Tesouro n.º 6 · Volume I

AFLIÇÕES AFFLIZIONI

12 seções · 55 parágrafos · pp. 55–67 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DAS AFLIÇÕES

“Sofrer por Jesus Cristo, diz São João Crisóstomo (1), tem algo de mais excelente que ressuscitar os mortos; por isso contraio uma obrigação para com Deus, enquanto por aquilo Jesus Cristo contrai uma obrigação para comigo. Coisa admirável! Jesus me faz um dom e, por esse mesmo dom, constitui-se meu devedor.” Observai José, acrescenta em outro lugar o mesmo Santo (Homil. ad pop.): de prisioneiro ele se torna superintendente de todo o Egito, e aprendei com o seu exemplo a conhecer a vantagem das aflições corajosamente suportadas: a sua paciência é inabalável, as provações não o abatem, e Deus, depois de tê-lo posto à prova, considera-o digno de si e o abençoa.

São Egídio, discípulo de São Francisco, dizia: “Ainda que o Senhor fizesse cair do Céu pedras e penhascos, não sofreríamos dano algum, se soubéssemos suportar as tribulações” (RIBADENEIRA, In Vita); e São Jônatas reconhecia os fortes da terra nos aflitos do mundo (SURIO, In Vita). São Cipriano chama às tribulações as asas com que se eleva acima dos Céus (2), e São Martinho afirma que Jesus Cristo não se deixa ver às pessoas piedosas em outro lugar senão na cruz (SURIO, In Vita).

Por isso São Bernardo exclamava: “É-me mais útil, Senhor, definhar nas aflições, contanto que Vós estejais comigo, do que reinar sem Vós, viver longe de Vós, ser exaltado não em Vós. Para mim, é maior felicidade abraçar-Vos e possuir-Vos nas aflições do que estar até mesmo no Céu, mas sem Vós” (Serm. XVII).

“O poder de Deus, escreve São Paulo, alcança o seu fim por meio da fraqueza. Portanto, de bom grado me gloriarei nas minhas enfermidades, para que habite em mim o poder de Cristo. Por isso me comprazo na minha enfermidade, nos ultrajes, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por Cristo; pois, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 9-10).

Vedes, prossegue o citado São Bernardo (Serm. 19, in Cantic.), que as aflições da carne aumentam o vigor do espírito e lhe infundem coragem; o vigor da carne, ao contrário, abate o do espírito. Que maravilha, se os sofrimentos do corpo fortalecem a alma? Nada mais natural: enfraquecendo um vosso inimigo, por isso mesmo vos tornais mais fortes. Com que coração o homem amará esta carne, que continuamente se rebela contra o espírito? Sabiamente, portanto, e com razão, o Salmista pedia a Deus que o visitasse com aflições (Sl 118, 120). Ah, o temor de Deus é uma flecha potentíssima!

“Também nós estamos enfermos com Jesus Cristo, escrevia São Paulo, mas viveremos com Ele pelo poder de Deus, que se manifestará no meio de vós” (2Cor 13, 4).

“Sim, a alma que é atribulada pelas aflições está muito próxima de Deus”, diz o Nazianzeno (3). Por meio das aflições, explica São Bernardo (Serm. X, in Coena Dom.), a concupiscência é enfraquecida; as virtudes brotam e dão fruto; a carne corrompida é subjugada; a alma eleva-se a Deus sobre as asas das virtudes. Mediante as aflições e os sofrimentos, a carne perde o supérfluo, e a alma adquire as qualidades que lhe faltam. Se, portanto, as aflições, esses dons do Senhor, fazem crescer as virtudes, enfraquecem e afastam os vícios, inspiram o desprezo dos bens terrenos e nos impelem ao amor das coisas celestes, é preciso dizer que nos asseguram a felicidade eterna. Essas considerações deveriam animar-nos a perseverar firmemente naquela luta, a qual, quanto mais dolorosa for, tanto maior esplendor dará à vitória. Quando vamos a Deus, não em meio à calma, mas em meio aos turbilhões das aflições, damos prova de amá-lo e do desejo de agradar-lhe. De resto, não nos resta outro caminho aberto para irmos ao Céu senão o das cruzes; por isso, devemos suportá-las e prezá-las.

