Legenda Áurea · Volume 6 · Capítulo 204

Solenidade de Todos os Santos Solemnity of All Hallows

Festa e tempo litúrgico · 1 parágrafo · português, com o inglês de Caxton a um clique

A festa de Todos os Santos foi instituída por quatro causas. Primeiro, pela dedicação do templo; segundo, para suprir as faltas cometidas; terceiro, para afastar a negligência; e quarto, para obter mais prontamente aquilo que pedimos.

Esta festa foi instituída principalmente pela dedicação do templo. Pois os romanos viram que eram senhores de todo o mundo e, por isso, fizeram um templo muito grande, colocando seu ídolo no meio; e, ao redor desse ídolo, puseram as falsas imagens de todas as províncias, de modo que todas as imagens contemplassem diretamente o ídolo de Roma. E, por artifício do diabo, foi ordenado que, quando uma província quisesse rebelar-se contra os romanos, a imagem daquela província voltasse as costas para o ídolo de Roma, como se mostrasse que se apartava do senhorio de Roma. Então, imediatamente, os romanos levavam grande poder contra aquela província e a submetiam ao seu senhorio.

E ainda não bastava aos romanos terem em seu senhorio todas as falsas imagens das províncias; fizeram também para cada um daqueles falsos deuses um templo, como se esses deuses os tivessem feito senhores e vencedores de todas as províncias. E, como todos os ídolos não podiam caber naquele templo, fizeram outro templo maior, mais maravilhoso e mais alto que todos os demais; e, para mostrar ainda mais a sua loucura, dedicaram-no em honra de todos os seus deuses. E, para enganar mais o povo, fingiram que isso lhes fora ordenado por Cibele, uma deusa chamada mãe dos deuses. Chamaram esse templo de Panteão, que quer dizer “todos os deuses”: pan significa “tudo”, e theos, “deus”.

E, porque queriam obter vitória sobre todos os povos, fizeram um grande templo para todos os filhos de Cibele. O fundamento desse templo foi lançado circularmente, como uma esfera, para que por essa forma se mostrasse a perpetuidade de seus deuses. E, como a grande quantidade de terra que ficava dentro parecia não poder ser retirada, e como a obra era pouco visível acima da terra, encheram as cavidades internas com terra e misturaram moedas à terra, continuando sempre assim até que o templo estivesse completamente terminado. Então deram licença para que quem quisesse retirar a terra pudesse ficar com todo o dinheiro que encontrasse junto dela. Logo veio grande multidão de gente e esvaziou o templo.

Por fim, os romanos fizeram uma pinha de cobre, dourada, e a colocaram em lugar muito alto; e diz-se que todas as províncias estavam maravilhosamente representadas e gravadas no interior daquela pinha, de modo que todos os que viessem a Roma pudessem ver nela em que parte se encontrava a sua província. Depois de muito tempo, essa pinha caiu e permaneceu na parte mais alta do templo.

No tempo do imperador Focas, quando Roma já havia recebido a fé, Bonifácio, quarto papa depois de São Gregório, por volta do ano de Nosso Senhor de seiscentos e cinco, obteve de Focas o referido templo e mandou retirar e apagar toda a imundície de todos aqueles ídolos. E, no quarto dia antes das calendas de maio, consagrou-o em honra de Nossa Senhora Santa Maria e de todos os mártires. Chamou-o Santa Maria dos Mártires, nome pelo qual é agora chamado Santa Maria Rotunda, isto é, Santa Maria Redonda. Pois naquele tempo ainda não se celebrava solenidade dos confessores.

E, como nessa festa se reunia grande multidão de pessoas e não se encontrava alimento em abundância para os que vinham, o papa Gregório instituiu que essa festa fosse celebrada nas calendas de novembro, quando deveria haver maior abundância de víveres, pois o trigo já estava recolhido e o vinho produzido; e estabeleceu que esse dia fosse santificado em todo o mundo em honra de todos os santos. Assim, o templo que havia sido feito para todos os ídolos é agora dedicado e consagrado a todos os santos; e onde antes se praticava a adoração dos ídolos, agora se faz o louvor de todos os santos.

