O jugo de Jesus Cristo é para o homem como o freio para o cavalo fogoso, o aguilhão para o boi lerdo e preguiçoso… O jugo de Jesus Cristo é o Evangelho reduzido à prática… A lei evangélica é chamada jugo porque nos prende e nos submete à disciplina, para impedir-nos de nos desviar da justiça. Retirai o jugo da lei de Deus, e tudo vai à ruína… E, com efeito, todos percebem que, nascendo o homem com o germe de todos os vícios, se esse germe se desenvolve, arrasta-o a todo excesso… Ora, somente o jugo de Jesus Cristo seca esse germe fatal… «Sem o jugo de Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, as paixões desenfreadas dão vazão impunemente a todos os seus caprichos (1)». Além disso, o homem precisa de luz, de disciplina, de guia, de impulso, de correção, de encorajamento, de vigor, de força; o jugo de Jesus Cristo a tudo supre, tudo proporciona.
«Tomai sobre vós o meu jugo, disse Jesus Cristo; pois o meu jugo é suave e o meu peso é leve» (Mt 11,29-30). «O jugo de Jesus Cristo, observa aqui Santo Ambrósio, não prende o pescoço entre correntes, mas une a alma a Deus pelos ternos vínculos da graça; não constrange pela necessidade e pela violência, mas dirige docemente a vontade para o bem (2)».
A lei evangélica é o jugo de Jesus Cristo, mas um jugo fácil e leve. 1° porque poucos e fáceis são os preceitos desta lei…; 2° porque concede a graça, que adoça as amarguras que nela se podem encontrar…; 3° porque não pelo temor, mas pelo amor, nos guia e governa…; 4° porque destrói a morte…; 5° promete e traz a vida eterna. Com razão, portanto, exclama São Bernardo: «Doce e agradável me é admirar quão leve seja o peso da verdade (Jesus Cristo), que não somente não oprime, mas antes eleva aquele sobre quem é colocado. Esse peso pôde fecundar, mas não incomodar o seio virginal de Maria! Ele sustentava, esse peso, os braços de Simeão, enquanto parecia que eram os braços que sustentavam o peso. É pela força desse peso que Paulo se elevava, embora oprimido pela massa corruptível do corpo, até o terceiro céu (3)».
A palavra jugo deriva-se do verbo jungir: e Deus une-se precisamente a nós, liga-nos e nos associa a si por meio do jugo de sua lei. É preciso que sejam dois para levar um jugo: ora, quem está conosco? Jesus Cristo: sim, ele leva e divide conosco o peso do jugo que nos impõe, e é por isso que no-lo torna leve e suave. Ele o chama de seu jugo ― iugum meum ― como se quisesse dizer: o jugo que vos imponho é meu, mas eu o levo convosco e em vós; mais ainda: eu o levo todo sozinho e, ao mesmo tempo, levo a vós mesmos. Para levá-lo, eu vos ajudo com a minha graça e com o meu exemplo.
Graciosa e, ao mesmo tempo, veríssima é a comparação de que se serve São Bernardo, comparando o jugo de Jesus às asas das aves, as quais, por largas e espessas que sejam, longe de embaraçar ou retardar o voo das aves, antes o tornam mais seguro e veloz. Se lhes retirais esse peso, depenando-as, seu corpo cai estatelado no chão, vencido pelo próprio peso (4). Santo Agostinho exprime o mesmo pensamento com estas palavras: «Este peso não é um fardo para quem o leva, mas uma asa para quem há de voar. Observai as aves: elas também têm o peso de suas penas; levam-nas, mas não são levadas por elas. Se as levam quando pousam na terra, são levadas por elas quando se elevam no ar (5)». Para aquele que se apega às coisas terrenas, o jugo de Jesus Cristo é um peso que o abate: ele o leva todo sozinho e inteiro, como a ave que caminha sobre a terra leva as asas e as penas; aquele, ao contrário, que não se apega às criaturas, que vive em Jesus Cristo e de Jesus Cristo, encontra nesse jugo um auxílio para voar como águia até o céu; e, em vez de levá-lo, é levado por ele.
«Aqueles que não amam a Deus, diz Santo Agostinho, sentem pena e cansaço em cumprir os seus mandamentos, porque os cumprem por temor; mas a caridade perfeita lança fora o temor e torna leve o fardo da lei, que, nesse caso, não somente não oprime como um peso, mas alivia e eleva como asas. Quando o homem ama, não sente pena (6)». «Mais ainda, tudo se torna fácil, acrescenta o mesmo doutor em outro lugar, para quem ama: quem leva Jesus, leva um peso leve, o único peso que não pesa (7)».
