Tesouro n.º 166 · Volume III

PROVAÇÕES PROVE

12 seções · 42 parágrafos · pp. 1997–2012 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE SÃO AS PROVAÇÕES E SUA NECESSIDADE

A palavra prova presta-se a muitos significados. Pôr à prova quer dizer: 1º examinar; 2º investigar, escrutinar; 3º discernir; 4º apurar e separar aquilo que é puro daquilo que não o é; 5º julgar; 6º escolher e recompensar, rejeitar e punir.

«Os dias são maus», diz o grande Apóstolo (Ef 5, 16). Os dias desta vida são miseráveis, cheios de provas penosas, de tentações e de perigos. Por isso Jesus Cristo diz em São Mateus: «A cada dia basta o seu mal» (6, 34), o que quer dizer: a cada dia basta a sua própria aflição e miséria. Os dias são maus, isto é, incertos, instáveis, breves, cheios de preocupações, de distrações, de ciladas e de inimigos. Sem provas e sem tentações, diz o Crisóstomo, não há coroa; sem combate não há vitória; sem sofrimento não se obtém perdão. Não há inverno sem verão. O grão semeado na terra precisa da chuva, do frio e do calor para amolecer-se e transformar-se em espiga na primavera (Homil. 4, de divit. et paup.). A cera deve experimentar a ação do fogo para receber a impressão do selo; assim também o homem, para ser marcado com a impressão da graça celeste e da divindade, precisa de provas, de trabalho, de enfermidades, de tentações etc…. Aquilo que está sujo de terra, de ferrugem, de escória e de imundícies requer o fogo para ser purificado, limpo e polido…

2. AS PROVAÇÕES NOS VÊM DE DEUS

Santo Agostinho ensina que as provas que nos afligem não vêm nem dos homens nem do demônio, mas de Deus, que se serve dos homens ou dos demônios para nos castigar ou purificar, assim como se serviu de Satanás para provar Jó. Deus açoita os seus filhos para discipliná-los e corrigi-los; açoita os réprobos para que sejam punidos como exemplo para os outros (In Psalm. XXI). «Eu vos porei um freio, diz o Senhor pela boca de Isaías, para que não vos percais» (48,9). Esse freio são as provas; elas são, portanto, um dom de Deus e procedem de sua benevolência para conosco; são fruto de sua beneficência, que quer domar, deter e arrancar as nossas tendências más e perigosas. Ao contrário, é sinal evidente da cólera de Deus quando ele não impõe freio algum às perversas inclinações do homem, quando o deixa satisfazer os seus caprichos e desmandar-se à vontade, como cavalo indômito, não contido pelo freio nem guiado pelas rédeas.

As adversidades são muitas vezes, da parte de Deus, um dom muito mais precioso que as prosperidades e resultam muito mais salutares; além disso, o amor que se dedica a Deus se mostra muito mais puro em meio às estreitezas do que em meio à abundância. Deus é amado com muito mais perfeição na cruz e nas aflições do que entre as consolações e as delícias. Nas provas, o amor carnal e sensual não encontra nada daquilo que ama nas delícias. Por isso, quando se ama a Deus na cruz, ama-se com amor espiritual e puro, porque não se ama senão a Deus. Da cruz e do puro amor de Deus na cruz, aprendemos a estender esse mesmo amor inteiramente puro e celeste às coisas terrenas, às riquezas, aos prazeres e às prosperidades de toda espécie, para que nelas não amemos senão a Deus. Por isso São Gregório Nazianzeno dizia: Dou louvor e ação de graças a Deus não menos nas angústias que nas alegrias, porque tenho por certo que Deus, suprema razão, age em nosso favor e para nosso bem.

3. DE QUE MODO DEUS NOS PROVA, E POR QUÊ

«Vós nos provastes, ó Senhor, exclama o Profeta, provastes-nos pelo fogo, como se prova a prata» (Sl 65,10); e em outra ocasião: «Senhor, carrego o peso de vossa cólera, meu coração está angustiado. As ondas de vossa ira passaram sobre mim, os vossos terrores me prostraram; derramaram-se sobre mim como torrente transbordante e me investiram» (Sl 87, 16-18). E o Sábio diz: «Provou-os como o ouro no cadinho, recebeu-os como vítimas em holocausto; resplandecerão no dia em que os visitar; brilharão como chama que se ateia à cana seca» (Sb 3, 6-7). Narra-nos o Gênesis que Deus, querendo provar Abraão, disse-lhe: «Toma o teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra da visão; ali o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que te indicarei» (Gn 22, 1-2).

«Como a fornalha prova a prata e o cadinho examina o ouro, assim o Senhor prova os corações», lemos nos Provérbios (17, 3). O Senhor prova os corações dos homens, examinando-os… 1º por meio de sua lei e de seus preceitos, por meio dos doutores e dos pregadores…; 2º por meio das tribulações; 3º mediante as tentações.