Segundo, a festa foi instituída para suprir as coisas ofendidas e transgredidas, isto é, para completar aquilo que deixamos de fazer e ultrapassamos por omissão, pois deixamos e passamos por alto muitos santos dos quais não celebramos festa. Não podemos santificar a festa de cada santo separadamente, tanto por causa da grande multidão deles, que é infinita, quanto por causa de nossa fraqueza. Pois somos débeis e fracos, e não podemos bastar ao tempo breve, porque o tempo não seria suficiente para isso. E, como diz São Jerônimo numa epístola que se encontra no início de seu calendário: “Não há dia, exceto o primeiro dia de janeiro, em que não se possam encontrar, todos os dias, mais de cinco mil mártires.” Portanto, como não podemos celebrar singularmente a festa de cada santo, o papa São Gregório ordenou e estabeleceu que, num só dia, os honrássemos de modo geral e conjuntamente.

O mestre Guilherme de Auxerre apresenta seis razões, no resumo do ofício, pelas quais foi estabelecido que celebrássemos neste mundo a solenidade dos santos. A primeira é a honra da majestade divina, pois, quando veneramos o santo ou os santos, veneramos Deus em seus santos e dizemos que ele é maravilhoso neles. Quem honra os santos honra especialmente aquele que os santificou.

A segunda é obter auxílio em nossa fraqueza, pois por nós mesmos não podemos ter saúde; por isso necessitamos das orações dos santos e devemos honrá-los, para merecermos que nos ajudem e socorram. Lê-se no Terceiro Livro dos Reis, no primeiro capítulo, que Bersabeia quer dizer “poço de plenitude”; isto significa a Igreja triunfante, dizendo a seu filho — isto é, à Igreja triunfante — que ele obtivera o reino por suas orações.

A terceira causa é o aumento de nossa segurança, isto é, da glória que nos está destinada; em sua solenidade, nossa esperança e segurança são aumentadas e fortalecidas. E, se os homens mortais e mortos pudessem ser assim elevados por seus méritos, é verdade que o poder e a força de modo algum seriam diminuídos nem reduzidos por isso.

A quarta é para nosso exemplo e seguimento. Pois, quando a festa é lembrada, somos chamados a imitá-los e segui-los, de modo que, pelo exemplo deles, desprezemos todas as coisas terrenas e desejemos as celestes.

A quinta é pela dívida da mútua vizinhança, pois os santos fazem festa por nós no céu. Os anjos de Deus e as almas santas alegram-se e fazem festa no céu por um pecador que faz penitência; portanto, é justo que, quando eles fazem festa por nós no céu, nós façamos festa por eles na terra.

A sexta é para a obtenção de nossa honra, pois, quando honramos os santos, obtemos nossa própria honra; a solenidade deles é nossa dignidade. Quando veneramos nossos irmãos, veneramos a nós mesmos, pois a caridade torna tudo comum, e nossas coisas são celestes, terrenas e perpétuas.

Além dessas razões, João Damasceno apresenta três razões, no quarto livro, capítulo sétimo, pelas quais e por que os santos e suas relíquias devem ser honrados; alguns são louvados por sua dignidade, e outros pela preciosidade de seus corpos. A dignidade deles se manifesta de quatro maneiras: eles são amigos de Deus, filhos de Deus, herdeiros de Deus e nossos duques e guias.

E São João apresenta estas autoridades. Para a primeira, João 15: “Já não vos chamarei servos, etc.;” isto é: “Não vos chamo agora servos, mas amigos.” Para a segunda, João 1: “Deu-lhes poder para se tornarem filhos de Deus.” Para a terceira, Romanos 8: “Se sois filhos, sois também herdeiros, etc.” Para a quarta, ele diz assim: “Quanto deverias trabalhar para encontrar um guia que te conduzisse ao rei e falasse por ti!” Isto quer dizer que eles são guias da graça e de toda a linhagem humana, e falam e oram por nós a Deus; por isso devem ser venerados.

Outros são honrados pela preciosidade de seus corpos. O referido João Damasceno apresenta quatro razões, e Santo Agostinho acrescenta uma quinta, pelas quais se mostra a preciosidade dos corpos ou das relíquias. Pois os corpos santos eram os ornamentos de Deus, o templo de Jesus Cristo, o alabastro ou vaso do precioso unguento, a fonte da vida divina e membros do Espírito Santo.

