Legenda Áurea · Volume 1 · Capítulo 7

Septuagésima Septuagesima

Festa e tempo litúrgico · 2 parágrafos · português, com o inglês de Caxton a um clique

Na Septuagésima começa o tempo do desvio, ou de sair do caminho, de todo o mundo, que começou em Adão e durou até Moisés. E nesse tempo se lê o Livro do Gênesis. O tempo da Septuagésima representa o tempo do desvio, isto é, da transgressão. A Sexagésima significa o tempo da revocação. A Quinquagésima significa o tempo da remissão. A Quadragésima significa o tempo da penitência e da satisfação. A Septuagésima começa quando a Igreja canta, no ofício da missa: “Circumdederunt me”, e dura até o sábado depois do dia da Páscoa. A Septuagésima foi instituída por três razões, como Mestre João Beleth expõe no ofício da Igreja. A primeira razão foi pela redenção. Pois outrora os santos padres ordenaram que, em honra da Ascensão de Jesus Cristo, na qual nossa natureza subiu ao céu e ficou acima dos anjos, esse dia fosse solenemente santificado e se guardasse o jejum, e que também no início da Igreja fosse celebrado solenemente, como o domingo. E fazia-se uma procissão, representando a procissão dos apóstolos, que eles fizeram naquele dia, ou a dos anjos que vieram ao seu encontro; por isso era comum o provérbio de que a quinta-feira e o domingo eram primos, pois então uma era tão solene quanto a outra. Mas, porque vieram e se multiplicaram as festas dos santos, e era difícil santificar tantas festas, cessou a festa da quinta-feira. E, para compensar isso, ordenou-se uma semana de abstinência semelhante à Quaresma, chamada Septuagésima. A outra razão é a significação do tempo, pois por esse tempo nos é significado o tempo do desvio, de sair do caminho, do exílio e da tribulação da linhagem humana, desde Adão até o fim do mundo. Esse exílio é celebrado na revolução de sete dias e de sete mil anos, entendidos por setenta dias ou por setenta centenas de anos. Pois, desde o começo do mundo até a ascensão, contamos seiscentos anos, e o restante o contamos como o sétimo milhar, cujo termo somente Deus conhece. Ora, Jesus Cristo nos tirou deste exílio na sexta idade, na esperança da vida perpétua de todos os que estão revestidos da veste da inocência. Pelo batismo somos regenerados, e, quando tivermos passado o tempo deste exílio, ele nos vestirá com dupla veste, isto é, de corpo e alma, na glória.

E, no tempo do desvio e do exílio, deixamos o canto da alegria, isto é, o aleluia; mas no sábado da Páscoa cantamos um aleluia, alegrando-nos e agradecendo a Deus pela veste perpétua que, pela esperança, aguardamos recuperar na sexta idade. E na missa colocamos um trato, figurando o trabalho que ainda devemos fazer e o cumprimento dos mandamentos de Deus. E o duplo aleluia que cantamos depois da Páscoa significa a dupla veste que teremos no corpo e na alma. A terceira razão é pela representação. Pois a Septuagésima representa os setenta anos durante os quais os filhos de Israel estiveram em servidão na Babilônia. E de tal maneira que abandonaram e deixaram seu costume de cantar com alegria, dizendo: “Quomodo cantabimus canticum domini”, etc. Assim deixamos nós o canto de louvor e de alegria. Depois foi-lhes dada licença para retornar no tempo da Sexagésima, e começaram a alegrar-se; e assim fazemos no sábado da Páscoa. Como no ano da Sexagésima cantamos aleluia, representando sua alegria e júbilo, embora, ao retornarem, tivessem dor e tristeza para recolher suas coisas e levá-las consigo, por isso cantamos imediatamente depois do trato que segue o aleluia. E no sábado depois da Páscoa, no qual se completa a Septuagésima, cantamos o duplo aleluia, figurando a plena alegria que tiveram quando retornaram à sua terra. E esse tempo da servidão dos filhos de Israel representa o tempo de nossa peregrinação na vida deste mundo. Pois, assim como eles foram libertados no sexagésimo ano, assim fomos nós na sexta idade. E, assim como eles tiveram trabalho ao reunir e ajuntar suas coisas para levá-las consigo, assim temos nós ao cumprir os mandamentos de Deus. E, assim como eles estiveram em repouso quando chegaram à sua terra, em júbilo e alegria, do mesmo modo cantamos o duplo aleluia, que significa a dupla alegria que teremos tanto no corpo quanto na alma. Neste tempo, pois, de exílio da Igreja, cheia de muitas tribulações e como que lançada quase nas profundezas da desesperação e do desespero, ela suspira de dor ao dizer no ofício da missa: “Circumdederunt me gemitus mortis”, etc., e mostra muitas provas de que sofre, tanto pela miséria que mereceu pelo pecado, quanto pela dupla pena em que incorreu, e também pela ofensa feita ao próximo. Mas, para que de modo algum caia em desespero, propõem-se a ela no Evangelho e na Epístola três espécies de remédios. O primeiro é que, se quiser sair dessas tribulações, trabalhe na vinha de sua alma, cortando e arrancando os vícios e os pecados, e depois, no caminho da vida presente, busque as obras de penitência. Depois disso, combatendo espiritualmente, defenda-se com firmeza contra as tentações do inimigo. E, se fizer essas três coisas, terá recompensa tripla. Pois, trabalhando, Deus lhe dará o denário; correndo bem, o prêmio; e lutando bem, a coroa. E, porque a Septuagésima significa o tempo de nosso cativeiro, propõe-se a nós o remédio pelo qual podemos ser libertados: fugir da miséria correndo, alcançar a vitória lutando e obter o denário ao nos redimirmos.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.