Tesouro n.º 108 · Volume II

LIBERDADE LIBERTÀ

7 seções · 33 parágrafos · pp. 1245–1256 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A LIBERDADE E O HOMEM LIVRE

Um homem célebre, interrogado sobre o que fosse a liberdade, respondeu: É a reta consciência (1). Um filho de Carlos Magno, tendo feito a mesma pergunta a Alcuíno, recebeu como resposta: A inocência. Dificilmente se poderia dar definição mais bela, mais exata e mais verdadeira. Cícero chama, depois, a liberdade de: O poder de viver como o homem quer; palavras que, se à primeira vista parecem um tanto equívocas e paradoxais, consideradas atentamente e comparadas com as seguintes, mostrar-se-ão profundas e claríssimas. Com efeito, acrescenta logo depois: «Ora, quem é que vive como quer, senão aquele que segue a reta razão? Somente o sábio nada faz contra a própria vontade, de má vontade ou por coação. Quem duvidará de que as pessoas levianas, cobiçosas ou más não sejam escravas? (2)».

Somente o homem virtuoso é livre… Somente os verdadeiros filhos de Deus são livres. Que é, com efeito, a liberdade dos filhos de Deus? Não é outra coisa senão a dilatação e o alargamento de seu coração, que se liberta de tudo o que é finito. Finita é a nossa vontade e, enquanto permanece encerrada em si mesma, limita-se; desejais ser livres? Despojai-vos de vossa vontade e não tenhais outra senão a de Deus. E, assim como Deus é, por natureza, liberdade e poder, fazendo tudo o que lhe agrada, também vós participareis de sua liberdade, de seu poder e de sua vontade.

Não convém ao homem não ver nada acima de si; uma pronta escravidão segue-se a esse pensamento de orgulho. A condição da criatura não comporta semelhante independência; é preciso que esteja sujeita a Deus… «O Senhor fará a vontade daqueles que o temem», diz o Salmista (Sl 144, 19). Ao contrário, permite que aqueles que não se importam com a vontade dele e fazem somente a própria vontade jamais possam fazer o que querem e se tornem os mais escravos dos homens.

2. EM QUE CONSISTE A VERDADEIRA LIBERDADE

O homem verdadeiramente livre é aquele que se submete a Deus, que subjuga as paixões, que evita o pecado e pratica a virtude… A liberdade cristã que foi pregada pelos apóstolos e que é a única verdadeira consiste numa isenção que nos foi dada por Jesus Cristo; mas não é a isenção do servo de fazer aquilo que o senhor lhe ordena; não é a isenção da obediência ao Decálogo, às leis, aos príncipes, aos prelados e aos superiores; não é a isenção das obras de penitência e satisfação; não é a isenção do cumprimento dos votos e das promessas que se tenham feito, porque a liberdade de subtrair-se a todas essas obrigações é uma liberdade irracional, animalesca, carnal, vergonhosa, injusta, contrária à natureza e à sã razão. Não é, pois, uma liberdade dessa espécie — que, na realidade, não seria senão uma rebelião formal — aquela que Jesus Cristo nos alcançou; mas a liberdade cristã consiste na isenção das múltiplas cerimônias da antiga lei, do jugo do pecado, do demônio e da morte, bem como da condenação eterna.

«O homem, diz São Leão, goza da verdadeira paz e liberdade quando a carne é governada pelo espírito e o espírito por Deus (3).» Pois, como observa Santo Agostinho, «o homem de bem, ainda que escravo, é livre, e o homem mau, embora mande, é escravo (4)». O homem faz bom uso de sua liberdade quando escolhe fazer aquilo que está de acordo com as leis e a vontade de Deus; procedendo assim, submete-se ao seu verdadeiro e legítimo senhor. Mas servir a Deus é reinar: coisa que é solidamente provada pelo fato de que servir a Deus é fazer da razão um santo uso; servir a Deus é obter para nós uma liberdade verdadeiramente real, pois em Deus se encontra a liberdade suprema; servir a Deus é unir-nos ao Rei dos reis e, por conseguinte, reinar com ele. Ao contrário, se nos unimos aos escravos, tornamo-nos escravos com eles. Não é porventura vergonhosa escravidão submeter-se aos próprios inferiores? Ora, como não há coisa mais vergonhosa que as paixões, segue-se que quem serve às paixões é o mais vil dos escravos. O serviço mais nobre consiste em submeter-se a Deus, porque Deus eleva, como diz o Apocalipse, aqueles que o servem; glorifica-os e beatifica-os, coroa-os reis e sacerdotes (Ap 5,10).

