Havia na cidade de Assis uma maravilhosa santa mulher, chamada Clara. Primeiro, deveis entender que seu nascimento foi muito digno e nobre. Lê-se que, quanto ao mundo, ela era de linhagem muito nobre; e, quanto ao espírito, considerando o estado das virtudes e dos nobres costumes para com Deus, era de reputação muito nobre. E, para mostrar que, depois de seu nascimento, foi uma devota esposa de Deus, ela é digna de grande louvor. Lê-se que, quando sua mãe estava grávida dela, certa vez se achava diante do crucifixo, chorando e rezando para que, por sua graça, ele lhe concedesse dar à luz com alegria e felicidade o fruto que trazia, quando ouviu subitamente uma voz que lhe dizia: “Mulher, não tenhas dúvida, pois sem perigo darás à luz uma filha que, por sua doutrina, iluminará todo o mundo.” E, por isso, assim que nasceu, mandou que a batizassem na pia com o nome de Clara.
Segundo, encontram-se e são conhecidas em sua vida grande abundância de virtudes. Lê-se que esta santa virgem, depois do tempo da infância, era tão composta em todos os bons costumes, no porte, no comportamento e na conduta, que todos os demais podiam tomar dela belo e bom exemplo para se manterem e se governarem. E, em especial, tinha tão grande piedade dos pobres que muitas vezes privava sua própria boca e enviava por mensageiros secretos aquilo com que ela mesma deveria ter sido sustentada. Também, ao fazer devota oração, sentia tão grande prazer que muitas vezes lhe parecia, estando em oração, que seu espírito era refrescado com a doçura do céu. Vestia-se como as outras, mas castigava o corpo pela penitência; pois, embora, pela honra de seus parentes, se trajasse nobremente, contudo trazia sempre o cilício sobre o corpo nu, e desde a infância seu coração havia determinado que, até morrer, jamais teria outro esposo senão Jesus Cristo. E muitas outras e abundantes virtudes brilhavam nela, as quais seria longo contar.
Terceiro, sobre como São Francisco lhe mostrou o caminho da verdade, lê-se que, assim que Santa Clara ouviu a fama de São Francisco, espalhada por todo o mundo como a de um homem novo enviado ao mundo, mostrando como devíamos seguir o novo caminho de Jesus Cristo, jamais pôde ter repouso no coração até chegar a ele e abrir-lhe o coração. Depois de tê-lo escutado docilmente e de haver recebido dele muitas palavras santas, doces e angélicas, São Francisco exortou-a, acima de todas as coisas, a fugir do mundo tanto no coração quanto no corpo. E ordenou-lhe que, no Domingo de Ramos, celebrasse a festa com as outras pessoas; mas, na noite seguinte, em memória da Paixão de Jesus Cristo, convertesse sua alegria em choro e aflições, pois, chorando assim a Paixão de Jesus Cristo, poderia finalmente chegar ao céu como virgem e esposa de Deus, muito ditosa e feliz.
Quarto, sobre como não teve quietude no coração até cumprir seu pensamento e propósito, lê-se que Santa Clara, assim instruída por São Francisco, não pôde ter descanso no coração até que, na noite e à hora designadas, saiu da cidade de Assis, onde morava, e chegou à igreja de Nossa Senhora da Porciúncula. Então os frades a receberam; eles haviam despertado na dita igreja e aguardavam por ela diante do altar da Bem-aventurada Virgem Maria. Ali lhe cortaram os cabelos e, depois, conduziram-na a um mosteiro de monjas, onde a deixaram.
Quinto, sobre como seus parentes desprezaram esta obra ordenada por Nosso Senhor, lê-se que, quando esta senhora foi assim consagrada, trabalhou e fez tanto que atraiu para sua companhia sua irmã chamada Inês. Por isso, tanto por uma quanto pela outra, os parentes carnais de Santa Clara se indignaram além da medida. Então São Francisco transferiu-as para a igreja de São Damião, igreja que ele havia restaurado por mandado do Crucificado. Ali esta senhora iniciou a religião que foi chamada das pobres irmãs, e ali foi encerrada numa pequena cela que São Francisco havia edificado.
Sexto, sobre como tinha humildade no coração, lê-se que Santa Clara se gloriava soberanamente na humildade, tal como diz o sábio: “Quanto mais uma criatura é elevada, tanto mais deve ser humilde.” Por isso, depois de haver reunido um grande convento de santas virgens, dificilmente e com grande sofrimento, se não fosse pela obediência a São Francisco, teria aceitado governá-las. E, depois de ter recebido o domínio e o governo sobre elas, era, antes de todas as outras, pronta para servir as enfermas, como se fosse sua criada ou serva; e era tão humilde que lavava os pés de suas servas e criadas quando voltavam de fora, de seu trabalho, e depois os enxugava e beijava.
Sétimo, sobre como Santa Clara guardou a pobreza, lê-se que, para conservar e seguir a pobreza segundo o Evangelho de Jesus Cristo, Santa Clara empregou nela toda a sua intenção. Por isso, desde o começo de sua santa vida, tudo quanto lhe vinha do pai e da mãe ela vendia e dava por amor de Deus, de modo que, para ela e para suas irmãs, não tinha senão alimento e vestuário simples, nem queria outra coisa. E, embora o papa a tivesse absolvido do voto de pobreza e, por isso, ela tivesse recebido cartas do papa, chorando muito, escreveu-lhe de volta, dizendo: “Quero ser bem absolvida dos meus pecados, mas o voto de pobreza guardarei até a morte.”
Oitavo, sobre como Jesus Cristo a visitou na necessidade, lê-se que certa vez, à hora do jantar, havia no convento de Santa Clara apenas um pão, e não se podia obter mais nenhum. Então Santa Clara tomou o pão das mãos da despenseira, fez sua oração e, depois, daquele pão fez tantos pães e partes quantas eram as irmãs. E, assim que cada uma recebeu sua parte, embora fosse muito pequena, a graça divina multiplicou-a tanto que cada uma deixou um pouco e teve o bastante. Do mesmo modo, lê-se que Deus fez por ela quando faltaram as panelas em seu convento.
Nono, sobre como Santa Clara se governava na austeridade, esta santa senhora contentava-se com uma pobre túnica forrada com um pequeno manto; nunca usava pendentes nem peles de animais, mas empregava todo o seu tempo em manter o corpo a serviço do espírito. Além disso, jejuava três vezes por semana desta maneira: jamais provava coisa alguma que tivesse sido cozida. Também, todos os anos, jejuava duas Quaresmas somente a pão e água, exceto aos domingos, quando tomava um pouco de vinho. E, em suma, vivia tão austeramente que se tornou tão fraca que São Francisco lhe ordenou, em virtude da obediência, que não passasse nenhum dia sem tomar, para seu alimento, uma onça e meia de pão. Nunca ficava sem o cilício junto à carne e, como travesseiro, tomava um tronco ou uma grande pedra; deitava-se sempre sobre o chão nu ou, para descansar um pouco melhor, às vezes sobre os ramos cortados das videiras, até que São Francisco lhe ordenou, por ser coisa excessivamente áspera, que se deitasse sobre um saco cheio de palha.
Décimo, sobre como desprezou a iniquidade do demônio, nosso inimigo, lê-se que tinha especialmente o costume de, desde o meio-dia, permanecer durante duas horas em oração, meditando a Paixão e o sofrimento de Jesus Cristo; e, depois do entardecer, ficava sempre por longo tempo em oração. Lê-se que muitas vezes o demônio lhe apareceu à noite, dizendo: “Se não vos abstiverdes de vigílias e prantos, certamente ficareis cega.” E ela respondeu: “Não ficará cego aquele que verá Nosso Senhor em sua glória.” Quando o demônio ouviu essa resposta, partiu imediatamente, todo confundido, e depois jamais ousou tentá-la nem impedi-la de suas orações.
