“A Vossa cruz, ó Jesus, pregava São Leão, é fonte de todas as bênçãos, causa de todas as graças; por ela os fiéis merecem encontrar força na fraqueza, glória na infâmia, vida na morte (1)”.
O Crisóstomo enumera assim os tesouros e as graças que nos vêm da cruz: A cruz é a esperança dos cristãos, a ressurreição dos mortos, a guia dos circos, a salvação dos desesperados, a ressurreição dos mortos, a consolação dos pobres, o freio dos ricos, a perdição dos orgulhosos, o castigo dos maus. Ela nos torna triunfantes sobre o demônio, vencedores do inferno; instrui os jovens, conforta os fracos, reanima os desanimados; é o piloto daqueles que navegam no mar do mundo, o porto dos náufragos, trincheira insuperável que protege o cristão contra todos os seus inimigos. É a mãe dos órfãos, o escudo das viúvas, o conselho do justo, o asilo dos desamparados, a ama das crianças, o apoio dos adultos, o socorro dos velhos, para os quais serve de nave a fim de aportarem à eternidade feliz, a luz que ilumina nas trevas, a sabedoria daqueles que o mundo estúpido, cego e ímpio considera insensatos. A cruz é a liberdade dos escravos, a filosofia dos grandes, a magnificência dos reis, o mais sólido escudo dos combatentes. É o objeto dos louvores dos profetas, a bandeira dos apóstolos, o princípio da glória dos mártires, da austeridade dos religiosos, da castidade dos virgens, a alegria do sacerdócio, o fundamento da Igreja, a sentinela que vigia sobre o mundo. Ela derrubou os templos pagãos e destruiu os ídolos. É o escândalo dos judeus por causa de seu cego endurecimento, a ruína dos maus incorrigíveis que a desprezam, a força dos fracos, o remédio dos doentes, a cura dos leprosos e dos paralíticos, o pão dos famintos, a água benéfica dos sedentos, a veste dos nus. A cruz está plantada no início do caminho que devem tomar os pecadores que retornam a Deus; é a árvore da vida eterna (Homil. IV de Cruce).
A cruz, diz Cassiodoro, é a luz dos humildes, o caminho do cristão (Hom. IV de Cruce). “A cruz, escreve São João Damasceno, é a chave do paraíso, o bastão dos fracos, o cajado dos pastores, o guia dos convertidos, a perfeição dos que progridem, a salvação da alma e do corpo, o afastamento de todos os males, o princípio de todos os bens (2)”.
Ó santa cruz, exclama Rabano Mauro: tu és a remissão dos pecados, o alimento da piedade, o aumento dos méritos, o remédio dos sofredores, o refúgio dos oprimidos, a guardiã da santidade, a felicidade dos infelizes (De Laude Cruc.). A largura de vossa cruz, ó Senhor, diz São Bernardo, é a caridade; seu comprimento, a longanimidade; sua altura, a esperança; sua profundidade, o temor. Quem vos encontra não vos encontra em outro lugar senão na cruz. A alma deve abraçar-se a esta árvore da vida, para colher dela frutos de uma delicadeza sem igual (De Crucis laud.).
Tendo o povo judeu murmurado contra Deus no deserto, ele enviou serpentes para puni-los, e aqueles que eram mordidos por elas morriam. Moisés pede graça pelo povo culpado, e Deus ordena-lhe que faça uma serpente de bronze e a eleve à vista da multidão, como sinal de perdão, assegurando-lhe que aquele que, depois de ser mordido, olhar para a serpente ficará curado (Nm 21, 7-8). Segundo a opinião de todos os intérpretes, a serpente de bronze simbolizava a cruz de Jesus Cristo.
Também são símbolos da cruz a árvore da vida no paraíso terrestre, a vara taumatúrgica de Moisés e a arca da aliança, diante da qual o Jordão recua e as muralhas de Jericó desabam. E o belo rio que, dividindo-se em quatro braços, irrigava o Éden, mostra-nos uma esplêndida figura da cruz, que leva por toda parte as ondas vivificantes da graça.
“A cruz, pregava Santo Agostinho, é o princípio, a causa de toda a nossa felicidade; ela nos curou da cegueira do erro; transportou-nos das trevas para a luz; deu a paz aos vencidos; reaproximou Deus dos transviados; transformou os estrangeiros em cidadãos; ela põe fim às discórdias, assegura a paz, concede abundantemente toda espécie de bens. Hoje a cruz está plantada e o mundo está santificado; a cruz está erguida, os demônios são afugentados e a morte jaz prostrada; a cruz venceu e a morte foi derrotada; hoje o demônio foi acorrentado, o homem libertado, Deus glorificado (3)”.
“Eu te porei como meu selo” (Ag. 2, 24.), disse Deus pela boca do profeta. O selo de Jesus Cristo é a sua cruz, e este selo nos previne contra as seduções da carne, do mundo e do demônio. Eis em que sentido o grande Apóstolo dizia: “Eu trago em meu corpo as marcas do Senhor Jesus” (Gl. 6, 17). Assim, a penitência voluntária, a mortificação, a abnegação, a austeridade, a humilhação, os desprezos, a paciência, os opróbrios, as perseguições, as cadeias, as prisões, o martírio, a morte por Deus, são a marca do selo de Jesus Cristo… O selo do demônio, ao contrário, é a volúpia: onde encontrardes esse vício degradante, ficai atentos, fugi. Obedecer às próprias paixões, amar a moleza, a liberdade excessiva, a ambição, considerar-se grande, buscar os louvores, as adulações, servir à vaidade, ao orgulho etc., é trazer o selo de Satanás, o caráter da besta…
A cruz é o remédio eficaz para curar a febre do orgulho, amansar a cólera, atenuar o frenesi dos sentidos, dissipar a melancolia do indolente etc. Por isso, quando vos sobrevém uma cruz e vos cabe carregá-la, sabei que recebeis um dom excelente, que vos tornará agradáveis a Deus. O Senhor imprime em vós a sua marca, e pela cruz adquiris uma verdadeira semelhança com o Filho de Deus.