Primeiro, eram os ornamentos de Deus, pois os santos são ornamentos de Deus e adornos puros. Segundo, eram o templo de Jesus Cristo, pois isso se segue do fato de que Deus habitava neles pelo entendimento; por isso diz o Apóstolo: “Não sabeis que vossos corpos são o templo do Espírito Santo, que habita em vós?” A esse respeito diz Crisóstomo: “O homem se deleita em edificar paredes, e Deus se deleita na conversação dos santos.” Por isso diz Davi: “Senhor, amei a beleza de tua casa.” Mas essa beleza não é feita pela variedade do mármore; é dada aos homens vivos pela diversidade das graças. A beleza do mármore deleita a carne; a beleza da graça vivifica a alma. A primeira engana os olhos, e a outra edifica por um duplo sentido.

Terceiro, eles são o alabastro ou vaso do unguento espiritual; por isso se diz: “O unguento de bom odor procede de si mesmo”, e isso é o que as relíquias dos santos dão. Se a água correu da rocha e da pedra no deserto, e também correu da queixada do jumento para Sansão, que tinha sede, não é, portanto, inacreditável que das relíquias dos santos corram unguentos perfumados para aqueles que conhecem o dom de Deus e a honra dos santos que dele procede.

Quarto, eles são fontes de divindade. Deles se diz: “Aqueles que vivem verdadeiramente com livre paciência assistem a Deus e são para nós poços de salvação.” Nosso Senhor Jesus Cristo concede às relíquias de seus santos muitos benefícios de diversas maneiras.

Quinto, eles são membros do Espírito Santo. Santo Agostinho apresenta esta razão no livro De Civitate Dei e diz: “Não devem ser desprezados, mas grandemente honrados; e devem ser venerados os corpos dos santos, dos quais, quando viviam, o Espírito Santo se servia como de seus próprios membros em todas as boas obras.” E o Apóstolo diz: “Buscais experiência daquele que fala em mim, Cristo.” E de Santo Estêvão se diz: “Não podiam resistir à sua sabedoria nem ao Espírito Santo que falava nele.” E Ambrósio diz no Hexamerão: “É coisa muito preciosa que um homem seja feito membro da voz divina e exprima com seus lábios corporais as palavras celestes.”

Terceiro, a festa de Todos os Santos foi instituída para a purificação de nossas negligências. Pois, embora santifiquemos as festas de alguns santos, muitas vezes as guardamos negligentemente e deixamos de fazer muitas coisas por ignorância e negligência. E, se não celebramos alguma festa como deveríamos, mas o fizemos negligentemente, devemos agora, nesta festa geral, cumpri-lo e corrigi-lo, purgando-nos de nossa negligência. Essa razão é mencionada num sermão que é recitado neste dia na igreja.

Foi ordenado que neste dia se fizesse memória de todos os santos, para que qualquer coisa que a fragilidade humana tenha feito menos do que devia, por ignorância, negligência ou ocupação com as coisas seculares, na solenidade dos santos, seja aplacada pela observância desta santa festa.

Deve-se notar que há quatro categorias de santos que honramos ao longo do ano e que pertencem ao Novo Testamento; neste dia reunimo-los para completar aquilo que fizemos negligentemente: os apóstolos, os mártires, os confessores e as virgens. Segundo Rábano, esses quatro são significados pelas quatro partes do mundo: pelo oriente, isto é, o leste, os apóstolos; pelo sul, os mártires; pelo norte, os confessores; e pelo ocidente, as virgens.

A primeira categoria é a dos apóstolos, cuja excelência se manifesta porque eles superam todos os outros santos em quatro coisas. Primeiro, na soberania da dignidade, pois são os sábios príncipes da Igreja militante, os poderosos assessores do juiz perpétuo, os doces pastores das ovelhas e do rebanho de Nosso Senhor, e são doces juízes. Como diz Bernardo: “Convém muito estabelecer tais pastores e tais doutores da linhagem humana, que sejam doces, poderosos e sábios: doces, para que nos recebam bondosamente pela misericórdia; poderosos, para nos defenderem com força; sábios, para nos conduzirem ao caminho da verdade.”

Depois, eles superam os outros santos na soberania do poder. A esse respeito Santo Agostinho diz assim: “Deus deu poder aos apóstolos sobre os demônios, para destruí-los; sobre os elementos, para mudá-los; sobre a natureza, para curá-la; sobre as almas, para absolvê-las de seus pecados; sobre a morte, para desprezá-la; sobre os anjos, para consagrarem o precioso corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

Terceiro, excedem os outros santos pelo privilégio da santidade, de tal modo que, por sua grande santidade e plenitude de graças, a vida e a conversação de Jesus Cristo brilhavam neles como num espelho e eram conhecidas neles como o sol em seu esplendor, a rosa em seu perfume e o fogo em seu calor. A esse respeito diz Crisóstomo, comentando Mateus: “Jesus Cristo enviou seus apóstolos como o sol envia seus raios; e, assim como a rosa é percebida por seu perfume e o fogo é visto em suas faíscas, assim, por meio de suas virtudes, é conhecido o poder de Jesus Cristo.”