Décimo primeiro, sobre como Deus, por sua graça, havia trespassado seu coração, lê-se que Santa Clara, para empregar amorosamente o tempo que Deus lhe havia concedido, determinara, em especial, passar todo o tempo desde a hora do meio-dia até a hora das Vésperas pensando e chorando a Paixão de Jesus Cristo, e fazendo as orações correspondentes às cinco chagas do precioso corpo de Jesus Cristo, como se tivesse o coração ferido e trespassado pelo dardo do amor divino. Lê-se que, desde a Quinta-Feira Santa, à hora da ceia, até o Sábado Santo, véspera da Páscoa, ela se lembrava e pensava tão ardentemente no sofrimento de Nosso Senhor Jesus Cristo que era arrebatada, como que embriagada pelo amor de Deus; não sabia o que se dizia nem o que se fazia ao seu redor, mas, imóvel ou quase insensível, mantinha os olhos fixos num só lugar.
Décimo segundo, sobre como Deus a consolava em sua enfermidade e dor, diz-se que ela permaneceu durante vinte e oito dias em contínua languidez e doença; contudo, jamais se viu nela sinal de impaciência, mas sempre palavras doces e amáveis, louvando e agradecendo a Deus por tudo. Em especial, lê-se que, na doença pela qual passou para o fim de sua vida, esteve dezessete dias sem alimento nem bebida. Apesar disso, era tão docemente visitada por Deus que parecia a todos os que a viam que ela não sentia dor nem enfermidade; mais ainda, toda criatura que vinha até ela era consolada em Deus.
E, em especial, lê-se que, quando se aproximou a hora da morte, ela, que havia muito tempo perdera a fala, começou a falar e disse: “Sai com segurança, pois tens um bom salvo-conduto.” Quando uma de suas irmãs, que ali estava presente, ouviu isso, perguntou-lhe com quem falava. E ela respondeu: “Com minha alma, que vejo constrangida a partir do meu corpo; mas ela não deve temer, pois vejo a santa Virgem Maria, que me espera.” Dito isso, Nossa Senhora entrou no aposento onde Santa Clara jazia. Ela trazia uma coroa muito brilhante, de modo que a escuridão da noite se transformou na claridade do meio-dia. E consigo trazia uma grande multidão de outras virgens, todas nobremente coroadas; entre elas havia uma que carregava um rico manto, à qual disse: “Dá-me aqui o manto.” E, depois de abraçá-la docemente, revestiu-a com o manto.
Naquele mesmo momento, o convento das irmãs chorava ao redor dela, e em especial Inês, irmã de Santa Clara, fazendo grande lamento e tristeza. Então Santa Clara disse docemente: “Minhas irmãs, não vos desconsoleis, pois tereis em Deus, por meu intermédio, uma boa e verdadeira advogada. E tu, Inês, logo me seguirás na glória.”
Agora é bem razoável e justo que digamos e mostremos os grandes milagres que Deus realizou por Santa Clara, mediante suas santas orações, pois ela era verdadeira, fiel e digna de toda honra. Houve, no tempo do imperador Frederico, uma grande tempestade, pela qual a Santa Igreja sofreu muito; em diversas partes do mundo houve muita guerra, de tal modo que, por mandado do imperador, foram organizadas batalhas de cavaleiros, e com eles tantos arqueiros sarracenos, como se fossem montes de moscas, para destruir o povo, os castelos e as cidades.
Os sarracenos avançaram como homens furiosos até chegarem às portas de Assis. Esses cruéis sarracenos, cheios de toda crueldade e falsidade, que nada procuravam senão matar e destruir o sangue dos cristãos, chegaram ao claustro das pobres senhoras de São Damião. As santas senhoras tiveram tão grande medo que seus corações se derreteram dentro do peito, e correram chorando até sua mãe, Santa Clara. Ela, que estava enferma, sem temor no coração, mandou que a levassem diante dos inimigos, até a porta; e mandou trazer diante de si o corpo de Nosso Senhor, que estava numa píxide ricamente adornada e muito devotamente preparada.
Então esta santa senhora se pôs de joelhos e disse, entre lágrimas, a Nosso Senhor: “Ah! Belo Senhor Deus, apraz-vos acaso que aquelas que vos servem e estão desarmadas, a quem sustento por vosso amor, sejam entregues às mãos e ao poder dos pagãos? Belo e doce Senhor, suplico-vos que guardeis vossas servas e criadas, pois neste momento não posso guardá-las.” E Nosso Senhor enviou imediatamente, por sua graça especial, uma voz como a de uma criança, que lhe disse: “Eu vos guardarei sempre.”
“Ó doce e belo Senhor, guardai esta cidade, se vos apraz, pois ela nos deu as coisas de que necessitávamos, por amor de vós.” E ele respondeu: “A cidade sofrerá algum dano, mas, não obstante, eu a guardarei e defenderei.”
Então esta santa virgem, Santa Clara, levantou-se de sua oração, ainda com o rosto todo banhado em lágrimas, e consolou docemente suas irmãs, que choravam, dizendo-lhes: “Ordeno-vos, belas filhas, que vos consoleis com boa fé e confieis somente em Nosso Senhor, pois os sarracenos jamais vos farão mal.”
Imediatamente, os sarracenos sentiram tamanho pavor e medo que fugiram apressadamente por cima das muralhas e pelos lugares por onde haviam entrado; e assim, pela oração e prece de Santa Clara, foram perturbados e afastados de sua empresa. Então ela ordenou a todos os que haviam ouvido a voz que, de modo algum, a revelassem nem a contassem a qualquer pessoa viva.
Outra vez aconteceu que um velho escudeiro, cheio de vã glória, muito valente na batalha e capitão de grande exército que Frederico lhe havia confiado, veio com todo o seu exército para tomar a cidade de Assis. Mandou derrubar as árvores e devastar toda a região ao redor, e sitiou a cidade, jurando que não partiria dali enquanto não a tivesse tomado; e assim a cidade ficou cercada, para que fosse conquistada. Quando Santa Clara, serva de Jesus Cristo, ouviu a notícia, teve grande compaixão e mandou chamar suas irmãs, dizendo-lhes: “Filhas muito amadas, recebemos diariamente muitos benefícios desta cidade, e seria grande ingratidão de nossa parte se não a socorrêssemos nesta grande necessidade, tanto quanto pudermos.” Então mandou trazer cinzas e disse às suas irmãs que descobrissem a cabeça; e ela própria, primeiro, lançou grande quantidade de cinzas sobre a cabeça e, depois, sobre as cabeças de todas as outras, dizendo-lhes: “Agora ide, belas filhas, e, com todo o coração, rogai e suplicai a Nosso Senhor que queira livrar esta cidade.” Então, cada uma por si, com grande pranto e lágrimas, fez devotamente suas orações e preces a Nosso Senhor, de tal modo que ele guardou e defendeu a cidade; e, no dia seguinte, o exército partiu daquela região, e não demorou muito para que todos eles morressem e fossem mortos.
Não seria justo que ocultássemos e mantivéssemos em segredo a admirável virtude de sua oração, pela qual, no começo de sua conversão, ela converteu uma alma a Deus. Pois tinha uma irmã mais nova que ela, cuja companhia desejava muito; e, em todas as orações que fazia, rogava desde o princípio, de todo o coração, a Nosso Senhor que, assim como ela e sua irmã haviam sido no mundo de um só coração e de uma só vontade, assim aprouvesse ao Pai de misericórdia que Agnes, sua irmã, que ela deixara no mundo, desprezasse o mundo e saboreasse a doçura de Deus, de modo que não tivesse vontade de casar-se senão com Deus, seu verdadeiro amigo, para que ambas pudessem desposar sua virgindade com Nosso Senhor. Essas duas irmãs amavam-se maravilhosamente e ficaram muito tristes com a separação, uma mais que a outra. Mas Nosso Senhor concedeu a Santa Clara o primeiro dom que ela lhe pedira, pois era coisa que muito lhe agradava. No sétimo dia depois que Santa Clara se converteu, Agnes, sua irmã, veio até ela, revelou-lhe seu segredo e sua vontade, e declarou inteiramente que queria servir a Deus. Quando Santa Clara ouviu isso, abraçou-a imediatamente e disse, pela alegria que sentia: “Minha irmã, sois muito bem-vinda! Agradeço a Deus, que me ouviu a vosso respeito, por quem eu estava em grande tristeza.” Embora essa conversão fosse admirável, mais ainda é de admirar como Clara defendeu sua irmã por meio de suas orações. Naquele tempo, as boas e bem-aventuradas irmãs estavam em São Miguel de Pambo, unidas a Deus, e seguiam a vida e as obras de Jesus Cristo. Ali estava Santa Clara, que sentia mais de Deus que as outras; e ela instruía sua irmã e sua ama sobre como deveria conduzi-la.