Mas por que nos prova de tantas maneiras? Porque nos ama, responde ele mesmo no Apocalipse (Ap. 3, 19: «Aqueles que amo, esses repreendo e castigo, para que, corrigindo-os e castigando-os, os refine e purifique, de modo que neles não reste mais nenhuma mancha de pecado.» É isto que o Salmista quer indicar com aquele versículo: «Examinastes o meu coração, ó Senhor, e o visitastes durante a noite; fizestes-me passar pelo fogo da tribulação, e não foi mais encontrado em mim pecado algum» (Sl.16, 3). «Ao retardar-se Deus em mostrar-se a nós, observa Santo Agostinho, dilata e engrandece o nosso desejo; crescendo o desejo, engrandece e dilata a alma, e a torna mais capaz de recebê-lo (1)».

Jesus Cristo põe os seus à prova: 1° para aumentar os seus méritos…; 2° para mantê-los humildes…; 3° para dar-lhes um meio de expiar os pecados…; 4° para dar lugar a uma manifestação mais solene da ação de Deus; como claramente se vê em Lázaro, nos Mártires, nos Apóstolos, na Igreja etc.

Eu me levantei apressadamente para abrir ao meu amado, dizia a Esposa do Cântico; mas, quando abri a porta, ele já havia passado e seguido por outro caminho; corri ao lugar de onde ouvira partir a sua voz, mas ele já não estava ali; chamei-o, mas não respondeu; procurei-o, mas não o encontrei (Ct. 5, 5-6). Assim faz Deus com os seus servos e amigos, para excitá-los a desejá-lo e procurá-lo. Além disso, põe-nos à prova com diversas provações e perseguições, para elevá-los à honra da virtude e da glória… Ele mortifica e vivifica (1Sm 2, 6); fere para emendar. «Toda a severidade de Deus, escreve Santo Ambrósio, tem por finalidade punir as faltas dos seus com as tribulações, conservar-lhes a alma, destruir-lhes os vícios e fomentar em seu coração as virtudes mais excelentes (2)». A prova é para o cristão como a tempestade para o piloto, a luta para o atleta, o combate para o soldado.

Nada acontece ao fiel sem que Deus o permita ou queira; e a sua vontade consiste em corrigi-lo de seus defeitos, fortalecê-lo na virtude e na paciência, para aumentar-lhe a coroa no céu. É esta a razão por que permitiu que o justo Abel fosse morto pelo ímpio irmão; pôs Abraão à prova, ordenando-lhe que sacrificasse seu filho Isaac; pôs José à prova, permitindo que fosse vendido pelos irmãos; pôs Moisés e o povo de Israel à prova, deixando que fossem oprimidos pela tirania do Faraó; pôs Davi à prova, abandonando-o ao ódio de Saul; pôs à prova a casta Susana, permitindo que fosse exposta às negras calúnias dos dois anciãos; que Jeremias fosse preso; que Daniel fosse lançado na cova dos leões.

Muito sensatas são, portanto, as palavras dirigidas por Judite aos anciãos de Betúlia, para encorajá-los a continuar a resistência contra o cerco dos assírios: Nossos pais, disse ela, foram submetidos à tentação como a uma prova, para que se visse se era sincero o culto que prestavam a Deus. Lembre-se o povo do modo como nosso pai Abraão foi provado com muitas tribulações e se tornou amigo de Deus; assim também Isaac, Jacó, Moisés e todos quantos foram caros a Deus mostraram-se fiéis em meio a muitas tribulações; ao contrário, todos aqueles que não receberam as provas no temor de Deus e se mostraram impacientes e murmuradores contra o Senhor caíram sob a espada do Anjo exterminador e pereceram mordidos pelas serpentes. Não sejamos, pois, impacientes por causa dos males que sofremos; mas, considerando que estes tormentos são menores que os nossos delitos e que somos punidos como servos, creiamos que Deus quer emendar-nos, não perder-nos (Jt.8, 21-27). Ah, sim. Deus nos envia as provações. 1° para abrandar a nossa vontade rebelde, abater o nosso orgulho e forçar-nos a submeter-nos a ele; 2° para punir-nos pelas nossas transgressões; 3° para destruir em nós o velho Adão; 4° para conduzir-nos à paciência; 5° para tornar-nos semelhantes a Jesus Crucificado.

