Legenda Áurea · Volume 1 · Capítulo 10

Quaresma Quadragesima

Festa e tempo litúrgico · 1 parágrafo · português, com o inglês de Caxton a um clique

A Quadragésima, que agora chamamos em inglês de Lent, começa no domingo em que se canta no ofício da missa: “Ele me invocou”, etc. E a Igreja, que antes estava muito atribulada por tantas tribulações e havia clamado: “Cercaram-me”, depois, respirando e suspirando, pediu ajuda ao dizer: “Levanta-te, Senhor”; agora mostra que foi ouvida, quando diz: “Ele me chamou, e eu o ouvi”. Deve-se entender agora que a Quadragésima contém quarenta e dois dias, contando-se os domingos. E, se eles não forem contados, restam apenas trinta e seis dias para jejuar, que são a décima parte dos dias do ano. Mas acrescentam-se os quatro dias anteriores, para que se complete o número sagrado representado pela Quadragésima, que nosso Salvador Jesus Cristo santificou com seu santo jejum. E, como jejuamos neste número de quarenta, podem ser atribuídas três razões. A primeira razão é apresentada por Santo Agostinho, que diz que São Mateus estabelece quarenta gerações até o fim; portanto, assim como nosso Senhor, por sua santa Quadragésima, desceu até nós, devemos subir até ele por nossa Quadragésima. A outra razão dá o mesmo sentido, dizendo que, para termos a Quinquagésima, devemos acrescentar dez a quarenta; pois, para chegarmos à glória bem-aventurada e ao descanso no céu, é necessário trabalharmos durante todo o tempo desta vida presente. E por isso nosso Senhor permaneceu quarenta dias com seus discípulos depois de sua ressurreição e, depois do décimo dia, enviou-lhes o Espírito Santo. A terceira razão é apresentada pelo Mestre Prepositivo na suma do ofício da Igreja, que diz: O mundo está dividido em quatro partes, o ano em quatro tempos, e o homem é composto de quatro elementos e quatro complexões. Temos também a nova lei, ordenada pelos quatro evangelistas, e os dez mandamentos que transgredimos. É necessário, então, multiplicar o número dez pelo número quatro, para que assim façamos a Quadragésima e cumpramos os mandamentos da lei antiga e da nova.

Nosso corpo, como foi dito, é composto de quatro elementos, assim como eles têm quatro sedes em nosso corpo. A saber: o fogo está nos olhos; o ar, na língua e nos ouvidos; a água, nos membros naturais chamados genitais; e a terra domina as mãos e os outros membros. Assim, nos olhos está a curiosidade; na língua e nos ouvidos, a maledicência; nos membros naturais, isto é, nos genitais, a volúpia; e nas mãos e nos outros membros, a crueldade. Essas quatro coisas confessou o publicano quando orou a Deus. Conservou-se afastado, confessando sua luxúria, que é fétida, como se dissesse: “Senhor, não ouso aproximar-me de ti, pois poderia feder ao teu nariz.” E, porque não ousava levantar os olhos, confessou a curiosidade. E, ao bater no peito, confessou a crueldade. E, quando disse: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador”, confessou o crime e a gula, que devia reprimir.

São Gregório, em suas homilias, apresenta também três razões pelas quais se conserva na abstinência o número de quarenta: por causa da virtude dos dez mandamentos da lei e por causa do cumprimento dos quatro livros dos evangelistas. Além disso, neste mundo nós, que estamos em corpo mortal, somos compostos dos quatro elementos e, pela vontade do corpo mortal, contrariamos os mandamentos de Deus. Portanto, nós que desobedecemos aos mandamentos de Deus pelo desejo da carne devemos, com justiça, fazer essa mesma carne sofrer penitência e aflição quatro vezes dez, desde o dia presente até a Páscoa que se aproxima, durante seis semanas, que são quarenta e dois dias. Se os domingos forem retirados, restam na abstinência somente trinta e seis dias. E, sendo o ano contado em trezentos e sessenta e cinco dias, damos a Deus o dízimo deles quando jejuamos. E São Gregório diz: Por que não guardamos este jejum no tempo em que Jesus Cristo jejuou, que foi logo depois de seu batismo, mas começamos de modo que continuemos até a Páscoa? Sobre isso são atribuídas quatro razões na suma do ofício do Mestre João Beleth, no ofício da Igreja. A primeira é que queremos ressuscitar com Jesus Cristo, pois ele sofreu por nós, e nós devemos sofrer por ele. A segunda é que devemos seguir os filhos de Israel, que primeiro saíram do Egito e, neste tempo, também saíram da Babilônia; isso se evidencia porque tanto uns como os outros, logo que retornaram, celebraram a solenidade da Páscoa. E assim, para imitá-los neste tempo, jejuamos a fim de que, do Egito e da Babilônia — isto é, deste mundo mortal — possamos entrar na pátria de nossa herança celeste. A terceira razão é que, na primavera, o calor da carne se move e ferve; para que possamos refreá-lo, jejuamos neste tempo. A quarta é que, logo depois de nosso jejum, devemos receber o Corpo de Jesus Cristo; pois, assim como os filhos de Israel, antes de comerem o cordeiro, se submetiam à aflição da penitência, comendo alface silvestre e amarga, também nós devemos nos afastar e submeter-nos à aflição pela penitência, para que mais dignamente possamos tomar e receber o Cordeiro da vida. Amém.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.