São Gregório diz: “Ensina com autoridade aquele que primeiro prega pelo exemplo, pois não se confia naquele cujas obras contradizem as palavras (1)”.
Pastores, pais de família, mestres, magistrados, patrões, superiores, que força terão as vossas lições, advertências e correções, se, enquanto ensinais aos outros, não vos corrigis a vós mesmos? (Rm 2, 21).
“Falar bem e viver mal é porventura outra coisa, diz São Próspero, senão condenar-se pela própria boca? (2)”. E São Bernardo acrescenta: “Coisa monstruosa é unir uma alta posição a uma vida vergonhosa; uma boca eloquente a mãos ociosas; muitas palavras a pouco fruto; um rosto grave a um proceder leviano; uma grande autoridade a um espírito inconstante; uma fisionomia séria a uma língua frívola (3)”.
Aquele que ensina e não faz o que ensina era comparado pelo abade Pastor (Vit. Pat.) a um poço que fornece água a quem dela necessita, que lava as imundícies e não pode purificar a si mesmo. É também semelhante às pedras que, ao longo das estradas, indicam aos viajantes o caminho que devem seguir, enquanto elas permanecem sempre fixas em seu lugar.
“É preciso, segundo a admoestação de São Paulo, que renunciemos às obras das trevas e nos revistamos das armas da luz” (Rm 13, 12): “pois fomos feitos espetáculo aos olhos do mundo, dos Anjos e dos homens” (1Cor 4, 9).
“Somos devedores, escreve São Bernardo, do bom exemplo para com o próximo e da boa consciência para conosco mesmos (4)”. A mesma coisa já inculcava São Paulo aos Tessalonicenses, exortando-os a caminhar pelo caminho do bem, para edificar aqueles que ainda estavam fora da Igreja (1Ts 4, 12).
E, escrevendo aos Hebreus, insiste em que se exortem mutuamente ao bem enquanto durar aquilo que a Escritura chama de Hoje, para que não aconteça que alguém, seduzido pelo pecado do escândalo, permaneça endurecido na sedução da culpa (Hb 3, 13).
É preciso pregar Jesus Crucificado mais pelo exemplo do que pelas palavras. Vivamos de boas obras, porque em vão possuiríamos a terra se não a cultivássemos; ela não nos produziria fruto. “Comandamos pelo exemplo, diz Santo Atanásio, e persuadimos pela língua (5)”.
“Quando as nuvens estão cheias, derramam chuvas sobre a terra”, lemos no Eclesiastes (Ecl 11, 3). Essas nuvens representam os homens que não cessam de dar bom exemplo. Fecundados pela graça do Senhor, praticam o bem, espalham a vida por onde passam, mitigam o ardor das paixões, irrigam as almas áridas e fazem com que produzam frutos abundantes e excelentes de vida.
”Aquele que tem o ofício de instruir, governar e educar os povos na virtude deve mostrar-se santo em tudo e em nada repreensível. Com efeito, aquele que há de censurar os pecados alheios deve estar sem mancha; por isso, deixe de ensinar o bem aquele que não se preocupa em praticá-lo (6)”. Há algo ainda pior para esse homem; pois, como bem observa São João Crisóstomo, “vivendo mal, ele indica, por assim dizer, a Deus o modo pelo qual deve condená-lo. Severo juízo caberá àquele que se empenha em falar bem, mas não pensa em viver bem. Mandar e não executar é comportar-se como hipócrita e bufão. Deus nos escolheu para que resplandecêssemos: devemos ser modelos. Que o esplendor de nossa vida seja uma escola pública e um exemplo de toda espécie de virtude (7)”.
Aquele que não pratica as coisas que ensina não é útil aos outros; antes, prejudica-os e condena a si mesmo, porque, como diz a Escritura, o Senhor impôs a todo homem o dever de procurar a salvação do próximo mediante o bom exemplo (Eclo 17, 12).
