Tesouro n.º 39 · Volume I

CORREÇÃO CORREZIONE

7 seções · 65 parágrafos · pp. 438–452 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A CORREÇÃO É NECESSÁRIA

“O ímpio morrerá, lemos nos Provérbios, e será sepultado sob o peso de sua insensatez, porque não recebeu a correção, e quem a despreza não pode deixar de errar” (Pr 5,23; 10,17). Lembrem-se destas palavras da Escritura os superiores, os pregadores, os pais, os senhores, as senhoras, e não sejam tardios em cumprir o dever da correção. Não queiram pertencer àqueles dos quais Deus se queixa quando diz: “Desprezastes a repreensão” (Pr 1,25).

É cruel, diz São João Clímaco, aquele que arranca das mãos de um menino faminto o pão; mas quem é obrigado a corrigir os outros e não o faz fere a si mesmo e prejudica aquele que deixou de corrigir; cai em três culpas que devia evitar: 1° priva-se da recompensa que teria recebido se houvesse cumprido o dever da correção; 2° escandaliza aqueles que são testemunhas de sua negligência; 3° prejudica aqueles que tinha o dever de repreender. Por mais fértil que seja um terreno, se não for cultivado, será invadido por toda espécie de erva daninha (Grad. IV de Obed.).

“Quem não ousa usar a vara odeia seu filho; ama-o, ao contrário, aquele que se empenha em corrigi-lo” (Pr 13,24). Quem ama? pergunta São Jerônimo: aquele que é diligente em corrigir (1).

“Aquele que, por medo de afligir, não corrige seu filho caído em falta parece agir assim por grande ternura, mas, na verdade, não o ama sinceramente; antes, odeia-o, porque faz com que seu filho se torne indolente, preguiçoso, insolente, rebelde; em uma palavra, torna-o tal que em breve se verá obrigado a odiá-lo. A indulgência excessiva dos parentes torna viciosos os filhos; mas quem os ama com verdadeiro amor repreende-os sem se cansar, forma-os, corrige-os e, quando necessário, empunha a vara, para sufocar em seu coração os vícios e fazer nascer e germinar nele as virtudes.

“A insensatez é inerente ao coração do menino, sentenciam os Provérbios; a vara e a correção a arrancarão dele” (Pr 22,15).

Essa insensatez é a puerilidade, a leviandade, a petulância, a preguiça, a dissipação, a irreflexão, a inexperiência, a imprudência, a inconstância, a rudeza, a despreocupação: todas essas misérias são inatas no jovem; e devem ser tratadas, curadas e extirpadas com advertências, repreensões e correções.

Ouvi ainda as lições do Sábio: “Não poupeis o castigo ao menino, porque, se o ferirdes com a vara, ele não morrerá, e livrareis a sua alma dos abismos nos quais seria precipitado pelas paixões” (Pr 23, 13-14).

A correção é para o jovem como o freio para o cavalo e o aguilhão para o boi… Os pais demasiado indulgentes com os filhos são os seus mais cruéis inimigos; poupam-nos, é verdade, ao castigo corporal, mas os expõem aos suplícios do inferno. Se, portanto, ó pais e mães, amais verdadeiramente os vossos filhos, aplicai-lhes, quando necessário, a correção e o castigo, por temor de que acabem por cair no inferno; não lhes poupareis a correção sem expô-los e condená-los ao inferno. Escolhei.

Estamos bem persuadidos de que a salvação e a felicidade dos filhos dependem da boa educação e da justa severidade dos pais. Ao contrário, uma educação demasiado livre e a negligência da correção são o princípio da má conduta e da perdição dos filhos; eles caem em excessos e delitos que os conduzem à sua infelicidade eterna. Quantos filhos amaldiçoam no inferno os seus pais e lhes praguejarão por toda a eternidade, porque foram causa da sua condenação, ao fecharem os olhos e negligenciarem corrigi-los e castigá-los a tempo!

É fácil explicar o ódio desses desgraçados: pois semelhantes pais deram-lhes não a vida, mas a morte; não o céu, mas o inferno; não a felicidade, mas uma desgraça interminável e imensa. O jovem conserva até a velhice e a morte os costumes da sua infância e juventude, segundo aquela sentença da Escritura: “O menino, uma vez tomado o seu caminho, dele não se afastará nem mesmo quando envelhecer” (Pr 22, 6). A árvore que desde cedo toma uma má inclinação conserva-a até ser cortada e lançada ao fogo.

