Legenda Áurea · Volume 7 · Capítulo 249

Santo Ivo S. Ives

Vida de santo · 4 parágrafos · português, com o inglês de Caxton a um clique

São Ivo nasceu na Pequena Bretanha, na diocese de Tréguier, gerado ou nascido de pais nobres e católicos; e foi revelado à sua mãe, durante o sono, que ele haveria de ser santificado. Em sua primeira idade, tinha ótimos costumes e frequentava as igrejas com grande humildade e devoção, ouvindo atentamente as missas e os sermões. Empregava grande parte de seu tempo em estudar diligentemente as Sagradas Escrituras, e lia com muita aplicação as vidas dos santos, esforçando-se com todo o seu poder por imitá-los. Com o passar do tempo, foi adornado de grandíssima sabedoria e tornou-se célebre por sua vasta ciência, tanto no direito civil e canônico como na teologia, sendo muito instruído, como depois se mostrou, tanto na contemplação e no julgamento quanto em dar conselho às almas acerca da fé de sua consciência.

Pois, depois de ter exercido e praticado santa e devotamente a advocacia na corte episcopal de Tréguier, sempre defendendo, sem receber salário algum, as causas dos miseráveis e pobres, oferecendo-se para isso de boa vontade e sem que eles lhe pedissem que defendesse suas questões e contendas, foi escolhido para o ofício de oficial, primeiro na corte do arquidiácono de Rennes e depois na referida corte do bispo de Tréguier; e cumpriu lícita, justa e diligentemente tudo quanto pertencia ao dito ofício. Socorria os oprimidos e os que haviam sofrido injustiça, e a cada um restituía o que lhe era devido por direito, sem acepção alguma e sem receber dinheiro nem qualquer outro bem.

Então, chamado ao governo e à orientação das almas, levava sempre consigo a Bíblia e o breviário ou porteiro; e, feito e ordenado na ordem sacerdotal, celebrava todos os dias e ouvia com muita humildade, devoção e diligência as confissões de seus paroquianos. Visitava os enfermos sem distinção, consolava-os com grande sabedoria, ensinava-lhes o caminho da salvação e administrava-lhes devotamente o precioso e bendito corpo de nosso Senhor Jesus Cristo. E, certamente, em tudo quanto pertencia ao cuidado do povo de nosso Senhor Jesus Cristo que lhe fora confiado, cumpria inteira e dignissimamente o seu ministério.

Progredia sempre, passando diligentemente de virtude em virtude, e era agradável tanto a Deus como ao mundo, de tal modo que o povo muito se entristecia ao separar-se de suas palavras e de sua companhia; e ficavam profundamente admirados os que o viam, por causa de seu modo afável e de sua maravilhosa santidade. Que maravilha era ele de admirável e maravilhosa humildade, que mostrava em tudo: no hábito ou vestimenta, nas obras, nas palavras, no andar, no vir e no estar em diversas companhias. Falava sempre ao povo, tanto aos grandes como aos pequenos, com doçura e grande mansidão, olhando para a terra, com o capuz diante do rosto, para não ser louvado pelo povo e para fugir de todas as vaidades.

Durante os quinze anos anteriores à sua morte, não usou senão tecido grosseiro, pardo ou branco, tal como costumavam vestir os pobres daquela terra. Segurava a jarra e também a toalha enquanto os pobres lavavam as mãos; depois, com as próprias mãos, servia-lhes a comida que haviam de comer e, sentando-se no chão, comia com eles da mesma comida, isto é, pão escuro e, às vezes, um pouco de caldo. Entre os que comiam com ele, não tinha preferência por ninguém; antes, colocava junto de si os mais deformados e miseráveis.

Dormia toda a noite no chão e tinha por cama, lençóis, coberta e cortinado somente um pouco de palha. Antes de celebrar a missa, antes de revestir-se, ajoelhava-se diante do altar e fazia devotamente sua oração, chorando e suspirando com grande dor; e muitas vezes, enquanto celebrava a missa, abundantes lágrimas lhe caíam dos olhos pelo rosto.

Sua humildade agradou muito a nosso Senhor, como certa vez se manifestou por uma pomba de maravilhoso esplendor, que foi vista publicamente voando dentro da igreja de Tréguier, ao redor do altar onde este santo São Ivo celebrava a missa. E, certamente, suportava com grande paciência todas as injúrias e blasfêmias; pois, quando os homens zombavam dele ou lhe diziam mal, nada respondia, mas, tendo o pensamento em Deus, suportava pacientemente e com grande alegria as más palavras.