“É preciso que a estima pública dê testemunho de nossas ações”, diz Santo Ambrósio (8); porque, como acrescenta São Tomás, “não se pode deixar de desprezar as palavras daquele que tem costumes desprezíveis (9)”. Por isso, Santo Agostinho exclama: “Ó vós que sois cristãos, dai ao próximo exemplos que deem a vida, não a morte (10).
Sobre estas palavras do Cântico: “Eu sou a flor dos campos e o lírio dos vales”, São Bernardo deixou escrito: “Também os costumes têm suas cores e seus odores: a cor, aos olhos da consciência; o odor, na fama. A bondade e a pureza de intenção dão à tua obra a cor; o odor provém do exemplo de modéstia e de virtude. O justo é, em si mesmo, um lírio cândido e, para o próximo, um lírio odoroso (11)”.
O que é a rosa? É a graça da primavera. O que é o bom exemplo? A graça da virtude ou, como o chama São Paulo, “uma palavra de vida que conduz à glória” (Fl 2, 16).
Pelos atos do corpo conhece-se a alma; os movimentos de um são a voz da outra. Com o bom exemplo, estimulam-se aqueles com quem se vive a vigiar sobre seu exterior e seu interior; sobre seus olhos, sua língua, seus ouvidos, suas mãos, seus pés, sua mente e seu coração. O homem que edifica os outros com seu exemplo é, no dizer de São Bernardo, um reservatório transbordante, um canal que conduz em abundância as águas da virtude (Serm. in Cantic.). E o pagão Sêneca já observava em suas Cartas que “breve e atraente é o caminho do exemplo; longo e fastidioso, o do ensinamento (12)”.
Nada se pode comparar ao modelo oferecido pelo cristão virtuoso. A ele podemos aplicar aquele dito do real Profeta acerca de Deus: “Na vossa luz veremos a luz” (Sl 35, 10); com efeito, à luz dos bons exemplos, o homem contempla a beleza da virtude e sente-se estimulado a praticá-la. Pode-se dizer do bom exemplo que, à semelhança de Jesus Cristo, ele ilumina toda pessoa que vem a este mundo; e daquele que, com os bons exemplos, exala o perfume das virtudes, pode-se repetir que ele é o caminho, a verdade e a vida. Como o sol que, em seu curso, difunde por toda parte torrentes de luz (Ecl 1, 6), o bom exemplo resplandece de maravilhosa beleza, aquece, fecunda e vivifica tudo aquilo de que se aproxima: é, como diz o Crisóstomo, uma argumentação à qual não se pode resistir (13). Por isso, São Jerônimo vê na vida dos Santos uma interpretação clara e incontestável das Sagradas Escrituras (14). Tertuliano chama o cristão de um compêndio do Evangelho (15); e São Gregório vê um grande doutor naquele que resplandece de muita santidade (16).
A luz que os justos difundem enche de alegria o coração (Pr 13, 3), desbarata e derruba o demônio, o mundo e as paixões, porque as trevas não podem suportar a luz, diz São Bernardo (17). Gedeão escondeu lâmpadas em vasos de barro; mas, chegada a hora do combate, quebra os vasos e, com a luz que de repente resplandece, assusta o inimigo, vence-o e o põe em fuga.
As fontes de água viva jorram continuamente para saciar e refrescar aqueles que querem aproveitá-las; mas, se alguém não quer beneficiar-se delas, nem por isso deixam de brotar. O mesmo acontece com o bom exemplo…
O Concílio de Trento chama o bom exemplo de uma espécie de pregação contínua (18); e Santo Agostinho diz que “a vida do cristão deve ser uma pregação de salvação, porque os bons exemplos emitem uma voz mais sonora e mais poderosa que qualquer trombeta (19)”- E Jesus Cristo disse: “Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles vejam as vossas boas obras e deem glória ao vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5, 16).
