Tesouro n.º 59 · Volume I

DEVERES DOS FILHOS DOVERI DEI FIGLI

8 seções · 49 parágrafos · pp. 621–634 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. PRIMEIRO DEVER DOS FILHOS PARA COM OS PAIS: O AMOR

“Honra teu pai e tua mãe, diz Deus no quarto preceito do decálogo, para que vivas longo tempo sobre a terra” (Ex 20, 12); ora, este mandamento de Deus implica, em primeiro lugar, a obrigação de os filhos amarem seus pais.

Todos os deveres do homem para com Deus estão contidos nos três primeiros preceitos do decálogo; os que dizem respeito ao próximo, nos sete seguintes. Ora, como na terra o pai e a mãe ocupam o primeiro lugar, por isso Deus colocou à frente dos mandamentos que nos obrigam para com o próximo aquele que diz respeito aos pais: este preceito é também o primeiro, como já observava São Paulo, ao qual se acrescenta uma promessa de recompensa (Ef 6, 2).

Deus empregou a palavra honrar em vez de amar, porque aquela diz muito mais do que esta e, como se exprime o catecismo do Concílio de Trento, o vocábulo honrar encerra todo outro significado. Com efeito, alguém pode amar uma pessoa sem temê-la, ou temê-la sem amá-la; mas não pode honrá-la sinceramente se não tiver por ela sentimentos de amor e respeito, se não temer desagradá-la, se não lhe obedecer; seria, de fato, uma zombaria dizer que se honra alguém cujas ordens não são cumpridas e a quem não se presta auxílio na necessidade.

Amar o pai e a mãe quer dizer nutrir por eles uma afeição verdadeira e dar-lhes provas dela nas ocasiões… Esse amor é natural; por isso, vemos que era declarado obrigatório até pelos próprios pagãos; e não se encontra nação alguma que não considere um monstro o filho que falte a esse sagrado dever. A natureza conduz os filhos a isso, inspirando-lhes sentimentos de gratidão para com seus pais, em consideração pela vida que deles receberam…

Prestai à vossa mãe a honra que ela vos dedica; dai-lhe o vosso coração, pois ela vos deu a vida, com risco da própria… “Sois devedores à vossa mãe — diz Santo Ambrósio — pela ferida feita ao seu pudor, pela perda de sua virgindade, pelos perigos aos quais se expôs, levando-vos em seu seio e dando-vos à luz; longas e inumeráveis são as aflições, os cuidados, os trabalhos e os riscos que uma mãe enfrenta” (1).

Quantos cuidados, quantas solicitudes, quantas aflições, quantos suores, quantas vigílias e privações não tiveram os pais de sofrer por causa de seus filhos! Não se podem desejar motivos mais prementes para obrigá-los a amá-los. Por isso, Tobias, antes de morrer, não deixa de apresentá-los a seu filho, dizendo: Honra tua mãe durante toda a tua vida; pois deves recordar-te do que ela sofreu e a quantos riscos se expôs por ti (Tb 4, 3-4).

Esse amor não deve permanecer encerrado apenas no coração, mas deve manifestar-se exteriormente em toda ocasião. Os filhos devem ter toda consideração e solicitude para com os pais, usar com eles uma linguagem doce e respeitosa, empenhar-se em agradar-lhes, em adivinhar-lhes os desejos e em antecipá-los, para que se veja em ação o afeto e o apego que os animam.

2. SEGUNDO DEVER DOS FILHOS; O RESPEITO

Que se entende quando se diz que os filhos devem respeito a seus pais? Que, ao tratarem com eles, observem palavras e modos cheios de reserva, modéstia, humildade e veneração; que suportem seus defeitos, desculpem e ocultem suas faltas…

Qualquer que seja a dignidade à qual alguém tenha sido elevado, deve conservar para com seus pais, ainda que fossem pobres, miseráveis, mendigos e repugnantes, sentimentos de veneração e respeito… “Ainda que estejas no auge do poder e da fortuna, não te esqueças de teu pai e de tua mãe — adverte o Eclesiástico — para que não aconteça que Deus se esqueça de ti diante dos grandes e que tu, deslumbrado por tua familiaridade com eles, venhas a sofrer tamanha afronta que desejes antes não ter vindo ao mundo e amaldiçoes o dia de teu nascimento” (23, 18-19).

