A Sexagésima começa quando se canta na Igreja, no ofício da missa: “Exsurge domine”, e termina na quarta-feira depois do dia da Páscoa; e foi instituída pela redenção, pela significação e pela representação. Foi instituída pela redenção. Pois o papa Melquíades e Silvestre instituíram que os homens comessem duas vezes no sábado, para que aqueles que tivessem jejuado na sexta-feira, que sempre deveria ser jejuada, não ficassem aflitos. E, em compensação aos sábados desse tempo, acrescentaram e uniram a ele uma semana da Quaresma, chamando-a Sexagésima. A outra razão é pela significação, pois esse tempo significa o tempo da viuvez da Igreja e o seu lamento pela ausência de seu esposo, que subiu ao céu. São dadas à Igreja duas asas. A primeira é o exercício das seis obras de misericórdia e o cumprimento dos dez mandamentos da lei, pois sessenta são seis vezes dez. E por seis entendem-se as seis obras de misericórdia, e por dez, os dez mandamentos da lei. A terceira razão é pela representação. Pois a Sexagésima também representa o mistério da redenção. Por dez entende-se o homem, que é o décimo denário, feito e formado para que seja a reparação das nove ordens dos anjos, ou porque é formado de quatro qualidades quanto ao corpo. E quanto à alma ele tem três potências, a saber: memória, entendimento e vontade, que lhe foram dadas para que sirva à Santíssima Trindade, a fim de que creia firmemente nela, a ame ardentemente e diligentemente a tenha e conserve em sua mente. Por seis entendem-se seis mistérios pelos quais o homem é redimido por Jesus Cristo: a Encarnação, o Nascimento, a Paixão, sua descida aos infernos, sua ressurreição e sua ascensão ao céu. E, porque a Sexagésima se estende até a quarta-feira depois da Páscoa, nesse dia se canta: “Venite benedicti”, etc. Pois aqueles que cumprirem as obras de misericórdia ouvirão no fim: “Venite”, como testemunha Jesus Cristo. E então a porta será aberta para o esposo, e ela abraçará Deus, seu esposo. E é advertida numa epístola de que deve suportar pacientemente a tribulação, como fez São Paulo, na ausência de seu esposo. E no Evangelho, de que esteja sempre atenta a semear boas obras; e aquela que havia cantado como desesperada: “Circumdederunt me gemitus mortis”, agora volta para pedir auxílio em suas tribulações e requer ser libertada, dizendo: “Exsurge domine adjuva”, etc., que é o começo do ofício da missa.
E a santa Igreja faz isso de três maneiras. Pois há alguns na santa Igreja que são oprimidos pela adversidade, mas não são expulsos. E há outros que não são oprimidos nem expulsos. E há outros que são oprimidos e expulsos. E, porque não podem suportar as adversidades, é de temer, e grande perigo, que as prosperidades não os quebrem por completo. Por isso a santa Igreja clama que ele se levante quanto aos primeiros, para confortá-los, pois parece que dorme quando não os livra. Clama também quanto aos segundos, para que ele se levante, convertendo-os, daqueles de quem parece afastar o rosto ao apartá-los de si. Clama também quanto aos terceiros, para que ele se levante, ajudando-os na prosperidade e livrando-os.