São Alfege, santo bispo e mártir, nasceu na Inglaterra, no condado de Gloucester, e era de nobre linhagem e herdeiro de seu pai; mas abandonou tudo por amor de Deus e tornou-se monge em Deerhurst, a cinco milhas de Gloucester. Mais tarde, o bom rei Eduardo deu aquela casa de Deerhurst à casa de São Dionísio, na França. E, depois de São Alfege ter sido monge ali por longo tempo, vivendo uma vida plenamente santa, partiu de lá para a abadia de Bath, a fim de viver ali em maior contemplação e repouso da alma. Ali construiu aquela bela abadia, estabeleceu nela monges negros e a dotou; e ele próprio foi seu primeiro abade e fundador. Levou ali uma vida plenamente santa e guiou muito bem os monges na vida santa e virtuosa. Naquele tempo eram bispos São Dunstan de Cantuária e Santo Etelvoldo de Winchester. Mas, pouco tempo depois, Santo Etelvoldo morreu; então Santo André apareceu certa noite a São Dunstan e ordenou-lhe que se levantasse imediatamente e fizesse de Alfege, abade de Bath, bispo de Winchester. E assim se fez com grande solenidade, tal como Nosso Senhor havia ordenado por meio de seu santo apóstolo Santo André; e ele foi bispo ali durante vinte e dois anos, em vida plenamente santa. Depois disso foi feito arcebispo de Cantuária, sucedendo a São Dunstan; e para isso foi escolhido pelo papa e por todo o clero da Inglaterra, no ano do Senhor de mil e seis; e foi bispo de Cantuária durante seis anos. No sétimo ano veio da Dinamarca para esta terra da Inglaterra um tirano perverso, cujo nome era Erdrite, com uma grande multidão de dinamarqueses. Eles queimavam e saqueavam todos os lugares por onde passavam e matavam muitos senhores da terra, bem como muita gente do povo. Naquele tempo era Etelredo rei da Inglaterra, e Santo Eduardo, o Mártir, era seu irmão; e Santo Eduardo, o Confessor, era seu filho, aquele que jaz em Westminster.
E naquele tempo os dinamarqueses causaram muitos males nesta terra. O principal príncipe deles chamava-se Turquilo, e seu irmão Erdrite era o comandante do exército. Fizeram uma perseguição muito grande, pois não havia ninguém que pudesse resistir-lhes ou enfrentá-los; porque o rei Etelredo era homem manso e não cuidava de ajudar seu povo. E Erdrite, com os dinamarqueses, foi a Cantuária, onde praticou grande maldade contra o povo, queimando e destruindo tudo quanto podia encontrar; mas, por fim, foi morto pelos homens de Cantuária. Quando o príncipe Turquilo soube que ele havia sido morto, ficou muito irado e, com grande pressa, foi a Cantuária, sitiou a cidade e logo a tomou, queimando e destruindo tudo quanto podia. E este santo bispo, São Alfege, foi ao príncipe dos dinamarqueses e rogou-lhe que tomasse o seu corpo e poupasse o pobre povo da cidade; mas, apesar disso, ele matou monges, sacerdotes e todos quantos pôde encontrar. E dizimou os monges: matou nove e salvou o décimo; e ainda julgou que havia vivos em número excessivo, e começou a dizimá-los novamente. Então São Alfege repreendeu-os por suas obras malditas. E logo eles prenderam São Alfege, o santo homem, amarraram-lhe as mãos atrás das costas e levaram-no consigo dali até a cidade de Greenwich, perto de Londres; e ali o puseram na prisão por meio ano e mais.
E na sexta-feira da semana da Páscoa o diabo apareceu a este santo homem na prisão, sob a aparência de um anjo, e disse-lhe que era vontade de Nosso Senhor que ele saísse da prisão e o seguisse. E este santo homem acreditou nele, saiu e seguiu o anjo perverso durante a noite. E ele levou este santo homem a um vale escuro; ali atravessou águas e fossos, pântanos e cercas, e o santo homem o seguiu como podia, apesar do cansaço, até que por fim o havia levado a um lodaçal imundo, cercado por grandes águas. Ali o diabo o abandonou e desapareceu. Então o santo homem soube bem que havia sido enganado por seu inimigo, o demônio; e clamou a Deus por misericórdia e pediu-lhe auxílio. Nosso Senhor enviou-lhe então seu santo anjo, que o ajudou a sair do lodo e da água, e lhe disse que era vontade de Deus que voltasse à prisão de onde viera, pois no dia seguinte sofreria o martírio por amor de Nosso Senhor. E, quando voltava para a prisão em Greenwich, de manhã bem cedo, seus guardas, que o haviam procurado durante toda a noite, encontraram-no; logo o lançaram ao chão e ali o feriram de modo muito cruel. Depois o levaram novamente à prisão e fizeram ali uma grande fumaceira para atormentá-lo. Então São Dunstan apareceu-lhe e ordenou-lhe que tivesse bom ânimo, pois Nosso Senhor lhe havia preparado uma coroa gloriosa. E enquanto conversavam, suas correntes se romperam, e todas as suas feridas foram curadas novamente pela misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando os guardas viram isso, ficaram tomados de grande temor. Logo esse milagre se tornou conhecido do povo, e todos acorreram para vê-lo. Os juízes temeram a grande multidão que para lá veio; tiraram-no da prisão e levaram-no ao lugar onde deveria ser martirizado, mas o pobre povo fez grande lamentação por ele.
Mas logo os perversos algozes o apedrejaram até a morte, como os judeus fizeram com Santo Estêvão. E quando ele estava quase morto, havia ali um que era seu afilhado; este lhe desferiu um golpe na cabeça com um machado, fazendo-o cair ao chão, e então ele entregou o espírito a Nosso Senhor Jesus Cristo. Depois esses perversos tiranos lançaram o santo corpo numa água profunda, para que os bons homens não o encontrassem; mas, pela providência de Nosso Senhor, pouco tempo depois ele foi encontrado por verdadeiros cristãos, que repreenderam severamente aqueles perversos tiranos. Então começaram a zombar do santo corpo, e um deles tomou uma estaca ou árvore velha e apodrecida, fincou-a na terra e disse: “Se esta estaca produzir flores até amanhã, arrepender-nos-emos e acreditaremos que ele é um santo homem; caso contrário, jamais acreditaremos nisso.” No dia seguinte encontraram a estaca verde e coberta de folhas. Quando viram tão grande milagre, creram em Deus, beijaram os pés deste santo e arrependeram-se profundamente de suas obras perversas; e clamaram com grande humildade por misericórdia a Deus e a este santo São Alfege. Depois ele foi levado a Londres com grande honra e sepultado na igreja de São Paulo, com grande reverência; e ali seu corpo permaneceu sepultado por muitos anos. Mais tarde foi exumado e trasladado para Cantuária, e seus ossos foram depositados ali num honroso feretório ou relicário, onde Nosso Senhor mostrava diariamente muitos belos milagres por meio de seu santo mártir São Alfege. Quanto aos algozes que não se arrependeram, morreram pouco depois em grande miséria e de diversas maneiras, para serem castigados segundo aprouve a Nosso Senhor. Roguemos, pois, a este bem-aventurado mártir e arcebispo, São Alfege, que seja intercessor junto de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que possamos chegar à sua bem-aventurança eterna no céu. Amém.