Ciríaco foi ordenado diácono pelo papa Marcelo, e foi preso e levado ao imperador Maximiano. Ordenou-se que ele e seus companheiros cavassem a terra e a transportassem sobre os ombros até o lugar que o imperador designara. E estava ali São Saturnino, a quem Ciríaco e Sisínio ajudavam a transportar a terra. Depois, Ciríaco foi lançado e encerrado na prisão e, por fim, apresentado diante do preboste. Quando Aproniano o conduzia, de repente veio uma voz com luz do céu, que dizia: “Vinde, benditos de meu Pai”, e assim por diante. Então Aproniano acreditou, mandou batizar-se e foi ao preboste, confessando Jesus Cristo. O preboste lhe disse: “Não foste tu feito cristão?” E ele respondeu: “Ai de mim, pois perdi os meus dias.” O preboste respondeu: “Na verdade, agora perdes os teus dias”, e ordenou que lhe cortassem a cabeça.
Quando Saturnino e Sisínio não quiseram oferecer sacrifício, foram atormentados com diversos tormentos e, por fim, decapitados. E a filha de Diocleciano, chamada Artemia, era atormentada pelo demônio; e o demônio gritava dentro dela, dizendo: “Não sairei antes que venha Ciríaco, o diácono.” Então Ciríaco foi levado até ela, e o demônio disse: “Se queres que eu saia e me retire, dá-me um recipiente no qual eu possa entrar.” Ciríaco respondeu: “Eis aqui o meu corpo; entra nele, se puderes.” E ele disse: “Em teu recipiente não posso entrar, pois ele está assinalado e fechado por todos os lados; mas, se me expulsares daqui, farei que em breve venhas a Babilônia.” E, quando foi constrangido a sair, Artemia clamou, dizendo: “Vejo o Deus que Ciríaco prega.” Depois que ele a batizou e recebeu a graça de Diocleciano e de Serena, sua esposa, Ciríaco passou a morar e viver em segurança numa casa que o imperador lhe dera.
Então chegou de junto do rei da Pérsia uma mensagem para Diocleciano, pedindo-lhe que lhe enviasse Ciríaco, pois sua filha era atormentada por um demônio. Assim, por rogos de Diocleciano, Ciríaco partiu alegremente para a Babilônia, com Largo e Esmaragdo, levando no navio todas as coisas necessárias. Quando chegaram à filha, o demônio gritou-lhe pela boca da donzela: “Ó Ciríaco, estás cansado da viagem!” E ele disse: “Não estou cansado, mas sou governado em tudo pelo auxílio de Deus.” E o demônio disse: “Contudo, eu te trouxe até onde queria que estivesses.” E Ciríaco disse: “Jesus Cristo te ordena que saias.” Então o demônio saiu e disse: “Ó nome terrível, que me constrange!” E a donzela ficou curada e foi batizada com o pai e a mãe, bem como muitas outras pessoas. Eles lhe ofereceram muitos presentes, mas ele não quis aceitar nenhum. Permaneceu ali quarenta e cinco dias, jejuando a pão e água, e por fim voltou a Roma.
Dois meses depois, Diocleciano morreu, e Maximiano sucedeu-lhe no império. Este se indignou contra sua irmã Artemia, tomou Ciríaco, acorrentou-o e ordenou que o arrastassem diante de seu trono. Esse Maximiano pode ser chamado e dito filho de Diocleciano, porque lhe sucedeu e tomou sua filha por esposa, a qual se chamava Valeriana. Depois ordenou a Carpásio, seu vigário, que constrangesse Ciríaco e seus companheiros a oferecer sacrifício; caso contrário, que os matasse com diversos tormentos. Carpásio tomou Ciríaco, lançou-lhe sobre a cabeça piche derretido e ardente, pendurou-o no tormento chamado cavalete e, depois, mandou cortar-lhe a cabeça; também decapitou seus companheiros, por volta do ano de Nosso Senhor de trezentos.
Carpásio apoderou-se da casa de São Ciríaco e, para afrontar os cristãos, fez um banho no mesmo lugar em que Ciríaco batizara; ali se banhou e promoveu banquetes de comida e bebida. De repente, ele e dezenove companheiros morreram naquele lugar, e por isso o banho foi fechado. E os pagãos começaram a temer e honrar os cristãos.