de Deus, é a bondade e a clemência. Quando, portanto, ofendido pelos pecados dos homens, arma-se para a vingança, parece sair do lugar onde habitava, renunciar à clemência, despojar-se da bondade da sua natureza e assumir uma severidade que não lhe é própria. Deus é como a abelha, cuja natureza é produzir mel, não picar, e que só pica quando é perturbada ou provocada. É próprio da natureza de Deus ser doce e bom; e, se deve punir, sofre, porque fazer o mal é contrário à sua natureza. O dever da vingança é penoso para Deus, que é a bondade e o amor por essência; mas os ímpios, com os seus delitos, obrigam-no a puni-los. Por isso, na sua bondade, não cessa de adverti-los e de conjurá-los a voltar para ele, assegurando-lhes o perdão (Comment.).
“Eis que estou à porta e bato, diz o Senhor no Apocalipse; se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa, e comerei à sua mesa, e ele comigo” (Ap 3,20).
Segundo a doutrina de Santo Agostinho, Deus, para excitar a nossa vontade, começa por operar primeiro em nós; depois, quando temos a vontade de agir, coopera conosco para o cumprimento da sua obra. Ele nos previne para que sejamos curados; uma vez curados, acompanha-nos para que tiremos proveito da cura recebida. Previne-nos na vocação, acompanha-nos na glorificação. Previne-nos para que vivamos piedosamente, acompanha-nos para que cheguemos a viver eternamente com ele (De Grat. et Lib. arb.).
“Dá-me, filho, o teu coração”, diz-nos Deus nos Provérbios (Pr 23,26); e Jesus Cristo acrescenta: “Eu vim trazer fogo à terra; e que outra coisa desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49).
Não é porventura o ardente desejo que ele tem de nos fazer o bem que o levou a criar-nos à sua imagem e a restaurar, ao preço do seu sangue, essa imagem manchada e desfigurada pelo pecado? E quem o obrigou a permanecer conosco na divina Eucaristia e a fazer-se nosso alimento, senão o ardente desejo que há nele de nos beneficiar?
Ah! Pode-se muito bem repetir a nosso respeito a cada instante: “Tu o preveniste com bênçãos sempre novas e dulcíssimas” (Sl 20,4).
Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, exclama São Pedro, que, na imensidão da sua misericórdia, nos regenerou pela ressurreição de Jesus Cristo, concedendo-nos a esperança da vida e daquela herança pura, imortal e incorruptível que nos está reservada no Céu (1Pd 1,3-4).
A bondade de Deus não é apenas grandíssima, mas infinita: 1° pela sua causa eficiente, que é Deus e o seu imenso amor por nós; 2° pelo objeto que se propôs, o qual foi entregar à morte o próprio Filho de Deus para nos redimir; 3° pelo sujeito ao qual se aplica, que são os homens, seres vis, carregados de pecados e cobertos de toda sorte de misérias, e que Deus elevou e cumulou de graça e de glória. Aqui se aplica o dito do Salmista (Sl 41,8): o abismo da miséria humana invocava o abismo da misericórdia divina; 4° pela abundância dos dons que nos prodigalizou. Derramou sobre nós benefícios, favores e graças sem número, e jamais cessa de conceder-nos generosamente outros, sempre novos. E é a vossa bondade, ó Senhor, exclama Santo Agostinho, que me fez aquilo que sou: que mérito tinha eu, com efeito, para ser tirado do nada? Para tornar-me capaz de invocar-vos? Vós sois a bondade suprema, a bondade que me deu o ser e me forneceu os meios para ser bom também eu (In Psalm.); 5° é ainda suma a bondade de Deus se a considerarmos no tempo e no lugar em que se exerce; ela, com efeito, abrange os homens de todos os séculos e de todos os países, segundo as palavras do Salmista: “A terra está cheia da misericórdia do Senhor” (Sl 32,5). E esta bondade opera eternamente em favor dos santos; 6° é finalmente grandíssima, se observarmos o seu fim, que visa conduzir-nos ao reino dos céus. Com razão, portanto, São Pedro nos exorta a depor no seio de Deus toda a nossa solicitude, pois ele mesmo cuida de nós (1Pd 5,7).
