“Todos os que querem viver piedosamente em Jesus Cristo sofrerão perseguição”, diz São Paulo (2Tm.3,12). E se alguém perguntar como isso pode ser, quando não é difícil encontrar entre os cristãos almas piedosas que, tranquilamente e sem qualquer perseguição, levam uma vida santa, responderei com o Crisóstomo que, sob o nome de perseguição, devem entender-se todos os obstáculos, penas e dores experimentados por aqueles que querem viver santamente, por causa dos esforços que lhes cabe fazer para refrear suas paixões, praticar a continência, a humildade e a temperança, e dedicar-se ao serviço e ao amor de Deus (Homil. de Cruce). Santo Agostinho observa que as almas fervorosas sofrem com a vida má dos ímpios (De Morib.), como acontecia ao real profeta, que dizia: “Vi os prevaricadores e consumia-me de angústia” — (Sl.118, 158). Além disso, os bons sofrem frequentemente os insultos e os sarcasmos dos maus…
“Jamais faltará a tribulação da perseguição onde se encontrar um fiel observante da virtude. E, como é necessário viver sempre piedosamente, deve-se sempre carregar a cruz”, dizia São Leão, papa (1).
Mas, sob o nome de perseguição, entende-se principalmente a tentação do demônio; por isso diz o Eclesiástico: “Quando, ó filho, te dispões a entrar no serviço de Deus… prepara a tua alma para a tentação” (Eclo. 2, 1). É impossível, diz o Crisóstomo, que aquele que move guerra aos espíritos malignos fique isento de vexações (2). Não é lícito aos atletas de Deus buscar delícias, nem é permitido aos combatentes ocupar-se de banquetes. Ora, a vida presente é uma luta, um combate, um caminho coberto de laços. Virá o tempo do repouso; o presente é o tempo das cruzes…
“No reino dos céus é necessário entrar em meio a muitas tribulações”, sentencia São Paulo (At 14, 21).
1° Oportet, é preciso, é necessário; porque assim Deus decretou: estabeleceu que se vá para o céu pelo caminho do sofrimento; quer se queira, quer não, assim deve ser. Levemos, pois, de bom grado as cruzes que nos sobrevêm, pois não podemos fazer de outro modo. Procurando repeli-las, aumentaríamos seu peso e seu número, perderíamos o mérito de as ter carregado e a recompensa,
2° Oportet, é preciso, porque é justo que o reino de Deus, tão grande e tão belo, seja conquistado com obras heroicas e sofrimentos. A cruz é a porta do céu…
3° Oportet, é preciso; porque Jesus Cristo, nosso chefe, abriu o céu com sua paixão e morte…
4° Oportet, é necessário; porque todos os santos seguiram este caminho para chegar à felicidade eterna: não há outro caminho senão este…
5° Oportet, é preciso; porque os pecados devem ser expiados com as cruzes, e os movimentos da concupiscência, reprimidos com a dor.
6° Oportet, é preciso; porque esta vida está cheia de misérias, tentações, perseguições etc., das quais ninguém pode escapar…
7° Oportet, é preciso; porque estamos cercados de inimigos numerosos e implacáveis, que juraram nossa ruína: esses inimigos são o demônio, o mundo, a carne…
8° Oportet, é preciso; porque quem não bebeu do cálice da amargura não merece beber do cálice das doçuras…
9° Oportet, é preciso; porque somos culpados e não podemos obter misericórdia por outro meio senão o da penitência e das cruzes…
10° Oportet, é preciso; para que nos desapeguemos do mundo, o desprezemos e prefiramos a ele a graça e o céu… Para que vos torneis companheiro de São Lourenço, é preciso que experimenteis o fogo; para serdes um São Vicente, é preciso que sofrais com alegria o suplício da grelha ardente.
“A alma, escreve Santo Agostinho, tem dois carrascos que não a atormentam ao mesmo tempo, mas alternadamente: o temor e a dor. Quando estais em bom estado, temeis perdê-lo; quando estais atribulados, sofreis e vos afligis com isso (3)”.
As cruzes, as contrariedades, os sofrimentos não devem ser atribuídos ao demônio, à carne ou a algum de nossos inimigos, mas a Deus, que desde toda a eternidade os previu e preparou para cada um, a uns de um gênero, a outros de outro; a fim de que, por meio deles, cada um se conforme a Jesus crucificado.