“Com todo o teu coração — diz ainda o mesmo Sábio — honra teu pai e não te esqueças dos gemidos de tua mãe. Lembra-te de que, sem eles, não terias nascido, e retribui-lhes segundo o que fizeram por ti” (Ib. 7, 29-30). “Respeita teu pai e tua mãe — repete São Paulo — se desejas ser feliz e viver longo tempo sobre a terra” (Ef 6, 1-2).

Respeitai, ó filhos, vossos pais e venerai-os; respeitai-os interior e exteriormente; respeitai-os antecipando-lhes os desejos, obedecendo-lhes e ajudando-os. ― Por maiores que sejam os defeitos de um pai e de uma mãe, não cabe aos filhos prestar-lhes atenção; nunca devem fazer-se juízes deles. “Somente o insensato, lemos nos Provérbios, ousa lançar lama sobre sua mãe” (15, 20).

Que coisa pode ser mais querida para nós, ou pertencer-nos mais intimamente, ou estar ligada a nós por vínculos mais sagrados e estreitos, do que os pais? Portanto, o filho que os respeita respeita a si mesmo; aquele que os ultraja ultraja a si mesmo; direi mais: respeita ou despreza a Deus conforme respeita ou despreza o pai, imagem da paternidade de Deus. Por isso, a Escritura sentencia que “quem teme o Senhor respeita os pais” (Eclo 3, 8); e Platão ensina que é dever dos filhos respeitar os parentes como deuses terrestres e representantes da divindade (Dialog. 2, de Legib.)

Deus transferiu sua honra, seu direito e seu império para os pais, ordenando aos filhos que os venerassem como seus lugar-tenentes. Deus comunicou ao pai sua paternidade, a faculdade de produzir um ser semelhante a si; eis por que Deus exige que os filhos respeitem o pai. Os filhos recebem do pai o ser e todo bem, isto é, a qualidade de homens, de seres racionais, de reis do universo; seu pai é o instrumento de que Deus se serve para isso; é, pois, justo e necessário que o respeitem como princípio e autor de sua existência enquanto homens… Deus, a consciência e a natureza exigem que se respeitem os pais.

3. TERCEIRO DEVER DOS FILHOS: A OBEDIÊNCIA

“Filhos, obedecei a vossos pais segundo a lei do Senhor; porque isto é justo”, ensina o Apóstolo (Ef 6, 1). Aos mandamentos deles, responda cada um de vós tão prontamente quanto Tobias a seu pai: “Esforçar-me-ei por cumprir exatamente tudo o que me ordenastes, ó pai” (Tb 5, 1). Por três vezes seguidas, parece a Samuel que Eli o chama; e outras tantas ele, levantando-se prontamente, corre até ele e diz: “Eis-me aqui, às vossas ordens” (1Sm 3, 5).

Eis como o Espírito Santo inculca este dever: “Sê dócil, ó filho, à educação de teu pai e não negligencies a obediência que deves a tua mãe” (Pr 1, 8). “Ouve teu pai e não desobedeças a tua mãe quando ela envelhecer” (Ib. 23, 22). “Observa rigorosamente, meu filho, os mandamentos de teu pai; grava-os tão profundamente em tua alma que estejam contigo quando caminhares, te guardem enquanto dormes e formem o objeto de teus pensamentos quando estiveres desperto” (Ib. 6, 20-22). “Ouvi, ó filhos, o juízo de vosso pai; e assim procedei, para que sejais salvos” (Eclo 3, 8).

O Sábio chama de juízo as ordens e as advertências de um pai.