Em quatro coisas consiste o serviço de Deus: 1° em conhecer a Deus e aquilo que conduz a ele: e nisso está verdadeiramente o fundamento do serviço divino… 2° Em fazer obras de caridade e de beneficência: enquanto gozamos dos benefícios que Deus nos fez, é nosso dever agradecer-lhe e empenhar-nos em celebrar toda a sua bondade e a sua glória; oferecer-lhe e consagrar-lhe o nosso coração, a nossa alma, os nossos pensamentos e as nossas solicitudes. É isto que fazem para com o seu príncipe os cortesãos fiéis e devotos; eles exaltam por toda parte e em todo tempo as suas qualidades e o seu poder, para atrair os homens a amá-lo e servi-lo; e ai deles se ouvem alguém falar mal dele… 3° Em dedicar-se ao culto, prestando-lhe as devidas homenagens com a oferta do santo Sacrifício, com as cerimônias, com os ritos, com os hinos, com as orações e com os votos. Este é o ofício dos anjos e dos santos que no céu vivem em Deus, honram-no, louvam-no, bendizem-no, amam-no e adoram-no. Por isso, o perfeito serviço de Deus constituirá a nossa bem-aventurança e a vida eterna… 4° Em observar os mandamentos de Deus e praticar a virtude…

Submeter-se a Deus e servi-lo significa impor-se a feliz necessidade de obedecer às suas leis; libertar-se, tanto quanto possível, da triste e cruel liberdade de fazer o mal e perder-se. A liberdade dos filhos de Deus consiste em libertar-se do pecado; ora, o serviço de Deus produz este grande e feliz efeito e, por isso, nos dá a verdadeira liberdade.

Observai, diz Bossuet, três espécies de liberdade que podemos imaginar nas criaturas. A primeira é a dos animais, a segunda é a liberdade dos rebeldes, a terceira é a liberdade dos filhos de Deus. Os animais parecem livres, porque nenhuma lei lhes é prescrita; os rebeldes imaginam sê-lo, porque sacodem de si e desprezam a autoridade das leis; os filhos de Deus o são de fato, submetendo-se humildemente às leis; tal é a verdadeira liberdade; as outras duas não passam de imaginárias… Com efeito, quanto à liberdade de que gozam os animais, eu me envergonho de chamá-la por esse nome; é verdade que eles não têm leis que contenham os seus apetites ou dirijam os seus movimentos, mas isso acontece porque são privados de inteligência que os torne capazes de ser governados pela sábia direção das leis; vão sem norma e sem juízo para onde os arrasta um cego instinto. E chamaremos nós liberdade a esse instinto bruto e indócil, incapaz de razão e de disciplina? Deus não permita, ó filhos dos homens, que jamais vos agrade tal liberdade e que jamais queirais ser livres de modo tão vil e indigno! …

Que diremos então àqueles homens animalescos para os quais toda lei é um espinho e que desejariam vê-las todas abolidas, para não receberem senão as que lhes ditam os apetites desregrados? Dir-lhes-ei que ao menos se lembrem de que são homens e não se vangloriem de uma liberdade que os coloca entre os animais. Ponderem aquela admirável observação de Tertuliano (5). Foi conveniente que Deus desse uma lei ao homem: porventura para acorrentar-lhe a liberdade? Não, mas para que não parecesse colocado na abjeta condição dos animais. Essa liberdade de viver sem leis teria sido uma injúria à natureza humana. Deus teria mostrado desprezar o homem se não se tivesse dignado a dirigi-lo e prescrever-lhe a ordem de vida: tê-lo-ia considerado como considera os animais irracionais, aos quais permite viver sem leis porque não os estima e deixa livres por desprezo. Se, portanto, ele traçou leis, se impôs deveres ao homem, não foi para lhe tirar a liberdade, mas para dirigi-la e mostrar-nos a estima em que o tem. «Estabelece, ó Senhor, dizia Davi a Deus, um legislador sobre as nações, para que saibam que são homens»; isto é, seres dotados de razão e inteligência e dignos de ser governados por uma conduta sábia e ordenada (Sl 9,20).