O bom exemplo dissipa as trevas, traz uma luz viva e traça o caminho reto. A virtude e as boas obras são chamadas luz, 1° porque nasceram para a luz divina e iluminam os homens; 2° porque têm origem em Deus, verdadeira luz.
O bom exemplo, diz São Paulo, traz paz e felicidade tanto a quem o dá como a quem o recebe (Fm 7); leva a conhecer, amar, servir e glorificar a Deus, acrescenta São Pedro (1Pd 2, 12). Pelo bom exemplo, observam-se e fazem-se observar os mandamentos divinos, acrescenta a Sabedoria, e assim o homem conserva a si mesmo e aos outros incólumes de todo mal (Sb 19, 6).
Jesus Cristo deu, em cada instante de sua vida, ao mundo inteiro os mais sublimes exemplos de toda espécie de virtude; por isso, o Apóstolo nos exorta a revestir-nos de Jesus Cristo (Rm 13, 14). Jesus Cristo é nossa força, nossa vida, nosso esposo, nosso alimento, nossa bebida, nosso senhor, pai e irmão, nosso coerdeiro e nossa herança, nossa morada, hóspede e amigo, nosso médico e remédio, nossa saúde, riqueza, luz e glória, o sacerdote por excelência, a fonte da graça, da vida e da verdade (Jo 14, 6); fonte da qual brota a abundância das águas divinas que saciam as almas dos fiéis; ele visita a terra, rega-a e fecunda-a. Imitemo-lo com uma vida santa, para que possamos repetir, àqueles que nos veem, com São Paulo: “Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Cor 11, 1). Inspiremos-nos nos exemplos do Redentor e seremos edificantes para o nosso próximo. “Mantenhamos fixo o olhar, diz o Apóstolo, no autor de nossa fé” (Hb 12, 2). “Jesus Cristo começou a fazer e depois a ensinar”, dizem-nos os Atos dos Apóstolos (At 1, 1). Assim deve proceder o cristão, para que todos se contemplem nele com prazer, desejem permanecer junto dele, compreendê-lo e imitá-lo, e para que os homens, vendo-o, julguem ver outro Jesus Cristo. O cristão é digno deste nome na medida em que imita e apresenta em si mesmo Jesus Cristo; fora disso, o nome que leva é uma palavra vã…
O Redentor atestou, a respeito de São João Batista, que ele era “uma lâmpada ardente e resplandecente”
(Jo 5, 35). E São Bernardo faz a seguinte observação: É coisa vã somente resplandecer, mas nada vale somente arder; arder e resplandecer ao mesmo tempo, porém, é a perfeição. São João Batista era uma lâmpada ardente e resplandecente; e não primeiro resplandecente e depois ardente, mas primeiro ardente e depois resplandecente. Sua luz provinha do fervor que o inflamava, e não o fervor nascia da luz que difundia (20). Por isso, é vaidade e erro brilhar pelo esplendor do engenho e, entretanto, estar privado do fogo da piedade.
São Gregório Nazianzeno diz de São Basílio que sua palavra era trovão, porque sua vida era relâmpago (21).
Os Santos difundem o bom odor de Jesus Cristo; e este é “odor de vida que ressuscita os povos”, como se exprime São Paulo (2Cor 2, 15-16). Quanto mais se esmagam os aromas, tanto mais espalham ao redor um odor agradável; assim, quanto mais Jesus Cristo, os Apóstolos, os Mártires, os Confessores e todos os Santos foram apertados e esmagados pelas tribulações e perseguições, tanto mais abundantemente difundiram o suave e divino odor do bom exemplo e de toda virtude. À imitação do grande Apóstolo, todos os Santos fizeram o bem não somente diante de Deus e por Deus, mas também diante dos homens e para a salvação deles (2Cor 8, 21).