Sim, o filho deve acolher com respeito e atenção as ordens e as advertências dos pais, e submeter-se humildemente a elas; tanto porque obedecer aos pais é obedecer ao próprio Deus, sendo eles seus lugar-tenentes e representantes, quanto porque é o melhor meio de caminhar pelo bom caminho. O filho, escreve Boécio, deve ser dócil, atento e benevolente: dócil de caráter, atento para executar as ordens dos pais e benevolente para ouvir o que lhe dizem (De Consol. lib. II). Dever essencialíssimo da filiação é a obediência, porque nos pais ela tem superiores e senhores aos quais compete, por direito divino, o poder de lhe ordenar. Jesus Cristo obedecia à Bem-aventurada Virgem, sua mãe, e a São José, que fazia as vezes de pai. Isaac, Jacó, José e os outros patriarcas professavam para com seus pais tamanha submissão, que devem servir de modelo aos jovens cristãos. E isso não os obriga somente na infância e na juventude, mas durante toda a vida de seus pais e ainda depois da morte, pois têm a estrita obrigação de executar escrupulosamente suas últimas vontades… Não apenas nesta ou naquela coisa, mas em tudo os filhos devem obedecer aos pais, sempre que suas ordens não se oponham abertamente à lei de Deus. Esses princípios todo homem os traz gravados pela natureza no próprio coração.

Os filhos estão obrigados a executar com prontidão e alegria tudo quanto os pais lhes ordenam… E tão necessária lhes é essa obediência pronta e alegre, que ela constitui seu caráter essencial, de modo que, assim como um raio separado do sol já não resplandece, como um regato separado da nascente já não conduz água, como um ramo cortado do tronco seca, assim, diz o Crisólogo (Serm. IV.), um filho que deixa de ser obediente deixa, ao mesmo tempo, de ser filho: torna-se um monstro na natureza e indigno de ocupar nela um lugar. Eis por que São Paulo inculcou tão firme e categoricamente aos filhos a obediência para com os pais, dizendo: “Filhos, obedecei em tudo aos pais” (Cl 3, 20).

4. QUARTO DEVER DOS FILHOS: A ASSISTÊNCIA

“Consola, ó filho, a velhice de teu pai e, quando ele delirar, desculpa-o” (Eclo 3, 14-15). “Lembra-te de teu pai e de tua mãe, para que Deus não se esqueça de ti” (Ib. 23, 18-19). Eis, ó filhos, o conselho que vos dá o Sábio a respeito dos pais: sede sua providência nas necessidades, o esteio de sua velhice, o conforto em suas enfermidades, o alívio em seus achaques; estais obrigados a assisti-los e socorrê-los em vida, na morte e depois da morte, a provê-los do necessário, segundo a vossa fortuna e a condição deles… Quando estiverem enfermos ou em perigo de morte, redobrai os cuidados; aumentai a assistência tanto para a alma como para o corpo… Quando, porém, tiverem morrido, rezai e fazei rezar por eles, e cumpri escrupulosamente suas últimas vontades.

Vede a mãe de Tobias como chora lágrimas ardentes e, com tristeza, desafoga o pesar de ter deixado o filho afastar-se dela e a angústia que a aflige por não vê-lo retornar. “E por que — repetia entre soluços — por que nós te mandamos para tão longe? Tu eras a pupila dos nossos olhos, o esteio da nossa velhice, o alívio da nossa vida, a esperança da nossa prosperidade! Ah, não! Não! Pois em ti tínhamos tudo; não devíamos deixar-te ir para tão longe de nós” (Tb 10, 3-5). Estas palavras da mãe de Tobias indicam qual deve ser a conduta dos filhos para com seus pais e o dever que têm de assisti-los…

“Os filhos, escreve Aristóteles, jamais poderão retribuir a Deus e aos pais aquilo que lhes devem” (Etich. lib. IX).

Depois de Deus, receberam tudo do pai e da mãe; resulta, portanto, para eles o dever indeclinável de assisti-los em suas necessidades… Tendo recebido tudo dos pais, os filhos pertencem mais a eles do que a si mesmos.

