Legenda Áurea · Volume 7 · Capítulo 252

Vida de São Luís de Marselha Life of S. Louis of Marseilles

Vida de santo · 4 parágrafos · português, com o inglês de Caxton a um clique

São Luís de Marselha nasceu de linhagem real, tendo por pai Carlos, rei da Sicília, e por mãe Maria, rainha da Sicília. E, amando a humildade, recusou e abandonou a grandeza da realeza e sua nobre linhagem; e, embora todos os feitos dignos de sua santa vida não possam ser contados em poucas palavras, ainda assim relataremos alguns, para proveito e ensinamento daqueles que os lerem ou ouvirem.

Este glorioso santo, conforme testemunhado por muitos dignos de fé e merecedores de crença, sendo ainda jovem, foi, juntamente com seus irmãos, criado e mantido sob o cuidado e a diligência religiosa de seu mestre. E, embora fosse tenro e jovem de idade, parecia antigo nos costumes, nas condições e na coragem. Quando foi levado à Catalunha, província do reino de Aragão, com seus dois irmãos como reféns ou penhor pela libertação de seu dito pai, o rei, entregou-se tão firmemente ao estudo que, nos sete anos em que permaneceu como penhor, progrediu tanto nas sete ciências e na Sagrada Escritura que aquele homem de Deus, resplandecente de inteligência, não somente podia disputar sutilmente em público sobre parte das ditas ciências, como também ousava e sabia propor solenemente a palavra de Deus ao povo e diante dos clérigos; de tal modo que os homens julgavam e criam antes que Deus lhe tivesse enviado e inspirado tal ciência do que ele a tivesse adquirido humanamente.

Confessava-se com frequência e diligência, ouvia devotamente o ofício divino e, nos dias solenes e nas grandes festas, com grande preparação recebia o corpo de Nosso Senhor. Quando era sacerdote, celebrava diariamente e escutava com muita atenção a palavra de Deus; e, para nutrir sua alma, estudava com alegria e frequência as Sagradas e devotas Escrituras. Desde a infância amou a castidade, de modo que, para guardar-se com toda segurança, fugia e evitava a companhia de todas as mulheres; tanto que não falava com nenhuma, salvo com sua mãe e com suas irmãs, e mesmo assim raramente. Castigava o corpo pela abstinência de comida e bebida, tornando-o magro e disciplinando-o, como outro São Paulo, muitas vezes com correntes de ferro, com as próprias mãos; e, submetendo a carne à servidão do espírito, usava como camisa uma estamenha ou pano de coar e, como cinto, cingia sobre a carne nua uma corda.

Este santo homem, lembrando-se do voto de ingressar na ordem dos Frades Menores, feito por ele quando estava como refém, conforme se disse, na província da Catalunha, propôs-se cumpri-lo. Mas, vendo que, por temor do dito rei, seu pai, os frades não ousavam recebê-lo, renovou solenemente o dito voto; e, por nenhuma espécie de persuasão ou admoestação, nem por qualquer provisão que o papa Bonifácio tivesse feito e lhe dado, quis consentir em abandoná-lo. Considerando essa devoção, com o assentimento do dito papa, este santo São Luís tomou o hábito religioso dos ditos Frades Menores e, ajoelhado, fez profissão expressa na presença de João, bispo de Porto, que então era ministro-geral da dita ordem.

É coisa admirável e muito maravilhosa, e não costumada de se ver, que o mesmo santo, cheio de virtudes, renunciou ao direito do primogênito e desprezou a pompa e a honra do trono real; e, em lugar do reino temporal e corruptível, trocou-o e alcançou o reino perdurável, cheio de toda espécie de delícias.

Tinha maravilhosa compaixão pelos pobres, aos quais distribuía amplamente suas esmolas. Este santo São Luís, conforme aprouve a Deus, foi promovido pelo papa Bonifácio à dignidade de bispo. E, não obstante, jamais mudou o hábito, mas exerceu diligentemente o ofício de bispo. Celebrava devotamente; examinava com diligência os que recebiam as ordens, quanto à vida, aos costumes e aos artigos da fé, desejando e estando sempre pronto a promovê-la; persuadia e admoestava com grande atenção os judeus e pagãos a receberem o batismo. E, por fim, este glorioso santo, dirigindo-se a Deus, fonte viva e vivificante, próximo do termo de seus dias, estando deitado em seu leito, enfermo de sua última doença, tomou e recebeu devotamente o precioso corpo de Nosso Senhor. E, embora estivesse muito fraco, saiu de seu leito ao encontro de seu Criador e, pouco depois, partiu muito gloriosamente deste mundo para a glória do paraíso. Por isso era muito conveniente e razoável que aquele cuja vida Deus adornara com tantas virtudes e boas qualidades fosse enobrecido e honrado por muitos milagres depois de sua morte. Esses milagres são aprovados e testemunhados por pessoas dignas de fé e são declarados a seguir, em honra e glória do dito santo.

Uma menina de dois anos de idade, afligida por uma forte febre que sofrera durante o espaço de dois anos, morreu e partiu deste mundo. Seu pai suplicou ao santo pela vida dela e, imediatamente, pelos méritos do santo, ela foi ressuscitada e restituída à vida.

Uma criança de cinco anos, acometida por uma febre muito forte, morreu; mas, por um voto que seu pai fez por ela ao santo, foi restituída à vida. Uma donzela de sete anos, que sofrera de uma febre contínua, morreu; e, feito por seus pais um voto ao mesmo santo, recuperou o espírito da vida e viveu longamente depois. Uma mulher, tendo concebido duas filhas, uma das quais, por causa de uma queda que sua mãe sofreu contra o ventre, morreu no ventre materno, chegou ao tempo em que a mãe deveria dar à luz. Estando morta essa criança e já toda apodrecida, por meio da arte e do auxílio da parteira foi retirada, pedaço após pedaço; e, feito pelo pai um voto ao santo, a criança assim desmembrada foi restituída à vida e viveu depois sete meses. Outra criança, que foi encontrada morta sob uma cama, tendo sido feito um voto ao mesmo santo, foi restituída à vida. Uma mulher que, por grande enfermidade, havia partido deste mundo, tendo seus pais feito um voto por ela ao santo, recuperou o espírito da vida e desde então viveu longamente. Com estes milagres e muitos outros quis Deus que seu santo fosse magnificado e honrado por todo o mundo. Portanto, roguemos ao santo São Luís de Marselha que rogue a Deus por nós. Amém.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.