O médico que amarra o louco furioso e o pai que castiga o filho vicioso e indisciplinado tornam-se insuportáveis para eles, diz Santo Agostinho, mas ambos agem por afeição. Se, porém, o pai ou o médico os deixam demasiado livres, tornam-se causa da sua morte: tal conduta não deve ser louvada como boa, mas deve ser censurada como crueldade. Não se deixam de lado o cavalo e a mula, seres privados de razão que resistem com os dentes e os pés àquele que os amarra e atrela para domá-los ou curá-los; mas continua-se até que, com o auxílio do açoite ou dos remédios, se tenha alcançado o objetivo visado. Quanto mais, portanto, e com muito maior razão, o homem não deve abandonar o homem, o irmão ao irmão, o pai ao filho, o senhor ao servo, o superior ao inferior, nem deixá-los perecer eternamente! Mais tarde compreenderão estes o bem infinito que lhes foi proporcionado quando, sem dar atenção aos seus lamentos, lhes era infligida uma salutar correção (Epist. I ad Bonif.).

“A vara e a correção inspiram o bom senso, dizem os Provérbios; mas o menino abandonado aos seus caprichos cobrirá de infâmia a sua mãe” (29, 15).

A impunidade, diz São Bernardo, filha da incúria, torna-se mãe da insolência, origem da impudência, nutriz da desobediência (2)”.

“Um cavalo indomado, diz a Escritura, torna-se indomável, e o menino deixado a si mesmo torna-se temerário. Afagai o vosso filho, e ele vos encherá de espanto; fazei-lhe agrados, e ele vos retribuirá com desgostos. Não brinqueis com ele, para que depois não tenhais de chorar e ranger os dentes. Não o deixeis senhor de si mesmo e não negligencieis os seus pensamentos.

Curvai-lhe a cabeça enquanto é jovem e castigai-o enquanto é menino, para que não se endureça e deixe de vos obedecer, o que será dor para a vossa alma. Instruí o vosso filho e esforçai-vos por ele, para não incorrerdes nas suas desonras” (Eclo 30, 8-13).

Ai de vós se negligenciardes corrigir os vossos filhos; eles precipitar-se-ão no abismo de todas as desordens, entregar-se-ão a todo vício… Espantoso é o que narra São Gregório acerca de um menino de cinco anos que, tendo-se entregue à blasfêmia, sem que o pai o repreendesse e castigasse, foi um dia agarrado pelo demônio e, arrancado à força dos braços paternos, precipitado no inferno.

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA CORREÇÃO

A correção é o caminho da vida, tanto para quem a faz como para quem a recebe… A correção, diz Clemente de Alexandria, é um remédio que cura as perigosas afecções da alma; é um bálsamo que cicatriza as velhas chagas. Lava as manchas da vida impura e licenciosa; corta e queima os tumores da ostentação, do orgulho e da carne. É o verdadeiro regime da alma enferma: indica-lhe o que deve fazer e preserva-a daquilo que lhe é nocivo. Quem faz a correção dá sinal de benevolência, não de ódio (Paedag. lib. 1, c. V).

“As correções, diz São Gregório Nazianzeno, são a via régia do céu (3)”.

A correção é a guardiã da esperança, a guia que conduz à vida, a senhora da virtude. Ela proporciona ao homem o cumprimento das promessas celestes e as recompensas eternas. Devemos aceitá-la para nossa salvação e para nos afastarmos do pecado; pois o Salmista diz que tiramos proveito da correção para manter longe a cólera de Deus e o perigo de nossa perdição (Sl 2, 12).

A correção é um sal que preserva o coração da corrupção… O joeirador separa o grão da palha, a peneira separa o trigo do joio; a correção é, ao mesmo tempo, uma peneira e um joeirador; quando dela se faz uso, conserva a virtude e rejeita o vício. As repreensões e os castigos refreiam as tentações do demônio, do mundo e da concupiscência, ajudam-nos a vencê-las… Hugo de São Vítor diz muito bem que a correção detém os maus desejos, derruba o orgulho, doma a intemperança, reprime as paixões da carne, destrói a leviandade, refreia as más tendências do espírito e do coração (Instit. monast. ad Novit.).