Tudo isso já reconhecia o Salmista, tanto quando confessava de si mesmo que, encontrando-se na agonia e na dor, voltou-se para invocar o nome de Deus (Sl 114, 3-4), quanto quando clamava ao Senhor: Vós me provastes com as tribulações e me conhecestes (Sl 138, 1).

Não nos deixemos abater pelos sofrimentos, porque eles destroem em nós os desejos da carne, dizia Santa Sinclética (RIBADENEIRA, In Vita); e, antes dela, São Cipriano havia deixado escrito que, vivendo nós segundo o espírito e não ao sabor da carne, a força da alma nos torna vitoriosos sobre as enfermidades do corpo (Epl. Ad Demet).

De Deus nos vêm as aflições; Ele, que ordenou tudo segundo peso, número e medida, Ele mesmo destinou desde toda a eternidade, a cada um daqueles que o amam, a própria cruz e sofrimentos particulares, e marcou-lhes os limites; decretou despojar-nos do homem velho e revestir-nos do novo por meio da paciência, da pureza, da graça e do amor às tribulações; determinou conduzir-nos ao Céu por este caminho. Ora, quem terá horror às aflições e delas se esquivará, se, pela infinita bondade de Deus, elas são destinadas como um dom? As tribulações tornam-nos conformes a Jesus Cristo na cruz, para nos tornarem conformes a Ele na glória…

Se, por desejo de glória humana, diz Tertuliano, se vai ao encontro da espada, do fogo, da cruz, das feras e dos tormentos, não se enfrentarão todas essas coisas com maior proveito por Deus? Todos os sofrimentos nada são em comparação com a glória celeste (Apolog.).

É doutrina de São Paulo que Deus castiga aqueles que ama e açoita aqueles que quer acolher entre seus filhos (Hb 12, 6). Segundo o Doutor das gentes, portanto, as aflições são um benefício, uma imensa graça de Deus.

Esta é precisamente a conclusão que os Santos delas tiraram, entre os quais São Basílio, que diz em sua Regra LV que as doenças são o açoite que castiga o pecador, impele-o a mudar de vida e a converter-se; e narra, a esse respeito, como certo dia um santo abade indicou este remédio a um de seus discípulos que jazia enfermo, dizendo-lhe: “Não vos entristeçais, ó filho, pela enfermidade que vos aflige; é próprio da piedade consumada agradecer a Deus pelas tribulações que Ele envia. Se vossa alma se assemelha ao ferro, o fogo dos sofrimentos consumirá a ferrugem que a torna feia; se ao ouro, purificar-vos-á de toda escória. Suportai, pois, esta provação e rogai para que se cumpra em vós a vontade de Deus”. São João Crisóstomo pregava, depois: “Não devemos absolutamente crer que as aflições sejam um sinal de que Deus nos abandonou e nos despreza; ao contrário, são a prova mais clara de que Deus se lembra de nós e pensa em nós, porque, por meio delas, nos purifica de nossos pecados e nos fornece poderosos meios para merecermos a sua graça e proteção” (Homil. XXXII, in Genes.). E, por fim, São Bernardo afirma que “as frequentes aflições são como um martírio, uma espécie de efusão de sangue” (4).

2. AS AFLIÇÕES SÃO NECESSÁRIAS

As aflições são necessárias para domar a concupiscência, expiar os pecados, desapegar-se do mundo, conduzir ao desapego de si mesmo, à adesão e à obediência a Deus… São inevitáveis… A vida presente, diz Santo Agostinho em suas Meditações, c. 21, é uma peregrinação laboriosa: é fugaz, incerta, penosa, expõe a mil baixezas e traz consigo uma caterva de males; é a rainha dos orgulhosos, transbordante de misérias e erros, de tal modo que deveria chamar-se morte, e não vida. — O homem, com efeito, morre a cada instante e não cessa de mudar senão para submeter-se a diversos gêneros de morte. Podemos nós chamar vida ao tempo que passamos neste mundo? Ó Deus! E que vida é esta, que os humores alteram, as dores enfraquecem, os calores ressecam, os prazeres exaurem, as angústias corroem; que basta um sopro para envenenar, que a inquietação abrevia, que a segurança entorpece? Os alimentos nos fazem engordar, os jejuns nos debilitam, as riquezas nos incham e ensoberbecem, a pobreza nos humilha, a juventude nos torna impetuosos, a velhice nos curva, a doença nos quebranta, a tristeza nos abate. A todos esses males segue-se a morte implacável, que põe fim a todas as alegrias desta miserável vida, de tal modo que, ao cessar ela, seríamos levados a crer que jamais existiu. Esta morte é verdadeiramente a vida, e a vida, uma espécie de morte.