Os pais e parentes de Santa Clara começaram uma nova batalha e contenda contra as virgens. Pois, quando ouviram dizer que Agnes fora morar com sua irmã Santa Clara, no dia seguinte vieram ao lugar onde Santa Clara vivia doze de seus parentes e amigos, todos fora de si e enfurecidos. Não mostraram exteriormente a malícia que tinham no coração, mas fizeram entender que vinham para o bem. Quando entraram, não fizeram violência a Santa Clara para tirá-la dali, pois sabiam muito bem que nada conseguiriam de seu intento; voltaram-se, porém, para Agnes e disseram-lhe: “Que fazes aqui? Sai conosco e volta para tua casa.” E ela respondeu que jamais se afastaria da companhia de Santa Clara. Então um tirano, um cavaleiro, agarrou-a e puxou-a pelos cabelos, enquanto outro a tomou pelos braços e a carregou para longe. E ela, que parecia estar entre as garras de um leão e ser arrancada das mãos de Deus, começou a clamar, dizendo: “Minha bela e querida irmã, ajudai-me e não permitais que eu seja tirada da santa companhia de Jesus Cristo!” Mas aqueles malfeitores arrastaram a virgem contra a sua vontade pela montanha, rasgaram-lhe as vestes e puxaram e arrancaram-lhe os cabelos. A santa e doce virgem Santa Clara ajoelhou-se, entregou-se à oração e rogou a Nosso Senhor que desse a sua irmã um coração forte e firme, e que ela pudesse, pela força de Deus, vencer e superar a força daquela gente. E imediatamente o Espírito Santo a tornou tão pesada e carregada que parecia que seu corpo estava fixado ao chão, de tal modo que, apesar de toda a força e poder que empregavam, não conseguiam carregá-la sequer para além de um pequeno riacho. Os homens que estavam nos campos e junto ao rio vieram ajudá-los, mas jamais puderam removê-la da terra. Então um deles disse, zombando: “Não é de admirar que ela seja pesada, pois comeu muito chumbo.” Então o senhor Mouvalt, seu tio, levantou o braço para espancá-la cruelmente, mas uma dor e um sofrimento o acometeram de súbito e o atormentaram por longo tempo com grande crueldade. Depois que a dita Santa Agnes suportou por muito tempo essa luta com seus parentes e amigos, Santa Clara veio e rogou-lhes, pelo amor de Deus, que deixassem aquela batalha contra sua irmã, fossem embora e cuidassem de si mesmos. E recebeu sob seus cuidados e responsabilidade Agnes, sua irmã, que jazia no chão em grande aflição; por fim, seus parentes partiram com grande angústia e tristeza no coração. Logo depois, ela se levantou com muita alegria e sentiu grande júbilo pela primeira batalha que havia suportado por amor de Jesus Cristo; e, desde então, decidiu servir a Deus perpetuamente. São Francisco cortou seus cabelos com as próprias mãos e a induziu e ensinou a servir a Deus, e assim também fez Santa Clara, sua irmã. E, como não podemos relatar brevemente, em poucas palavras, a grande perfeição da vida de Agnes, por isso nos dedicaremos à vida de Santa Clara, a virgem.
Não foi grande maravilha a respeito das orações e preces de Santa Clara, que eram tão fortes e tanto valiam contra a malícia dos homens, quando chegaram a fazer fugir e eram poderosas para queimar os demônios? Aconteceu certa vez que uma mulher muito devota da diocese de Pisa veio a uma das senhoras para dar graças a Deus e a Santa Clara, que a livrara das mãos de cinco demônios. Pois eles fugiram, lamentando que as orações de Santa Clara os queimavam a todos e que, por isso, já não podiam permanecer naquele lugar. O papa Gregório tinha grande fé e grande devoção nas orações daquela santa virgem, e não sem causa, pois havia provado e experimentado certa virtude delas, que havia ajudado muitos e diversos que se encontravam em necessidade e aflição. Quando era bispo de Óstia e, depois, quando se tornou papa, enviou-lhe cartas nas quais lhe pedia que rezasse por ele; e imediatamente sentiu-se aliviado e socorrido por suas orações. Portanto, se aquele que era vigário de Jesus Cristo, por sua humildade, como podemos ver, tinha tão grande devoção a Santa Clara, de quem requeria auxílio e à virtude de cujas orações se confiava, quanto mais devemos nós seguir com todas as nossas forças a devoção de tal homem! Pois ele sabia bem quanto é poderoso o amor e como as virgens puras têm livre entrada pela porta do coração de Nosso Senhor. E, se nosso doce Senhor se entrega àqueles que o amam firmemente, quem poderá negar-lhes aquilo que devotamente lhe pedem? Sempre se entende que lhe peçam o que é necessário e conveniente. A santa obra mostra bem a grande fé e a grande devoção que ela tinha no santo sacramento do altar. Pois, durante aquela grande enfermidade que tanto a atormentava, a ponto de jazer em seu leito, ela se levantou e fez-se levar de um lugar a outro; fiou um tecido fino e delicado, com o qual fez mais de cinquenta corporais, e enviou-os, em belos panos de seda, a diversas igrejas em diferentes lugares de Assis.
Quando devia receber o corpo de Nosso Senhor, era maravilhoso ver as lágrimas que derramava, ficando toda molhada por elas. E tinha tamanho temor quando se aproximava de seu Salvador que não o temia menos — ele que, sob a aparência de pão, é verdadeiramente Deus no sacramento — do que temia aquele que governa o céu e a terra, pois é tudo um só. Assim como sempre tinha lembrança e pensamento de Jesus Cristo durante sua enfermidade, assim Deus a consolava e a visitava em sua doença e languidez. Na hora da natividade de Jesus Cristo, no Natal, quando os anjos e o mundo celebravam, cantavam e se alegravam pelo pequeno Jesus que havia nascido, todas as pobres senhoras foram às matinas em seu mosteiro, deixando sozinha sua pobre mãe, muito aflita em sua enfermidade. Então ela começou a pensar no pequeno Jesus e ficou triste por não poder estar no ofício e louvar Nosso Senhor, dizendo em suspiros: “Belo Senhor Deus, estou aqui sozinha, acordada.” E logo começou a ouvir os frades que cantavam, e São Francisco, e ouviu claramente a jubilação, a salmodia e a grande melodia do canto; contudo, seu leito não estava tão perto que se pudesse ouvir ou compreender a voz de um homem ou de uma mulher, se Deus não o tivesse feito por sua bondade, ou se Deus não lhe tivesse dado, acima de toda a natureza humana, força e poder para ouvi-lo. Mas isso passou além de tudo, pois ela foi digna de ver, em seu oratório, a alegria de Nosso Senhor. Pela manhã, quando as senhoras, suas filhas, vieram até ela, disse-lhes: “Bendito seja Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, quando vós me deixastes, ele verdadeiramente não me deixou; e digo-vos que ouvi esta noite todo o ofício e toda a solenidade que foram celebrados na igreja por São Francisco, pela graça de Jesus Cristo.”
Nos sofrimentos de sua morte, Nosso Senhor sempre a consolava. Pois ela extraía das santas chagas de Jesus Cristo uma amargura de que seu coração, sua vontade e seu pensamento ficavam cheios de angústia, de modo maravilhosamente amargo; e muitas vezes parecia ter-se embriagado da tristeza e das lágrimas que derramava por amor de Jesus Cristo. Pois, frequentemente, fazia aparecer por sinais exteriores o amor de Deus que trazia impresso interiormente no coração. Instruía e ensinava as noviças e advertia-as de que tivessem em mente a tristeza e a dor da morte de Jesus Cristo. E aquilo que dizia com a boca, fazia-o no coração e dava exemplo. Quando estava sozinha em segredo, antes que pudesse dizer qualquer coisa, já estava toda orvalhada de lágrimas. Era muito devota e tinha mais fervor de devoção entre a terça e o meio-dia do que em qualquer outro momento, porque queria que, na hora em que Jesus Cristo foi crucificado no altar da cruz, seu coração fosse sacrificado a Deus Nosso Senhor.
