Tesouro n.º 60 · Volume I

DEVERES DOS PAIS DOVERI DEI GENITORI

13 seções · 56 parágrafos · pp. 634–646 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. RESPONSABILIDADE DOS PAIS

Os pais devem considerar seus filhos não como propriedade deles, mas de Deus; como um depósito que o autor da vida colocou em suas mãos e confiou aos seus cuidados, para que deles forme servos fiéis para si. Sim, os filhos pertencem a Deus; pois que coisa nos pertence, se nem nós mesmos pertencemos a nós? … O Senhor diz a todos os pais, ao dar-lhes filhos:

“Tomai este menino e alimentai-o para mim; e eu vos pagarei o vosso salário” (Ex 2, 9); “Não façais coisa alguma que faça o menino sofrer, porque a vós se pedirá conta disso” (Gn 42, 22). “Guardai o vosso rapaz; se por acaso ele se perder, a vossa alma responderá pela dele” (1Rs 20, 39); “e de sua perda se pedirá conta a vós” (Ez 3, 18). Assim como os pais ocupam o lugar de Deus junto de seus filhos, certamente deverão prestar-lhe contas do cuidado que tiveram com eles e do modo como os guardaram.

2. O PRIMEIRO DEVER DOS PAIS É SEREM VIRTUOSOS

Diz-nos o Evangelho que Zacarias e Isabel, pais de São João Batista, eram ambos justos diante do Senhor, observantes exatos e prontos dos mandamentos de Deus (Lc 1, 6); e o rei profeta podia dizer de si mesmo: “Eu caminhava na inocência do meu coração no meio da minha família” (Sl C, 2).

Que belo e invejável dote é a virtude dos pais! É a maior das riquezas e a mais útil, tanto para eles como para seus filhos. A virtude deles se transmite, não menos que seus vícios, e se enraíza na alma dos filhos desde o próprio momento da concepção. Um sangue impuro produz filhos viciosos; um sangue puro dá uma prole inclinada ao bem. Numa família, o pai e a mãe devem resplandecer por suas virtudes e pela santidade de seus costumes, como o sol e a lua; e então os filhos brilharão como astros fulgurantes, e aquela casa oferecerá a imagem do firmamento e do paraíso.

Escreve a Gregório: “Deve mostrar-se sem vícios aquele que tem o ofício de corrigir os outros; um olho obscurecido pela poeira não pode distinguir claramente uma mancha nos outros membros, e como ousará uma mão suja de lama limpar uma veste enlameada? (1)”.

“Pais e mães — diz Santo Ambrósio —, vede que não podeis oferecer a medicina da correção a vossos filhos, se não preservardes e purificardes vosso coração de toda ferrugem do pecado. Começai por estabelecer a paz em vosso coração, se quereis estabelecê-la no coração dos outros. Com efeito, como podereis purificar as almas dos outros, se primeiro não purificardes a vossa? … Para que o homem tenha o direito de mandar, deve ele mesmo estar sujeito a Deus (2)”.

“Quem deseja ter o inferior submetido a si — diz Santo Agostinho — deve ele próprio depender do superior”. Pais, reconhecei a ordem: que há de mais justo e razoável do que obedecerdes vós a Deus, para que vossos filhos vos obedeçam? Que há de mais belo? Vós dependentes de Deus, e vossos filhos dependentes de vós. Servi vós àquele que vos criou, para que vosso filho, este dom de Deus, vos sirva. Se negais submissão a Deus, não vos iludais esperando encontrar em vossa família perfeita submissão a vós. Vós vos levantais contra Deus; vossos filhos se insurgirão contra vós e formarão o vosso tormento (In Psalm. CXLVII).

Ninguém sabe mandar senão quem sabe obedecer; ninguém conhece o jugo que impõe aos outros, exceto aquele que o carregou. Quereis vós, pais, saber mandar em vossos filhos? Aceitai de bom grado as ordens de Deus e cumpri-as; tendes a peito que vossa prole carregue o precioso e amável jugo de Jesus Cristo? Carregai-o vós mesmos primeiro, e sob os olhos deles”.