Era homem de tranquilidade, pois amava a paz e jamais se deixava mover à contenda, à indignação ou à ira por coisa alguma que lhe fosse feita. Não dizia palavras injuriosas ou ofensivas, nem outras palavras desordenadas. Era defensor, sem temor, das liberdades da Igreja. Aconteceu, por isso, que um sargento do rei tomou e levou consigo o cavalo do bispo de Tréguier, por causa do dízimo dos bens do referido bispo. Então São Ivo, estando no ofício de oficial, tomou virtuosamente o dito cavalo do sargento e conduziu-o de volta à casa do bispo.

E, embora os homens julgassem e imaginassem que disso haveria de resultar grande mal ou dano, tanto para São Ivo como para a Igreja, visto que o sargento pretendia provocar tal dano, contudo jamais resultou daí dano algum, nem para o santo nem para a Igreja. Esse fato foi tido e reputado como milagre, e não sem razão foi atribuído aos méritos do referido São Ivo; pois se crê e se testemunha que ele foi casto de corpo e de pensamento durante todo o tempo de sua vida, e também casto nas palavras e nos olhos. Viveu sempre tão honesta e castamente que nele jamais apareceu qualquer sinal de costumes mundanos; antes, certamente, sempre abominou e amaldiçoou o pecado da luxúria. E, estando acostumado a pregar contra esse pecado, fez muitas pessoas afastarem-se dele.

Jamais foi encontrado preguiçoso ou negligente, mas sempre pronto para a oração ou a pregação; ou então estava estudando as Sagradas Escrituras ou realizando obras de caridade e misericórdia. Sempre se ocupava no bem, segundo a doutrina dos apóstolos. Aproveitava para Deus em todas as coisas louváveis e sem confusão em suas obras. Tratava retamente a palavra da virtude e da verdade e, sempre evitando todas as palavras vãs, falava pouco e com dificuldade, exceto as palavras de Deus e da salvação eterna.

Pregando muito bem e corajosamente a palavra de Deus, muitas vezes conduzia os que o ouviam à compunção do coração e sempre às lágrimas. E, exercitando-se e ocupando-se nessa santa obra onde quer que pudesse ser ouvido, com a licença dos bispos e diocesanos, andava sempre a pé e, por vezes, pregava num só dia em quatro igrejas muito distantes umas das outras. E, para não abandonar o costume de sua abstinência, depois desse grande trabalho voltava em jejum para sua casa e jamais consentia que homem algum jantasse com ele.

Tinha o espírito de profecia, pois profetizou que um recluso seria visto entre os homens por causa do vício da cobiça. Isso aconteceu pouco depois, pois o mau recluso, abandonando o caminho da salvação e da penitência, saiu de sua cela e tomou um caminho mundano e condenável. Este santo São Ivo sempre se esforçava, conforme seu poder, por apaziguar toda discórdia e contenda; e as pessoas que não podiam chegar a um acordo por suas persuasões e admoestações eram logo chamadas à concórdia por sua oração feita a Deus.

Não se pode contar, nem jamais foi visto em nosso tempo, a grande caridade, piedade e misericórdia que ele teve para com os pobres necessitados e sofredores, para com as viúvas e para com as pobres crianças órfãs de pai e de mãe, durante todo o tempo de sua vida. Tudo quanto recebia ou podia receber, tanto da Igreja como de seu patrimônio, dava aos que foram mencionados, sem distinção, quando morava em Rennes e fora promovido ao ofício de oficial na corte do arquidiácono.

Antes de mudar seu modo de vida, também mandava preparar, nas grandes e solenes festas, abundância de comida pronta para ser servida; e, na hora do jantar, chamava e mandava chamar os pobres para a refeição, servindo-lhes a comida com as próprias mãos. Depois, comia com duas pobres crianças que, por amor de nosso Senhor Jesus Cristo, mantinha na escola; pois sempre era muito cortês em ajudar as crianças órfãs de pai e de mãe: como um pai, enviava-as à escola, sustentava-as com o que era seu e pagava também o salário de seus mestres.

Vestia com grande cortesia os pobres nus de nosso Senhor. Certa vez aconteceu que mandara fazer para si uma túnica e um capuz, ambos do mesmo tecido, para vestir; mas, cuidando mais dos pobres nus do que de seu próprio corpo, deu a dita túnica e o capuz a um pobre homem. Mantinha hospitalidade, sem distinção, para os pobres peregrinos, numa casa que mandara construir para esse fim; nela lhes oferecia comida e bebida, cama e fogo para aquecê-los no inverno.