Quanto mais uma veste é rica em ornamentos de ouro, tanto mais pesa; contudo, aqueles que têm a honra de vesti-la não se queixam dela como de coisa demasiado pesada para carregar. Suponhamos que vos seja dada uma considerável soma de ouro; acaso vos recusaríeis a carregá-la, desculpando-vos com o incômodo do peso? Julgaríeis insensato quem assim procedesse; e, quanto a vós, parecer-vos-iam a coisa mais jubilosa do mundo os trabalhos e os suores que esse peso vos custaria. Ora, que riqueza é maior que estar revestido de Jesus Cristo? Haverá diamantes, pedras preciosas ou ouro que valham mais que Jesus, que valham mais que o céu? E haveremos de nos queixar de que o seu jugo, isto é, possuir a ele mesmo, seja coisa demasiado pesada? Mas, se fosse tão pesado, tão grave esse fardo, acaso ele elevaria ao céu todos aqueles que o carregam de boa vontade?… Ó cegueira! O jugo do mundo nos esmaga, e nós o amamos; o jugo de Jesus nos eleva, e nós nos queixamos, nos agitamos, achamo-lo insuportável! Bebemos fel, e fugimos das águas límpidas das fontes.
O caminho da justiça é fácil, porque está livre dos arbustos e dos espinheiros das coisas terrenas, cujo apego oprime com seu peso de chumbo os ímpios. Nele se caminha com facilidade e rapidez, porque somos levados e sustentados pelas asas da caridade. É precisamente isso que Jesus nos sugere quando diz em São Mateus: «Vinde a mim, vós todos que gemeis, curvados sob o peso do trabalho, e eu vos darei repouso» (Mt 11,28). Aqui se aplica a sentença do Crisóstomo: «Quando a alma é forte — e ela o é quando carrega com alegria o jugo de Cristo —, os fardos mais pesados lhe parecem levíssimos (8)». «E como poderia ser pesado, diz Santo Agostinho, se é o preceito do amor? (9)». E onde reina o amor, não há fadiga, sentencia São Bernardo (10). Ah! A experiência, ó meu amável Jesus, confirma a verdade de vossa palavra: «Meu jugo é suave, leve é o meu peso».
«Eu vos darei um coração novo — fazia Deus anunciar por Ezequiel — e infundirei em vossa alma um espírito novo; arrancarei de vossa carne o coração de pedra e vos darei em seu lugar um coração de carne. Porei o meu espírito em vossas veias e farei com que caminheis pelo caminho dos meus preceitos, observeis as minhas ordens e pratiqueis os meus conselhos. Vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso Deus. Então vos lembrareis de vossos costumes desregrados e de vossas inclinações; as vossas iniquidades e os vossos crimes se tornarão para vós mesmos um peso insuportável» (Ez 26,26-31). Estes são os prodígios que Jesus Cristo opera nas almas que carregam com amor, coragem e perseverança o jugo divino…
«Nas boas obras, observa São Gregório, não se devem considerar as asperezas que as acompanham, mas as doçuras e a suavidade de que transbordam (11)».
«Já não sentireis o meu jugo, diz Deus em Isaías, por causa do óleo da doçura com que o unjo» (10,27). Este texto se refere de modo especial ao Messias. Deus destrói o jugo do demônio por meio do Messias, que foi ungido com o óleo da alegria e cujo nome, por si só, suaviza e remove a aspereza de seu jugo; este dulcíssimo óleo se derrama da cabeça sobre todos os membros.
Este dulcíssimo óleo, que torna amável o jugo do Senhor, é: 1° a suavidade do amor inspirado pela lei e pelo espírito de Jesus Cristo…; 2° a facilidade de observar a lei, sendo ela uma lei de amor…; 3° o hábito de carregar o jugo de Jesus Cristo torna-o doce e agradável, pois é próprio do hábito adoçar e suavizar tudo aquilo que, no início, parece duro…; 4° a graça: as consolações divinas cobrem o jugo de Cristo de um deleite inexprimível. Por isso diz São Leão: «Nada é difícil aos humildes, nada é duro aos mansos; e os preceitos não são apenas observados, mas amados por aqueles a quem a graça presta auxílio e a obediência suaviza o mandamento (12)». E São Bernardo escrevia: «Os leigos admiram-se da rigorosa disciplina em que vivem os monges e os religiosos, pois veem o jugo, mas não veem o óleo e a unção dos celestes consolos. Contudo, é fato que Deus tempera com tanta graça e adoça com tantas delícias espirituais esse rigor de vida, que ele já não parece jugo, nem parece ter qualquer sombra de sofrimento (13)».
