Tesouro n.º 45 · Volume I

CURIOSIDADE CURIOSITÀ

3 seções · 13 parágrafos · pp. 499–502 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. MALES DA CURIOSIDADE

“Eva viu, diz a Escritura, que o fruto proibido era bom para comer, belo e agradável à vista; então o tomou e dele comeu, depois deu-o ao marido, que também dele comeu. E então os olhos de ambos se abriram e perceberam que estavam nus” (Gn 3, 6-7). Ó Eva, interpela-a São Bernardo, conforma-te à ordem que te foi dada; espera o cumprimento da promessa que te foi feita; guarda-te daquilo que te foi proibido, para que não percas as prerrogativas que te foram concedidas. Por que contemplas com tanta avidez aquilo que será a tua morte? Por que deixas vagar tão frequentemente os teus olhos sobre aquele fruto? Por que te comprazes em contemplar o que não te é lícito comer? “Eu me sirvo”, dizes tu, “dos meus olhos, não da minha mão; não me foi proibido olhar, mas comer.” Ah, insensata! Embora esse olhar não seja culpa, é, contudo, indício de culpa próxima. Enquanto Eva está ocupada com algo que não é a observância do mandamento de Deus, a serpente insinua-se em seu coração, dirige-lhe uma linguagem aduladora e sedutora; obscurece-lhe a razão com belas promessas; tira-lhe todo o temor com sua palavra mentirosa: “De modo algum morrereis.” — Excita sua curiosidade e acende-lhe os desejos, tentando seu paladar; provoca sua vontade; louva o que é proibido; desaprova e condena o que é ordenado; apresenta-lhe o fruto e tira-lhe o paraíso… Eva engole o veneno que deveria matar a ela e a quantos haveriam de nascer dela (1).

Eis como a curiosidade de Eva e de Adão desencadeou o dilúvio de males que inunda o mundo. Filhos de Eva, quantas curiosidades existem em nós? Curiosidade dos olhos, curiosidade dos ouvidos, curiosidade das mãos e dos pés, curiosidade do espírito, curiosidade da memória, curiosidade da vontade, curiosidade do coração etc. Quantas minas elas trazem! … Da curiosidade nascem todos os vícios, os excessos, os crimes: por acaso não é curiosidade desejar experimentar um prazer proibido? … e que consequências deploráveis ela não produz? … Da curiosidade nascem as heresias; os inovadores curiosos suspeitam e querem investigar demais… “As investigações da curiosidade conduzem à heresia”, diz Santo Agostinho (2). Tertuliano dá aos filósofos curiosos o título de patriarcas das heresias (Apolog.). Eis por que São Nilo costumava dizer: Não vos desgasteis descobrindo os mistérios de Deus, mas basta-vos crer e adorar (In Vit. Patr.).

Vós vos queixais, escrevia Sêneca, de ter perdido a visão? Oh! quantas concupiscências não destrói em vós essa perda! Quantas coisas já não vereis, por cuja visão seria preciso arrancar-vos os olhos! Não compreendeis que, para conservar a inocência, é preciso não ser curioso? A curiosidade descobre o adultério, o incesto, a avareza e todos os males. Os olhos são o aguilhão de nossas paixões, os guias dos crimes (3).

2. A CURIOSIDADE É INSACIÁVEL; QUER SABER O QUE É INÚTIL OU MAU E IGNORAR O QUE É ÚTIL E BOM

“O inferno e a morte são insaciáveis, e assim também são insaciáveis os olhos dos homens”, lê-se nos Provérbios (27,20). A curiosidade é um fogo que devora; é um abismo sem fundo e, portanto, nunca se enche.

“O curioso, escreve Santo Agostinho, é ávido por saber aquilo que não lhe diz respeito; o homem sábio ocupa-se diligentemente dos próprios assuntos (4).”

Contemplando os astros, Tales caiu num fosso e foi alvo das zombarias de quem lhe disse: “Vós mereceis esta queda, porque quereis conhecer os céus e ignorais aquilo que está sob os vossos pés”. Quão numerosos são os imitadores de Tales! … De que serve, observa o autor da Imitação de Cristo, o grande especular sobre coisas misteriosas e obscuras pelas quais, por não as termos conhecido, não seremos condenados no dia do juízo? Grande insensatez é que nós, negligenciando as coisas úteis e necessárias, deliberadamente nos ocupemos das inúteis e nocivas (lib. 1, c. 3, n. 1). Com efeito, não é absolutamente necessário, diz o Eclesiástico, que vejas com os próprios olhos aquilo que está oculto (Eclo 3,23). Portanto, “não te curves para investigar curiosamente uma multidão de coisas inúteis” (Ib. 24). Mas nós queremos ignorar aquilo que Deus quer que saibamos e queremos saber aquilo que ele quer que ignoremos…