São Bernardo conta do santo bispo Malaquias que não movia nenhum membro sem que o impelisse uma razão e visasse à edificação do próximo. São Luciano, sacerdote e mártir, converteu grande número de pagãos pela modéstia, serenidade e piedade de seu olhar. E dele se narra que, tendo chegado aos ouvidos do imperador Maximiano, por relato de várias pessoas, que seu rosto inspirava tanto respeito e amor que, se ele o tivesse visto, se teria feito cristão, mandou que lhe cobrissem a cabeça, por temor de que aquela visão convertesse a ele e aos assistentes (BARON. Ann.).
Ouvi São Gregório: Em Abel, contemplai um espelho de inocência; em Henoc, um modelo de pureza de intenção. Noé nos estimula, com seu exemplo, a perseverar e jamais deixar-nos cair da esperança; Abraão nos mostra até onde deve chegar nossa obediência; Jó nos ensina a constância nas adversidades; Moisés, qual deve ser a doçura e a mansidão. Assim os Santos resplandecem como estrelas no firmamento, para iluminar-nos e indicar-nos o caminho das boas obras, que é o do Céu. Quantos Santos Deus fez, tantos astros resplandecentes criou para dissipar as trevas que envolvem os pecadores (Lib. moral.). Depois disso, entende-se o sentido daquelas palavras de São Paulo aos Hebreus: “Visto que estamos rodeados de tão grande número de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos pesa, rompamos os laços do pecado e corramos, mediante a paciência, na arena que se abre diante de nós” (Hb 12, 1).
Quem aspira à santidade considere a vida dos Santos, imite seus exemplos, extraia do fogo e da deslumbrante claridade desses astros divinos a luz do espírito e a chama do coração. À imitação dos Santos, o cristão procura, como diz São Gregório, defender com palavras seu modo de viver e fazer parecer belas, pelo exemplo da vida, as suas palavras (22), não mirando em tudo isso a sua glória, mas a de Deus e a salvação do próximo; e justamente porque visa somente a este duplo objetivo, a glória o segue e o cerca, como diz São Jerônimo de Santa Paula: Ela fugia da glória, e a glória a seguia…
“A vida do justo, lemos nos Provérbios, assemelha-se ao sol nascente, que avança e cresce até a plenitude do dia” (Pr 4, 18). “‘O cristão convence ainda antes de falar, acrescenta o Crisóstomo, assim como o esplendor do sol dissipa as trevas ao despontar no horizonte (23)”.
“Os justos são os anjos da terra, são divindades dotadas de corpo… O olhar de Deus os contempla amorosamente, diz o Eclesiástico; ele os exalta à medida que se humilham; e muitos, depois de tê-los observado, começaram a honrar a Deus” (Eclo 11, 13).
O Papa Clemente VI observa, em louvor de São Tomás de Aquino, como ele fosse o modelo de toda virtude, porque cada um de seus membros transmitia um ensinamento particular: lia-se a simplicidade em seus olhos, a bondade em seu rosto, a humildade em seu modo de escutar; tinha a sobriedade no paladar, a verdade na boca; tudo ao redor difundia um perfume de virtude; irrepreensíveis eram suas ações, generosa a mão, grave o porte, reservado e gracioso o trato, piedoso o coração, brilhante e agudo o engenho. Sua bondade era afetuosa, sua alma santa e ardente de caridade. Foi, em uma palavra, o retrato do cristão exemplar, a imagem viva da virtude.
São Bernardo diz de Santo André Apóstolo que “na cruz pregava Jesus Cristo crucificado (24)”; e Tertuliano, falando dos primeiros cristãos, afirma que “cobriam o vício de vergonha somente com sua presença (25)”.
Está escrito no Evangelho acerca do Centurião que ele creu, e toda a sua família (Jo 4, 53). “Minha alma, cantava o Salmista, servirá a Deus, e meus descendentes me imitarão” (Sl 21, 31).
Um pastor, um rei, um magistrado, um pai de família, um senhor etc. que dão bom exemplo promovem a glória de Deus…, o triunfo da religião…, a salvação das almas…; vede Constantino…, Carlos Magno…, São Luís… Ide àquela casa, governada por um pai e uma mãe edificantes… Que ordem, regularidade, felicidade etc. Quão desastrosas, ao contrário, não são as consequências do mau exemplo!