«Em meio à tribulação, diz o Senhor pela boca de Oseias, apressar-se-ão a vir a mim. Vinde e retornemos ao Senhor; ele nos feriu e ele nos curará, golpeou-nos, mas nos tratará; devolver-nos-á à vida, ressuscitar-nos-á, e viveremos em sua presença» (Os.6, 1-3). Santo Agostinho, comentando estas palavras de Oseias, diz: «Eis a voz do Senhor: Eu ferirei e curarei: corta a purulenta inchação dos nossos delitos e cura o ardor da ferida. Assim fazem os médicos: abrem, cortam, queimam e curam; armam-se para ferir, trazem o ferro e vêm para curar (3)». As provas são como flechas lançadas pela mão divina, para reconduzir a Deus e à sua salvação os homens que fogem e correm para a própria ruína. Agitados, trespassados, humilhados, prostrados por essas flechas salutares, eles depõem o orgulho, reconhecem as suas culpas e pedem ao Senhor, com o coração arrependido, perdão; e o Senhor os poupa; perdoa-lhes por causa das suas súplicas e estreita-os ao coração com a ternura de uma mãe: como diz precisamente o Salmista naquele versículo: «As tuas flechas, ó Senhor, cravaram-se em mim por todos os lados, e a tua mão pesou sobre mim» (Sl.37, 3). Por isso Santo Agostinho vê em Deus um médico útil e caridoso, que se serve das provas como de um remédio precioso e eficaz para curar-nos dos nossos vícios. «Colocado sob a ação do remédio, tu és queimado e cortado, diz este santo Doutor; soltas lamentos e gritos, mas o médico não se conforma à tua vontade e faz aquilo que a tua saúde requer. Bebe esse cálice amargo que tu mesmo preparaste; bebe-o para que vivas (4)».

As provas nos ensinam a desapegar-nos do nada do mundo e a apegar-nos somente aos verdadeiros bens; abrem, segundo a expressão de São Gregório, os ouvidos do coração, que a prosperidade desta terra muitas vezes atordoa e ensurdece (5). São Jerônimo observa que Deus não raro tira dos pecados o seu prazer e priva dele os pecadores, para que, não tendo querido conhecer a Deus na prosperidade, o conheçam no infortúnio e, tendo feito mau uso das riquezas, retornem à virtude por meio da pobreza, isto é, sejam de certo modo forçados a retornar a ela. Santo Agostinho, por sua vez, vê um grande traço da misericórdia divina quando Deus permite que sejamos provados pela tribulação; exercitando a fé ao retardar o socorro, ele não se recusa a vir em nosso auxílio, mas põe em movimento o desejo (Serm. 37, de Verb. Dom.).

4. É BOM INDÍCIO PARA UM CRISTÃO SER POSTO À PROVA

As provas não abatem nem oprimem senão aqueles que não sabem suportá-las. Os soldados mais valentes são escolhidos para as circunstâncias em que há maior necessidade de energia, coragem e heroísmo; são designados para os empreendimentos importantes e decisivos; e assim também Deus escolhe, para enviá-los às provas mais vigorosas, aqueles que mais ama; disso são exemplo Moisés, Jó, Tobias, os Apóstolos, os Mártires e os Santos mais célebres em todos os estados e profissões.

1° Saibam os cristãos, e estejam intimamente convencidos, de que as provas são um sinal não da cólera de Deus, mas do seu amor, porque mostram a eleição e a filiação divina. Isto nos ensina Deus pela boca de Zacarias: «Eu os farei passar pelo fogo e os porei à prova como se põem à prova a prata e o ouro; então invocarão o meu nome, e eu ouvirei a sua oração. Eu direi: este é o meu povo; e eles exclamarão: o Senhor é o nosso Deus» (Zc.13, 9), e pela boca de São João, com aquelas palavras: «Eu repreendo e castigo aqueles que amo» (Ap. 3, 19). Isto disse o Anjo a Tobias, que havia ficado cego: «Porque eras agradável a Deus, foi necessário que fosses provado pela tentação» (Tb. 12, 13). Isto repete São Paulo, escrevendo aos Hebreus: «O Senhor castiga aqueles que ama e golpeia todos os que recebe como filhos. Nos castigos, permanecei firmes e de bom ânimo. Deus vos trata como filhos: e onde está o filho que não seja corrigido pelo pai? E, se estais fora do castigo ao qual todos os filhos estão sujeitos, mostrais ser filhos de adultério, não filhos legítimos. Além disso, não tivemos nós por educadores os nossos pais segundo a carne, e não os tratamos com reverência? Com muito mais forte razão, portanto, devemos obedecer e reverenciar o Pai dos espíritos, se queremos viver. Aqueles primeiros nos castigaram por algum tempo, como lhes parecia bem, mas este nos castiga segundo o que é útil, para que participemos da sua santidade. Todo castigo parece, no presente, motivo de tristeza e não de alegria; mas, depois, produz naqueles que o suportam um fruto de justiça cheio de paz» (Hb.12,6-11).