Quarto, os apóstolos excedem os outros santos pelo efeito de sua utilidade. Sobre essa utilidade Santo Agostinho, falando dos apóstolos, diz: “Dos mais vis, dos mais ignorantes e dos menores foram enobrecidos, iluminados e multiplicados os mais eloquentes e belos oradores, os mais claros e sábios entendimentos, e a mais abundante sabedoria, eloquência e conhecimento dos autores e doutores.”

A segunda categoria é a dos mártires, cuja excelência se mostra pelo fato de terem sofrido de muitas maneiras, proveitosa, constante e multiplicadamente. Pois, além do martírio do derramamento de sangue, sofreram três outros martírios sem efusão de sangue: a escassez na abundância, que Davi teve; a generosidade na pobreza, que Tobias mostrou; e a castidade da viuvez na juventude, que José praticou no Egito.

Segundo Gregório, há também um tríplice martírio sem derramamento de sangue: a paciência na adversidade, da qual se diz: “Podemos ser mártires sem ferro, se verdadeiramente guardarmos a paciência em nosso coração”; a compaixão pelos que estão em aflição e tormentos, da qual se diz: “Quem se compadece de alguém que está na necessidade carrega a cruz em seu pensamento”; e aquele que sofre injúria e ama seu inimigo é mártir secretamente em seu coração.

Segundo, sofreram o martírio de modo proveitoso. O proveito que os mártires recebem é a remissão de todos os pecados, a acumulação e abundância de méritos e o recebimento da alegria perpétua. Compraram essas coisas com seu precioso sangue; por isso se diz: “Seu sangue é precioso”, isto é, cheio de valor.

Sobre a primeira e a segunda dessas coisas, Agostinho diz em A Cidade de Deus: “Que coisa é mais preciosa que a morte pela qual os pecados são perdoados e os méritos aumentados?” E, comentando João, diz: “O sangue de Jesus Cristo é precioso e sem pecado; contudo, ele fez precioso o sangue de seus santos, por quem derramou seu precioso sangue. Pois, se não tivesse tornado precioso o sangue de seus santos, não se diria que a morte dos santos é preciosa aos olhos de Nosso Senhor.” E Cipriano diz que o martírio é o fim do pecado, o termo do perigo, o guia da salvação, o mestre da paciência e a casa da vida.

Sobre a terceira, São Bernardo diz: “Há três coisas que tornam preciosa a morte dos santos: o descanso do trabalho, a alegria da novidade e a segurança da perpetuidade.”

Quanto ao proveito para nós, ele é duplo. Primeiro, os mártires nos são dados como exemplo para lutar. A esse respeito São João Crisóstomo nos diz: “Tu, homem cristão, és um cavaleiro delicado, se pensas obter vitória sem lutar e triunfo sem batalha. Exercita vigorosamente tua força e luta cruelmente nesta batalha. Considera o pacto, entende a condição, conhece a nobre cavalaria; conhece o pacto que fizeste e prometeste, a condição que assumiste, a cavalaria à qual deste teu nome. Pois, por esse pacto, todos os homens lutam; por essa condição, todos venceram; e por essa cavalaria.” Assim diz Crisóstomo.

Segundo, os mártires nos são dados como patronos para nos ajudar e socorrer; ajudam-nos por seus méritos e por suas orações. Sobre o primeiro, Santo Agostinho diz: “Ó incomensurável piedade de Nosso Senhor, que quer que os méritos dos mártires sejam nossos auxílios e sufrágios! Ele os prova para nos instruir e ensinar; quebra-os para nos reunir; e quer que seus tormentos sejam nossos proveitos.”

Sobre o segundo, São Jerônimo diz contra Vigilâncio: “Se os apóstolos e mártires, quando ainda estavam vivos em seus corpos, podiam orar pelos outros e eram diligentes nisso, quanto mais o devem fazer depois de receberem suas coroas, vitórias e triunfos?” Moisés, sendo um só homem, obteve o perdão para seis mil homens armados; e Santo Estêvão orou por seus inimigos. Agora que estão com Deus, fariam menos?