Daí resulta claramente que a pretensão do homem de viver sem leis redunda em desonra, e não em glória. É justo que Deus no-las imponha, e não menos justo que a nossa vontade se lhes submeta; pois negar obediência à autoridade legítima não é liberdade, mas revolta; não é franqueza, mas insolência. Quem abusa da própria vontade a ponto de faltar ao respeito merece perdê-la, e assim de fato aconteceu. Pois o homem, escreve Santo Agostinho, tendo usado mal da sua liberdade, perdeu juntamente a si mesmo e a sua liberdade (6). E isso porque teve a audácia de medir a sua liberdade contra Deus; pensou que seria mais livre se sacudisse o jugo da lei divina e não conheceu, o desventurado, qual era a natureza da sua liberdade; não percebeu que era liberdade, não independência; era liberdade, não desenfreamento; era liberdade, não isenção da sujeição que é essencial à criatura. O papa Inocêncio I diz que Adão foi enganado pela sua liberdade, isto é, não soube distinguir entre liberdade e independência; pretendeu ser livre mais do que poderia um homem nascido sob o soberano império de Deus. Era livre como um bom filho sob a autoridade paterna; quis ser livre a ponto de ultrapassar os limites da sujeição filial e faltar ao respeito. Isso não é liberdade, mas rebelião.

A verdadeira liberdade é depender de Deus e ocupar-se da própria salvação… É um segredo de Deus saber unir a emancipação e a servidão, e São Paulo nos dá a chave disso naquelas palavras: «Aquele que, sendo escravo, foi chamado pelo Senhor, é liberto do Senhor; do mesmo modo, aquele que foi chamado sendo livre, é escravo de Cristo» (1Cor 7,22). Não nos seja cara a liberdade senão para submetê-la a Deus, e não temamos que a sua lei no-la roube. Quem dirá que seja opor-se a um rio, ou chamará de entrave à liberdade do seu curso a elevação das margens e a limpeza do leito, para que as águas não transbordem e inundem a campanha circundante? Pelo contrário, isso é ajudá-lo e tornar mais regular, mais seguro e mais majestoso o seu curso natural. Do mesmo modo, não é perder a liberdade impor-lhe leis e assinalar-lhe limites, para que não se desvie; é, ao contrário, encaminhá-la com mais segurança pela via que deve seguir; com tal providência, não se a constrange, mas se a conduz; não se a entrava, mas se a dirige. Sabeis quem a perde, quem a destrói? Aqueles que a desviam do seu curso natural, isto é, da sua tendência ao sumo bem… Se há um meio de tornar livre um coração, é o perfeito e absoluto abandono nas mãos de Deus e da sua santíssima vontade.

3. DE QUEM NOS VEM A LIBERDADE

Jesus Cristo disse aos judeus: «Se permanecerdes firmes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará» (Jo 8,31-32). Ora, quem é a verdade? Jesus Cristo (Jo 14,6). Jesus Cristo é, portanto, aquele que nos proporciona a verdadeira liberdade, como ele mesmo afirmou: «Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres» (Jo 8,36).

Jesus Cristo destruiu quatro espécies de servidão e nos trouxe quatro espécies de liberdade: 1° rompeu o jugo da antiga lei e nos deu a liberdade do Evangelho… 2° Quebrou as cadeias da escravidão em que o pecado nos mantinha e chamou-nos à liberdade da justificação… 3° Abateu o império da concupiscência e estabeleceu a soberania da caridade e da graça… 4° Destruiu a morte e deu a vida… São Paulo no-lo assegura quando escrevia aos Gálatas: «Cristo nos libertou» (Gl 4,31), e dizia aos Coríntios que «onde está o espírito de Deus, aí está a liberdade» (2Cor 3,17).

«Aquele que penetrar profundamente na lei perfeita da liberdade e nela perseverar, esse será feliz em suas obras», diz São Tiago (Tg 1,25). Essa lei perfeita da liberdade é a lei evangélica. 1° É lei de liberdade porque nos livrou dos preceitos judiciais e cerimoniais da antiga lei; não, porém, do Decálogo, pois o Decálogo obriga não porque foi promulgado por Moisés, mas porque é a própria lei natural sancionada por Deus e renovada por Jesus Cristo, que dizia: «Não vim abolir a lei, mas cumpri-la», isto é, aperfeiçoá-la (Mt 5,17). 2° É lei de liberdade porque nos tornou livres do pecado, resgatados do poder do demônio e do inferno… Ora, não há outra verdadeira liberdade diante de Deus, escreve São Jerônimo, senão a isenção do pecado (7). 3° É lei de liberdade porque nos liberta da coação e do temor; devemos observar os preceitos de Deus não por medo da vingança, mas por amor da justiça. Os cristãos não são servos como os judeus, mas filhos. «Nós não estamos submetidos, observa Santo Agostinho, a uma lei que ordene o bem, mas não nos dê o poder de fazê-lo; antes, vivemos sob a lei da graça, a qual, levando-nos a cumprir por amor aquilo que a lei ordena, pode exercer o seu império sem lesar a liberdade de quem obedece… Não abusemos da nossa liberdade para pecar livremente, mas sirvamo-nos dela para não pecar. Pois a nossa vontade é livre, se é piedosa; seremos livres se formos servos: livres do pecado, sujeitos à justiça (8).» Aqui se aplica aquele dito de Sêneca: «Nascemos para reinar; obedecer a Deus é liberdade (9).» 4° Finalmente, a lei evangélica é liberdade porque, no dia da ressurreição, seremos libertados da morte e de toda miséria… Diz ainda Santo Agostinho: «Liberta-nos de toda servidão aquele cuja servidão é utilíssima para todos e a cujo serviço quem se entrega com amor encontra a única verdadeira liberdade, a liberdade régia, pois ser servo de Deus é ser rei (10)».