“Sustenta teu pai — diz Santo Ambrósio — sustenta tua mãe e, quando lhe tiveres fornecido alimento, de modo algum terás pago as dores e os sofrimentos que ela suportou por ti; os alimentos que lhe forneces não podem comparar-se com aqueles que ela te deu ao amamentar-te: ainda não a recompensaste pela fome que por ti suportou, abstendo-se de comer o que poderia fazer-lhe mal e de beber o que poderia alterar o leite. Por ti ela tomou alimento, por ti privou-se de iguarias que lhe apeteciam, por ti comeu coisas contra o seu gosto; ela vigiou e chorou por ti, e tu terás coração para deixá-la na penúria? Ó filho, que terrível juízo preparas para ti, se não cuidares de tua mãe! Tu lhe deves aquilo que tens, porque lhe deves aquilo que és (2)”.

5. JESUS E OS SANTOS SÃO OS MODELOS DOS FILHOS

“O menino Jesus ia crescendo e fortalecendo-se, cheio de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2, 40). Ele permanecia sempre com Maria e José e vivia sujeito a eles em tudo (Ib. 2, 51); e, se alguma vez se afastava deles, fazia-o para obedecer e honrar seu Pai celeste (Ib. 2, 49).

Está escrito a respeito de Samuel que “se tornou grande diante do Senhor; avançava e crescia, caro a Deus e aos homens” (1Sm 2, 21, 29).

Consultai as vidas dos santos e vereis que, geralmente, durante a infância e enquanto viveram seus pais, foram modelos do amor, do respeito, da obediência e da assistência que cada um deve ao autor de seus dias.

6. VANTAGENS DOS FILHOS NO CUMPRIMENTO DE SEUS DEVERES PARA COM OS PAIS

Observa-se, e com razão, que Deus promete nove grandes bens, no capítulo terceiro do Eclesiástico, aos filhos que cumprem seus deveres para com o pai e a mãe. O primeiro consiste num tesouro de riquezas temporais e espirituais: “Quem honra sua mãe é como aquele que ajunta tesouros” (3, 5). O segundo é que tal filho será, por sua vez, feliz em seus descendentes (Ib. 6). O terceiro, que será atendido no dia de sua oração (Ib. 6). O quarto, que terá longos dias de vida e será a consolação de sua mãe (Ib. 7). O quinto, que obterá a bênção paterna, a qual firma a casa dos filhos (Ib. 11). O sexto, que será coberto de glória, tanto porque o pai a quem se presta a devida honra glorifica os filhos, quanto porque, honrando o pai, o filho se torna glorioso aos olhos de todos (Ib. 13). O sétimo, que, no tempo da provação, Deus virá em seu auxílio e o salvará (Ib. 17). O oitavo, que seus pecados lhe serão facilmente perdoados e desaparecerão como o gelo ao vento da primavera (Ib. 17). O nono, que Deus o fará prosperar em tudo (Ib. 34).

Cumprir os próprios deveres para com os pais é acumular imensos tesouros que se colocam sob a custódia de Deus. Quem honra os pais expia as próprias culpas, obtém a graça de não mais recair nelas e alcança tudo o que pede a Deus, pois Deus considera como prestada a si mesmo a honra que se presta aos pais: ele honra aqueles que os honram, atende àqueles que lhes obedecem, obedece àqueles que lhes obedecem, ama aqueles que os amam, assiste aqueles que os assistem; mostra-se generoso e indulgente para com aqueles que se mostram liberais e indulgentes com eles…

Da obediência devida aos pais, Deus fez um sacrifício que apaga os pecados dos filhos e lhes obtém o perdão. Se, como lemos no Levítico, o sacrifício em que se imolavam animais expiava os pecados, quanto melhor e mais seguramente os expiará a obediência prestada pelos filhos, este sacrifício no qual a vontade deles é, de certo modo, imolada aos pais e a Deus! Esta reflexão é de São Gregório Magno (3).