São Gregório Magno faz uma descrição semelhante da vida temporal em seus Moralia. Ela é, diz ele, penosa, semeada de espinhos, transcorre entre agitações e trabalhos dolorosos. Quem há que a dor não dilacere, que as preocupações não torturem, que o temor não angustie? Chora-se e ri-se ao mesmo tempo; a melancolia se une à alegria; sente-se fome e come-se, mas ainda não se digeriu o bocado, e já a fome novamente nos estimula. A sede nos enfraquece, o calor nos debilita, o frio nos enrijece. De todos os lados, suspiros, lágrimas, soluços, misérias universais, inumeráveis e variadíssimas. O rico tem suas aflições, e muitas vezes ardentíssimas; o pobre está cercado por elas; os pequenos estão expostos a elas, e os grandes não escapam ilesos.

O Crisóstomo comparava a vida que levamos neste mundo àquela que a criatura vive no seio materno, tantas são as angústias e os sofrimentos que nos cercam, nos oprimem e nos sufocam (5); e Menandro dizia que a dor veio ao mundo juntamente com a vida e envelhece com ela (6).

Todo homem, ao aparecer no mundo, solta um gemido, observa Salomão; seus olhos inchados de lágrimas anunciam que ele entra numa terra de maldição e de sofrimentos (Sb 7, 3). Ah! Sim, infelizmente, “a criança tem o pressentimento da dor sem ainda conhecê-la”, acrescenta Santo Agostinho; “seu olhar e seu gemido profetizam as mil aflições da vida que lhe caberá sofrer e que já deplora (7)”.

A vida do homem é, aos olhos de Jó, um serviço militar; seus dias são como os do mercenário, breves e tristes: ao deitar-se, clama entre lágrimas: Quando me levantarei? quando terminará a noite? Ai de mim! serei saciado de sofrimentos até o chegar das trevas (Jó 7, 1; 14, 1; 7, 4).

É preciso conformar nossa vida à lei de Deus. Ora, comenta Santo Agostinho, “toda a vida do cristão, se ele vive segundo o Evangelho, é uma cruz e um martírio (8)”.

As penas e os sofrimentos da vida presente são muitas vezes extremamente graves e frequentes. A aflição nos acometeu, escreve São Paulo aos Coríntios, acima de nossas forças, a ponto de estarmos até cansados de viver (2Cor 1, 8). Acima de nossas forças, isto é, das forças da natureza e do corpo, mas não das da graça e do espírito. A vida nos é pesada por parte da natureza, mas não por parte da caridade e do socorro do alto.

3. É PRECISO ARMAR-SE DE CORAGEM PARA SUPORTAR AS TENTAÇÕES

“Para uma alma corajosa, diz Santo Ambrósio, as aflições são coroas; para uma alma pusilânime, são grilhões e enfermidades (9)”.

A alma forte não se deixa prostrar pelas adversidades, mas mantém-se de pé, resiste e triunfa. Como a cal ferve na água e o fogo se reanima ao sopro do fole, assim a força e a energia de uma grande alma se fortalecem nas aflições e nas tribulações. A virtude é uma árvore que, quanto mais é esfolada, tanto mais reverdece; e, como se exprimia Catão: As serpentes, a sede, o calor e o combate do circo são coisas doces e caras para a virtude, e nos duros embates a paciência se compraz (10).