“Também Deus, escreve São Paulo, castiga aqueles que ama e prova com varas aqueles que quer admitir entre os seus filhos” (Hb 12,6); e o próprio Senhor declarou no Apocalipse: “Eu corrijo e castigo todos aqueles que amo” (3,19). Por isso, quando o Senhor já não castiga os pecadores, dá-lhes um grande e terrível sinal de sua vingança; ao passo que, quando os castiga, dá-lhes a maior e mais segura prova de seu amor; segundo as palavras do profeta: “Vós, ó Senhor, fostes propício para com eles, porque os castigastes” (Sl 98, 8), e segundo estas outras do Livro dos Macabeus: “Sinal de grande amor e misericórdia é não permitir que o malvado viva por longo tempo segundo os seus caprichos, mas castigá-lo assim que se tenha desviado” (6, 13).

Se poupardes a correção, vosso filho se tornará mau e inútil; se a empregardes, ele se emendará. A juventude é como a argila que se molda como se quer… A correção é o sumo bem da alma: ilumina-a, purifica-a, embeleza-a, adorna-a com todas as virtudes e a torna perfeita. Quem não dá atenção às advertências e às correções não ama a si mesmo; antes, odeia-se, assim como o enfermo que recusa o médico e os remédios demonstra não fazer caso da própria saúde. A correção faz ao menino e ao homem inclinado ao vício aquilo que o arado faz ao campo, a pá e o sacho ao jardim, a lima ao ferro, o crisol ao ouro, o freio e a espora ao cavalo, a peneira ao trigo, a quina à febre… A repreensão e a correção são obras de misericórdia, uma esmola espiritual, o indício de um amor e de uma amizade sinceros…

“Uma correção feita nos devidos tempos e modos é parte da regra, escreve São Bernardo: ela não somente serve para manter firmes no caminho do bem aqueles que por ele caminham, mas também para reconduzir a ele os que dele se desviaram; fornece matéria à obediência e oferece um remédio aos desobedientes; impede que se abandone a regra pelo pecado (4)”.

A correção preserva da morte espiritual e do inferno, liberta do pecado, previne a queda, salva da condenação: finalmente, detém os jovens e os inferiores diante dos erros e precipícios em que cairiam se fossem deixados por seus parentes e superiores à mercê de uma liberdade perigosa e enganadora e nos braços da concupiscência.

Deus corrige por meio das provações e tribulações. As adversidades são os remédios que Deus, em seu amor, emprega para nos curar, para nos desapegar da carne, do mundo e do pecado, para nos atrair ao caminho do espírito e das virtudes e para nos conduzir a si; pois a carne, o mundo e o demônio nos enganam, cegam-nos e nos perdem, conquistando-nos com as doçuras pestilentas dos prazeres. Por isso, o Crisóstomo nos apresenta Deus, para dissipar as seduções da serpente, enviando castigos sobre Adão: Deus é um amigo, diz ele, e o demônio, um inimigo; Deus é nosso salvador e cuida de nós paternalmente; o demônio é nosso inimigo e sedutor do homem. O demônio quis apoderar-se de Adão, fazendo-lhe carícias; Deus voltou-se para Adão com repreensões e correções. Mas de que modo Satanás procurou seduzir o homem e como Deus, por sua vez, o castigou? Satanás disse: “Vós sereis como deuses” — Deus, ao contrário, sentenciou: “Tu és terra e à terra retornarás” — Qual dos dois foi mais útil ao nosso primeiro pai? Aquele que disse: Sereis quase deuses; ou aquele que o repreendeu: És pó, e ao pó hás de retornar? Deus inflige a morte, a serpente promete a imortalidade; mas aquele que promete a imortalidade expulsa do paraíso, enquanto aquele que inflige a morte conduz ao céu. Vede, pois, quão preciosas são as repreensões de um amigo e quão perigosas e nocivas as adulações de um inimigo! Este exemplo nos mostra que devemos ser gratos àqueles que nos repreendem ou corrigem. Somente os verdadeiros amigos usam de repreensões e castigos (De reprehens.).

Portanto, falem os pregadores com força contra os vícios, e nunca os acariciem; façam o mesmo os pais e os superiores para com seus subordinados… Aqueles que usam a vara golpeiam santa e utilissimamente ferem; pois de tais feridas sai do coração a corrupção e nele entra uma saúde pronta e florescente. Os pecadores devem desejar esses golpes que os curam, santificam e salvam. É muito melhor ser castigado por verdadeiros amigos do que ser arrastado ao inferno por cruéis aduladores.