Assim o julgava o profeta, como se depreende destas suas palavras: “Vós nos provastes, ó Senhor, e nos examinastes, como se prova a prata” (Sl 65,9), “e nos conduzistes a um lugar de refrigério, fazendo-nos passar pela água e pelo fogo” (Ib. 11). “Cingistes nossos rins com um cinturão de dores.” “Alimentar-nos-eis de pranto e apresentareis aos nossos lábios um cálice transbordante de lágrimas” (Sl 79,6). Assim também pensava Jó, o qual, em meio às suas adversidades de toda espécie, não dizia de modo algum: “Deus me deu as riquezas, os filhos, a prosperidade, o poder, e o demônio me tirou tudo isso”, mas dizia: “Deus me deu todas as coisas. Deus mas tirou; foi feito como agradou a Deus: bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). Que mais? O próprio Senhor disse com sua boca: “Mostrarei a Paulo quanto lhe será necessário sofrer pelo meu nome” (At 9,16). “Ó crueldade misericordiosa! — exclama Santo Agostinho — fazer sofrer pelo nome de Cristo aquele que se enfurecera contra o nome de Cristo! (4)”
As cruzes que Deus envia no tempo provêm sempre de sua misericórdia; se Deus não submetesse o homem aos sofrimentos deste mundo, começaria depois a sua terrível justiça na eternidade…
Que os maus sofram, dirá talvez alguém, é justo; mas os bons! Os bons nascem culpados… pelas cruzes purificam-se, aumentam o número de suas coroas; sem cruzes talvez se tornassem maus; já não seriam conformes a Jesus Cristo; os bons sofrem ainda para obter a conversão dos maus e expiar-lhes os pecados… Além disso, o homem faz uma falsa ideia das cruzes… As cruzes são um tesouro… Nada é mau, exceto o pecado… O trabalhador a quem o patrão paga a jornada considera injusto que o tenham feito trabalhar? Parece injusto ao soldado que o façam exercitar-se nas armas e o mandem combater? Pelo contrário, as cruzes são um penhor de amor da parte de Deus, segundo sua palavra: “Eu corrijo e castigo aqueles que amo” (Ap 3,19). Jesus Cristo envia as cruzes aos fiéis: 1° para aumentar seus méritos…; 2° para mantê-los na humildade; 3° para fazê-los expiar os pecados…; 4° para manifestar mais esplendidamente a sua bondade, a sua sabedoria e o seu poder, como aconteceu na ressurreição de Lázaro, na cura do cego, do paralítico e nas paixões dos mártires…
“Por todas as cidades que percorro em minha viagem, o Espírito Santo me faz compreender que me aguardam cadeias e tribulações. Mas eu não temo nada disso; tampouco considero a minha vida mais preciosa do que eu mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que me foi confiado pelo Senhor Jesus Cristo” (At 20,23-24). “E não estou somente pronto para ser acorrentado, mas também para dar a vida pelo nome do Senhor Jesus” (At 21,13).
A coragem heroica de São Paulo teve como imitadores milhões de mártires e santos em todos os séculos. Se as cruzes fossem realmente aquele peso tão grave e incômodo que dizem os cegos partidários do mundo, os santos não teriam subido ao céu com passo tão firme, rápido e alegre. Os maiores santos sempre foram aqueles que tiveram a parte mais abundante nas cruzes; a exemplo do grande Apóstolo, não se deixavam assustar por sofrimento algum, mas alegravam-se em meio às provações.