Em qualquer lugar por onde passasse, os sofredores e pobres, que corriam para ele de todos os lados, seguiam-no, pois tudo quanto possuía estava pronto para o benefício deles, como se fosse deles próprios. Dava sudários para sepultar os mortos e, com as próprias mãos, ajudava a enterrá-los. Certa vez, um pobre homem veio ao seu encontro; e, não tendo então nada preparado para lhe dar, tirou o capuz e entregou-o ao dito pobre, voltando para casa com a cabeça descoberta.

Castigava severamente a própria carne, pois estava tão acostumado à oração, às preces e ao estudo, que passava a maior parte do tempo sem dormir, tanto de dia como de noite. Se estivesse muito cansado pelo estudo, pelas orações ou pelas caminhadas, de modo que fosse constrangido a dormir, quando precisava dormir deitava-se sobre a terra; e, em lugar de travesseiro, punha sob a cabeça ora o seu livro, ora uma pedra.

Usava sempre cilício sob a camisa, enquanto ainda exercia o ofício de oficial na cidade de Tréguier. Comia pão escuro e mingau, como costumam comer os pobres trabalhadores, e não tinha outra comida; e, para beber, usava água fria. Viveu com esse alimento e essa bebida durante onze anos, até chegar à morte.

Jejuou durante onze Quaresmas e todos os Adventos de nosso Senhor; e, desde a Ascensão até Pentecostes, em todos os dias de têmporas, em todas as vigílias de Nossa Senhora e dos apóstolos, e em todos os outros dias estabelecidos pela Santa Igreja para jejuar, jejuava a pão e água. Além de tudo isso, durante os onze anos mencionados, jejuava três dias por semana a pão e água, isto é, quarta-feira, sexta-feira e sábado; nos outros dias, comia apenas uma vez ao dia e usava pão e mingau, exceto aos domingos, no dia de Natal, no dia de Páscoa, no dia de Pentecostes e no dia de Todos os Santos, quando comia duas vezes.

Seu pão era rústico e escuro, feito de cevada ou aveia; seu mingau era de couves ou de outras ervas ou feijões, ou de raiz de rábano, temperado somente com sal, sem nenhum outro líquido, salvo que às vezes lhe acrescentava um pouco de farinha e um pouco de manteiga. E, no dia de Páscoa, além de sua porção habitual, comia dois ovos.

Durante os quatorze anos anteriores à sua morte, jamais provou vinho, exceto na missa, depois de ter recebido o corpo e o sangue de nosso Senhor, ou, algumas vezes, quando jantava com o bispo; pois então punha apenas um pouco de vinho em sua água, para mudar-lhe a cor. Certa vez jejuou durante sete dias sem qualquer comida ou bebida, permanecendo sempre em boa saúde.

O supracitado São Ivo viveu cerca de cinquenta anos; e, em sua última enfermidade, não cessou de ensinar os que estavam ao seu redor, pregando-lhes acerca de sua salvação. Chegando bem-aventuradamente aos seus últimos dias, recebeu humildemente os sacramentos do corpo de nosso Senhor e da extrema-unção, deitado no leito nobre acima referido, ao qual, por insistência de seus amigos, se acrescentava sempre um pouco de palha. Três dias antes de sua morte, trazia o capuz em vez de um lenço em torno da cabeça e vestia sua túnica; recusando todas as outras coisas, cobriu-se com uma pequena e pobre coberta, dizendo que não era digno de ter sobre si outras vestes. Então, o santo puro e casto, tendo o cilício sobre a carne, coberto pela camisa, saiu deste mundo no ano da graça de mil trezentos e três, no décimo nono dia de maio, que foi o domingo depois da Ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo; subiu ao céu e, como se tivesse adormecido, sem qualquer sinal ou indício da dor que sofrera, recebeu o verdadeiro e bem-aventurado repouso da morte. E quem poderia contar todos os milagres feitos por ele? Isso, porém, não é possível a ninguém, senão somente àquele que pode contar ou enumerar a multidão das estrelas e impõe a cada uma o seu nome. Mas, porque seria para alguém grande inconveniência e desonra se, por negligência, se abstivesse de declarar e mantivesse ocultas tais coisas, que são e pertencem ao louvor e à glória de nosso Senhor — especialmente onde há ou deveria haver grande abundância de seu louvor —, e porque os referidos milagres são infinitos ou sem fim, contudo relataremos alguns deles.