Certa vez, à hora do meio-dia, aconteceu que ela rezava a Deus em sua cela, e o demônio lhe deu tal golpe abaixo da orelha que seus olhos e seu rosto ficaram todos cobertos de sangue. Ela havia aprendido uma oração das cinco chagas de Jesus Cristo, que muitas vezes recitava e recordava, porque nela eram alimentados seu coração e seu pensamento, e podia sentir as delícias que estão em Jesus Cristo. Aprendeu o Ofício da Cruz de São Francisco, que a amava verdadeiramente, e dizia-o com tanta alegria quanto podia, assim como ele o fazia. Atava à sua carne um cordão no qual havia treze nós, cheios de pontas de pequenas agulhas, e também pequenos anéis; e fazia isso em memória das chagas de Nosso Senhor.
Aconteceu certa vez, na santa Quinta-feira Santa, que é o dia em que Nosso Senhor fez sua ceia, quando se recorda como Deus amou seus discípulos até o fim, pela hora da tarde, quando Deus começou o combate de sua Paixão, que Santa Clara, estando pesarosa e triste, se encerrou no aposento de sua cela. E aconteceu que rezou longamente a Deus e ficou triste até a morte; e, nessa tristeza e pesar, sentiu nascer em si um amor fervoroso, cheio de desejo, pois se lembrava de como Jesus, naquela hora, fora preso, amarrado, arrastado e escarnecido, de tal modo que, com essa lembrança, ficou toda embriagada e sentou-se em seu leito. Toda aquela noite ficou assim arrebatada e, pela manhã, não sabia onde estava seu corpo. Os olhos de sua cabeça olhavam fixamente para um só lugar, sem se mover nem olhar para o lado, e o olho de seu coração estava tão fixo em Jesus Cristo que ela nada sentia. Uma de suas filhas, mais familiar e íntima que as outras, ia muitas vezes vê-la, e sempre a encontrava no mesmo estado. Na noite de sábado, essa boa e devota filha trouxe uma vela acesa e, sem falar, fez um sinal à sua bem-aventurada mãe Clara para que se lembrasse dos mandamentos de São Francisco, pois ele havia ordenado que todos os dias ela comesse alguma coisa. Então, enquanto permanecia diante dela com a vela acesa, Santa Clara voltou a si, e pareceu-lhe que vinha de outro mundo. E disse: “Bela filha, que necessidade há de uma vela? Ainda não é dia?” E ela respondeu: “Sim, querida e bela mãe; a noite passou, o dia terminou e já chegou aquela outra noite.” “Bela filha”, disse Santa Clara, “seja abençoado este sono que tive, pois muito o desejei e Deus mo concedeu; mas cuida de nunca o dizeres a criatura alguma enquanto eu viver.” Quando Nosso Senhor conheceu e percebeu quão bem e quanto aquela santa Clara o amava, e o grande amor que ela tinha pela verdadeira cruz por amor dele, iluminou-a e privilegiou-a de tal maneira que lhe deu o poder de realizar sinais e milagres por meio da cruz. Pois, quando fazia o sinal da verdadeira cruz sobre os enfermos, logo a enfermidade fugia. E Deus mostrou por meio dela tantos milagres, dos quais vos contarei alguns. Primeiro, o de um frade que estava fora de si. Certa vez aconteceu que São Francisco enviou a Santa Clara um frade chamado Estêvão, que estava completamente louco, para que ela fizesse sobre ele o sinal da cruz. Pois ele sabia muito bem que ela era uma mulher de grande perfeição e a honrava muito pela virtude que havia nela. E ela, que era obediente e boa filha da obediência, abençoou o frade por mandamento de São Francisco, fez com que dormisse um pouco e, depois, tomou-o pela mão; ele se levantou completamente curado e foi ter com São Francisco, inteiramente livre de sua enfermidade.
Esta bem-aventurada Santa Clara era boa e verdadeira mestra para instruir as jovens que pouco conheciam da religião; era presidente e superiora das donzelas de Nosso Senhor, instruía-as nos bons costumes e ensinava-lhes muito bem a fazer penitência. Alimentava-as com tão grande amor que língua alguma poderia facilmente exprimi-lo; ensinava-lhes em segredo a fugir de todo o ruído do mundo, para que se unissem a Nosso Senhor, e também as exortava a afastar de si toda afeição carnal e todo amor terreno por seus parentes, e a não serem excessivamente ternas para com eles nem a amá-los demasiadamente; nem casas, nem terras, mas que se fortalecessem para agradar e servir a Deus. Aconselhava-as e advertia-as de que deviam odiar fazer a vontade do corpo e que, com todo o coração e a reta razão, deviam combater os deleites e os desejos carnais da carne. Dizia-lhes que o demônio do inferno fica à espreita e lança sutilmente seus anzóis e armadilhas para apanhar e prender as almas santas, e que ainda tenta mais as pessoas boas do que as do mundo. Queria que trabalhassem e labutassem com as próprias mãos em obras que ela lhes havia determinado. Queria que, depois de haverem cumprido seu trabalho corporal, fossem à oração, pois a oração é coisa que muito agrada a Deus. E queria que, ao rezarem, aquecessem seu corpo, deixassem e esmagassem a negligência e toda frieza do coração, e se inflamassem e iluminassem no santo amor de Deus, de modo que, em vez de frias, fossem quentes na devoção. Em nenhum lugar nem claustro se guardava ou mantinha melhor o silêncio; não havia leviandade nem maldade em sua fala, mas eram sóbrias e tão boas que mostravam claramente que em seus corações não havia mal algum, mas toda bondade. A boa mestra, Santa Clara, falava tão pouco que as continha e refletia maravilhosamente sobre suas palavras, embora em seu coração e em seu pensamento houvesse somente santidade. Essa boa senhora provia suas filhas da Palavra de Deus por meio de devotas pregações e tinha no fundo do coração tamanha alegria e contentamento ao ouvir as palavras da santa pregação que todo o seu deleite estava em Nosso Senhor Jesus Cristo, seu esposo.
Pois certa vez, enquanto o frade Filipe Adriano pregava, havia diante de Santa Clara uma criança muito bela, que permaneceu ali durante grande parte do sermão e contemplou Santa Clara de modo maravilhoso e gracioso; por isso aconteceu que foi digna de conhecer e ver coisas tão elevadas, recebendo de Santa Clara, nessa visão e contemplação, tamanha doçura e tamanho consolo no coração que isso não poderia ser dito nem expresso. E, embora não fosse letrada, ouvia com mais gosto os sermões em latim do que em sua língua vulgar. Sabia muito bem que dentro da casca está o miolo; ouvia os sermões atentamente e saboreava-os mais docemente. Sabia muito bem extrair para si aquilo que era mais proveitoso para sua alma. E bem sabia que não é menor engenho colher belas flores entre os espinhos agudos do que comer o fruto de uma bela árvore; isto é, amava mais um sermão rude, mas que edificasse bem, do que um belo e polido sermão que pouco aproveitasse.
Certa vez aconteceu que o papa Gregório proibiu que algum frade fosse à casa das senhoras sem sua licença. Quando a santa mãe Santa Clara soube disso, teve grande tristeza no coração, pois via claramente que não poderia ter aquilo de que necessitava, a saber, o alimento da Sagrada Escritura, e disse a suas irmãs, com o coração pesaroso: “Agora, portanto, bem pode o papa Gregório tirar-nos todos os frades, já que nos tirou aqueles que alimentavam nossas almas com a Palavra de Deus.” E imediatamente enviou de volta todos os frades de sua casa ao mestre ou ministro, pois dizia que não tinha necessidade de frades para obter o pão corporal, quando eles lhe faltavam justamente naquilo que alimentava a ela e a suas irmãs com a Palavra de Deus. Assim que o papa Gregório ouviu essa notícia, revogou o que havia proibido e deixou tudo à vontade de Deus. Essa santa e boa abadessa não amava somente as almas de suas boas filhas, mas pensava muitas vezes em seu coração como poderia servir caridosamente a seus corpos. Pois, quando fazia muito frio, cobria à noite as que eram fracas e visitava-as com grande ternura. E, se via alguma perturbada por alguma tentação ou por alguma tristeza, coisa que às vezes acontece, chamava-as em segredo e consolava-as, chorando com elas. Outras vezes caía aos pés de suas filhas que estavam abatidas e tristes e ajoelhava-se diante delas, de modo que, pela doçura e mansidão que as senhoras viam em sua boa mãe, ela aliviava e afastava sua tristeza; por isso as senhoras, suas filhas, lhe davam muitas graças. Assim aprenderam a agir bem por devoção, a amar mais ternamente sua boa mãe e a seguir pelo caminho reto as obras de sua boa abadessa. E muito se admiravam da grande abundância de santidade que Deus havia dado à sua esposa.
