Tesouro n.º 61 · Volume I

DEVERES DOS SENHORES DOVERI DEI PADRONI

2 seções · 21 parágrafos · pp. 646–652 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. POR QUE HÁ SENHORES E SERVOS

Sem o pecado, os homens teriam sido iguais e independentes uns dos outros… A única causa da diversidade das condições é o pecado, diz Santo Agostinho (De lib. arbit.). Depois que o homem se submeteu voluntariamente ao demônio, mereceu perder a independência em que teria vivido entre seus semelhantes. A igualdade que deveria existir entre todos os homens desapareceu para sempre, e é absurdo e loucura procurar restabelecê-la. Seria preciso, antes de tudo, restituir ao homem os privilégios da inocência primitiva; reintegrar a natureza humana em seus antigos direitos e abolir as penas que lhe foram impostas pelo Criador depois do pecado; tornar todos os homens, desde o nascimento, igualmente fortes, robustos e sadios, igualmente dotados de todos os dotes físicos, intelectuais e morais; seria preciso, em uma palavra, suprimir todas as necessidades e misérias que sujeitam necessariamente certo número de indivíduos àqueles de quem são obrigados a implorar socorro, assistência e proteção. Enquanto não tiver ocorrido essa prodigiosa mudança na natureza, é inútil enganar o gênero humano com a esperança do restabelecimento da igualdade social…

Reconheçamos também, se assim se quiser, que é contrário à ordem primitiva haver homens dominados por outros homens; esta verdade lembrará aos superiores e aos senhores que, sendo seus súditos e servos da mesma natureza e raça que eles, o direito natural não confere a uns nenhum poder sobre os outros e que, ao contrário, é consequência da subversão desse direito o fato de eles comandarem homens iguais a si, os quais não deveriam depender senão de Deus. Mas, se esta reflexão serve para abater o grosseiro orgulho de muitos senhores que tratam seus servos como se não tivessem saído do mesmo lodo, ela não nos permite, contudo, concluir que os servos tenham o direito de levantar-se contra seus senhores e desobedecer-lhes. Em vez, pois, de se consumirem uns e outros em utopias culpáveis, estudem e cumpram seus deveres recíprocos; e assim, se não for restabelecida a igualdade social, sonho de mentes delirantes, serão, contudo, reconduzidas ao seio das famílias e da sociedade a concórdia e a paz.

Diante de Deus, todos os homens são iguais; somente o mérito pessoal pode estabelecer entre eles alguma diferença.

(Veja-se IGUALDADE).

2. DEVERES DOS SENHORES

1° A humanidade. — O primeiro dever dos senhores para com os servos é a humanidade, ou bondade no tratamento. São Paulo escreve aos Efésios: “E vós, ó senhores, demonstrai a mesma humanidade para com os servos, não os tratando com dureza nem com ameaças; pensando que todos vós, tanto eles como vós, tendes o mesmo Senhor nos céus, diante de quem não há preferências nem acepção de pessoas” (Ef 6, 9). Todos temos Deus por pai e a Igreja por mãe; somos todos irmãos e membros de Jesus Cristo, todos chamados à mesma herança celeste; mas dela participarão somente aqueles que tiverem sustentado a nobreza de tão santa origem pela fidelidade à graça. Todos os transgressores da lei, fossem eles príncipes ou reis, dela serão excluídos.

“Senhores”, escreve em outro lugar o grande Apóstolo, “dai a vossos servos aquilo que a equidade e a justiça exigem de vós, sabendo que também vós tendes um senhor no céu” (Cl 4, 1). “Quem tem um servo fiel”, diz o Sábio, “tenha-o em estima como à própria alma” (Eclo 33, 31). Tratai, pois, humanamente vossos servos, ó senhores da terra; esta é a consequência que o Apóstolo das gentes tira do fato de que os deveres dos servos para com os senhores são um apêndice natural dos deveres dos filhos para com os pais; e, vice-versa, os deveres dos senhores para com os domésticos são análogos aos dos pais e das mães para com os filhos. Uns e outros devem ter ternura e bondade para com os que lhes estão subordinados; uns e outros responderão diante de Deus pelo mal que tiverem feito e pelo bem que tiverem deixado de fazer.

