Legenda Áurea · Volume 1 · Capítulo 9

Quinquagésima Quinquagesima

Festa e tempo litúrgico · 1 parágrafo · português, com o inglês de Caxton a um clique

A Quinquagésima começa no domingo em que se canta na Igreja, no ofício da missa: “Sê para mim”, etc. E termina no dia da Páscoa, e foi instituída para súplica e cumprimento, para significação e para representação. Para cumprimento e realização, porque devemos jejuar quarenta dias segundo o exemplo de Jesus Cristo. Mas há somente trinta e seis dias de jejum, pois não se jejua aos domingos, por causa da alegria e da reverência da ressurreição, e também pelo exemplo de Jesus Cristo, que comeu duas vezes com seus discípulos no dia de sua ressurreição, quando entrou onde estavam seus discípulos, estando as portas ou portões fechados, e eles lhe trouxeram uma parte de um peixe assado e de um favo de mel. Depois disso, com seus dois discípulos que iam para Emaús, também comeu, como dizem alguns. E por isso acrescentam-se quatro dias, para completar os domingos em que não se jejua. E, como o clero vai adiante do povo comum, assim deve avançar em devoção e santidade; por isso começa a jejuar dois dias antes e abstém-se de comer carne. E assim se acrescenta uma semana, que é chamada Quinquagésima, conforme diz Santo Ambrósio. A outra razão é a significação, pois a Quinquagésima significa o tempo da remissão e da penitência, no qual os pecados são perdoados e absolvidos. O quinquagésimo ano era o ano da remissão, pois então as dívidas eram quitadas, os servos eram alforriados e deixados livres, e cada um voltava à sua herança. Por isso se entende que, pela penitência, nossos pecados são perdoados, somos libertados da servidão e da escravidão de nosso inimigo e assim retornamos à morada de nossa herança no céu. A terceira razão é a representação. Pois a Quinquagésima não nos representa somente o tempo da remissão, mas também o estado da bem-aventurança do céu, que nos é representado. Pois no quinquagésimo ano os servos eram libertados, e no quinquagésimo dia depois que o cordeiro era sacrificado foi dada a lei de Moisés. E no quinquagésimo dia depois da Páscoa foi dado o Espírito Santo. E por isso este nome, cinquenta, representa a bem-aventurança do céu, onde se tomou posse da liberdade, do conhecimento da verdade e da perfeição da caridade.

Agora é preciso saber que três coisas são necessárias, as quais estão contidas e estabelecidas na Epístola e no Evangelho: isto é, que a penitência, ou seja, as obras de penitência, sejam perfeitas. Uma delas é a caridade, que é proposta na Epístola; outra é a memória da paixão de Jesus Cristo; e a terceira é a fé, entendida pela visão concedida ao cego, coisas estas contidas no Evangelho. Pois a fé torna as obras agradáveis a Deus, porque sem fé ninguém pode agradar a Deus, e a lembrança da paixão de Deus torna leves as obras. Sobre isso diz São Gregório: “Se a paixão de Jesus Cristo for bem conservada na memória, não há nada que não possa ser levado e suportado facilmente, pois o amor de Deus não pode estar ocioso.” Diz ainda São Gregório: “Se opera, é grande; e, se recusa operar, não é amor.” E assim como a Igreja, no princípio, como que desesperada, clamou: “Cercaram-me gemidos de morte”, e depois, voltando-se para ele, pediu auxílio, assim agora, tendo tomado confiança e esperança no perdão, por esperança de penitência ela reza e diz: “Sê para mim Deus protetor.” Ou pede quatro coisas, a saber: proteção, confirmação, refúgio e condução. Todos os filhos da Igreja ou estão na graça ou estão no pecado, ou na adversidade ou na prosperidade. Os que estão na graça pedem para ser confirmados; os que estão no pecado pedem refúgio; os que estão na adversidade pedem proteção, para que sejam defendidos de suas tribulações; e os que estão na prosperidade pedem condução, para que sejam guiados e conduzidos por Deus. E assim, como foi dito, a Quinquagésima termina e acaba na Páscoa, porque a penitência os faz ressurgir para uma vida nova. E, em significação disso, o salmo “Tende piedade de mim, ó Deus”, que é o quinquagésimo salmo e o salmo da penitência, é frequentemente usado e recitado no tempo da Quaresma.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.