Legenda Áurea · Volume 1 · Capítulo 11

Têmporas Ember Days

Festa e tempo litúrgico · 1 parágrafo · português, com o inglês de Caxton a um clique

O jejum das Quatro Têmporas, chamado em inglês Ember days, foi ordenado pelo papa Calisto. Esse jejum é observado quatro vezes ao ano, por diversas razões. A primeira vez, em março, é quente e úmida. A segunda, no verão, é quente e seca. A terceira, no outono, é fria e seca. A quarta, no inverno, é fria e úmida. Jejuemos, pois, em março, que é a primavera, para reprimir o calor da carne que ferve, extinguir a luxúria ou moderá-la. No verão devemos jejuar para castigar o ardor e a chama da avareza. No outono, para reprimir a secura do orgulho; e no inverno, para castigar a frieza da falsidade e da malícia. A segunda razão pela qual jejuamos quatro vezes é que esses jejuns começam em março, na primeira semana da Quaresma, para que os vícios sequem em nós, pois não podem ser todos extintos; ou porque os lançamos fora, e os ramos e ervas das virtudes possam crescer em nós. Também jejuamos no verão, na semana de Pentecostes, pois então vem o Espírito Santo; por isso devemos ser fervorosos e inflamados pelo amor do Espírito Santo. Jejua-se também em setembro, antes da festa de São Miguel; estes são os terceiros jejuns, porque nesse tempo os frutos são recolhidos e devemos oferecer a Deus os frutos das boas obras. Em dezembro também se jejua, e estes são os quartos jejuns; nesse tempo as ervas morrem, e nós devemos estar mortos para o mundo. A terceira razão é seguir os judeus. Os judeus jejuavam quatro vezes ao ano, a saber: antes da Páscoa; antes de Pentecostes; antes do estabelecimento do tabernáculo no templo, em setembro; e antes da dedicação do templo, em dezembro. A quarta razão é que o homem é composto de quatro elementos quanto ao corpo e de três virtudes ou potências quanto à alma: o entendimento, a vontade e a memória. Para que esse jejum possa temperar-nos quatro vezes ao ano, em cada ocasião jejuamos três dias, a fim de que o número quatro seja referido ao corpo e o número três à alma. Essas são as razões do Mestre Beleth.

A quinta razão, como diz João Damasceno, é que em março e na primavera o sangue cresce e aumenta; no verão, a cólera; em setembro, a melancolia; e no inverno, a fleuma. Jejuamos então em março para temperar e rebaixar o sangue da concupiscência desordenada, pois o sanguíneo, por sua natureza, é cheio de concupiscência carnal. No verão jejuamos para que a cólera seja diminuída e refreada, pois dela provém a ira; e então o homem é, por natureza, cheio de cólera. No outono jejuamos para refrear a melancolia. O melancólico é naturalmente frio, avarento e pesado. No inverno jejuamos para domar e enfraquecer a fleuma da leviandade e do esquecimento, pois tal é aquele que é fleumático.

A sexta razão é que a primavera é comparada ao ar; o verão, ao fogo; o outono, à terra; e o inverno, à água. Jejuamos então em março para que o ar do orgulho seja temperado em nós; no verão, para que o fogo da concupiscência e da avareza seja temperado; em setembro, para que a terra da frieza e das trevas da ignorância seja temperada; e no inverno, para que a água da leviandade e da inconstância seja temperada. A sétima razão é que março é comparado à infância; o verão, à juventude; setembro, à idade firme e virtuosa; e o inverno, à velhice ou idade avançada. Jejuamos, pois, em março, para que sejamos crianças pela inocência; no verão, para sermos jovens pela virtude e pela constância; no outono, para que amadureçamos pela temperança; no inverno, para que sejamos anciãos e velhos pela prudência e por uma vida honesta; ou, ao menos, para que demos satisfação a Deus por aquilo em que o ofendemos nessas quatro estações.

A oitava razão é a do Mestre Guilherme de Auxerre. Jejuamos, diz ele, nestes quatro tempos do ano para reparar tudo aquilo em que falhamos durante esses quatro tempos; e eles são celebrados durante três dias em cada ocasião, a fim de satisfazermos em um dia aquilo em que falhamos em um mês. O quarto dia, isto é, a quarta-feira, é o dia em que nosso Senhor foi traído por Judas; a sexta-feira, porque nosso Senhor foi crucificado; e o sábado, porque ele jazia no sepulcro, enquanto os apóstolos estavam profundamente aflitos e em grande tristeza.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.