A criança vive sem inquietação e repousa tranquila no seio da mãe: eis o exemplo que o fiel deve seguir para com Deus, que é nosso pai e nossa mãe.
“Aquele que cuidou de vós, diz Santo Agostinho, antes que existísseis, porventura não continuará a cuidar de vós agora que sois aquilo que ele quis que fôsseis? Ele jamais vos falta em coisa alguma: não lhe falteis vós, ou antes, não falteis a vós mesmos (2)”.
E por isso exclama: “Ó quão bom sois, Deus onipotente! que cuidado tomais de cada um de nós, como se tivésseis de governar um só homem e cuidásseis de todos os homens como se formassem um só indivíduo (3)”.
“Que é o homem, clama o Profeta, para que mereça que vos lembreis dele, ó Senhor; e o filho do homem, que é ele, para que o visiteis? Vós o criastes pouco inferior aos Anjos, coroaste-o de honra e de glória e o estabelecestes sobre todas as obras de vossas mãos. Ao seu império submetestes todas as criaturas, as ovelhas e os bois, todos os animais dos campos, as aves do céu, os peixes e tudo quanto se move nas águas” (Sl 8, 5-9).
“Tantas e tão grandes são as misericórdias, tão poderosos os benefícios com que Deus me cumula e quase me oprime, escrevia São Bernardo, que qualquer outro peso se torna para mim tão leve que não o sinto (4)”.
A bondade de Deus é, segundo o testemunho do Eclesiástico, um rio que transborda. Oh, sim! é verdadeiramente um rio imenso que brota do próprio trono de Deus, corre sem cessar e em abundância, penetra a alma e o coração…
A bondade de Deus manifesta-se por toda parte, mas resplandece particularmente na criação…, sobre a cruz…, sobre os nossos altares… e no Céu…
Dois poderosos motivos levaram Deus a enviar aqui embaixo, para a nossa redenção, o seu amado Unigênito: a sua misericórdia, isto é, e a nossa miséria. “Ele tomou Israel em seu filho, cantava a bem-aventurada Virgem, lembrando-se da sua misericórdia” (Lc 1, 54). Compadeceu-se de nossas desgraças; quis, portanto, atrair-nos a si e dar-nos Deus e o Céu.
“A causa da nossa reparação não se deve buscar em outro lugar senão na misericórdia de Deus”, prega São Leão (5), apoiado na sentença de São João: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito” (Jo 3, 16).
A mais excelente prova de bondade está em dar a própria vida pelos amigos; ora, muito maior foi a bondade de Jesus Cristo, que deu a sua vida não pelos amigos, mas pelos seus inimigos. Oh! se Jesus Cristo nos visitou, descendo do alto, foi pelas suas entranhas de misericórdia (Lc 1, 78). Mas quem não vê que Deus deu a si mesmo, dando-nos o seu Filho? Poderá haver bondade maior?
“Eu havia recebido a imagem de Deus, diz o Nazianzeno, mas não a conservei. Deus tomou a minha carne para restituir à sua imagem a salvação e à minha carne a imortalidade (6)”. E São Gregório papa observa que Jesus Cristo se fez carne para nos fazer espírito; humilhou-se para nos elevar; saiu para que entrássemos; tornou-se visível para nos manifestar as coisas invisíveis; foi açoitado para nos curar; suportou opróbrios para nos poupar o opróbrio eterno; morreu para nos dar a vida (Serm. in Nativ.).
“Eis o tabernáculo de Deus no meio dos homens, exclama o Profeta de Patmos; e ele habitará com eles. Eles serão o seu povo, e ele, Deus habitando entre eles, será o seu Deus” (Ap 21, 3).
“Aquele que é a vida veio ao encontro daqueles que estavam mortos, escreve Santo Agostinho; a fonte da vida, cujas águas dão a imortalidade, bebeu o cálice das dores que era devido a nós, não a ele (7)”.
“A bondade e a ternura de Deus, nosso Salvador, manifestaram-se a todos os homens, diz São Paulo, para nos ensinar a renunciar à impiedade e aos desejos da carne, e a viver neste mundo com temperança, justiça e piedade (Tt 2, 11-12)”. “E, quando manifestou a sua bondade e o seu amor para com os homens, salvou-nos, não por causa das obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia” (Ib. 3, 4-5),
“Em consideração a e por meio de Jesus Cristo, diz São Pedro, Deus nos concedeu os supremos e preciosos favores que nos prometera: deu-no-los para que nos tornemos participantes da natureza divina” (2Pd 1, 4).