Quando havia passado quarenta anos no estado de uma pobreza verdadeiramente santa, aprouve a Nosso Senhor chamá-la para receber sua recompensa no céu; e enviou-lhe uma grande enfermidade, multiplicando seu langor e sua doença. Algum tempo antes, ela havia feito penitência tão severa que seu corpo e sua carne já não tinham força. E, por fim, ficou enferma em excesso, muito mais do que costumava estar; pois, assim como Nosso Senhor lhe havia dado, em sua saúde, riquezas de méritos, de boas virtudes e de boas obras, assim também Deus quis enriquecê-la em sua doença, para que sofresse por ele grandes dores e tormentos, pois no sofrimento da doença a virtude se aperfeiçoa. Como e de que maneira ela foi virtuosa e perfeita em sua enfermidade, podeis ouvir. Pois, embora tivesse passado vinte e oito anos em langor e doença, nunca se queixou, nem murmurou, nem lamentou; mas sempre dizia palavras santas e rendia graças a Nosso Senhor, embora estivesse maravilhosamente aflita e enferma, de tal modo que parecia apressar-se muito para chegar ao seu fim.
Não obstante, aprouve ao nosso Senhor poupá-la da morte até o tempo em que seu fim pudesse ser honrado, e exaltá-la pela presença do papa e dos cardeais, dos quais ela era filha especial. Pois, quando o papa e os cardeais haviam permanecido longo tempo em Lião, Santa Clara foi então maravilhosamente atormentada pela doença, de modo que suas filhas tiveram grande tristeza no coração, parecendo-lhes que uma lança as havia atravessado ou que tinham sido rasgadas por uma espada. Mas nosso Senhor mostrou imediatamente uma visão a uma de suas servas, que vivia em São Paulo; pareceu-lhe que ela e suas irmãs estavam em São Damião, diante de Santa Clara, que estava muito enferma. E pareceu-lhe que essa Clara jazia num leito muito belo e precioso, e pareceu-lhe que suas filhas choravam quando a alma deveria sair do corpo. E logo viu uma dama muito formosa à cabeceira do leito, que disse às que choravam: “Filhas formosas, não choreis mais, pois esta dama há de vencer tudo. E sabei que ela não morrerá até que nosso Senhor e seus discípulos venham. E não permanecerá muito tempo depois que o papa e a corte de Roma chegarem a Perúsia.” E assim que o bispo de Óstia soube que essa santa mulher estava enferma, partiu imediatamente, com grande pressa, para ver e visitar a esposa de Jesus Cristo, pois era seu pai espiritual e tinha o cuidado de sua alma, nutrindo-a com coração e vontade puros, porque sempre amara devotamente a santa virgem. Então deu-lhe, em sua enfermidade, o corpo de nosso Senhor, pois esse é o verdadeiro alimento da alma, e consolou as outras filhas com seus sermões e santas palavras. Então a santa e boa mãe, chorando, rogou-lhe muito docemente que cuidasse das filhas que ali estavam e de todas as outras, e que, por amor de nosso Senhor, se lembrasse dela. E, acima de todas as coisas, rogou-lhe que fizesse quanto pudesse para que o privilégio da pobreza delas fosse confirmado pelo papa e pelos cardeais. E ele, que verdadeiramente a amava, assim como à religião, e que sempre a havia auxiliado com fidelidade, prometeu que o faria — e o fez. No ano seguinte, o papa e os cardeais vieram a Assis para ver a partida da santa virgem e cumprir a visão que fora vista e anunciada a respeito dela. Pois o papa é o homem mais elevado da terra depois de Deus e o que melhor representa a pessoa de Jesus Cristo; assim como nosso Senhor tinha seus discípulos, unidos a ele na terra, do mesmo modo o papa tem seus cardeais, que lhe estão unidos na santa Igreja. Nosso Senhor Deus apressou-se, pois conhecia o firme propósito de sua esposa Santa Clara, e apressou-se a honrá-la e a colocar no palácio do rei do paraíso sua pobre peregrina; e também a boa dama desejava e ansiava de todo o coração ser libertada de seu corpo mortal e ver no céu Jesus Cristo, ela que o havia seguido na terra de todo o coração, em verdadeira pobreza. Seus membros estavam dilacerados e atormentados por grande enfermidade, de modo que o corpo já não podia resistir, pois estava demasiadamente enfraquecido; assim, nosso Senhor a chamou deste mundo e ordenou para ela a saúde perdurável. Então o papa Inocêncio IV e os cardeais vieram com ele visitar a serva de Deus, cuja santa vida ele havia provado melhor que a de qualquer mulher de seu tempo. Por isso sabia certamente que era justo vir e honrá-la com sua presença. E, quando chegou à casa das damas, foi até onde jazia essa santa e tomou-lhe a mão para beijá-la. E o papa, que era cortês, pôs-se de pé sobre um estrado e ofereceu-lhe o pé para beijar, por grande humildade. Ela o tomou e beijou muito docemente; depois inclinou-se muito humildemente diante do papa e pediu-lhe, com semblante bondoso, que a absolvesse de todos os seus pecados. Ao que ele disse: “Praza a Deus que não tenhamos maior necessidade de absolvição dos pecados que cometemos do que vós tendes.” E então absolveu-a de todos os seus pecados e deu-lhe amplamente sua bênção. Quando todos partiram, visto que naquele dia ela havia recebido, pelas mãos do ministro provincial, o verdadeiro corpo de nosso Senhor, levantou os olhos para nosso Senhor no céu, juntou as mãos e disse: “Ah! minhas filhas muito doces e formosas, nosso Senhor Jesus Cristo, por sua bondade, fez-me tão grande bem e deu-me tão grande dádiva que nem o céu nem a terra podem conhecê-la, pois hoje recebi um senhor muito elevado e também vi seu vigário.” As boas filhas estavam ao redor do leito, chorando e esperando pela órfã, e sentiam grande tristeza no coração, pois a morte de sua mãe lhes traspassava o coração como uma espada. Não se afastaram dela nem por fome, nem por sede, nem por sono, e tampouco pensavam em leito ou mesa. Todos os seus deleites consistiam em gritar, chorar e fazer luto. E, entre todas as outras, sua irmã, que era uma virgem muito devota, derramou muitas lágrimas e disse a Santa Clara, sua irmã: “Formosa e muito doce irmã, não te apartes de mim e não me deixes aqui sozinha.” E Santa Clara respondeu-lhe muito docemente: “Formosa e doce irmã, agrada a Deus que eu parta deste mundo; mas não chores mais, querida irmã, pois virás logo a nosso Senhor depois de mim. E também te digo que nosso Senhor te dará grande conforto e consolação antes que morras.” Depois, essa santa e boa Clara aproximou-se rapidamente do fim. O povo tinha por ela grande devoção, e os prelados e cardeais vinham frequentemente vê-la e honravam-na como verdadeira santa. Mas houve uma coisa maravilhosa de ouvir: durante o espaço de doze dias, jamais entrou em seu corpo alimento corporal algum; e, pela assistência e graça de Deus, ela era tão forte que consolava no serviço de Deus todos os que vinham diante dela, exortando-os e ordenando-lhes que fizessem o bem. E, quando Frei Reinaldo, que era bondoso, veio vê-la e contemplou a grande enfermidade que havia sofrido por longo tempo, pregou-lhe e rogou-lhe muito que tivesse paciência. E ela lhe respondeu logo, livre e bondosamente: “Desde que o santo homem São Francisco, servo de Jesus Cristo, me mostrou o caminho da verdade, e desde que, pela orientação de São Francisco, senti e conheci a vontade e a graça de Jesus Cristo, sabei, caríssimo irmão, que nenhuma dor me desagrada, nenhuma penitência me pesa, e nenhuma enfermidade me é difícil ou desagradável.” E então respondeu ao frade quando sentiu nosso Senhor bater à sua porta para retirar sua alma deste mundo, e pediu que boas pessoas espirituais estivessem com ela, para que pudesse ouvir delas as santas palavras de Deus, especialmente as palavras da morte e paixão de Jesus Cristo. Entre todos os outros veio um frade chamado Vinberes, que era um dos mais nobres pregadores que havia na terra e que muitas vezes falava e proferia palavras nobres e santas, ardentes e boas. Ela alegrou-se muito com sua vinda e rogou-lhe que, se tivesse preparado alguma