“Em sua paixão, diz Lactâncio, Jesus Cristo estendeu os braços que mediram a terra, para indicar que do Oriente e do Ocidente um grande povo, formado de todas as nações e de todas as línguas, viria refugiar-se sob as asas de sua poderosa proteção (4)”.
O grande Apóstolo escrevia que Jesus Cristo o enviara a pregar o Evangelho, mas não com discursos polidos e elegantes, para não tornar vã a cruz de Cristo. Pois a pregação da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas, para aqueles que se salvam, é o poder de Deus. Por isso está escrito: Eu destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a ciência dos entendidos. Que se fizeram os sábios, os doutores da lei, os espíritos curiosos das ciências daqui de baixo? Acaso Deus não convenceu de loucura a sabedoria do mundo? Com efeito, vendo que o mundo, com a sua sabedoria, não conhecera a sabedoria divina, Deus quis salvar, pela loucura da pregação, aqueles que nele crerem. Os judeus pedem milagres, e os gentios procuram a sabedoria. Ora, nós pregamos Jesus crucificado, que é escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas que é a sabedoria e a força de Deus para aqueles, tanto judeus como gentios, que são chamados a conhecê-lo. Porque aquilo que em Deus parece loucura é mais sábio que a sabedoria dos homens; e aquilo que em Deus parece fraqueza é muito mais forte que a força deles (1Cor. 1, 17-25).
Aquilo que em Deus parece loucura e fraqueza, isto é, aquilo que os insensatos consideram fraqueza e loucura, em Jesus Cristo que nasce, padece e morre — sua humanidade, sua pobreza, sua humildade, sua paixão, sua cruz — foram precisamente, com sabedoria e poder, a vitória de Jesus Cristo, a salvação do mundo, a derrota do inferno, a abertura do céu, a mitigação da cólera celeste, o aniquilamento da sentença de morte proferida contra os homens, a fonte de todas as graças, de todas as bênçãos, da ressurreição e da vida do universo e, finalmente, de uma glória eterna para Deus, para os anjos e para os homens, diz Santo Ambrósio (Serm. de Cruce).
Sobretudo na cruz Jesus Cristo deu provas manifestas de sua bondade. 1° Mostrou-nos o seu amor infinito, para atrair-nos a si pelo amor e pela gratidão. Com efeito, Jesus Cristo não era impelido a sofrer e morrer por nenhuma necessidade, nem pela esperança de ser útil a si mesmo; somente o seu afeto por nós o levou a isso. 2° Ele resgatou os homens na cruz, não pelo poder de sua divindade, diz Santo Agostinho, mas pela justiça e pela humildade de sua paixão (5). 3° Na cruz ofereceu-nos um modelo de obediência, de constância, de paciência, de penitência, de mortificação, de coragem e de todas as virtudes. 4° Na cruz Jesus condenou a sabedoria insensata e a vaidade do mundo; apresentou ao homem decaído por causa do orgulho e dos prazeres o modelo da verdadeira vida; indicou-lhe o modo de se reerguer por meio da humildade da cruz… A cruz é a cátedra da divina bondade, do puríssimo e infinito amor de Deus… Deus amou o homem desde toda a eternidade, mas, para testemunhar-lhe esse amor, não precisou senão de um pensamento; amou o homem na criação, mas a prova desse amor não lhe custou senão uma palavra: Faciamus; ao contrário, para resgatá-lo teve de suportar sofrimentos inexprimíveis, derramar o sangue, enfrentar a morte! … Pregado na cruz, Jesus Cristo permanece suspenso entre o céu e a terra como mediador, para reconciliar os homens com Deus; recebe em seu corpo as flechas que a vingança divina dispara contra os homens e não permite que cheguem até eles; satisfaz por todos os seus delitos. Ele curva em forma de arco os braços para lançar a Deus, seu Pai, os dardos ardentes de sua oração e de seu amor; fere o coração do Pai e dele faz brotar o perdão e a graça para todos os homens… “Contemplai, diz Santo Agostinho, as feridas daquele que pende da cruz, o sangue daquele que morre, o preço daquele que vos redime (6)”.
É precisamente aqui que mais resplandecem a sabedoria e o poder de Deus, por ter triunfado de tudo mediante um instrumento tão impróprio e insignificante como é a cruz. O cordeiro pôs em fuga e venceu os leões e os lobos…
E em outro lugar o mesmo doutor escreve: “Ele tem a cabeça inclinada para beijar os homens, o coração aberto para acolhê-los, os braços estendidos para abraçá-los, o corpo exposto para redimi-los. Considerai quão grandes são essas provas de amor; pesai-as nas balanças de vosso coração, para que se grave inteiramente em vosso coração aquele que, por nós, foi todo pregado na cruz (7)”.
O Calvário é a grande escola em que se ensina, com linguagem inefável, o amor de Jesus Cristo pelos homens. “Ó imensa, indescritível bondade do benigníssimo Deus, exclama Santo Efrém, que concedeu tantos e tão excelentes bens ao gênero humano por meio da cruz! (8)”.