Ouvi também São João Crisóstomo: “És realmente delicado, ó soldado de Jesus Cristo, se crês poder vencer sem combater e triunfar sem resistir. Emprega tuas forças, combate valorosamente, sê corajoso em sustentar a luta encarniçada. Lembra-te do juramento feito no santo Batismo; observa o estandarte sob o qual te alistaste; considera as condições que aceitaste (11)”.

Jamais se deve deixar abater o ânimo, mas tomemos por norma São Paulo, que de si mesmo atestava: “Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimados de espírito; somos angustiados, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; somos derrubados, mas não destruídos” (2Cor 4, 8-9).

4. AS PERSEGUIÇÕES SÃO LEVES PARA O CRISTÃO

As aflições e as perseguições seguem o homem piedoso, não o precedem. Daí a palavra perseguição, persecutio.

A cruz é tão doce para quem ama, que já não é cruz, mas o princípio da vida e da verdadeira alegria; por isso Santa Catarina de Sena achava amargas as consolações daqui de baixo e doces as amarguras. Ah! na cruz encontra-se a verdadeira doçura, a consolação sincera, a verdadeira alegria; abraçai-a, e o sabereis por experiência. E, depois, não se vai acaso da cruz para o Céu? … Não há aflição tão dura e pungente, diz São Gregório, que não pareça leve àquele que pensa na Paixão de Jesus Cristo; pois, qualquer que seja a tribulação que nos assalte, é sempre pouca coisa, se pensarmos que muito mais dilacerantes foram as palavras, mais dolorosos os golpes e mais atrozes os suplícios a que Ele por nós se submeteu: sua cabeça foi dilacerada pela coroa de espinhos, seus olhos foram cobertos por um véu, seus ouvidos foram lacerados por horríveis blasfêmias, foi saciado de fel e mirra, seu augusto rosto foi desfigurado pelos bofetões e escarros. Teve os ombros extenuados sob o peso da cruz, o coração amargurado de tristeza, o corpo inteiro lacerado por vergas, as mãos e os pés trespassados por pregos. Em suma, não foi senão chagas e dores, desde a planta dos pés até o alto da cabeça (Homil. in Pass. 1, 6).

5. JESUS CRISTO NOS AJUDA A SOFRER AS AFLIÇÕES

“Nosso Pontífice, diz o grande Apóstolo aos Hebreus, não é de tal natureza que não saiba compadecer-se de nossas fraquezas; pelo contrário, foi posto à prova, como nós, em toda sorte de males, embora isento de pecado” (Hb 4, 15). Jesus Cristo sofre com os homens que são seus membros; sofreu com São Lourenço o fogo, com Santo Estêvão o apedrejamento, com Santo Inácio Mártir as mordidas das feras, etc. Ele participa dos combates de seus fiéis servos, segundo se depreende das palavras de São Paulo a Timóteo: “Tu sabes das perseguições e dos sofrimentos que padeci em Antioquia, em Icônio e em Listra, quão grandes foram as aflições que encontrei; mas de todos esses males o Senhor me livrou” (2Tm 3, 11). E mais abaixo: “Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu, mas todos me abandonaram; não lhes seja isso imputado. O Senhor, porém, assistiu-me e fortaleceu-me… e fui libertado da boca do leão” (2Tm 4, 16-17).

“Quando o invoquei, ouviu-me o Deus da minha justiça; na tribulação, abriu-me um caminho espaçoso” (Sl 4, 1). Estas palavras do Salmista são assim comentadas pelo Cardeal Belarmino: Algumas vezes Deus atende, libertando da aflição; outras vezes atende, concedendo a virtude da paciência, e este é um benefício ainda mais assinalado; outras vezes concede, além disso, não somente a paciência, mas também a alegria (Comment. in Psalm.).

“Deus está muito perto do coração que geme” (Sl 33, 19), diz o Profeta; e em outro lugar, dirigindo-se a Deus, exclama: “Quanto me fizeste experimentar de tribulações numerosas e acerbas! e de novo me deste vida e, uma vez mais, das profundezas da terra me retiraste” (Sl 70, 20); e o Senhor lhe diz: “Invocaste-me na tribulação, e eu te libertei; ouvi-te na obscura tempestade; pus-te à prova nas águas da contradição” (Sl 80, 8). E de outros ainda atesta o mesmo Salmista que “em meio às tribulações elevaram seus clamores ao Senhor, e Ele os livrou de suas misérias” (Sl 106, 13).