Embora São Paulo reconhecesse como grandes as tribulações e perseguições que havia enfrentado, confessava ainda que o Senhor lhe dera coragem e o livrara de toda adversidade (2Tm 3,11). Assim o mesmo Senhor havia prometido pela boca do Salmista: “Estarei com ele nas tribulações, salvá-lo-ei e glorificá-lo-ei” (Sl 90,15), e pela boca de Isaías: “Não temas, eu te ajudei e te ajudarei” (Is 41,13). Quem jamais esperou no Senhor em meio às cruzes e foi decepcionado? Observai José, Jeremias, Daniel, os três jovens na fornalha, Jó, Tobias, o bom ladrão, o centurião, os apóstolos, os mártires…
Na sua Segunda Epístola aos Coríntios, o Apóstolo faz uma breve enumeração das cruzes e menciona primeiro as que provêm dos perigos. “Corri muitos riscos — diz ele — nas viagens, riscos nos rios, riscos entre os salteadores, riscos entre os meus compatriotas, riscos na cidade, riscos na solidão, riscos no mar, riscos entre os falsos irmãos” (2Cor 11,26). Recorda outras cruzes no versículo seguinte: “Vivi em meio às angústias e aos trabalhos, na fome, na sede, na nudez e no frio” (Ib. 27). Em suma, sofri toda espécie de tribulações: combates exteriores, temores interiores” (2Cor 7,5). Cruz pelas contrariedades, pelos aborrecimentos, pelas tristezas, pelas aflições, pelas perdas, pelas ilusões, pelos ciúmes, pelas maledicências, pelas calúnias etc…. Cruz pelas doenças que atingem a nós, ou aos nossos parentes, ou amigos… Cruz pela morte de uma mãe, de um filho, de uma esposa etc…. Tendo entrado o pecado no mundo, trouxe consigo toda espécie de males, desgraças e misérias…
As cruzes nos tornam perfeitamente semelhantes ao Filho de Deus, Jesus Cristo crucificado; e, semelhantes a Jesus Cristo, participantes de sua cruz, teremos parte em sua glória eterna: não é isso uma utilidade e uma dignidade imensa? … Não somente nos tornam semelhantes a Cristo, mas também seus irmãos, filhos e herdeiros de Deus…
“As cruzes — escreve São Gregório — aumentam o nosso zelo pelas boas obras; então acontece com o homem o mesmo que com o fogo, que tanto mais se acende quanto mais se sopra sobre ele (5).” Os sofrimentos são úteis e necessários à natureza decaída, para restaurá-la e curá-la; neles está o nosso sumo bem. Se o mármore fosse inteligente, não se alegraria com os golpes do cinzel que o trabalha e dele forma uma bela estátua? Não exultaria a madeira, se fosse capaz disso, sob a plaina que a alisa, limpa e transforma em magnífico trono? O justo deve, portanto, estar contente com as aflições e suportá-las com alegria, porque elas são para ele como o fogo para o ouro, a lima para o ferro, o cinzel para a pedra, a plaina para a madeira, a peneira para o trigo… As cruzes são, ademais, muitíssimo vantajosas para os pecadores, para fazê-los entrar em si mesmos e converter-se. “Cercarei com uma sebe de espinhos o caminho que percorreis — diz o Senhor pela boca de Oseias — e então a criatura dirá: Voltarei ao meu primeiro esposo” (Os 2,6-7). Deus atravanca de espinhos o caminho dos pecadores quando os detém e impede de cair no pecado, enviando-lhes doenças e desgostos; expondo-os ao ódio e aos enganos; aquilo que o mundo chama de cruzes são outros tantos espinhos de que Deus se serve para fechar aos pecadores a porta do pecado. Ou então lhes retira as ocasiões próximas de pecado, o que é uma misericórdia soberanamente delicada, embora o pecador, devorado pela concupiscência, considere dura e cruel essa conduta da Providência.
Reconduzida a si pelos sofrimentos, a alma culpada e adúltera diz: Voltarei ao meu primeiro esposo, isto é, voltarei a Deus, que abandonei. Ela fala assim, diz São Gregório, porque, abatida sob o peso da adversidade, deseja e busca a Deus como o verdadeiro bem e o único capaz de aliviá-la; percebe que, nas supostas vantagens por ela desejadas e buscadas fora de Deus, não encontrou senão ilusões, amarguras e espinhos agudos. Pois, quando a alma começa a ser dilacerada pelos espinhos, ferida cruelmente pelo mundo que amava, compreende muito bem quanto era mais feliz com seu primeiro esposo, que é Deus. Assim, o filho pródigo volta a si quando desgraças de toda espécie desabam sobre ele e o esmagam. Ordinariamente, a adversidade corrige e emenda aquilo que uma vontade perversa havia corrompido (Moral.).
“Assim como o homem, pecando, apaga aquilo que há de Deus nele, assim Deus — diz Santo Anselmo — castigando-o, apaga aquilo que há de homem nele (6).” Santo Agostinho diz: “Se sois ouro, por que temeis o fogo? Estareis na fornalha, mas a chama vos purificará da escória. Se sois trigo, por que recusais a peneira? Não aparecereis como éreis na espiga, se a peneira não vos separar da palha. Se sois fruto da oliveira, por que fugir do lagar? A vossa qualidade não será conhecida senão à medida que a pedra do lagar vos purificar da borra (7).”