Os filhos que respeitam os pais adquirem títulos às suas orações e bênçãos, e aqueles que honram o pai e a mãe serão honrados por seus filhos… Assim Deus recompensou Isaac, Jacó e José. Viverão, segundo a promessa divina, longo tempo sobre a terra; e, mesmo quando sua morte for prematura, terão vivido longamente, porque terão vivido bem, na justiça, nos louvores, na glória e na boa fama. Viverão longo tempo porque assegurarão sua salvação na terra dos vivos…

Ao cumprirem seus deveres para com os pais, proporcionais a alegria deles e a vossa, a da sociedade e a de Deus; passais dias felizes e vos preparais para a morte dos justos e para a coroa eterna…

7. PECADO DAQUELES QUE NÃO HONRAM OS PAIS

“O pecado dos filhos de Eli era enorme aos olhos do Senhor” (1Sm 2,17). De quantos filhos se poderia dizer o mesmo!

Quem não cuida dos pais e os abandona deve ser contado entre os parricidas; é sentença do Espírito Santo: “Quem falta em alguma coisa ao pai ou à mãe, lemos nos Provérbios, e pretende não ter pecado, esse é companheiro do assassino” (Pr 28,24)… Quem descuida dos próprios pais é o ser mais ingrato, perverso e culpado de todos. A prova é manifesta: seus pais são os autores de sua vida; deles recebeu o ser e tudo quanto possui; eles são, para ele, os representantes do Criador; tudo o que os filhos são e tudo o que possuem, receberam-no antes dos pais que de si mesmos; por isso, aqueles que os deixam na indigência e na estreiteza, que os tratam com altivez e desprezo, são parricidas que insultam a natureza e o próprio Deus.

Muitas vezes, tais filhos mostram-se cruéis também com os estranhos; tornam-se ladrões, malfeitores, bandidos, cuja vida termina em uma morte ignominiosa… Já não são homens, mas demônios… Filhos desnaturados, desonrando a vós mesmos, desonrais os vossos pais (Eclo 3,18).

O desprezo e a aversão para com os próprios pais são pecado mortal. Pecam contra a honra devida ao pai e à mãe: 1° aqueles que os desprezam interiormente, ainda que não o demonstrem exteriormente; que lhes falam com desdém e dureza; que os insultam ou ultrajam; 2° aqueles que zombam do pai ou da mãe, caçoam deles, fazem troça deles…; 3° aqueles que falam mal deles em sua ausência ou revelam suas culpas, defeitos e fraquezas…; 4° aqueles que os repreendem com altivez ou com palavras de desprezo e ofensa…; 5° aqueles que os desagradam, entristecem, contradizem ou provocam à ira com palavras pungentes ou olhares desdenhosos. Quando o pai ou a mãe falam como insensatos e se irritam sem razão, os filhos devem suportá-los com a mesma bondade com que os pais toleraram os extravios de sua juventude; de modo algum devem obstinar-se contra eles, como muitas vezes acontece. Não são, ordinariamente, as respostas demasiado impertinentes e as resistências demasiado obstinadas que irritam os pais? 6° aqueles que os ameaçam ou levantam a mão contra eles, ou os batem, ainda que levemente. É este um delito execrando, uma impiedade, um sacrilégio, porque, para um filho, é sagrada a pessoa dos pais. Semelhante conduta é uma monstruosa violação das leis da natureza e da graça…; 7° aqueles que se envergonham de seus pais por serem pobres, incultos ou rudes, ou que se recusam a saudá-los e a conviver com eles…; 8° aqueles que não os consultam nos assuntos importantes que pertencem à autoridade paterna, como, por exemplo, na escolha do estado de vida, no projeto de um matrimônio e em coisas semelhantes; ou que, em vez de seguir seus conselhos, não fazem caso deles e, sem motivo razoável, fazem o contrário do que os pais desejariam,

Muitos filhos pecam contra o amor e o respeito que devem aos pais, porque tardam em executar suas ordens, murmuram contra elas, olham-nos com olhar malévolo e brigam com eles. Longe de ter mérito, semelhante obediência é um verdadeiro pecado. A obediência forçada assemelha-se à dos demônios, que executam, a seu pesar, as ordens de Deus.