O profeta Davi exclama, no enlevo desta união divina que torna amável o jugo do Senhor: «Vós quebrastes, ó Deus, os meus grilhões; a vós oferecerei um sacrifício de louvor e invocarei o vosso nome. Cumprirei os meus votos ao Senhor, diante de todo o povo» (Sl 115,7-8). «Vós derramais sobre a minha cabeça o vaso dos vossos perfumes, e o meu cálice se torna saboroso e inebriante» (Sl 22,5).
Quem jamais carregou jugo mais pesado e penoso que o do grande Apóstolo? Pesava sobre ele o cuidado de tantas Igrejas; dia e noite angustiava-se pela conversão do mundo inteiro; sofria ultrajes, açoites, cadeias, prisões etc.; e agora, que dizia ele? Queixava-se acaso do jugo de Jesus Cristo? Ou este lhe parecia opressivo e insuportável? Não; ao contrário, exclamava: «Estou repleto de consolação e transbordo de alegria em meio a todas as tribulações» (2Cor 7,4).
Quem poderia dizer quanto custou, em trabalhos, suores e sofrimentos, o jugo de Jesus Cristo a um São Francisco Xavier, apóstolo das Índias? Quem poderá compreender a árdua missão que desempenhou entre aqueles bárbaros selvagens? E acaso se afligia, queixava-se? Dizia ele ao Senhor: «Basta, meu Deus, basta; ou diminuí as consolações, ou tirai-me desta vida, porque um coração mortal não pode suportar tamanha alegria (14)».
Com razão exclamava o Salmista: «Quão grandes e numerosas são as doçuras que vós, ó Senhor, reservais para aqueles que vos temem e para os que esperam em vós!» (Sl 30,19-20). «Vozes de alegria e gritos de júbilo ressoam nas tendas dos justos» (Sl 117,15). E a esta inefável doçura do jugo de Jesus Cristo aludia também Isaías quando profetizava que o Senhor consolaria Sião e repararia as suas ruínas; que os seus desertos se converteriam em lugares de delícias e as suas solidões floresceriam como um novo Éden; que tudo ali exalaria alegria e júbilo, em meio a cânticos de louvor e de ação de graças (Is 51,5).
Quereis ouvir as mudanças milagrosas que se operam naqueles que sacodem de si o jugo de Satanás para se inclinarem ao jugo de Jesus Cristo? Tende um exemplo em São Cipriano, que assim dizia de si mesmo: «Enquanto os erros da minha primeira vida me mantinham prisioneiro, eu acreditava que não havia saída para mim; os vícios me dominavam e eu, vendo os meus males, desesperava de poder ressurgir para uma vida melhor. Mas, depois que, com o auxílio da graça, os meus pecados me foram perdoados, uma luz celeste penetrou em minha alma purificada. Depois de receber o Espírito Santo, um segundo nascimento fez de mim um homem novo que, de modo miraculoso, se viu livre da obscuridade das dúvidas e, transformadas as trevas em luz esplendidíssima, viu claramente aquilo que antes lhe estava impenetravelmente oculto. A partir daquele momento, eu fazia com toda prontidão e facilidade aquilo que antes imaginava ser impossível; governava sem esforço aquilo que antes me parecia ingovernável; conheci a pequenez e a vaidade de tudo quanto anteriormente me arrastava ao abismo dos crimes. Apaixonado por Deus, tive a minha alma vivificada, animada e governada pelo Espírito Santo» (Serm.).