“O Senhor me governa e nada me faltará, cantava o Salmista; Ele me colocou em lugares de pastagens abundantes, conduziu-me a uma fonte que me reconforta. Reconduziu a si a minha alma; conduziu-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. E ainda que eu caminhasse em meio às sombras da morte, não temeria perigos, porque vós estais comigo. A vossa vara e o vosso cajado me consolaram. Preparastes diante de mim uma mesa, à vista daqueles que me perseguem.
Ungistes a minha cabeça com unguento: como é belo o meu cálice inebriante! E a vossa misericórdia me acompanhará por todos os dias da minha vida, para que eu habite na casa do Senhor por toda a duração dos dias eternos” (Sl 22).
“Uma chuva abundante de graças fareis chover deliberadamente, ó Senhor, sobre o povo de vossa herança” (Sl 67, 10).
Deus, tesouro inesgotável, nada ama mais do que nos enriquecer com seus dons, e nada pede ao homem senão que os receba: “Abre a tua boca, repete-lhe o Profeta, e eu a encherei” (Sl 80, 19). “Encherei a tua mente e o teu coração com os meus tesouros. Desde a aurora vós nos cumulastes, ó Senhor, das vossas finezas; cantaremos os vossos louvores, e os nossos dias passarão na alegria” (Sl 89, 14).
O Senhor ainda nos anuncia, pela boca de Jeremias, que seu nome será a alegria, o louvor e o regozijo de todas as nações da terra, as quais terão conhecimento do bem que Ele fez ao seu povo e ficarão mudas de admiração, ao conhecerem os favores e a paz com que o tornará feliz (Jr 33, 9).
Quando Jesus Cristo, com o poder de sua graça, prostrou Saulo no caminho de Damasco, disse-lhe: “Por que me persegues, ó Saulo?” (At 9, 4). Devemos observar aqui que Saulo perseguia a Igreja; contudo, Jesus Cristo considerava como feitos a si mesmo os sofrimentos que Saulo infligia aos primeiros fiéis.
Por isso, não lhe diz: Por que persegues meus filhos, minha Igreja? Mas: Por que me persegues? Tu me persegues até a morte em minha Igreja, enquanto eu, na tua pessoa, vou ao teu encontro para dar-te a vida? A minha Igreja é a bondade, a doçura e a misericórdia por essência. Ela jamais te ofendeu nem te fez mal algum: por que a persegues? Perseguindo-a, persegues a mim.
O mesmo Jesus Cristo havia dito aos seus Apóstolos: “Quem vos ouve, ouve a mim; e quem vos despreza, despreza a mim” (Lc 10, 16). Ele considera aqueles que lhe pertencem como seus próprios membros; e São Paulo o afirma em termos formais, nestas palavras aos Coríntios: “Vós sois o corpo de Cristo e membros dos seus membros” (1Cor. 12, 27). Por isso, o Salvador pedia a seu Pai que todos os seus discípulos fossem uma só coisa com ele, assim como Ele é uma só coisa com o Pai (Jo. 17, 21).
Os nossos interesses são tão próprios de Deus que Ele jamais abandona aqueles que permanecem com Ele (Jo 14, 18); e é por isso que, em outro lugar, nos assegura que está conosco em todo tempo, até o fim dos séculos (Mt 28, 30).
São Paulo havia experimentado esta bondade de Deus, que socorre, protege e defende, quando escrevia a Timóteo que, na primeira vez em que defendeu sua própria causa, não tivera pessoa alguma que o assistisse, pois todos o haviam abandonado. Mas o Senhor estivera ao seu lado, o fortalecera e o livrara das fauces do leão; por isso, esperava que o livraria de todo mal e o conduziria ao seu reino celeste (2Tm. 4, 16-18).