Tobias dizia que Deus fere e cura, conduz ao sepulcro e dele nos retira (Tb 13,2); e reconhecia que Deus nos pune por causa de nossas iniquidades e nos salvará por consideração à sua misericórdia (Tb 13,5).

6. AS CONSOLAÇÕES ACOMPANHAM AS AFLIÇÕES

À medida que aumentam em nós os sofrimentos de Jesus Cristo, crescem também em nós as consolações por meio de Jesus Cristo, diz São Paulo (2Cor 1,5). Ah, sim! Quanto mais se multiplicam e se agravam as aflições suportadas pela causa de Deus, tanto mais crescem e abundam os consolos. As aflições dos mundanos, ao contrário, são fel sem mel, e quanto mais se multiplicam, tanto mais aumenta a desolação, o tédio e o abatimento, seus companheiros inseparáveis. Daí se segue que, em vez de evitar as cruzes, convém desejá-las, porque são fecundas em alegrias. São Paulo fazia a doce experiência disso quando escrevia: “Sinto-me inundado de alegria em meio a todas as nossas tribulações” (2Cor 7,4). Longe de nós, portanto, o entristecer-nos e afligir-nos por causa de nossas penas e aflições! Alegremo-nos antes com elas e regozijemo-nos santamente, imitando o grande Apóstolo, que fazia objeto de glória não somente a esperança cristã, mas também a tribulação sofrida por Jesus Cristo (Rm 5,2-3).

Tendo os Apóstolos sido cruelmente açoitados por ordem do sinédrio, lemos que voltavam alegres e jubilosos por terem sido julgados dignos de sofrer aquela afronta pelo nome de Jesus Cristo (At 5,41); e de Santo André, em particular, diz São Bernardo que caminhava para o suplício da cruz não somente com paciência, mas de boa vontade, antes, com ardor, como se corresse não para os tormentos e o martírio, mas para uma esplêndida festa, para um magnífico banquete (12).

7. É PRECISO SOFRER AS AFLIÇÕES COM PACIÊNCIA, CONFIANÇA E RESIGNAÇÃO

“Nós nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus, escrevia São Paulo aos Romanos, e não somente nesta esperança, mas também nas aflições, sabendo que a aflição produz a paciência, a paciência a provação, a provação a esperança; e esta esperança não é vã” (Rm 5,2-5).

Santo Agostinho nos adverte que não nos lamentemos quando nos vemos atingidos pela adversidade, porque, pela amargura das coisas terrenas, aprendemos a amar as do Céu; peregrinos no exílio, por meio das tribulações entramos no caminho da pátria (Serm. XVIII).

Quando estiverdes aflitos, diz São Pedro Damião, quando sofrerdes, sede cheios de confiança; não murmureis, não vos impacienteis, não resmungueis, mas conservai a serenidade no rosto, a alegria no coração, e trazei nos lábios a ação de graças (Epl. VII).

E, para vos manterdes na paciência e na confiança, pensai que as aflições são uma prova de predestinação e de amor da parte de Deus, que castiga o pecador precisamente quando quer salvá-lo; ao contrário, a impunidade é sinal de cólera e de reprovação divina.

8. É PRECISO SUPORTAR AS AFLIÇÕES COM PERSEVERANÇA

“Trazemos continuamente e por toda parte, em nosso corpo, a morte de Jesus Cristo, diz o Apóstolo aos Coríntios, para que também nele se manifeste a vida de Jesus” (2Cor 4,10).

“Pode esperar com segura confiança a felicidade prometida por Deus, escreve São Leão, aquele que participa da Paixão do Salvador; e, assim como o cristão deve viver sempre segundo a piedade, assim também deve sempre levar a cruz (13)”.