Não nos ocupemos de coisas vãs, inúteis e de que não necessitamos, porque elas nos fazem perder inutilmente tempo, estudo e fadigas… Feliz aquele que se empenha em refrear e comprimir a instável curiosidade que nos impede de perceber o que devemos ver e de aplicar-nos àquilo que é proveitoso… Diz São Gregório: “Grave vício é a curiosidade, a qual, enquanto quer investigar a vida exterior dos outros, nos mantém oculta a nossa própria; de modo que não conhecemos a nós mesmos, enquanto conhecemos os fatos alheios; e quanto mais o espírito do curioso conhece os méritos dos outros, tanto menos compreende os próprios (5).”

Devemos conhecer a vontade e a lei de Deus, a religião, a virtude, os nossos deveres; e, entretanto, negligenciamos esta ciência… Deveríamos ignorar o vício, o mundo etc.; e a nossa curiosidade nos impele a querer conhecê-los.

3. A CURIOSIDADE DEVE SER PRUDENTE E SÁBIA,

“Aquele que perscruta a majestade de Deus será oprimido pelo peso da sua glória”, sentenciam os Provérbios (25,27). Quem fixa os olhos no sol ficará cego… Querer aprofundar os segredos da divindade é procurar o erro e a heresia… Por isso o Eclesiástico nos adverte a não buscar aquilo que é muito superior a nós e a não investigar as coisas que ultrapassam as nossas forças; mas a ocupar-nos daquilo que Deus nos ordenou, sem ser curiosos investigadores de suas muitas obras (III, 22). Por cinco razões o Eclesiástico nos proíbe investigar curiosamente aquilo que se eleva acima de nós: 1° porque é nosso dever ocupar-nos somente das coisas necessárias, que são os mandamentos de Deus; porque a nossa mente, com toda a sua aplicação, mal consegue compreendê-los e cumpri-los…; 2° porque aquilo que nos é superior naturalmente se subtrai às nossas investigações; 3° porque são coisas inúteis para nós…; 4° porque essa investigação não é própria de nós, se os nossos sentidos e o nosso intelecto não chegam até ela…; 5° porque a maioria se deixa seduzir pelas próprias opiniões, e a ilusão dos sentidos os mantém na vaidade (Eclo 3,26).

A curiosidade imprudente induz ao erro, seduz e engana. Julga-se compreender aquilo que se compreende mal, ou que de modo algum se compreende, e então cai-se no erro e arrastam-se nele os outros. Assim aconteceu à maior parte dos filósofos, os quais tiveram e manifestaram acerca de Deus, da religião e da virtude muitas ideias desconexas, inexatas, falsas, perigosas e errôneas; e, vangloriando-se de sábios, tornaram-se insensatos (Rm 1,22).

Diz muito bem São Próspero: Assim como, sem o sol, a terra não passa de trevas, do mesmo modo tudo aquilo que o homem quer saber, pelas únicas forças da natureza, somente à luz da razão não esclarecida pela revelação, acerca de Deus, do homem e de seus deveres, não passa de trevas e obscuridade. Somente Deus pode explicar a verdadeira doutrina sobre essas matérias (In Sentent.) … Vai-se sempre encalhar nas areias do engano quando se quer explicar tudo somente pelas forças da razão… Quer-se descer até o fundo do mar, e não se encontra senão lodo: os filósofos, tentando sondar a profundidade das coisas para nelas encontrar a sabedoria, depararam com o erro… Daí brotam as dissensões, as contradições e as obscuridades; cada um quer ter a razão do seu lado, cada qual pretende que a verdade esteja com ele; e assim, dizendo-se sábio, torna-se insensato. — Assim se chega a perder a fé, a alma, Deus…

Eis por que o Papa Urbano escrevia a Carlos de Anjou: “Não foi pela dialética que aprouve a Deus salvar e conservar o seu povo; na simplicidade da palavra, e não nas disputas, está o reino de Deus (6).”

“Alguns, diz São Paulo, pretendem ser doutores da lei e não entendem nem o que dizem, nem aquilo que afirmam… Estes estão sempre aprendendo, sem jamais chegar ao conhecimento da verdade” (2Tm 3,7). E ao seu discípulo Tito inculcava que evitasse as questões vãs, as genealogias, as disputas e as controvérsias sobre a lei, como coisas vãs e inúteis (Tt 3,9). Quando Deus falou à sua Igreja, toda curiosidade e toda disputa devem calar-se; é preciso submeter-se e crer, certos de que jamais seremos enganados…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.