Ouvi ainda o mesmo doutor: “O cacho pende da videira e a azeitona, da oliveira; esses dois frutos são ordinariamente levados ao lagar. Enquanto pendem da árvore, gozam do ar livre, mas a uva não se torna vinho, nem a azeitona se transforma em óleo, senão depois de serem prensadas. O mesmo acontece com os homens que Deus predestinou desde todos os séculos a se tornarem perfeitamente conformes ao seu Unigênito, o qual, particularmente em sua paixão, foi posto sob o lagar. Esses homens, portanto, antes de se dedicarem ao serviço de Deus, gozam, como cachos ou azeitonas presos à árvore, de uma deliciosa liberdade no século; mas, como está escrito: Filho, se desejas consagrar-te a Deus, vive na justiça e no temor e prepara a tua alma para a tentação; por isso é necessário que todo aquele que decide servir a Deus saiba que veio ao lagar; será prensado, esmagado, não para que pereça neste século, mas para que se torne vinho e óleo requintados, a serem guardados nos depósitos de Deus. É despojado de seus apetites carnais e terrenos, como o bago de suas sementes. Por isso o Apóstolo escreve: Despojai-vos do homem velho e revesti-vos do novo, o que não se faz senão no lagar (8).”
Santo Antíoco pregava que, assim como a cera não recebe a impressão do selo se não for aquecida e amolecida pelo fogo, assim também o homem não recebe em si a impressão divina se antes não for provado por muitas cruzes (9).
Deus nos ensina pela boca de Isaías a utilidade das cruzes: “Por isso te porei um freio, para que não te percas” (Is 48,9). Poderosíssimo freio são as tribulações… Jeremias diz: “O Senhor enviou do céu o fogo das tribulações aos meus ossos e me encheu de ciência; armou uma cilada para os meus passos, para me impedir de cair no mal” (Lm 1,33). O sofrimento é a rede com que Deus pesca os pecadores, tira-os da água envenenada do vício e os atrai para si. Deus não concede favor aos homens sem fazê-lo preceder por alguma cruz.
As aflições oferecem às virtudes generosas e heroicas uma ocasião de exercício de grandíssimo mérito. As provas que oprimem Jó o tornam perfeito; a cegueira produz a santidade de Tobias; a calúnia imortaliza José; a perseguição purifica Davi; os leões manifestam a virtude de Daniel; as guerras santificam os Macabeus… Alguns doutores perguntam por que Jó, atormentado por graves e múltiplas tentações, saiu vitorioso da prova, enquanto Adão cedeu a uma leve solicitação de Eva, perdendo assim a si mesmo e toda a sua descendência. Responde Santo Agostinho: Jó foi vencedor porque estava estendido sobre um monturo; Adão foi vencido porque estava livre num jardim de delícias (10). Vê-se, por isso, que as cruzes nos tornam triunfantes, enquanto as delícias nos tornam escravos. As dores e adversidades de Jó o confirmam no bem; os prazeres e prosperidades de Adão o arrastam para o mal.
“Em meio a toda espécie de tribulação, sinto o coração inundado de alegria e a alma exultar de júbilo”, dizia São Paulo (2Cor 7,4). Sabemos igualmente que todos os outros apóstolos, depois de terem sido açoitados e ultrajados, saíam dos tribunais radiantes de alegria, porque Deus os havia julgado dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus (At 5,41). Não nos dizem essas expressões que as cruzes são grandes favores e portadoras de imensa felicidade? … Mas não são as cruzes, por si mesmas, que geram a alegria, comenta o Crisóstomo; esta provém daquilo que se sofre por Jesus Cristo. Sofrimentos corporais, alegrias espirituais (Hom. de Cruce).