Terceiro, os mártires sofreram constantemente. Santo Agostinho diz que a alma de um mártir é uma espada resplandecente pela caridade, afiada pela verdade e brandida pela virtude de Deus combatente; ela venceu a companhia dos que lhe resistiam, repreendendo-os. Feriu os ímpios e derrubou os que lhe eram contrários. E Crisóstomo diz que os mártires atormentados eram mais fortes que os atormentadores, e que os membros dilacerados venceram os ferros que os rasgavam.

A terceira categoria é a dos confessores, cuja dignidade e excelência se manifestam porque confessaram Deus de três maneiras: pelo coração, pela boca e pelas obras. A confissão do coração não basta sem a confissão da boca, como São João Crisóstomo diz e prova de quatro maneiras.

Quanto à primeira, ele diz assim: “A raiz da confissão é a fé do coração; e, enquanto a raiz está viva e vigorosa na terra, é necessário que produza ramos e folhas. Se não os produz, deve-se entender que está seca na terra. Do mesmo modo, quando a raiz da fé está inteira no coração, ela sempre produz confissão na boca; e, se a confissão do coração não aparece na boca, entende sem dúvida que a fé do coração secou.”

Quanto à segunda, ele diz: “Se basta crer no coração sem confessá-lo diante dos homens, então és falso e hipócrita. Pois, embora aquele que não crê no coração tire proveito de confessar com a boca, se não aproveita àquele que confessa sem crer, tampouco aproveita àquele que crê sem confessar.”

Quanto à terceira, ele diz: “Se basta a Jesus Cristo que tu o conheças, ainda que não o confesses diante dos homens, então também basta a ti que o conheças; e, se confessas Jesus Cristo diante de Deus e seu conhecimento não te basta, tampouco tua fé te basta.”

Quanto à quarta, ele diz: “Se somente a fé do teu coração te bastasse, Deus teria criado em ti apenas o coração; mas Deus criou tanto o coração quanto a boca, para que creias com o coração e o confesses com a boca.”

Terceiro, confessaram Deus pelas obras. São Jerônimo mostra como Deus é confessado ou negado pelas obras e diz: “Jesus Cristo é sabedoria, justiça, verdade, santidade e força. A sabedoria é negada pela loucura; a justiça, pela iniquidade; a verdade, pelas mentiras; a santidade, pela imundície; e a força, pela fraqueza do coração. E, todas as vezes que somos vencidos pelos vícios e pecados, negamos Deus. Do mesmo modo, todas as vezes que fazemos algum bem, confessamos Deus.”

A quarta categoria é a das virgens, cuja excelência e dignidade se mostram e manifestam de várias maneiras. Primeiro, porque são esposas do Rei eterno. A esse respeito diz Santo Ambrósio: “Quem pode estimar beleza maior que a beleza daquela que é amada pelo rei, aprovada pelo juiz, consagrada por Deus, sempre esposa e sempre sem corrupção?”

Segundo, porque são comparadas aos anjos. A virgindade supera todas as condições da natureza humana, pela qual os homens são associados aos anjos; e a vitória das virgens é maior que a dos anjos. Os anjos vivem sem carne, enquanto as virgens, vivendo em sua carne, triunfam.

Terceiro, porque são mais nobres que os outros cristãos. A esse respeito Cipriano diz: “A virgindade é a flor da semente da Igreja, a beleza e o ornamento da graça espiritual, alegre júbilo de louvor e honra, obra inteira e incorrupta, imagem de Deus, e ainda mais nobre quanto à santidade de Deus e à porção do rebanho de Jesus Cristo.”

Quarto, porque são dadas a seus esposos; e a excelência que a virgindade possui em relação à união matrimonial aparece por muitas comparações. O casamento enche e dilata o ventre, enquanto a virgindade enche a mente. Por isso diz Agostinho: “A virgindade escolhe seguir a vida dos anjos em sua carne, em vez de aumentar em sua carne o número dos homens mortais. Pois é mais bem-aventurado e mais abundante aumentar a mente do que estar grávida. Alguns têm filhos de tristeza, mas a virgindade gera filhos de alegria; a virgindade enche o céu de filhos, e os casados enchem a terra.”

E Jerônimo diz: “Os casamentos enchem a terra, e a virgindade enche o céu; aquele é de grande trabalho, e esta é de grande repouso. A virgindade é silêncio de encargos, paz da carne, redenção dos vícios e princesa das virtudes. O casamento é bom, mas a virgindade é melhor.”