Assim, conforme está registrado no livro há muito feito e concluído sobre sua vida e suas virtudes, por sua invocação, mediante votos e orações devotamente dirigidos a Deus e ao Santo, em diversos lugares, catorze mortos foram ressuscitados; contam-se sempre nesse número duas crianças que ainda viviam no ventre de suas mães e que morreram antes do batismo, mas depois receberam novamente a vida. Pela invocação do dito São Ivo, dez possessos, loucos ou cheios de espíritos malignos, foram libertados de sua fúria ou loucura e de todos os espíritos maus. Treze contraídos ou paralíticos foram por ele restituídos à boa saúde. Três cegos foram por ele iluminados. Diversas pessoas, em dez lugares, com todos os seus bens, foram preservadas e salvas de afogamento no mar. Um homem completamente hidrópico, ou cheio de hidropisia, foi inteiramente curado. Outro, que tinha um cálculo grande como um ovo e os testículos tão grandes como a cabeça de um homem, foi restituído à saúde. Um condenado a ser enforcado caiu três vezes da forca e, completamente ileso, foi libertado e deixado ir. Uma mulher a quem faltava leite nos seios teve-os cheios dele. Coisas perdidas por diversas pessoas e em diversos lugares foram encontradas e recuperadas por milagres. Duas crianças mudas e muitos outros que haviam perdido o uso da língua foram restituídos à fala. Três ou quatro mulheres, com todos os seus filhos, foram livradas do perigo da morte. O fogo que se ateara em três lugares diferentes foi apagado e extinto; homens, mulheres, crianças e bens foram preservados de arder, sem serem feridos nem danificados de modo algum. Uma mulher muito atormentada por uma febre tomou um pouco de pão que antes fora molhado em água pelas mãos do Santo, comeu-o e recuperou a saúde. Enquanto o próprio Santo dava esmolas em abundância, o grão multiplicou-se em seu celeiro, e às vezes também o pão em sua mão. Muitos enfermos foram curados de diversas doenças e dores apenas por terem tocado seu capuz. Um homem que consertava a roda de seu moinho de água foi subitamente alcançado pela água, que veio correndo de grande altura; invocou o santo São Ivo e logo foi salvo do afogamento.

Certa vez, enquanto o dito Santo celebrava a missa e erguia o corpo de nosso Senhor, apareceu ao redor dele um grande resplendor que, logo depois de terminada a elevação, desapareceu e se desvaneceu. Um poste destinado à construção ou feitura de uma ponte, que não servia para a obra por lhe faltar meio pé de comprimento, depois que os carpinteiros fizeram sua oração ao Santo, foi encontrado comprido o bastante e adequado à referida obra. Em tempo de uma grande inundação ou cheia, que cobria os caminhos e os lugares, o sinal da cruz feito com a mão daquele santo homem sobre a água fez com que ela cessasse e baixasse. O capuz que ele dera a um pobre, como foi dito acima, e com o qual voltou para casa de cabeça descoberta, Deus, que recebera o próprio capuz sob a forma ou aparência de um pobre, como se pode crer, mandou-lho de volta; e isso foi um grande e maravilhoso milagre. Certa vez, quando dera todo o seu pão aos pobres, foram-lhe trazidos pães suficientes para ele e para os pobres que estavam em sua companhia, por uma mulher desconhecida que, depois de entregar sua dádiva, desapareceu e nunca mais foi vista. Outra vez, tendo recebido um pobre que parecia muito sujo e deformado, e excessivamente malvestido, fez com que comesse e se sentasse à sua mesa com ele; ao partir, o pobre disse: “Deus esteja convosco e vos ajude”. Então sua túnica, que antes era, como foi dito, maravilhosamente suja, tornou-se tão branca, de tão grande esplendor e brilho, e seu rosto apareceu tão belo e resplandecente, que toda a casa ficou repleta e cheia de grande luz. O arcebispo de Narbona sofria de uma forte febre e, pela fraqueza de sua natureza, era tido e considerado como morto por todos os que estavam junto dele, pois seus olhos estavam fechados à maneira de um homem morto. À invocação ou chamado de São Ivo, feito pela salvação do referido arcebispo por seus parentes e amigos, com lágrimas, votos e devoções, o supracitado arcebispo, pelos méritos do Santo, foi restituído à vida, à vista e à boa saúde, pela graça e virtude daquele de quem está escrito que ilumina os olhos, dá vida, saúde e bênção, luz e sabedoria; esse Deus, Criador, Iluminador e Salvador, seja agradecido, louvado e adorado por todos os séculos dos séculos. Amém.

Fonte: The Golden Legend or Lives of the Saints, compilada pelo Bem-aventurado Tiago de Varazze (Jacobus de Voragine, c. 1260), na versão inglesa de William Caxton (1483), edição Temple Classics de F. S. Ellis (1900), publicada em catholicapologetics.info. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico a partir do inglês de Caxton; o original de cada seção abre pelo botão Inglês, e o botão Ver original coloca o inglês ao lado do texto. Ler este capítulo dentro da obra completa.