«Ó Senhor, exclamava o profeta, quebrastes as minhas cadeias, porque sou vosso servo, vosso servo devotado e filho da vossa serva» (Sl 115,6). «A nossa alma, enredada como um passarinho no visco, foi dele arrancada; o laço foi cortado e fomos postos em liberdade» (Sl 123,6-7). «Quando o Senhor, que liberta os acorrentados, libertou Sião da sua escravidão, nós nos alegramos» (Sl 145,6; 125,1).

«Esperamos, escreve Santo Agostinho, ser libertados pelo príncipe da liberdade, o qual, libertando-nos, nos salvará. Éramos escravos das paixões; restituídos à liberdade, tornamo-nos servos da caridade (11).» Sim, Jesus Cristo nos libertou da servidão do pecado, do demônio e do inferno. Esta liberdade, por ele adquirida para nós, é a liberdade da alma; liberdade suprema, preciosíssima, eterna, para obter a qual deveríamos considerar como nada todas as coisas, ainda que isso nos custasse a escravidão durante toda a vida presente… Mas, felizmente, também desta última servidão Jesus Cristo nos libertou: 1º porque, vindo ao mundo como príncipe da paz, trouxe consigo a paz para o mundo; 2º porque transformou a servidão, de castigo da culpa, em simples condição de nossa natureza, ou melhor, fez dela um exercício de paciência e de virtude, o princípio e a causa da liberdade e da glória celeste; 3º porque, mediante sua graça, tornou a servidão dos cristãos voluntária, doce, querida, já não dura e forçada como a dos judeus; 4º porque, na ressurreição, aniquilará para os santos toda virtude, dando-lhes não somente a liberdade, mas o reino dos céus, para que sejam reis e reis eternamente.

Tinha, pois, toda a razão São Paulo ao dizer aos cristãos: «Todos vós fostes chamados por Jesus Cristo à verdadeira liberdade» (Gl. 5, 13). Mas, se isso nos importa e nos alegra, lembremo-nos de que o nosso resgate custou o sangue de um Deus; e, resgatados por preço tão grande, não nos aviltemos, tornando-nos novamente escravos (1Cor. 7, 23).

4. TODOS SOMOS CHAMADOS À LIBERDADE E IGUAIS DIANTE DE DEUS

«Todos vós, proclama o grande Apóstolo, sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, porque todos sois um só em Jesus Cristo» (Gl. 3, 26, 28). «Já não sois servos, mas filhos; e, se filhos, também certamente herdeiros de Deus por Jesus Cristo» (Gl. 4, 7). E aos Efésios escrevia: «Já não sois peregrinos e estrangeiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Ef. 2, 19). Nós, cristãos, pertencemos todos à cidade dos anjos, dos patriarcas e dos profetas, à casa e ao povo de Deus; somos da família do rei Messias, temos direito aos Sacramentos e a todos os bens de Jesus Cristo e dos cristãos; estamos inscritos entre os herdeiros do reino celeste… Todos temos um só e mesmo mestre e senhor no céu; e esse senhor não faz acepção de pessoas.