2° Entendam e se convençam os cristãos de que as provas, por si mesmas, longe de apenas ferir e prejudicar, purificam e aperfeiçoam aqueles a quem sobrevêm. «A fornalha coze e endurece os utensílios de barro, diz o Eclesiástico, e a prova da tribulação tempera e refina o homem justo» (Eclo. 27, 6). As provas são, diz Santo Agostinho, um remédio que traz saúde, não uma sentença que traz condenação (Sent. CCIV). São João Crisóstomo, falando de José, que suportou generosa e vitoriosamente toda espécie de provas, observa que Deus, neste mundo, não costuma livrar das provas e dos perigos as pessoas mais virtuosas, mas manifesta nelas o seu poder, porque as provas se tornam para elas ocasião de elevada alegria e de grande mérito, segundo aquele dito do Salmista: «Senhor, nas tribulações me fizestes crescer» (Sl.4,2 ― Homil. de Cruce). Isto nos esclarece o sentido daquelas palavras do Papa São Gregório: «Assim que a luz divina incide sobre o coração humano, o demônio logo levanta nele tempestades que jamais haviam sido experimentadas antes por aquele coração, enquanto jazia nas trevas (6)».

Tanto menos devemos murmurar contra as provas quanto mais estamos seguros de que elas são um penhor do amor paterno de Deus.

A adversidade é um sinal certo, é uma garantia infalível da eleição divina, e por meio dela a alma é desposada com Jesus Cristo, para unir-se a ele em divino matrimônio. É preciso, portanto, concluir que as provas são antes de invejar e desejar do que de fugir. Os vasos do oleiro, depois de receberem a forma desejada e determinada, não diriam eles, se fossem capazes de pensar, desejar e falar, que o senhor os pusesse na fornalha para cozerem e se tornarem sólidos? Assim, os justos, corrigidos pela graça de Deus, desejam que o fogo das provas queime e consuma aquilo que há neles de impuro, e que os consolide e aperfeiçoe na virtude.

5. DEUS NÃO ABANDONA O HOMEM SUJEITO ÀS PROVAÇÕES

«Deus, lemos no Livro da Sabedoria, não abandona o justo; livra-o das ciladas dos pecadores e desce com ele ao poço das tribulações; tira-o das mãos daqueles que o oprimem, não se afasta dele quando está acorrentado; entra na alma de seu servo; paga-lhe o preço de seus trabalhos, guia-o por um caminho maravilhoso, fornece-lhe infalivelmente teto e luz» (Sb 10, 13-17).

Quando o povo de Deus, escravo no Egito, foi oprimido pelo trabalho imposto pelo Faraó, Deus enviou Moisés para libertá-lo. O socorro de Deus manifesta-se tanto mais quanto mais abundam as adversidades. «O Senhor, diz São Pedro, sabe livrar os justos das provações» (2Pd 2,9). E, com efeito, eis Noé, salvo das águas do dilúvio; Lot, do fogo de Sodoma; Abraão, dos maus exemplos dos cananeus; Jacó, da ira de Esaú; José, das mãos de seus irmãos e da prisão; Moisés e os hebreus, do furor do Faraó, das ondas do Mar Vermelho, da fome e da sede; Davi, da lança de Saul; Susana, das calúnias dos anciãos; Daniel, dos dentes dos leões; os três jovens, das chamas da fornalha; Mardoqueu, da forca de Amã; Judite, do poder de Holofernes; o jovem Tobias, do ataque do demônio; Judas Macabeu, das armas de Antíoco; Elias, da fúria de Jezabel; São Pedro, da prisão e das correntes. Quanto mais terríveis são as provações, tanto mais Deus está perto de nós. Esta verdade já proclamava o Salmista naquele versículo: «Muitas tribulações estão reservadas aos justos, mas o Senhor os livrará de todas» (Sl 23,20). Por isso o Senhor nos diz: «Invocai-me no dia da tribulação, e eu vos livrarei, e vós me honrareis» (Sl 69, 15). «Quem clamar a mim, eu o ouvirei; estarei com ele nas suas tribulações, salvá-lo-ei e o revestirei de glória» (Sl 90, 15).

6. AS PROVAÇÕES FAZEM CONHECER O QUE SOMOS

Há duas ocasiões na vida nas quais todo homem vê claramente o que existe no coração humano; são elas a ocasião de agir em segredo e o momento das provações. Muitos são maus interiormente e bons exteriormente; ora, fazei que se apresente a ocasião em que possam pecar sem temor de serem descobertos, e então sua corrupção e malícia vêm à tona e se manifestam abertamente. Do mesmo modo, no tempo da prosperidade é difícil discernir os maus dos bons; mas, colocados ao fogo das provações, o ouro resplandece e a palha fumega. Então os maus se irritam, rebelam-se, murmuram, blasfemam; os bons, ao contrário, submetem-se, resignam-se, rezam, praticam a paciência e a doçura. À primeira espécie de provações alude o Salmista com a frase: Vós me visitastes durante a noite, isto é, quando tinha ocasião de pecar em segredo; à segunda, com aquela outra: Vós me fizestes passar pelo fogo da tribulação, por uma prova ardente. E, tendo ele sabido vencer num e noutro caso, acrescenta: (Sl 16, 3). Todo aquele que, nos dois casos acima mencionados, sabe conservar, como o rei Profeta, a própria alma e a própria virtude, pode dizer com ele: «Nenhuma iniquidade se encontra em mim». ― No crisol, diz Santo Agostinho, o ouro se purifica, a palha é queimada (In Psalm. LXI). O piloto, diz Sêneca, dá-se a conhecer na tempestade, e o soldado, no combate (Lib. de Provv.).