“Senhor, cantava o Salmista, vós sois o amparo do órfão” (Sl 9, 34); “voastes em meu socorro” (Sl 85, 17); “e não temerei tudo quanto os homens me possam fazer, porque vós, ó Senhor, vos colocastes em minha defesa” (Sl 117, 6-7). E a Sabedoria nos assegura que o Senhor nos estende o braço em todo tempo e lugar (Sb 19, 24).
“No mesmo instante em que perdoa ao homem o mal por ele cometido, Deus o ajuda a não recair no pecado e o conduz à vida, onde é impossível o mal” (São Beda, in Psalm.).
“Nosso Pontífice, diz São Paulo, não é tal que não possa compadecer-se de nossas enfermidades; pois Ele se submeteu a toda espécie de provações, embora fosse sem pecado. Aproximemo-nos, pois, cheios de confiança, do trono da graça, para obter misericórdia e encontrar graça e auxílio no momento oportuno” (Hb 4, 15-16). O que suporta a nossa fraqueza, senão a bondade de Deus? Ela purifica os indignos, alimenta os ingratos, tolera os que a desprezam, anima os transviados e acolhe misericordiosamente os pecadores arrependidos.
“Deus é misericordioso, canta o Salmista, perdoará os pecados deles e não os exterminará; lembra-se de que são feitos de carne, de que são um sopro que passa e não volta” (Sl 73, 38-39). “Sim, Vós sois, ó Senhor, suave e compassivo, paciente e pródigo em misericórdia” (Sl 85, 25); “Vós sois indulgente para com todos, acrescenta a Sabedoria, porque todos pertencem a Vós, que amais as almas” (Sb 11, 27).
“Eu os purificarei, dizia Deus aos pecadores pela boca de Jeremias, de todas as suas iniquidades e lhes perdoarei todos os seus delitos” (Jr 33, 8). E, por meio de Ezequiel, exorta-os e estimula-os a fazer penitência por todas as suas culpas, a emendar-se das transgressões de que se tornaram culpados, a formar um coração novo e um espírito novo, prometendo-lhes absoluto perdão, plena anistia, porque Ele não quer a morte daquele que morre, mas que se converta e viva (Ez 18, 32). Em outro lugar, diz por meio do mesmo Profeta: “Se, depois que eu disse ao ímpio: tu morrerás, ele se arrepende de seu pecado, reconhece-se e condena-se, se entrega o depósito que lhe foi confiado, se restitui o que roubou, se caminha pela senda dos meus mandamentos, que é a senda da vida, se não comete mais nenhuma injustiça, ele viverá e não morrerá de modo algum. Nenhum dos pecados por ele cometidos lhe será mais imputado; ele terá a vida!” (Ez 33, 14-16).
Se Eu, que sou o juiz supremo, tomo a vossa defesa, ó pecadores, e me recuso, por assim dizer, a proferir a vossa sentença de reprovação; se Eu, vosso rei, vos perdoo, embora me tenhais insultado; se, por minha vontade, vos concedo a graça e vos restituo a saúde, por que morrerás tu, ó casa de Israel? (Ez 21, 30). Nós morreremos, respondeis vós, porque a lei, ministra da morte, condena aqueles que a transgrediram. Mas não sou Eu, por acaso, o advogado encarregado de vos defender e libertar-vos das acusações do vosso acusador? A lei vos condena, mas Eu absolvo os que se arrependem. Por que, então, morrereis? Quare moriemini? Nós morreremos porque nossos pais pecaram. Mas Eu, que vivo, digo-vos que os filhos não levarão a iniquidade dos pais. Por que, então, morrereis, ó casa de Israel? Quare moriemini, domus Israel? Nós morreremos porque nos ligamos à morte e fizemos aliança com o Inferno por meio de nossos enormes e inumeráveis pecados. Mas sois livres para romper este pacto: arrependei-vos e vivereis. Por que morrereis, ó filhos de Israel? Quare moriemini, domus Israel? Nós morreremos porque, abatidos sob o peso do corpo, inimigo da alma, caímos na lama.