O filho de Tobias dizia à sua esposa: “Nós somos filhos de santos” (Tb 2, 18). Onde estão hoje os filhos que poderiam dizer o mesmo? E onde encontrar pais e mães que tenham filhos aos quais se possam repetir as palavras de Raguel ao jovem Tobias: “Sê bendito, meu rapaz, porque és filho do melhor e mais virtuoso dos pais” (Tb 7, 7)? “O Deus de Israel te abençoe, porque és filho de um excelente pai, justo, temente a Deus e generoso para com os pobres” (Tb 9, 9). Se os pais não são virtuosos, como inspirarão a seus filhos o amor à virtude? …

3. SEGUNDO DEVER; O BOM EXEMPLO

O segundo dever dos pais e das mães para com seus filhos é dar-lhes bom exemplo. Conta-se no Evangelho que, tendo um homem rico e poderoso acreditado em Jesus Cristo, também acreditou nele toda a sua casa, atraída por seu exemplo (Jo 4, 53). O menino logo segue o exemplo dos pais; assemelha-se à hera que, não podendo sustentar-se por si mesma, se enrosca na árvore ou no muro… É uma cera mole que facilmente toma a forma que lhe é dada…

O pai de família, que é o chefe da casa, deve ser seu modelo e preceder a mulher e os filhos com o bom exemplo. Os pais, com seus escândalos, causam a perdição dos filhos; imolam-nos, como diz o Salmista, ao demônio (Sl 105, 35). Dar lições de virtude e de moralidade aos filhos e, ao mesmo tempo, contradizer, com maus exemplos, as boas máximas de que se faz alarde é uma vergonha e um delito; é acariciar com uma mão e golpear com a outra. É preciso que as palavras concordem com os fatos, porque em vão se emprega a voz quando a conduta entra em conflito com as palavras…

Santo Agostinho conta de sua mãe, Mônica, que ela “regava com lágrimas e alimentava com exemplos os preceitos de vida que havia semeado no coração dele (3)”. Que efeito poderão jamais produzir na alma dos filhos os sábios conselhos e as boas advertências de um pai blasfemo, ímpio, incrédulo, colérico, beberrão; de uma mãe impudica, irreligiosa, iracunda? …

4. TERCEIRO DEVER: A ORAÇÃO

O terceiro dever dos pais é a oração, e eles o cumprem: 1° rezando por si mesmos…; 2° rezando por sua família; 3° ensinando desde cedo os filhos a rezar; mostrando-lhes a obrigação e a excelência da oração e levando-os a rezar.

5. QUARTO DEVER: A EDUCAÇÃO

A educação se refere particularmente ao coração; dar boa educação aos filhos implica, portanto, o dever de manter afastados de seu coração os vícios, de extirpar, tanto quanto possível, sua raiz, e de fazer germinar nele as boas obras, as virtudes e os conselhos evangélicos.

Os filósofos corrompidos e ímpios ensinaram, como observa Bergier, à juventude que não há Deus nem outra vida além da presente; que a religião é uma fábula; que o homem é um puro animal; que toda a moral consiste em buscar o prazer e fugir da dor. Esse curso de educação é rapidamente concluído; não são necessárias escolas nem professores para aprendê-lo; por isso, nossos jovens libertinos chegaram bem cedo a saber tanto quanto seus mestres, e ainda hoje vemos amadurecer os frutos dessa moral humana, natural, filosófica, ou melhor, animalesca, mais digna de estar nos estábulos de Epicuro do que de ressoar numa escola de educação (Dicion. teol., art. Educação).

Tudo está perdido no homem e na sociedade quando o coração dos jovens é corrompido ou mal orientado pelos pais…

Parte de toda educação deve ser a civilidade…, as boas maneiras…, a delicadeza dos modos… Os pais que não cuidam de fazer seus filhos adquirir esses bons hábitos formam pessoas sem modos, rudes, estúpidas, insuportáveis.