Para ser agradável a Deus, a obediência deve ser voluntária, pronta, sem murmuração, sem demora, absoluta, tanto nas coisas espirituais como nas temporais… O dever da obediência, naquilo que é legitimamente ordenado, é tal que não se pode escusar de culpa grave o filho que, em matéria grave, age contra as ordens ou a proibição expressa de seus pais.

Quão culpados são aqueles filhos indóceis que só querem fazer o que lhes agrada; que protestam não dar importância alguma ao que lhes é dito; que se julgam capazes de governar-se por si mesmos; que mantêm, contra a vontade dos pais, amizades e relações perigosas; que convivem com maus companheiros e frequentam lugares de má fama; que vivem dispersos e indisciplinados, ao sabor de suas paixões e caprichos! Se são repreendidos por sua desobediência, desculpam-se com mentiras ou se insurgem com tamanha altivez e audácia, que parece serem eles os superiores e que lhes esteja sendo feita a mais grave injustiça… Ó, quão culpados sois também vós, ó filhos, que não assistis vossos pais necessitados! E não procureis desculpar-vos dizendo que os pais vos são um peso por causa da idade avançada, das enfermidades e de sua fraqueza. Eu poderia responder-vos que eles nem sempre foram assim; que, sem seus esforços e trabalhos, não possuiríeis o que possuís, nem seríeis o que sois; mas vos confundirei mostrando-vos, com Santo Ambrósio, o exemplo dos animais. Os cisnes, por exemplo, quando seus pais envelhecem, constroem para eles um abrigo onde os alojam e defendem das inclemências do tempo; vão aquecê-los, cobrindo-os com as próprias asas, e providenciam abundantemente seu alimento.

Não digais tampouco que nada lhes deveis daquilo que possuís, por ser fruto de vossos trabalhos e de vossa indústria. Seja assim; mas não lhes sois devedores da vida, da força e da saúde de que gozais? Não foram eles que vos alimentaram, vestiram e abrigaram durante todo o tempo em que não éreis capazes de prover ao necessário? Não é justo que agora lhes retribuais aquilo que fizeram por vós? E a fraqueza que os prostra, as enfermidades que os afligem, não serão talvez efeito e consequência das inquietações, das penas e dos cuidados que suportaram para vos criar? Podeis, portanto, negar-lhes o socorro de que necessitam sem vos tornardes réus da mais negra ingratidão e da mais cruel injustiça? Recebestes cem vezes mais do que dais… “Eu só tenho o necessário”, dirá alguém; mas pense essa pessoa quantas vezes seus pais se privaram do necessário por causa dela. E, se definhais na miséria, não seria isso talvez uma punição pela dureza que demonstrastes para com eles, não somente recusando-lhes o necessário, mas talvez até cruelmente tirando-o deles?

Mas, se estão obrigados a socorrer os pais aqueles filhos que não receberam deles bem algum, que direi da conduta desses desnaturados que deixam sem socorro pais e mães que tiveram a fraqueza de despojar-se, durante a vida, de todos os seus bens, para proporcionar à prole uma honesta comodidade? Monstros! Vendo que já nada lhes resta a esperar daqueles a quem devem a vida e o bem-estar, abandonam-nos, desprezam-nos, disputam-lhes uma modesta pensão, consideram-nos como “um peso do qual procuram, uns e outros, livrar-se e, muitas vezes, contemplam com secreto despeito o seu prolongado viver”. Esses filhos, indignos de habitar sobre a terra, são monstros, e o Espírito Santo os chama infames (Eclo 3, 18).