“A vara e a correção dão sabedoria, dizem os Provérbios; e aquele que repreende um homem ser-lhe-á depois mais agradável do que aquele que o engana com a adulação” (29,15; 28,23). E Jeremias dizia ao Senhor: “Vós me castigastes, e eu fui corrigido como um novilho indomável” (Jr 31, 18).

A correção é um espelho no qual percebemos as manchas que nos desfiguram; assim, podemos removê-las; é um conjunto de remédios que cura a alma e a torna bela; quem a recusa foge de sua cura. Eis por que São Bernardo diz: “Perversidade incrível! Irar-se contra quem nos cura, beijar quem nos flecha! (5)”.

“Sinal de benevolência, não de ódio, é a repreensão, diz Clemente de Alexandria; tanto o amigo como o inimigo nos humilham; mas este, por escárnio, aquele, por benevolência (6)”.

3. COMO SE DEVEM FAZER AS CORREÇÕES

Conta-se no II livro dos Reis (2Sm 8,2) que Davi derrotou os moabitas e, depois de estendê-los por terra, mediu-os com uma corda; e, de duas cordas de medida, uma os conduzia à morte, a outra à vida. Assim deve proceder quem corrige, isto é, fazê-lo com medida, peso e justiça; deve dividir a correção em duas partes e aplicá-la de dois modos, com severidade e doçura; é preciso que mate o pecado e faça reviver a virtude.

Saibam aqueles a quem compete corrigir e castigar que devem ser severos e dóceis ao mesmo tempo: unir a força à bondade, e a bondade à energia. Sem isso não se corrige: as doenças graves só se curam com o ferro e o fogo… Ouvi São Gregório: Onde houver a vara da correção, haja também o maná da doçura; por isso o real profeta diz: “Senhor, a vossa vara e o vosso cajado me consolaram”. — A vara nos fustiga; o cajado nos conduz. Seja, portanto, a correção temperada de amor e de severidade, mas de um amor não frouxo, de uma severidade não repulsiva; seja animada pelo zelo e pela piedade, mas por um zelo sábio e moderado, por uma piedade não demasiado indulgente, para que, mesclando a justiça e a clemência, aquele que é obrigado a repreender e corrigir derrame no coração dos repreendidos a doçura e o temor: para que, com este, obtenha a obediência; com aquela, conquiste o amor (Pastor. c. VI).

O golpe da vara não deve ser um golpe de espada ou de punhal que mata, mas um golpe de disciplina, que cura os vícios, segundo aquele dito do Deuteronômio: “Eu firo e curo” (32,39). Uma educação sábia e severa forma filhos robustos e vigorosos; faz que vivam longo tempo em perfeita saúde; ao contrário, uma educação demasiado mole e relaxada torna os filhos fracos e enfermos; eles morrem bem cedo, como demonstra a experiência,

Nós vestimos, aquecemos, servimos, acariciamos, dispensamos todo cuidado e amamos com todo afeto os nossos filhos, diz Santo Ambrósio; cuidemos, portanto, para não lhes fazer mal, para não matá-los com uma educação ou efeminada ou bárbara (Serm.).

Tratai e governa i, como médico hábil e bom, os jovens e os pecadores, servindo-vos dos remédios apropriados à necessidade de cada um; empregai não somente o ferro e o fogo, mas também as bandagens, os fios, os refrigérios espirituais, enfim, tudo aquilo que possa contribuir para purgar e fechar a ferida, mitigar as dores e aliviar o enfermo. Se a ferida for profunda, derramai nela um bálsamo cicatrizante; se estiver purulenta, limpai-a delicadamente; se a chaga se agravar, cauterizai-a com as ameaças dos juízos divinos; se se estender, detende-a com o jejum e a mortificação. As correções devem ter por fim a destruição do pecado e o progresso da virtude; os golpes devem atingir o vício para detê-lo, não ferir a reputação, nem ser acompanhados de injúrias, de ignorância e de ultrajes; pois, agindo assim, não se curam as feridas antigas, mas abrem-se novas.