9. TODAS AS AFLIÇÕES SÃO UM NADA EM COMPARAÇÃO COM O INFERNO

Ouvi Santo Agostinho: “No presente, a vida e os prazeres temporais parecem doces, e, ao contrário, achamos as aflições desagradáveis e amargas; mas quem não sorverá o cálice das tribulações por temor do fogo do Inferno? E quem não terá náusea dos deleites do século, se suspira pelos bens da eternidade feliz? (14)”.

Que são todas as cruzes, os sofrimentos, as dores, os tormentos, o fogo, o ferro, até mesmo a morte mais violenta, comparados ao fogo do Inferno? Se, portanto, a tentação vos assedia, a doença vos acomete, a tristeza vos abate, se alguém vos despreza, vos calunia, vos difama, vos maltrata, vos condena, vos crucifica, vos martiriza, pensai que tudo isso dura pouco e desaparece, mas que o fogo do Inferno é eterno…

Não procuremos, diz o Crisóstomo, subtrair-nos ao mal de sofrer, mas ao mal de pecar: porque a única verdadeira aflição é a de ofender a Deus (15).

10. O HOMEM CRIA PARA SI MUITAS AFLIÇÕES

Deus fez anunciar aos homens, pela boca do Salmista, que, se rejeitarem a sua lei e não se conduzirem segundo os seus mandamentos, se profanarem a sua justiça e transgredirem os seus preceitos, Ele visitará as suas iniquidades com a vara na mão e castigará severamente os seus pecados (Sl 88, 32). Isto quer dizer que a violação da lei de Deus foi sempre e será sempre a primeira e principal causa de todas as aflições; mas essa violação é voluntária. Por que, então, nós, miseráveis pecadores, nos queixamos das penas que nos são infligidas, se a sua verdadeira causa é o pecado ao qual livremente consentimos? Deixemos de ofender a Deus, e Deus cessará de nos punir: nossas aflições diminuirão, e a graça nos sustentará para suportá-las com resignação e até com alegria.

“Sentavam-se nas trevas e na sombra da morte, prisioneiros, acorrentados, mendigos, porque foram rebeldes à palavra de Deus e desprezaram os desígnios do Altíssimo. E seu coração foi humilhado pelos sofrimentos; ficaram sem forças, e não houve quem lhes prestasse socorro” (Sl 106, 10-12). Quantas vezes se verificam estas palavras do Salmista!

Onde encontrar um suplício mais atroz que o de uma consciência torturada, dilacerada e lacerada pelo remorso? Que aflição se pode comparar à de saber-se inimigo de Deus, escravo de Satanás, digno do Inferno? Que pena mais grave que aquela que o pecado mortal inflige, dando morte à alma? Estas são as aflições que se devem sobretudo temer; ora, não somos nós que as queremos, que as procuramos deliberadamente, quando queremos e procuramos o pecado que é a sua própria causa? … Quanto às próprias coisas temporais, quantas aflições não atraímos sobre nós por meio delas! … Vós entrais, sem reflexão e sem vocação, no estado matrimonial; a mulher com quem vos casastes é uma insensata etc.: quem vo-la impôs? Vós dissipais os vossos bens em jogos, banquetes e farras; bem depressa, como o filho pródigo, vos encontrais na miséria: quem vos reduziu a tais apertos?… Contrariamente aos salutares avisos de seus pais, de seu pastor e do confessor, aquela jovem se expõe ao perigo, nele cai, perde-se e desonra-se: quem é culpado de sua humilhante e cruel aflição? Apesar das caridosas e repetidas advertências, aquele jovem libertino põe em perigo a saúde e a vida: de quem é a causa? … A maior parte dos sofrimentos que nos oprimem e de que tanto nos queixamos é obra nossa: nós nos torturamos com as próprias mãos; não acusemos ninguém senão a nós mesmos.

11. O EXEMPLO DOS SANTOS NOS AJUDA A SUPORTAR AS AFLIÇÕES

Já que estamos rodeados de tão numerosa multidão de testemunhas, diz São Paulo aos Hebreus, livremo-nos de tudo o que nos embaraça e dos laços do pecado, e corramos, por meio da paciência, na carreira que nos está aberta (Hb 12, 1).