7. AS PROVAÇÕES SÃO FREQUENTEMENTE GRANDES E SEMPRE MÚLTIPLAS

O santo e famoso patriarca Abraão foi provado por Deus dez vezes, e sempre de modo rigoroso: 1° Deus ordena-lhe que abandone a pátria, os parentes e os amigos, e vá como estrangeiro para uma terra desconhecida. 2° Em tempo de fome, ordena-lhe que vá ao Egito. 3° O Faraó tira-lhe a esposa, que fica exposta a perder a castidade, enquanto ele corre o risco de perder a vida. 4° É obrigado a separar-se de Lot, seu caríssimo sobrinho, por causa das rixas surgidas entre os seus servos. 5° É obrigado a travar uma luta obstinada e perigosa para libertar Lot, que caíra prisioneiro. 6° Estimulado por Sara, vê-se impelido a expulsar de sua casa Agar, com quem se casara e que já estava prestes a fazê-lo pai de um filho. 7° Já avançado em idade, é obrigado a submeter-se à circuncisão. 8° O rei Abimelec rouba-lhe Sara, sua esposa. 9° É obrigado, uma segunda vez, por Sara, por ordem do Senhor, a banir Agar com seu filho Ismael. 10° Deus ordena-lhe que imole seu filho Isaac. E, como esta última prova foi a mais terrível, somente a esta Moisés dá o nome de tentação.

Ouvi esta dolorosa ordem, cada uma de cujas palavras é, para o coração de Abraão, um golpe de espada, uma cruel provação. ― Toma, Abraão, o teu unigênito, o amor do teu coração, e vai imolá-lo sobre aquele monte que hei de indicar-te (Gn 22, 2). 1° Toma não um desconhecido, um estrangeiro, mas teu filho; 2° teu filho único; 3° teu filho, a quem amas tão ternamente e tanto deves amar; 4° teu filho Isaac, isto é, tua alegria; 5° tu o oferecerás; o Senhor não lhe diz: farás com que seja imolado por mão estrangeira, mas tu mesmo o imolarás, com as tuas próprias mãos. E, diante de tal ordem, Abraão poderia também responder: onde estão, ó Senhor, as vossas promessas? mas não move os lábios; 6° oferecê-lo-ás em holocausto, para que nenhuma parte de seu corpo permaneça junto de ti, seu pai; mas o teu Isaac seja inteiramente reduzido a cinzas e desapareça; 7° toma-o imediatamente, sem demora; não te é concedido retardar a execução.

A mãe dos Macabeus imita Abraão. E quantos outros santos homens e heroicas mulheres não foram submetidos a provações semelhantes! Quando fomos nós alguma vez colocados em apertos tão cruéis? E, contudo, ousamos lamentar-nos!

8. VANTAGENS DAS PROVAÇÕES

«Nós passamos pelo fogo e pela água, diz o Profeta, e vós, ó Senhor, nos conduzistes a um lugar de refrigério» (Sl 65, 12). «Encontrei por toda parte tribulações e dores; por isso invoquei o nome do Senhor» (Sl 114, 3). «Senhor, vós me provastes e me conhecestes» (Sl 138, 1). As tribulações, as provações, as cruzes fazem em favor das almas fiéis aquilo que o fogo faz ao ouro, a lima ao ferro e a joeira ao trigo.

Submetido São Paulo a duras provações e a terríveis tentações, suplica ao Senhor que o livre. Mas, tendo-lhe o Senhor respondido: Basta-te, ó Paulo, a minha graça; porque é na fraqueza que a força se aperfeiçoa, o Apóstolo acrescenta: «De boa vontade, portanto, me gloriarei das minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo. Por isso me comprazo e me alegro nas minhas fraquezas, nos ultrajes, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por Cristo; porque, quando pareço fraco, então sou forte» (2Cor 12, 9-10).