A benevolência acalma a cólera, observa Santo Ambrósio, faz que a correção seja recebida com fruto, como precioso dom, e, longe de transformar em inimigo aquele que a recebe, converte-o em amigo. Assim aplicada, a correção corta, perfura, purga, mas sem dor. A repreensão severa, é verdade, põe a culpa a descoberto; mas, se a ela se unir a doçura, o enfermo aceita o remédio sem demasiada repugnância, e a amargura do mesmo lhe é agradável (Offic. lib. 1, c. 34).

Do beijo de Judas, escreve o Crisóstomo, destila veneno; do castigo aplicado por São Paulo ao incestuoso de Corinto provém a salvação deste (De reprehens. ferend.).

Não se devem chamar amigos todos aqueles que poupam, nem inimigos todos os que castigam, diz Santo Agostinho; é mais útil amar com severidade do que enganar com doçura. Quem acorrenta um frenético, ou quem desperta um letárgico, certamente faz algo desagradável ao enfermo, e, contudo, ama-o. Haverá alguém que nos ame mais do que Deus? E, entretanto, ele nunca deixa de nos admoestar com bondade, nem de nos ameaçar e aterrorizar para nosso proveito. À doçura com que tempera as consolações, une frequentemente a amargura da tribulação. Quanto a mim, prefiro ser curado com uma repreensão misericordiosa a ser enganado e pervertido com inoportunas lisonjas; são muito mais preciosas as feridas que nos inflige um amigo valente do que os afagos e beijos de um inimigo (Ep. 48, ad Vin.).

A correção 1° deve ter por princípio a caridade, não a má disposição; a compaixão, não o desprezo e a cólera. Cuide aquele que corrige de não se comportar como um inimigo, mas como um médico junto de uma doença inveterada e desejoso de curar o enfermo… “Sejam as advertências e as repreensões”, diz Santo Agostinho, “sem aspereza e sem injúrias (7)”. Porque “é preciso corrigir com humildade e compaixão (8)”. 2° A correção deve ser temperada de doçura; quem corrige deve conservar um rosto agradável e sereno, usar palavras benévolas e insinuantes… 3° Finalmente, deve ser feita no tempo oportuno, quando e como convém, e proporcionada à culpa…

“Admoestar e deixar-se admoestar é próprio da verdadeira amizade”, sentencia Santo Isidoro de Pelúsio (9); e Santo Agostinho assim nos exorta: “Não sejais negligentes em corrigir os vossos filhos, servos ou subordinados; adverti-os, instruí-os, exortai-os, ameaçai-os; mas, sobretudo, repreendei-os com severidade, segundo o ensinamento de São Paulo, e obrigai-os a emendar-se. Mas, ao cumprirdes este sagrado dever, guardai-vos de vos ensoberbecer (10)”.

Quem corrige tenha em mente que exerce a função de um anjo e que, por consequência, deve comportar-se como um anjo, sem cólera e sem paixão, com sinceridade, calma, modéstia e bondade, mostrando entranhas de caridade e de compaixão.

4. DE QUE MODO SE FAZEM AS CORREÇÕES POR HÁBITO

Quereis saber qual espírito vos guia quando fazeis uma correção? Observai como vos comportais: fazei-a com doçura ou com dureza? Com bondade ou com severidade excessiva? Com benevolência ou com ódio? Com modéstia ou com ira? Se encontrardes em vós as primeiras disposições, isto é, a doçura, a bondade, a benevolência e a modéstia, então tende por certo que é o espírito de Deus que vos move; se, ao contrário, encontrardes em vós as segundas, isto é, a dureza, a rigidez, a cólera e o ódio, sabei que sois joguete do espírito do demônio. “O insensato corrige com altivez”, dizem os Provérbios (14, 3). A correção imperiosa, diz Hugo de São Vítor, provém do tolo; obra do sábio é a correção temperada de doçura e mansidão (Institut. monast. ad Novit.).

O orgulho nos leva a injuriar e a desprezar também quando se castiga… Os orgulhosos, como já observava São Gregório, corrigem com altivez e impetuosidade, nunca com bondade: sabem bater rigorosamente, mas não sabem compadecer-se (Pastor.). Valem mais, diz Orígenes, para ofender os seus inferiores do que para melhorá-los, segundo o dito de Salomão: “Na boca do insensato está a vara da soberba”; pois, ao repreender, agem com paixão e estultícia (Homil.).