coisa nova para dizer, a dissesse. Então o frade abriu a boca e começou a proferir palavras tão doces que eram como centelhas de fogo e de ardor, ou calor, e disso a santa virgem teve grande consolação. Então ela se voltou e disse às suas filhas: “Filhas doces, recomendo-vos a santa pobreza de nosso Senhor e dai-lhe graças pelo que ele vos fez.” Depois abençoou todos os que tinham devoção por ela e por sua ordem, e deu ampla e sabiamente sua bênção a todas as pobres damas de sua ordem que estavam ali diante dela. Os dois companheiros de São Francisco que ali estavam — um dos quais se chamava Ângelo — consolaram as que estavam cheias de tristeza; e o outro frade beijou devota e santamente o leito daquela que deveria partir para nosso Senhor. As santas damas choraram muito a perda de sua mãe; e, quanto mais gritavam e choravam exteriormente, tanto mais ardentemente sofriam interiormente. Então Santa Clara começou a falar muito suavemente à sua alma: “Vai”, disse ela, “vai com segurança, pois tens um bom guia e condutor no caminho por onde irás, que te conduzirá pelo caminho reto. Vai”, disse ela corajosamente, “pois aquele que te criou e santificou te guardará, porque te ama tão ternamente quanto uma mãe ama seu filho.” “Senhor Deus”, disse ela, “bendito sejas, tu que me criaste.” Então uma de suas irmãs lhe perguntou com quem falava. “Falei”, disse ela, “com minha alma bem-aventurada, e, sem dúvida, seu glorioso condutor não está longe dela.” Então chamou uma de suas filhas e disse-lhe: “Filha formosa, vês o rei da glória que eu vejo?” Mas a filha não o viu, pois era vontade de Deus que uma visse aquilo que outra não via. Havia ali, contudo, uma feliz e consolada viúva que o viu com os olhos da cabeça, em meio às lágrimas que chorava; e, não obstante, estava ferida no coração por um dardo cheio de doçura e tristeza. Então voltou o olhar para a porta da casa e viu entrar nela uma grande companhia de virgens, todas vestidas de branco, cada uma trazendo na cabeça uma coroa de ouro. E, entre todas as outras, havia uma muito mais resplandecente e bela que as demais, trazendo uma coroa de ouro cravejada, da qual saía uma claridade tão grande que toda a casa ficou tão luminosa que parecia ser dia claro em plena noite. E essa dama, que era tão resplandecente, aproximou-se do leito onde jazia a esposa de seu Filho, inclinou-se sobre ela e abraçou-a muito docemente. Então as virgens trouxeram um manto de grandíssima beleza, e esforçaram-se por servir e cobrir o corpo de Santa Clara e por preparar bem a casa. No dia seguinte era a festa de São Lourenço; então morreu e partiu desta vida mortal a santa dama e amiga de nosso Senhor, e logo sua alma foi coroada de alegria eterna. Seu espírito foi desatado e libertado da carne muito benigna e jubilosamente; e, enquanto o corpo permanecia na terra, a alma foi com Deus, que era sua vida. E bendita seja a santa companhia de Deus, que conduziu a santa alma dessa dama do vale deste mundo ao monte do céu, onde está a vida bem-aventurada. Agora a bem-aventurada virgem está na companhia dos que se encontram na corte celeste; agora trocou sua pobre e pequena vida, que a levou a sentar-se à mesa onde estão os grandes deleites. Agora, em lugar da pequena vida de humildade e aspereza, recebeu o reino bem-aventurado do céu, onde está vestida e adornada com o manto da glória perdurável. Logo se espalhou a notícia de que a bem-aventurada virgem havia partido; e, quando o povo de Assis ouviu isso, homens e mulheres vieram ao lugar em tão grandes grupos que parecia não ter ficado na cidade homem nem mulher. E todos clamavam: “Ó querida dama e amiga de Deus!” — e, ao mesmo tempo, louvavam-na e choravam muito ternamente. O podestà e o preboste da cidade correram para lá com grande pressa, acompanhados por muitos grupos de cavaleiros e gente armada, que guardaram todo aquele dia e toda aquela noite, com grande honra, o corpo da santa virgem. Pois não queriam de modo algum que a cidade pudesse, por algum acaso, sofrer dano ou prejuízo ao perder o tesouro que ali jazia. No dia seguinte veio o vigário de Jesus Cristo, com todos os cardeais, e toda a cidade de Assis, à igreja de São Damião. E, quando chegou o momento de começarem a missa pela bem-aventurada Santa Clara, aconteceu que aquele que a iniciava quis começar o ofício dos mortos. Logo o papa disse que seria melhor fazer o ofício das virgens que o ofício dos mortos, de tal modo que parecia querer canonizá-la antes mesmo de ela ser sepultada. Então respondeu o sábio homem, o bispo de Óstia, dizendo que era mais costumeiro celebrar, em caso assim, o ofício dos que morreram; e então disseram a missa de réquiem. Todos os prelados e o bispo de Óstia começaram a pregar, tomando como tema que todo o mundo é vaidade, e começaram a louvar grandemente essa doce santa, Santa Clara, e como ela havia desprezado o mundo e tudo quanto nele havia. Então os cardeais que ali estavam foram à frente e realizaram santamente o serviço junto ao santo corpo e o ofício, como é costume. E, porque lhes parecia que não era justo nem razoável que o precioso corpo permanecesse longe da cidade, levaram-no a São Jorge com tão grande festa, cantando e louvando a Deus em hinos e louvores, e com tão grande melodia que houve honra suficiente. Nesse mesmo lugar fora sepultado primeiramente o corpo de São Francisco. Desde então, muita gente vinha todos os dias ao túmulo de Santa Clara, dando louvores e glória a nosso Senhor Deus. E, na verdade, esta é uma santa verdadeira e gloriosa virgem, que reina com a companhia dos anjos, a quem Deus concedeu tanta honra na terra. Ah, doce virgem, roga a Jesus Cristo por nós, pois foste a primeira flor das santas damas pobres, que atraíste incontáveis mulheres à penitência; e que possas conduzir-nos à vida perdurável. Amém.
Não passou muito tempo até que Inês, irmã de Santa Clara, fosse chamada e convocada para as núpcias do verdadeiro Cordeiro, Jesus Cristo; e também Santa Clara conduziu sua irmã à alegria perdurável, cheia de delícias. Agora estão ali as duas filhas de Sião, que eram irmãs tanto pela graça quanto pela natureza, e são agora herdeiras da alegria do céu, onde sentem a doçura de Deus e gozam com ele. Agora Inês está na alegria e na consolação que Clara, sua irmã, lhe havia prometido antes de morrer; pois, assim como Clara a tirou do mundo, também a conduziu pela cruz da penitência, pela qual ela resplandece no céu. Assim Inês seguiu sua irmã, pouco depois, para fora desta vida mortal, cheia de choro e tristeza, em direção a nosso Senhor, que é a luz da alma no céu e reina com o Pai e o Espírito Santo. Amém.
Aqui seguem os milagres que foram mostrados depois de sua morte.
Os sinais e milagres dos santos devem ser mostrados, louvados e honrados, e também testemunhados, quando as obras de sua vida foram santas e cheias de perfeição. Não encontramos muitos sinais nem milagres que São João Batista tenha feito; contudo, ele é um santo muito santo e maior do que aqueles para os quais foram mostrados muitos milagres. E por isso digo que a vida verdadeiramente santa e a grande perfeição de Santa Clara, que ela praticou e manifestou aqui na terra, deveriam bastar plenamente e testemunhar que ela é uma verdadeira santa, se não fosse pelo povo, que tem maior devoção e fé ainda maior nos santos quando vê os sinais e milagres que Deus mostra por meio deles. Sei muito bem que Santa Clara estava no caminho repleto de méritos e que foi arrebatada à profundidade da grande claridade e luz do céu; contudo, embora fosse resplandecente, de excelente odor e verdadeiramente cheia de grandes milagres, como foi bem declarado pelos cardeais de Roma, meu juramento de verdade que fiz e minha consciência obrigam-me a escrever, segundo minhas forças, com verdade, a vida e os milagres dela, embora eu deixe de lado muitas coisas belas.