2° O cuidado. — A caridade dos pais de família não deve restringir-se aos seus filhos; se a Escritura lhes impõe o dever de cuidar até mesmo dos animais que servem ao seu uso, quanto mais estão obrigados, por justiça e caridade, a cuidar benevolamente dos criados e dos domésticos: este dever é uma consequência natural da humanidade com que devem tratá-los. Para prová-lo, bastam as palavras de São Paulo: “Quem não cuida dos seus, principalmente dos domésticos, renegou a fé e é pior que um infiel” (1Tm 5, 8),

3° A vigilância. — O terceiro dever dos patrões para com os criados é a vigilância, que se deve ter, antes de tudo, na boa escolha dos próprios domésticos, a fim de contar com pessoas prudentes e tementes a Deus, não dadas à embriaguez nem à libertinagem; não violentas, blasfemadoras, insolentes ou escandalosas. Isto é muito importante para os patrões e, sobretudo, para os meninos, que tendem sempre a imitar o que veem e aprendem dos domésticos ou das criadas imprudentes e imorais aquilo que deveriam ignorar para sempre; acrescente-se que, onde há vários criados, basta um só de maus costumes para semear a cizânia entre os companheiros. Quando num criado não se encontram as qualidades que se esperavam nem as virtudes necessárias, é preciso trabalhar para corrigi-lo e, especialmente, vigiá-lo; e, se não se tornar melhor, mandai-o embora o quanto antes, antes que tenha corrompido os outros.

É dever dos patrões vigiar assiduamente as ações dos criados e não lhes permitir a frequência às casas de jogo, nem a ausência durante a noite, nem as relações amorosas com pessoas do sexo oposto. Não devem permitir que os filhos durmam com a gente de serviço, exceto se estiverem absolutamente seguros de sua moralidade. Mas talvez dirão os patrões: Se é preciso manter os olhos tão abertos sobre os domésticos e impor-lhes tal conduta, não será mais possível conservá-los, nem sequer encontrá-los. Admito que é difícil encontrar criados e criadas virtuosos, mas eles não faltam; além disso, ao prescrever-lhes as condições mencionadas, eles se portarão com muito maior reserva, corrigir-se-ão e, se forem verdadeiramente cristãos, perseverarão; isso será a felicidade deles e a vossa. É indício de um estado social deplorável que um doméstico que vós não podeis conservar por sua má conduta seja aceito por outros patrões; um doméstico que não merece confiança deveria encontrar todas as portas fechadas. Ouvem-se a cada passo queixas contra os domésticos; mas, se estes vivem na desordem, de quem é a culpa? Não será talvez, por vezes, dos patrões, que, com sua fraqueza, pouca vigilância, impiedade ou dissolução, ou com seus funestos exemplos, os corrompem? … Somos mal servidos, andais resmungando; mas vós, ó patrões, como servis a Deus? como cuidais de vossos criados? … Vossos domésticos não vos obedecem; mas vós obedeceis a Deus? A bons patrões, bons criados; a maus patrões, maus servidores. Se não vigiais a criadagem, não tendes razão para vos queixar; a maldade deles é obra vossa; vigiai, e ficareis mais satisfeitos…

Segundo o Evangelho, não é de modo algum lícito aos senhores terem a seu serviço gente inútil e ociosa: a ociosidade é um viveiro de desordens. Esses criados indolentes e preguiçosos corrompem-se bem depressa e corrompem aqueles que deles se aproximam. É preciso, portanto, cuidar para que não percam tempo; mas, por outro lado, não se deve oprimi-los com trabalho, jamais esquecendo que os criados são vossos semelhantes e irmãos, não vossos animais de carga…

Deveis exigir de vossos domésticos que santifiquem o dia festivo e cumpram o preceito pascal. Todo doméstico que falta à missa ou ao preceito da Páscoa já não merece a vossa confiança, e deveis despedi-lo… Mas poderá encontrar criados isentos de tais culpas aquele patrão ímpio que já não vai ele mesmo à missa, que despreza a Deus e à Igreja, viola as sagradas leis da religião e zomba dos sacramentos? Certamente não; ele é um apóstata, e aqueles que o servem se assemelham a ele.

Ó patrões indolentes, cegos e ímpios, quão culpados sois! Pensai naquelas espantosas palavras de Paulo: “Este renegou a fé e é pior que um infiel”

4° A instrução. — O quarto dever dos patrões é instruir ou mandar instruir seus criados acerca dos mistérios da religião, se os ignoram, acerca das obrigações do cristão e, particularmente, acerca dos deveres do seu estado; prepará-los para a primeira comunhão e, se já a fizeram, procurar que assistam às instruções da paróquia e também aos catecismos; ensiná-los a rezar e recitar, tanto quanto possível, em comum com eles, as orações da manhã e da noite.