5. A VERDADEIRA E DURADOURA LIBERDADE ESTÁ NO CÉU

Nós, que cremos, entraremos no repouso, diz São Paulo (Hb. 4, 3). Quanta paz, alegria, repouso e liberdade gozaríeis, ó homens do mundo, se pudésseis ter a certeza de que vossas riquezas jamais sofreriam perda alguma, de que vossa fortuna nunca estaria em perigo, de que vossas forças e vossa saúde jamais padeceriam achaque ou doença! Vosso estado vos pareceria o mais feliz, o mais invejável! Quanto mais, portanto, não sereis livres e felizes, quão grande não será a dignidade e a glória de vossa liberdade, quando já não puderdes ser injustos, nem impuros, nem pecadores; quando já não puderdes perder a Deus, nem decair de vossa justiça e, por conseguinte, de vossa felicidade! Mas tal paz e tal liberdade não se encontram senão no céu.

Façamos, pois, bom uso da liberdade aqui embaixo, e a liberdade nos será dada plenamente, inteira, poderosíssima; já não poderemos estar sujeitos a servidão alguma, nem interior nem exterior, nem física nem moral; seremos eternamente livres e consagraremos eternamente nossa liberdade a amar, louvar e bendizer a liberdade, que é Deus…

6. FALSA LIBERDADE

Quando Jesus disse aos judeus que a verdade os libertaria, eles, quase ofendidos, responderam bruscamente: Porventura nós, raça de Abraão, fomos algum dia escravos? E Jesus replicou: «Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que peca é escravo do pecado» (Jo 8, 34).

Eis onde se encontra, segundo o testemunho de Jesus Cristo, a escravidão verdadeiramente espantosa: no pecado, e em nenhum outro lugar senão no pecado. «O homem virtuoso, diz Santo Agostinho (12), ainda que escravo, é livre; o malvado, porém, ainda que fosse rei, é escravo; e não escravo de um só homem, mas, o que é pior, de tantos senhores quantos são os seus vícios.» Os incrédulos, os ímpios, os pecadores, os rebeldes, os homens perversos e corrompidos, vivendo sem freio, sem lei, sem princípios, sem religião, sem consciência, sem Deus, não são livres, mas inteiramente escravos, porque foram vendidos ao pecado, segundo a expressão de São Paulo (Rm. 7, 14). Querem uma liberdade perfeita e caem em completa escravidão; por isso, sua liberdade perece justamente porque a querem excessivamente ampla. Buscando-a absoluta, destroem-na, porque, entregues a si mesmos, lançam-se cegamente a todo excesso e encontram tantos tiranos quantas são as paixões que acarinham.

O exemplo do filho pródigo atesta esta triste e terrível verdade. Aquele jovem enganado não se julga suficientemente livre na casa paterna, onde goza da abundância de tudo; dá-lhe o capricho de sair dela e procura maneira de satisfazê-lo; quer esquivar-se aos olhares e às caridosas advertências do pai, que lhe repreende com doçura as primeiras desregramentos. Parte, afasta-se e penetra numa terra distante… Encontrará ele a liberdade? Ai de mim! Quanto mais afanosamente corre atrás dela, tanto mais ela lhe escapa. Em pouco tempo, dissipa todos os seus haveres, entregando-se, com falsos amigos, ao ímpeto de suas perniciosas inclinações. Fortuna, honra, saúde, paz e alegria, tudo perde de uma só vez e cai na indigência, torturado pela fome, pela sede e pelo frio. Desprezado, abandonado por todos, vê-se obrigado a pôr-se a serviço de um senhor cruel, que o manda ao campo para cuidar de uma manada de porcos. Ali, devorado pela fome, desejaria alimentar-se das bolotas, mas não há quem lhas dê. Ó pródigo, encontraste a liberdade, a feliz liberdade? A liberdade do pródigo é a imagem da liberdade de que gozam os impudicos, os avarentos, os glutões, enfim, todos aqueles que se venderam ao pecado e carregam o jugo de ferro do demônio e das paixões.

É desses — isto é, dos ímpios, dos hereges e dos dissolutos — que fala São Pedro, quando diz que há certos homens que «prometem liberdade, enquanto eles mesmos são escravos da corrupção; pois aquele que é vencido torna-se escravo daquele que o venceu» (2Pd 2, 19). «Com efeito, diz São Cirilo, a liberdade excessiva acarreta a perda da liberdade; por isso, os governos que não reprimem a liberdade excessiva dos maus arruínam-se por causa dessa liberdade, que se transforma em licença, rebelião, injustiça e crimes» (Catech.).