O fim da correção deve ser extirpar o vício e enxertar a virtude; não deve, portanto, ser ditada pela cólera, nem temperada com palavras mordazes ou epítetos injuriosos. Ora, quase todas as correções têm tais defeitos. Vós corrigis para tornar melhores os outros; por que, então, não vos repreendeis a vós mesmos, que vos tornais piores? Acaso, com o escândalo, libertareis o próximo de seus defeitos? Ah! Quantos se dão ao trabalho de repreender, quando eles próprios necessitariam de correção! Quanto àqueles que, por sua condição, estão obrigados a corrigir, é seu sagrado dever mostrar-se exemplo de toda virtude. Nas correções, muitas vezes se procede sem discernimento; pune-se com severidade uma falta leve e com indulgência uma falta grave: cala-se quando se deveria elevar a voz e grita-se quando se deveria calar… Por isso, dá-se escândalo em vez de bom exemplo… E queira Deus que não haja pais que, às repreensões e aos castigos, acrescentem blasfêmias, imprecações, maldições e, às vezes, até golpes perigosos. É este o modo, ó parentes culpados e indignos desse nome, com que deveis advertir, censurar e punir vossos filhos? … Vós vos queixais de que eles vos faltam com o respeito e vos desobedecem; mas como quereis que tais correções os tornem melhores? Elas são antes feitas para torná-los piores.

5. DEVE-SE TIRAR PROVEITO DAS CORREÇÕES

“Acolhei, dizia São João Clímaco, todos os dias as repreensões, como água que dá vida (11).” “Acolhei as minhas repreensões, diz Deus; eis que vos comunicarei o meu espírito e vos farei conhecer a minha doutrina” (Pr 1,23). “Quem inclina dócil ouvido às repreensões, fonte de vida, sentar-se-á entre os sábios” (Ib. 15,31), “e possuirá o seu coração” (Ib. 15,32). Ele domina o próprio coração e também o coração daquele que o repreende e corrige. É senhor de seu coração, governa-o e não o deixa abandonar-se aos vícios, mas mantém-no longe deles e o acostuma a praticar a virtude. Possui o seu coração por meio da humildade, da doçura, da paciência e da obediência: diz-se que a correção é uma obra de misericórdia, uma esmola feita à alma, um remédio eficaz, um sinal de caridade e de terna afeição…

Entretanto, não possui e governa somente o próprio coração aquele que escuta e põe em prática as correções, mas ganha e possui também o coração dos outros… Os céus não têm inteligência, mas deixam-se mover e dirigir por uma mão inteligente, donde provém o bem do universo. Assim deve ser com os jovens, com os inferiores e com todos os que carecem de experiência; se têm bom senso e consciência, deixam-se governar, instruir e dirigir por um homem sábio, por alguém que lhes seja superior; então aprendem dele a sabedoria que jamais teriam chegado a adquirir por si mesmos e realizam todas as suas obras com regra, peso e medida.

Além de possuir o próprio coração e o coração dos outros, aquele que ama ser corrigido e tira proveito da correção possui também o próprio coração de Deus…

Contentar-se em ser advertido, repreendido e castigado, granjear as boas graças daquele que, por dever ou por caridade, dá esses avisos, e conformar-se a eles, é amar o próprio bem, porque assim se aprende a detestar os vícios, a combatê-los e evitá-los, a prezar as virtudes, a esforçar-se por adquiri-las e praticá-las, a conhecer, servir, amar e adorar a Deus: e assim se chega a assegurar, aqui na terra, a graça e, no céu, a glória…

6. COMO SE DEVEM RECEBER AS CORREÇÕES

Sabei que aquele que vos repreende e corrige de vossos defeitos, erros ou vícios é um anjo enviado do céu, um ministro que vos anuncia a vontade de Deus e que desprende a vossa alma da terra. Sabei que tudo quanto ele faz é de preço infinito para vós e, por conseguinte, tendes a obrigação de recebê-lo com respeito, amor e gratidão. Lembrai-vos de que é um anjo aquele que vos corrige e de que Deus lhe impõe esse rigoroso dever; agradecei-lhe, portanto, como fazia Santo Carlos Borromeu, à imitação de Santo Ambrósio.