Mas vós podeis, contanto que o queirais, formar um coração novo neste corpo de pecado. Por que, então, morrereis? Quare moriemini? Nós morreremos porque é demasiado difícil alcançar a vida por meio da observância da lei. Mas é fácil formar para vós uma alma e um espírito novos que vos elevem até Mim e vos tornem merecedores de graças poderosas, com o auxílio das quais observareis a lei e alcançareis a vida. Por que, então, morrereis? Quare moriemini? Nós morreremos porque já fomos condenados à morte pela justiça divina. Mas Eu, que não quero a perda eterna daquele que a morte mata no tempo, arrancarei de suas garras aqueles que caíram como presa sua. Por que, então, morrereis? Quare moriemini? Nós morreremos porque Deus se esqueceu de nós por causa de nossas culpas. Mas Eu, o Senhor, não posso esquecer os justos que por vós rezam. Se Sodoma tivesse tido apenas dez justos como intercessores junto de Mim, Eu a teria poupado, apesar de seus delitos. Por consideração aos justos que imploram misericórdia para vós e para atendê-los, Eu vos perdoarei. Por que, então, morrereis? Quare, moriemini? Nós morreremos porque não podemos resistir ao poder divino. Mas, se recorrerdes à misericórdia de Deus, vós a vencereis, como já a venceu outrora, e vós o sabeis, vosso pai Israel. Por que, então, morrereis? Quare moriemini? Uma só coisa vos enfraquece, vos acusa, vos condena e vos dará a morte: é que não quereis mudar de vida nem corrigir-vos; ainda não sabeis fazer os sacrifícios necessários para viver para Deus. Mas Eu, vosso Criador, não cessarei de advertir e exortar aqueles que são vítimas de semelhante loucura. Por que morrereis, ó casa de Israel? Quare moriemini, domus Israel? Ah! Não quero, não, a morte do pecador, mas desejo que ele se converta e viva. Voltai, pois, a vós mesmos e a Mim, emendai-vos e vivei. Qual pecador permanecerá insensível diante deste quadro da bondade de Deus?
“Deus, segundo a expressão de Santo Agostinho, amou o ímpio para torná-lo justo; o enfermo, para curá-lo; o mau, para torná-lo bom; o morto, para chamá-lo à vida. Ah! Vós sois um Deus bom, que dais ao homem aquilo de que ele necessita, para que possa cumprir o que lhe ordenais (8).” Pois, segundo afirma o mesmo Doutor, Deus não ordena coisas impossíveis; mas, ao ordenar, adverte-nos que façamos o que podemos e que Lhe peçamos a força para cumprir aquilo que por nós mesmos não podemos; depois, ajuda-nos para que possamos (9).
Nosso Deus é “o Deus de toda consolação” (2Cor 1, 3), diz o Apóstolo. Todas as amarguras se transformam em doçura quando a alma é inundada pelas consolações espirituais. Em todos os séculos, os Santos fizeram a doce experiência delas. Essas consolações arrancam os espinhos das aflições que, enquanto são um peso insuportável para os infelizes escravos dos prazeres mundanos, tornam-se, ao contrário, leves, amáveis e deleitosas para aqueles que amam Jesus Cristo.
“Deus derrama com grande liberalidade os seus dons sobre todos”, escreve São Tiago (Tg 1, 5).
São Tomás ensina que Deus: 1° dá com liberalidade, não vende os seus dons…; 2° dá a todos, não a um só…; 3° dá em abundância…; 4° dá generosamente, sem fazer censuras. Que motivo de corar e envergonhar-se para a negligência humana! Deus está mais disposto a dar do que nós a receber. A índole, a propriedade da natureza de Deus é dar. “Deus, acrescenta Santo Agostinho (10), vale para ti por todas as coisas. Se tens fome, será teu alimento; se tens sede, tua bebida; se és cego, tornar-se-á tua luz; se estás nu, tua veste para a imortalidade.” Por isso, São Bernardo exclama: “Deus se deu inteiramente a mim, pôs-se todo a meu serviço (11).”
“Meu pai e minha mãe me abandonaram, mas Deus me acolheu sob as suas asas”, cantava o Salmista (Sl 26, 10).
“Ouvi-me, ó casa de Jacó, e vós, resto da família de Israel, vós que trago continuamente em meu seio e nutro com as minhas entranhas. Não temais: vós me encontrareis sempre o mesmo para convosco, até a vossa extrema velhice, até os últimos dias; eu vos criei, eu vos deitarei sobre os meus ombros e vos levarei a um lugar de salvação” (Is 46, 3-4).