O primeiro fruto de uma boa educação é a alegria que ela prepara para os pais e para os filhos… O segundo é preservá-los da miséria… O terceiro é atrair sobre os pais os louvores e as honras… O quarto é dissipar a inimizade e a inveja e alegrar a amizade… O pai de um filho bem-educado morreu e, entretanto, diz o Sábio, é como se não tivesse morrido, porque deixou atrás de si alguém que se assemelha a ele (Eclo 30, 4). Eis o quinto fruto de uma boa educação. Morrendo, o pai parece ressuscitar nos filhos; estes reproduzem sua sabedoria, sua virtude, sua vida, e o tornam como que imortal… Da má educação derivam efeitos inteiramente diversos e opostos.

6. QUINTO DEVER: A INSTRUÇÃO RELIGIOSA

“Pais e mães”, diz São Paulo, “educai vossa prole na disciplina e nas instruções do Senhor” (Ef 6, 4). E já antigamente o Sábio havia dito: “Tens filhos? Instrui-os; dobra-os sob o jugo desde a infância” (Eclo 7, 25). Mas a necessidade que têm os pais de dar suficiente instrução religiosa a seus filhos demonstra claramente quanto é necessário que eles próprios sejam instruídos.

O que, antes de tudo, se deve ensinar aos filhos é a invocação do Santo Nome de Jesus, de Maria e de José, o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, os principais mistérios do Cristianismo, os Novíssimos, os Mandamentos de Deus e da Igreja, a necessidade e a utilidade da graça e da oração, os Sacramentos. Nada se deve omitir para que aprendam o catecismo inteiro, ensinando-o os próprios pais ou fazendo-o ensinar, se estiverem impossibilitados de cumprir por si mesmos esse dever.

A instrução religiosa, que se deve ministrar com zelo e cuidado desde os mais tenros anos até a primeira comunhão, não se deve depois negligenciar, mas desenvolver…

7. SEXTO DEVER: A VIGILÂNCIA

Na Gênesis, narra-se que José, tendo sido posto à frente da casa de Putifar, a governava e mantinha os olhos em tudo quanto lhe fora confiado, e que, por consideração a José, Deus fez prosperar os bens daquele egípcio (Gn 39, 4-5).

Os pais têm o dever de vigiar seus filhos:

Vigilância por parte da mãe durante o tempo de sua gravidez, para evitar todo excesso ou imprudência, tanto ao caminhar como ao trabalhar, ao carregar pesos, ao comer e beber, e ao evitar os acessos de cólera etc.

Vigilância por parte do pai, para cuidar da esposa, realizar ele mesmo ou fazer que outros realizem os trabalhos mais pesados da casa, poupá-la dos maus-tratos e de tudo quanto possa causar dano ao físico ou ao moral… Vigilância por parte de ambos, para obter padrinhos virtuosos e levar o mais depressa possível ao batismo o bebê recém-nascido.

Vigilância por parte da mãe, para amamentar ela mesma o seu filho e, se isso lhe for impossível, providenciar uma ama de bons costumes, boa reputação e boa saúde, pois é coisa reconhecida pelos médicos e comprovada pela experiência que o bebê suga com o leite da ama as doenças e as inclinações viciosas e virtuosas desta… Vigilância para não manter consigo, na cama, os filhos antes que tenham completado um ano…, para não colocar o berço em lugares úmidos ou perigosos, nem deixar os meninos sozinhos em casa… para vigiá-los ou fazê-los vigiar com modéstia e reserva.

Vigilância da parte do pai em prover o necessário tanto para o alimento quanto para o vestuário; em pensar com antecedência em colocá-los de acordo com seu grau e condição; em encaminhá-los para uma arte ou profissão conveniente ao estado da família, à inclinação e à saúde dos filhos.

Vigilância de ambos para proporcionar à prole a instrução profana adequada à sua idade e condição; para induzi-la à frequência dos sacramentos e prepará-la para a ação mais importante da vida, que é a primeira comunhão. Vigilância para incutir-lhe bons princípios, fazê-la amar desde cedo a virtude e incutir-lhe horror ao pecado… para guardá-la dos maus companheiros, da convivência e dos encontros secretos com pessoas do sexo diverso… Vigilância para mantê-los sob os olhos ao iniciarem sua entrada no mundo; para não impedir nem dificultar sua vocação quando esta for conveniente, e particularmente se for excelente.