Especialmente durante as enfermidades dos pais, os filhos devem esforçar-se por socorrê-los de todos os modos. Vergonha! Se um animal que nos pertence é acometido de algum mal, nada se poupa para curá-lo; e depois, às vezes, ou por falta de socorro, ou por negligência em chamar um médico, ou por avareza em providenciar os remédios, deixam morrer os parentes, um pai, uma mãe, um esposo, uma esposa, um irmão, uma irmã. Não se poderia acreditar em tamanha dureza, ingratidão e avareza, se não se vissem, ah!, com demasiada frequência, exemplos espantosos disso.

Finalmente, os filhos devem prover às necessidades espirituais de seus pais enquanto vivem, quando estão morrendo e depois de sua morte… Mas, ó céu!, quantos entre eles faltam a esse dever essencial! Quantos há que negligenciam rezar por seus pais ou cumprir-lhes as últimas vontades! Ávidos e solícitos por apoderar-se dos bens que lhes foram deixados, não pensam senão em dividir os despojos dos mortos, em aproveitar-se da herança, sem cuidar absolutamente do miserável estado em que, talvez por causa da excessiva ternura para com os filhos, se encontram reduzidos o pai e a mãe. Semelhantes, nisso, aos desnaturados irmãos de José, divertem-se e fazem festa no próprio lugar que foi teatro de sua desumanidade… Filhos impiedosos, que faltastes ao dever do amor, do respeito, da obediência e da assistência, gemei e convertei-vos, porque vossa culpa é gravíssima; se não reparardes o mal feito e não vos arrependerdes, terríveis desgraças e espantosos castigos vos ameaçam neste mundo e no outro.

8. CASTIGOS DOS FILHOS DESNATURADOS

“Quem aflige o pai, lemos nos Provérbios, e expulsa de si a mãe, é um miserável e um infame” (19, 26). Nada há de mais brutal e degradante do que insultar e afligir aqueles de quem se recebeu a vida e tudo o que se possui. Deus, autor da natureza, pune severamente tal delito.

Os filhos que se tornam culpados disso são infelizes em todo tempo e lugar; Deus permite que os filhos que deles nascerem os amargurem com desgostos, injúrias, vergonhas e maldições, de modo a fazê-los morrer antes do tempo: é a pena de talião…

“Quem amaldiçoa seu pai e sua mãe verá sua lâmpada apagar-se nas trevas”, diz o Sábio (Ib. 20, 30). A luz é símbolo da reputação e da honra. Quem insulta, despreza e amaldiçoa os pais perde e avilta a si mesmo aos olhos dos homens… A luz é símbolo da inteligência; o filho impiedoso não tarda a sentir alterado em si esse precioso bem… A luz é símbolo da posteridade; a prole do filho culpado será ferida pela morte ou condenada à execração. Aqui a pena de talião será inexoravelmente aplicada… A luz é símbolo da vida; aquele que falta para com seus pais é frequentemente privado da vida corporal e sempre da vida da graça e da glória… A luz e a lâmpada são símbolo da piedade, da santidade, da religião e do culto divino; por isso se acendem círios durante a Missa e os ofícios divinos. Quem desobedece aos parentes, não os assiste e os maltrata perde a piedade, abandona a religião e é abandonado por Deus… A luz é símbolo das riquezas, da autoridade e do poder, porque o fogo é o rei dos elementos, assim como a vista é a rainha dos sentidos. Ora, quem não cumpre seus deveres de bom filho lança fora todos esses bens… Finalmente, a luz é símbolo da alegria, da prosperidade e da fortuna; ela alegra o olho e a alma. O filho desnaturado não prospera, não goza de alegria, não encontra paz, não alcança fortuna; cai na cegueira e perde a própria alma… Um pai é para seu filho uma espécie de sol; a mãe é a lua que o envolve inteiramente com seus doces raios. Maltratando-os, o infeliz subtrai-se aos esplendores que eles derramam sobre ele e permanece afundado nas trevas. “O olho que zomba do pai e despreza as dores da mãe seja arrancado pelos corvos que estão junto às torrentes e seja devorado pelos filhotes das águias” (Ib. 30, 17); com esta imprecação, o Sábio quer dizer que o filho desobediente e desprezador do pai e da mãe será aqui embaixo pregado ao patíbulo da ignomínia; os demônios lançar-se-ão sobre ele e precipitá-lo-ão no inferno e, semelhantes a aves de rapina vorazes e cruéis, arrancar-lhe-ão os olhos e alimentar-se-ão de sua substância.