O mesmo desígnio da Providência manifesta-se na escolha dos Apóstolos. Para converter e salvar o mundo, obra superior a todas as forças humanas, Jesus Cristo escolhe doze homens iletrados, sem instrução, sem força, sem apoio, sem riquezas e sem crédito no mundo. Mas Deus, diz São Paulo, escolheu os menos sábios, aos olhos do mundo, para confundir os sábios; escolheu os fracos, segundo o mundo, para vencer os fortes; empregou as coisas mais vis e ignóbeis, segundo o juízo do mundo, e aquilo que não é, para destruir aquilo que é, a fim de que ninguém se glorie diante dele (2Cor. 1, 37-29).
Na fraqueza da humanidade de Jesus Cristo, em sua paixão e morte, estavam ocultas a majestade, a divindade e sua força infinita. Por isso, ao expirar na cruz, a terra treme, as rochas se fendem, os mortos ressuscitam e o sol se vela.
“Em sua paixão, diz Lactâncio, Jesus Cristo estendeu os braços que mediram a terra, para indicar que do Oriente e do Ocidente um grande povo, formado de todas as nações e de todas as línguas, viria refugiar-se sob as asas de sua poderosa proteção (4)”.
O grande Apóstolo escrevia que Jesus Cristo o enviara a pregar o Evangelho, mas não com discursos polidos e elegantes, para não tornar vã a cruz de Cristo. Pois a pregação da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas, para aqueles que se salvam, é o poder de Deus. Por isso está escrito: Eu destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a ciência dos entendidos. Que se fizeram os sábios, os doutores da lei, os espíritos curiosos das ciências daqui de baixo? Acaso Deus não convenceu de loucura a sabedoria do mundo? Com efeito, vendo que o mundo, com a sua sabedoria, não conhecera a sabedoria divina, Deus quis salvar, pela loucura da pregação, aqueles que nele crerem. Os judeus pedem milagres, e os gentios procuram a sabedoria. Ora, nós pregamos Jesus crucificado, que é escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas que é a sabedoria e a força de Deus para aqueles, tanto judeus como gentios, que são chamados a conhecê-lo. Porque aquilo que em Deus parece loucura é mais sábio que a sabedoria dos homens; e aquilo que em Deus parece fraqueza é muito mais forte que a força deles (1Cor. 1, 17-25).
Aquilo que em Deus parece loucura e fraqueza, isto é, aquilo que os insensatos consideram fraqueza e loucura, em Jesus Cristo que nasce, padece e morre — sua humanidade, sua pobreza, sua humildade, sua paixão, sua cruz — foram precisamente, com sabedoria e poder, a vitória de Jesus Cristo, a salvação do mundo, a derrota do inferno, a abertura do céu, a mitigação da cólera celeste, o aniquilamento da sentença de morte proferida contra os homens, a fonte de todas as graças, de todas as bênçãos, da ressurreição e da vida do universo e, finalmente, de uma glória eterna para Deus, para os anjos e para os homens, diz Santo Ambrósio (Serm. de Cruce).
Sobretudo na cruz Jesus Cristo deu provas manifestas de sua bondade. 1° Mostrou-nos o seu amor infinito, para atrair-nos a si pelo amor e pela gratidão. Com efeito, Jesus Cristo não era impelido a sofrer e morrer por nenhuma necessidade, nem pela esperança de ser útil a si mesmo; somente o seu afeto por nós o levou a isso. 2° Ele resgatou os homens na cruz, não pelo poder de sua divindade, diz Santo Agostinho, mas pela justiça e pela humildade de sua paixão (5). 3° Na cruz ofereceu-nos um modelo de obediência, de constância, de paciência, de penitência, de mortificação, de coragem e de todas as virtudes. 4° Na cruz Jesus condenou a sabedoria insensata e a vaidade do mundo; apresentou ao homem decaído por causa do orgulho e dos prazeres o modelo da verdadeira vida; indicou-lhe o modo de se reerguer por meio da humildade da cruz… A cruz é a cátedra da divina bondade, do puríssimo e infinito amor de Deus… Deus amou o homem desde toda a eternidade, mas, para testemunhar-lhe esse amor, não precisou senão de um pensamento; amou o homem na criação, mas a prova desse amor não lhe custou senão uma palavra: Faciamus; ao contrário, para resgatá-lo teve de suportar sofrimentos inexprimíveis, derramar o sangue, enfrentar a morte! … Pregado na cruz, Jesus Cristo permanece suspenso entre o céu e a terra como mediador, para reconciliar os homens com Deus; recebe em seu corpo as flechas que a vingança divina dispara contra os homens e não permite que cheguem até eles; satisfaz por todos os seus delitos. Ele curva em forma de arco os braços para lançar a Deus, seu Pai, os dardos ardentes de sua oração e de seu amor; fere o coração do Pai e dele faz brotar o perdão e a graça para todos os homens… “Contemplai, diz Santo Agostinho, as feridas daquele que pende da cruz, o sangue daquele que morre, o preço daquele que vos redime (6)”.
É precisamente aqui que mais resplandecem a sabedoria e o poder de Deus, por ter triunfado de tudo mediante um instrumento tão impróprio e insignificante como é a cruz. O cordeiro pôs em fuga e venceu os leões e os lobos…
E em outro lugar o mesmo doutor escreve: “Ele tem a cabeça inclinada para beijar os homens, o coração aberto para acolhê-los, os braços estendidos para abraçá-los, o corpo exposto para redimi-los. Considerai quão grandes são essas provas de amor; pesai-as nas balanças de vosso coração, para que se grave inteiramente em vosso coração aquele que, por nós, foi todo pregado na cruz (7)”.