Quem conhecia melhor do que Jesus o que era mais vantajoso para o homem? Pois bem, sabeis em que ele colocou os maiores bens e vantagens do homem? Ide meditar o seu sublime sermão da montanha, e vereis que ele os faz consistir em oito provações, às quais chamou bem-aventuranças, precisamente por causa dos grandes benefícios que delas derivam… As provações são advertências que têm por finalidade conservar-nos na graça e na virtude, preservar-nos do pecado e do inferno e assegurar-nos a salvação eterna. «O ouro e a prata são provados pelo fogo, diz o Sábio, e as almas caras a Deus passam pela fornalha da humilhação» (Eclo 2, 5). Assim como o fogo não prejudica o ouro, mas lhe é vantajoso, porque o prova, purifica, limpa e o torna mais brilhante, assim o crisol das provações, das humilhações e das aflições põe à prova aquele que as suporta, purifica-o, aperfeiçoa-o, ilumina-o, torna-o agradável a Deus e digno dele…

São Bernardo põe em relevo que Jesus Cristo, o Anjo do grande conselho, propõe três coisas à alma racional feita à imagem da Santíssima Trindade: a servidão, o aniquilamento e os espinhos. A servidão, na abnegação de si mesma; o aniquilamento, no carregar a cruz; os espinhos, na imitação de Jesus Cristo; e propõe-lhos para que a alma, tendo decaído do estado de uma tríplice felicidade, se erga de sua tríplice miséria por meio da obediência e da humildade na aflição. Pois ela havia caído, por si mesma, da sociedade dos Anjos e da visão de Deus, isto é, da liberdade, da dignidade e da beatitude. Escute, pois, o conselho que lhe é dado, para que, renunciando a si mesma, isto é, à própria vontade, recupere a sua liberdade; carregando a sua cruz, isto é, crucificando a própria carne com as suas concupiscências, retorne, pelo bem da continência, à sociedade dos Anjos; seguindo Jesus Cristo, isto é, imitando a sua paixão, reencontre a visão de sua claridade; pois, se padecermos com ele, também reinaremos com ele (Serm. in Cant.). Não se poderia mostrar melhor, do que com estas palavras, a íntima razão e a múltipla utilidade das provações.

As provações são a vara de Deus; elas fazem de nós um trigo digno da eira do Senhor, separando-nos da palha… Diz Santo Agostinho: «Na fornalha, a palha queima, o ouro se purifica; aquela se transforma em cinza, este se despoja da escória. A fornalha representa o mundo; o ouro, os justos; o fogo, as provações, as tribulações, as adversidades; o fundidor, Deus. Faço o que quer o fundidor e, onde ele me coloca, permaneço. É meu dever suportar tudo pacientemente; ele sabe como me purificar. Queime a palha para incendiar-me e consumir-me: eu me conformo; ela é reduzida a cinzas, e eu permaneço purificado de toda sujeira. Nenhum servo de Jesus Cristo está isento de provações; se imaginas poder passar sem elas, ainda não começaste a ser cristão. As provações interiores e exteriores preparam a glorificação do pecador; forçam o relutante, instruem o ignorante, protegem o fraco, estimulam o tíbio, guardam aquele que corre e iniciam naquela morte que é o começo da vida eterna (7)».

Bem-aventurado o homem que é provado por Deus! Não rejeitemos, pois, as provações às quais ele nos submete, porque ele fere e cura, golpeia e salva… Isto nos asseguram os seus inspirados; Deus multiplicou sobre eles as provações, as enfermidades e as cruzes, dizia já o Salmista, e depois destas eles avançam a grandes passos pelo bom caminho (Sl 15,4). As águas, diz Jonas, investiram contra mim tão impetuosas e altas, que me lançaram até às portas da morte; o abismo me tragou, o oceano sepultou-me em seus redemoinhos. Quando minha alma se concentrou toda em mim, lembrei-me de vós, ó Senhor, e minha oração foi ouvida; vós falastes ao peixe, e ele me lançou à praia (Jn 2, 6, 8-11). «Os sábios do povo, diz Daniel, cairão sob o fio das espadas, entre as chamas e na prisão. E cairão para que sejam renovados, escolhidos e purificados» (Dn 11, 33, 35). O profeta Malaquias representa Deus como o fogo que devora, como a erva dos pisoeiros; e apresenta-o sentado junto à fornalha, onde purifica os filhos de Levi, assim como se purificam o ouro e a prata no crisol (3, 2).

Em meio às provações, é preciso conservar sempre a alma tranquila, estando certo de que o socorro divino chega quando falta todo auxílio humano… Além disso, a virtude posta à prova cresce, diz São Leão (Serm.). Por isso, aquele dito do Doutor de Claraval: «Quanto mais sois provados, tanto mais vos enriqueceis» (In Sentent.). O mesmo Santo observa ainda que das tribulações extraímos três bens principais: o exercício, para que a virtude não esfrie por causa da acídia e da negligência; o sofrimento, para que a força de nossa constância seja exemplo e encorajamento para os outros; a recompensa, para que o peso da glória aumente na proporção da gravidade das provações (Sentent.). Muito sensatas, portanto, e sempre dignas de ser lembradas, são aquelas palavras de Judite: «Não nos inquietemos por causa dos males que sofremos, mas, considerando que esses males são muito mais leves do que aqueles que mereceriam os nossos pecados, e que somos castigados como servos, tenhamos por certo que Deus quer corrigir-nos, não perder-nos» (Jt 8, 26-27).