“Alegrai-vos, diz-nos São Pedro, porque participais dos sofrimentos de Jesus Cristo, para que exulteis quando se manifestar a sua glória. Bem-aventurados sois se sofrerdes insulto por causa do nome de Cristo, porque a honra, a glória, a virtude de Deus e o seu Espírito repousam sobre vós. Se alguém sofre na qualidade de cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por isso” (1Pd 4, 13, 14, 16). São Pedro aponta dois motivos que devem fazer-nos alegrar em meio às cruzes: 1° porque, por meio delas, participamos dos méritos da paixão de Jesus Cristo; 2° porque, tendo sofrido com Jesus Cristo, ressuscitaremos para entrar com ele na glória eterna…
Preciosas, portanto, são as cruzes, e devemos alegrar-nos quando nos sobrevêm. Com efeito, 1° as cruzes nos desapegam do mundo e nos impedem de confundir o exílio com a pátria, como se exprime São Gregório (11), ou de afeiçoar-nos à estalagem como se fosse nossa casa, segundo a frase de Santo Agostinho (12).
2° As cruzes são o sinal da eleição, da predestinação e da filiação dos filhos de Deus, pois São Paulo afirma que Deus castiga aqueles que ama e açoita aqueles que conta entre os seus filhos (Hb 12,6). Com efeito, o anjo disse a Tobias, que se tornara cego: “Porque eras agradável ao Senhor, foi necessário que a tentação te provasse” (Tb 12,13). Isso levou Santo Agostinho a dizer: “Se permaneceis isentos de cruzes e açoites, também sois excluídos do número dos fiéis (13)”; e Santo Ambrósio (lib. 1, Epl. IV) dá à paciência nas adversidades o nome de mãe dos fiéis.
O cristão, escreve Santo Efrém, deve manter-se sob os golpes das tribulações, firme como uma bigorna que, embora incessantemente golpeada, nunca se dobra nem se move, mas permanece sempre a mesma. O cristão deve ter Jesus Cristo como trincheira e fortaleza e refugiar-se nele assim que irromper a guerra; diga com o Salmista: “Sede vós, ó Deus, o meu refúgio; salvai-me” (De fide, t. I).
3° As cruzes nos tornam semelhantes a Jesus crucificado, o Unigênito de Deus, e nos obtêm o seu auxílio. Pois, como diz o Apóstolo, “não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas enfermidades” (Hb 4,15).
4° Devemos amar as cruzes porque elas nos aliviam dos dois males mais pesados do homem: o pecado e a concupiscência. As adversidades são o nosso maior bem; uma expiação dos pecados cometidos, um antídoto que nos impede de recair nas enfermidades, o sal que nos preserva da corrupção…
5° Deveis alegrar-vos nas adversidades, porque, afligindo-vos com elas, tornais-nas mais pesadas, diminuís o mérito e até correis o risco de perder inteiramente a vossa recompensa. Se, ao contrário, as suportais com resignação e alegria, tornais-nas mais leves e alcançais maior mérito…
6° Quando se goza em meio às cruzes, elas dão origem às mais eminentes virtudes, que encontram ocasião de desenvolver-se e crescer… Observai o soldado no campo de batalha, que combate sob os olhos de seu general, na esperança de promoções e honras: que coragem demonstra, que prodígios de valor realiza! Uma bala lhe quebra um braço ou uma perna, e ele nem sequer toma conhecimento disso… As cruzes tornam fáceis e suaves as virtudes mais difíceis…
7° As cruzes elevam o homem e o colocam acima das coisas terrenas. Submetido à prova, ele fixa no céu seus afetos e suas esperanças. Como a águia que, pairando nas regiões mais sublimes da atmosfera, despreza os baixos vales da terra, ele contempla do alto os acontecimentos humanos e zomba dos furacões e das ruínas que eles trazem. Observa Gerson que, assim como a arca de Noé se elevava tanto mais quanto mais cresciam as águas do dilúvio, assim também a alma grande, doce e resignada se eleva à medida que as ondas das tribulações crescem ao seu redor, inchadas e impetuosas (Serm. da omn. Sanctis. part. II).
Para as almas generosas que amam ternamente Jesus Cristo, nada é mais deleitável, mais desejável, mais doce do que sofrer por Ele. Essas almas são então semelhantes a Jesus Cristo, e Jesus derrama sobre suas cruzes tão repugnantes o orvalho das divinas consolações; os espinhos desaparecem, e elas já não oferecem senão flores odoríferas e frutos requintados. É esta a ideia que exprime o real profeta: “Vossas consolações, ó Senhor, alegraram meu coração na proporção da multidão das dores de minha alma” (Sl 93, 19). São Paulo atestava de si mesmo que, assim como nele abundavam os sofrimentos de Cristo, tanto mais cresciam, da parte de Cristo, os confortos e as consolações (2Cor 1, 5).