“Quem irrita a mãe é amaldiçoado por Deus” (Eclo 3, 18), diz o Sábio. E eis Cam, que despreza seu pai Noé, amaldiçoado com toda a sua descendência; eis os filhos de Eli, desobedientes ao pai, incorrendo na mais severa maldição e sendo atingidos pela morte, segundo a sentença dada pelo próprio Deus no Levítico: “Quem tiver ultrajado com maldições o pai ou a mãe seja punido com a morte” (Lv 20, 9). Pense-se no castigo que Deus infligiu aos rapazes que zombaram de Eliseu, e julgue-se se deixará impunes os insultos e sarcasmos dos filhos contra os pais. Basta abrir o Deuteronômio no capítulo 21 para ver que penas rigorosas Deus havia estabelecido contra os filhos desobedientes; ali está escrito: “Se um homem tiver um filho contumaz e insolente, que não ouve as ordens do pai e da mãe e, castigado, recusa-se obstinadamente a obedecer, tomá-lo-ão e conduzi-lo-ão diante dos anciãos daquela cidade, à porta onde se administra a justiça, e lhes dirão: Este nosso filho é obstinado e insolente, zomba de nossas advertências, não pensa senão em orgias, dissoluções e banquetes. Então o povo o apedrejará, e ele morrerá, para que seja eliminada de vosso meio a iniquidade e todo Israel, ouvindo isso, tema” (21, 18-21).

Embora a pena estabelecida por essa lei já não esteja em vigor, o dever da obediência de modo algum diminuiu ou mudou: Deus sabe encontrar, nos tesouros de sua justiça, meios para castigar quem se recusa a submeter-se a ela. Se o réu já não é apedrejado, não escapa, contudo, a outros castigos não menos severos e ainda mais terríveis.

Os filhos indóceis e desenfreados incorrem na maldição de Deus nesta vida e na outra; não há coisa tão tremenda e espantosa, e ao mesmo tempo tão certa, quanto a maldição divina. Assim como Deus promete recompensa e sua bênção, no mundo presente e no futuro, àqueles que honram o pai e a mãe, assim também lança, já nesta vida, mas principalmente na eternidade, suas vinganças e maldições sobre os filhos culpados. Observe-se o fim da maior parte dos filhos perversos, e ver-se-á que ordinariamente morrem de modo miserável ou trágico. Perguntai à maioria daqueles que a justiça humana condena às prisões, às galés e ao patíbulo qual foi o princípio de suas desordens e delitos, e confessarão que foi o desprezo em que tiveram seus pais.

Se nem sempre são tais os efeitos da culpa dos filhos desobedientes e irreverentes, ou pelo menos não se mostram assim aos olhos do mundo, Deus permite que, mais tarde, seus descendentes lhes retribuam com outros desgostos, mais numerosos que aqueles que eles causaram a seus pais. Milhares de exemplos desse gênero nos são oferecidos pela história… Filhos, jovens, afastai de vossa cabeça tão grandes desventuras! Instruídos agora acerca de vossos deveres para com os pais, sede fiéis em cumpri-los. Amai vossos pais, honrai-os; falai-lhes sempre com humildade, respeito e cortesia; não zombeis deles, não os injurieis jamais; pedi-lhes perdão das culpas passadas; sede-lhes obedientes; não empreendais nada sem consultá-los; obedecei-lhes como ao próprio Deus; rezai por eles; tirai antes de vós alguma parte do necessário, em vez de deixar que lhes falte alguma coisa; prestai-lhes, finalmente, todos os serviços de que sois capazes, e Deus vos abençoará, vos recompensará nesta vida e, particularmente na outra, com a posse do bem eterno.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.