“Assim como um enfermo em perigo de sua saúde escuta e observa tudo quanto ordena o médico, por mais duro e penoso que lhe pareça o método do tratamento, assim, diz São Basílio, aquele que é humilde e deseja verdadeiramente a salvação da própria alma escuta e pratica, não somente sem dificuldade, mas com alegria, a correção, ainda que amarga e cortante (12).

Que coisa boa é arrepender-se quando se recebe uma repreensão! Diz o Eclesiástico, porque assim se evita o pecado voluntário” (20,4).

Aqueles que recebem as correções, as repreensões e os conselhos com humildade, paciência, gratidão e amor comparecerão ao tribunal de Deus, diante de todo o universo, resplandecentes de beleza e semelhantes aos mártires; pois diz Santo Agostinho que suportar alegremente aquele que nos repreende é certo gênero, e não desonroso, de martírio (13).

Recebei as repreensões com gratidão e alegria: 1° porque, fazendo assim, honrareis a Deus e lhe oferecereis um sacrifício agradável; 2° porque imitareis Jesus Cristo, o qual disse de si mesmo pela boca do Salmista: “Eu sou um verme da terra e não um homem, o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe” (Sl 21,6); 3° porque, humilhando-vos profundamente e suportando com paciência, saireis vitoriosos de vós mesmos, o que é a mais bela, gloriosa e importante das vitórias; 4° porque a correção é uma graça assinalada de Deus… 5° porque assegurareis a vossa salvação… 6° porque aceitar alegres e gratos a correção denota alto grau de perfeição… 7° porque vos livrareis das penas do inferno… 8° finalmente, porque dareis aos outros o exemplo de uma vida heroica. Alegrai-vos, portanto, e exultai se vos couberem repreensões, correções e castigos.

Aquele, porém, que não quer ser repreendido e corrigido ofende a Deus, perde toda semelhança com Jesus Cristo, é um orgulhoso, uma cópia do demônio, e vai de mal a pior; amaldiçoado por Deus, perde quanto possuía de virtuoso, dá grande escândalo e prepara para si o inferno. “Quem quer agir, diz a Escritura, confiando apenas nas próprias luzes, procede como um ímpio” (Pr 12,2).

Deve-se sempre aceitar humildemente a correção e também amá-la e desejá-la, porque ela melhora a conduta daquele que a recebe e o faz progredir em humildade, paciência, virtude e perfeição. Jesus Cristo repreende duramente a Cananeia, mas esta, meditando sobre a recusa do Filho de Deus ao ouvi-la, torna-se digna de ouvir: “Quão grande é, ó mulher, a tua fé! Vai, e seja feito o que queres” (Mt 15,28).

Quando permaneceis em silêncio ao serdes repreendidos, com razão ou sem ela, imitais Jesus Cristo, do qual está escrito (Mt 26,63). Mas, se respondeis: “Que foi que eu fiz?”, já não o imitais. E, se respondeis à repreensão com outra repreensão, ofendeis a Deus, dizia o abade Isaías (Orat. VIII). Santa Doroteia ensinava que o remédio mais eficaz contra qualquer pecado consiste em receber pacientemente a correção.

Renunciai à vossa vontade, aceitai a humilhação da repreensão e da correção, e não vos ofendais com elas, nem mesmo quando lhes estiver unido o escárnio; assim triunfareis de vós mesmos, do demônio e de todo o vosso adversário, dizendo com a Escritura: “Quem se submete à repreensão será glorificado” (Pr 13,18).

7. É GRANDE CULPA NÃO APROVEITAR AS CORREÇÕES

Atendei às correções, diz Deus (Pr 5,12-13-14), para que depois não sejais obrigados a exclamar: “Como pude tomar aversão à ciência e desprezar em meu coração as lições da sabedoria? Por que não escutei a voz daqueles que me instruíam, nem dei ouvidos aos meus mestres? De repente, encontrei-me submerso nos males, aos olhos do povo e da assembleia.”

Muitas vezes, aquele que é repreendido e convidado a corrigir-se: 1° não presta atenção à advertência que lhe é dada…; 2° evita e foge daquele que o repreende, temendo que este lhe faça novas censuras…; 3° não valoriza as correções nem aquele que caritativamente lhas faz; se não o insulta, injuria-o e zomba dele… Quando se chegou a tal ponto, tudo está perdido. Observai: onde vão parar aqueles jovens e aquelas moças que sacodem de si todo jugo, que já não podem tolerar nem os olhares nem as palavras de um pai, de uma mãe, de um diretor ou de um amigo? Gabando-se de serem sábios, perdem a razão, diz o Espírito Santo (Rm 1,22).