De um que foi libertado do demônio.
Havia em Perúsia um menino chamado Jaquemin, que tinha o demônio em seu corpo, de tal maneira que Jaquemin caía no fogo, por não poder conter-se. Às vezes lançava-se violentamente contra o chão; outras vezes mordia as pedras, de modo que quebrava os dentes; em outras ocasiões feria a cabeça, ficando todo o corpo ensanguentado, sujava a boca e punha a língua para fora. E algumas vezes deitava-se e revolvia-se, contorcendo-se, de modo que muitas vezes punha a coxa sobre o pescoço. E todos os dias esse mal lhe sobrevivia duas vezes, e duas pessoas não podiam guardá-lo nem segurá-lo sem que ele se despojasse e se despisse, apesar de ambos. Não havia médico nem homem sábio em todo o país que pudesse encontrar remédio ou dar conselho para aliviá-lo. Mas o pai, chamado Quindelor, quando viu que não conseguia encontrar conselho nem remédio para esse mal, começou a chorar e a invocar Santa Clara, a santa virgem, dizendo: “A ti, que és digna de todas as honras, confio meu filho, que é mau e miserável, e rogo-te, dulcíssima santa, queiras enviar saúde a meu filho.” E foi imediatamente ao seu túmulo, cheio de fé em obter o que pedia, colocou o menino sobre o túmulo da virgem e fez suas orações. E logo ele foi libertado do mal, e nunca mais tornou a adoecer daquela enfermidade, nem jamais voltou a ser ferido por causa daquele mal.
Outro milagre.
Alexandrina de Perúsia tinha em seu corpo um demônio verdadeiramente maligno, que exercia sobre ela tal poder que a fazia descer de um rochedo situado sobre um rio, fazia-a correr sobre as águas como se fosse uma ave e fazia-a pousar num pequeno galho de árvore que pendia sobre o rio, onde não cessava de brincar. E, por causa de seu pecado, aconteceu que perdeu o lado esquerdo e ficou aleijada daquela mão. E tentou muito saber se poderia ser curada por algum remédio, mas todos os remédios que tomava de nada lhe valiam. Então veio ao túmulo de Santa Clara, com grande arrependimento no coração, e começou a rogar a Santa Clara que a ajudasse; e logo foi curada e restabelecida em plena saúde. Seu lado ficou são, e também sua mão, e ela foi libertada da possessão do demônio que estava nela e de muitas outras doenças e enfermidades diante do sepulcro de Santa Clara.
De uma louca que ela curou.
Um homem nascido na França veio certo dia da corte e caiu enfermo, de modo que perdeu o juízo e não podia falar; e tanto agitava o corpo que não conseguia ter repouso, sendo muito estranho e horrível de ver. Ninguém conseguia segurá-lo, pois ele se soltava daqueles que o prendiam, apesar deles, e rompia cordas ou qualquer coisa com que o amarrassem. Então os homens de sua terra levaram-no a Santa Clara e, logo, ele foi curado e inteiramente liberto de sua enfermidade.
Outro milagre.
Havia um homem chamado Valentim Despole, que tinha uma horrível enfermidade: caía do mal caduco nada menos que seis vezes por dia. Além disso, era coxo de uma coxa, de tal modo que não podia andar; por isso foi colocado sobre um asno, que o levou até onde jazia Santa Clara. Foi posto diante de seu túmulo por três noites e dois dias; e, no terceiro dia, sem que ninguém o tocasse, sua coxa começou a estalar e fez um ruído tão grande que parecia que o osso se quebrara; e, imediatamente, ficou curado de ambas as doenças.
De um cego que recuperou a vista.
Jacó, filho de Spoletino, estivera cego por dois anos, de modo que precisava ser conduzido; pois, quando não tinha quem o guiasse, ia de um lado para outro. Certo dia, o menino que o conduzia deixou-o andar sozinho, e ele caiu, quebrando o braço e abrindo uma grande ferida na cabeça. E aconteceu que, certa noite, enquanto dormia junto à ponte de Margue, apareceu-lhe em sonho uma senhora, que lhe disse: “Jacó, por que não vens a mim para ser curado?” Pela manhã, ele contou seu sonho, todo trêmulo, a dois outros cegos. E os cegos lhe disseram que morrera havia pouco, na cidade de Assis, uma senhora por meio da qual Deus mostrava muitos milagres àqueles que chegavam enfermos e doentes ao seu túmulo, e que, quando partiam, estavam todos curados. Assim que ouviu isso, não tardou, mas apressou-se e chegou primeiro a Espoleto; e, naquela noite, viu a mesma visão que vira pela primeira vez na noite anterior. Certa vez, foi correndo pelo caminho e, pelo desejo de recuperar a vista, chegou naquela noite a Assis. Quando chegou ali, encontrou tanta gente no mosteiro, deitada diante do túmulo da santa virgem, que não podia entrar nem chegar ao mosteiro nem ao túmulo onde jazia a virgem. Então colocou uma pedra sob a cabeça e permaneceu ali com grande devoção, triste e irado por não poder entrar. Naquela mesma noite, enquanto dormia, ouviu uma voz que lhe dizia: “Jacó, se puderes vir e entrar aqui, Deus te fará bem.” Pela manhã, quando despertou, começou a rezar com muitas lágrimas, pedindo que o povo lhe desse passagem e lha abrisse pelo amor de Deus; e suplicou ao povo, pedindo-lhe misericórdia, que o levasse para dentro. E o povo começou a abrir-lhe caminho. Logo tirou as meias e os sapatos, despiu-se por grande devoção, pôs o cinto em torno do pescoço e dirigiu-se assim ao túmulo; e, estando ali em grande devoção, adormeceu por um breve tempo. E Santa Clara apareceu-lhe e disse: “Levanta-te, pois estás inteiramente curado.” E ele levantou-se imediatamente e viu com clareza. Quando percebeu que fora iluminado e contemplou a claridade do dia pelo mérito de Santa Clara, louvou e glorificou nosso Senhor, que lhe concedera tão grande benefício, e rogou ao bom povo que desse louvores e graças a Deus.
De um homem que foi curado da mão
Havia um homem de Perúsia chamado João Bom, filho de Martinho, que foi combater contra os de Foligno. E, quando uma parte e a outra começaram a pelejar, começaram a atirar pedras tão grandes e com tanta força que uma pedra deixou esta mão de João completamente esmagada e quebrada. E, porque tinha grande desejo de ser curado, gastou muito dinheiro com médicos e cirurgiões, mas não encontrou nenhum que pudesse curá-lo; antes, permaneceu sempre aleijado da mão, nem podia fazer coisa alguma nem trabalhar com ela. Por isso teve tamanha tristeza que muitas vezes se apressou a fazê-la amputar. Mas, quando ouviu os grandes milagres que Nosso Senhor havia realizado por Santa Clara, prometeu que iria visitá-la. Então foi ao sepulcro de Santa Clara, a santa virgem, levando consigo uma imagem de cera de sua mão, e deitou-se sobre o túmulo; e, imediatamente, foi perfeitamente curado da mão.
Outro milagre.
Havia um homem chamado Petrício, do castelo de Byconne, que estivera enfermo durante três anos e ficara tão enfraquecido pela força de sua enfermidade que estava todo ressequido. Tinha tanta dor nos rins que se tornara tão encurvado que andava como um animal. Por isso, seu pai levou-o aos melhores médicos e às melhores medicinas que pôde encontrar e conhecer, e também àqueles que tratavam de ossos quebrados; e o pai teria de bom grado gastado todos os seus bens, contanto que pudesse ter o filho são. E, quando ouviu dos médicos que nenhum remédio nem pessoa alguma poderia curá-lo de sua enfermidade, pensou em ir até Santa Clara e levou seu filho consigo. Assim fez, e colocou-o diante do sepulcro da santa virgem. E não estivera ali por muito tempo quando, pela graça de Deus e pelos méritos da santa virgem, ficou completamente são, levantou-se curado de toda a sua enfermidade e deu louvor, graças e ações de graças a Nosso Senhor Deus e a Santa Clara; e pediu ao povo que fizesse o mesmo por causa de sua cura.