8. SÉTIMO DEVER: A CORREÇÃO

Vós, ó pais, escrevia o grande Apóstolo aos Efésios, não provoqueis à ira os vossos filhos, mas educai-os, corrigindo-os e castigando-os segundo o espírito do Senhor (Ef 6, 4). Pois, segundo a sentença do Sábio, não é odiar, mas amar os filhos, não lhes poupar os castigos (Eclo 30, 1). Guardai-vos, porém, acrescenta o mesmo, de serdes em vossa casa como um leão, pondo tudo em desordem e oprimindo aqueles que de vós dependem (Ib. 4, 35).

Corrigi vosso filho enquanto é tempo, e, na obra de arrancar pela raiz os seus vícios nascentes, não vos detenham nem as suas lágrimas nem os seus gritos; amanhã obtereis aquilo que hoje não conseguis alcançar. Não há vício em um menino que não possa ser curado, se as correções, as repreensões e os castigos forem aplicados com prudência, serenidade e constância. Castigai, mas sem ira: seja a severidade sempre mesclada à doçura. Aquele que, ao corrigir, se deixa levar pela impaciência, nada mais faz que causar dano, dizem os Provérbios (19, 19). A ira do pai exaspera e escandaliza o filho, em vez de curá-lo. Quem corrige com ira obedece à paixão, em vez de à caridade… Feita com calma, a correção inspira respeito; feita com ira, provoca a revolta e não produz bem algum… A correção deve ser feita sem fraqueza e sem ira, quando e como for necessário…

9. OITAVO DEVER: ABENÇOAR os FILHOS

“A bênção do pai consolida a casa dos filhos, diz o Eclesiástico, e a maldição da mãe a arranca dos fundamentos” (Eclo 3, 11).

Temos admiráveis exemplos dos felizes efeitos produzidos pela bênção paterna nas bênçãos dadas por Noé a Sem e Jafé; por Abraão a Isaac; por Isaac a Jacó; por Tobias ao filho, etc.; ao passo que Cam permanece como monumento perene dos funestos resultados produzidos pela maldição paterna.

Santo Agostinho narra, a este respeito, um fato terrível ocorrido no norte da África. Uma mulher, mãe de dez filhos, amaldiçoou-os, e sua maldição se cumpriu num tremor espantoso que se apoderou dos membros daqueles filhos, os quais se puseram a vagar, pobres e miseráveis, pelas terras daquela região… Ó Deus! Quantas famílias são reduzidas às últimas consequências e se extinguem completamente em consequência da maldição de um pai ou de uma mãe…

10. CULPA DOS PAIS QUE FALTAM AOS SEUS DEVERES, E DESGRAÇAS QUE SE PREPARAM

São Paulo diz abertamente que: “Quem não cuida dos seus, sobretudo se estes pertencem à sua família, renegou a fé e é pior que um infiel” (1Tm 5, 8). Os pais indolentes, negligentes e culpados imolam, segundo a palavra do Salmista, sua prole aos demônios; por isso, a terra está infectada, profanada e contaminada por eles e pelos de sua raça (Sl 105, 35, 37).

“As mães insensatas e escandalosas geram filhos perversos”, diz a Sabedoria (III, 12). Assim é, porque os vícios da alma se transmitem à prole não menos que os defeitos do corpo. “Os filhos e os netos, lemos no quarto livro dos Reis, continuam a fazer aquilo que viram seus pais fazerem” (17, 41).

“Uma estirpe, escreve Sêneca, é sempre conforme aos seus progenitores, e o sangue que degenera nada faz senão reproduzir o primeiro tronco (4)”.

“Se não procurais fielmente o bem dos filhos, diz São Cipriano, se não providenciais à sua educação com pio e religioso afeto, sois um pai prevaricador e traidor. Se vos empenhais em deixá-los mais ricos de bens terrenos do que de virtudes celestes, em recomendá-los a Satanás em vez de a Cristo, faltai duplamente aos vossos deveres e cometeis dois delitos, porque não lhes preparais o auxílio de Deus Pai e lhes ensinais a antepor as riquezas a Cristo (5)”.

