Brice é dito de breos, que significa em grego “medida”, e de scio, scis, isto é, “conhecer”. Assim, a explicação do nome Brictius ou Brice equivale a “conhecedor da medida”. Pois, no começo de sua infância, quando era jovem, estava cheio de muitas tolices e loucuras; mas depois sabia muito bem, segundo a medida de si mesmo, pedir e aconselhar-se, governar bem os outros e escusar-se com medida.
Brício era arquidiácono de São Martinho, e era-lhe muito desagradável, e dizia dele muitas coisas sem razão. Certa vez, um homem pobre veio a Brício e perguntou-lhe onde estava o bispo e como poderia reconhecê-lo. E ele mandou-o entrar na igreja e disse-lhe: “Aquele que vires ali, olhando para o céu como um louco ou como alguém fora de si, esse é Martinho.” E o pobre homem entrou e encontrou São Martinho; e, quando recebeu a resposta que buscava, São Martinho chamou São Brício e disse-lhe: “Brício, parece-te que sou um tolo ou um insensato?” E Brício negou-o e repudiou-o, por vergonha, dizendo que não dissera tal coisa. E São Martinho disse: “Eu o ouvi, pois meus ouvidos estavam junto à tua boca quando o disseste abertamente ao pobre homem. Digo-te, em verdade, que alcancei e obtive de Deus que hás de suceder-me neste bispado; mas fica sabendo com certeza que nele sofrerás muitas adversidades.” E, quando Brício o ouviu dizer isso, escarneceu dele, dizendo: “Não disse eu a verdade quando disse que ele era um tolo?” Depois da morte de São Martinho, Brício foi eleito e feito bispo de Tours; desde então, dedicou-se inteiramente à oração. E, embora tivesse sido orgulhoso, foi sempre casto.
No trigésimo ano de seu episcopado, uma mulher vestida religiosamente, que era sua lavadeira e lhe havia lavado as roupas, concebeu e deu à luz um filho, que todo o povo dizia ter sido gerado pelo bispo. E reuniram-se às portas dele com pedras, dizendo: “Por muito tempo suportamos tua luxúria por amor de São Martinho e por sua piedade; mas agora não mais beijaremos tuas mãos, que são malditas.” Mas ele negou o fato e o ato com firmeza, dizendo: “Trazei-me a criança.” E, quando a trouxeram, ela tinha apenas trinta dias de idade. E São Brício disse-lhe: “Eu te conjuro, pelo Filho de Deus, a dizer-me diante de todo este povo se eu te gerei.” E a criança disse: “Tu não és meu pai.” E o povo, ainda não satisfeito, mandou-lhe perguntar à criança quem era seu pai. E ele disse: “Não me compete fazer isso. Fiz aquilo que me competia, para minha defesa.” E o povo disse que isso fora feito por arte de encantamento, e declarou abertamente: “Ele não deve exercer senhorio sobre nós tão falsamente, sob a aparência de pastor.” Então, ainda para purgar-se, levou no colo ou em sua veste carvões inteiramente ardentes até o túmulo de São Martinho; e suas vestes nunca se queimaram nem sofreram dano algum. Então disse: “Assim como minha veste não foi ferida nem queimada por estes carvões, mas permaneceu inteira e não corrompida pelo fogo, do mesmo modo meu corpo está limpo do contato com qualquer mulher.” Contudo, o povo ainda não acreditou nele; antes, espancou-o, infligiu-lhe muitas injúrias e expulsou-o do bispado, para que se cumprisse a palavra de São Martinho. Então São Brício partiu chorando e foi ter com o papa, permanecendo ali durante sete anos e expiando aquilo em que havia ofendido São Martinho. E o povo fez um novo bispo, chamado Justiniano, e enviou-o a Roma para defender a causa contra Brício. Mas, enquanto ia para lá, morreu na cidade de Vercelli. Então o povo fez Armenius bispo em seu lugar; e, no sétimo ano, Brício voltou com autoridade do papa e hospedou-se a seis milhas da cidade. Naquela mesma noite, Armenius, o bispo, morreu. E Brício soube disso por revelação divina e disse ao seu povo que se levantassem e se apressassem para ir sepultar o bispo de Tours, que havia morrido. E, quando Brício entrou por uma porta, o bispo morto era trazido por outra; e, depois que foi sepultado, São Brício tomou sua sede, ou cátedra, e foi bispo por mais sete anos, levando uma vida santa e louvável. E, no quadragésimo sétimo ano de seu episcopado, partiu para nosso Senhor, a quem sejam dadas honra e glória. Amém.