São Albine nasceu de linhagem nobre nas regiões da Itália. Em sua infância, amou e serviu a Deus atentamente e com tão grande vontade que deixou seu pai e sua mãe, seus parentes e amigos, suas terras e todas as riquezas mundanas, e tornou-se monge numa abadia chamada, em latim, Tincillacensis Monasterium, onde não mostrou sua nobreza, mas somente suas boas qualidades. Era humilde e prestativo para com todos, permanecia sempre em contínua oração e estava repleto de todas as virtudes, pronto e preparado para fugir e evitar todos os vícios. Quando São Albine chegou à idade de trinta anos, foi feito abade da mesma abadia, que governou tanto temporal como espiritualmente pelo espaço de vinte e cinco anos, de modo que nosso Senhor fosse sempre bem e devotamente servido e que todos os bens temporais crescessem ali diariamente. O bispo de Angers morreu naquele tempo; então este santo São Albine, pela graça e vontade de nosso Senhor e pelo assentimento comum e concorde de todo o capítulo, foi elevado à dignidade de bispo daquele lugar, onde depois foi reconhecido como tão perfeito e caritativo que, sem dúvida, sua promoção foi causa da salvação de muitas almas.
Havia na cidade de Angers uma mulher cujas mãos estavam aleijadas e deformadas por causa de uma doença que os homens chamavam gota, pela qual era grandemente atormentada. E ela fez sua oração e pediu auxílio ao santo, e logo foi curada e aliviada daquela enfermidade somente porque ele tocou três vezes em suas mãos.
E certa vez, quando São Albine atravessava uma cidade de sua diocese, viu o pai e a mãe chorando sobre seu filho morto; compadeceu-se deles, fez sua oração a Nosso Senhor e, subitamente, o filho foi ressuscitado. Igualmente, um homem cego pediu auxílio a São Albine, e o santo bispo Albine fez sobre ele o sinal da cruz, e logo ele tornou a receber a visão. Igualmente, quando São Albine passava certa vez diante da prisão em Angers, os prisioneiros clamaram e lhe suplicaram auxílio. O santo bispo, tendo grande compaixão deles, foi ao oficial de justiça e rogou-lhe por eles, mas sua súplica de nada valeu; por isso foi à sua igreja e, pouco depois, tendo feito sua oração a Deus, ajoelhado diante do altar-mor, grande parte da muralha da prisão desabou, e assim escaparam todos os prisioneiros que ali estavam.
Uma mulher atormentada por um espírito maligno foi levada diante desse santo bispo e, assim que o inimigo percebeu o santo homem, introduziu-se no olho da mulher sob a forma de uma pequena pústula, vermelha como sangue, à qual São Albine, fazendo o sinal da cruz, disse: “Espírito maligno, não destruirás o olho que não fizeste nem podes fazer.” E logo a mesma pequena pústula começou a sangrar, como se alguém a tivesse untado de lodo. Então o inimigo saiu dela, e ela foi deixada em boa saúde e com o juízo restaurado.
Segundo a nossa língua inglesa, Albinus quer dizer, primeiro, “branco”, pois albinus dicitur quasi albus, isto é, albinus é dito como se fosse albus; e assim este santo era todo branco pela pureza de sua vida casta. Segundo, quer dizer aquele que tem em si bondade ou benignidade: sic albinus dicitur quasi bonus, isto é, albinus é dito como se fosse bonus; e, na verdade, este santo bispo era bom. Terceiro, quer dizer aquele que, por vigor ou força, voa para as coisas espirituais: sic albinus dicitur alias binas habens, isto é, albinus é dito como tendo duas asas; a saber, esperança e fé, com as quais este santo estava repleto.
Lê-se que São Albine teve duas esposas, isto é, duas amas que o criaram; e a história é a seguinte. São Albine, estando deitado em seu berço, foi deixado sozinho, sem que ninguém suspeitasse de algum perigo, num jardim; e veio uma loba, arrebatou a criança e levou-a para os campos. Então, duas donzelas passaram por aquele caminho, perceberam a criança e foram até onde ela jazia sobre a terra; compadecendo-se dela, uma disse: “Quisera Deus que eu tivesse leite para te alimentar!” E, ditas essas palavras, viu seus seios crescerem, erguerem-se e se encherem de leite. Então tomou a criança e deu-lhe de mamar. De modo semelhante, a outra donzela falou e rezou, e logo teve leite, assim como sua companheira; e assim as duas criaram o santo menino Albine.
Aconteceu certa vez que os normandos, em grande número de homens de armas, vieram à região onde repousava o santo corpo de São Albine, e o povo dali, tão duramente afligido, não sabia para onde se voltar nem para onde fugir. E um homem armado, todo vestido de branco, veio entre o dito povo e disse: “Por que hesitais em atacar e combater vosso inimigo, tendo São Albine para vosso auxílio e defesa?” E, depois de dizer isso, desapareceu. Por isso o povo recobrou a coragem, armou-se, foi contra seus inimigos e os derrotou. São Albine foi sepultado em Angers; e, quando seu sucessor quis trasladá-lo para uma capela maior, na presença de São Germano e de muitos outros, vieram até ali quatro homens deformados e aleijados em todos os seus membros, e também dois cegos; todos os seis foram ali curados pela misericórdia de São Albine, a saber, os deformados tiveram seus membros restaurados, e os cegos receberam a visão. Este santo Albine foi bispo de Angers pelo espaço de vinte anos e seis meses; e sua alma tomou seu assento no paraíso no octogésimo ano de sua vida, onde, pelos méritos dele, queira o Pai, o Filho e o Espírito Santo conduzir-nos. Amém.