Estas expressões — “Eu vos levarei em meu seio, vos esconderei em minhas entranhas, vos carregarei sobre os meus ombros” — não proclamam que a providência de Deus, o seu terno amor, os seus delicados cuidados, não são mais que maternos? Deus não alimenta somente o corpo, mas também a alma, e lhe dá força com a sua graça, com a sua doutrina, com a sua palavra, com as suas inspirações, com os seus sacramentos, com o seu corpo e sangue, com a sua alma e divindade. Como uma mãe. Deus forma o cristão no seio da Igreja, dá-lhe à luz, amamenta-o, aquece-o, acaricia-o, educa-o, instrui-o, dirige-o até introduzi-lo no Céu. Usque ad senectam… ego portabo. Vede, antes, que diferença entre as mães terrenas e Deus! Aquelas não amamentam nem carregam nos braços os seus filhos senão por alguns anos e, muitas vezes, também por poucos meses; este, ao contrário, leva-nos e alimenta-nos até a mais avançada velhice. Por isso, o Profeta exclama: “Em Vós, ó Senhor, eu me apoiei desde o seio materno; Vós não me rejeitareis nos dias da velhice, não me abandonareis quando se tiver esgotado o vigor da minha vida” (Sl 70, 6-9),
“Pode uma mãe, diz ainda o Senhor pela boca de Isaías, esquecer-se de seu filho? E ainda que ela o esquecesse, eu jamais me esquecerei de vós, que trago esculpidos nas palmas das minhas mãos” (Is 49, 15-16); o que significa: conservo continuamente diante dos olhos a vossa lembrança, cuido de vós e de tudo o que vos diz respeito, como se estivésseis escritos nas minhas palmas, às quais não posso voltar os olhos sem ver também a vós.
Jesus Cristo traz, na verdade, esculpida nas chagas das mãos, dos pés e do lado, a sua Igreja, sua esposa; e traz todos os fiéis gravados nas feridas que recebeu e cujas cicatrizes conservará eternamente. Ali Ele nos escreveu, não com tinta, mas com o seu sangue; não com uma pena, mas com pregos; não sobre a pele, mas dentro da carne, e tão profundamente, que a eternidade não bastará para apagar-nos. Das suas mãos, dos seus pés e do seu lado jorraram todos os dons da graça, os sacramentos e os bens espirituais que são a riqueza, a força e a saúde da sua Igreja.
Deus é tão bom que deseja que se previna a sua vingança e que lhe atem as mãos; mas quer ser livre tanto nas manifestações da sua bondade como nas graças que concede.
“Eu sei, anuncia o Senhor pela boca de Jeremias, os desígnios que alimento a vosso respeito; e eles são desígnios de paz e de misericórdia, não de cólera e de justiça” (Jr 29, 11). E em outro lugar faz dizer pelo mesmo Profeta: “Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. Dar-lhes-ei um só coração e uma só língua, para que me temam durante todos os dias da sua vida, e a paz reine com eles e com os seus filhos depois deles. Firmarei com eles uma aliança eterna e não cessarei de lhes fazer o bem; e me alegrarei neles quando lhes tiver feito o bem” (Jr 32, 38-61).
Que é, pois, Deus? É o bem infinito: nada pode ser comparado à sua bondade. É o bem incriado, e quanto mais se possui, tanto mais agrada e torna feliz. Diz o Apóstolo que “Deus quer a felicidade e a salvação de todo o mundo” (1Tm 2, 4).
“Deus, diz Santo Agostinho, não se ocupa de outra coisa senão da minha salvação; por isso o vejo todo solícito em guardar-me, como se, esquecido de tudo o mais, quisesse apenas cuidar de mim. Mostra-se presente para mim sempre e em toda parte; encontro-o sempre pronto a servir-me.
Para onde quer que me leve, não me deixa; para onde quer que eu me volte, acompanha-me; qualquer coisa que eu faça, assiste-me (12).” Por isso, São Bernardo exclama assim: “Ó duros e intratáveis filhos de Adão, aos quais uma bondade tão grande não enternece, uma chama tão viva não aquece, uma tão ardente labareda de amor não incendeia! (13)”.
