Quando São João, apóstolo e evangelista, pregava numa cidade da Grécia chamada Éfeso, foi preso pelo juiz, que lhe ordenou que oferecesse sacrifício aos falsos ídolos; e, como não quis fazê-lo, lançou-o na prisão. Depois, enviou uma carta ao imperador Domiciano, dizendo que mantinha preso um feiticeiro que desprezara os deuses deles e adorava aquele que fora crucificado. Então Domiciano ordenou que o levassem a Roma; e, quando lá chegou, mandaram raspar todos os cabelos de sua cabeça, por escárnio, e depois conduziram-no diante da porta chamada Porta Latina e puseram-no num caldeirão cheio de óleo fervente. Mas ele não sentiu dano nem dor alguma e saiu de lá sem sofrer mal algum. Naquele lugar, os cristãos mandaram construir uma bela igreja e celebram neste dia uma festa solene, como se fosse o dia de seu martírio. E, quando o imperador viu que ele não cessava de pregar por causa da ordem que dera, enviou-o ao exílio numa ilha chamada Patmos. Não se deve crer que o imperador infligisse essas perseguições ao povo cristão porque cria em Deus, pois eles não recusavam deus algum; mas desagradava-lhes que adorassem a Deus sem a autoridade dos senadores. Havia outra razão: o culto dos outros deuses diminuía e se enfraquecia por causa disso. A terceira razão era que ele pregava para que desprezassem o culto, a honra e a riqueza do mundo, e essa era a principal coisa que os romanos amavam. Mas Jesus Cristo não permitiu que isso acontecesse, para que não julgassem que fora feito por poder humano. Havia ainda outra causa, como diz Mestre João Beleth: o imperador e o senado perseguiam Cristo e seus apóstolos porque lhes parecia que Deus era demasiado orgulhoso e invejoso, por não dignar-se a ter um companheiro. Outra causa alega Orósio, dizendo que o senado se indignara porque Pilatos escrevera somente ao imperador, e não aos senadores, os milagres de Jesus Cristo; por isso não queriam consentir que ele fosse admitido para ser adorado entre os deuses. Portanto, o imperador Tibério mandou matar alguns senadores e enviou outros ao exílio. A mãe de São João, ao saber que seu filho era prisioneiro, movida por compaixão maternal, veio a Roma; e, quando chegou, descobriu que ele fora enviado ao exílio. Então foi para o campo, a uma cidade chamada Vorulana, e ali morreu e entregou sua alma a Cristo. Seu corpo foi sepultado numa caverna, onde repousou por longo tempo; depois, por meio de São Tiago, seu outro filho, foi revelado. Então o corpo foi levantado e acharam-no exalando bom odor, e muitos milagres foram manifestados em sua trasladação na referida cidade. Portanto, roguemos a São João que rogue por nós.