Outro milagre.
Havia também, na cidade de São Quirito, na diocese de Assis, uma criança de dois anos de idade que nascera corcunda e aleijada; suas coxas e seus pés estavam voltados transversalmente, e ela andava de tal maneira que todo o seu corpo estava desordenado; e, quando caía, não podia levantar-se. Sua mãe muitas vezes a havia prometido a São Francisco, mas com isso não fora ajudada. E, quando ouviu dizer que Deus realizava novos milagres por Santa Clara, levou a criança ao seu sepulcro e permaneceu ali alguns dias. Mas, dentro de poucos dias, suas pernas começaram a crescer, e suas coxas, sob a pele, foram naturalmente endireitadas; então ela passou a andar ereta, completamente curada e restabelecida. E assim aquele que estivera várias vezes com São Francisco foi curado pelos méritos de seu bom discípulo, Santa Clara, pela virtude de Nosso Senhor Jesus.
De uma criança aleijada que nunca havia andado
Um burguês de Augulum chamado Jacques de Franque tinha uma criança de cinco anos de idade que não tinha pés com que se sustentar, nem jamais havia andado nem podia andar. Por isso, seu pai muitas vezes chorava e se afligia muito em seu coração por causa de sua deformidade, e considerava uma vergonha para si ter nascido de seu sangue alguém tão desfigurado. Pois a criança jazia no chão e nas cinzas, arrastando-se e apoiando-se contra a parede, desejando, por natureza, ajudar-se, mas faltavam-lhe força e poder. Então seu pai e sua mãe prometeram-na a Santa Clara, para que fosse sua serva, se por suas orações e méritos pudesse ser curada. E, assim que o pai e a mãe fizeram seu voto, a santa virgem curou sua serva, de modo que ela recuperou seus membros direitos e andou ereta. E imediatamente o pai e a mãe a levaram a Santa Clara; ela ia saltando e correndo, louvando Nosso Senhor e dando-lhe graças. Então o pai e a mãe a ofereceram a Nosso Senhor.
Outro milagre.
Havia uma mulher do castelo de Bruane, chamada Pleniere, que há muito sofria dos rins, de tal modo que não podia andar sem ajuda, nem endireitar-se senão com grande dor, e estava toda encurvada. Aconteceu que, numa sexta-feira, ela se fez levar ao túmulo de Santa Clara e rogou-lhe com grande devoção que a ajudasse. E aconteceu que, enquanto rezava, ficou subitamente completamente curada. E na manhã seguinte, que era sábado, foi para casa, andando ereta e perfeitamente sobre os próprios pés, quando no dia anterior fora levada por causa da fraqueza.
Daquela que foi curada das escrófulas.
Havia uma donzela da terra de Perúgia que tinha a garganta muito inchada por uma enfermidade chamada escrófulas, da qual padecia havia muito tempo, e trazia ao redor do pescoço e da garganta vinte tumores chamados glândulas, de modo que seu pescoço parecia maior que a cabeça. E muitas vezes ela fora levada a Santa Clara, e o pai e a mãe da donzela haviam-lhe rogado devotamente que curasse a filha. E aconteceu que, certa noite, enquanto a donzela jazia diante do túmulo, começou a suar, e as escrófulas e a enfermidade começaram a amolecer e a desaparecer; e pouco depois a enfermidade sumiu completamente, de tal modo que, pelos méritos de Santa Clara, não se viu dela sinal nem vestígio.
De uma irmã da ordem.
Uma das irmãs da ordem de Santa Clara, no tempo em que ela vivia, padecia de uma enfermidade na garganta. Essa irmã chamava-se Andrea. Mas era coisa admirável que, entre as irmãs que eram como pedras preciosas, todas repletas do fervoroso amor do Espírito Santo, pudesse viver uma tão fria como essa Andrea, tão insensata que desonrava as outras virgens. Então aconteceu que, certa noite, ela apertou a própria garganta, de modo que quase se estrangulou; e Santa Clara viu isso e soube-o pelo Espírito Santo, e disse a uma de suas irmãs: “Vai depressa agora, toma um ovo mole e leva-o à irmã Andrea de Ferrara, para lhe aliviar a garganta, e volta trazendo-a contigo para cá, a mim.” Então ela se apressou e encontrou a mesma Andrea, que não podia falar, pois quase se estrangulara com as próprias mãos. E ajudou-a como pôde e levou-a à sua boa mãe. Então Santa Clara disse-lhe: “Desgraçada, vai e confessa teus maus pensamentos; e sei bem que Nosso Senhor te curará, mas emenda tua vida, para que possas morrer de alguma outra enfermidade que não esta que padeceste por tanto tempo.” E assim que Santa Clara pronunciou essas palavras, ela começou a arrepender-se de coração sincero, e emendou maravilhosamente a sua vida, e ficou inteiramente curada das escrófulas, pela graça de Deus; mas pouco depois morreu de outra enfermidade.
De um lobo que levou uma criança.
Na terra de Assis havia um lobo sobremaneira cruel, que atormentava o país e o povo, investia contra eles, matava-os e devorava-os. Havia ali uma mulher chamada Gallane, do monte de Gallum, que tinha filhos; e o lobo arrebatara e levara consigo um deles, e o devorara, pelo que ela chorava com frequência. E certa vez o lobo veio em busca de sua presa, como já fizera antes, para devorar alguma criança. E aconteceu que essa mulher estava ocupada em seu trabalho, no qual tinha as mãos empenhadas, e um de seus filhos saiu; imediatamente o lobo o agarrou pela cabeça e correu com ele em direção à floresta. E um homem que trabalhava entre as vinhas ouviu a criança gritar de modo diferente de qualquer outro grito que já ouvira, e correu até a mãe da criança, dizendo-lhe que visse se tinha consigo todos os seus filhos, pois dissera ter ouvido o clamor de uma criança de maneira diferente daquela em que costumavam gritar. E logo a mãe olhou e viu que o lobo arrebatara seu filho e se dirigia com ele para a floresta, assim como fizera com o outro; e gritou tão alto quanto pôde: “Ah, gloriosa virgem Santa Clara, salva meu filho e guarda-o; e, se não o fizeres, irei afogar-me.” E então os vizinhos saíram e correram atrás do lobo, e encontraram a criança, que o lobo havia deixado, e um cão de caça junto dela, lambendo-lhe as feridas. Pois o lobo primeiro a agarrara pela cabeça e depois a pegara pelos lombos, para carregá-la com mais facilidade; e as mordidas de seus dentes apareciam tanto na cabeça quanto nos lombos. Então a mãe foi com ele até Santa Clara, que tão bem a ajudara, levando consigo os vizinhos, e mostrou as feridas da criança a todos os que quiseram vê-las, e agradeceu a Deus e a Santa Clara, porque seu filho lhe fora novamente restituído.
Havia uma donzela do castelo de Convary que certa vez estava sentada num campo, e outra mulher repousava a cabeça em seu colo. Enquanto isso, veio um lobo que costumava investir contra as pessoas, aproximou-se da donzela, abocanhou-lhe o rosto e toda a boca, e correu com ela em direção à floresta. E a boa mulher, que tinha a cabeça da donzela em seu colo, quando viu aquilo, ficou muito perturbada e começou a invocar Santa Clara, dizendo: “Socorro! Socorro, Santa Clara, e auxilia-nos; neste momento, recomendo-te esta donzela.” E aquela que o lobo carregava disse ao lobo: “Não tens medo de me levar mais longe, a mim que fui recomendada a tão grande e digna senhora?” E, ao ouvir as palavras que a donzela pronunciou, o lobo, todo confuso e envergonhado, colocou-a suavemente no chão e fugiu como um ladrão; e assim ela foi libertada. Roguemos, pois, a esta gloriosa virgem Santa Clara que seja nossa advogada em todas as nossas necessidades; e, por seus méritos, possamos corrigir de tal modo nossa vida neste mundo que cheguemos à vida eterna e à bem-aventurança no céu. Amém.