«Não vos cause admiração, ó irmãos, dizia São João, que o mundo vos odeie» (1Jo 3,13).
Cinco são os motivos que levam os maus a criticar e condenar as pessoas edificantes. O primeiro é a dissemelhança dos costumes; pois, se a semelhança inclina ao amor, a deformidade induz ao ódio. O segundo é a inveja… O terceiro é o despeito que experimentam os mundanos, vendo os cristãos separarem-se deles e fugirem à sua companhia. O quarto é que não podem suportar as repreensões das pessoas virtuosas, pois estas, com sua vida, são uma severa condenação da má conduta. O quinto está na oposição que existe entre os filhos do século e os santos; aqueles estão inchados de amor-próprio, estes não se movem senão pelo amor de Deus.
A perfeição do bom exemplo encontra-se naquela exortação de São Paulo aos Romanos: «Revesti-vos de Jesus Cristo» (Rm 13,14); e revestir-se de Jesus Cristo quer dizer, ensina o Crisóstomo, representar Jesus Cristo em todas as nossas ações, pela santidade e pela mansidão (Homil. ad pop.). Seja, pois, o cristão um retrato fiel, uma imagem viva de Jesus Cristo; este é, para ele, um sagrado dever solenemente contraído na fonte batismal: ali ele se obrigou a representar Jesus Cristo em sua vida, em suas obras, em seu exterior, em tudo aquilo que é, enfim. É certo que todos os cristãos deveriam ser outros tantos Cristos pela imitação e pelo exemplo; pois São Jerônimo nos adverte: «a vida e a conversação do cristão devem ser ordenadas de tal modo que, em seus gestos, em seus modos de portar-se e em todas as suas ações, transpareça a graça celeste (26)».
«Fazei tudo sem murmurações nem discussões, escrevia o grande Apóstolo aos Filipenses; para que sejais irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, isentos de culpa no meio de uma nação perversa e corrompida, entre a qual brilhais como luzeiros no mundo, levando a palavra da virtude» (Fl 2,14-16).
Santo Ambrósio comenta assim estas palavras: O Apóstolo adverte os cristãos e lhes ordena que se lembrem de sua profissão e lhe correspondam, para que resplandeçam entre os incrédulos, como o sol e a lua em meio às estrelas, e sirvam, pela vida, pelas palavras e pelos costumes, de modelo àqueles que os contemplam (In Epl. ad Philipp.).
«O Apóstolo, diz o Crisóstomo, exorta os cristãos a lançarem luz e esplendor nas trevas do século, como outros tantos astros (27).» «Quer, acrescenta Santo Anselmo, que sejam astros os quais, fixos no Céu, não se preocupam absolutamente com o que acontece na terra, mas se ocupam unicamente de cumprir seu curso e iluminar o mundo (28).»
Devemos ser faróis que iluminam e conduzem ao porto os navegantes errantes na noite e em meio às tempestuosas vicissitudes do mundo; ajudá-los a evitar o naufrágio e a manter a proa voltada para a cidade santa: devemos assemelhar-nos àquela mulher do Apocalipse, imagem da Bem-aventurada Virgem e da Igreja, que está vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas ao redor da cabeça (Ap 12,1).
Seja calma a voz, modesto o porte, decente a atitude, circunspecto o trato, humilde o olhar, nutrida a mente de bons pensamentos, elevada a alma ao Céu. Imitemos os Tessalonicenses, aos quais São Paulo escrevia, louvando-os: «Vós vos tornastes exemplo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia. Pois, partindo de vós, a palavra de Deus se divulgou não somente pela Macedônia e pela Acaia, mas também por toda parte se propagou a fé que tendes em Deus, de tal modo que não é necessário que falemos disso… Todos narram o bom êxito que obtivemos entre vós e como vos convertestes dos ídolos para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar do Céu o Filho dele (a quem Ele ressuscitou dos mortos), Jesus, que nos livrou da ira que há de vir» (1Ts 1,7-10).