Considerai o excesso da bondade de Deus para com os homens. Essa bondade manifesta-se até mesmo nas queixas cheias de doçura, compaixão e amor que nos dirige. Vede Jesus Cristo diante de Jerusalém; deplora com lágrimas nos olhos a sua cegueira, dizendo: Ah! se também tu, ao menos neste instante, reconhecesses o que te pode trazer a paz! Mas agora tudo está oculto ao teu olhar (Lc 19, 41-42).
Ó filha de Sião, como é possível que tu, a quem amo, honro e instruo, e a quem tornei rica; tu, que és testemunha dos meus benefícios e dos meus prodígios estrepitosos e inumeráveis; tu, a quem cumulo de benefícios extraordinários, não me conheças? Por que me rejeitas, me fazes guerra, me persegues e te preparas para julgar-me, crucificar-me e matar-me? Por tua causa desci do Céu à terra; por tua causa nasci numa estrebaria, vivi entre privações, trabalhos, apertos e sofrimentos contínuos. Eu te visitei e instruí; curei, sob os teus olhos, leprosos, cegos, coxos, surdos, mudos, paralíticos e enfermos; fiz milagres para multiplicar os pães que deveriam alimentar-te; restituí a vida aos mortos. Durante quatro mil anos, teus pais suspiravam por mim e me invocavam; e tu, agora que vim, foges de mim, desprezas-me, calunias-me, odeias-me e persegues-me! E que foi que eu te fiz, ó meu povo? Responde-me: em que te ofendi e entristeci? — Porventura te ofendi quando te tirei do Egito, libertando-te da casa da escravidão e dando-te como guias Moisés e Aarão? (Mq 6, 3-4). Pode-se muito bem, e com pleno direito, aplicar a cada um aquilo que ali se diz da filha de Sião, do povo de Israel.
Ah, sim! Pode Deus repetir a cada um de nós em particular, pela boca de Isaías: Tu te havias perdido, e eu vim recolocar-te no bom caminho; eras pobre, e vim enriquecer-te; eras escravo, e vim libertar-te; estavas condenado, e vim absolver-te; estavas morto, e vim chamar-te à vida. Agora, que mais poderia eu fazer pela tua alma que não tenha feito? (Is 5, 4).
Ouvi ainda as ternas queixas que a bondade divina profere por meio do Salmista: Se quem me ultraja fosse meu inimigo, eu o suportaria em paz; mas sois vós, vós que considero como outro eu mesmo, vós que participais dos meus conselhos, que vos sentais à minha mesa, que sois os confidentes dos meus segredos, vós em cuja companhia vivi na casa do Senhor! (Sl 54, 13-15). Ah! por que me perseguis, me traís e me entregais à morte?
Em retribuição de tanta bondade, de tantas finezas de amor da parte de Deus, a razão e a piedade exigem que se Lhe testemunhem reconhecimento e amor…; e os meios são os seguintes: 1° Ter n’Ele grande confiança. “Não vos ocupeis de vós mesmos”, pregava o Crisóstomo (Homil. LVI, ad pop.), mas confiai tudo a Deus; porque, se vos afadigais para prover às vossas necessidades, agis como homens fracos e débeis; mas, se deixais Deus agir, Ele proverá a tudo, tanto no temporal como no espiritual.
2° Temê-lo: porque, como canta a Virgem, a sua misericórdia divina se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem (Lc 1, 50).
3° Conservar o próprio coração na simplicidade e na retidão. “Quão bom é o Deus de Israel para com os que são retos de coração!”, exclama o Salmista (Sl 72, 1).
4° Louvá-lo e bendizê-lo. “Louvai o seu nome”, diz ainda o Salmista, “porque o Senhor é suave, e a sua misericórdia dura eternamente” (Sl 99, 6-5). “Minha alma, bendize o Senhor e jamais te esqueças dos seus benefícios” (Sl 102, 2).
5° Conclamar todas as criaturas a louvá-lo e agradecer-lhe. “Louvai o Senhor, ó céus”, clamava Isaías; “exulta de alegria, ó terra, e vós, ó montes, ressoai com os seus hinos” (Is 49, 13).
6° Converter-se…
7° Observar a sua santa lei.