«Eu, dizia o Senhor a Israel, carreguei-os nos braços, como um pai carrega os seus filhinhos; e atraí-los-ei a mim com os laços de Adão, com os vínculos do amor» (Os 9,3-4). «Esses laços, essas cadeias são a lei evangélica dada aos cristãos; ela liga e obriga; é conforme à sã razão e à equidade; é vínculo de caridade, pois o fim da lei é a caridade, que nos ordena o amor de Deus e do próximo. Ora, onde encontrar coisa mais doce e consoladora que amar a Deus e amar os nossos irmãos? Coragem, pois, ó atleta, ó soldado de Jesus Cristo; não evites o jugo, a disciplina, a cruz do teu capitão, porque esta cruz deixa cair gotas de maravilhosa suavidade e de inefável consolação. Lembremo-nos de que, por disposição de Deus, quanto mais pesado parecer o jugo, quanto mais opressiva for a cruz que se receber de suas mãos, tanto mais abundantes serão as consolações que ele derramará e tanto mais vigoroso será o braço que nos oferecerá em sustentação; de modo que a medida das consolações será sempre igual à das cruzes, quando não a superar, segundo a palavra do grande Apóstolo: «À medida que em nós abundam os sofrimentos de Cristo, aumenta também, graças a Cristo, o nosso contentamento» (2Cor 1,5). E também o profeta exclamava: «Os vossos consolos, ó Senhor, alegraram a minha alma na proporção das dores que a haviam entristecido» (Sl 93,19).
Experimentaram-no os mártires, e provam-no as almas verdadeiramente piedosas que levam o jugo de Jesus Cristo, que aspiram a uma vida santa, para merecer a coroa eterna. Longe de aborrecer o jugo do Salvador, elas o desejam, procuram-no e amam-no, atraídas pelas secretas doçuras que o acompanham e que nele saboreiam. O refrigério, a paz e o contentamento estão ligados ao jugo de Jesus Cristo, à sua cruz, e em vão são procurados em outro lugar.
«Servir a Deus é reinar», escreve São Bernardo (15), quase como comentário àquele texto de Abdias: «Subirão ao monte de Sião, e ali estará o reino do Senhor» (Ab 1,21).
Convencei-vos de que a suma felicidade do homem, o seu bem supremo, consiste nisto: que Deus reine sobre ele e nele, pois Deus é o Rei dos reis, o Senhor dos que dominam; e então compreendereis quão honroso é levar o seu jugo, obedecer-lhe ou servi-lo. 1° Deus é um rei justíssimo e ótimo: ele mesmo, por si, manda com toda equidade e doçura; bem diversamente procedem, na maioria das vezes, os reis da terra, e sempre os tiranos, os demônios, o mundo e a concupiscência, os quais também querem reinar sobre nós, mas nos impõem violentamente tudo quanto há de mais duro. 2° O reino de Deus sobre nós, quando aceitamos o seu jugo, consiste na graça e nas virtudes, na fé, na caridade, na sabedoria, na castidade e em coisas semelhantes, que são dons preciosíssimos de Deus à alma, para que, por meio delas, se encaminhe à obediência a Deus, que é o seu único bem supremo. Deus conduz a alma quando lhe inspira o conhecimento de si mesmo, o seu amor, os bons desejos, o apego ao seu serviço, a união com ele etc. E o que se pode encontrar que seja comparável ao conhecimento da primeira verdade? Que coisa desejar de mais honrosa ou de mais feliz do que amar a bondade suprema? Que coisa desejar para nós de mais nobre do que servir à majestade infinita? … 3° Este reino de Deus não foi estabelecido para utilidade de Deus, mas para o bem da alma que por ele é conduzida; a fim de que, vivendo religiosa e piedosamente, mereça reinar aqui embaixo sobre todos os seus inimigos e chegue a reinar na glória do império celeste, no gozo de Deus por toda a eternidade… 4° Este reino não torna vis e abjetos os súditos, mas nobres, ilustres, heróis e príncipes, segundo aquelas palavras do Apocalipse: «Fizeste-nos reis e um reino para o nosso Deus, e reinaremos» (Ap 5,10).
Com efeito, não se deve chamar rei àquele que, submetido ao jugo do Senhor, pela graça de Deus, governa as suas paixões e cobiças? Não é rei aquele que detém, acorrenta e governa como quer o orgulho com a humildade, a avareza com a liberalidade, a cólera com a mansidão, a gula com a temperança, a luxúria com a castidade? Não é rei aquele que, com a razão, a prudência e a continência, sábia e fortemente domina a memória, a vontade, o apetite irascível e o concupiscível, a sua fantasia, os seus olhos, os seus ouvidos, a sua língua, todos os seus sentidos, faculdades e membros? Eis um dos sentidos em que devemos dizer: «Venha o vosso reino» (Mt 6,10).
