No dia da circuncisão de nosso Senhor há quatro coisas que a tornam e mostram santa e solene. A primeira é a oitava da Natividade. A segunda, a imposição de um novo nome que traz a salvação. A terceira, o derramamento de seu precioso sangue. A quarta, os sinais da circuncisão.
Quanto à primeira, ela se manifesta porque, se as oitavas dos santos são solenes, com muito mais razão deve sê-lo a daquele que é o santo de todos os santos. Ora, parece que a Natividade de nosso Senhor não deveria ter oitava alguma, pois a natividade conduz à morte. E os falecimentos dos santos têm suas oitavas porque eles nascem da natividade que se estende à vida perdurável, para depois serem glorificados no corpo. E, pelo mesmo modo, parece que a natividade da gloriosa Virgem Maria, a de São João Batista e a Ressurreição de nosso Senhor não deveriam ter oitava, pois a ressurreição já estava realizada. A esse respeito devemos considerar, como diz um doutor, que por meio disso devemos cumprir aquelas coisas que não cumprimos no dia principal em que nosso Senhor nasceu. Por isso, desde tempos antigos, costumava-se cantar na missa: “Vultum tuum, Domine” etc., em honra de Nossa Senhora Santa Maria. As outras oitavas, como as da Páscoa, do Pentecostes, da Natividade de Nossa Senhora e de São João Batista, são de devoção, como as dos outros santos que os homens querem honrar por causa ou afeição singular. E podem ser chamadas oitavas figurativas, pois significam e figuram a oitava da última ressurreição perpétua, que é a oitava idade.
Quanto à segunda, neste dia lhe foi imposto o nome, e ele foi nomeado com o novo nome que a boca de Deus nomeou. Este é o nome além do qual não há outro sob o céu pelo qual possamos ser salvos: Jesus. Segundo São Bernardo: “Este é o nome que, na boca, é mel; no ouvido, melodia; e no coração, alegria; este é o nome que, como ele diz, ilumina e brilha como óleo. Quando é pregado, alimenta a alma; quando está no pensamento do coração, é doce; e unge quando é invocado.” E, como diz o evangelista, ele teve três nomes, a saber: Filho de Deus, Jesus e Cristo. É chamado Filho de Deus enquanto é Deus de Deus Pai; Cristo, enquanto é homem tomado de uma pessoa divina e de natureza humana; e Jesus, enquanto é Deus unido à nossa humanidade.
E sobre essas três maneiras de nomes, São Bernardo diz: “Vós que jazeis no pó e na cinza, levantai-vos do vosso sono, despertai e dai louvor a Deus. Eis que nosso Senhor virá para a vossa salvação; ele vem com unção, vem com glória. Jesus não vem sem salvação, nem Cristo vem sem unção, nem o Filho de Deus vem sem glória. Pois ele é nossa salvação, nossa unção e nossa alegria.”
E quanto a esse nome tríplice, antes de sua Paixão ele não era perfeitamente conhecido. Quanto ao primeiro, era conhecido de algum modo por conjectura, como por seus inimigos, que diziam que Jesus Cristo era o Filho de Deus. Quanto ao segundo, por menos pessoas ele era conhecido como Jesus Cristo. E quanto ao terceiro, vocalmente, por ser chamado Jesus pela voz. Mas, quanto à razão do nome, ele não era conhecido. Pois Jesus quer dizer Salvador, e eles não compreendiam isso. Depois da ressurreição, esse nome tríplice foi esclarecido e declarado: o primeiro, quanto à certeza; o segundo, quanto à publicação; o terceiro, quanto à razão do nome.
O primeiro nome é Filho de Deus. E que esses nomes lhe sejam próprios, Santo Hilário, no livro que fez sobre a Trindade, diz assim: “Vere Filium Dei unigenitum.” De diversas maneiras este nome, Filho de Deus, é conhecido, como é testemunhado por Deus. Deus Pai testemunha que ele é seu Filho; os apóstolos o pregam; os religiosos creem nele; os demônios, nossos inimigos, confessam-no. E, por isso, conhecemos nosso Senhor Jesus Cristo em seus modos: pelo nome, pela natureza, pela natividade, pelo poder e pela Paixão.