Deus havia dado a Moisés uma madeira que, mergulhada nas águas, as transformava de salobras em doces; a cruz de Jesus, ou seja, o pensamento do Crucificado, é a madeira que adoça todos os nossos sofrimentos, a tal ponto que uma grande santa dizia: Como no céu já não há aflição, desejo permanecer aqui embaixo, para poder sofrer por longo tempo por Jesus Cristo.
“Considerai-vos bem-aventurados, escreve São Pedro, se vos cabe sofrer ultraje pelo nome de Jesus Cristo, porque a honra, a glória, a virtude de Deus e o seu espírito repousam sobre vós” (1Pd 4, 14). Disso se conclui que naqueles que sofrem por amor de Jesus Cristo se encontram: 1° a honra de Deus…; 2° a sua glória…; 3° a sua força e poder…; 4° o Espírito Santo…
Eis as razões que provam como as cruzes suportadas por Jesus Cristo se tornam o princípio de uma grande dignidade e de uma esplêndida glória: 1° suportá-las é um ato heroico de paciência, de fortaleza e de amor cristão; 2° são uma veste régia; 3° Jesus Cristo sublimou, glorificou e, por assim dizer, divinizou nossas cruzes, morrendo na sua cruz, do mesmo modo que divinizou a humanidade, unindo-a a Deus de tal maneira que o Verbo se tornou homem, e esse homem é verdadeira e propriamente Deus. Assim como se diz com verdade que Deus se encarnou e se fez homem, diz-se também, em sentido igualmente verdadeiro, que Deus sofreu, foi crucificado e morreu. Jesus Cristo consagrou, portanto, em si mesmo e em sua humanidade, as cruzes, as aflições, as provações, os sofrimentos, a paciência, a pobreza, a humildade, a obediência, o desprezo de si mesmo e do mundo. 4° A Santíssima Trindade é honrada de modo sobre-excelente não com a imolação de animais, mas com os sacrifícios daqueles que sofrem pacientemente por Jesus Cristo: esses sacrifícios são obra de um ser racional; são feitos à imitação do sacrifício de Jesus Cristo na cruz e formam, de certo modo, com ele um só e mesmo sacrifício de preço infinito… 5° Deus promete àquele que leva a própria cruz uma riqueza infinita e uma esplêndida coroa no céu; prepara-lhes, além disso, a palma do martírio: aqueles que sofreram pacientemente tornam-se semelhantes a Jesus glorificado, assim como se assemelharam a Jesus crucificado… 6° a cruz santificada pelo contato do corpo de Jesus Cristo é digna de honra, e não somente ela, mas também tudo aquilo que pode ser sua imagem. 7° As cruzes e as tribulações refletem com maravilhoso esplendor sobre a Igreja, porque não há seita que tenha tido mártires e santos como aqueles que a Igreja católica, apostólica, romana honra.
Ou sofrer ou morrer, dizia Santa Teresa. Viver sempre, para sofrer sempre, dizia São João da Cruz. Não morrer, mas padecer, exclamava Santa Maria Madalena de Pazzi. “Senhor”, repetia Xavier, “não me livreis desta cruz senão com a condição de me enviardes outras mais duras” (In Vita).
É preciso desejar as cruzes, porque elas são o caminho da perfeição. Interrogado Santo Inácio de Loyola sobre qual fosse o caminho mais direto, mais seguro e mais vantajoso para se tornar perfeito, respondeu: consiste em suportar grandes e numerosas provações por amor de Jesus Cristo. Pedi, dizia ele, esta graça a Deus; porque muito recebe quem obtém esta graça; muitos e insignes benefícios estão contidos neste único dom (In Vita).
Os sofrimentos da vida presente, quaisquer que sejam, não têm proporção alguma, diz o Apóstolo, com a glória que um dia há de resplandecer em nós” (Rm 8, 18). Se pensardes que um leve e breve sofrimento vos assegura uma glória eterna, se considerardes como Jesus Cristo sofreu por vós, levareis de bom grado e prontamente a vossa cruz, por mais pesada que seja. Não se bebe sempre água amarga, diz São Bernardo, e nós beberemos por toda a eternidade as doces e frescas águas da vida. A água amarga cai gota a gota sobre nossos lábios no tempo, enquanto beberemos por toda a eternidade no mar da vida (Serm. II).