O Calvário é a grande escola em que se ensina, com linguagem inefável, o amor de Jesus Cristo pelos homens. “Ó imensa, indescritível bondade do benigníssimo Deus, exclama Santo Efrém, que concedeu tantos e tão excelentes bens ao gênero humano por meio da cruz! (8)”.
O mesmo desígnio da Providência manifesta-se na escolha dos Apóstolos. Para converter e salvar o mundo, obra superior a todas as forças humanas, Jesus Cristo escolhe doze homens iletrados, sem instrução, sem força, sem apoio, sem riquezas e sem crédito no mundo. Mas Deus, diz São Paulo, escolheu os menos sábios, aos olhos do mundo, para confundir os sábios; escolheu os fracos, segundo o mundo, para vencer os fortes; empregou as coisas mais vis e ignóbeis, segundo o juízo do mundo, e aquilo que não é, para destruir aquilo que é, a fim de que ninguém se glorie diante dele (2Cor. 1, 37-29).
Na fraqueza da humanidade de Jesus Cristo, em sua paixão e morte, estavam ocultas a majestade, a divindade e sua força infinita. Por isso, ao expirar na cruz, a terra treme, as rochas se fendem, os mortos ressuscitam e o sol se vela.
A cruz é, antes de tudo, o preço de nossa redenção; depois, é o livro da sabedoria e da ciência divina. Neste livro divino, escrito com pregos embebidos em sangue, todo homem, por mais rude que seja, pode ler e descobrir: 1° o amor infinito de Jesus Cristo…; 2° a enormidade do pecado mortal…; 3° o rigor das penas do inferno. Com efeito, se um Deus sofreu tanto para expiar pecados que não eram seus; se o Pai tratou tão severamente seu Unigênito, a própria inocência, porque havia tomado sobre si nossas culpas, que suplícios serão reservados aos réprobos pelas culpas cometidas por eles, seres tão vis e desprezíveis?…; 4° a cruz ensina todas as virtudes e perfeições…; 5° ela nos mostra o preço da alma humana, mostrando-nos que custa o sangue de um Deus…; 6° indica-nos quão grande deve ser a felicidade dos eleitos, pois, para lhes alcançá-la, Jesus Cristo deu a si mesmo. Por isso, todos os santos fizeram, de algum modo, da cruz seu único livro, que mantiveram continuamente aberto, estudando nele dia e noite…
São Paulo se gloriava de não saber outra coisa senão Jesus crucificado (1Cor. 11, 2). E, no entanto, era tão douto que confundia os filósofos de Atenas e o mundo inteiro. Para ele, a ciência da cruz é a ciência por excelência, a mais sublime das ciências (Ef. 3, 19).
“A madeira em que estavam pregados os membros de Jesus moribundo, escreve
Santo Agostinho, é a cátedra da qual o divino Mestre ensina e instrui o mundo (9)”.
São Tomás de Aquino, o príncipe dos teólogos, assegura-nos ter aprendido muito mais aos pés do crucificado do que nos livros. São Boaventura, falando da cruz, dizia: “Este é o livro que me ensina tudo o que escrevo e ensino; pois, aos pés do crucificado, minha alma haure maiores luzes do que em qualquer outra leitura, discussão ou estudo (10). Posto isso, que maravilha se os mártires fizeram calar os juízes com suas celestes respostas?
Se refletirdes um pouco, diz Santo Ambrósio, logo entendereis como a cruz de Jesus Cristo foi um tribunal: do alto da cruz, o Salvador declarou absolvido o ladrão arrependido e crente, e condenou o incrédulo e impenitente… E o livro da cruz será ainda aquele que sentenciará os homens no dia do juízo…
“Quanto a mim, dizia o Apóstolo, Deus não permita que eu jamais me glorie de outra coisa senão da cruz do Senhor Jesus Cristo, por amor do qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl. 6, 14). A esse respeito diz Santo Agostinho: “Tinha toda a razão o Apóstolo para gloriar-se na sabedoria, na majestade e no poder de Cristo; e, no entanto, não: ele se gloria da cruz: In cruce. Aquilo de que o filósofo do mundo se envergonha constitui para o Apóstolo título de glória. Para ele, onde está a humildade, aí resplandece a majestade; onde está a fraqueza, aí se manifesta a força; onde está a morte, aí reina a vida. Se também tu queres ser discípulo da cruz, não te envergonhes dela; e precisamente para que não te envergonhes, recebeste este sinal sagrado na fronte, como em sua própria sede o rubor da vergonha (11)”. E São Bernardo: “O grande Apóstolo nada considera tão glorioso quanto levar o opróbrio da cruz de Cristo. Não duradoura, mas agradável é a ignomínia da cruz para aquele que não é ingrato para com o Crucificado. Ah! A cruz é preciosa e merece ser amada: ela tem suas delícias. Na cruz desabrocha a vida, forma-se o fruto da felicidade, dela goteja o óleo da alegria e o bálsamo da consolação. A cruz não é uma árvore silvestre, mas a árvore da vida para quem a abraça, árvore que dá frutos e produz a salvação; de outro modo, como ocuparia ela a terra do Senhor? (12)”.