O segundo nome é Cristo, que é interpretado como unção. Pois ele foi ungido com o óleo da alegria antes de todos os que lhe eram consagrados. E, por ser dito ungido, mostra-se que ele foi profeta, campeão, sacerdote e rei. Essas quatro pessoas costumavam algumas vezes ser ungidas. Jesus Cristo foi profeta, ensinando a doutrina divina; campeão, na batalha contra o diabo, a quem venceu; sacerdote, reconciliando a linhagem humana com Deus Pai; e rei, distribuindo e recompensando cada homem. Por causa desse segundo nome todos nós somos nomeados, pois, por causa do nome Cristo, somos chamados cristãos. Sobre esse nome Santo Agostinho diz assim: “Todo cristão deve ser…”
A potência ou poder é-lhe perdurável; a segunda, o poder de habitação, pertence-lhe desde o começo de sua concepção, como o anjo mostrou; e depois ele tem o poder do ato e da obra. O nome foi-lhe imposto por José por causa de sua Paixão, que haveria de ser contra o pecado original; o diabo imaginava que aquele que o recebesse fosse pecador e tivesse necessidade do remédio da circuncisão. E por esta causa Jesus Cristo quis que sua mãe, permanecendo sempre virgem, fosse casada, para que, pelo sacramento do matrimônio, sua Encarnação…
A finalidade é abandonar o pecado e tomar o bem, o que nos é mostrado pelo filho que dissipou loucamente os seus bens e, quando percebeu que havia agido mal e insensatamente, caiu em si e disse: “Partirei e retornarei a meu pai, e pedirei que eu possa servi-lo, e que ele me receba em misericórdia e me faça como um de seus servos.”
A terceira é a vergonha do pecado, acerca da qual São Paulo diz àqueles que, por seus pecados, estão em dor e tormento: “Que fruto encontrastes naquelas coisas de que agora vos envergonhais?” A quarta é o temor do julgamento e da sentença vindouros, acerca do qual Jó diz: “Temi e receei a Deus, como os homens temem as ondas do mar em sua grande fúria e tempestade.” E São Jerônimo diz assim: “Sive comedam sive bibam, etc.”: “Sempre que como ou bebo, ou faço qualquer outra coisa, parece-me sempre ouvir o som e a voz que clama: ‘Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo e ao julgamento.’”
A quinta é a contrição, acerca da qual São Jerônimo diz: “Dá o teu pranto e a amargura por teres ofendido o teu Deus com teu pecado.” A sexta é a confissão, acerca da qual Davi diz: “Dixi confitebor, etc.”: “Disse e propus em meu coração que confessaria a Deus e reconheceria o meu pecado.” A sétima é a esperança do perdão, pois, se Judas tivesse tido verdadeiro arrependimento e esperança, e tivesse confessado o seu pecado, teria recebido remissão e perdão. A oitava é a satisfação e o sacrifício; então o homem é verdadeiramente circuncidado, não somente do pecado, mas também da pena.
Os dois primeiros dias são para a dor do pecado cometido e para a vontade de corrigi-lo; no terceiro dia devemos confessar o mal que fizemos e as boas obras que deixamos de fazer. Os outros quatro dias são a oração, o derramamento de lágrimas, a aflição do corpo e as esmolas dadas. Ou, de outro modo, por esses oito dias podem ser entendidas oito coisas, cuja consideração…
Na natividade de Jesus Cristo, que é chamado o dia da circuncisão, encontramos que Jesus Cristo disse pela boca de seus santos: “Non veni legem solvere sed adimplere”; “Não vim”, disse Jesus Cristo, “para quebrar a lei, mas para cumpri-la.” E naquele dia ele foi circuncidado e chamado Jesus, que quer dizer Salvador. Na circuncisão devia ser cortada um pouco da pele na extremidade do membro ou órgão viril; e isso significa e mostra que devemos ser circuncidados, cortando e afastando de nós os pecados e os maus vícios, a saber: orgulho, ira, inveja, avareza, preguiça, gula e luxúria, e todos os pecados; e purificar-nos pela confissão, pela contrição, pela satisfação, pelas esmolas e pelas orações, e dar, por amor de Deus, dos bens que ele nos emprestou.
Pois nada temos como propriedade nossa; Jesus Cristo nos emprestou tudo quanto temos. Portanto, é muito justo que demos por amor dele aos pobres desses bens que são dele, pois somos apenas servos. Devemos dar alimento aos famintos, bebida aos sedentos, vestes aos nus, visitar os enfermos e, antes de todas as coisas, amar a Deus e, depois, o próximo como a nós mesmos; despojar-nos do pecado, vestir-nos de boas obras e virtudes e seguir o mandamento de Jesus Cristo.
E, desse modo, cumpriremos a vontade de nosso Pai Jesus Cristo, se formos assim purificados e circuncidados. Portanto, roguemos ao Senhor do céu, que diz que não veio quebrar a lei, mas cumpri-la, que nos dê a graça de tal modo cumprir a lei e sua vontade neste mundo, que possamos chegar à sua santa bem-aventurança no céu. Amém.