São Turien era arcebispo de Dole, na Pequena Bretanha, e nasceu numa aldeia próxima da referida cidade, onde havia uma igreja. Seu pai e sua mãe descendiam de nobre linhagem. Naquele tempo, era arcebispo da referida cidade um homem de vida santa, confessor e amigo de Deus, chamado Sansão. Então Turien, vaso de santidade, que ainda era apenas uma criança em idade, mas estava cheio da graça pela virtude do Espírito Santo, abandonou e deixou, por amor de Nosso Senhor, todos os seus pais, que eram de grande condição, bem como a bela herança que deveria receber, e foi para a cidade de Dole, ao encontro de São Sansão. Quando São Sansão o viu, ordenou que ele cuidasse de suas vacas e de seus outros animais. De bom grado lhe prefigurou isso, significando que, no tempo vindouro, ele seria pastor ou guia das ovelhas de Nosso Senhor, quando recebesse a dignidade de arcebispo. Nesse estado, cuidando dos animais, inflamado pelo amor de Deus e não por qualquer interesse humano, chamava cada clérigo que passava diante dele e pedia-lhe que escrevesse algumas letras nas pequenas tábuas que possuía, para que pudesse aprendê-las e conhecê-las. Quando já começou a conhecer suficientemente suas letras, aprouve a Nosso Senhor que aprendesse e conhecesse a arte da gramática; e Deus lhe concedeu tamanha graça que ele tinha na igreja uma voz melodiosa e bela, mais que qualquer de seus outros companheiros. E, como muitas vezes sua voz agradava muito ao arcebispo, este o reteve e o tomou consigo, fazendo dele como que seu filho adotivo; empenhou-se muito em fazê-lo aprender a Sagrada Escritura e governou-o com doçura. Tanto cresceu e frutificou o menino no esplendor ou luz de todas as boas virtudes, por meio de bons ensinamentos e exemplos, que o referido arcebispo o constituiu mestre dos clérigos de sua capela. O bem-estar deste menino Turien multiplicava-se sempre, de melhor para melhor, no amor e na graça de Nosso Senhor. O arcebispo São Sansão, que já era velho, considerando a santa vida que Turien levava, as boas virtudes de que estava cheio e que já era perfeito em idade, ordenou-o arcebispo em seu lugar; e, em particular, ainda em vida, quis vê-lo possuidor da dignidade de arcebispo. Assim, quando, pela consagração divina, foi escolhido para a referida dignidade, todo o povo se alegrou, pois percebia claramente que ele estava cheio da graça de Deus.
Certa vez, ao erguer os olhos para o céu, viu uma janela totalmente aberta e os anjos no paraíso carregando a arca do testamento de Deus. Então disse a todo o povo: “Vejo o céu aberto e os anjos carregando a arca de Deus, e também vejo Nosso Senhor Jesus Cristo sentado em seu tribunal.” Quando o povo o ouviu, todos juntos, grandes e pequenos, começaram, com uma só voz, um só coração e uma só boca, a louvar, glorificar e magnificar o nome de Nosso Senhor; e, desde então, honraram mais o santo homem do que antes. O santo homem ordenou então que se fizesse uma cruz de madeira, que fosse preparada e colocada no mesmo lugar onde tivera a referida visão.
Outra vez, enquanto pregava perto de uma igreja chamada Carnifrut, diante de uma cruz feita de pedra, onde se havia reunido muita gente para ouvir a sua pregação — cruz que outrora fora feita em honra e reverência de Nosso Senhor Jesus Cristo e do glorioso arcanjo São Miguel, e sobre a qual, certa vez, ele desceu dos ombros do referido arcebispo — aconteceu que levaram ali uma jovem morta para ser sepultada; e ela, por sua oração, a pedido do povo, foi ressuscitada. Da história deste glorioso santo não consigo encontrar mais nada; mas todos havemos de rogar-lhe que, diante de Nosso Senhor, seja nosso bom intercessor e amigo. Amém.