Proclamam-se sábios e são loucos. Pretendem saber o bastante e, por isso, rejeitam as caridosas admoestações, a piedosa vigilância e as úteis correções. Bem depressa, como novos filhos pródigos, abandonam a casa paterna; abandonam a piedade e a modéstia, a confissão e os bons companheiros, e partem para uma terra estrangeira, onde, cercados de falsos amigos, dissipam todos os dons de Deus, calcando aos pés a sua graça, e perdem o temor, a honra, a inocência e a virtude… Vendem-se ao serviço do demônio, da vaidade, do libertinismo e da devassidão… Ei-los guardiões do imundo rebanho das paixões mais vis, despojados de todo bem e precipitados no abismo de todos os males. Quem soube descrevê-los como São Paulo, dizendo: “Enquanto se gloriam de ser sábios, são insensatos!”

E tanto mais digna de compaixão é essa loucura quanto mais deve ser temida como culpável, porque é voluntária.

As correções são o caminho do céu; quem dele se afasta, distancia-se do paraíso; abandona o caminho do céu e toma o do inferno. “Quem não dá atenção às advertências”, diz o Sábio, “desvia-se, e quem odeia as correções é um insensato” (Pr 10,17; 12,1). É um insensato porque: 1° demonstra arrogância…; 2° dá prova de pertinácia, obstinando-se em seus vícios…; 3° mostra que não suporta ser instruído nem quer corrigir-se e, por isso, torna-se incorrigível…; 4° manifesta um mau caráter…; 5° dá motivo para se julgar que está profundamente imerso no vício…

“As correções”, diz São João Crisóstomo, “produzem nos pecadores o efeito que o remédio produz sobre a ferida. Portanto, se é insensato quem rejeita o remédio, deve também ser chamado de tolo e louco aquele que escuta de má vontade as repreensões (14).” Lembre-se este de que se encaminha para uma grande perda, diz São João Clímaco (Grad. IV).

“Ó vós”, diz Santo Agostinho, “sejam quem forem, que não suportais ser repreendidos, sabei e conservai bem na mente que, justamente por isso, tendes maior necessidade de ser corrigidos, porque rejeitais a correção. Não gostais de ser repreendidos porque não quereis que outros vos apontem os vossos vícios, os agarrem e os arranquem pela raiz; não suportais que outros vos mostrem a vós mesmos tais como sois, por temor de que, vendo a vossa baixeza, desejeis livrar-vos dela e supliqueis àquele que procura lavar-vos que não vos deixe por mais tempo em vossa deformidade? (15)”

Eis o que Deus diz na Escritura contra aquele que não leva em conta as correções: “O infortúnio e a vergonha são a herança daquele que não tira proveito dos castigos” (Pr 13,18); “Quem não aceita as repreensões morrerá” (Ib. 15,10). “Quem despreza a correção despreza a si mesmo” (Ib. 15,32). “Quem obstinadamente despreza aquele que o corrige perecerá de repente e não poderá salvar-se” (Ib. 29,1). “Quem odeia a correção caminha pelas veredas dos pecadores” (Eclo 21,7).

Quem não quer emendar-se e detesta as correções é seduzido pelo demônio, que lhe endureceu o coração, para que não ceda nem obedeça à virtude. “O homem pecador”, diz a Escritura, “furtar-se-á à correção e forjará para si uma regra de conduta conforme os seus desejos” (Eclo 32,21). Quem odeia a repreensão encontra pretextos; cita o exemplo dos outros, faz comparações, alega vãos motivos para se defender; compara a sua conduta, os seus costumes e os seus atos com os costumes, os atos e a conduta dos outros… Pretende valer mais do que eles… Pretende que os vícios dos outros o desculpem… Sustenta ter o direito de imitá-los… Como se fosse preciso imitar aqueles que procedem mal!… Encontra por toda parte desculpas para aplicar aos seus pecados, diz o Salmista (Sl 140,4). Há até quem chegue a justificar as suas faltas e a fazer delas virtudes, a fim de perseverar em seus costumes perversos…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.