“Estou crucificado com Jesus Cristo, dizia São Paulo; vivo, mas já não sou eu que vivo: é Jesus Cristo que vive em mim” (Gl. 2, 19-20). A São Paulo faz eco São Bernardo, atestando a seu respeito que tudo aquilo que o mundo considera cruz, ele o tem por delícias; e aquilo que o mundo estima como delícias, para ele é cruz (13).
“Observai, escrevia o Apóstolo aos Hebreus, o autor e consumador da fé, Jesus, o qual, em vez da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz e desprezou a ignomínia” (Hb 12, 2); e dizia de si aos Colossenses que se alegrava inteiramente nos sofrimentos e completava em sua carne o que faltava à paixão de Cristo, sofrendo por seu corpo, que é a Igreja (Cl 1, 24.).
Tão doce é a cruz para quem ama a Deus, que já não lhe é cruz, mas caminho da vida e da felicidade. A felicidade e as verdadeiras consolações estão na cruz; abraçai-a e levai-a com resignação, e experimentareis seus preciosos efeitos. Da cruz passa-se ao céu… O mundo pagão despediu-se dos prazeres dos sentidos para apegar-se à cruz; encontrou, portanto, mais doçura nesta do que naqueles. Todos os dias, multidões de virgens abandonam pai e mãe, renunciam a um futuro lisonjeiro no século, afastam-se das carícias prodigalizadas à sua juventude, trocam as riquezas, as honras e os prazeres pela cruz; a cruz, portanto, parece-lhes mais gloriosa e mais atraente que o mundo, com suas promessas, suas alegrias e seus deleites. Como são cegos os mundanos, que não veem na cruz senão o peso, a aspereza, os cravos e o sangue; mas das doçuras, das consolações, da paz, dos méritos e das glórias que ela proporciona não têm ideia alguma! Não sabem que Deus ajuda a levar a cruz e que transforma em mel o fel que nela encontram. Uma gota dos prazeres mundanos torna-se um oceano de amargura; ao passo que a amargura da cruz, que não é senão uma gota, transforma-se nesta vida e principalmente na eternidade em um mar de delícias. Aqui se cumpre aquela promessa de Jesus Cristo: “Todo aquele que tiver deixado por mim o pai, ou a mãe, ou a esposa, ou os filhos, ou os campos, ou a casa, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29); aqui se realizam aquelas palavras do mesmo Cristo: Vinde a mim, todos vós que gemeis sob o peso, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e encontrareis repouso, porque o meu jugo é suave e o meu peso é leve (Mt 11, 29-30). No tempo da paixão do Salvador, Simão Cireneu ajudou-o a levar a cruz; agora é o Salvador quem ajuda o cristão a levar a sua.
“Tenho sede” — Sitio (Jo 19, 28), disse Jesus do alto da cruz. Esse grande Deus tinha sede de nos ver tirar proveito de seus sofrimentos e de sua morte; tenhamos também nós esta sede de nossa salvação e amaremos a cruz; Jesus Cristo nos dessedentará abundantemente com a água da graça, até inundar-nos dos esplendores da glória… Crucifiquemos o homem velho com todas as suas concupiscências; tendo-nos tornado conformes a Jesus Crucificado, tornar-nos-emos semelhantes a Jesus glorificado.
“Naquele dia, diz Isaías, o rebento de Jessé será erguido como estandarte diante dos povos, e as nações o invocarão” (Is 11,10). “O Senhor levantará sua bandeira sobre as nações” (Ib. 12). “Estenderei a minha mão sobre as nações, diz o Senhor, e erguerei o meu estandarte diante dos povos” (Is 49,22). “E o Senhor será conhecido sob um estandarte eterno, que jamais será abatido” (Is 55,13). — Esse estandarte é a cruz.
Deus saiu, escreve Habacuc, sua glória cobriu os céus, e a terra ressoa com seus louvores. Ele resplandece como o sol, traz em suas mãos chifres, e neles esconde sua fortaleza (3, 3-4). Esses chifres são a cruz, e sua força é a força da cruz, com a qual Jesus Cristo triunfa sobre a morte, fazendo-a caminhar diante de si como uma vencida (Ib. 5).
Com a cruz abate e derruba o demônio (Ib.). Os dois braços da cruz foram os dois chifres, instrumento da paixão de Jesus Cristo; com eles, ele exterminou seus inimigos e os nossos…
“Quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim”, disse Jesus Cristo (Jo 12, 32). Ó admirável poder da cruz, exclama São Leão, ó glória inefável da paixão! No Calvário vemos o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder de Jesus crucificado. Sim, ó Senhor, atraís tudo a vós; no mesmo instante em que estendíeis as mãos para um povo incrédulo que vos ultrajava, o mundo se voltava para a vossa cruz a fim de vos bendizer. Atraís tudo a vós no momento em que, para execrar o deicídio, todos os elementos se levantam horrorizados: o sol, obscurecendo-se; a terra, estremecendo; os montes, fendendo-se; a morte, devolvendo suas vítimas. Tudo atraís a vós: o véu do templo rasga-se, o Santo dos Santos subtrai-se aos pontífices indignos, para que a figura se torne realidade, as profecias se cumpram e a antiga lei ceda lugar ao Evangelho. Tudo atraís a vós: o universo inteiro verá aquilo que estava oculto no mistério, no único templo da Judeia; o mundo verá a verdade na luz (Serm. 8, de Pass.).
Quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim mesmo. Vemos essa profecia cumprida nas honras que se prestam à cruz, na glória que a circunda e nos milagres que por meio dela se realizam… A cruz conquistou para si o mundo inteiro… Pelo poder da cruz, os demônios são postos em fuga, os enfermos obtêm a cura, os cegos veem, os surdos ouvem, os mudos falam, os coxos andam, as tempestades são acalmadas, os incêndios se extinguem, os mortos ressuscitam. Pelo poder da cruz, uma luz celeste se ergueu sobre o mundo; templos foram elevados a Cristo crucificado; ele resplandece e domina em toda parte, e assim será até o fim do mundo.
A cruz é o carro sobre o qual Jesus, vencedor, triunfa sobre Satanás, o pecado, o mundo, o inferno, a morte, o homem e o próprio Deus. Como significou São Paulo com aquelas suas palavras aos Colossenses: “Jesus Cristo despojou os principados e as potestades, expondo-os à ignomínia, depois de ter triunfado deles por seu próprio poder” (II, 15). “Ele rasgou o escrito da sentença proferida contra nós; anulou-o inteiramente, pregando-o na cruz” (Ib. 14).
“A cruz, diz São Cipriano, é a pedra com que Davi feriu e matou Golias (14)”; e Santo Agostinho escrevia que, quando o catecúmeno recebe na fronte o sinal da cruz, o demônio, esse Golias espiritual, é golpeado e posto em fuga (15). Depois, em outro lugar, o mesmo doutor deixou escrito: Tendo saído das mãos de Deus e caído por orgulho, estávamos perdidos; a cruz nos mereceu retomar nosso lugar nos braços do Senhor e reerguer-nos (Serm. in Parasc.).
Cantemos com a Igreja os triunfos que Deus alcançou pela cruz: “Por ela Deus reinou — Regnavit a ligno Deus (Hym. Pass.). Deus reinou pela cruz; a cruz é o seu cetro real. Na cruz Jesus Cristo foi declarado rei; pois, observa São Lucas, acima da cabeça do Redentor estava fixada na cruz uma inscrição que, em palavras latinas, gregas e hebraicas, dizia: Este é o rei dos judeus (Lc 23,38). E essa inscrição fora assim composta e mantida por Pilatos, não obstante a oposição dos príncipes dos sacerdotes, que protestavam e propunham que a frase fosse corrigida desta maneira: porque ele disse: Eu sou o rei dos judeus (Jo 19, 21-22). Toda língua confesse que o Senhor Jesus Cristo é Senhor, diz São Paulo (Fl 2, 11). Ele foi declarado rei na cruz; seu título foi escrito e permanecerá escrito para sempre.
À vista da cruz, os pagãos, os idólatras, são tomados de espanto e querem derrubá-la. Executarão seu intento? Não; antes, lançar-se-ão aos seus pés e a abraçarão: — Regnavit a ligno Deus. — Os reis da terra se levantam contra o rival que se lhes apresenta, querem quebrar essa arma que não conhecem. Já o real profeta, iluminado pelo Espírito Santo, havia visto esse levante e essa luta, e dizia: “Por que as nações se agitaram e os povos tramaram vãos projetos? Por que os reis da terra se levantaram em conselho, e os príncipes se coligaram contra o Senhor e contra o seu Cristo?… Mas não vencerão; aquele que habita no céu rirá deles e zombará deles” (Sl. 2, 4). Os sábios, os eruditos, os filósofos do século combatem a cruz: conseguirão derrubá-la? Não, mas cairão diante dela: — Regnavit a ligno Deus. — Inimigas juradas da cruz, as paixões, o orgulho, a avareza e a volúpia fazem-lhe guerra sem trégua: quem vencerá? A cruz: — Regnavit a ligno Deus. — O demônio e o inferno fazem de tudo para reduzi-la a cinzas: conseguirão? Não, mas a cruz os lançará nas chamas inextinguíveis: — Regnavit a ligno Deus. — Tudo está desencadeado contra Jesus crucificado; todos os braços inimigos estão em movimento; e ele, pregado à cruz, tem imóveis os seus braços, e, no entanto, esses braços conduzem aos seus pés o mundo e subjugam aqueles milhões de rebeldes que os ameaçam: eles se lançarão por terra e abraçarão a cruz para obter a graça: — Regnavit a ligno Deus.
Jesus Cristo triunfa por meio de sua cruz; por meio da cruz de Jesus Cristo triunfarão também os apóstolos. Eis, diz eloquentemente o Crisóstomo, eis Pedro que, sozinho, armado de uma cruz de madeira, avança em direção a uma cidade habitada por um povo decrépito na corrupção. — Aonde vais, ó Pedro? — A Roma. — E para fazer o quê? — Para subjugar os dominadores do mundo, destruir seus ídolos e altares, derrubar o Capitólio, fazê-los cair, não obstante seu orgulho, aos pés da cruz. — Magnífico empreendimento! Mas onde estão as armas, os soldados, os meios? — Não os tenho, mas, ainda que tivesse tais forças, não sairia vencedor; somente com minha cruz de madeira vencerei. — Mas estás em teu juízo? Ou já se viu algum empreendimento que tivesse mais de temerário e de louco? — Seja temeridade ou loucura, o céu me garante o êxito. Com efeito, à sua aproximação, os deuses Capitolinos vacilam sobre suas bases, e o paganismo sente próxima a sua queda. Chegando à cidade, ele fala e é ouvido; ordena e é obedecido; troveja, e o radiante estandarte da cruz tremula sobre as ruínas do paganismo que desmorona. Os Césares, invejosos, haviam jurado a ruína da cruz, e ei-la brilhando sobre o Capitólio, sobre seu trono e sobre sua fronte. Pode-se dizer de Pedro, armado de sua cruz, com mais razão do que foi dito do primeiro dos Césares: Veio, viu, venceu. Em breve, a voz de São Pedro ecoa em regiões longínquas e jamais conhecidas; penetra além dos limites até os quais haviam avançado as armas romanas. Depois de seiscentos anos e de guerras inumeráveis, Roma se tornara a capital de um império; pela obra de um só homem que não entende de guerra, que nada conhece senão uma cruz de madeira, ela se torna, em pouco tempo, a capital do mundo. Pois já no tempo dos apóstolos São Paulo, escrevendo aos Romanos, lhes dizia: “A vossa fé é conhecida em todo o mundo” (Rm 1,8).