“Ó Senhor, exclama Santo Agostinho, cortai e queimai aqui embaixo, contanto que nos poupeis por toda a eternidade” (Soliloq.).

“Ou sofrer, ou morrer” era o voto de Santa Teresa (In Vita).

Dídimo, que foi cego durante oitenta anos, costumava dizer que era muito melhor ver com os olhos do espírito do que com os do corpo; aqueles não têm de temer a palha do pecado, mas estes podem, com um só olhar, lançar-nos no fogo do Inferno. E, quanto a si mesmo, considerava-se afortunado por ser cego durante tão longo tempo (Vita Patr.). O Beato Pedro, abade de Claraval, tendo perdido um olho depois de uma cruel enfermidade, dizia: “Fui libertado de um dos meus inimigos, e temo mais aquele que me resta do que aquele que perdi” (RIBADENEIRA, In Vita).

Tendo São Lourenço Justiniano caído enfermo já em idade muito avançada, seu médico viu-se obrigado a cortar-lhe as carnes; mas, chegado o momento, hesitava em empregar o ferro. Então o Santo, para encorajá-lo, disse: Vamos, tende coragem, porque o vosso ferro é um brinquedo, comparado às unhas agudas e às grelhas de fogo empregadas com os Mártires (SURIUS, In Vita).

Conduzida ao suplício, assim falava Santa Cecília: “Morrer mártir não é perder a juventude, mas trocar a temporal por uma juventude eterna; ou dar barro para receber ouro, deixar uma pobre cabaninha, um vil casebre, por um palácio suntuoso e esplêndido: é trocar uma coisa frágil e transitória por outra estável e imperecível” (SURIUS, In Vita).

Sirvam-vos de modelo os jovens na fornalha da Babilônia; Daniel na cova dos leões; os Apóstolos, os Mártires, os Santos…

12. AS AFLIÇÕES SÃO UM NADA COMPARADAS À GLÓRIA ETERNA QUE NOS ESPERA

“Os sofrimentos da vida presente, escrevia São Paulo aos Romanos, não têm proporção alguma com a glória que um dia deverá resplandecer sobre nós” (Rm 8, 18); e aos Coríntios escrevia que não punha o coração nas coisas visíveis, que são perecíveis e transitórias, mas sim nas invisíveis, porque duram eternamente (2Cor 4, 6).

Quem, pois, comenta aqui São Bernardo, ousará murmurar e dizer: Ah! isto é longo demais, pesado demais; não posso suportar aflições tão longas e tão penosas! São Paulo chama as tribulações de provações de um momento; entretanto, certamente nenhum de vós recebeu as chicotadas que os judeus deram a esse grande Apóstolo; não trabalhastes, como ele, mais que todos os outros homens; não combatestes até o sangue. Considerai que as aflições não têm sequer sombra de proporção com a glória que Deus lhes reserva. Antes de tudo, por que levar em conta horas e dias incertos? A hora passa, e com ela passam as penas. Elas não duram, mas desaparecem à medida que se sucedem. O mesmo não acontece com a glória e a recompensa concedida aos trabalhos e aos sofrimentos. Essa recompensa não sofre mudança, não conhece fim: existe inteira em cada instante e dura por toda a eternidade. Além disso, a pena é bebida em pequenos goles; não se bebe continuamente, e passa. Mas a recompensa é uma torrente de prazer; é um rio de alegria que transborda; é um mar de glória e de paz (Serm. I). Os sofrimentos desaparecem como um sopro; a glória dura como Deus. “Tão grande é o bem que espero”, exclamava São Francisco de Assis, “que toda pena, toda enfermidade, toda mortificação, toda humilhação me é deleitável” (São Boaventura, In Vita).

As aflições são uma gota de fel; mas o prêmio reservado àqueles que as suportam paciente e cristãmente é um oceano de mel, uma glória, uma delícia, uma felicidade eterna…

“Coragem, pois, diz-vos Jesus Cristo; coragem, meu bom e leal servo, sê fiel nas pequenas coisas, e eu te constituirei sobre muitas e grandes: entrarás na glória do teu Senhor” (Mt 25, 21).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.