Os pais que amam carnalmente os filhos, cegos e insensatos, não ousam repreendê-los nem castigá-los e deixam-nos viver a seu bel-prazer. O que se segue daí? Os filhos tornam-se audaciosos, libertinos, briguentos, incorrigíveis; finalmente caem em enormes crimes e acabam por morrer de morte prematura e, por vezes, ignominiosa e infame. Causam aos parentes graves desgostos, vergonha e desespero. Estes últimos às vezes se arrependem, mas tarde demais, de sua excessiva negligência e fraqueza; percebem que, em vez de terem sido úteis aos filhos e de tê-los amado, trataram-nos como inimigos e os sacrificaram. Com efeito, assim como o chicote é necessário para o cavalo e o aguilhão para o boi, também é preciso usar o chicote e o aguilhão com os meninos; do contrário, tornam-se feras indomáveis e ferozes.

Acerca dos pais cegos e desgraçados, diz o profeta Joel: “Colocaram seus filhos nos bordéis e prostituíram suas filhas” (Jl 3, 3). Ah! vós não sois pais, exclama São Bernardo, mas assassinos (6). Os delitos de vossos filhos tornam-se vossos delitos, e deles dareis conta diante de Deus. Oh! quão terríveis serão os juízos do Senhor sobre aqueles pais malditos que abandonam sua prole ao vício, ao demônio e ao inferno!

11. CASTIGOS DOS PAIS INDIGNOS

“Sacrificaram seus filhos ao demônio… por isso, o furor de Deus se derramou sobre eles”, diz o Salmista (Sl 105, 35, 38). A Escritura nos diz que o Senhor visita e pune os pecados dos pais culpados em seus filhos, até a terceira e a quarta geração (Nm 14, 18).

Eli é demasiado fraco com seus filhos, descuida-se de repreendê-los e corrigi-los; e agora, o que aconteceu com ele e com seus filhos? “Eis que, diz o Senhor, farei tal coisa em Israel, que todo aquele que a ouvir terá os ouvidos tinindo. Naquele dia, farei contra Eli todas as coisas que anunciei a respeito de sua casa: começarei e acabarei. Pois lhe predisse que exerceria eternamente meus juízos sobre sua casa, por causa da iniquidade por ele cometida; ele sabia que seus filhos viviam indignamente e não os corrigiu. Por isso, jurei à casa de Eli que sua iniquidade jamais será expiada, nem com vítimas nem com oferendas (1Sm 3, 11-14).” Eli expia sua negligência com uma morte espantosa, e seus filhos são mortos; contudo, não se diz que Eli não repreendesse seus filhos, mas apenas que os admoestava com demasiada brandura e não lançava mão de remédios severos…

São infelizmente verdadeiras as terríveis palavras de Jeremias: “Tu, ó Senhor, punes as iniquidades dos pais depois deles, em seus filhos” (Jr 32, 18). Os pais indignos preparam castigos para esta vida, para a hora da morte e para a eternidade.

12. A HONRA DOS PAIS SE REFLETE NOS FILHOS E VICE-VERSA

A boa reputação adquirida pelos pais resulta em honra e recomendação para os filhos, quando estes se mostram dignos da estirpe da qual nasceram. “A glória do filho provém da honra do pai, diz o Sábio, e a vergonha do filho redunda em desonra do pai” (Eclo 3, 13).

A conduta dos filhos torna-se, por sua vez, motivo de honra ou de desdouro para seus pais: “Os filhos de seus filhos são a coroa dos anciãos, lemos nos Provérbios; e os pais são a glória dos filhos” (Pr 17, 6). “O filho indisciplinado causa vergonha ao pai” (Eclo 22, 3).

Os filhos educados religiosamente constituem a felicidade, a alegria e a consolação de seus pais. São respeitosos, afáveis, corteses, cheios de bondade e doçura… Perpetuam, de geração em geração, a boa reputação de que sua casa goza há longo tempo; uma família assim se mantém firme; dos pais aos filhos e destes aos netos, não cessa de ser um modelo de justiça, sensatez e virtude; é, numa palavra, a casa abençoada por Deus e pelos homens. Famílias assim despertam a admiração do mundo de geração em geração… São um tesouro nacional e quase o para-raios que preserva o povo ao qual pertencem da irrupção da maldição de Deus. Famílias afortunadas! unidas e em paz sobre a terra, vão unir-se, de geração em geração, no seio de Deus, onde o pai e o filho se abençoarão mutuamente e bendirão a Deus para sempre.