Enquanto o corpo está sujeito à alma, vive; se quiser libertar-se dela, morre. Um navio que obedece ao piloto escapa do naufrágio; abandonado a si mesmo, torna-se joguete das tempestades, despedaça-se contra os rochedos e afunda-se no abismo, para nunca mais aparecer. A formiga que cria asas torna-se mais livre, porque pode voar, mas justamente então vai ao cárcere e à morte. Do mesmo modo, a liberdade dos malfeitores se torna para eles princípio de escravidão e de morte…

Os maus, não querendo depender de Deus, recusam-se a ser aquilo que deveriam ser, isto é, criaturas racionais e inteligentes, criadas por Deus e, por conseguinte, dependentes dele. Combatem dentro de si mesmos os primeiros princípios e o fundamento de seu ser; corrompem sua natural retidão, fazem-se inimigos de Deus e, por isso, atraem sobre si a sua ira. O pecador emprega sua liberdade para mover guerra contra Deus e dela se serve para transgredir todas as suas leis… Como castigo por não ter reconhecido a posse dos verdadeiros bens que lhe foram dados pelo Criador, o homem é abandonado à ilusão dos bens aparentes. Teve aversão aos prazeres do céu e torna-se joguete dos prazeres terrenos, que conduzem as almas à perdição. Não quis a liberdade recebida do Senhor e compraz-se na liberdade imaginária que lhe apresenta sua razão caprichosa e viciada.

«Somos livres», dizem os pecadores; «podemos fazer o que quisermos.» Como? Podeis fazer o que vos agrada?, responde-lhes Bossuet; eu, ao contrário, vos asseguro que não podeis fazer o que vos agrada e que, mesmo que pudésseis, nem por isso seríeis livres. Não podeis fazer o que quereis, pois não está em vosso poder impedir que vossa fortuna seja inconstante, que vossa felicidade seja frágil, que o objeto de vossos amores vos escape, que a vida vos falte no meio de vossos empreendimentos, que a morte interrompa o fio de todos os vossos projetos. Não podeis fazer o que quereis, pois não podeis impedir que vos vejais frustrados em vossas vãs pretensões: ou vós faltais a elas, ou elas vos faltam; vós faltais a elas quando não alcançais vossa meta; elas vos faltam quando, depois de a alcançardes, não encontrais nelas aquilo que buscáveis. Não podeis fazer o que mais vos toca o coração; desejais os prazeres e a felicidade, mas, ao contrário, tendes de suportar aquilo que mais vos desagrada e repugna, isto é, a justiça divina e seus castigos… Fazendo o que eu queria, confessa Santo Agostinho a seu respeito, eu chegava aonde não queria.

A falsa liberdade consiste em querer fazer a própria vontade. Essa vã aparência de independência é a liberdade de Satanás e de seus cúmplices rebeldes… Quais são os vossos sentimentos, ó pecadores cegos, quando, pretendendo ser livres, tomais como norma de conduta o vosso humor, a vossa paixão, a cólera, o vosso capricho? quando rejeitais todo freio, recalcitrais contra toda lei, não suportando nem contenção, nem repreensão, nem ensinamento, nem guia? Vós quereis a liberdade dos cavalos sem freio, dos leões, dos tigres…

O nome de liberdade é o mais doce, o mais lisonjeiro, mas é também o mais falaz, o mais enganador dos nomes. Os tumultos, as sedições, o desprezo das leis têm sempre a sua causa, ou o seu pretexto, no amor de uma liberdade mal compreendida. Não há bem natural de que os homens tanto abusem quanto da liberdade…

7. OS SANTOS EMPENHARAM-SE PELA LIBERDADE DOS HOMENS

São Epifânio, bispo de Pavia, fez, no ano de 493, uma viagem à Borgonha para resgatar os prisioneiros mantidos cativos pelo rei Gondebaldo (In Vita).

São Popão, abade de Stavelot, na terra de Liège, empenhou-se com todas as suas forças junto ao rei Henrique para obter a abolição do bárbaro costume de fazer os homens combaterem com os ursos (In Vita).

Santa Batilde, rainha da França, aboliu a escravidão. A rainha Branca e o santo rei Luís confinaram em limites muito estreitos o direito de vassalagem (In Vita).

São Pedro Nolasco e São João de Matha consagraram todos os seus bens e as suas pessoas à redenção dos escravos (In Vita). A história da Igreja e a vida dos Santos assinalam, em cada página, os esforços e os trabalhos que, em todos os tempos, os filhos de Jesus Cristo empreenderam para proporcionar aos homens a verdadeira liberdade e destruir a escravidão. Nisso brilham de modo particular os Sumos Pontífices, os quais nunca cessaram, até estes últimos dias, de fulminar toda espécie de escravidão, qualquer que seja o nome com que a cobiça humana a esconda, e de proteger toda verdadeira e sã liberdade, tanto política como civil.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.