A cruz abraça o universo; estende-se do Oriente ao Ocidente, e seus braços tocam do setentrião ao meio-dia. Ela estava, desde toda a eternidade, predestinada a salvar o mundo: sua força e eficácia se estendem a todos os homens e a todos os tempos; ela liberta as almas do purgatório, toma-as e conduz-las ao céu.
Jesus Cristo comunicou à sua cruz seu poder, majestade, sabedoria e eternidade; participou-lhe sua eternidade neste sentido, segundo a doutrina dos Padres, de que ela permaneça ali como triunfo imperecível. No fim do mundo, o fogo consumirá todas as coisas, mas a madeira da cruz de Jesus Cristo será preservada e levada triunfalmente ao céu. Jesus no-lo deu a entender quando disse: “No último dia aparecerá o sinal do filho do homem” (Mt 24,30). Esta é a opinião de São João Crisóstomo, de São Cirilo, de Santo Efrém, de Suárez. A cruz será colocada e brilhará no céu como o estandarte eterno das vitórias de Jesus Cristo. Isaías o anuncia nestas palavras (Is 55,13). São Jerônimo é de parecer que as cinco chagas de Jesus Cristo permanecerão eternamente impressas em seu corpo, para serem um eterno monumento de sua bondade e de nossa redenção (Lib. sup. Matth.).
São Gregório chama a cruz de: “A madeira do universo” (Homil. in Ev.); e a mesma coisa já havia expressado São Paulo nestas palavras: “Todas as coisas foram reconciliadas por Jesus Cristo, que restabeleceu a paz entre o céu e a terra, por meio do sangue que derramou na cruz” (Cl 1,20).
A cruz coroa os cumes dos templos cristãos para indicar a casa de Deus; domina nas praças públicas, para que os homens aprendam a respeitar-se em toda parte; eleva-se ao longo das estradas, para que o viajante se recomende a Deus; suspende-se ao pescoço da mulher, para recordar-lhe a obrigação da modéstia; encontra-se em nossas moradas, em meio aos nossos campos, para preservá-los das desgraças; coloca-se sobre os túmulos dos mortos, como sinal de ressurreição… Pela cruz, o homem triunfa sobre tudo… triunfa sobre o demônio, o mundo, a si mesmo e até sobre Deus…
Um estandarte em forma de cruz apareceu a Constantino na véspera de uma batalha decisiva; sobre aquele estandarte lia-se: — In hoc signo vinces; — Vencerás por este sinal. E ele de fato alcançou estrondosa vitória sobre o inimigo. Assim como Constantino, pela virtude da cruz, derrotou seus inimigos materiais, também nós, pela cruz, esmagaremos nossos inimigos espirituais.
Sete são os principais frutos que podemos colher na cruz: 1º a compaixão…; 2º a contrição…; 3º a ação de graças…; 4º a imitação…; 5º a esperança…; 6º a admiração…; 7º o amor, isto é, a caridade…
A paixão de Jesus Cristo é, em si mesma, plena e perfeita e, sendo de mérito infinito, é mais que suficiente para nos resgatar. Não obstante, falta alguma coisa que deve vir de nós, isto é, devemos tomar parte nos sofrimentos e nos méritos de Jesus Cristo. Jesus não devia sofrer somente em si mesmo, mas também em seus membros; e, por esta comunhão de sofrimentos, seu corpo, que é a Igreja, cresce e se aperfeiçoa. Aceitando as penas e as dores da vida, os fiéis participam dos méritos da paixão, tornam-se semelhantes a Jesus Cristo crucificado. Isto queria dizer São Paulo com as frases já citadas: “Completo em minha carne o que falta à paixão de Jesus Cristo, sofrendo por seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). Pela aceitação das cruzes, os fiéis se tornam “participantes da natureza divina”, como se exprime São Pedro (2Pd 1,4), e da glória de Jesus Cristo por toda a eternidade, segundo a frase de São Paulo (Rm 8,17). Aqui devemos notar, com Santo Ambrósio, com o Crisóstomo e com outros:
I. Que, assim como a Igreja é um corpo místico animado por uma só e mesma alma, vivendo de uma só e mesma vida com Jesus Cristo, assim também deve suportar com ele uma só e mesma paixão; do mesmo modo que, no corpo humano, o sofrimento é comum à cabeça e aos membros. A comparação é de São Paulo, que, escrevendo aos Coríntios, dizia: “Se um membro sofre, todos os outros membros sofrem também; se um membro recebe honra, todos os outros se alegram: ora, vós sois o corpo de Jesus Cristo e membros uns dos outros” (1Cor 12,26-27). Por isso, Jesus Cristo não disse a Saulo, que perseguia a Igreja: Por que, ó Saulo, persegues a minha Igreja?, mas: Por que me persegues? (At 26,14). Assim como Jesus comunica sua graça e sua paciência, também comunica seus sofrimentos e compadece-se daqueles que sofrem.