«Para aqueles que amam a Deus, tudo concorre para o bem», diz o grande Apóstolo (Rm 8, 28). O cristão jamais deve esquecer por um instante estas palavras. Na pobreza, nas doenças, nas perseguições, nas calúnias, nos naufrágios, nos incêndios, nos extravios, no exílio, na morte, lembre-se de que tudo concorre para o bem daquele que ama a Deus. Em toda espécie de provações, o verdadeiro cristão deve dizer a si mesmo: Estou certo de que nada me pode suceder de penoso, de desagradável, de amargo, de cruel, que não esteja previamente ordenado segundo a ordem paterna da Providência. Estou seguro de que nem os homens, nem os demônios, nem todas as criaturas poderão jamais provar-me além do que Deus quer, previu e além do poder que lhes concedeu, para que tudo se volte em meu benefício. Qualquer provação, pois, que aprouver a Deus enviar-me, eu a aceito; não a recuso, não recuo diante dela, porque nada quero senão a santa vontade de Deus; ah! cumpra-se ela plenamente em mim e em todas as criaturas. Com efeito, não cai um só cabelo de nossa cabeça sem a vontade de Deus. Submeter-me a ela em todas as provações, adversidades, aflições, dores e cruzes é meu sumo benefício; é o verdadeiro meio de entesourar para a eternidade e de ser feliz nesta vida…

9. JESUS CRISTO E OS SANTOS, MODELOS NAS PROVAÇÕES

Todo verdadeiro cristão deve beber o cálice das provações; é-lhe necessário esvaziá-lo, se quiser sarar e viver. E para que ninguém diga: Não posso beber, não tenho ânimo para aproximar dele os lábios, não o beberei, Jesus Cristo, cheio de saúde, Jesus Cristo, a própria inocência e santidade, sorveu-o primeiro, até a borra; sim, bebeu-o, para que nós, pobres enfermos, cobertos de feridas e chagas, carregados de pecados, oprimidos por dívidas, o bebamos para sarar, apagar os pecados, recuperar a inocência, pagar as dívidas e assegurar-nos o céu, onde nada que esteja manchado pode entrar. Que amargura há neste cálice das provações que Jesus não tenha experimentado antes de nós? Trata-se talvez de desprezos e injustiças? Ele deles foi dessedentado quando, tendo expulsado os demônios dos possessos, ouviu de seus inimigos: É em nome de Belzebu que este expulsa os demônios. São amargos os sofrimentos e as dores? Ele foi amarrado, flagelado, coroado de espinhos e pregado na cruz. É amarga a morte? Causa-nos horror o gênero de morte que nos ameaça? Ei-lo exalando o último suspiro entre dois ladrões, sobre uma cruz, o suplício mais ignominioso que se conhecia naqueles tempos… Seja, pois, Jesus Cristo o nosso modelo em toda espécie de provações.

Também os Santos nos oferecem modelos a imitar nas provações; e, sem falar de outros, Tobias e Jó foram, são e serão em todos os tempos dois exemplos claríssimos e dois luminosíssimos espelhos de paciência para todos os cegos, aflitos, desgraçados, pobres e perseguidos. A respeito de Tobias, a Sagrada Escritura diz que ele se manteve firme no temor de Deus, dando graças ao Senhor todos os dias de sua vida (Tb 2, 14). Há aqui um ato heroico de paciência: este é o estado de um homem santo e perfeito que, não se importando com todas as coisas terrenas, sejam elas auxílios ou obstáculos, mantém o espírito no céu e saboreia antecipadamente a felicidade celeste… Assim também Jó, oprimido por aflições de toda espécie e de todos os lados, exclamava: «Deus me deu os bens, Deus mos tirou; aconteceu como aprouve ao Senhor; bendito seja o seu nome» (Jó 1, 21)… Em meio às mais duras provações, que modelos admiráveis não nos apresentam os patriarcas, os profetas, os apóstolos, os mártires, os confessores, as virgens, os missionários, os santos de todas as idades, de todos os sexos, de todos os tempos, de todos os lugares e de todas as condições!

Singulares e maravilhosos são certamente os caminhos, os modos e as razões segundo os quais Deus conduz os seus eleitos pelo deserto desta vida. Através das provações, das ciladas, dos perigos, dos inimigos, das angústias, dos trabalhos, das tentações, das perseguições, das cruzes e do martírio, ele os guia à terra prometida, introdu-los na terra dos viventes.

10. AS PROVAÇÕES SÃO UM EXCELENTE REMÉDIO

Há feridas que, em vez de prejudicar a saúde, são antes um remédio extremamente eficaz para ela: é isso que as provações fazem na ordem espiritual. São João Crisóstomo compara-as ao ferro do arado; pois, por meio delas, abrimos e sulcamos o terreno do nosso coração, para que, se nele permanecem arraigadas ervas daninhas, silvas e espinhos, sejam inteiramente arrancados, e nós nos tornemos um terreno diligentemente cultivado, apto a receber a semente da graça e da virtude (Homil. de Cruce).