13. MODELOS DE PAIS

Viúva aos vinte anos, Antura, mãe de São João Crisóstomo, não quis contrair segundas núpcias, para consagrar-se inteiramente à educação cristã dos filhos. Foi verdadeiramente digna do sagrado nome de mãe, a tal ponto que os próprios pagãos não podiam deixar de admirar suas virtudes; e ouviu-se um renomado filósofo deles exclamar a seu respeito: “Que mulheres extraordinárias encontram-se entre os cristãos!” (In Vita).

Eucrazia, mãe de São Tarásio, quis ela mesma formar seu filho na prática da religião, e conseguiu-o de modo excelente. Em suas lições insistia sobretudo na fuga das más companhias (In Vita).

Consumado o martírio dos quarenta confessores de Sebaste, o juiz ordenou que seus corpos fossem carregados sobre um carro e levados à fogueira. Todos estavam mortos; somente o mais jovem, chamado Melitone, foi encontrado vivo, e os carrascos deixaram-no de lado, esperando ainda fazê-lo renegar a fé. Tendo percebido isso a mãe do jovem, que ali assistia, não permitiu que se usasse para com seu filho aquela falsa piedade; mas, aproximando-se dele, encorajou-o à perseverança, tomou-o nos braços e ela mesma o levou com os outros sobre o carro; e, seguindo-o, não cessava de repetir-lhe pelo caminho: “Vai, meu filho, termina com teus companheiros a feliz viagem que empreendestes juntos, para que não aconteça que chegues por último a Deus” (Vite dei Santi).

Santa Mônica, mãe do grande Santo Agostinho, jamais cessava de chorar pelos descaminhos de seu filho e rezava continuamente por ele, de modo que um bispo, com quem ela falou sobre aquela sua angústia interior, disse-lhe: “Ide, não vos canseis de fazer o que fazeis; é impossível que se perca o filho de tantas lágrimas” (Ivi).

A mãe de São Bernardo dedicou extraordinário cuidado à educação dos filhos; infundia em todos vivos sentimentos de piedade e, por temor de que, confiando-os a mãos estranhas, recebessem alguma má impressão, quis amamentá-los todos ela mesma; e foi recompensada por Deus segundo seus desejos, pois viu seus sete filhos todos consagrados ao Senhor em uma ordem religiosa (Ivi).

Também a rainha Branca quis amamentar e educar ela mesma seu filho, que foi Luís IX. Desde o berço, ela lhe inspirara grande respeito pelas coisas santas, vivos sentimentos de piedade e zelo e extraordinário amor pela castidade. “Eu certamente te amo”, costumava dizer-lhe na infância; “sim, amo-te com toda a ternura de que é capaz o coração de uma mãe, mas, em vez de saber que caíste em pecado mortal, preferiria ver-te cair morto a meus pés.” Essas palavras causaram impressão tão profunda na alma de Luís, que ele mesmo confessou várias vezes nunca as ter esquecido; ao contrário, trazia-as à memória todos os dias, para se precaver contra os incentivos do pecado. Mais tarde, encontrando-se à morte, dizia a seu filho Filipe: “A primeira coisa que te recomendo, meu filho, é que ames a Deus de todo o coração e estejas disposto a sofrer qualquer tormento antes que pecar mortalmente. Se Deus te enviar adversidades, suporta-as em paz e com alegria, pensando que bem convêm às tuas culpas. Confessa-te com frequência, ouve com devoção a missa, sê caritativo e bondoso para com os pobres. Conserva os bons costumes do teu reino e corrige os maus; não sobrecarregues o povo com tributos, cerca-te de homens prudentes e conscienciosos; ouve a palavra de Deus e conserva-a em teu coração; ninguém ouse proferir em tua presença palavras indecorosas ou mordazes. Agradece frequentemente a Deus; sê justo para com todos; honra o sacerdócio; respeita teus pais. Empenha-te em tirar o pecado da terra. Meu querido filho, dou-te todas as bênçãos que um bom pai pode dar a seu filho” (Storia di Francia).