II. Completo em mim o que resta sofrer a Jesus Cristo: isto é, é preciso que eu anuncie o Evangelho e faça Jesus Cristo conhecido às nações, para que a Igreja cresça, se aperfeiçoe e se torne, em tudo, participante da paixão e da redenção do Salvador.
III. Completo em mim o que resta sofrer a Jesus Cristo. Isto significa ainda que o fiel aplica a si mesmo, por meio das boas obras, a expiação de Jesus Cristo, e que satisfaz a Deus por suas próprias culpas, suportando a pena temporal devida ao pecado.
Jeremias dizia que Deus havia armado o seu arco e feito dele alvo de suas flechas (Lm 3,12).
1° O cristão deve saber que toda a sua vida é sofrimento interior ou exterior, enviado por Deus ou voluntariamente buscado por ele; deve esperá-lo todos os dias e até mesmo desejá-lo. Com efeito, não passa um dia sem que seja flechado por Deus, pelo demônio, pelo mundo, pela carne, pelos amigos, pelos inimigos e pelas línguas perversas. As doenças, as contrariedades e os infortúnios são flechas de Deus.
2° O cristão deve ainda estar persuadido de que essas flechas, de onde quer que venham, são flechas de amor, não de ódio. Deus nos fere: 1) para abater a nossa desobediência e soberba e para nos submeter a ele; por isso derrubou Saulo e o converteu à Igreja; 2) para nos punir pelos nossos pecados e fazer-nos expiá-los; por isso puniu os judeus; 3) para destruir em nós a concupiscência da carne: lança contra os luxuriosos as flechas das doenças, das contradições e dos remorsos, obrigando-os assim a combater e vencer suas inclinações;
4) para conduzir o homem à paciência, à santidade e à perfeição; por isso feriu Jó e Tobias;
5) para matar nele os desejos terrenos e os pensamentos mundanos, e inocular nele os pensamentos e desejos celestes: desse modo, o Senhor prepara o homem para entrar na cidade dos eleitos, segundo aquelas palavras da Escritura: “Por meio de muitas tribulações nos é necessário entrar no reino dos céus” (At 14, 21); e aquela sentença de Jesus Cristo: “O reino dos céus sofre violência, e somente os violentos o arrebatam” (Mt 11, 12); 6) para aproximar o homem de Jesus Cristo e torná-lo semelhante a ele.
Aprouve a Deus manifestar a virtude de sua cruz na admirável paciência dos santos; ele mesmo, vindo ao mundo, não escolheu outro bem senão os sofrimentos e o Calvário. Quereis encontrar Deus? Buscai a cruz: ele está suspenso nela, e nela o encontrareis… Gemeis vós, oprimido pelas penas? Alegrai-vos: encontrastes Jesus Cristo, estais com ele… “Bem-aventurados, diz ele, os que sofrem por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5, 10). “Felizes de vós quando o mundo vos amaldiçoar, vos perseguir e disser falsamente todo mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque grande é a recompensa que vos está reservada nos céus” (Ib. 11-12). Quando sofreis, tendes Deus convosco; ele mesmo vo-lo assegura pela boca do profeta: “Estarei com ele na tribulação; salvá-lo-ei e o colocarei na minha glória. Dar-lhe-ei a eternidade dos dias e mostrar-lhe-ei o Salvador prometido” (Sl 90, 15-16). Quando Santo Antônio, depois das terríveis lutas sustentadas contra os demônios, dizia a Jesus Cristo: “Onde estáveis vós, ó meu Jesus?” — este lhe respondia: “Eu estava presente, ó Antônio, mas queria ver-te combater” (Vit.).
Recorde o cristão que é sua condição sofrer todos os dias de sua vida e permanecer continuamente estendido sobre a cruz, como alvo das flechas de Deus. Mais ainda: deve sempre pedir a Deus alguma aflição, a exemplo de São Francisco Xavier, que, em meio aos seus contínuos e graves trabalhos, entre inumeráveis perseguições e provações de toda espécie, rogava a Deus que não o privasse das cruzes que carregava, mas que lhas aumentasse (In Vita).
Para carregar com resignação as cruzes e triunfar das provações, pensemos que estamos aqui embaixo como alvo das flechas de Deus, e estejamos decididos a receber com paciência e coragem todas as tribulações: elas nos vêm do céu e tendem à glória de Deus e à nossa salvação. Mantenhamos a nossa alma unida a Deus pela fé, pela esperança e pelo amor. Quem, pelo pensamento e pelo desejo, habita com os bem-aventurados e conversa com eles não se importa com os bens deste mundo. Elevemos, pois, a nossa alma acima da terra; façamo-la, por assim dizer, sair do nosso corpo para colocá-la entre os anjos (Fl.3,30).
Quando, pela resignação e pela paciência, a nossa alma se tornar mais forte que as cruzes, então já não as sentirá e ficará verdadeiramente livre delas, de modo que dirá com São Paulo: “Sinto-me inundado de alegria, não posso conter o júbilo, em meio às tribulações” (2Cor. 7, 4). Sigamos Jesus Cristo ao Calvário. Vedes aqueles milhões de cristãos, meninos, mulheres e anciãos de todas as condições, que, de geração em geração, há dezenove séculos se dirigem ao monte da salvação eterna e o sobem levando a cruz sobre os ombros? Sigamo-los: eles vão para o céu…