Diz São Cipriano: «Quem abandona o mundo demonstra ser mais nobre e maior do que todas as grandezas e todos os reinos do século, pois quem se submete ao jugo do Senhor anseia não pelas coisas terrenas, mas pelas celestes; antes, pelo próprio Deus, para reinar com ele e nele» (Ad Martyr.). «E, se Deus reina em nós, diz Santo Ambrósio, o nosso adversário, o demônio, não pode de modo algum encontrar aí abrigo (16).
Sede, pois, ó Jesus, o nosso rei e reinai em nós. Nós vos oferecemos as nossas almas e todas as nossas faculdades; governai-as vós, porque nós não podemos governá-las por nós mesmos, e não queremos deixá-las à mercê do mundo, do demônio e da carne. Cabe a vós, que nos criastes e redimistes com o vosso sangue, governar-nos como vossa propriedade e vosso reino, a vós que sois o único a governar com sabedoria, clemência e poder, para proveito e felicidade dos súditos. Tinha, pois, muita razão o rei Davi ao exclamar: «O Senhor me governa e nada me faltará; ele me colocou no meio de pastagens verdejantes» (Sl 22,1). Ah, sim, sois vós que dais força à minha alma e me encaminhais pela estrada da justiça, para a glória do vosso nome. Ainda que eu caminhe em meio às sombras da morte, nada temerei, porque vós estais comigo. O vosso cajado me fortalece, a vossa vara me consola, a vossa misericórdia me acompanhará todos os dias da minha vida, para que eu habite na casa do Senhor por toda a duração dos dias eternos (Id. Ib.).
Quem leva o jugo de Jesus Cristo está revestido de Cristo: ora, que veste é mais preciosa e útil? São Bernardo chama-o o jugo dos dons e dos benefícios de Deus. «Deus, diz ele, nos carrega quando nos alivia; carrega-nos de benefícios e alivia-nos do pecado. Dizia Davi sob o peso do jugo de Deus: Que retribuirei ao Senhor em troca de todos os bens com que me cumulou? (17)».
Ó jugo precioso! Ó rico fardo, que é o dos dons de Deus, da sua graça e da sua glória! Ó carga deleitável e vantajosa, que é levar Deus em nós mesmos! O jugo de Deus não é outra coisa senão o próprio Deus; portanto, o peso deste jugo não deve ser levado em conta. Ó meu Deus, carregai-me de tal modo com este peso, que não me reste nem ânimo nem força para levar outro; porque qualquer outro jugo me oprimiria de tal maneira que me impeliria ao inferno; mas o vosso me faz subir ao céu.
Inumeráveis são as vantagens que o jugo de Cristo traz consigo. Este jugo, levado com resignação, com alegria e com constância, livra-nos dos pecados, restitui-nos a graça, dá-nos a liberdade, a luz, a segurança do reino celeste, a adoção como filhos de Deus, a posse de Deus… «Prestai ouvidos, diz o Senhor, e vinde a mim; escutai-me e vivereis: estabelecerei convosco a aliança eterna de misericórdia prometida ao meu servo Davi» (Is 51,3). A aliança que eu firmarei convosco, se levardes o meu jugo, será uma aliança de doçura e suavidade; será caridade, bondade, misericórdia… «A palavra do Senhor, acrescenta Miqueias, é doce para quem leva o seu jugo» (Mq 2,7).
«O pecado não reina naquele que leva o jugo de Cristo, escreve Santo Ambrósio; mas dominam a virtude, a pureza, a religião e a piedade (18).» E São Cipriano, elogiando a disciplina, que é o jugo do Senhor, chama-a «guardiã da esperança, vínculo da fé, guia no caminho da salvação, lar e alimento de uma boa índole, mestra das virtudes». Acrescenta que ela nos faz permanecer sempre com Cristo, viver de Deus e chegar às promessas celestes e às recompensas divinas. Segui-la é coisa salutar; abandoná-la ou negligenciá-la é coisa nociva e mortal (19).
O jugo de Jesus Cristo não parece pesado e insuportável a outros senão aos soberbos e aos carnais. «E, contudo, diz São Gregório, não há jugo mais áspero nem peso de escravidão mais dura do que ser escravo das coisas temporais, desejar os prazeres da terra, querer manter-se agarrado àquilo que foge, permanecer firme sobre um terreno que escorrega, querer as coisas que passam, mas não querer passar com elas (20)».