A respeito dos Romanos, o mesmo Apóstolo atestava que sua fé era célebre na boca de todo o mundo (Rm 1,8); exortava o discípulo Timóteo a ser exemplo de caridade, de fé e de castidade para os fiéis, nas palavras e no trato (1Tm 4,12); e animava os Hebreus a vigiarem uns pelos outros, para se estimularem à caridade e às boas obras (Hb 10,24). Finalmente, sugeria a Tito que se mostrasse modelo de boas obras em tudo: na doutrina, na pureza dos costumes e na gravidade (Tt 2,7).
Também Sócrates ordenava a seus discípulos que adquirissem e praticassem estas três virtudes: 1° a prudência; 2° o silêncio; 3° a modéstia (Anton. in Meliss.).
Quando, pela primeira vez, se tratou de escolher e estabelecer diáconos, os Apóstolos advertiram os fiéis de que procurassem e escolhessem dentre eles sete homens de reputação íntegra, cheios do Espírito Santo e de prudência (At 4,3).
O bom exemplo exige que vivamos, de algum modo, como São Bernardo, que assim nos foi retratado por um historiador: A serenidade brilhava em seu rosto, a modéstia regulava seu porte, a mais consumada prudência inspirava suas palavras; cauteloso nos empreendimentos, assíduo na oração, piedoso na meditação, grande na fé, firme na esperança, inflamado de caridade, trazia como sinal distintivo uma profunda humildade e uma terníssima piedade. Prudente nos conselhos, útil nos negócios, alegre entre os insultos, sempre pronto a prestar serviços, de costumes suavíssimos, santo por seus méritos, era cheio de sabedoria, de virtude e de graça diante de Deus e dos homens.
“É preciso, diz Santo Agostinho, que os adoradores e servos de Deus sejam tão mansos, dignos, prudentes, piedosos, irrepreensíveis, imaculados, que todo aquele que os encontrar os admire e diga: Estes são todos deuses (29).” Não pelos adornos do corpo, mas pelos da alma, que são a modéstia e a inocência, devemos distinguir-nos.
A propósito daquela sentença de Jesus Cristo: “Levai em vossas mãos lâmpadas ardentes” (Lc 12,35), São Gregório escreve: “Temos nas mãos lâmpadas ardentes quando, por meio de boas ações, oferecemos aos outros luminosos exemplos (30).”
Ouvi ainda São João Crisóstomo e São Martinho; o primeiro nos diz que “é preciso levar uma vida irrepreensível, para que aquele que nos observa veja em nós e em nossa vida um espelho puríssimo. Poderíamos quase dispensar as palavras, se nossa vida resplandecesse de santidade (31)”. O segundo desejaria que de nossa boca não saíssem senão palavras de paz, de castidade, de caridade e de religião; que o mundo raramente encontrasse nelas eco e que Cristo nelas ressoasse com frequência (32).
Também se podem aplicar aos leigos aquelas prescrições que o Concílio de Trento dirigia ao Clero: “É absolutamente necessário que os clérigos, chamados ao serviço do Senhor, ordenem tão retamente sua vida e seus costumes que, tanto no vestir como no trato, tudo neles exale gravidade, compostura e religiosidade, a fim de que quantos os observarem se sintam atraídos por suas ações a venerá-los (33).”
“Os que possuem a ciência, lemos em Daniel, resplandecerão como a luz do firmamento, e os que ensinam a muitos a justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade” (Dn 12,3).
Ora, o sinal mais incontestável e claro da verdadeira ciência e o melhor meio de instruir consistem em levar uma vida exemplar…
Por meio do bom exemplo obtemos aqui embaixo a paz, a graça e uma boa morte; e, no outro mundo, uma felicidade imperecível.