A mãe de São Francisco de Sales, extremamente atenta a afastar dele qualquer sombra de vício, nunca o perdia de vista. Levava-o à igreja e inspirava-lhe profundo respeito pela casa de Deus e por tudo o que se refere à religião; lia-lhe as vidas dos santos, enriquecendo-as com reflexões adequadas à idade do menino. Queria, além disso, que ele a acompanhasse em suas visitas aos enfermos, que lhes prestasse os pequenos serviços de que era capaz e fosse o distribuidor de suas esmolas; tudo isso acontecia antes que o santo completasse dez anos. Quando chegou, porém, a hora de o jovem se afastar de seu lado, para ir ao estrangeiro completar sua educação, a condessa redobrou o zelo para firmá-lo na virtude; recomendava-lhe sobretudo o amor a Deus e à oração, a fuga do pecado e das ocasiões pecaminosas. Repetia-lhe frequentemente aquelas palavras da rainha Branca a seu filho Luís: “Meu filho, eu preferiria ver-te morto a saber que caíste em pecado mortal” (In Vita).

Santa Joana Francisca de Chantal não tinha nada mais a peito que a educação dos filhos e velava atentamente por sua inocência. A única graça que pedia a Deus por eles era que vivessem sempre de modo a merecer um lugar no céu. Tratava os empregados como irmãos e irmãs e como seus futuros coerdeiros no reino celeste. Daí provinha nela aquele zelo que a levava a empenhar-se inteiramente para que trabalhassem pela própria salvação (In Vita).

A venerável Ringarda, viúva, considerou sempre a educação dos filhos como seu primeiro dever. Pedia incessantemente a Deus por eles as graças de que necessitassem; vigiava com a máxima atenção para prevenir até mesmo os primeiros movimentos das paixões nascentes, de modo que sua virtude parecia natural. Acostumava-os à temperança, à mortificação e à penitência, vestindo-os com simplicidade e educando-os segundo as regras da mais exata sobriedade. Seus exemplos davam força às suas instruções (In Vita).

Santo Agostinho, em suas Confissões, acusa-se de faltas que observava nos meninos, os quais, embora tão tenros, são contudo capazes de ciúme, cólera e vingança. Com efeito, veem-se crianças que, choramingando, pedem aquilo que lhes faria mal e que, quando o choro não basta, enfurecem-se contra os superiores, querendo submetê-los aos próprios caprichos, e manifestam muito cedo sentimentos de orgulho, vaidade etc. Por isso, todo homem sensato censurará, com Santo Agostinho, o costume já tão generalizado de desculpar, sob o pretexto da fraqueza da idade, aquilo que há de repreensível nos atos e nas inclinações dos meninos. Daí resulta que uma complacência excessiva deixa criar raízes nesses hábitos, que depois se tornam culposos quando começam a ter o uso da razão; ao passo que não há idade mais capaz que essa de alguma correção sensível e corporal, a qual, se aplicada oportunamente, sufocará no germe as primeiras paixõezinhas.

Os primeiros princípios da educação têm grande poder sobre toda a vida, e é coisa facílima para aqueles que, desde a infância, foram formados na virtude seguir constantemente, como norma de sua conduta, as máximas do Evangelho. As primeiras impressões tornam-se, depois, poderosíssimas, se forem ajudadas e corrigidas pelos cuidados e exemplos de pais piedosos. Todo o desenvolvimento da vida depende das ideias insinuadas nas crianças, dos sentimentos nelas inspirados e dos costumes a que foram habituadas desde seus mais tenros anos. Importa muito mais do que geralmente se pensa acostumá-las então a pequenos sacrifícios, fazê-las perceber os perigos dos prazeres dos sentidos, adverti-las contra suas impressões; mostrar-lhes que tais prazeres enfraquecem a força da alma; convencê-las, em suma, de que é muito mais fácil dominar as paixões quando surgem do que mais tarde, e que imensa fadiga terá de suportar para refreá-las aquele que não soube ou não quis subjugá-las assim que nasceram. É preciso persuadi-las bem de que, na juventude, a obstinação, a teimosia, o desamor ao trabalho e o amor aos prazeres são as inclinações mais perigosas.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.