«Sabeis, pergunta o Crisóstomo, a quem as coisas mais graves se tornam leves? Àquele que tem um ânimo resoluto e robusto; mas, onde falta essa energia, os pesos mais leves se tornam insuportáveis (21).» Aqueles, portanto, a quem pesa o jugo de Jesus Cristo demonstram que não há vigor nem força em sua alma e dão clara prova de vergonhosa fraqueza… Por isso, é observação antiquíssima que aqueles que murmuram contra o jugo de Jesus Cristo, acusando-o de ser demasiado pesado, opressivo e insuportável, são tão débeis, fracos e extenuados que se tornam o ludíbrio do demônio, do mundo, da carne, da vaidade e de todas as paixões mais degradantes; são tão vacilantes que basta um nada para fazê-los tropeçar e cair; são tão indolentes que não sabem obrigar-se a uma simples e breve oração…
«Se credes, dizia Hugo de São Vítor aos seus noviços, que os preceitos do Senhor sejam difíceis e penosos, estais enganados» (Instit. monast. ad Novit.). Com efeito, como observa São Gregório (In lib. I Regum), aqueles que consideram demasiado molestos e pesados os mandamentos e as prescrições divinas vão caindo pouco a pouco, até se perderem inteiramente. Não é, portanto, pelo lado das asperezas, mas pelo das doçuras e do amor que se deve considerar o jugo de Jesus Cristo. Ele parece pesado somente àqueles que não têm o amor de Deus, diz Santo Agostinho (In Enchirid.); «e é o grande hábito do vício, diz São Paulino, que nos faz parecer áspero e impraticável o caminho da virtude. Com efeito, a Escritura nos ensina que fácil e plana é a estrada da justiça (22)».
Cassiano ensina (Lib. Iustitiae) que a lei de Deus e da virtude é em si mesma fácil e leve, mas se torna penosa e pesada por causa da nossa concupiscência e dos nossos vícios. Somos nós que tornamos espinhosas e ásperas as vias fáceis e doces do Senhor; porque queremos seguir os bens passageiros, caminhando pelas veredas tortuosas e escarpadas dos vícios; nós nos arrastamos, já não tendo os pés da fé e do amor que nos conduzam e, rasgada a veste do batismo, não somente sangramos com as escoriações dos espinhos e dos abrolhos, mas somos traspassados pelo dente venenoso das víboras e dos escorpiões. Eis por que o jugo de Jesus Cristo pesa tanto para nós. Concluamos, pois, com Santo Agostinho: «doce é o peso da disciplina, leve o jugo do Senhor; e somente agrava aqueles que já estão perdidos ou estão prestes a perder-se (23)».
«Infeliz daquele que sacode de si o jugo da sabedoria e da disciplina! Vã é a sua esperança, infrutíferos os seus trabalhos, inúteis as suas obras» (Sb 3, 11). Com efeito, o homem não basta para governar-se sozinho, mas necessita de um guia que, se não for Deus, será o demônio; se o homem não tiver a virtude por norma, terá o vício; se não olhar para o céu, olhará para a terra; se não viver de religião, viverá de incredulidade; se não tiver a graça, terá a maldição… O homem deve obedecer a Deus e levar o seu jugo; se negar a Deus essa obediência, prestá-la-á ao demônio e às exigências do vício… Quem voluntariamente se subtrai ao jugo de Jesus Cristo submete-se necessariamente ao jugo de Satanás… Quem não quer levar o jugo de um Deus misericordioso arrastará eternamente o jugo de um Deus justo e vingador…
O que torna fácil, leve e doce o jugo de Jesus Cristo é: 1° o amor de Deus; 2° o hábito de carregá-lo; 3° a graça, que jamais falta àqueles que de bom grado se submetem a ele; 4° o bom exemplo daqueles que são fiéis e constantes em carregá-lo. Esta reflexão converteu Santo Agostinho: «Pedro e Paulo, dizia ele consigo mesmo, eram também homens como tu. Se me sinto demasiado fraco para imitar o mestre, devo ao menos tentar seguir os servos. Ou serei eu inferior e mais débil que tenros meninos e meninas? Por que não farei eu aquilo que estes e aquelas fizeram por Deus?» (Confess.). Eles levaram e levam alegremente o jugo do Senhor; por que não poderei eu levá-lo como eles?
«Sejam as festas dos santos, dizia São Bernardo, ocasião para nós corarmos da nossa covardia. Aquele cuja memória honramos foi homem semelhante a nós, formado do mesmo barro e exposto às mesmas paixões; por que, então, julgamos impossível fazer o que ele fez? Ah, envergonhemo-nos, irmãos, e tremamos (Serm.)».