São Jerônimo mostra a Palmácio a diferença entre o casamento e a virgindade e diz: “A diferença é tão grande quanto a que existe entre não pecar e fazer o bem; ou, para falar mais claramente, entre o bom e o melhor. Pois o casamento é comparado aos espinhos, e a virgindade, às rosas.” E diz a Eustóquio: “Louvo o casamento, pois ele gera virgens. Recolho rosas dos espinhos, ouro da terra e, da concha, uma preciosa pérola.”

Quinto, mostra-se a dignidade e excelência das virgens porque elas desfrutam de muitos privilégios. As virgens terão a coroa chamada auréola; somente elas cantarão o cântico novo; serão vestidas com vestes iguais às de Jesus Cristo e se alegrarão sempre com ele; e seguirão sempre o Cordeiro.

Quarto e último: esta festa foi instituída para impetrar e obter mais prontamente aquilo que pedimos, porque neste dia honramos geralmente todos os santos, que também oram todos juntos por nós; assim, podem mais facilmente obter para nós a misericórdia de Nosso Senhor. Pois, se é impossível que as orações de alguns santos não sejam ouvidas, é muito mais impossível que as orações de todos não sejam ouvidas.

Essa razão é mencionada quando se diz na coleta: “Desideratam nobis tuae propitiationis abundantiam multiplicatis intercessoribus largiaris”: “Senhor, concede-nos, pelas orações multiplicadas de todos os teus santos, a abundância desejada de tua benignidade.”

E os santos oram por nós pelo mérito e pelo efeito: pelo mérito, quando seu mérito nos ajuda; pelo efeito, quando desejam que nossos desejos sejam cumpridos. E não fazem isso senão naquilo em que cumprem a vontade de Nosso Senhor.

Que neste dia todos os santos se reúnem para orar por nós é mostrado numa visão que aconteceu no segundo ano depois que esta festa foi instituída. Certa vez, o sacristão de São Pedro, por devoção, visitara todos os altares da igreja e pedira os sufrágios de todos os santos. Por fim, voltou ao altar de São Pedro, repousou ali um pouco e teve uma visão.

Viu o Rei dos reis sentado num trono elevado, com todos os anjos ao redor. A Bem-aventurada Virgem das virgens veio coroada com uma coroa muito resplandecente, e depois dela veio uma grande multidão, sem número, de virgens e também de continentes. Logo o rei se levantou para recebê-la e fez com que se sentasse num assento junto dele.

Depois veio um homem vestido com pele de camelo, seguido por grande multidão de antigos e veneráveis pais. Em seguida veio um homem com hábito de bispo, seguido por grande multidão vestida de modo semelhante. Depois veio uma multidão incontável de cavaleiros, seguida por grande companhia de pessoas diversas.

Então todos chegaram diante do trono do rei e o adoraram de joelhos. E aquele que estava vestido com hábito de bispo começou as matinas, e os outros o seguiram.

Um anjo que conduzia o sacristão naquela visão explicou-lhe o que ela significava e disse que Nossa Senhora, a Virgem, era aquela que estava na primeira companhia; que o homem vestido com pelos de camelo era São João Batista, com os patriarcas e profetas; que aquele adornado com hábito de bispo era Pedro, com os apóstolos; que os cavaleiros eram os mártires; e que os outros eram os confessores. Todos eles vieram diante de Nosso Senhor, sentado em seu trono, para dar-lhe louvor e agradecimento pela honra que lhes era prestada neste mundo pelos homens mortais, e para orar por todo o mundo.

Depois, o anjo o levou a outro lugar e mostrou-lhe homens e mulheres: alguns em leitos de ouro, outros desfrutando diversos deleites, outros nus e pobres, e outros mendigando. Disse-lhe que aquele era o lugar do purgatório e que os que ali habitavam eram as almas. Os que abundavam em riquezas eram as almas daqueles que eram socorridos por seus amigos com muitos auxílios; os pobres eram as almas por quem seus executores e amigos não se importavam nem faziam coisa alguma.

Então o anjo ordenou-lhe que mostrasse isso ao papa, para que, depois da festa de Todos os Santos, ele instituísse a comemoração de todas as almas e que, no dia seguinte, fossem feitos por elas sufrágios gerais temporais, pois elas não podiam tê-los particularmente.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.