5° A correção. — Os patrões não devem tolerar discussões entre seus criados, nem permitir amizades ou relações particulares, tanto mais quando se trata de domésticos de sexo diferente. Devem adverti-los de seus defeitos com caridade, sim, mas também com firmeza, quando as faltas são graves. Se as repreensões não os corrigirem, não os conserveis a vosso serviço, pois a boa conduta e a saúde daqueles que formam a vossa casa devem ser antepostas a todos os interesses e considerações humanas. Aqui se requer firmeza e inflexibilidade, e não se deve olhar senão para Deus e para o proveito espiritual do próximo. O rei Davi nos ensina que não tolerava em sua casa domésticos depravados, mas escolhia para seus ministros e domésticos pessoas educadas na fidelidade e na inocência (Sl C, 6).

6° O bom exemplo. — O sexto dever dos patrões é dar-lhes bom exemplo, e o mais sagrado. Estão obrigados a isso em consciência, e ai daquele patrão que conduz sua criadagem ao mal ou a escandaliza! Não é, contudo, raro encontrar patrões que procuram corromper e perder pobres criados ou infelizes criadas! Patrões infames, cruéis e bárbaros, são eles, por assim dizer, demônios encarnados! Seu delito é o pior dos delitos, a mais infame das injustiças! Pode-se chamar, com frase da Escritura, o extremo limite do mal (Ml 1, 4).

7° A assistência. — Os patrões devem cuidar dos domésticos quando caem doentes. Seria crueldade da parte dos senhores abandonar aqueles que adoecem a seu serviço e obrigá-los a mudar de casa, tanto mais se não têm teto nem parentes em condições de socorrê-los. A caridade obriga a proceder assim; antes, poder-se-ia também dizer que é um dever de justiça. É preciso chamar o médico e administrar os remédios prescritos… Finalmente, os patrões pecam quando, por negligência, deixam faltar aos seus criados enfermos os auxílios espirituais…

8° O salário. — O último dever dos patrões é pagar fiel e exatamente aos seus domésticos a remuneração combinada; seria grave injustiça reter dela sequer uma parte.

Pecam aqueles patrões que se recusam a dar um salário honesto àqueles que se oferecem para servi-los, ou que abusam da condição desgraçada de um criado sem patrão, ou de um operário sem trabalho, para pagar-lhe o menos possível e obrigá-lo ou a aceitar propostas desfavoráveis ou a morrer de fome…

A Sagrada Escritura recomenda calorosamente que se paguem pontualmente os salários aos servos. «O salário do operário que trabalha para ti não permanecerá em tuas mãos até o dia seguinte», ordenava Moisés aos israelitas (Lv 19,13). «No mesmo dia lhe pagarás o preço de seus trabalhos, antes do pôr do sol, porque ele é pobre e disso tira o sustento da vida; para que não clame ao Senhor contra ti, e isso não te seja imputado como culpa (Dt 24,15)».

Esta obrigação Tobias inculcava a seu filho, dizendo-lhe: «Quando um homem tiver trabalhado por tua conta, paga-lhe imediatamente o que lhe é devido, e o salário do trabalhador diarista jamais durma em tua casa (Tb 4,15)». O Eclesiástico, depois, compara a injustiça daqueles que retêm o salário do servo ou do operário ao delito do homicida (34,27).

Os patrões são obrigados a fornecer ao pessoal de serviço uma alimentação suficiente e saudável… Cometem, porém, uma injustiça, se obrigam seus servos ou servas a trabalhos excessivos, ou tais que arruínem ou enfraqueçam consideravelmente sua saúde. E, no entanto, quão frequente é este abuso entre os ricos avarentos! Obrigam jovens a trabalhos superiores às suas forças, exigem deles um esforço ininterrupto, mantêm-nos ocupados dia e noite. Muitas vezes esses infelizes não ousam queixar-se e, depois de alguns anos de trabalho tão árduo, sucumbem e ficam debilitados. Ora, como a saúde e o vigor do corpo constituem a única riqueza dos servos, vê-se que lhes foi retirado todo meio de subsistência, e que se foi causa de seus dias serem notavelmente encurtados ou de passarem sua velhice entre privações e dores. Esses avarentos sem piedade cuidam muito bem de não fazer trabalhar mais do que convém seus bois, cavalos e jumentos, por medo de perdê-los; mas não demonstram tal consideração para com seu pessoal, e às vezes nem mesmo para consigo próprios, tamanha é sua avidez pelo ganho!

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.