Mas que devemos fazer para tirar proveito das provações? É preciso imitar a paciência de Jó e repetir com ele: O Senhor me deu tudo o que possuo, o Senhor é o dono para tirá-lo de mim; aconteceu como aprouve ao Senhor; bendito seja o nome de Deus! (Jó 1, 21). É preciso imitar Tobias, que dizia: «Eu vos bendigo, ó Senhor, Deus de Israel, porque me castigastes e me salvastes» (Tb 11, 17). Meu filho, diz o Senhor pela boca do Sábio, quando te consagras ao serviço de Deus, permanece na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação. Humilha o teu espírito e espera com paciência. Suporta as demoras de Deus. Aceita tudo o que te sucede e permanece em paz na tua dor. Confia em Deus, e ele te libertará; conserva o seu temor e nele envelhece (Eclo 2, 1-4, 6).

Quem deseja agradar a Deus e tornar-se seu herdeiro pela fé, para ser chamado filho de Deus, deve antes de tudo, diz Santo Efrém, armar-se de paciência longânima para prevenir-se contra as tribulações, as angústias, as estreitezas, as doenças, os sofrimentos, as afrontas, as injúrias, as tentações e os demônios, e poder suportar todas essas provações (Tract. de Patientia). «Quando a alma se apega fortemente a Deus, observa São Gregório Papa, de tal modo que, em todas as coisas, nada mais veja senão a ele, toda amargura se transforma para ela em doçura; toda aflição lhe é repouso (8)». A vantagem mais insigne que, segundo o parecer do Crisóstomo, alguém pode tirar das provações, aquela que aumenta infinitamente o mérito e a recompensa, é dar graças a Deus (Homil. de Cruce).

11. AS PROVAÇÕES SÃO A PORTA DO CÉU

As provações suportadas pacientemente são a porta do paraíso e para ele nos introduzem. Isto nos ensina a Sagrada Escritura com aquele texto: «Não era necessário que o Cristo sofresse todas essas penas (a sua paixão) e assim entrasse na sua glória?» (Lc 24, 26), e com aquele outro, claríssimo, que se lê nos Atos dos Apóstolos: «É necessário que, por meio de muitas tribulações, entremos no reino de Deus» (At 14, 21). Ora, se foi necessário que Jesus Cristo sofresse, suportasse toda espécie de provações e entrasse na glória pelo caminho dos sofrimentos e da cruz, não nos indicou ele claramente, com isso, que, se não há outro caminho que conduza ao céu, este, contudo, certamente conduz a ele, e que todo aquele que o percorre está certo de nele entrar? A prosperidade e a felicidade desta vida são, ao contrário, a porta do inferno. Por isso vemos Deus concedê-las com muita frequência aos infelizes e ímpios, e negá-las aos bons…

«Todo aquele que vos adora, ó Senhor, dizia Tobias, está certo de que, se sofre provações em sua vida, será coroado; se é afligido, será libertado; se é ferido, obterá misericórdia» (Tb 3, 21). «Aqueles que semearam entre lágrimas colherão com alegria, diz o Salmista. Iam andando e chorando, espalhando a sua semente; voltarão alegres e jubilosos, trazendo nas mãos os seus feixes» (Sl 125, 5-6).

12. INFELIZES AQUELES QUE NÃO TÊM PROVAÇÕES

Viver sem provações é viver para o inferno… Saibam aqueles que recusam as provações que Deus lhes envia que neles não está a marca de Deus, mas a do demônio, e que serão infelizes tanto nesta como na outra vida. Com efeito, é clara a palavra do Espírito Santo: «Aqueles que não receberam as provações no temor do Senhor, mas demonstraram impaciência e murmuraram contra Deus, foram entregues à espada do Anjo exterminador» (Jt 8, 24-25)… Não aceitar as provações com que Deus nos põe à prova é resistir a Deus; ora, não é isso uma culpa gravíssima e uma terrível desgraça?

Acaso as provações batem menos à porta daquele que se recusa a acolhê-las? De modo algum: muitas vezes, ao contrário, aglomeram-se ali em maior número e são mais graves… Perde-se o mérito que deveriam proporcionar… Transformam-se em pecado… Em vez de serem princípio de recompensa, tornam-se princípio de castigos… O mundo inteiro é uma vasta fornalha na qual os homens são lançados. Nela, o justo se assemelha ao ouro, e o ímpio, à palha. Pelo mesmo fogo, o justo é purificado e santificado; o ímpio é devorado, consumido e condenado. E Deus, observa Santo Agostinho, é louvado em ambos os casos: num, pela recompensa; noutro, pelo castigo; no primeiro, por sua misericórdia; no segundo, por sua justiça (Dei civit. Dei).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.